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História

A educação é a sua verdadeira paixão

História de: Anna Maria Zammataro de Aguiar Pupo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/01/2010

Sinopse

Anna Maria Zammataro de Aguiar Pupo, conta a história da vinda de seus avós imigrantes para o Brasil. Seus avós maternos vieram da Áustria e o seu avô paterno veio da Itália. Formada em História, trabalhou por 20 anos dando aulas em escolas públicas e particulares, além de ter fundado a Companhia de Educação. Em seu relato, contou do cotidiano da cidade de São Paulo nas décadas de 1940 e 1950, de sua infância, sua relação com o marido, filhos e netos, sua experiência em dar aulas logo após a Ditadura Militar e a importância do educador na vida das pessoas. Seu sonho é passar para seus filhos, netos, alunos, o potencial do ser humano, pois só ele pode construir algo melhor.

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História completa

P/1 – A gente sempre começa perguntando o nome completo, a data e o local de nascimento.

 

R – Meu nome é Ana Maria Zamataro de Aguiar Pupo, um nome comprido. Quando eu viajo todo mundo fala: “Too much middle names, too much middle names” (risos). Nasci em 22 de março de 1943 na cidade de São Paulo.

 

P/1 – Vou voltar lá pra trás, fala um pouco dos avós paternos e maternos, nome deles, o que eles faziam, um pouco da história deles.

 

R – Meu avô materno chamava-se Ferdinand (Horneck?). Ele era austríaco e casou-se com uma húngara chamada Tereza (Risachiler?). Não sei em que oportunidade, ele era militar e ela o ajudou a ficar em um lugar onde não havia alimento, ela levava alimentos pra ele, pra outras pessoas da companhia e assim se conheceram, se apaixonaram, se casaram na Áustria e tiveram duas filhas. Em 1920 ocorreu uma mudança drástica pra ele, que era um militar do exército do imperador, ficou sem emprego. Então, resolveu se tornar fazendeiro no Brasil. Comprou terras, vendeu tudo o que tinha, comprou passagem pra ele, pra mulher e pras duas filhas e veio embora pra nunca mais ver a família. Aliás, se vocês me permitirem eu abro um parênteses pra contar. Como vocês sabem, eu tenho uma filha que mora fora do país e me causa grande tristeza, porque eu sou uma mãe daquelas que gosta de ter os filhos debaixo das asas, a filha se casou e foi embora. E eu só me consolo pensando nessa família que veio embora da Áustria e nunca mais sequer falou no telefone com a família. Eu falo: “Bom, a minha vida é melhor, eu tenho skype” (risos), então dá pra conversar no telefone. Essa família veio para o Brasil pra se tornar fazendeiros no interior de São Paulo e quando eles chegaram no interior, a fazenda não existia, eles tinham caído no golpe do vendedor de fazendas no Novo Mundo. A fazenda não existia, ele não falava português, acabou tendo de trabalhar como administrador em uma fazenda e viveu uma vida bem simples no interior de São Paulo. Não só simples, mas completamente diferente daquilo que eles tinham na Europa. Era cobra entrando na casa, rato entrando no forro, morcego... E depois de um tempo... Um dia a minha avó encontrou uma cobra enrolada nos pés da minha mãe que era bebezinha. Ela disse que não ficaria nem uma noite mais lá naquela fazenda. E pra poder ir embora eles tiveram que sair escondidos, no meio da noite, porque eles tinham dívidas, como aquelas dívidas dos colonos do século XIX, que persistiam ainda no século XX. Tinham dívidas no armazém da fazenda e foram obrigados a sair na calada da noite levando o que puderam, as filhas na mão e conseguiram ir embora da fazenda.

Vieram pra São Paulo, onde meu avô acabou se instalando com uma loja de Óptica, chamava-se Óptica Pasteur, no centro da cidade de São Paulo. Acabou sendo uma óptica importante, muito procurada pelas pessoas que queriam fazer óculos. E naquele tempo nem oculista sabia e o meu próprio avô, que não era oculista, nem sequer técnico em óptica, ele prescrevia porque ele conhecia alguma coisa sobre lente e ele acabava prescrevendo os óculos pras pessoas porque não havia outra maneira. Essa é a história do avô e da avó. Aliás, vale contar que apesar dos percalços, esse avô e essa avó conseguiram criar muito bem as duas filhas, as duas filhas estudaram no Colégio Olinda, aliás, era antes chamada Deutsch Schule, que quer dizer Escola Alemã. Depois da guerra, passou a se chamar Porto Seguro, que é a escola Porto Seguro que vocês conhecem hoje. As duas filhas se formaram. A minha mãe, além de se formar, fez conservatório, era uma pianista. Educaram bem as filhas e viveram bem o resto da vida deles aqui no Brasil, que os acolheu e permitiu uma boa vida para esse casal estrangeiro. Eu cheguei a conhecer esse avô, que morreu quando eu tinha cinco anos. E a avó conheci bem, ela viveu mais alguns aninhos.

O outro lado, lado paterno, era italiano. A minha avó já era nascida no Brasil de família italiana e o meu avô veio com 16 anos de idade para o Brasil, sem nada, mas com muita vontade de “fazer a América”, como eles diziam, né? (risos). Meu avô chegou em São Paulo e pegou uma época muito interessante para “fazer a América”, início do século XX, em que a elite da sociedade paulistana já estava se deslocando daquela região que era Higienópolis, onde primeiro eles tinham se instalado, os barões do café já estavam se espalhando pra Avenida Paulista. Então, a grande rua, a grande avenida dos ricos da época era a Avenida Paulista, onde moraram Matarazzo, muitas famílias de muitas posses. E o meu avô, menino de tudo, chegou com 16 anos, resolveu investir na área das construções, justamente das casas pras famílias de dinheiro da cidade. Ele começou a produzir tijolos. Ele comprou uma terra na área de Guarulhos e tinha uma olaria. E o que ele fez, o que o tornou bastante… Vamos dizer, atender aquilo que era o objetivo dele, que era viver uma vida boa no Brasil, foi fazendo isso, vendendo tijolos que ele produzia nessa olaria em Guarulhos.

Eu cheguei a conhecer essa olaria, eu era menina e gostava muito de ir andar na draga, que era o barco que andava pelo rio recolhendo a areia do fundo, areia, terra, no fundo do rio pra depois... Acho que a areia era vendida, não era pra produzir tijolos, mas a parte do barro que produzia os tijolos. E hoje, na minha casa, aqui no Alto de Pinheiros, que meu marido e eu construímos no início dos anos 70, alguns tijolos do muro da minha casa são tijolos que tinham sido fabricados pelo meu avô, porque o meu pai tinha guardado alguns e o meu marido, que nunca foi historiador, é advogado, era mais preservacionista que eu, falou: “Vamos fazer o muro com os tijolos do seu avô?”. E nós usamos os tijolos que eram do meu avô no muro da minha casa.

Esse avô italiano teve oito filhos, cinco mulheres e três homens, e criou esses filhos muito bem, no caso só um, o meu pai, estudou na universidade. Os outros filhos todos fizeram básico, não sei até que nível, porque não era costume naquela época as mulheres estudarem além do... Acho que era Ginásio o máximo que as meninas chegavam. E dos homens, um deles foi trabalhar com o meu avô na olaria, o outro tentou estudar Medicina, acabou não conseguindo por motivos de saúde e o meu pai foi o único dos oito que fez faculdade, ele era Engenheiro Arquiteto. E assim é a história dos meus avós, famílias estrangeiras, de um lado húngaros e austríacos e de outro lado italianos.

 

P/1 – Muitas coisas me deixaram curioso, uma delas é, de um lado você perdeu o avô com cinco anos, mas você falou que tem recordações. Quais são? O que você lembra?

 

R – Do avô?

 

P/1 – É, do austríaco.

 

R – Olha, uma coisa é certa, com cinco anos a memória da gente é muita difusa. Eu lembro muito pouco desse avô, o que eu lembro é que ele era um homem habilidoso, tanto é que, apesar de militar ele acabou tendo uma profissão que tinha a ver, até, com uma certa habilidade manual. E ele era muito habilidoso, tinha no fundo do quintal uma oficina com um torno e ele gostava de fazer objetos de madeira, brinquedos também. Aliás, me lembro bem dos brinquedos. Eu tenho até hoje guardado na minha casa um trenzinho de madeira que ele fez, uma casinha de boneca com cerquinha de madeira, eu guardo com um carinho na principal vitrine da minha sala porque pra mim é um objeto importantíssimo, de muito valor. E ele fazia essas coisas, ele gostava de mexer. Eu lembro dele mexendo no torno e me chamando pra ver, e lembro dele depois doente, ele morreu de câncer na garganta, ficou um ou dois anos doente. Vocês veem que a minha memória desse meu avô é muito distante, muito difusa, mas eu lembro de falar com ele, já doente, desejando melhoras, me lembro bem.

 

P/1 – E a avó...

 

R – A avó húngara?

 

P/1 – É.

 

R – A avó húngara eu lembro muito mais porque ela morreu eu já tinha uns 18 anos. Eu lembro bastante dela.

 

P/1 – Eram próximas, ia muito na casa deles?

 

R – Ela morava comigo, como eu tenho uma tia que morava em Niterói, ela passava seis meses com a filha de Niterói, seis meses com a minha mãe, então ela morava com a gente.

 

P/1 – Conta um pouco da relação, porque é uma relação interessante, né? Ficar seis meses com uma pessoa, seis meses ela vai embora, depois volta.

 

R – Eu gostava muito de morar com a minha vó, ela era uma velhinha muito bacana que nunca, nunca, incomodou, só foi uma grande e boa lembrança. Lembro muito quando eu comecei a namorar o meu marido, ele é um homem alto, de olhos verdes, claro, apesar de ser um tipo bem italiano, ela dizia: “Ah, eu gosto desse moço, ele parece o vô Ferdinand”, que era o marido dela (risos), que também era um homem grande, de olhos claros. Eu lembro bem ela dizendo isso, e ela gostava muito do meu marido, fazia muita festa pra ele, foi muito gostoso. Mas antes do meu marido aparecer, a relação com ela era muito gostosa. E ela fazia de tudo pra ser amiga das netas, até deixar a neta fazer as unhas, deixava eu fazer as unhas nela, tirava bife de todos os dedos mas ela não reclamava, achava ótimo (risos).

