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História

A festa que vinha até a gente

História de: Severino Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

A vida de Severino Ferreira começou no Sertão de Pernambuco, Serra Talhada, em 12 de março de 1969. Ele viveu doze anos com o pai e a madrasta, mas não aguentou os maus tratos e fugiu. Fugiu da dura realidade, mas acabou sendo preso. Foi no leito materno em Brasília que tudo mudou, que veio a grande transformação de sua vida.

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História completa

Nasci próximo a Serra Talhada, em 12 de março de 1969. Quando eu dei a me entender que era uma pessoa, meu pai já não vivia com a minha mãe, aí cada um dos filhos tomou um destino. Eu nunca brinquei com criança; no tempo que era para eu brincar, minha madrasta me botava pra trabalhar. Eu via os meninos brincando de ciranda de roda, ficava muito doido pra brincar, mas ela não deixava. Por não ser filho dela, descarregava tudo em cima de mim, me batia muito.

  Quando convivia com meu pai, eu devo ter estudado no máximo dois anos. Ele era tipo andarilho, era carpinteiro e fazia móveis, quando uma pessoa morria ele fazia o caixão. Ajudei muito a fazer caixão, era uma coisa que me fazia ter medo. Acho que aquilo me afastou um pouco da profissão dele.

  Em Petrolina, no bairro Areia Branca, comecei a trabalhar com frutas, isso antes de fugir. A feira começava no sábado 3 horas da tarde, no domingo 11 horas acabava. No decorrer de seis meses, um ano, eu já tinha várias bancas. Eu não tinha dinheiro pra comprar, mas os donos das bancas me vendiam o que sobrava pra pagar com apuro, que seria com o dinheiro da própria mercadoria.

  Nesse dia minha madrasta tinha me batido, o que me levou a fugir dos meus pais, de ver o que ela me forçava a fazer. Tinha em torno de 11 a 12 anos. Pra fugir eu tive que ir pra rodoviária e chegando lá não tinha dinheiro, estava de short, chinelo havaiana, camisa simples. Pedi ajuda aos passageiros no sentido de passar como filho, foi a ideia que Deus me deu. Não consegui porque eu não tinha documento, ninguém queria me levar. Teve passageiros que me fizeram a proposta: “Olha, se você conseguir entrar no ônibus, tudo o que precisar no decorrer da viagem a gente banca pra você”. Eu consegui, e nesses ônibus de viagem costuma entrar um guarda pra vistoriar. O cidadão estava vindo na minha direção, o que eu fiz? Eu me abaixei debaixo daquela última cadeira. Ele chegou até mais ou menos a penúltima, olhou, não viu ninguém, voltou e foi embora, o motorista deu continuidade, e fiz a viagem. Eu contei a verdade, porque todo mundo estava vendo, pelas marcas que tinha no meu corpo. Todo mundo queria me ajudar.

  Ah, me senti perdido, sair de um lugar pra não sei onde, sem destino. Fui parar em Serra Talhada. Chegando lá, achando que a irmã do meu pai morava em Jatiúca, peguei um carro à noite, estava chovendo, o pessoal me deu dinheiro. Como não cabia dentro do carro, eu fui do lado de fora, “dependurado”, as pessoas me segurando pelo braço, pegando aquela chuva o tempo todo. Não tinha nada pra carregar, só o que tinha no corpo. E chegando na cidade eu tive a notícia de que ela não morava mais lá. Passei a noite, no outro dia me levaram pra casa dos meus tios lá em Serra Talhada.

  Passei um bocado de dia lá vendendo verdura e fruta na rua, a minha tia era muito boa pra mim. Aí eles resolveram informar pros meus pais onde eu me encontrava e meu pai chegou lá pra me buscar. Eu já tinha decidido a não ir mais com ele, conversei, com medo dele me bater, da minha madrasta, mas não me bateram. Ele chorou muito. Ele perguntou se era isso que eu queria, eu falei que era. Ele: “Pra onde você quer ir?”. “Eu quero ir pra onde está meu irmão”, aí me levaram pra morar com meu irmão.

