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História

A melodia do trabalho

História de: Valdenice Ferreira Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2008

Sinopse

Mineira nascida em 15 de novembro de 1952, Valdenice Ferreira aprendeu desde cedo os afazeres domésticos. Crescida em uma fazenda, ainda criança já roçava, cuidava de animais, plantas, cozinhava e lavava roupa no rio. Esta última tarefa, que realizava sempre cantando as cantigas que os mais velhos ensinavam para amenizar e alegrar o trabalho, tornou-se profissão. Quando mais velha, Valdenice integrou o grupo As Lavadeiras de Almenara. São mulheres, lavadeiras desta cidade do Vale do Jequitinhonha, que cantam as cantigas aprendidas na infância. Nesta entrevista, Valdênia fala sobre o coral das Lavadeiras de Almenara e de como sua participação neste trabalho mudou sua vida. Na narrativa há muita água, muita roupa batida e quarada nas pedras e, invariavelmente, muita música que harmoniza com fortes melodias o trabalho daquelas que ainda dedicam seu tempo a lavar roupas na água corrente dos rios.

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História completa

P1 – Vamos começar então, dona Valdenia?

R – Embora.

P1 – Eu quero que a senhora diga para a gente o nome completo da senhora.

R – Meu nome é Valdenice Ferreira Santos.

P1 – E onde que nasceu?

R – Nasci em uma fazenda chamada Quati.

P1 – E onde que é isso?

R – Meu Deus, na cabeceira do Marobá.

P1 – Em Minas Gerais?

R – É, Minas Gerais. A terra da fartura, jaca, cafezal, canavial, jaqueira.

P2 - Marobá é um rio?

R – É um córrego.

P2 – Onde que ele fica?

R – Conhece ali a fazenda de Caçula, do cacauzeiro?

P2 – Não.

R – É, então está muito distante. Esse córrego que eu estou falando, desce lá dos Quati. Então, cada fazenda vai mudando os nomes e vai diferenciando.

P1 – E qual a data de nascimento da senhora?

R – Eu, na minha identidade, estou com 58 anos. Eu não falei para vocês que eu não gravo nada.

P1 – E qual o nome dos seus pais?

R – Meu pai, Josino Ferreira dos Santos. Pascoalina Maria de Jesus. Avós maternos: Felício Caetano Ferreira dos Santos, Ana Maria dos Santos. Vitória Maria Jesus, que era mãe da minha mãe. Clemente Rodrigues dos Santos, que era o pai da minha mãe.

P1 – O que seus pais faziam?Qual era a atividade deles?