 

P/1 – Ela cozinhava comidas maravilhosas húngaras?

 

R – Cozinhava, fazia doces maravilhosos. Fazia um apfelstrudel que nunca mais comi igual. Um outro docinho que tinha uma massinha, massa de fermento químico recheada com geléia de abricó. E era assim, não podia abrir a porta do lugar onde ela estava fazendo o doce porque se abrisse a porta, entrasse um ventinho, estragava o doce. Então ficava. A gente sabia, quando tinha a vovó fazendo doce não podia entrar na cozinha, não podia entrar na sala, tinha que bater na porta. E eu me lembro bem dela fazendo esses dois doces, o apfelstrudel e esse outro docinho, que era um doce austríaco. Ela não fazia comida húngara não, só fazia austríaca. Ela foi muito apaixonada pelo marido dela. A vinda pro Brasil tem a ver com essa paixão porque esse homem era muito charmoso, militar. Ele era muito bonito o meu avô, tinha umas namoradas lá na Áustria. E eu acho que ela resolveu ir para o Brasil para resolver o problema conjugal dela (risos). E foi por amor que ela veio pro Brasil.

 

P/1 – E do outro lado, do lado italiano, você teve mais contato com os avós?

 

R – Muito menos. O avô morreu eu tinha um ano de idade, não cheguei a conhecer.

 

P/1 – E a avó?

 

R – A avó eu conheci, ela viveu bastante também, mas ela era um pouco mais distante, era mais próxima dos netos das filhas e eu era neta do filho. Com o pequeno detalhe da minha mãe ser austríaca. Os italianos, naquela fase, gostavam que os filhos se casassem na colônia, então, quando o meu pai resolveu casar com uma austríaca, diria que foi um pouco chocante pra ela. Ela sempre me tratou muito bem, mas não era com a mesma proximidade que os netos das filhas, as minhas primas, com quem me dou muito bem até hoje.

 

P/2 – Quais os nomes do seu pai, da sua mãe?

 

R – O nome do meu pai era Vicente Lemes Zammataro, engenheiro arquiteto, era funcionário público, trabalhou na diretoria de obras públicas a vida inteira e se aposentou diretor em um setor lá. Minha mãe, dona de casa, apesar de pianista, ela só tocava piano para ele cantar músicas líricas, não tocava mais pra ninguém ouvir. O nome da minha mãe era Marta Horneck Zammataro.

 

P/2 – E eles contaram como eles se conheceram?

 

R – Eles se conheceram no Clube Esperia, ela era tenista. Além de pianista, era tenista. E ele resolveu a aprender a jogar tênis, aprendeu mais ou menos (risos), pra conhecer aquela austríaca loira maravilhosa que era a minha mãe, que era muito bonita. Aliás, parecida com você, mesmo tipo físico.

 

P/1 – Obrigado (risos).

 

R – Bonita (risos). Era clara como todos na família dela, de olhos claros. Tem foto aí se vocês quiserem ver depois. E assim se conheceram no clube, se apaixonaram e acabaram se casando.

 

P/1 – E foram quantos filhos?

 

R – Duas filhas, eu e uma irmã sete anos mais nova que eu.

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Anna Marta.

 

P/1 – O Anna está presente...

 

R – Pois é, falta de imaginação total, né? Anna Maria e Anna Marta, mudou uma letra (risos). Era bom porque no colégio se quisesse usar o mesmo caderno era só puxar a letra “i” que virava “t” (risos). Mas não foi feito, não, brincadeira (risos).

 

P/1 – Essa relação com a sua irmã é um pouco complicada porque é sete anos mais nova. Mas como foi a relação entre vocês duas?

 

R – Sete anos é muito tempo na infância, quando ela nasceu eu já era uma meninota, desenvolvida. Gostei muito da chegada dessa irmã, curti muito a gravidez da minha mãe, participei da escolha dos nomes. Eles estavam entre Maria Ângela, Ângela Maria e Anna Marta. A cantora não existia ainda (risos) e eu gostava de Ângela Maria, mas aí os meus pais resolveram por a Ana Marta, o que foi bom porque é um nome de muito mais personalidade do que Ângela Maria, que teria sido o nome da cantora que se tornou famosa depois do nascimento dela. Mas pra mim ela foi como uma boneca que se mexia. Ela tinha sete quando eu já tinha 14 e já era uma mocinha. Eu posso dizer que hoje nós somos mais próximas do que eu fui durante a infância e adolescência. E me casei muito cedo, aliás, não casei tão cedo, mas comecei a namorar o meu marido muito cedo, e isso faz muita diferença. Eu tinha 16 anos quando comecei a namorar o meu marido, então, a coisa se volta mais pra esse relacionamento e ela ainda era uma menina. Ela tinha 14, 15 anos quando eu me casei. Hoje não. Ela demorou pra ter os filhos dela, eu tive os meus cedo, isso também causou uma certa defasagem porque os interesses familiares acabaram sendo muito diferentes, mas hoje somos muito amigas, os sete anos desapareceram (risos).

 

P/1 – Queria voltar para os seus primeiros sete anos, a primeira infância. Vocês moraram sempre na mesma casa, vocês mudaram?

 

R – Até os cinco anos eu morei em uma casa alugada na Rua Oscar Freire, casa geminada, era muito gostosa, tinha um quintal no fundo onde eu gostava de brincar bastante, eu era a única filha, né? E eu brincava sozinha no quintal, me lembro muito de gostar de ter... Eu tinha um personagem imaginário, era doutor Minerva. Eu fazia comidinhas para o doutor Minerva, botava a mesa pra ele, não sei quem era doutor Minerva, não sei qual era a profissão dele, não tenho a menor idéia, era o doutor Minerva. Eu lembro bem desse tipo de brincadeira no quintal de casa. E me lembro muito de ouvir programas de rádio com a empregada, porque nessa altura o meu avô estava doente, como você se lembra, eu contei que ele morreu quando eu tinha uns cinco anos, né? Ele já estava doente e a minha mãe ficava muito fora porque eles moravam perto, minha mãe ficava na casa da mãe pra ajudar a cuidar do pai, e eu ficava bastante com a empregada, e nós ouvíamos muito rádio. Ouvíamos ao (Nudo Tico?) que era um personagem que gostava de contar histórias, eu não lembro do programa, mas lembro bem disso e da propaganda dos biscoitos Duchen, que o rádio tocava nos intervalos do programa do (Nudo Tico?), nessa fase aí dos anos 40. Era uma distração, gostava de ouvir rádio, não existia TV. Vocês são crianças, vocês não sabem disso, mas nessa fase televisão não tinha chegado e só se ouvia rádio. Minhas lembranças, até os cinco anos, são por aí. Fora que eu sentei no ninho de taturana (risos) nessa fase da vida, eu lembro bem de ter tido de tomar muitas injeções por causa de ter sentado em um ninho de taturana.

 

P/1 – Mas como é que foi isso? Conta, você estava distraída, brincando?

 

R – Estava brincando com as amiguinhas, de repente sentei no jardim, mas era um ninho de taturana e eu fiquei toda queimada (risos), foi uma barbaridade. Eu nunca tinha tomado injeção na vida, então, ficou muito forte essa lembrança do ninho de taturana (risos). Vocês gostariam de outras lembranças de antes dos cinco anos?

 

P/1 – Quando você mudou de casa, você lembra dessa mudança? Pra onde foram?

 

R – Foi quando o meu avô morreu, a minha avó ficou sozinha, as duas casas eram alugadas, da minha avó e a nossa. A minha avó ficou sozinha na casa onde ela vivia, na Alameda Casa Branca, e meus pais resolveram... Acho que a casa que nós morávamos foi pedida pelo proprietário, coincidentemente, e nós nos mudamos pra casa que era a casa da minha avó. Foi assim que passamos a viver com ela, ela conosco. Então, vivíamos, eu, meu pai, minha mãe e minha vó. Minha irmã nasceu já nessa segunda casa. Nessa casa eu vivi dos 5 aos 22, me casei nessa casa, que era uma casa geminada também, boa casa, mas uma casa simples, pequena.

 

P/1 – Descreve um pouco pra gente, era um quarto com a sua irmã, eram dois  quartos, conta um pouco da casa pra gente ter uma idéia visual dela.

 

R – Eram três quartos e um banheiro. Era meu pai e minha mãe em um quarto, eu e minha irmã no outro e a minha avó no outro. A minha irmã não, eu, depois veio a minha irmã (risos).

 

P/1 – Tinha algum quintal na frente?

 

R – Tinha um jardinzinho pequeno na frente e um quintal grande atrás, do mesmo jeito que a outra. Tinha um quintal no fundo onde eu também brinquei bastante. Aí já lembro bem mais das brincadeiras.

 

P/1 – Conta um pouco das brincadeiras.

 

R – Tinha uns caixotes na casa da minha avó, vários caixotes, não sei o que eram, eram de madeira. E eu gostava de brincar de casinha, empilhava fazendo armário, mesinha, cadeira. Ou então, em outros dias aquilo se transformava em parque de diversões, os caixotes serviam pra fazer escorregador, gangorra. Brinquei bastante no fundo do quintal. Tive uma galinha de estimação, era a Miss Brasil. Era uma galinha vermelha e o nome dela era Miss Brasil, mas ela era uma galinha diferente porque ela vinha no meu colo, sentava no meu colo, eu amava a minha galinha. Um belo dia minha mãe disse que a galinha tinha fugido e teve galinha no almoço. Ela nunca me contou, nunca confessou, mas eu desconfio que a Miss Brasil foi o almoço (risos).

 

P/1 – Era brincadeira mais solitária, não tinha vizinhos?

