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História

A força de uma cultura

História de: Josephina Senken
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/12/2017

Sinopse

Josephina Senken é filha de lituanos emigrados para o Brasil. Passou a infância e a juventude na Vila Zelina, em São Paulo, de onde emigrou para os Estados Unidos. Lá casou-se com um filho de lituanos e sua família, vivendo em Nova York, preserva as tradições ancestrais. Mesmo hoje, com genros que não têm ascendência lituana e netos que falam apenas inglês. Seu relato demonstra a força de uma cultura. Como, neste mundo globalizado em que vivemos, lituanos de todo o mundo se encontram, se identificam, se entendem, se gostam. Dona Josephina, afinal, não é brasileira ou americana. É lituana, cidadã do mundo.

História completa

Nasci em São Paulo no dia 12 de maio de 1937. Meus pais eram Francisco Buzas e Ana Buzas. Minha mãe era de uma família de oito crianças, quatro irmãos e quatro irmãs. Meu pai era de uma família de sete, cinco irmãs e dois irmãos. Eles eram vizinhos na Lituânia. Meu pai gostava muito da minha mãe, estava completamente apaixonado por ela, mas minha mãe não gostava dele. Ela ia aos bailinhos e não queria dançar com meu pai. Então a minha mãe conhecia um rapaz, dançava, o rapaz acompanhava ela até em casa e nunca mais aparecia nos bailes. Enfim ela descobriu que meu pai era amigo dos meus tios, que batiam nos rapazes que se aproximavam dela. Eles queriam que o meu pai casasse com a minha mãe.

Um dia chegou alguém à Lituânia procurando empregados para trabalhar em plantação de café no Brasil, e o meu avô, pai da minha mãe, decidiu vir com toda a família. Meu pai estava tão apaixonado que convenceu  a família dele vir para o Brasil também.

A minha mãe e o meu pai foram trabalhar em fazendas diferentes em São Paulo. Minha mãe, vendo quanta gente preta havia na fazenda, resolveu casar com meu pai, que pelo menos era branco. Isso ela contava. Quer dizer, meu pai precisou vir da Lituânia para encontrar a minha mãe no Brasil e casar.

Fomos morar na Vila Zelina. Quando chegamos, o bairro praticamente só tinha a igreja, a Paróquia São José de Vila Zelina, uma estrutura grande construída por lituanos e com padres lituanos. O resto eram terrenos vazios e uma ou outra casa. Então os lituanos começaram a comprar terrenos e construir casas perto da igreja e o bairro se tornou lituano. Mais tarde vieram quatro freiras lituanas dos Estados Unidos e abriram um colégio.

Éramos três irmãos e três irmãs. Tive uma vida muito alegre, num ambiente sadio. Minha mãe era uma dona de casa muito boa. Tínhamos problema com meu pai porque ele gostava de beber e quando bebia ficava um pouco agitado e nervoso, mas caso contrário a vida foi muito feliz. Nós morávamos em uma rua sem saída, sem asfalto, então sempre estávamos pulando amarelinha, pulando corda. À noite, se tinha água a gente tomava banho, se não tinha, não tomava, porque naquela época não era tudo tão fácil. Era água do poço, não tinha encanamento, não era abrir a torneira e ganhar. Se você quisesse tomar água, ou lavar uma roupa, tinha que pegar o balde, descer o balde lá para baixo do poço, pegar a água, puxar para cima. O fogão era à lenha, e era preciso esperar o fogo pegar, não era só abrir o gás e já ter fogo. Dormíamos todos num quarto só. Em cada cama de casal dormiam três pessoas. Quando eu conto para as minhas filhas, elas não acreditam que a vida era tão simples. E a gente era contente com o que tinha.