R – Lavrador. Porque quis sempre ter um pedaço de chão para plantar, para ter os mantimentos, ele é lavrador. Se eles trabalham para os outros, é o mesmo lavrador. Como é que se diz? Roçador, conhece o que é cera de abelha de seca conhece? Onde é que tem cerca que eles acera para não pegar fogo na cerca, pois é, aquilo se chama de acero. Meu pai era serrador. Sabe o que é serrador. No mato, faz aquele estaleiro, joga aqueles torão em cima e tem um serrote mesmo, que trabalha de dois companheiros. Era isso que era a profissão de meus pais. Bom, a gente nasceu, ele vai criando naquela luta. Quando acha já terra limpa, planta o feijão, o milho. Esses são naquela serra ali que planta; feijão, milho, a manaíba para dar mandioca. O brejo é o arroz. Que o arroz não pode ser plantado naquela serra, senão ele não nasce ali, ele não dá nada. Ele tem que ter uma vazante no rio para ser plantado. Tudo isso eu já trabalhei. Quando eu peguei, peguei por jeito, porque era meu povo. Mas tudinho foi crescendo, a escola nossa era essa. Eu colhia café, moer cana, fazer farinha. Na frente do potinho mesmo tinha uma tenda de farinha que nós chegávamos de manhã cedo para dar conta daquele saco de farinha pronto. Nós crianças, rapava mandioca. Era roda. Nós inventávamos para observar também para ajudar os grandes. Para vim sacos de farinha para Almenara. Bom, depois que eu saí das roças, eu vim para a cidade. O que era? Cozinheira. Trabalhei no hotel da Dona Joaquina. Adorei a dona Joaquina me dar essa mão. Meu trabalho era esse. Bom, depois que eu passei a ser mãe, ai eu fui cuidar dos meus filhos. Porque tinha hora que eu saía de casa para trabalhar de doméstica, eu deixava as crianças. Minhas crianças nunca tomou mamadeira, era o leite materno. Às vezes eu trabalhava o dia inteirinho, chegava base de seis, sete horas da noite, estavam os bichinhos lá com a barriga grudada no espinhaço, o peitão estava por aqui. Vocês desculpa eu falar assim, mas é do jeito que a gente fala. Cheio, doendo. Acordava eles para mamar. Era um alívio a hora que eles mamavam. Minha mãe falava: “Valdenia esse leite vai fazer mal a esse menino, fica represado o dia inteirinho”. Que nada, aí é que os moleques ficavam fortes. Aí eu falei: “quer saber de uma coisa, eu vou sair dessa vida de fogão dos outros, porque eu tenho que olhar os meus filhos. O meu ganho não dá para botar um para cuidar dos meus filhos, tem que ser eu mesma”. Passei a ser lavadeira. Primeiro lavava no rio, tanto que seu Roberto fez essa lavanderia para nós, eu continuei a lavar lá. Quer dizer que tinha todo o dinheiro livre, não pagava água, não pagava luz mesmo. Uma patroa boa para mim foi na época que surgiu esse trabalho para nós do coral. Esse trabalho nosso começou em uma época da eleição, o povo caçoava de nós, que dizia que aquilo era política. Mas nós não estávamos nem aí. Isso que era política, hoje, nós estamos no mundo inteiro. Até em Portugal nós já foi. Nós tínhamos essa capacidade. Então, eu tinha aquele dizer: “Oh, meu Deus, lavadeira não tem valor”, porque o povo antigamente falava que lavadeira não tinha valor. Eu chegava cansada da lavanderia, jogava aquela trouxa de roupa lá e corria para o fogão para ajeitar logo o de comer, com aquela fome... Mas, hoje em dia, eu dou valor tudo que eu fiz, até lavar eu dou valor. Porque o que eu fiz eu não fiz nada perdido. Trabalhar na roça, ser cozinheira, bom graças a Deus, voltar, passar a ser lavadeira e dou graças a Deus. A Deus que ele me dá uns anos de vida e saúde para eu conseguir mais. Porque tem que pedir a Deus. Não é porque eu já estou nessa idade, eu vou dizer: “ah, eu já estou velha mesmo, eu morrer”. Não Pois agora que eu vou em frente, porque agora eu tenho juízo, eu tenho a minha memória, sei o que eu estou fazendo. Porque se eu me entendo de nova, por enquanto que eu acho, eu nunca fiz nada errado, agora depois de velha que eu vou fazer? Agora que eu vou caprichar, ser mais feliz. Aí eu acho que eu sou uma velha, não jogada no lixo, uma velha dura, uma velha lutadora, da vida, feliz, contente. E é meu prazer todinho do que eu fiz. Ser mãe, ser avó, que tudo é cria, lá em casa eu tenho o quê? Seis netinhos que eu cuido. Eu vou te falar que eu tenho uma felicidade muito chique, graças a Deus. Tem hora que eu rezo. Eu estou lá em casa eu rezo agradecendo a Deus: “Deus obrigada desse trabalho todo que eu fiz”. Agora só a leitura que foi pouca. A leitura quando eu pensava de estar na escola, falava: “sabe de uma coisa eu vou é trabalhar, que essa escola não dá nada. Eu vou é trabalhar”. Agora depois de velha eu estudo quando tenho tempo. Eu tenho uma professora boa para danar. Também se eu ficar aqui um mês ou dois... Depois ela não me dá falta. Diz que eu sou certinha. Mas até hoje eu estudo e meus netos todos estudam.

P1 – Valdenia, só para voltar um pouquinho na sua infância, você tinha irmãos? Quantos eram na família?

R – Três. Nós somos três irmãos. É eu, Maria da Paz, o Alvimar que mora em Conquista. Nós só somos três irmãos.

P1 – Queria que a senhora contasse para a gente como que era na infância.

R – Aqueles que eram maiorzinhos iam cuidar dos mais pequenos. Eu mesma era babá do Alvimar. Se eu fosse para roça, mãe tinha que levar ele, que ele não ficava em casa.

P1 – E a senhora ia para roça desde que idade?