 

R – Engraçado. Não, pelo contrário, eu até gostaria de contar pra vocês, esse é um depoimento importante, brinquei bastante sozinha sim, mas naquele tempo que era criança, coisa que meus filhos nunca souberam e imagino que vocês também não, nem meus netos, a gente podia brincar na rua. A gente podia sair, fazer contato com outras crianças, eu tive muitos amiguinhos, eram amiguinhos da rua. A gente brincava de barra-manteiga, de pegador, tudo na rua. Depois, mais velha, eu tive patins, a gente andava de patins pela rua. Era tão tranquila a cidade que as crianças podiam ficar soltas na rua. Eu era amiga das filhas do quitandeiro, das japonesinhas do quitandeiro, de uma alemãzinha, filha de uma enfermeira que morava do lado de cá e dos dois irmãos dela, (Horst e Jürgen?), ela era (Ula?). As japonesinhas eram Clarice e Cleide, e tinham outras crianças que agora eu não lembro bem o nome, mas todos brincavam juntos, e a gente brincava dessas coisas que eu falei, pegador, barra-manteiga, brincava também de apertar a campainha dos vizinhos e sair correndo. Brincávamos de fazer teatro, fiz muito teatro de brincadeira, inventando contos de fada, com chuva, com coisas... Depois não tinha pra quem mostrar a peça, né? Mas era muito divertido montar as pecinhas.

 

P/1 – E a rua, naquela região, naquela época, como você lembra da rua?

 

R – Era Jardim Paulista. Alameda Casa Branca, esquina com Alameda Lorena, vocês podem imaginar esse lugar? Esse lugar era vazio, deserto. Pra vocês terem uma noção, pra vocês sentirem o que era vazio, uma das brincadeiras que eu gostava era anotar as chapas dos carros que passavam pela rua, fazia coleção do número das chapas. Passava um aqui, quinze minutos depois passava outro (risos). Era assim. Ainda não existia a indústria automobilística no Brasil. Todos os carros eram importados, só poucas famílias podiam ter automóvel.

 

P/1 – Uma coisa que mudou muito na cidade, não sei qual é a sua lembrança disso, mas é a arquitetura, os fios, a iluminação. Era muito mais escuro. Como é que era, você lembra disso?

 

R – Lembro. Sei que a gente não tinha costume de brincar à noite, não. Na rua. Era escuro, não era muito claro, não lembro muito. Meu pai me levava pra ver o centro da cidade, então, tinha aqueles outdoors, aqueles luminosos.

 

P/1 – E quando você ia pro centro, o que você sentia?

 

R – Eu adorava, eu dizia para o meu pai: “quero ir lá, quero ir ver”. Nem falava direito, como é que eu falava? ‘Garafa virando bonde cima’, quer dizer, a garrafa que ficava virando lá no alto do edifício, eu queria ir ver e o bonde que passava em cima. Então, eu dizia pro meu pai que eu queria isso, que eu queria passear na cidade. Ele levava, passeio na cidade era muito tranquilo. Ia muito ao centro da cidade. Eu estou embaralhando um pouco as épocas, mas isso é quando eu tinha lá meus dois aninhos, dois, três anos. Já um pouco mais velha, eu lembro que eu ia muito com a minha mãe ao centro da cidade, compras era no centro da cidade, não havia outro lugar de compras. Se houvesse necessidade de comprar um par de meias, um pijama, era o centro. A gente ia na Rua Direita, íamos de ônibus. O meu pai tinha um carro, mas ele trabalhava e usava o carro pra trabalhar, então nós íamos de ônibus pro centro. E era tranquilo, facílimo, não era cheio de gente na condução. Eu gostava muito, achava o máximo ir para o centro da cidade fazer compras. E a Casa Mappin, que era na frente do Teatro Municipal, tinha um andar que havia espaço pra chá. A grande atração pra gente era ir fazer compras no centro da cidade e depois tomar chá no Mappin (risos). Era comum, sapatos, tudo no centro da cidade. Depois, eu me lembro, aos poucos, o comércio ir aparecendo na Rua Augusta, muito devagar, uma loja, lembro da Marie Claire aparecendo na altura da minha casa na Rua Augusta. Porque roupa as mocinhas não compravam prontas, mandavam fazer. Toda família tinha uma costureira que costurava as roupas da família, não havia roupa pra comprar, nem calça jeans, imagine... Não havia.

 

P/1 – No seu bairro, ou no centro, que você se lembre, tinha alguma figura marcante, aquela pessoa que: “Olha, o louco do bairro”, ou alguma figura marcante no seu bairro, na sua região, no centro.

 

R – Eu lembro no bairro... O afiador de facas que passava, tinha uma musiquinha própria pra chamar o público, o vendedor de sorvetes que vinha com a carrocinha puxada a burro. Eram marcantes. Porque também a indústria de sorvetes não existia, né? Aquele sorveteiro que aparecia na carrocinha puxada a burro era um acontecimento na vida da meninada.

 

P/1 – Sai tudo correndo atrás...

 

R – Eu lembro dos entregadores de carne. Tinha um açougue na frente de casa, um conjunto comercial, a quitanda das minhas amiguinhas, uma cabeleireira, uma farmácia e um açougue. E a entrega da carne a gente lembra bem. O entregador de gelo, que é uma outra coisa típica da minha infância. Não existia geladeira elétrica, ou talvez na minha casa não existia, nas casas mais ricas talvez já existisse, eu não sei quando surgiu a geladeira, você sabe? Eu não sei. Na minha casa tinha um móvel, a parte de cima era forrada de metal, acho que zinco, talvez, e diariamente o entregador de gelo trazia uma barra de gelo desse tamanho, e aquela barra era colocada dentro desse móvel destinado a ser uma geladeira, onde eram guardadas as comidas. Depois, já nos anos 50, eu acho que meu pai comprou a primeira geladeira elétrica. Mas entregava-se tudo, a entrega do gelo, do leite. O leite era entregue diariamente, colocado lá na porta, tinha um lugarzinho especial, cobertinho, pra ser colocado o leite, não era leite longa vida, não existia isso, nem leite em pó, nada. E o padeiro. O padeiro chegava com uma cesta grande desse tamanho, com pãezinhos pequenos, pãezinhos grandes, broinhas, uma redondinha que acho que chamava, não lembro... Coberta com uma caldinha de açúcar. Aiiii, aquilo era uma sensação. Quando aparecia o padeiro com a broinha era a felicidade da criançada. São as figuras que eu lembro.

 

P/1 – Estou tentando montar o seu ambiente, o seu entorno. Uma  coisa que você falou lá atrás e que talvez fosse marcante pra você, que sua mãe tinha um piano em casa, ela tocava piano, apesar de não ser pianista. Quais eram as músicas que você ouvia? Sua casa era uma casa musical, como que era isso?

 

R – Era uma casa musical à medida porque meu pai amava música lírica, ele tinha uma coleção de discos, mas aqueles discos bolacha preta, de cantores de ópera: Enrico Caruso, Bergamini Odilio, cantoras também. E ele também gostava, tinha uma voz bonita de tenor. Ele gostava de cantar, cantava algumas cançonetas italianas e a minha mãe acompanhava no piano. Eu me lembro da minha mãe tocando piano acompanhando o meu pai, ou tocando alguma coisinha, alguma peça, mas mais era acompanhando o meu pai.

 

P/1 – E você gostava? Como que era pra você? Ver aquilo.

 

R – Fazia parte da casa, nem vou te dizer, “ah, eu apreciei meu pai cantando”. Se fosse hoje eu iria prestar uma tremenda atenção, iria querer gravar pra preservar, né? Mas, não, fazia parte. Não me incomodava, mas também não me entusiasmava. É uma coisa interessante da vida, faz parte da paisagem.

 

P/2 – Mas era em algum evento especial que ele cantava ou...

 

R – Não, no dia a dia, meu pai não gostava de cantar pra outras pessoas. Ele só cantava em casa. Ele gostava de cantar, mas não de se apresentar. Ele cantava em casa só. A família dele era uma família musical, eram oito filhos e quando solteiros, todos os filhos - acho que nem rádio havia naquele tempo - eles eram de fazer tardes musicais, cantando, dançando, recitando poesia... Mas eu não cheguei a ver isso porque uma dessas minhas tias, dessas oito pessoas, faleceu jovem. Ela sofreu um problema em uma gravidez, teve um aborto, os médicos não conseguiram estancar o sangue e ela morreu. Circunstâncias trágicas, ela era muito jovem, e isso mudou as características da casa da minha vó. Minha própria avó mudou de temperamento, segundo dizem, era uma mulher muito alegre e se tornou uma mulher mais soturna, mais triste, por causa da morte da filha. Na casa dela eu não vi os saraus, mas eu escutei contar que se fazia saraus na casa dela quando os irmãos eram jovens.

 

P/1 – A gente contou bastante coisa do que você via, do real. Queria perguntar um pouco, existia na sua cabeça, ou na das pessoas a sua volta, histórias de fantasmas, causos, homem do saco, sei lá, que você acreditava, tinha medo?

 

R – Não, não era costume dos meus pais contarem histórias desse tipo, mas as empregadas contavam. Mula sem cabeça, mesmo do saci pererê é uma história que me assustava um pouquinho. E algumas histórias de fadas, histórias contadas normalmente, de bruxas que espetavam alfinetes na cabeça da criança ou da boneca, nem sei direito. Mas na minha família não era costume contar história de assustar, não. Mas as empregadas contavam.

 

P/1 – Como era a relação com as empregadas?

 

R – Era muito boa.

 

P/1 – (Pausa) A gente estava falando da relação com as empregadas. Conta como era a relação.

 

R – Eram pessoas muito prezadas, eu era ensinada a considerar as empregadas com o mesmo cuidado que eu consideraria qualquer pessoa da família. Nunca foram tratadas com secura, violência, agressividade. Na minha casa não existia isso. Mas elas viviam como vivem até hoje, em um quarto separado, uma situação separada. Pra mim isso entrou como uma coisa natural, não foi uma coisa que me chocou. Mas eu tinha uma relação boa com as empregadas. Dessa primeira fase que eu relatei a vocês, de menos de cinco anos, por causa da doença do meu avô eu tive uma relação muito próxima, de ficar muito junto das empregadas. Depois que eu mudei pra outra casa já não foi tanto, até porque já estava a minha vó, então, a relação com a avó era muito mais forte, né? E a minha mãe não trabalhava fora de casa, estava sempre a minha mãe. A relação ficou mais tênue, não foi tão próxima. Mas nós tivemos uma que ficou muitos anos na minha casa, mas que foi mais ligada com a minha irmã, já foi na fase que a minha irmã era criança, ela ajudou a criar a minha irmã.

