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História

A boneca da Vila Madalena

História de: Dora Müller
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

A história de Dora, nascida em 1937, entrelaça-se com a do bairro Vila Madalena, em São Paulo. Ela nasceu, cresceu e envelheceu ali. Vivenciou a época em que se vendiam cabras nas ruas (cada casa tinha a sua, para o leite diário) e em que as mulheres compartilhavam um único forno para assar seus pães. E testemunhou a transformação das antigas residências dos amigos, e dela própria, em bares e restaurantes. Do querido sogro, que morreu muito cedo, ganhou o apelido de Boneca, por causa de sua figura miúda – que, contudo, nunca implicou fraqueza. Forte, enfrentou diversos sofrimentos, incluindo uma enchente que acabou com o armazém de sua família. Embora tenha se virado como costureira e cozinheira, Dora reconhece que, por um bom tempo, também trabalhou como cuidadora. Coube a ela acompanhar de perto o fim da vida da mãe, da irmã, do marido. Hoje, ainda guarda um sonho: reencontrar um amor perdido na juventude, em uma história que, segundo ela, daria uma novela.

História completa

Eu nasci em 12 de setembro de 1937, ao meio-dia. Nesse tempo, era um parto em casa. Eu nasci com quatro quilos e 900! Morávamos na Luís Anhaia, na Vila Madalena, e, ali, eram casinhas simples, não tinham muro. Eram de arame farpado as divisões das casas. Eu ainda me lembro de ter esse muro de arame farpado. Depois é que meu pai foi fazendo o muro das casas. Eu tive uma doença muito delicada. Hoje fala-se em difteria, mas naquele tempo era o crupe. A mãe percebia no mamar: a criança não mamava e não respirava bem. Tínhamos dois médicos aqui em Pinheiros e Vila Madalena, que serviam: eram Doutor Lotito e Doutor Rizzo.

 

Meu pai era Hermann Otto Muller, alemão, nascido em 1908. Contava minha avó – Frau Nina ela chamava! – que ele veio num baú, no navio. Se chorava, não podia chorar. Eles vieram expulsos da Alemanha. Ela foi governanta na Avenida Paulista, de famílias tradicionais alemãs. Minha mãe, Catarina Abatte Muller, já era filha de calabreses. Minha mãe já nasceu aqui em São Paulo, mas minha avó também veio de navio. A minha avó chamava-se Angelina. Chamavam de Angelina, mas acho que era Ângela Capuano. Tinha um irmão, que era meu padrinho, Francisco Capuano, que tinha uma cantina na Bela Vista. Era o único que tinha uma cantina na Bela Vista, onde a minha madrinha fazia macarrão fusilli, coisa fina, com agulha. Eu, pequenininha, subia num banquinho e a ajudava.

 

De domingo, era o passeio ir na casa da vovó. Era uma beleza! Muita gente, um entrando e saindo, eram nove irmãos. Os meus tios faziam transporte de carne. Nós não sabíamos o que era comprar uma carne no açougue. Eles traziam tudo. Era tudo feito em casa. Macarrão era feito em casa, pão era feito em casa. Tinha um forno só, então, juntavam-se as senhoras, e, a cada dia, tinha uma para fazer o pão. O dia a dia dessas mulheres era muito diferente. Não é como hoje, que uma sai de manhã e volta só à noite. Tinham os seus afazeres em casa: fazer comida, derreter banha. Cheguei a comer muito pão com banha, branca feito neve, deliciosa. Minha avó fazia. A avó alemã também fazia geleia de jabuticaba. Hum! Minha mãe fazia massa, e o meu pai abria com o pau do macarrão. Aí, enrolava, cortava. Não tinha máquina, não tinha nada.

 

Não comprávamos leite. Era leite de cabra! Passava um homem vendendo cabra. Elas vinham pela Estrada da Boiada, que é hoje a Diógenes Ribeiro de Lima. Lá da Lapa, traziam coisas aqui para o mercado. Pode ver que tem ali, na Faria Lima, um mastro que diz que é o centro do Largo da Batata. Ali, ficavam os cavalos pra beber água, ali era o mercado. Tinha galinha, frango, aves. Vinha tudo naqueles engradados fechados, me lembro muito bem.

 

Nós tínhamos água de poço. Era enorme, meu pai pôs uma torneira para ficar no tanque, e a gente acendia o fogo a carvão. Já punha uma chaleira com água e, quando minha mãe vinha, já tinha, né? Tenho pena das crianças hoje que têm esse celular, que mal falam com o pai. Nenhum bom dia e nenhum boa noite. Nós não. Brincamos de amarelinha, com a casca de banana. Podíamos fazer uma fogueira de festa junina na rua. Os vizinhos ajuntavam-se, e uma fazia pipoca, outra o café, batata-doce, o quentão. E ali saía a festa. Outro fazia balão. Era muito bonito. As crianças não sabem nada hoje. Os pais precisam pagar para ir a um sítio, onde paga-se um ingresso pra ver galinha, pintinho.