R – Com idade de sete anos, os pais da gente, antigamente... A gente não sabia fazer nada, mas a gente ia para não ficar em casa só. Ali eles diziam assim: “ó, isso aqui é para vocês aprenderem a trabalhar”. Meu pai tinha um dizer, a terra toda para a gente plantar, aí ele dizia, eu mesma era uma que apanhava nessa hora, essas covas aqui da beirada, quer dizer que tem essa parte já para fazer cova. Então, separava essa carreira de cova aqui sem plantar nada, aberta, para quando terminar essa carreira aqui, voltar ali, couvejar aquela terra para a gente continuar. Mas eu esquecia do diabo da cova de beirada, tampava tudo. Quando ele ia caçar o lugar dele tornar e continuar a couvejar para plantar as coisas, estava tudo tampado, ele dizia: “uai, desse jeito fica plantando um por riba do outro”. Ele tinha um chapéu velho de couro, ele era danado para tirar aquele chapéu velho e jogar em mim. Quando o chapéu velho não pegava em mim eu dava vaia nele: “ih, não pegou em mim. Coisa boa”. Tudo isso a gente já faz. Esse irmão meu, esse Alvimar, ele era pequeno, ele tinha que ir para a roça mais eu. Ali eu estava ajudando eles para aprender a plantar feijão, milho, eles ficavam aprendendo. Isso é bom porque a gente aprendeu mesmo. Porque o milho são seis caroços. O feijão é quatro. Em uma plantação você vai plantando a manaíba daqui para cima, não pode colocar o olho para baixo que a raiz sai lá para cima, tem que virar. Então eu aprendi. Tudo é escola para a gente viver e trabalhar.

P1 – E tinha alguma diferença na educação dos meninos e das meninas? Ensinavam algumas coisas para os meninos que não ensinavam para as meninas?

R – Eu acho. Se você está me perguntando sobre a criação de hoje, eu acho demais. Eu falo por mim, por umas colegas que a gente tinha, porque se tivessem todos que nem vocês aqui, adulto, eu de cá, vocês de lá, nós crianças não passava aqui no meio. Não precisava nosso pai falar, bastava olhar para nós aqui assim, nós já sabíamos, dali nós voltávamos. Se dissesse: “Isso aqui vocês não pegam”, não pegava não. Se eles quisessem dá para nós, se fosse coisa de comer nós tinha que esperar eles dá para nós. A criação da gente foi essa. Em uma época de festa, tinha dança dos adultos, mas nós estávamos para lá. Se nós aprendemos dançar e cantar é porque de lá nós escutava. Então a gente aprendeu assim. Mas nós no meio não. “Sai daqui menino que os grandes vão pisar em vocês”. E nesse tempo tinha uns estavam meio bêbados, no meio do povo, falavam: “Ei menino, para não machucar vocês”, a gente obedecia.

P1 – Tinha muita festa?

R – Graças a Deus. Começou da fazenda de Poti, Benvindo, acho que vocês conhecem todo mundo, eu estou até falando o nome do povo tudo. Entrou janeiro, falhava fevereiro, aí deixava o mês de maio, junho, julho, aí entrava São Sebastião, senhor do Bom Jesus, Nossa Senhora, era tanto santo, que tinha vez que de dia estava com as bandeiras na estrada, de noite ia conta contra-dança, quem queria contar contra-dança aí cantava. Aí inventava uma festinha para todo mundo dançar, para amanhecer o dia e pisar na estrada com o santo na mão.

P2 – E no trabalho vocês cantavam?

R – Cantava sim.

P2 – Que tipo de música vocês cantavam?

R – Menina, eu vou te falar. Tinha uma música de boiadeiro para tocar os bois no engenho para moer cana, até isso nós já fizemos. Achava bonito e gostava de fazer cachaça na fazenda de Poti. Porque a fazenda de Poti era rica da fartura, rica da lavoura.

P2 – A roça era muito longe de casa?

R – Perto. Perto do predinho dele, do sobradinho que ele tinha lá na Barra do Bacavá, na beira do Rio Grande.

P1 – A senhora aprendeu a cantar com...

R – Com os adultos. Eles cantavam. Meu pai mesmo cantava muita contra-dança que eu nem sei, acho que você sabe o que é contra-dança também. Contra-dança, batuque.

P1 – Como que é contra-dança, o que é contra-dança?