 

P/1 – Essas histórias de fantasmas aprendia com elas, mas devia ter mais coisas que devia aprender com elas, que elas passavam, que não fazia parte da educação familiar, ou não?

 

R – Eu tenho uma lembrança de ter aprendido com as empregadas o gosto pela cozinha, isso sim. Eu gostava muito de ver trabalhar, de ver passar ferro, lavar roupa. No caso de empregada estar lavando roupa, se o dia estava bonito, aproveitava-se para brincar com água, que era o dia permitido de brincar com água, molhar o quintal. Eu me lembro de ficar vendo passar a ferro, e me lembro de ficar vendo cozinhar. Hoje eu gosto muito de cozinhar. Entenda-se, eu gosto de fazer pratos especiais para dias de almoço ou jantar em família, não da cozinha rotineira. Mas do prato especial, gosto muito de fazer. É uma das poucas atividades domésticas que me encanta, eu gosto demais. Aprendi com empregada, com quem eu estava sempre lá do lado pra ver, fazer as coisas.

P/2 – E você ajudava as empregadas a fazer bolo? Você lembra?

 

R – Não era muito permitido às crianças ajudarem, não. Eles podiam observar, ficar quieto, se não _____ (risos). Só fui aprender a fazer depois. Assim mesmo, eu aprendi a cozinhar, realmente, eu acho que vendo, mas não cozinhava, eu só fui cozinhar depois que eu casei. E a minha primeira experiência culinária, posso contar uma depois de casada?

 

P/1 – Pode, claro.

 

R – A minha primeira experiência culinária foi gozadíssima, eu fiz um curso de culinária antes de casar, porque tem que saber cozinhar, mulher que casa tem que saber cozinhar, não pode não saber. Então, tá bom. Fiz um curso, foi ótimo, muito prático, muito interessante. Casei. Fui fazer bife, primeiro jantar pro marido. Receita: para fazer bifes. Tempero: tanto de cebola, tanto de sal, tanto de não sei o que. Peguei o tempero de dez bifes, juntei, e temperei dois. Quando meu marido, coitadinho, foi provar o bife (risos). “Tá um pouquinho salgado, mas tá gostoso”. Comeu o bife que estava intragável (risos). Porque sal de oito bifes em dois (risos). Parece piada mas eu fiz isso, e era universitária, não era nenhuma ignorante. Depois eu melhorei, hoje eu até cozinho direitinho.

 

P/1 – Nessa época, até sete, dez anos, você tinha algum grande sonho? O mais maluco “quero ser quando crescer”.

 

R – Queria ser igual a minha mãe. É, a grande lembrança de sonho, de futuro, queria ter uma vida igual a minha mãe, uma familinha constituída com marido, filho, a verdade é essa. E eu fiz faculdade porque eu fui uma boa aluna no primário, no ginásio e no colegial. Mas no colegial eu fui fazer Secretariado porque as minhas primas: “Ah não, pra que vai fazer clássico, científico?”. Naquele tempo se dividia assim, clássico, científico, normal e secretariado, o atual ensino médio era dividido assim. “Ah, mas pra quê? Vamos ter um diploma, assim já não tem que estudar mais”. Eu fui fazer o tal do secretariado e me vi pela seguinte realidade, pra seguir adiante eu não posso fazer Arquitetura porque eu não tenho Matemática, eu não tinha as matérias essenciais pra seguir uma faculdade. E com 17 anos eu cheguei a falar pra minha mãe: “Vou fazer esse secretariado, fico com diploma de secretária e depois vou fazer uns cursos”, como as primas pretendiam fazer. Não foi nada disso, acabou. “Não quero nem escutar mais nada. Você vai fazer faculdade”, eu fui pra faculdade porque foi uma exigência da família, porque não era costume. Eu fui colega da Maria Pia Matarazzo, colega de umas pessoas importantes no secretariado. Das minhas colegas de classe, duas foram fazer faculdade. As jovens da minha idade só sonhavam se casar, não pensavam em ter uma carreira. Gente, não faz tanto tempo assim. Não estou tão velha, né? Mas as mulheres não tinham plano de carreira, plano de ter uma profissão. Foi por acaso, por exigência da minha mãe que eu fui fazer faculdade. “E por que eu escolhi História?” Ah, porque gostava de estudar História, achava o máximo. Tinha tido uma professora no secretariado que era uma moça, uma freira, mas uma freira jovem, animada, com estudo. E ela conseguiu passar o interesse pela História. Porque antes, no ginásio, era aquela História de livro decoreba, que eu detestei. Mas no colegial essa professora me despertou para o interesse do questionamento: “Então, vamos estudar isso aqui pra responder uma pergunta”. Ela desenvolvia a pergunta, a resposta e eu me entusiasmei e resolvi fazer História. Mas foi por isso, nem sonhava em ser professora de História, foi uma coisa totalmente afastada da minha idéia ser professora. Era porque eu gostava da matéria, então fui fazer faculdade por esse motivo, não era por sonho, não. Aos poucos fui gostando da matéria, mas não da experiência docente. Como estudante a minha faculdade tinha uma escolinha de aplicação e os alunos do quarto ano de História tinham que dar aula na escolinha. Eu tinha verdadeiro horror, preparava aquelas fichas. Você já deu aula alguma vez? Preparava as fichas, mas com todos os detalhes porque eu não podia me esquecer, e aquelas fichas ficavam cheias de coisas, e para eu enxergar direito? Ai que sofrimento. E não aprendi a gostar de dar aulas na faculdade. Já tinha tido anteriormente, aos 17 anos, a experiência de dar aula de Catecismo pra crianças de escola pública. Pela escola de freiras que eu estudava, as alunas do colegial tinham que atender uma escola pública dando aula de Catecismo. Eram 35, 40 minutos de aula de Catecismo. Terceiro ano, eu, de meias brancas, sapatão preto, aquele uniforme que eu usava, tinha que dar aula em escola pública para o terceiro ano primário. Meninos do tamanho de vocês, bagunceiros até. “Aff, como eu vou fazer pra enfrentar?”. Vamos rezar o Pai Nosso, Ave Maria, Salve Rainha, Creio em Deus Padre, todas as orações que eu conhecia porque assim a aula ia indo mais pra frente (risos). Depois eu podia fazer chamada, mais uma coisa pra ocupar tempo da aula (risos). A experiência foi negativa, né? Bem negativa. Detestei.

Voltando pra faculdade, trazia aquele trauma do Catecismo, na faculdade também não gostei de dar aula porque tinha freira tomando conta pra ver se fazia direito. Então, odiei. O tempo passou, gente, como é engraçado. A pergunta era, qual era o seu sonho de infância? Mas acabei me tornando professora porque eu fui fazer pós-graduação, e fiz pós-graduação lá na PUC, gostei de fazer o curso e uma colega minha ia sair, precisava de uma substituta e me chamou. Desculpe, eu já dava aula, dei aula durante um ano em uma escola pública. A descoberta da vocação se deu na escola pública porque eu estava na pós-graduação e senti que precisava da sala de aula, nunca tinha entrado na sala de aula, já tinha mais de 30 anos. Senti que eu precisava da experiência de sala de aula e fui para uma escola pública no Aeroporto. Eu amei entrar na sala de aula, era menina, tinha pouco mais de 30, pra mim 30 é uma criança, né? Era ajeitadinha, bonitinha, sabia contar umas historinhas pra eles. Fui com muito medo pra sala de aula porque eu tinha aquelas experiências ruins. E, de repente, eles me receberam com muito carinho. Não sei se porque eu era jovem, porque eu tratava de ir arrumadinha, não é porque era escola pública que eu ia desarrumada, eu me arrumava, e eles gostavam de uma professora arrumada. Eu preparava bem as aulas, aprendi porque estava na pós-graduação e tinha as minhas amigas pra me ajudarem a preparar uma boa aula. Então, não eram aulas decoradas mais, eram aulas trabalhadas com eles. Eles amaram as aulas e eu amei os alunos, amei perdidamente. Fiquei com muita pena quando... Depois eu fui convidada pra substituir essa amiga na escola particular, eu não era concursada e abandonei a escola pública pra assumir a escola particular. Já tinha aí uns quatro filhos, não era concursada e resolvi ficar na escola particular que pagava muito bem. E além de pagar muito bem, a escola particular era uma escola pra todos que estavam lá, inclusive para os professores. Aprendi a carreira de professora dentro da escola onde eu trabalhei, recebi pra aprender. Eu amei ser professora, amei trabalhar com adolescente e acho que eles gostaram de mim também porque ainda hoje encontro alguns ex-alunos porque os ambientes são os mesmos, sócio do Clube Pinheiros, morador do Alto de Pinheiros, encontro ex-alunos e eles dizem: “Ah, Dona Anna, como eram boas as suas aulas, pena que eu não sabia que era tão importante aprender História, eu tinha que ter estudado mais” (risos). Acho que fiz um bom trabalho, não só como professora mas, principalmente, como formadora. Acho que eu formei os meus alunos dentro de um espírito de respeito pelo próximo, de responsabilidade social, de importância da atuação de cada um, é isso que vocês estão fazendo, que nós estávamos falando lá fora, é o que eu passei pra eles e acho que essa semente ficou em muitas cabecinhas. Quando você me pergunta, voltando atrás pra amarrar - eu falo muito, né? - quando você me pergunta se eu tinha algum sonho, eu não tinha. Tinha o sonho de casar e ter filho, acabei fazendo faculdade por uma circunstância extra minha vontade, porque a minha mãe exigiu. Não queria ser docente porque eu tinha experiências negativas e, de repente, a vocação surge. Não é engraçado? Teria gostado de trabalhar com professores, eu tentei. Até isso depois não precisa aparecer, mas vou contar pra vocês. Quando eu me aposentei na escola, eu com mais três sócias abri um espaço aqui em Pinheiros de... Na verdade era um espaço chamado Companhia de Estudos e a intenção era trabalhar com professores, fazendo formação continuada.

 

P/1 – Quando que foi? Qual a época?

