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História

A bonequeira do Vale do Jequitinhonha

História de: Izabel Mendes da Cunha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2008

Sinopse

Em meio a uma família de poucos recursos, que tirava o sustento da roça e das panelas de barro produzidas pela mãe, Izabel Mendes da Cunha (1924-2014) cresceu sem saber ao certo o que era uma boneca. Vestia espigas de milho com retalhos de pano, até perceber que poderia se apropriar da habilidade aprendida com a mãe para esculpir versões mais bonitas para brincar. Com muitos detalhes, ela contou o difícil percurso que, a partir dessa experiência da infância, a transformou na renomada artista do Vale do Jequitinhonha, que atraiu atenção internacional por suas impressionantes bonecas de cerâmica. Moldadas em tamanho quase natural, coloridas com uma engenhosa mistura de diferentes tipos de barro, elas nunca representaram, para Izabel, um conhecimento que deveria ser mantido em segredo. Pelo contrário, um de seus grandes prazeres era compartilhar suas técnicas com quem quisesse aprender. “Não ficou só para mim. Ficou para todos”, dizia.

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História completa

Quando minha mãe ia trabalhar, fazendo as peças de barro, meu pai “ponhava” os filho maiores e levava para a roça, para ajudar a trabalhar na roça. Eu era a “mais pequena”: sete para oito anos. Eu ficava para olhar aqueles meninos de colo que a minha mãe criava, sabe? Para ela poder trabalhar.

Eu tinha muita vontade de brincar com boneca. Vivia falando em boneca, mas eu não sabia como é que era. Nesse tempo, essas bonecas que hoje em dia tem de plástico, de louça, e de massa e tudo o que tem, nesse tempo, lá para as roças, para a gente, não existia. Ninguém ouvia falar nisso. Eu ouvia falando em boneca, eu “ponhava” era sabugo de milho. Meu pai colhia os milhos, debulhava para dar às criações. Eu guardava aqueles sabugos, enrolava um pedacinho, retalhinho de pano na cintura. Ou, então, um pedacinho de papel. E falava que era boneca. Eu falava: “Boneca deve ser assim.”

Depois, via a minha mãe mexendo, fazendo o barro, puxando assim, montando aquelas vasilhas. Aí, eu falava: “Eu vou fazer uma bonequinha de barro, para eu brincar.” Minha mãe pega esse barro e mexe com ele assim. E eu vou é fazer boneca. Fazendo a imaginação, fazendo a experiência. Aquele barro lá era difícil de achar onde que nós morávamos. Era meio difícil na fazenda em que nós morávamos, era meio difícil.

E a minha mãe brigava quando a gente ia apanhar um bolinho de barro, fazer um brinquedo. Ela brigava com a gente. Ela ralhava com a gente, porque ela estava assando o barro dela, que o barro estava difícil. Quando ela saía, que ela ia lá almoçar, ia fumar um cigarro, eu pegava um bolinho de barro e escondia. A hora em que o menino dormia, eu botava o menino na cama, o menino deitava no meu colo. Dormia, eu botava na minha cama para dormir, e ia fazer a bonequinha. E eu falei: “Vou fazer a boneca.” Sem nunca saber que ia fazer de barro, a gente fazia a boneca de barro, né? Fazia aquelas bonequinhas, pequenininhas. Aí, enchia de gosto de ter aquilo para mim!

Eu nem tinha mais sono para ir dormir de noite. Vontade de o dia amanhecer logo para eu cuidar das minhas bonequinhas. Fazendo escondido. Quando ela viu, valha-me Deus! Ela brigava e ralhava com a gente. Quando ela ia colocar no forno, eu vinha com aquelas coisinhas na mão, em roda do forno, para ela colocar junto com as peças dela. “Sai daqui, menina! Você vai quebrar minhas vasilhas aqui, minhas coisas aqui.” “Oh, mãe, põe num cantinho? Põe num cantinho!” Ela, eu acho que ficava com dó da gente, e colocava junto com as peças dela. No outro dia, quando ela levantava para ver as peças, eu tinha levantado primeiro e estava esperando ela levantar para tirar as peças dela e para eu tirar. Aquilo, para mim, gosto demais que eu tinha. Vixe!

Eu gostava muito de ver aquelas mulheres que estão com o menino no braço, no colo da mãe. Era a coisa mais bonita que eu achava: minha mãe, essa que estava com o nenenzinho, e eu achava bonito quando ela pegava ele, esse nenenzinho dela. Eu falava, eu pensava, eu achava isso bonito.  Aí, eu pensava assim: “Eu vou fazer é uma boneca, como se fosse uma mãe, amamentando a criança.” Eu pegava o barro, e fazia. E fui fazendo os pequenininhos. E, das pequenininhas, eu peguei a fazer grande. E, quando eles descobriram aqui, eu não fazia as bonecas. Eu só fazia as outras peças, que eu falo para você. Eu sabia fazer as bonecas, mas eu não fazia porque ninguém não dava valor.

Foi imaginação. Eu pensava e fazia. Eu fazia o rosto como fosse o rosto de uma pessoa. Agora, eu pego o barro e faço. Se já tem referência, não pensa em nada e faz. Só pensei e faz o rosto. Eu falava assim: “Vou fazer o rosto de uma pessoa.” Então, vinha uma pessoa e falava: “Olha! Tá parecendo Fulano. Olha! Tá parecendo Ciclano.” Tem hora em que eu faço elas alegres, sorrindo. Outras morrem de rir. Tem hora em que eu faço outras sérias, bem sérias. Eu faço outras com raiva, tudo eu faço. E no dia que eu não estou muito alegre, não tem jeito de elas ficarem... (risos)

Ensinei meus filhos todos. Ensinei os vizinhos aqui. Aqueles que quiseram, eu ensinei para eles. Agora, um está ensinando outros, e outros estão ensinando os outros e eles estão merecendo tudo. Eu tenho... Que prazer. Não ficou só para mim. Ficou para todos, né?

Porque tudo o que eu faço foi criado mesmo. Não foi tirado. Porque tem gente que olha para aquela coisa, ou pega um retrato para fazer, e eu não. Eu só fiz uma vez: eu fiz uns lá para o Seu Antônio, que ele falou comigo, para fazer ele com a família dele. São três filhos e uma mulher. Então, eu fiz, eu achei que foi muito sacrificado. A gente faz os outros do jeito que a gente quer. E, para fazer uma coisa que já está pronta, que é feita para fazer daquele jeito, todo você pode fazer. Se tiver uma verruga a mais, vai ter que fazer ela (risos). Se tiver qualquer defeito, a gente tem que fazer para ficar do jeito. E a gente fazendo à vontade da gente, a ideia da gente, a gente faz do jeito que a gente queira.

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