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História

A blogueira Vovó Neuza

História de: Neuza Guerreiro de Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/04/2008

Sinopse

Vovó Neuza fala das origens de sua família, de imigrantes espanhóis e da infância passada na São Paulo dos anos 30. As lembranças do Brás e Ipiranga, os bairros em que viveu, e dos antigos bondes que faziam o transporte pela cidade. Como ingressou na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e da juventude, o primeiro beijo e sobre sexualidade. Fala sobre sua família, como foi díficil a morte da irmã, ainda criança, e depois do marido, seu grande companheiro na vida. A experiência da maternidade e o contato com os filhos, um dos quais insistiu para que ela montasse seu blog.

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História completa

A gente fazia amor adoidado! Era uma época muito engraçada, que não tinha energia disponível o dia inteiro. Lá na Lapa, por exemplo, da uma às seis horas da tarde não tinha força. Então eu trabalhava até a uma, almoçava mais tarde e depois recomeçava às seis e ia até a meia-noite pra compensar. Da uma às seis a gente não tinha o que fazer, né?! Era nosso primeiro ano de casados, nós não pretendíamos ter filho logo, mas acidentes de percurso acontecem... Uma hora tinha que dar errado!

 

O teste de gravidez, naquela época, era feito com sapo! O sapo só fabrica espermatozóide quando ele está copulando com a fêmea. Então o que se fazia: pegava a urina da mulher, injetava nos sacos linfáticos do sapo e deixava lá umas duas horas. O sapo tem um buraco só, né? A cloaca, então botava o conta-gotas com a urina e depois retirava o material e olhava pelo microscópio. Ele não deveria ter espermatozóides porque ele não estava copulando. Se tivesse espermatozóide, é porque a urina da mulher continha hormônio. Nas minhas duas gravidez, o método usado foi esse, chamado Galli-Mainini, porque ainda não tinha nenhum desses outros processos mais modernos. Então por isso o sapo na minha vida é um bicho importante! Pode não ser pros outros, mas pra mim é!

 

Em toda a minha gravidez eu continuei a trabalhar e eu me lembro que no 16 de fevereiro à noite, arrebentou a bolsa e eu ainda tinha cinco provas pra corrigir. Eu falei: “Ainda não tem contração, então aguenta firme aí que eu vou corrigir essas provas.” Corrigi as cinco provas e daí que eu fui pra maternidade. Nasceu o Flávio.

 

A Jurema veio depois, num parto muito complicado. E até que ela andasse, até que ela falasse, até que ela fosse à escola e aprendesse... Até que ela casasse, até que ela tivesse filho, a gente sempre estava com medo de alguma coisa, essa ligação umbilical que existe… Mesmo quando você corta o cordão umbilical, ele abstratamente continua! Gravidez sempre é uma coisa muito pessoal e muito feminina. Nunca, vocês homens, vão poder entender uma coisa dessas. Limitem-se a respeitar muito a mulher, muito, muito! No momento que vocês olharem uma mulher grávida com aquela barriga enorme carregando uma criança dentro, vocês têm que levar essa mulher com todo carinho, com tudo que vocês puderem. Se for seu, mais ainda! Mas se não for também, né?

 

E também tem o parto da mãe… Porque uma criança não nasce sozinha, nasce também a família! O pai e a mãe. E eu me lembro da minha vó. Ela tinha uma empregada, a Lazinha, porque a casa estava sempre cheia, ela precisava de ajuda! Quando a minha avó cortava o tomate, como todo mundo, ela tirava o pedúnculo do tomate, junto com um pouco do tomate em volta, né? Ninguém prestava muita atenção, mas a Lazinha pegava todo aquele resto de pedúnculo e recortava aquele excesso do cabinho, que a minha vó tinha cortado, e levava pra casa dela pra fazer molho pros filhos dela. Até hoje quando eu pego um tomate, com a faca eu corto bem rente aquele cabinho, porque eu acho que cortar mais é desperdiçar, porque é uma coisa que ficou na minha cabeça!

 

Tudo que eu falo agora pra vocês é tudo de memória mesmo, mesmo! Eu tinha vários diários escritos sobre os meus dias. E não sei por que cargas d’água eu achei que ao casar, todo o resto acabava, que o passado não interessava mais. “O que passou, passou, agora minha vida é daqui pra frente.” E botei fogo em tudo. Hoje eu tenho um remorso danado de ter feito isso, porque devia ter alguma coisa escrita que poderia ser muito interessante… Se bem que eu tenho uma memória! Guardei o diário de 1951, esse eu tenho inteiro: dia por dia!

 

Se tem uma coisa que eu amo é livros. E me lembro que em casa, quando criança, tinha dois livros: Geografia Geral, que eu vivia virando de lá pra cá, de lá pra cá! Era um livro preto e branco, como sempre. Eu via paisagens da Turquia, da Europa, da Itália e naquelas estampas cinza, a minha ideia durante muito tempo ficou que todos esses países eram cinzentos, que não tinha sol, porque eu só via imagens desse tipo. E o outro livro que tinha era Gramática Expositiva, onde eu li também o meu primeiro poema, que meu pai me mostrou: Meus oito anos, de Casimiro de Abreu. “Oh que saudades que eu tenho da aurora da minha vida...” Eram só esses dois livros e mesmo quando eu estava no ginásio, a gente não comprava muito livro, eram só aulas expositivas que você tomava nota e depois chegava em casa e passava a limpo no caderno. Então nesse passar a limpo se aprendia muita coisa.

 

Ah, tem mais uma coisa! Meu filho sempre me pedia: “Você não vai fazer um blog?” E eu sempre achando que blog era coisa de moçada… “Não, não vou.” Tanto ele me encheu que eu falei: “Tá bom, vamos lá, monta aí um blog que eu faço”, como eu tenho muita coisa escrita, não é difícil abastecer... E eu comecei a abastecer esse meu blog pessoal com muita coisa dessa história de minha vida, eu fiz como se fosse um diário e ultimamente então todos os lugares que eu vou, a minha atividade cultural toda! Uso blog como um diário meu.

 

Bom, nós chegamos aqui, né? Não aconteceu mais nada a não ser os cursos que eu faço que eu adoro fazer isso, eu fico passando a limpo as lições e eu não sou obrigada a fazer nenhuma tarefa porque a Universidade Aberta à Terceira Idade não precisa, mas eu faço tudo que me pedem! E mais… Como blogueira, estou muito importante!

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