R – A contra-dança, em uma comparação tem oito pessoas. Um com bumba, um com violão, outro com uma caixa, nesse tempo não tinha pandeiro, era um prato com um garfo, e ali formava um samba. Eu tinha um avô que cantava o tal do Maranhão, mas esse caía no chão, rolava. Tudo isso nós ficavámos lá de longe assistindo, nós não íamos para perto não.

P1 – Caía no chão e rolava, era uma dança?

R – É. Para ele era um dança. Agora os outros tudo ali em cima, “ah, você está com saudade de uma...” e falava o nome da cidade, que falava antigamente, que hoje em dia até tem. Essa Joaíma mesmo era chefe dele falar no nome dela e ninguém nem pensava que existia esse comércio, acho que era até roça nessa época que ele falava. Porque ele foi daqueles velhos andez, daqueles velho boiadeiro, viajante. Nesse tempo era na base da corcunda do animal, conhecia muitos lugar.

P1 – E do que falavam as músicas?

R – Batendo e cantando. Pois é menino, as contra-dança eles cantam e tocam na viola. Quando está os oito, oito pessoas, eles cantavam: “o Ferreira dandão, da maldição, dandão, quando acha o ferro, dandão, falta o carvão”. Esse é o oito, que eles falam. Hoje em dia ninguém vê mais isso não, tem televisão, tem som, tem Roberto para cantar, tem o cd para gente rodar, ninguém liga para isso mais não. Agora eu lá em casa falo, quando os meninos falam: “ô vó, vem ver o jogador”, “eu não jogo bola”. “Ô vó, vem ver o cantor”, “também não sou cantora, não vou escutar cantor não”. “Ah, mas a avó é nojenta”. Sou mesmo, eu vou é trabalhar. A hora que eu estou vendo a televisão ali está empatando o meu serviço. Não gosto não.

P1 – E como é que era para estudar nessa época?

R – Eu saía da fazenda de Poti, do Velho Petrolino para a fazenda de Poti estudar. Até que a professora nossa chamava Maria, eu nem sei se ela é viva. Meu Deus, correr de gado, de animal nas estradas, até de animal nós corria, com medo. Porque eu posso te dizer: esses pastores aí na manga, mata a gente. Nós tudo pequeno, nós corria. Ia beirando as cercas nos acero, até chegar nessa escola. Aí quando chegava naquela época das plantas, nós saía da escola. Nós ia trabalhar.

P1 – Com que idade?

R – De sete anos para lá nós já se virava.

P1 – Você saiu da escola?

R – Ah, nós não estava nem aí para escola. Eu não sei como é que eu aprendi a fazer o meu nome.

P2 – O que plantava na roça?

R – Ah, o que plantava na roça era para colher, vender na cidade para comprar outras coisas. Uma comparação assim, que nem, uma gordura, uma carne, farinha não, porque ninguém preocupava, o arroz também não. O feijão também não, porque a gente tinha da lavoura.

P2 – E em que cidades se vendiam os produtos?

R – Em Almenara.

P2 – Tinha uma feira?

R – É. Isso aí. Vinha, trazia aquelas coisas, vendia para comprar outras para levar para roça.

P2 – Quando a senhora veio da roça para a cidade como é que foi?

R – Ah, eu já estava grande, aí eu já era mulher, que eu já estava grande. De quinze para dezesseis anos. Já fui chegando sendo empregada dessa dona Joaquina, que ela tem o hotel lá em Almenara ainda. Nessa idade que eu já comecei a entrar no fogão dos outros, também assim, sem medo de errar, porque tudo a minha mãe nos ensinava. Ensinava-nos a fazer um tempero, nos ensinava a temperar uma carne, temperar um feijão, como é que fazia um arroz, como é que fazia uma verdura. Porque as mães de algum tempo tinha muita inteligência, muito cuidado. Eu hoje tenho uma neta lá em casa, eu falo com ela. Ela está com nove anos. Ela estuda muito, é muito inteligente na escola. Mas eu tenho medo que ela estude de manhã. Eu fico com dó de tirar da escola para botar para trabalhar, mas é muito orgulhosinha sabe? Uma alegria exibida para caramba. Eu falei com ela, se ela não aprender a trabalhar, se ela não for humilde, ficar confiando só na escola, esse ano que ela vai estudar a quinta, pois eu vou tirar da aula, vou deixar um ano ela em casa só trabalhando, para ela aprender. Trabalhar na cozinha, lavar prato. E sabe fazer tudo a danadinha, mas é preguiçosa. Agora, é a primeira que levanta de manhã para ir para escola e reúne os irmãos tudo. “Levanta Fulano, vai para aula. Levanta Fulano para escola”. Eu tenho dó dela por causa disso. Mas é preguiçosa em outro serviço, porque eu quero ver assim igual nós fomos criados, naquela luta, aprender a fazer tudo. Porque hoje ela me acha e amanhã se ela não me achar, quem vai fazer para ela? Tem que ser ela mesma.