 

R – Final do século, 98 a 2004. A gente queria fazer, mas a gente não conseguiu. Conseguiu um trabalho ou outro na formação de professores. “Por que?” Porque nós éramos todas ex-professoras daquela escola e ficamos anônimas dentro da escola, ninguém nos conhecia. Então, pra oferecer o serviço pras escolas, ninguém nos conhecia. As escolas também resistem um pouquinho pra usar serviços extra a suas portas, querem desenvolver dentro da própria escola, o que é muito justo. Também não tem dinheiro pra pagar. Acabamos fazendo atendimento a alunos com dificuldade. Eu não sou psicopedagoga, mas era um trabalho semelhante por causa da experiência vivida na escola. A escola onde eu trabalhei, uma escola do Morumbi, era uma escola que tinha um horário de estudo onde você orientava o aluno como estudar. Então, o que eu fazia com os meus alunos aqui na Companhia de Estudos era descobrir porque eles não estavam indo bem na escola, trabalho de psicopedagoga sem ser, né? Mas ia descobrir que o cara não era organizado ou que não sabia ler, não sabia reproduzir um texto lido ou que era desatento. Enfim, cada um tinha lá a sua dificuldade e a gente trabalhava a lição de casa à luz da dificuldade que a gente descobria. Tivemos muitos bons resultados, o melhor resultado posso contar? Gente, vocês tem tempo?

 

P/1 – Pode.

 

P/2 – Pode, tem tempo.

 

R – O melhor resultado que eu me lembro foi um aluno do Fernão Dias, aqui da escola pública, que era filho de uma faxineira do bairro que foi nos procurar na Companhia do Estudo pedindo pra dar um jeito no filho, o menino estava na oitava série e não sabia ler. Ela achava que o filho não sabia ler. Nós demos um jeito, nós não fizemos graciosamente, cobramos um valor simbólico só pra que ambos dessem valor pro trabalho, mas vamos fazer esse trabalho. Peguei o menino pra trabalhar a leitura com ele. De fato, ele lia de soquinho, ele lia silabado gente, não estou mentindo. Sol-da-do. Alguém consegue entender a semântica de uma frase se lê desse jeito? Era tudo lido de soquinho. Quando chegava no fim da frase ele já tinha esquecido a primeira palavra, era incapaz de reproduzir, quanto mais refletir em cima do que tinha lido. Diria que ele era um analfabeto funcional porque ele lia, mas não entendia. Eu fiz um trabalho com ele, foi difícil, no início foi bem difícil. Trabalhei com ele durante um ano, pegava pequenos textos, ia indo, ia fazendo ele ler alto, e repetir. Depois queria uma frase curta, ‘agora fecha’. “O que foi que você entendeu? Uma coisa, uma palavra, do que você lembra?”. Aos poucos ele ia conseguindo tirar uma palavra, duas, juntava duas. “Entendi”. Aos pouquinhos ele foi entendendo. No final do ano, ele tava na oitava, 15 anos ele já tinha, eu peguei um livrinho de quinta série, aliás, o livrinho era uma gracinha, depois eu perdi esse livro de vista. Era um piquenique em Santos contado pela ótica do pai, do filho, da mãe, do cachorro, da tia, todos que foram na Kombi. Cada capítulo era contado por um, é muito bonitinho o livro. E eu comecei a ler com ele esse livro, mostrar a graça: “Olha, é uma outra pessoa que está contando. Você não está percebendo? O que você está notando aqui nesse outro jeito de contar a história?”. Ele foi gostando e tal, um belo dia ele falou: “Dona Ana, será que eu posso levar esse livro pra casa pra ler no ônibus?”. Gente, não é a glória de um professor isso? Quando o aluno te diz uma coisa dessas, um que não conseguia entender uma frase, e te diz: “Posso levar pra ler no ônibus?”. Gente, eu subi pro céu, foi a maior conquista profissional da minha vida, conseguir que esse menino... Fico até emocionada, desculpa (choro) porque foi uma coisa tão forte, tão forte, quando esse menino disse ‘levar esse livro pra casa’. Depois, ano seguinte ele não voltou, acho que ele ficou fluente (risos). Ele trouxe o livro de volta, não foi com ele que eu perdi, não, foi com outra pessoa. Foi muito bom.

 

P/1 – Você deu aula por quantos anos?

 

R – Eu trabalhei em escola por 23 anos.

 

P/1 – Então, começou em 70, mais ou menos?

 

R – Nessa escola pública eu comecei em 78, na escola particular em 79. Aí, fiquei 22 anos e me aposentei antes da idade certa porque houve uma reviravolta na escola, uma mudança drástica de orientação e um grupo grande saiu.

 

P/1 – Queria que você contasse, tanto da maneira panorâmica, como casos gostosos, lindo, maravilhosos, como esse. Mudando muito a Educação, né? Em 79 tava na ditadura, você se aposentou em 99, quer dizer.

 

R – Ah não, isso eu posso te contar que foi uma coisa dificílima, não peguei o auge da repressão porque eu já comecei em 79, né? Mas em 78 na escola pública eu dava OSPB [Organização Social e Política do Brasil], os militares quiseram que as escolas substituissem algumas aulas de História por Educação Moral e Cívica nas séries menores e OSPB na oitava. Mais pra frente já eram Estudos Brasileiros, já na universidade. Essas eram matérias destinadas.

 

R – (Pausa) Nós estávamos falando sobre essas matérias que o Governo Militar introduziu nas escolas com o objetivo de desenvolver cidadania, mas era aquela cidadania do ame-o ou deixe-o. Então, todos os símbolos nacionais, bandeira, hino, o objetivo era desenvolver aquela cidadania de direita, absoluta direita. E isso causou no meio docente uma estranheza muito grande. Ao contrário dos objetivos do Governo Militar, tanto professores como no final, alunos desenvolveram verdadeira ojeriza por tudo que fosse símbolo nacional. Cantar o hino era atender ao Governo Militar, hastear bandeira, assunto de Direita. Coisa que é distorcida porque nada mais bonito que uma bandeira tremulando, né? Eu acho maravilhoso uma bandeira que desenvolva um espírito de verdadeiro civismo, mas ter espírito cívico naquela fase que eu me vi era atender ao Governo Militar, era ser de direita, uma coisa que era tida como muito negativa. Acho que na maioria dos casos foi prejudicial, não sei se atendeu ao objetivo do Governo Militar em alguma escola mas, no meu caso não atendeu. Eu dava Educação Moral e Cívica. Na escola pública tinha que seguir um livro de Educação Moral e Cívica e um livro de OSPB. Já na escola particular eu tive oportunidade de discutir problemas nacionais dentro desse conteúdo, não precisava usar livro e podia discutir. Aí, fiz isso com muito mais tranquilidade, mas sempre com muita reserva. Apesar de eu não ter pegado o auge da repressão, eu tive notícia de professores que foram perseguidos, professor que mencionou Marx na sala de aula, falava de Rússia, podia ser perseguido, podia ser acusado por um aluno e ter que prestar declarações no Dops. Essa fase foi uma fase muito difícil para os professores, nesse período eu não era professora ainda. Mas eu peguei um rabinho desse foguete porque dando Moral e Cívica e OSPB eu tinha que ter cuidado. Mas essa escola onde eu trabalhei, a Escola das Freiras Agostinianas, elas eram muito avançadas. Não sei se vocês sabem, até um centro de defesa de gente perseguida no início do Governo Militar era a Faculdade de Psicologia do Sebs. Eu peguei essa orientação das freiras agostinianas como estudante e depois como professora. A orientação delas é muito o oposto do que era esperado pelo Governo Militar. A gente tinha uma certa liberdade na sala de aula, os pais também eram um pouco mais arejados, não eram tão tacanhos. Não pode falar em Marx, então? Tem que fazer de conta que não existiu? Absurdo, né? A gente tinha um pouco mais de liberdade, mas de qualquer maneira tinha que ser um pouco contido, não podia exagerar. Isso foi muito ruim. Aliás, eu acho que foi péssimo na formação das gerações subsequentes ao Governo Militar.

Gente, eu estou falando tão misturado, depois vocês fazem a... Mas quando eu era estudante, fui estudante de faculdade de 61 a 64, a revolução gloriosa ocorreu no meu último ano de faculdade. Eu vivi uma atmosfera de luta estudantil muito bonita. Acho que estudante nunca teve força nenhuma, mas a gente acreditava piamente que a gente era capaz de mudar regime, de fazer de tudo e eu sou contemporânea do Serra, ele era Presidente da UNE [União Nacional dos Estudantes] quando eu era estudante e também participava da política universitária na minha faculdade. Nós vivíamos uma vibração muito grande, participava de assembléias em que a gente votava pela greve, pra apoiar operário não sei de onde, sabe? Era uma vivência muito intensa do jovem estudante na sociedade. É o que eu estava dizendo, força não tinha nenhuma, mas a gente acreditava que tinha, talvez tivesse, vai, não vamos ser tão negativos (risos). Mas com a ditadura tudo foi abafadíssimo, né? Eu me lembro perfeitamente de jornal do Estado de São Paulo publicando ‘Os Lusíadas’. A censura era tamanha nas matérias do jornal que para o local não ficar branco eles publicavam ‘Os Lusíadas’. E a gente que sabia, a gente falava: “Olha como isso está censurado”. No Jornal da Tarde publicava receitas e as receitas às vezes cortava no meio, tudo bem, a gente sabia que não era receita, que era a substituição da matéria. Então, sem informação. Pra vocês terem uma noção, eu agora estive na África do Sul, eu não acompanhei. É verdade que o apartheid acabou em 1990, já não havia mais censura, mas durante um período muito forte do movimento negro contra o apartheid na África do Sul, a gente ficou sem informação.... A luta popular, a gente ficou sem informação. Cheguei lá e falei: “Gente, eu não sabia disso, eu não sabia disso”. A gente sem informação fica burro. E os jovens não são estimulados a pensar, refletir. Meus filhos têm entre 37 e 43 anos e eles pegaram uma fase dura da escola, era a fase que eu fui professora, em que algumas escolas você podia, na dos meus filhos podia também, mas não tão abertamente como se trabalhava quando eu era estudante. Movimentos estudantis foram abafados, então, o jovem perdeu. Por que a gente ouve tanto, nos últimos tempos, “Eu detesto Política, não quero saber de Política” “Política? Tô fora!”. Como ‘política tô fora?’, você está sendo (governado?) por um cara aí. Você bem escolhe ou você não escolhe, você participa ou você não participa, mas você está sendo governado, queira ou não queira. Tem que escolher deputado, tem que escolher bem escolhido, escolher vereador, tem que escolher bem escolhido porque não adianta reclamar amanhã, dizer que você não gosta e tá fora, não tá fora. Mas isto é um efeito direto dessa política de opressão que a gente viveu nos anos 60, 70, 80.

