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História

A arte e o folclore em selos

História de: Jô Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2013

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Como desenhista, ilustrador, meu nome é Jô Oliveira, mas meu nome de batismo é Josimar Fernandes de Oliveira. E eu nasci na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, e minhas origens são todas pernambucanas. Meus avós são todos do interior de Pernambuco, da cidade chamada João Alfredo. Com 15 anos meus pais se mudaram para Mato Grosso do Sul. Depois meu pai veio aqui para Brasília, já no fim da construção, e logo em seguida minha família se mudou toda para cá. Eu fiquei em Mato Grosso até que eu terminei meus estudos, fui servir o Exército na fronteira com o Paraguai, na cidade de Ponta Porã. E quando eu terminei fui para o Rio de Janeiro porque o meu sonho era estudar na Escola Nacional de Belas Artes.
Eu comecei a desenhar desde criança. O primeiro desenho que eu fiz eu me lembro porque foi uma coisa inusitada. Nós tínhamos nos mudado para uma determinada rua em Campina Grande, na Paraíba, morei também na Paraíba. Eu fui visitar uma casa e era desenhista o filho da família e eu fiquei encantado com o desenho. Ele tinha deixado uma folha em cima da prancheta, que ele tinha feito um desenho sobre ela na outra folha e deixou as marcas. Então eu peguei um lápis e preenchi. Ele ficou admirado, achando que o desenho era meu. E quando ele perguntou eu afirmei, eu tinha seis anos: “Fui eu que fiz, claro”. E então a partir daí eu nunca mais larguei o desenho. O desenho sempre me atraiu, antes mesmo de saber ler eu já fazia desenhos, preenchia papéis e papéis com personagens de histórias em quadrinhos, etc. Minha avó era uma exímia desenhista.  Realmente era um bom exemplo, eu sempre admirava, sempre gostava de ver ela trabalhando quando eu ia visitar. 
Com 15 anos eu descobri que eu podia estudar Artes. Foi quando eu estava em Mato Grosso. O primeiro curso que eu fiz foi por correspondência. Nas histórias em quadrinhos da época tinha uma página muito interessante mostrando como é a vida do desenhista, era engraçado porque sempre o último quadro era o sujeito sentado assim, na cadeira de espreguiçadeira, ao lado de uma piscina, fumando cachimbo e lendo o jornal, era mostrando como seria a vida de um desenhista. 
Mas eu descobri que poderia fazer por correspondência. Existia naquela época, logo no início, a Escola Panamericana de Artes, eu fiz o curso por correspondência, foi o primeiro curso que eu fiz. Eles mandavam a apostila com a série de exercícios, eu fazia os exercícios e mandava, e depois vinha os trabalhos corrigidos, com indicações do que eu tinha que mudar. Eu usava os Correios. Foi nessa época que surgiu a minha paixão pelo Selo Postal. Eu juntava selos. Quando eu era mais moço eu tinha muito contato com a igreja e na época tinha uns padres que eram americanos. Todas as cartas que eles recebiam eles me davam os selos, aquelas figurinhas muito bonitas. 
Eu continuei em Mato Grosso, quando minha família mudou para Brasília. Eu tinha 17 anos. Eu me comunicava por carta com eles. Eu tinha um irmão que infelizmente já faleceu, e a gente sempre trocava correspondência. Brasília para mim era uma coisa pelo qual eu tinha muita curiosidade. Até que quando eu completei 17 anos, antes dos meus 18 anos eu vim para cá visitar meus pais, fiquei encantado com a cidade, era uma coisa extraordinária. Meu irmão descrevia a cidade por carta, dizia como era a vida aqui, que era complicadíssima, no início não tinha nada, no início era muita poeira. Isso eu alcancei porque em 61 eu estive em Brasília a primeira vez. Brasília só tinha um ano e meio na primeira vez que eu vim aqui. E aqui era muito complicado, não tinha nada. As coisas eram bem precárias, eu me lembro. 
Eu morei no Mato Grosso de 59 a 65, foi quando eu fui para o Rio de Janeiro, esse foi o período que eu passei lá. A metade eu fiquei com meus pais e depois eu fiquei trabalhando. Fiquei numa casa que eu fazia certos trabalhos, por exemplo, eu ajudava na igreja, era uma espécie de sacristão. 