 

Uma tia da minha mãe ensinava a gente a pegar numa agulha, para costurar botão. Um dia, eu estava costurando botão, e aparece o João. Mas eu tinha um flerte com outra pessoa, o José. E vieram ele e o que seria o meu marido! Eu tinha feito um vestido pra mim, engraçadinho, e estava com o cabelo todo levantado, com um rabo de cavalo. Era dia de São João, e fizemos a sorte no prato, eu e uma amiga, a Lúcia. Hoje, não tem sorte de São João. A vela fica acesa, põe no prato com água. E, da minha, nunca me esqueço, saiu um jota! Eu falei assim: “Ah, mas que engraçado!”, e todos vieram na mesa. Era ano de 1953, quando saiu o Brasileirinho de Waldir Azevedo, Brasileirinho e Delicado, foi a coisa mais linda esse chorinho. E nós tínhamos uma vitrolinha, e o João e o José trouxeram o disco pra gente dançar.

 

Estava dançando com o tal José, quando me aparece o João! Foi fatal esse dia. Eu já tinha 14 anos, mais ou menos. Ele falou: “Você hoje não me escapa!”. Quando eu fiz 15 anos, a minha mãe fez uma festinha, e eu convidei o João, porque minha mãe falou o seguinte: “Se você convidar o José, não tem festa”. Teve a festa. Então, apresentei o meu namorado, o João, e ficou. Eu tinha 15 anos quando comecei a namorar. “É hoje que você vai namorar comigo”, ele disse. Dançamos uma valsa linda e ficamos juntos.

 

No primeiro mês de casada, eu já estava grávida. O meu sogro, José Gualter Gomes, era português, foi padeiro. Mas, infelizmente, morreu 15 dias antes de o meu filho nascer. Meu sogro faleceu dia 17 de janeiro e meu filho nasceu dia 3 de fevereiro de 1957. Meu sogro me chamava de Boneca, porque eu era pequena, miúda, magrinha. E fazia tudo aquilo que eu fazia. Se era um domingo e minha sogra não estava, eu já fazia almoço. Tinha lá na geladeira as coisas. Eu fazia molho. “Mas como você sabe tudo isso?” A gente via mãe, avó, tia fazer. Nunca me apertei de cozinha. Foi nisso que a gente ganhou dinheiro. Fiz muito salgado para fora, eu e meu marido. Fazíamos para buffet, ele era muito prático de cozinha.

 

Mas eu continuadamente tratei de muito doente na família. Acabou agora, quatro anos atrás, com a minha irmã e o marido. Não tinham filhos, em um mês e meio eu enterrei dois. Todo esse tempo eu cuidei de gente. Minha mãe, que esclerosou. Meu marido, que teve um acidente, também tinha câncer, operou. Ele trabalhava num restaurante na Mourato Coelho, ficou dez anos de gerente. Num feriado, o ladrão entrou, e fizeram ele andar de gatinho e pisaram nas costas dele. Arrebentou o intestino. João morreu.  

 

Eu morava na Rua Judith, na Vila Beatriz, quando eu tive o outro filho, com diferença do outro de quase 18 anos. Nesse intervalo, nós tivemos uma queda violenta na vida. Meu marido vendia alho, que vinha da Argentina, de carroça, lá na zona atacadista. Na zona do mercado, dava enchente, e levou toda nossa mercadoria. Ficamos cinco anos na falência. Não foi fácil. Eu, como sabia fazer muito tricô e costurava, o que eu fiz? Montei uma máquina de tricô e comecei a trabalhar com tricô de máquina em casa. Fazia japonas, fazia xales. Ele passou esse armazém para frente e veio ser gerente do restaurante na Mourato Coelho.

 

Eu nasci e vivi na Vila Madalena. Conheci muita coisa, progrediu muito. Pode ver que o comércio está subindo. Temos universidade, colégio bom. Casas de minhas amigas, que eram casas residenciais, viraram comércios, bares. A minha mesmo, em que eu morava, é um restaurante.

 

Será que eu tenho sonho ainda? Eu tenho. Se eu encontrasse com aquele José... Gostaria de vê-lo, e a gente se abraçar (choro)! Difícil falar. Foi um amor de juventude mesmo. Se fosse fazer, dava uma novela.


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