 

P/1 – Ana, como professora de História, essa matéria tão simbólica para esse tipo de coisa. Logo depois desse movimento, depois da Ditadura, quando começa a abrir mais, falar, qual era a sua vontade com os alunos? O que você queria passar pra eles? Mudou a sua cabeça naquele momento, ‘pô, quero passar tais coisas’.

 

R – Já comecei com essa idéia. A escola onde eu trabalhei, a idéia filosófica de Educação era o seguinte: valorização do ser humano, cada um tem que se valorizar, entender o seu papel na sociedade e construir com os outros uma sociedade melhor. Sozinho você não constrói nada, mas com os outros você constrói. Primeiro você se conhece, se valoriza, pra valorizar o outro, conhecer o outro e trabalhar com o outro por algo melhor. Essa era a filosofia da escola onde eu trabalhei. E eu sempre trabalhei dentro desse pensamento. Eu ensinei História, aliás, eu aprendi História ensinando. Porque é assim, faculdade não ensina nada pra ninguém, você sabe disso, né? A gente só aprende mesmo lá na luta. E eu sempre procurei mostrar isso. Por exemplo, luta dos patrícios e plebeus em Roma, eu falava com eles em um tal entusiasmo, em como os plebeus conseguiram o Tribuno da Plebe a partir de um movimento de greve contra os patrícios, ou vocês aceitam a gente ter um representante nesse Governo ou nós vamos embora e a força da união da maioria acabou resultando na criação do Tribuno da Plebe. Eu contava isso pra eles com entusiasmo, até com um pouco de emoção porque eu queria passar pra eles essa noção, a noção da força, da união. Eu cantava musiquinha do saltimbancos, ‘todos juntos somos fortes, somos arco’, como é que é, não lembro agora... ‘Somos flecha’, eu acho que é uma coisa linda de entender, a minha função de professora era essa, mostrar pra eles que, embora membros de uma elite, porque escola particular inevitavelmente era os de posses, eles tinham que entender isso, que a união de todos é que produziria algo melhor pra sociedade, que isso reverteria pra todos, todas as classes. Sempre que eu tinha uma oportunidade de mostrar, através do fato histórico, aquilo que no fundo eu queria passar pra eles, que não era o fato histórico mas era o entendimento daquele fato histórico, eu procurava fazer. Sempre, em todos os momentos que eu trabalhei com eles.

 

P/1 – Como aquela história que você contou, do menino que se alfabetiza com você, você tem uma história símbolo disso, que mostra como eles conseguiam entender o que é fato histórico, o que é entender fato histórico?

 

R – Eu tenho muitas, mas não sei se vou me lembrar. Tem muitas, mas é muito difícil o professor saber o resultado do seu trabalho, sobretudo no meu caso, que trabalhava com adolescentes na faixa de 11 a 15. O adolescente de 11 a 15 é ótimo pra receber as propostas e as provocações, mas ele não consegue te trazer de volta. Eu recebia bilhetinhos quando se formavam e depois de encontrar com eles, já adultos, eu vi que se tornaram membros importantes da sociedade, conscientes do seu papel, alguns, nem todos, a gente sabe que não é todo mundo que consegue aproveitar. Mas como eles eram muito crianças, talvez o exemplo que eu possa contar possa ser sugestivo.

Eu sempre trabalhei essa idéia da união, a idéia de acreditar no outro e trabalhar em grupo, em sociedade. Porque não adianta você falar sociedade como um todo para um adolescente de 12 anos, você precisa concretizar, nós quatro aqui somos o grupo, com adolescente é assim. Por trás estava um objetivo maior, que é esse de mostrar a importância do um no todo e do todo pro um, porque inversamente, uma sociedade, um grupo que cresce, faz crescer o indivíduo. O indivíduo que cresce, faz crescer o grupo. É uma interação, né? Uma das séries, acho que era sétima, eles tinham uns 13 anos, queria mostrar isso pra eles. ‘Vamos fazer uma peça de teatro, vamos montar o descobrimento do Brasil’, aí já tem o contato das culturas diferentes, é interessante como você vê a cultura, como é que o português viu o índio, fazer eles pensarem sobre isso. Mas aí, um era o ator, um escrevia a peça, outro era o iluminador, outro era o responsável pelo som. E a classe montou uma pecinha, tinha duas classes daquela mesma série, não sei que série era, eram crianças, eram pequenos. O objetivo era mostrar pro outro, não era mostrar pra pai, nada, era uma classe mostrar pra outra classe. Gente, foi tão bacana, porque saiu. Claro, cheia de defeitos, de erros, mas eles ficaram em uma felicidade de trabalhar, eles achavam que estavam matando aula porque eu estava preparando a pecinha com eles ‘ai, ta matando aula, que delícia!’. Nada, gente, eu tava ensinando o que eu queria, tava ensinando a trabalhar em grupo, tava ensinando a ler texto, a entender o texto, tava ensinando a parte da História, que era o episódio do descobrimento do Brasil. E saiu a pecinha, uma classe mostrou pra outra e, no fim, foi tão boa que eles resolveram mostrar pros pais, mas foram eles que pediram. Aí, ficou melhor porque já tinham tido a experiência anterior. Mas o que eu quero mostrar com isso? Que o esforço conjunto, acreditarem neles, que podiam iluminar lá com aquelas lâmpadas de cabeceira, tudo bem, foi tudo improvisado, mas que eles podiam fazer daquele jeito, e fizeram, foi muito forte. E saiu uma coisa que não era de um, era de todos, sabe? Acho que talvez responda a sua pergunta, não sei, não tem nenhum aluno que eu saiba que tenha se tornado político atuante (risos).

 

P/1 – Uma conquista já (risos). Você conta com uma paixão bem grande os momentos de professora. Como foi escolher, decidir se aposentar?

 

R – Foi uma coisa alheia a minha vontade, eu não queria, tinha muito acervo ainda pra dar. Mas, como eu te contei, aconteceu uma reviravolta na escola, uma mudança de objetivos da direção. A direção propôs mudanças tão intensas que nós, professores, estávamos acostumados com aquele outro modo de trabalhar, não quisemos aceitar. Entramos em conflito com a direção e saímos. Foi um grupo grande de professores e orientadores que saíram no ano de 98. Imediatamente fundamos a Companhia de Estudos, porque a educação era, foi e continua sendo, pra mim, uma grande paixão. Embora hoje eu esteja afastada, eu não trabalho mais com educação, só dos netos (risos). Eu lamento, mas circunstâncias me puseram à parte. Eu não gostei de me aposentar, mas hoje eu aproveito, né? (risos). Passeio, viajo, vou visitar a minha filha em Nova Iorque (risos). Não queria mas, me obrigaram (risos).

 

R – (Pausa) Eu estava falando pra ela, quando você perguntou ‘a sua paixão’, realmente a profissão foi e é uma paixão, mas hoje, paixão são os netos (risos), que eu levei ontem lá no Catavento.

 

P/1 – Pra chegar nos netos eu vou voltar bastante, porque a gente deu um salto que veio lá da pergunta do sonho... Queria voltar bastante, lá pra infância. Você falou muito de escola, então, queria que você contasse a sua entrada na escola, o começo de alfabetização, o primeiro dia, a coisa mágica desse momento.

 

R – Também não era costume as crianças estudarem antes do primeiro ano, algumas crianças faziam jardim da infância, mas poucas. Eu fui direto pro primeiro ano, em 1950, de seis pra sete anos, e já comecei a ser alfabetizada. Alfabetização era com cartilha, silábica e com palavrinha, não foi um sofrimento, foi prazeroso pra mim. Eu gostei de ir pra escola e já caí… Jardim da infância a criança começa com brincadeira. Não, o meu já era oficial. Mas a minha mãe foi muito sábia, no ano que antecedeu a minha entrada na escola ela me deu de presente de Natal uma bonequinha que ela fez, ela costurou um uniforme, que era um uniforme bonitinho, saia xadrez preta e branca, camisa branca, gravatinha vermelha, era bem bonitinho o uniforme da escola que eu ia. E eu ganhei a bonequinha com o uniforme, então me afeiçoei aquela idéia da escola e fui sem sofrimento. Não me lembro de ter sofrido, não. Mas meninas separadas de meninos no recreio. Na sala de aula, no primeiro e no segundo não, mas terceiro e quarto, terceiro feminino, terceiro masculino. E o recreio era engraçado, a escola não era muito grande, tinha uma parte calçada e uma parte de terra. A parte de terra era dos meninos, que jogavam futebol, a parte de calçada era das meninas. Não podia por o pé do outro lado! E nem os meninos podiam ficar do lado da gente (risos), mas não podia por o pé. Era engraçado. E passou a fazer parte da cultura escolar, ninguém questionava. Não pode, não pode. Nem sei se alguém determinou, porque o recreio a escola não ia exigir.  Mas não sei, acontecia a separação (risos). Gozado.

P/2 – A escola era perto de casa?

 

R – A escola era perto de casa e muitas vezes eu ia e voltava a pé, tinha que subir uma ladeira.

 

P/2 – Mas sozinha, com os coleguinhas?

 

R – Não, sempre com alguém me buscando. Mas uma vez ou outra eu me lembro, já maiorzinha, ter voltado com amiga, a gente voltava conversando, conversando, era ótimo. Era longe, a escola era na Alameda Jaú e a gente tinha que descer toda a [Rua] Padre João Manuel até a [Alamed] Lorena, depois andar até a [Alameda] Casa Branca.

 

P/1 – E antes da escola não tinha contação de histórias na sua casa, não era comum?

 

R – Contar histórias?