Quando eu fui estudar na Hungria na década de 70, a única maneira de comunicação era através da carta. Eu guardava os selos, por causa da minha paixão pela imagem, tudo que era interessante. eu descobri que existia no Rio uma escola muito boa, a Escola Nacional de Belas Artes, tradição. Uma escola fundada pelos franceses e que tinha os grandes artistas na primeira metade do século, e fim do século XIX tinham estudado nessa escola. Então fui para o Rio de Janeiro para isso, para estudar na escola de Belas Artes. Fiz o vestibular, me preparei seis meses antes. Eu trabalhava de tarde e de manhã eu fiz um curso pré-vestibular. No Mato Grosso eu apenas estudava e trabalhava na paróquia. E no Rio de Janeiro eu consegui um emprego. Comecei a trabalhar numa loja americana chamada Sears Roebuck que fechou, hoje não existe mais. Chegou a ter até aqui em Brasília quando eu voltei da Hungria. Eu estudava de manhã no centro da cidade e à tarde até à noite eu ficava trabalhando na loja, eu era vendedor de cortinas. 
A Escola Nacional de Belas Artes era muito interessante. Você imagina, da minha janela eu via o Teatro Municipal. E do outro lado da rua tinha a Biblioteca Nacional. Bem no centro da cidade de Rio de Janeiro, uma coisa extraordinária. Eu comecei a me apaixonar por desenho animado, coisa que não tinha na escola, não existia desenho animado. Na época nós já tínhamos contato com o pessoal que projetava filmes, era o movimento estudantil e tinha os cineclubes que projetavam muitos filmes de países socialistas. Eu fiquei encantado com os desenhos animados dos países socialistas. E tinha um amigo meu, que é o Mau Oliveira. Ele tinha cineclube e através de contato com as embaixadas, ele conseguiu que a Hungria me desse uma bolsa de estudos. Então, eu e o meu amigo Rui de Oliveira, que é ilustrador também, fomos para Hungria graças a esse meu amigo. As condições estavam péssimas. Era plena ditadura, tinha vários amigos meus que começaram a ser visados. 
Eu parei no terceiro ano na Escola de Belas Artes. Na Hungria tive que recomeçar tudo de novo. Fui para estudar desenho animado, passei seis meses estudando desenho animado. E depois eu descobri que existia uma escola de artes que tinha curso de Artes Gráficas. Eu consegui entrar na escola, mas a condição é que eu tinha que saber o idioma. Eu frequentei a escola de idioma durante um ano e logo depois fiz vestibular e entrei na escola. Eu tinha uma bolsa de estudos. Na época, os governos dos países socialistas tinham uma política muito interessante relacionada com terceiro mundo. Eles ofereciam tudo, você só tinha que pagar a passagem para ir, uma vez conseguida a bolsa de estudos você pagava passagem de ida e quando você chegava você passava a ser um assalariado.Eu comecei a fazer meus trabalhos. Como eu tinha levado comigo uma séries de livros sobre folclore brasileiro, eu comecei a fazer gravuras, xilogravuras. Cruzamos com essa pessoa e nos convidou, eu e o Rui, para participarmos do festival. Foi muito interessante porque eu encontrei com Ziraldo nesse festival, mas não só isso, eu levei comigo meus projetos de desenho animado que eram storyboards, semelhantes a história em quadrinhos, e era a única coisa que eu tinha, eu não tinha história em quadrinhos para mostrar. E tive a sorte de encontrar um editor que se interessou. Mesmo estudante eu já publicava na Itália. Quando eu voltei aqui para o Brasil, o Ziraldo pediu e publicou numa revista especial com o selo do Pasquim, ele publicou essas histórias. A revista chama-se A Guerra no Reino Divino.  Eu fiquei seis anos na Hungria, aliás, faltou só uma ou duas semanas para completar seis anos. 
Eu não tinha plano definido para quando voltasse ao Brasil. Quando eu voltei, tive dificuldade no primeiro ano aqui, mas na época também não era tão difícil você conseguir emprego. Eu consegui fazer concurso aqui e passei para Secretaria da Educação aqui de Brasília, fiquei um ano e depois eu tive a oportunidade de trabalhar numa autarquia do Ministério da Agricultura que estava iniciando um projeto de comunicação. Fiquei toda minha vida nesse emprego. Trabalhei e me aposentei. Passei 25 anos, mas era muito agradável porque eu trabalhava com desenho, eu tinha uma prancheta, até que chegou um momento, já no fim, que não precisava, tinha que usar computador, mas eu nunca assimilei trabalhar com computador. Trabalho com computador escaneando para mandar um trabalho para editora, para fazer pesquisa. O primeiro livro infantil que eu fiz foi um livro para a mãe da minha mulher, que trabalhava numa editora na Bulgária.  Eu estudava na Hungria, minha mulher é búlgara. Eu me casei com uma bulgára, em Budapeste e ela trabalhava na editora.  Me passou um livro, chama-se O Papagaio. Foi publicado na Itália, super colorido, é um dos livros mais bem impressos que eu tenho comigo até hoje. E foi um trabalho de encomenda de uma editora italiana.