Estudei o primeiro ano na garagem de uma senhora. Havia uma escola maior, mas no caminho tinha um barranco e quando chovia tinha barro você deslizava, era muito ruim. Então minha mãe decidiu me colocar numa escola paga, católica, perto do bairro onde a gente morava. A escola das freiras lituanas. Eu sempre pertenci à igreja, gostava de ir à igreja com as freiras, tinha muita amizade com elas, e era feliz assim. Eu pertencia ao coral da igreja, que era em lituano, e pertencia ao grupo de dança folclórica, que é também lituana. A gente se apresentava na televisão com as roupas e as danças lituanas quando tinha a festa internacional. O coral cantava na missa das 11 horas aos domingos, que era lituana. E também foi convidado para muitas atividades na televisão, no rádio. A colônia lituana era bem unida. Para as danças usávamos o traje lituano que é muito bonito. A saia mais ou menos com cores escuras: não pode ser cor de rosa, claro, tem que ser verde escuro, azul bem forte. No traje não entra a cor preta. A blusa é bordada com os desenhos lituanos. Tem um avental também, geralmente com desenhos de tulipas ou de umas tranças. E tem um chapeuzinho com desenhos que nós mesmos fazíamos, porque não tinha como comprar.

Lembro que uma vez eu tinha que participar de uma inauguração na catedral, na Praça da Sé, com o traje lituano. Só eu e minha amiga estávamos disponíveis, mas a gente tinha que levar a bandeira lituana e não tinha nenhum rapaz para ir conosco, segurar a bandeira e a gente ficar ao lado. Nós pegamos um rapazinho nosso amigo, escurinho, sem cara de europeu, ele colocou a roupa lituana e foi. Nossos amigos que não eram lituanos gostavam de participar das nossas atividades, era muito legal. Com os amigos nós falávamos em português, e em casa em lituano. Muitas vezes a minha mãe falava em lituano e a gente respondia em português, era uma mistura.

Depois que eu terminei o primário tinha que procurar emprego para ajudar em casa, porque meu pai era o único que trabalhava, com seis filhos. Minha mãe costurava, me dava os retalhos que sobravam, me ensinava como costurar os vestidinhos de boneca. Quando fiz 13 anos, minha irmã e eu fomos trabalhar como costureiras no Bom Retiro. Eu gostava de trabalhar e tinha que ajudar em casa. Era um modo de fazer minha mãe progredir, construir uma casa melhor. A gente ganhava o ordenado no fim do mês, entregava para a minha mãe, ela fazia a conta de quanto você precisaria para pagar a condução, para um lanche, e o resto ficava com ela. As coisas eram difíceis. Se eu quisesse um sapato bom, da Rua Direita, tinha de juntar dinheiro. Uma vez quis comprar uma capa. Juntei o dinheirinho, mas quando cheguei à loja o preço havia subido. Demorou para eu conseguir aquela capa. Mas acabamos construindo uma casa muito boa com ajuda das três irmãs que trabalhavam mais. O primeiro sobrado da Vila Zelina.

Quando não estava trabalhando, geralmente eu estava em grupo. A gente saía muito. A primeira vez que vi o mar foi assim. A igreja fez um piquenique, alugou um ônibus e fomos à Praia José Menino, onde havia umas cabanas para a gente trocar de roupa. Ninguém sabia nadar, mas íamos um pouquinho na água e ficávamos um segurando no outro. Passamos o dia inteiro. Voltamos vermelhas, queimadas. No dia seguinte tínhamos bolhas. Mas logo esquecemos as dores, houve outros piqueniques. Íamos à Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém. Uma vez o nosso coral foi convidado a cantar na igreja, na cerimônia de casamento da filha do prefeito de Itanhaém. Eram muitas atividades. A igreja, o coral, as danças ajudaram bastante a juventude. Se não tivesse aquilo eu não sei o que faria, porque era um modo de ter amigos, de se encontrar.

Depois minha irmã casou, ficou grávida, teve neném e já não queria mais trabalhar em Bom Retiro. Então, nosso patrão trouxe uma máquina para casa, trazia o serviço, a gente costurava e depois levava o serviço pronto a ele. Isso durou um bom tempo. Nós duas trabalhávamos. Mas eu trabalhava em casa durante o dia e à noite ia à escola Orosimbo Maia, para pegar um serviço melhor. Foi então que arrumei o serviço na companhia farmacêutica Andromaco, no Ipiranga. Trabalhei no escritório por quatro anos. Depois arrumei outro emprego no centro da cidade, numa companhia de publicidade, J. Walter Thompson, onde fiquei na contabilidade por uns sete anos.