P1 – Como que foi quando a senhora chegou em Almenara? Como que foi a sensação de chegar na cidade.

R – Ai meu Deus, era ruim demais. Olhava para aqui, para acolá, nesse tempo não tinha luz na cidade. A luz vinha lá de Água Bela, quando davam dez horas a rua estava escura. Olhava para aqui, olhava para acolá, aquela escuridão: “Eh, meu Deus, nós podia voltar para trás, nós podia voltar para fazenda Poti de novo, porque lá é tão bom, festa e etc”. Tinha o carnaval na cidade, mas nós tínhamos medo de ir. Porque ali nós não tínhamos conhecido e lá na roça nós tinha bastante conhecido, homem e mulher. E na cidade nós não tínhamos. Era eu e Maria, minha irmã, que já era grandinha, o que nós fazíamos? Quando chegava o mês de junho, aí nós fazíamos as trouxas e ia para roça. Ficava lá dois, três dias, era alegria. Aí quando a gente foi acostumando na cidade, aí a gente acabou o medo. Mas menos ir para festa. Eu nunca gostei de festa da cidade.

P2 – A cidade era mais calma do que a roça?

R – A roça é mais calma de que a cidade. A cidade eu acho muita violência.

P2 – Mas naquela época as festas...

R – Tinha muita festa, mas a gente tinha medo de ir. Porque a gente não tinha aqui os colegas, não tinha ninguém um tio, ninguém tinha um primo para ir com a gente. E lá na fazenda de Poti, não. Bem dizer, a família todinha morava na frente de Poti. Saía da casa de minha avó, chegava na casa de meu tio, ali tinha um bocado de primo. Chegava na frente tinha outro bocado de primo. “Vamos embora, Fulano?”. “Vamos”. Amanhã é sábado. Hoje a gente já estava arrumando os paninhos, alisando, não tinha aquelas rouponas rodadas na goma? Aquilo nós metia na goma já começava alisar, até chegava a chiar. Alisava aquilo, botava lá no sol. Aí quando ia dando a noite a gente ia saindo de casa, falava: “você vai?”. “Vou”. O Valmir é o vaqueiro da fazenda de Poti, era o que mais gostava de festa. “Você vai para casa de dona Alzira hoje?”. “Vamos”. “Você vai?”. “Vou”. Quando era de noite reunia tudo na casa de seu Almiro, o forrozão comia.

P1 – Tinha muita comida?

R – Ah, tinha Tinha sim, porque era a terra da fartura.

P1 – O que tinha de comida?

R – Carne de porco, galinha caipira, tinha hora que tinha carne de boi, biscoito, cachaça. Quem gostava de tomar todas, tomava mesmo. Que eram uns garrafão, não era aquele tiquinho, o alambique ali pertinho. Não era comprado um litrinho velho de pinga. Um velho hoje não tinha dois reais, três para dar em um litro de cachaça, falei: “Oh, sem o que fazer. Compra isso de pelanca para vocês assar”. Porque assa ela, ela é salgada, assa, come, bebe água, ou sustente a cachaça.

P1 – E eram mulheres que organizavam mais a festa?

R – Uai, mas festa sem homem o que ela é?

P1 – Tem que ser reunido, o homem e a mulher. Tem que ser na paz dos dois, senão... Porque como é que se você é solteiro, você vai chegar em uma festa, você sem uma namorada, se você é casado você para festa sem a sua esposa? Não pode. Porque se eu fosse ela eu dava uma pisa a hora que chegasse. Tinha que ir os dois.

P1 – Mas quem fazia a comida, eram as mulheres ou os homens?

R – Eram as donas da casa que fazia a comida. Não, mas tinha parte que eles já tinham os cozinheiros mesmo e as mulheres ficavam folgadas, só cuidando nas roupas.

P1 – Como é que eram as roupas?

