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História

A literatura com paixão

História de: Luiz Fernando Ruffato Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/03/2014

Sinopse

Premiado escritor, Rufatto recorda em seu depoimento a infância pobre vivida na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Fala sobre o primeiro trabalho, aos seis anos, ajudando um vizinho em seu botequim e dos empregos que teve em Cataguases e em Juiz de Fora. Em relação ao período em que cursou Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora, ele revive a descoberta da poesia e da literatura. Lembra sobre o difícil começo na cidade de São Paulo, quando morou na rodoviária Tietê e sobre como iniciou sua vida de escritor. Discorre sobre o processo de pesquisa e escrita do romance “De mim já não se lembra” no qual ele reconstrói de forma ficcional cartas trocadas entre seu irmão e sua mãe, ambos já falecidos.

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História completa

O meu nome é Luiz Fernando Ruffato Souza, eu nasci no dia 4 de fevereiro de 1961, em Cataguases, Minas Gerais. O meu pai era Sebastião Cândido de Souza, embora ele se chamasse também Sebastião Nalon. A minha mãe é Geni Ruffato de Souza.

 

Meu pai era uma pessoa muito curiosa, porque a mãe dele morreu no parto, logo depois do parto dele, e o pai dele tinha morrido durante a gravidez dele. Então, ele foi criado por uma família italiana, Nalon. O meu pai foi criado para ser uma espécie de empregado da casa. A minha avó paterna, que o criou, ela o tinha não como filho, mas ela tinha duas ou três pessoas agregadas à família. Desde sempre ele era empregado para tudo. Ele fez até o terceiro ano primário, não sei até como ele fez até o terceiro ano primário e talvez não sei se ele percebeu ou se as coisas levaram ele a perceber que ele tinha que sair daquela situação.

 

A minha mãe era filha de imigrantes italianos. O meu avô era o Giovanni Ruffato e a minha avó Maria Nicheletto. O meu avô chegou com 16 anos e a minha avó chegou com dois ou três anos. Eles vieram, como todos imigrantes daquela época, passando fome. Ele começou trabalhando na fazenda de café, ele conseguiu juntar dinheiro para comprar uma pequena propriedade em Ubá, nessa região do Córrego do Sapo, ele tinha vocação para agricultura, depois comprou um lugar maior, que era esse em Rodeiro onde minha mãe já nasceu.

 

Eu sou o caçula, eu tinha o meu irmão mais velho que nasceu em Rodeiro, José Célio, depois teve a minha irmã do meio, que é a Célia Lúcia. Quando eu nasci a gente morava num cortiço na Vila Teresa, que o chamado Beco do Zé Linco, que eu transformo em Beco do Zé Pinto no “Inferno Provisório”, que era um cortiço onde moravam famílias operárias, mas misturado com pessoas que traficavam, eu acho que traficavam drogas. Eram famílias muito pobres e tinha problemas muito sérios, porque, como eu disse, tinham famílias mas eram desestruturadas, porque tinha muita violência, muita violência. Eram casinhas mesmo, eram como casas geminadas, não sei, devia ter um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez casas que formavam aqui um beco e aqui um pequeno beco também, na verdade esse beco era mais comprido. Eu brincava com as crianças, na verdade, de nível social melhor que eu. Assim, eu era muito tímido e muito retraído, e trabalhava. Desde os seis anos de idade eu trabalho, então, quando eu ia brincar com eles, eu ia jogar futebol.

 

Comecei a trabalhar num botequim lá no beco mesmo com seis anos, depois eu fui trabalhar no Bazar Leitão, que era um armarinho. Esse armarinho vendia tudo, assim, botão, vendia agulha, vendia um monte de coisa, fecho éclair. Depois eu fui fazer tornearia mecânica no Senai, que a minha mãe claramente percebeu que se eu não tivesse uma profissão eu ia virar operário da fábrica. Ela achava que aquilo era pouco, que a gente tinha que tentar crescer, e o meu irmão já tinha feito Senai, ele já era torneiro mecânico. Mudei para Juiz de Fora e arrumei um emprego numa oficina mecânica. Eu dormia na oficina mesmo e eu fui procurar um lugar para estudar, para fazer o terceiro ano, porque a minha meta era terminar o terceiro ano, porque eu achava importante ter o secundário completo. Mas um dia eu andando ali no centro da cidade, eu passei em frente a um cursinho e vi um monte de curso e tal, eu falei: “Puxa vida, tem tudo a ver comunicação, telecomunicação, é isso que eu vou fazer”. E eu fui fazer o cursinho. Quando foi na época de fazer o vestibular eu coloquei Comunicação, e eu descobri que comunicação não tinha nada a ver com telecomunicação. Veio a época do vestibular, eu fiz a prova e tudo e não é que eu dei um azar eu passei em primeiro lugar, por acaso também.