Foi aí que uma amiga que estava indo para os Estados Unidos me convidou para ir também. Eu estava com 27 anos. Perguntei: “Quem não quer ir para os Estados Unidos?”. Mas não tinha dinheiro para ir como turista. Aí o pastor da paróquia lituana, que viajava muito para os Estados Unidos e para o Canadá, nos perguntou se gostaríamos de ir para o Canadá, porque lá havia muitos rapazes lituanos, que haviam migrado depois da Segunda Guerra, e queriam casar com moças lituanas. Mas eu queria ir para os Estados Unidos. E ele me ajudou. Falou: “Eu arrumo alguém para te chamar”. Então um casal do estado de Connecticut, que era amigo do pastor, me chamou. Fez um documento chamado “Affidafit” e se responsabilizou por mim por um ano. Se eu ficasse doente, se precisasse voltar com alguma emergência, ela seria responsável. Foi a minha mãe que pagou a minha passagem, porque eu nem tinha dinheiro.

Eu fui para os Estados Unidos com cem dólares no bolso! Mas não não fui como clandestina, fui como imigrante. O consulado americano me deu o visto e não precisei pagar a passagem de ida e volta. A gente se arrumou bem, as duas fomos bem vestidas. Fiz um tailleur, comprei o chapéu e fui. Naquela época o pessoal viajava com elegância, todo mundo no avião estava bem vestido. Nós também. Teve festa de despedida no aeroporto de Congonhas. Isso foi em janeiro de 1965. Descemos em Nova York e vimos aquele branquinho, porque tinha nevado. Trocamos de avião e fomos para o estado da Pensilvânia. Lá estava cheio de neve. A gente não tinha bota nem casaco apropriado, mas foram nos buscar no aeroporto, logo entramos no carro, nossa amiga encheu a gente de blusas quentes. No dia seguinte fomos comprar bota e no outro dia fomos tirar nossa documentação. Eu já pude procurar emprego.

Me aventurei. Mas o lituano me ajudou muito quando fui para os Estados Unidos. E pela religião você entra em contato com as outras pessoas, o que também me ajudou. Quando fui morar lá eu logo fui procurar uma igreja lituana e fiz meu ambiente. A minha intenção era ficar no estado de Pensilvânia, onde estavam minhas amigas. Mas não era tão fácil arrumar emprego. Aí decidi procurar Nova York. Tinha uma amiga que morava lá, telefonei e ela disse: “Você sabe costurar. Vem que aqui está cheio de emprego de costura”. A senhora dona da casa onde ela morava trabalhava em costura e logo me arrumou um emprego em uma oficina que fazia terno para soldados. Depois que eu estava trabalhando, tinha mais contato, já não tinha medo. Fui estudar inglês numa escola para imigrantes. Fiz entrevista na Varig e depois na Petrobras (Petróleo Brasileiro S.A.), em Nova York, no centro da cidade. A Petróleo Brasileiro me aceitou e acabei ficando lá.

A cultura americana é completamente diferente da brasileira, mas sendo lituana eu entrei na cultura lituana lá. Não procurei brasileiro, fui procurar lituano. Fui à igreja lituana, cantar no coral. Assim que você chega, não importa de onde tenha vindo, se você fala que é lituana, o pessoal te abre os braços.

Conheci meu marido no primeiro dia em que eu fui à igreja. Ele me viu e falou: “Eu me encantei com você”. Ele morava no mesmo bairro, no Queens, distante três quarteirões, então se oferecia para ajudar, dar carona. Naquele ano de 1965 estava acontecendo a feira internacional, World Fair. Ele me pegou para ir à igreja às dez horas da manhã e nós só voltamos à meia-noite. Depois eu disse a ele que se todo passeio fosse longo como esse, eu não ia sair com ele nunca mais. Ele deu risada, e falou: “Não, foi só esse, porque eu queria que você visse toda a feira que logo vai terminar”.