R – Tudo na goma, aquilo chegava a parecer, você conhece o curador?

P1 – O que é curador?

R – Ah, meu Deus Povo que entende candomblé, gente.

P2 – Conta para a gente o que é isso.

R – Ué, você nunca viu sessão não? O povo fala sessão. Como é que trabalha com o povo das águas, trabalha com os caboclos, trabalha com os fulanos de tal, que eu não gosto de falar o nome. Aquelas rouponas rodadas, toda cheia de goma. Hoje em dia acho que nem goma o povo está comprando mais para fazer, diz que as biscoiteiras não deixam. Eu gosto. E, além disso, as mulheres não estão vestindo mais roupa de goma. As mulheres, não agravando vocês. As mulheres gostam mais de calça. Calça não gasta goma. Calça não gasta nem ferro, quanto mais goma.

P2 – E como que fazia a goma?

R – Como é que faz? Com água fervendo. Você pega ela, bota em uma vasilha com água fria, vem com aquela água fervendo, despeja ali, mexe, ela engrossa igual mingau. E aí mete as roupas ali dentro, põe para secar. Hoje em dia ninguém está vendo nem bem lençol de goma. Quando era criança, eu cresci o olho em uma dona que eu vi alisando um lençol na goma. Que antigamente os lençol bordado chamava acho que é Santista, não sei como é que é. Ela chamava Tervina, nem sei se ela é viva. Dona Tervina era lavadeira dos outros. Ela ia com aqueles lençolzão assim quase do tamanho disso aqui. Botava na goma, botava para secar. Quando aquilo secava, ela ia lá pegava um pano molhado, passava naquilo tudo e vinha com um ferro de brasa. Também quando ela colocava ali, aquilo chegava a brilhar e o fumaceiro levantava. Eu: “um dia eu vou ser uma lavadeira e uma gomadeira”. Não é isso que quando eu consegui lavar roupa para engomar, já tinha caído da moda foi tudo, foi ferro de brasa, foi goma de roupa. Ficou mais fácil para mim, porque aí agora só pegou uma só dobra, umas ainda alisa e outras não. Que eu mesmo, não é toda roupa que eu aliso não. Eu ontem mesmo fui alisar uma roupa do trabalho, aí começou a queimar, eu fiquei calada, não falei nada com Carlos. Depois é que eles vão achar elas com a banda girada assim. Eu não falei nada. Dobrei, usei ela lá, cheguei, tirei. Mas ele falou: “ô, nega, você queimou a saia?”. Eu falei: “eu não, foi o ferro”. Mas eu falei que aquele pano não agüentava quentura. Eles teimaram.

P1 – E a senhora sempre cantou enquanto lavava e passava?

R – Desde criança. Nós íamos olhar passarinho no brejo, acho que os passarinhos nem atacava o arroz porque nós cantávamos demais. Eu e essa Maria, minha irmã. E essa Maria no badoque, você sabe o que é badoque, né?

P1 – O que é badoque?

R – Porque hoje em dia tem o tilê. O badoque é um pedaço de pau que eles fazia o badoque, e ela matava muito passarinho. E aí nós abríamos o bico cantando, até reza nós rezava lá nesse brejo. Só ia embora para casa quando dava noite. Ah, nós já lutou viu, para poder sobreviver. Sabe lá o que é você entrar dentro dum brejo tocando passarinho o dia inteirinho. Senta só para comer. E é assim, um está aqui comendo e o outro está lá enrabando os passarinhos, porque eles atacam mesmo. Que o arroz dá muito trabalho. No nascer, quando ele está embuchando e quando ele está amadurecendo, que aí é que os passarinhos atacam. Aí meu Deus, quando eu penso assim que eu já lutei tanto para viver e graças a Deus, vou agradecer Deus muito mais, para eu viver mais.

P1 – Valdenia e a senhora quando trabalhava na cidade, já quando mudou para cá com quinze, dezesseis anos, para Almenara, era cozinheira, só cozinheira?