 

Logo depois eu descobri que tinha uma bolsa chamada crédito educativo. Eu fui na Caixa Econômica Federal fiz o crédito educativo, então, logo depois eu comecei a receber o crédito educativo, era uma mixaria, mas pagava a minha república e ainda sobrava um dinheirinho para pagar a comida, que eu comia no RU. Abriu um jornal chamado Tribuna de Minas um ano antes e todo mundo do Diário Mercantil foi trabalhar no Tribuna de Minas. Então, eu cheguei no jornal e não tinha ninguém para trabalhar no Diário Mercantil. Fui trabalha com eles sem saber absolutamente nada. Eu sempre fui um péssimo jornalista. A universidade era de manhã, eu sai de lá e ia para o jornal e ficava até a noite. A universidade eram meninos todos de classe média para alta, não tinha média baixa. Acho que foi a época da minha vida que mais estudei, eu estudei matemática, estudei química, estudei física, estudei biologia, estudei geografia.

 

Eu tinha que fazer as minhas coisas, foi nesse momento inclusive que eu descobri a literatura como leitor. O meu pai, quando eu tinha mais ou menos, seis, sete anos, meu pai começou a frequentar as igrejas pentecostais, porque na época era uma coisa que era muito pouco visível. Embora sendo semianalfabeto, ele teve que se esforçar para ler a bíblia. Até então eu nunca tinha visto alguém lendo nada, lia na escola, mas ler livro eu nunca tinha visto. Com isso eu comecei a achar muito interessante, o meu pai ler a bíblia, ele lia com muita dificuldade. Eu lia para ele, não é que eu lia para ele, eu ajudava ele ler, ele lia muitas passagens que ele não entendia. Interessando por leitura eu comecei, por exemplo, quando a gente ia na farmácia eu pegava os almanaques do Biotônico Fontoura, almanaque do Laboratório Catarinense, comecei a ler e achava aquilo muito engraçado. Com o passar do tempo também comecei a me interessar por ler jornal. Vim retomar de verdade o contato com a literatura quando fui para Juiz de Fora e entrei na faculdade. Porque embora eles pedissem para a gente ler uns livros horrorosos que não me interessavam nem um pouco, mas como eu disse eu estava estudando um monte de coisa e aqueles livros para mim, por exemplo, eu lia biologia, geografia, história como romances, eu lia aquilo e adorava. Eu lia literatura, brasileira particularmente eu achava muito estranho porque assim, todo mundo falava que a literatura era a representação da realidade, eu falava que coisa curiosa. E passou pela minha cabeça assim: “Puxa vida, eu podia escrever essas histórias, eu podia me dar essa missão de escrever essas histórias”.

 

Vim para São Paulo ainda não escrevia nada, sempre com essa ideia de que eu quero escrever um dia. Em 96 eu trabalhava no jornal eu era editor de política e nos fins de semana que eu não trabalhava eu ia para o jornal, nos horários contrários onde o pessoal trabalhava, no sábado eu ia depois de quatro da tarde, quando não tinha ninguém lá e no domingo eu ia às seis da manhã e ficava até uma hora da tarde mais ou menos escrevendo no computador, eu não tinha computador nem nada. Escrevi, escrevi e imprimi aquilo tudo. Eu escrevia era o que foi o meu primeiro livro que é o “História de Remorso e Rancores”, que não está mais na minha bibliografia, porque eu o incorporei ele ao “Inferno Provisório”. Em 98 saiu esse primeiro livro, teve uma certa repercussão. A editora ficou muito entusiasmada: “Você tem outros livros, vamos publicar outro livro. “Eu tenho” não tinha. Sai correndo, escrevi outras histórias que também chamam “Os Sobreviventes”, que também estão incorporados no “Inferno Provisório”. Esse livro acabou ganhando o prêmio Casa das Américas. Ela falou: “Então, vamos publicar” Esse saiu em 2000. “Vamos publicar outro livro, mas agora quero um romance”. Eu falei: “Ah, talvez eu tenha”. O primeiro livro com muitas mudanças, ele é o segundo da série e o segundo livro “Os Sobreviventes” é o primeiro da série.