 

P/1 – Ou mesmo ler livros pra ir estimulando, isso não existia?

 

R – Não.

 

P/1 – Você lembra do primeiro livro que você leu, ou dos primeiros livros que te marcaram?

 

R – Lembro. Um dos primeiros livros que eu li e me marcou foi Poliana, hoje a Poliana tá meio posta de escanteio, né? Mas eu acho a filosofia da Poliana legal, no sentido ‘vamos gostar do que a gente tem, a vida está aí pra ser vivida’. Não vamos ficar pensando ‘ah, como eu gostaria de ter um Mercedes-Benz’. Não tem, tem Volkswagen. Ótimo, vai me levar. Dizem que é uma filosofia meio conformista, mas eu discordo, eu acho que se a gente aprender a ser feliz com o que a gente tem, com o que está na nossa mão... É que ser feliz não depende dos outros, mas depende da gente, a gente pode ser feliz.

P/1 – E você leu esse livro?

 

R – Li. Li a Poliana, li outro de histórias de menininhas também, conhecido, mas não vou saber o nome. Li Monteiro Lobato, li “Reinações de Narizinho”, “Geografia da Emília”, vários títulos do Monteiro Lobato. E depois, você está falando de uma fase mais pra frente, meu hábito de leitura começou, eu já lia, gostava de ler, lia italiano, mas não entendia italiano. Pegava os livros do meu pai e lia, lia vários. Foi lançada uma coleção chamada Coleção Saraiva, a Saraiva resolveu fazer um clube de leitores e lançava um livro por mês e os participantes do clube tinham direito a comprar mais barato, eu não sei como que era, também não me prendo a essa parte. Minha mãe comprou pra mim e eu fiquei membro da Coleção Saraiva e eu recebia livro de autores nacionais e de autores estrangeiros, com uma tradução que eu não sei se era boa, se era ruim, eu sei que o que caía na minha mão eu lia. Um primeiro que tivesse marcado, fora Poliana, fora o Monteiro Lobato, ‘O Vento Levou’, gostava de romance. Gostava muito de ler romance, coisas de péssima qualidade, de uma revista que chamava Sedução. Eram historinhas, contos, romancinhos, caía na minha mão eu lia, e quando a minha mãe viu que eu gostava de ler aquilo ela falou: “Não, melhor comprar a Coleção Saraiva pra ela” (risos). Ai que eu comecei a ler esses autores e devorava. Li Machado de Assis aos 14 anos não entendendo a graça de Machado de Assis, mas eu gostei do livro. Li José de Alencar, li todos esses autores brasileiros e estrangeiros e fui reler Machado de Assis depois de adulta, eu falei ‘puxa vida, como é bom isso daqui’. Mas já era mais familiar pra mim, não tinha percebido aos 14, mas depois, aos 35, eu fui perceber a qualidade. Tinha me formado sem eu perceber, o gosto pela leitura e as coisas que fui aprendendo.

 

P/1 – Muito cedo você conhece o seu marido, 14 anos, mas antes disso já tinha namorado, como foi o começo da adolescência?

 

R – Foi difícil, meu pai era de família italiana e era muito bravo, mas não era um bravo aberto. Minha mãe que criava o clima: “Não, papai não vai gostar”. Eu não pude por sapato de salto alto, calçar meia de nylon, vestir saia justa, sei lá mais o quê, pintar o rosto quando adolescente, 15, 16 anos, como todas as menina faziam porque o meu pai não deixava. Já começou um certo cerceamento assim, tudo tinha que ser escondido, o namoro acabou sendo escondido também. Foi tudo muito complicado, eu tive uns “namoricos”, mas nada que se possa chamar de namoro antes de conhecer o meu marido. Conheci com 16, não com 14. Mas assim mesmo pode-se dizer que foi o meu primeiro namorado.

 

P/1 – Na época, quais eram as diversões de adolescentes?

 

R – Cinema, gostava muito de cinema. Leitura, como eu falei, li muito na minha adolescência. Música, gostava muito de ouvir a Parada dos Dez Mais, preferidos, os dez não sei o que lá. Todos os dias eu gostava de ouvir as paradas, as músicas. Eu sempre gostei de música, música popular, gosto de música clássica, mas não é uma coisa que eu conheça, nem mesmo do meu pai, que era música lírica. Eu gosto de música popular brasileira.

 

P/1 – E na época o que era popular?

 

R – Ah, Nora Ney, Carlos Galhardo (risos), essa gente. O primeiro disco que eu ganhei era da Nora Ney, ‘risque meu nome do seu caderno’. Ahhh, você sabe! (risos).

 

P/1 – E no cinema, o que estava passando?

 

R – Cinema? Lili, era aquela Luzes da Ribalta, todos aqueles filmes da Metro, eu gostei muito de assistir, Quo Vadis. E minha mãe me levava, íamos no centro fazer as compras, depois no Marabá. Aliás, ontem eu passei na frente desse cinema, Marabá está funcionando outra vez. Eu ia no Marabá, no Ipiranga, o Cairo, tudo cinema no centro, não tinham outros. Engraçado. Hoje nem pensar em levar uma criança ao Cine Marabá (risos). Minhas diversões eram essas, música, literatura e cinema. Teatro eu fui muito pouco quando menina, hoje procuro ir mais, mas quando criança não me foi ensinado o gosto pelo teatro não.

 

P/1 – E aí você conhece o seu marido... Conta como foi a história.

 

R – Eu conheci meu marido porque ele era amigo de um primo meu. Fiquei conhecendo, ele tinha 19 anos, eu tinha 16 (risos) e começamos a namorar um longo namoro que durou seis anos, mas desde o primeiro ano depois do início do namoro ele já sabia que iria casar comigo, compramos as alianças e andávamos com as alianças penduradas aqui, escondido de todo mundo. Com 17 anos andava com aliança (risos), que é essa aqui que está aqui, ó. Essa aqui, penduradinha. Posso dizer que escolhi um companheiro de vida aos 16 anos. Mas acho que não errei, não. Às vezes eu me pergunto: ‘Puxa vida, com 16 anos alguém tem condição de escolher a vida que vai ter?’ Mas nós fomos e somos muito felizes, muito afinados, um respeita o outro. Aliás, um conselho pra quem pensa em se casar: casamento não é fácil, é complicado, você precisa desistir de uma porção de coisas, de coisas do seu próprio indivíduo mas, ao mesmo tempo, você precisa saber que o outro também desiste em favor da relação. Que é aquela mesma história do um e do todo, é igualzinho. Um casamento será feliz à medida que um valorizar o outro e entender aquela relação da dupla como uma relação profícua, produtiva, que pode ser benéfica pra outras pessoas, no caso os filhos, netos, amigos.

 

P/1 – E como foi o dia do casamento?

 

R – Foi emocionante, a gente casava virgem naquele tempo. Seis anos de namoro, casava virgem. Uma coisa, ao mesmo tempo excitante e apavorante no meu caso, acho que pra ele também, coitadinho, deve ter sido difícil. Então, foi muita emoção, foi muita emoção mesmo. Estava doente, resfriada, tive que tomar umas bombas pra poder aguentar o casamento, mas foi lá e foi ótimo e foi como tinha que ser. Segundo as minhas filhas, este momento marcante de um casamento naquela época tinha uma sofisticação, não é sofisticação, tinha alguma coisa que hoje se perdeu. Porque era o momento que foi esperadíssimo pelos dois, pela menina e pelo rapaz, e a gente trabalhou pra conseguir aquilo. Era assim, raríssimas eram as meninas que não seguiam esse script, mas foi bom, não errei, acertei.

 

P/2 – Acho que no seu caso teve um simbolismo muito forte desses anos que vocês andaram com a aliança pendurada, assim, junto do coração.

 

R – É que ele era menino, eu era menina. Nós acabamos o nosso desenvolvimento juntos, já um influenciando o outro. Então isso foi muito positivo na construção do nosso casamento, eu acho que hoje eu sou uma pessoa mais segura, mais certa de mim porque ele me valorizou enquanto namorada, enquanto mulher e isso ao longo do nosso casamento até hoje. Então eu me vejo por essa ótica dele, por esse jeito dele me ver, de me valorizar. Acho que isso é benéfico e procuro fazer o mesmo, não sei se consigo (risos).

 

P/1 – Conta um pouco do primeiro filho.

 

R – O primeiro filho nós trouxemos grávido da lua de mel, tamanha era a pressa, né? Vocês podem imaginar (risos). Descontar o tempo perdido, então, já voltei grávida da lua de mel e meu filho nasceu quando eu fiz nove meses e três dias de casamento (risos). Ufa, nove meses e três dias, era importante naquele tempo, vocês nem podem imaginar como era. “Nasceu antes de nove meses de casamento!”. Todo mundo falava, era um horror. Era uma vila, São Paulo.

 

P/2 – E onde foi a lua de mel?

 

R – Nós éramos paupérrimos, pobrinhos de jó. Nós conseguimos uma casinha emprestada de um amigo em Ubatuba, ficamos uns dias em Ubatuba, foi uma maravilha, delicioso. Depois nós conseguimos um apartamento em Cabo Frio, que uma tia minha, aquela de Niterói, tinha um apartamento em Cabo Frio, fomos pra lá. Ah não, esqueci, o tio dele tinha um apartamento no Rio de Janeiro, nós ficamos uns dias no Rio, depois uns dias em Cabo Frio, aí voltamos pra São Paulo e fomos para uma fazenda de um casal amigo nosso no Paraná. Ficamos 50 dias em lua de mel. Assim, indo na casa dos outros, pegando emprestado (risos). Foi assim a nossa lua de mel, mas, lua de mel o que importa é o casal, não é o lugar, então...

 

P/1 – Depois do primeiro filho foram mais três. Como é que foi, conta um pouco.

 

R – Tivemos o primeiro filho, não tínhamos tido muito tempo pra namorar. ‘Agora vamos dar um tempo, vamos esperar’. Tinha surgido a pílula e eu não usei a pílula anticoncepcional porque era super recente, tinha acabado de surgir quando eu me casei. Eu até tinha uma caixinha na mão e não usei porque fiquei com medo, não tinha falado com o ginecologista, engravidei, como contei. Agora vamos esperar, tá bom. Esperamos, um ano e pouco depois a gente resolveu ter o segundo filho, parei de usar o anticoncepcional e engravidei da segunda filha. Aí achei que era muito forte, a pílula causava muitos efeitos colaterais e não continuei usando, aí a terceira filha foi no susto e a quarta filha foi no outro susto (risos).