R – Fui. Já fui chegando na cidade, muitos ignorou, que eu já fui entrando na cidade já fui logo no hotel, chamava hotel Amorim. Se naquele tempo uma boa funcionária ganhava o que? Acho que era, não sei se era dez, hoje em dia fala dez centavos, nem sei mais como é que chamava o dinheiro, ganhava quinze por mês, eu já entrei nesse hotel ganhando esse dinheiro. Esse dinheiro eu pagava aluguel de casa para minha mãe, comprava roupa para mim mais meu irmão, que a outra irmã minha foi logo empregada também, com Luizão, com dona Natália, mulher de Luizão. Seu Luiz era um bancário, dona Natália era professora. Está lá viva e sã, qualquer hora que nós chegava na casa deles, fala “eu quero isso”. A gente não fala “me dá”, não. “Ó, eu vim buscar isso aqui”. Dona Natália e seu Luiz, “pega lá, nega”. Leite, nós não compra leite, é muito difícil. Vamos lá na casa dele buscar. Uai, se nós ajudou eles, não ajudou não, nós gostou, não ajudou, então agora eles que está ajudando agora nossa intimidade. Eles mesmo falam que nós ficamos por falta das coisas, se nós querer; ainda chama a gente de orgulhosa, mas não é orgulho, sabe o que é? É que hoje em dia a gente tem muito trabalho que a gente pode sobreviver, é por isso que nós não mais perturbamos eles. Aí eu ganhava esse dinheiro, era dividido. Lá tinha um João Avelar que tinha uma loja, eu era freguesa dele. “Olha dona Joaquina, eu vou lá na loja comprar...”. “Vai, nega, vai comprar e no fim do mês você paga”. Quando já passou 500, que dinheirão, era o dinheiro que uma professora ganha, ganhava. Ô dinheiro, mãe comprou até uma barraca para nós morar.

P1 – A senhora era cozinheira então.

R – Eu já fui cozinheira. Já trabalhei de garçom, garçom assim, lavar vasilha, na Cabana. Vocês conhecem a Cabana lá em Almenara? Hoje em dia não, que ela acabou. Ali quem vai para o aeroporto, trabalhei ali muitas vezes. Atendi Geraldo. Já trabalhei ali. Entrar, o sol entrando, para sair depois que o dia amanhece. No castelo. Já trabalhei no castelo dos Miranda, que foi o dinheiro mais grande que eu já ganhei na minha vida. Inclusive quando eu saí de lá, que o povo tudo dizia assim: “Ah, você precisa botar no pau”. E eu nunca gostei disso. Ele mesmo que foi na minha casa me procurar, que eu tinha direito dos meus tempos de serviço. Aí eu falei para ele, falei: “olha, lindo, mas se vocês não pagaram meu trabalho?”. Ele disse: “não, dona Valda, mas lá é firma”. Quando ele disse me deu vontade de chorar, de ele ir na minha casa para me dar os direitos. Nem eu dei trabalho para ele e nem ele me deu trabalho no meu dinheiro. Graças a Deus. Mas entrava assim antes de escurecer, para sair depois que o dia amanheceu. O dia que tinha bem movimento mesmo, saía o dia amanhecendo. Agora o dia que não tinha movimento, saía base de doze horas, três, quatro horas da manhã. Para mim já estava bom, porque eu estava ganhando o meu. Tudo isso eu já enfrentei e gostava. Mas mais que eu estou gostando é do coral.

P1 – Com que idade a senhora trabalhou antes de ser lavadeira? Com que idade a senhora começou a trabalhar como lavadeira mesmo?

R – Isso eu já estava caducando. Foi de certos anos para cá, acho que está com seis anos ou sete anos que eu comecei a lavar roupa. Isso já foi depois que eu peguei os filhos, os filhos pequenos. Eles, hoje em dia, tudo é grande, é pai, mora tudo perto lá de casa. Mas o serviço melhor que eu gostei foi o coral, que é diferente de cobra coral, né? Aquela se morder mata e nós ...

P1 – Mas o coral começou por causa do trabalho de lavadeira?

R – Das lavadeiras, sim.

P1 – Conta como era, a senhora ia para o rio, aí lavava e ficava cantando?

R – É, a gente lavava lá e cantava. Mas este festival desse coral, é como eu falei para você, foi intervalo da política com seu Roberto, esse Carlos, que ele morou lá. Nós temos até umas blusas que ele deu para nós, ele. A saia dona Irma quem deu, saia verde, que nós não estamos usando ela mais, mas eu gosto dela. Bom, nesse intervalo a gente ficou cantando lá na praça, aquelas coisinhas na época da eleição, nós fomos aqui para o lado do Salto, nós fomos no Jacinto, Jequitinhonha, aí pegou a gostar. Aí já começou a gravar com a gente. Aquelas músicas que ele vê que presta, ele colhe elas e aí a gente vai faz o trabalho do cd. Aquelas que ele vê que ainda está meio torta, ele deixa encostado para depois ponhar. Que ele tem um bocado de música encostada que eu quero elas, porque eu acho elas bonitas. Eu gosto. Aí vem papai e mamãe.