Eu comecei a fazer histórias em quadrinhos e gravuras usando a referência nordestina. Quando estava para terminar o curso que foi logo em seguida, foi em 74, eu tinha que fazer o trabalho do diploma. Eu escolhi o tema Folclore do Nordeste. Fiz cartazes, fiz livros infantis, usei as histórias em quadrinhos que tinham sido impressas na Itália como itens deste diploma. Eu teria que fazer várias peças gráficas, todas em cima de um assunto central que foi o Nordeste. E eu resolvi então fazer também selos. Eu peguei um livro infantil que eu havia feito anteriormente, que era um livro sobre o bumba meu boi, e reduzi na fotografia, eu fiz a redução em preto e branco e colori. Coloquei o título, Brasil Correios, na época tinha esse título nos selos brasileiros, e fiz uma série de dez selos só sobre bumba meu boi, e colorido com aquelas canetas pequenininhas, picotei na mão, ou seja, fiz tudo como se fosse selo. E a primeira coisa que eu fiz quando cheguei aqui, na primeira semana foi procurar a ECT. Eu fui, levei esses selos fictícios. Uma semana depois me telefonaram dizendo que tinham um trabalho para mim. Me deram uma série. E eu fiz os primeiros selos e deu um resultado muito bom.  Eu fiz da maneira tradicional na época, série preto e branco e coloquei um papel vegetal em cima e fiz as misturas. Eu tenho mais de 20 selos sobre folclores, cheguei até a fazer aqueles selos sobre a cultura chinesa, que não deixa de ser folclore chinês. Os Correios me encomendava.  Em seguida eu comecei a fazer selo, todo ano eu fiz selo, teve ano que eu fiz sete selos. Hoje, eu faço um ou dois por ano, nem todo ano eu faço selo. Antigamente chegava a fazer até sete selos por ano. Eu tive prêmios aqui no Brasil, já recebi quatro vezes o melhor selo. Porque todo ano existe uma premiação, é escolhido o melhor selo e quatro vezes eu recebi esse prêmio, essa medalha. O selo é o seguinte, tem as páginas separadas que são para ser vendidas no guichê, que o usuário vai usar no próprio envelope, e tem uma outra peça filatélica que é o bloco filatélico onde tem os dois selos e em volta tem toda uma decoração sobre a temática. Esse bloco foi o que ganhou o prêmio “Melhor Selo do Mundo”. Esse bloco é para colecionadores. 
Os Correios têm uma comissão que estuda todas as propostas que são mandadas. Porque várias pessoas mandam propostas, políticos, cidades que estão comemorando aniversário, clubes de futebol, todo mundo manda pedido para fazer selo, é aberto, qualquer pessoa pode sugerir. Essa comissão se reúne e vê quais são os selos que podem ou não ser lançados porque é muito limitado. Então, vê quais são as coisas mais importantes e a partir daí escolhe o desenhista.
Eu fiz mais de 50 selos, eu não tenho o número certo porque eu não parei para contar, mas eu já contei 50, pelo menos 50. Além de peças filatélicas como postais, tem vários postais que eu fiz.  O primeiro cartão postal que eu fiz, acho que foi sobre Cavalhada.  Sabe, eu não consigo me lembrar. Mas um que eu lembro muito bem, que realmente todo mundo gostou foi sobre o Pavão Misterioso. Eu tinha que ter um emprego porque a gente não pode sobreviver, em Brasília principalmente, não existe um mercado para ilustrador, para você sobreviver, pelo menos eu nunca achei isso. Então, eu fui trabalhar aqui no Ministério como desenhista, que foi uma grande vantagem.
A principal mudança que eu sinto é o seguinte, o selo mudou no sentido que hoje quase ninguém recebe cartas, então isso deve ter cortado muito assim a quantidade de selos usados. Então, as tiragens de selo hoje são menores. Até hoje estou fazendo selo, eu estou aguardando agora os Correios, eu vou atrás, eu fico procurando porque eu gosto muito de fazer selos. Quando eu faço uma exposição, geralmente eu ponho temáticas diferentes, eu abordo livro infantil, dependendo da exposição eu ponho cartazes, que eu fiz vários cartazes Eu acho que a importância do selo é a fixação da cultura. 
As primeiras lembranças que eu tenho da minha infância, ainda em Itamaracá, que eu morei na Ilha de Itamaracá até os cinco anos, era o contato com a arte e com a cultura popular. Era o carnaval, era o bumba meu boi que acontecia perto de casa, era o meu pai fantasiado passado num bloco, então, todas essas coisas fizeram parte da minha formação como nordestino. E eu saí de lá com 15 anos, e isso ficou muito marcado. Eu tenho trabalho que publiquei que nunca saiu aqui, é um livro sobre cangaceiros escrito por Mario Fiorani, que é um cineasta e escritor italiano, acho que já faleceu também, faz muito tempo isso.

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