Um dia o dono da casa onde eu morava me perguntou: “Você tem algum pretendente no Brasil?”. Eu falei: “Não, eu não deixei ninguém”. Então ele falou assim: “O que você está esperando? O Charles é um rapaz bom, um filho muito bom. Ele tem uma vida confortável e vai te dar conforto também, é um rapaz honesto. Por que você não dá chance?” E quando o Charles voltou de umas férias que tirou em Miami eu disse a ele: “Está bom. Agora nós vamos namorar seriamente”. A partir daí passamos a passear de mãos dadas.

O Charles não escrevia bem em lituano. Ele pediu ajuda a um padre conhecido dele e escreveu uma carta a minha mãe e ao meu pai me pedindo em casamento. Mandou a carta aos meus pais antes de me pedir em casamento, antes de ficarmos noivos. Eu achei engraçado. Ele falou: “Eu já sentia que você ia aceitar”. Ele estava confiante de que ia dar certo.

No casamento não tinha ninguém da minha família, só umas poucas amigas, mas da parte dele teve quase 300 pessoas. A cerimônia foi na igreja em que a gente cantava com o coral. E foi durante a missa, o que é raro acontecer, mas como ele era coroinha desde os seis anos de idade, ajudava no altar, morava perto da igreja, estudou na escola que pertencia a essa igreja, tinha amizade com o padre, então aceitaram fazer o nosso casamento durante a missa. A festa foi meio lituana e meio americana. A orquestra tocava música lituana e valsa. Os lituanos gostam muito de dançar polca.

Depois do casamento embarcamos para o Brasil. A primeira semana foi de lua de mel no Rio de Janeiro. Eu tinha 30 anos. Depois, em São Paulo, apresentei o Charles para a minha família. As conversas foram em lituano e tudo correu bem.

Quando voltamos da lua de mel fomos para a casa dele. Era uma casa de dois andares. A irmã e a mãe dele moravam em um andar e nós ocupamos o outro. Mas eu perdi um filho de quatro anos e aquela casa tinha muitas memórias, então por um tempo saímos de lá, compramos outra casa. Mais tarde meu marido ficou doente, com Parkinson, e nessa casa em que morávamos sozinhos não tinha como colocar um dormitório para ele no térreo. Enquanto ele conseguiu andar, subir e descer escada, foi bom, mas depois vendemos nossa casa e voltamos para a casa da família. Minha sogra já tinha morrido, só a minha cunhada estava lá. E é nessa casa que estou agora. Você lembra coisas boas. As ruins você deixa para trás.

Minha filha mora comigo. Nunca estou sozinha. Ela faz o jantar, eu lavo a louça, meu genro é muito legal e os meus três netinhos também. Todo verão a gente vai acampar em Vermont. Ao ar livre, na montanha, sem celular, sem televisão. Quando você está lá em cima parece que o céu está perto, você quer pegar as estrelas. É acampamento lituano. Minhas filhas não são casadas com lituanos, uma é casada com um descendente de irlandês. O outro genro tem mãe colombiana e pai irlandês. Mas eles são envolvidos na colônia lituana. As crianças não sabem falar lituano, mas a cultura é lituana. Tem a casa principal onde ficam a cafeteria e o salão onde fazemos programas. Em volta tem 12 casinhas em U. Cada casinha tem 12 camas beliches, um banheiro. Vamos para A Semana da Família. Ficamos naquela casinha todos juntos. As crianças são divididas pela idade e têm atividade o dia inteiro. Eu ajudo com as crianças pequenas.

Fui à Lituânia pela primeira vez para um festival de canções com o coral de Nova York. Dois mil cantores de todo lugar. Do Brasil, dos Estados Unidos, do Canadá, da Austrália. Todos os corais juntos. Foi muito bonito. As igrejas da Lituânia parecem museus. As estruturas, os desenhos. Os russos usaram as igrejas como depósito. Agora elas estão sendo restauradas. O povo é camarada, alegre, gosta de cantar e de dançar. Voltei outras vezes. Me sinto lituana.

Muitas vezes eu me sinto culpada por ser nascida no Brasil e me sentir mais lituana do que brasileira. Porque fui criada num ambiente lituano e não sei muito da cultura brasileira. Mas São Paulo é uma mistura de nações, é como Estados Unidos.

 

Editado por Eliana Giannella Simonetti.

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