 

A partir de 2005 começaram a sair os volumes e até 2011 quando saiu o último, é uma cronologia um tanto quanto confusa, mas intencionalmente confusa, mas ou menos ela vai de 1950 a 2000. Eu vim para São Paulo em 1990. Em 1983 eu me casei em Juiz de Fora, na época, a Edite, ela era estudante de medicina. Quando eu me formei eu já trabalhava no jornal, e eu fiquei no jornal até 1985, quando fui demitido. Fui para Alfenas, voltei, demitido também e fiquei trabalhando como gerente de lanchonete, vendendo livro. Até que quando chegou no final de 89, nessa época meu casamento já tinha ido embora. Ela foi para Belo Horizonte e o Felipe, que é o nosso filho, ele foi morar com os avós em Ubá. Eu vim para São Paulo, cheguei aqui e logo, foi até rápido, eu arrumei emprego rápido no Jornal da Tarde, do Estadão. No jornal eu comecei a trabalhar com o Celso Ming fazendo “Confira o seu dinheiro”, e era curiosíssimo, porque eu trabalhava fazendo cobertura do mercado de ouro e dólar e morava no Tietê, na Rodoviária do Tietê durante a semana. A Heloisa Prieto vira um dia para mim e fala assim: “Luiz, um dia eu queria muito trabalhar com você, queria muito trabalhar com você” e falou sobre um romance na primeira pessoa. Eu comecei a pensar, eu não sei escrever romance na primeira pessoa, não dá, isso nós estamos no ano de 2006, o livro saiu em 2007, eu falei vou ter que pensar agora em alguma coisa, a primeira coisa que veio a cabeça eu queria muito ter uma catarse com a morte da minha mãe. Eu comecei a pensar: “Puxa vida, eu queria muito rememorar aquele ano que a minha mãe morreu” eu comecei a partir daí, falei: “Puxa vida, minha mãe, rememorar minha mãe, a troco de que?” Quer dizer, e a história foi se construindo na minha cabeça, porque eu comecei a falar que eu tive duas grandes perdas muito importantes, foi 78 meu irmão e 2001 minha mãe, eu falei: “Como eu poderia juntar essas duas mortes, que foram muito traumáticas para mim?”.

 

Eu comecei a pensar nisso, quer dizer, o que é que ligava a minha mãe ao meu irmão além do fato de ser mãe e filho? E se ela de repente tivesse guardado alguma coisa importante dele, para que ela pudesse sempre estar próximo dele, e eu falei: o que seria uma coisa muito importante? Eu fui para as cartas, que era mais ou menos depois para mim era óbvio, claro! As cartas era uma maneira que ele tinha de estar na vida dela e ela guardar as cartas era uma maneira de ele estar na vida dela, dele se manter ao longo do tempo na vida dela. Só que essas cartas não existiam, então, eu comecei a fazer um exercício de pensar. Como as cartas que eu queria escrever era exatamente de um torneiro mecânico escrevendo para uma mãe analfabeta, que quem lia as cartas inclusive não era ela, eram pessoas que liam as cartas para ela, eu tive que abandonar tudo aquilo, eu tive que tentar encontrar uma linguagem adequada para esse tipo de carta. Eu comecei a lembrar das cartas que eu lia, quando eu era criança para minha mãe, a coisa que eu mais tenho incrível é a minha memória. Eram cartas, por exemplo, alguma tia ou um tio ou alguém mandava para a minha casa. Assim saiu o livro “De mim já não se lembra” que são cartas que meu irmão escreveu para minha mãe quando morava em Diadema. Tem um monte de personagens de “De Mim Já Não Se Lembra” que estão misturados com personagens reais que estão no “Inferno Provisório”. Essa primeira parte foi relativamente fácil, foi difícil de escrever, porque foi catártico mesmo. Eu tive momentos em que eu não conseguia escrever, porque eu estava chorando desesperadamente, porque era muito pesado para mim.

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