  Ele era muito bom comigo, mas a mulher dele arrumou uma oficina para eu trabalhar, pra lixar carro, fazer serviço forçado. Eu muito novo ainda não dava conta de trabalhar em serviço pesado, o que aconteceu? Voltei de novo a fazer coisa errada. Que ela queria que eu aparecesse com dinheiro de uma forma ou de outra. Então vai lá de novo pegar as coisas dos outros... Sabia que era errado, que não era nosso, mas não sabia que aquilo era um roubo. E aí, mais uma vez, eu fugi, e fui detido. Esses dias que eu fiquei detido, eu passei muita fome, sofri muito. Não lembro se eu apanhei, se eles me bateram. Para sair da delegacia, dependia de uma pessoa de maior pra me buscar. Meu avô foi, conseguiu ficar sabendo através de um agente que trabalhava lá. Passei algum tempo morando com ele, inclusive não queria que eu saísse. Só que eu queria vir pra onde estava minha mãe. Então me trouxe pra Brasília. Foi aí que houve a grande mudança, transformação, que minha vida mudou pra melhor.

  Quando vim pra Brasília, eu não tinha muito conhecimento de nada. Chegando aqui eu tive outra decepção porque, acostumado com cidade, fui pro Queima Lençol. Quando eu cheguei lá de noite, falei: “Ah, cadê a rua? Não tem rua. Amanhã eu devo ver a rua”. No outro dia, quando eu acordo, que vou andar na rua, lá não tem rua, só tem mato pra um lado e mato pro outro. Até acostumar com a Fercal demorei muito, mas hoje tudo o que eu tenho foi através da Fercal, através das pessoas que me ajudam. Hoje eu me sinto o avesso do que eu era.

  Foi difícil até eu conseguir me adaptar, mas consegui. Fiz muita amizade e comecei de novo no ramo do comércio. A minha mãe mais o meu padrasto tinham um barzinho, eu pegava refrigerante dele, comprava bolo, fazia pão com ovo e ia vender na Ciplan. Com 13, 14 anos que eu deveria ter nessa época, todo mundo já começou a conhecer quem era o Severino que vende lanche na Ciplan, então todo mundo me ajudava.

  Depois eu comecei a trabalhar na firma Planalto. Foi daí que eu comecei a fazer o Arraial do Severino, no Queima Lençol. A ideia surgiu assim: meu irmão teve uma doença e o meu padrasto fez uma promessa, ele tinha que colocar uma árvore com fruta no meio da fogueira, colocava fogo na fogueira, quando essa árvore caía, tudo o que tinha na árvore era para quem estivesse ali pegar, criança, adulto. Foi aí que eu tive a ideia de começar uma festa junina. Fiz o primeiro ano, fiz o segundo, foi crescendo, crescendo, chegou um ponto que a Fercal é pequena pra fazer o Arraial do Severino. Fiz em torno de uns dez eventos no Queima Lençol, na minha rua eu fiz uns três, no seu Luiz eu devo ter feito uns quatro, cinco. Fiz mais uns três na Cohab em frente à Ciplan. O primeiro Arraial do Severino foi feito com radiola à pilha, com amplificador fornecido pela Tocantins, não tinha luz na época, eu comprei alguns lampiões, pedi outros emprestados. Então toda a comunidade participava: “Severino, o que você quer?”. “Preciso de lampião.” “E as palhas?” “Preciso de um caminhão.” Aí um me fornecia palha, um me fornecia o caminhão. [Quando fiz a primeira] eu tinha no máximo uns 14, 15 anos. Se não me engano, eu trabalhava na Brasília, uma firma que prestava serviço pra Tocantins. Na realidade eu fazia mais essas festas pra minha família se divertir. Ou seja, nós não íamos até a festa, a festa é que vinha até a gente. Foi assim que eu resolvi dar continuidade, fiz até pouco tempo. O Arraial foi interesse de mudar a visão da Fercal. E o interesse de mudar a Fercal foi quando a gente resolveu fechar a rodovia...

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