 

P/1 – Qual o nome deles?

 

R – Luciano, Camila, Cristiana e Renata. Nós escolhemos nomes fortes que a gente acha ‘é feio ter apelido’, nomes fortes, Luciano, Camila, Cristiana e Renata. Ótimo. Lu, (Luniq?), (Que?) e Teté (risos), já assim. E até hoje a gente fala.

 

P/1 – E o que eles fazem?

 

R – O Luciano é advogado como o pai, tem o mesmo nome e é advogado como o pai, hoje trabalha em uma firma grande de advocacia, a especialidade dele é esporte e ele faz advocacia ligada com montagem de times de futebol, não sei direito, mas tem a ver com isso, em um grande escritório aqui de São Paulo. A Camila, segunda, é arquiteta, casou com um arquiteto e os dois tem uma sociedade com um arquiteto que já estava no mercado há bastante tempo, eles tem uma empresa grande de arquitetura. A terceira é estudante profissional, ela fez química na USP, não conseguiu terminar porque detestou matemática, os vetores da matemática, saiu e foi fazer o oposto, rádio e TV na Faap. Fez rádio e TV, trabalhou como produtora durante um tempo, mas viu que não era isso que ela queria. Foi fazer letras na USP, voltou pra USP (risos), está terminando letras agora, especialidade em Francês. Mas a vocação dela é dar aula e ela faz isso lindamente. Ela é professora de matemática e química, mas não em escola, porque química ela não terminou, nem matemática ela fez. Mas como ela estudou no Santa Cruz, que é uma escola forte, ela tem um preparo bom. E começou a trabalhar conosco na Companhia de Estudos, ela ganhou uma prática de ensinar e hoje ela dá aula particular, tem a agenda dela tomada do começo ao fim, dando aula, uma coisa que ela gosta de fazer. E como ela tá fazendo letras, eu até sugeri que ela fosse fazer psicopedagogia, porque assim ela pode atuar no todo de uma formação, já que ela gosta de estudar faz mais uma (risos).

 

P/1 – Falta uma.

 

R – Ah sim, falta uma. A última é arquiteta, nunca gostou de trabalhar com projeto, odeia, ela trabalhou em diversas coisas, cenografia para teatro, trabalhou em loja de móveis onde tinha desenho, trabalhou também em escritório de arquitetura, mas ela não gosta. Hoje ela mora em Nova Iorque e lá ela recebeu um convite para trabalhar como _____. No começo era só assistente, auxiliar da ____, depois ela fez o curso, se formou e hoje trabalha em uma imobiliária grande em Nova Iorque, _____, ela tá bem. É um trabalho bom porque ganha quando trabalha, também não trabalha o dia inteiro, né? Trabalha quando quer (risos). E tem liberdade para eventualmente vir para o Brasil, vem umas duas, três vezes por ano, e eu vou uma vez por ano.

 

P/1 – Há quanto tempo ela mora lá?

 

R – Ela está lá há três anos.

 

P/1 – Então ela virou um lugarzinho fácil pra vocês viajarem, vocês estão sempre indo pra Nova Iorque.

 

R – É, eu tenho ido pelo menos uma vez todos os anos. Eu brinco dizendo que conheço mais o metrô de Nova Iorque do que o de São Paulo, força do hábito, tem que usar porque lá ninguém tem carro, lá tem que usar metrô.

 

P/1 – Queria que você contasse um pouco da sua festa de 40 anos de casados.

 

R – Quando a gente fez 40 anos a gente resolveu fazer uma festa. Sei lá como vai ser aos 50, se eu vou estar bem. E a gente gosta de dançar, nós fazemos aulas de dança de salão até hoje, temos um grupo grande de amigos que gostam de dançar. ‘Ah, então vamos fazer uma festa, vamos fazer um baile até de manhã’. Fizemos uma festa pra festejar os 40 anos e foi muito bonito porque, claro, os meus padrinhos do religioso, todos já morreram, porque eu tinha escolhido tios, todos morreram, meu pai, minha mãe, tios, todos morreram. Mas os padrinhos do civil nós escolhemos amigos nossos e estavam todos na festa. Foi gostoso porque pudemos chamar os padrinhos do civil pra confirmar, pra eles serem testemunhas da confirmação do casamento depois de 40 anos, fizemos um brinde, foi muito gostoso, estavam todos, foi muito bom. Os filhos estavam lá, foi muito bom também.

 

P/1 – E os netos, você não contou ainda.

 

R – Os netos não foram, não. É a noite, né? Isso já tem quatro anos, o mais velho tinha oito naquela ocasião e ele tem sono cedo, não ia aguentar.

 

P/1 – E como foi virar avó?

 

R – Ixi, gente. A emoção de ser mãe é indescritível, primeira vez que eu tive um filho. Porque eu nunca fui uma mulher ligada com criança (risos), gostar de criança, sabe? Brincar com criança, nunca foi uma coisa que me encantou. Na gravidez eu tinha aquele amor teórico pelo filho, está aqui na minha barriga. De repente, quando nasceu o primeiro filho, é uma explosão de amor, é indescritível o sentimento da gente quando nasce um filho, foi uma coisa que eu vivi muito intensamente. Eu tava na maternidade e ouvi pela primeira vez aquela música italiana “Dio, come ti amo”, chorava copiosamente por causa do meu filho que tinha acabado de nascer. E a emoção com os outros filhos foi igual, evidente que o primeiro é o primeiro, mas os outros filhos foi muito bom, eu gostei muito de ter, embora a primeira, a terceira e a quarta não foram escolhidas, mas foram bem vindas. Eu curti a gravidez e curtia mesmo quando nasceu. Isso posto, eu precisei contar isso pra dizer a emoção do neto. Quando a minha filha foi ter o primeiro filho, que era o primeiro neto, eu estava na janelinha vendo, quando eu vi surgir aquele ser, envolto em muco, sangue, e que me foi trazido numa manta pra ver na janelinha, gente, a emoção é tão forte. Eu caí em um choro convulso, o choro é de alegria, a emoção se torna tão forte que você não tem como extravasar a alegria a não ser, acho eu, pelo choro. E foi muito bonito ter visto o nascimento do primeiro. Dos outros três eu não tive a sorte de ver por circunstâncias outras. A maternidade do primeiro neto estava em reforma quando nasceu o segundo filho da filha e eu não vi. Os outros dois nasceram em outra maternidade, eram filhos do filho, eu também não vi nascer, mas eu tava na maternidade. Eu vi o que foi possível e foi muito bom. É muito bom você ver sua continuação, é importante. São coisas que quando a gente é moço a gente não sabe, ‘ah, isso é bobagem’. Não é, é importante (risos).

 

P/1 – E depois de ser vó, como é que é?

 

R – Depois de ser vó é uma delícia, uma delícia. Me lembro que o meu primeiro neto ficou meu amigo em um dia muito especial. Eu tava lá com ele tomando conta e ele tinha o que, uns cinco, seis meses, já engatinhava. Aí, me pus também engatinhando, comecei a brincar, bater no chão, fazer ele dar risada. Ele ficou meu amigo aquele dia, e uma amizade forte que dura, sólida, até hoje a gente continua muito amigo. Ele está com 12 anos. Mas sou amiga de todos os netos, são ótimos netos, cada um do seu jeitinho, com a sua personalidade. Pra mim é uma grande curtição conviver com os netos. E poder, de alguma maneira, passar alguma coisa do que eu aprendi e dessa minha filosofia de vida, como passei pros filhos, sei que passei, e não passei dando aula, não. Porque filho você não pode chamar: ‘Agora você vem aqui que eu vou conversar com você sobre responsabilidade social’. Não é assim, sua vida é uma continuidade, é o exemplo, a conversa do dia a dia, maneira como você age com os subalternos, como age com eles mesmos. Esse é o modo de ensinar. Com os netos procuro fazer também, só que eu não educo neto, já digo pra filho: “Não me espere ser educadora de neto, eu passo as coisas que eu acredito, mas educador é você porque neto é pra brincar” (risos).

 

P/1 – Eu te perguntei lá atrás e agora vou retomar a pergunta: Qual é o seu sonho hoje? O que você sonha mais?

 

R – Meu sonho... Meu sonho é de alguma maneira conseguir deixar uma semente e essa semente é a crença no ser humano, passar pros meus filhos, meus netos e pra aqueles que eu convivo, para os alunos, quando pude, esse acreditar no ser humano, no potencial do ser humano, que aqui e ali se distorce, vai pra cá, vai pra lá, mas é o ser humano que tem a força de construir algo melhor. Não sei se eu vou ver, não sei se os filhos verão, mas é nisso que eu acredito (choro). Vocês me fazem emocionar.

 

P/1 – Muito bonito.

 

R – Mas é isso.

 

P/1 – Vou fazer a última pergunta. Ana, sentar aqui hoje, rever um pouco essa história, claro que tem outras milhares de histórias pra contar, a gente poderia ficar aqui...

 

R – Falei pra Rosali que a minha vida era uma vida comum, como vocês veem, uma vida comum como a minha tem muito pra contar (risos). Gostoso sentir isso.

 

P/1 – A sensação de ver a vida voltar, o que é pra você? Talvez não só aqui, mas em outro lugar, mas como foi hoje aqui?

 

R – Olha, muito agradável, foi muito bom. Vocês são pessoas muito agradáveis, encantadoras eu diria, e pessoas que se mostraram interessadas em conhecer uma vida comum. E me deu um grande prazer contar pra vocês o que foi a minha vida. Porque dentro disso que eu acredito, acho que daqui desse encontro nosso, nós quatro podemos sair melhores, tá bom? (risos). De novo (risos) (choro). É isso. E agora, vocês vão me deixar ver esse filme que vocês gravaram? Essa chorona! (risos)

 

P/1 – Obrigado Ana Maria, gostei muito.

 

R – Então tá bom, eu vou querer saber o que vocês vão fazer.

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