P2 – E vocês já se conheciam?

R – As lavadeiras a gente conhecia direto de Almenara. Aquelas todas são de lá. A gente já conhecia.

P2 – De infância?

R – Não. Sobre assim, de criança, de farra, não. Eu fui conhecer elas mesmo na lavanderia. Mas a gente tinha noticia delas. Fulana de tal e etc. Mas agora para reunir mesmo todas foi na lavanderia.

P2 – Como é que é essa lavanderia?

R – Ela é uma casa grande. Tem tanque. Quem tem tanquinho, bom, e quem não tem lava na mão mesmo. Eu mesmo lavo na mão. Ó gente eu vou falar a verdade: fogão a gás e tanquinho para mim, não é comigo não.

P1 – E o rio? Qual a importância do rio? Para lavar a roupa.

R – Eu acho no rio melhor, porque lá a água não é o prefeito que paga, é deus que mandou. Quarador demais, lajedo, arame para a gente estender roupa para vir sequinha para casa. Lá não paga imposto de nada. Nem de arame, nem de água. Ali eu derramava tudo que eu queria.

P2 – Ia no Jequitinhonha?

R – Eu lavo no Jequitinhonha, mas não gosto não, que só vou mais os netos. Eu gosto mais do São Francisco que a água lá é muito funda, só tampa a cabeça dos meus dedos. É por isso que eu gosto de lá. Mas tem lajedo, tem arame lá dos fazendeiros, que eu estendo roupa. É por isso que eu gosto. Agora o pirãozinho não, já leva farofinha no saco, garrafa de café, que eu adoro um cafezinho amargo na beira do rio. Os meninos: “ô, vó, eu estou com fome”. “Pois vai lá comer sua farofa”. “Ô vó, me dá um cafezinho?”. “Só um tiquinho, porque você sabe que aqui não tem fogão mais”.

P1 – Passava o dia lá?

R – Eu passo o dia inteirinho com eles lá no rio. Meus netos, tudo lava roupa, que eu falo: “ó, hoje por mim, amanhã por ti. Hoje você me tem para cuidar de vocês e amanhã quando eu bater o pé na cerca, quem vai cuidar de vocês é vocês mesmo”. Se eu, mesmo que eu sou pobre, tivesse sido criada naquela bobice, de esperar papai e mamãe, que eu estava fazendo hoje? Nada. Era na rua bestando, como eu vejo muitos, que eu não estou gravando a ninguém, eu falo do que é meu mesmo. Na rua bestando, vagabundando, tomando tapa, cacetada. Então eu falo com meus netos, ainda falo para eles: “ó, meninos, vocês ainda tem boa vida que vocês está criado aqui na cidade. Eu não, fui criada nas brenha, nas mata, lutando”. Se meu pai roçava na roça, claro que nós tínhamos que aprender a plantar, pra nós termos aquilo. Minha mãe a mesma coisa, minha mãe roçava onde fosse, pra falar a verdade. Se pai inventasse de fazer uma roça e aparecesse outro pra ele lá naquela serra, ele ia pra lá e ela ficava cuidando de cá. É isso que eu falo para os meus netos. E falo com qualquer um, trabalho não mata ninguém. Trabalho é saúde, trabalho é a vida para quem tem espírito e gosta. Ainda mais a gente pobre, quanto mais lutar para saber trabalhar e viver é melhor de que, digo: “ah, eu vou lá para esquina”. Tomo um banho, visto um vestido bonito, passo um batonzinho vermelho. Não, isso aí não é trabalho de ninguém não. Não é boa vida de criança, que hoje em dia quem eu vejo usando batom é as crianças. Lá em casa, de vez em quando, me faz juízo de queimar o bico dela, que é a Mariana. Eu não acho que isso é o modo de viver. Dá duro, gente, é bom. Saber trabalhar. “A Fulano, limpa esse quintal aqui para mim”. Dei-lhe uma enxada. “Meu Deus como é que eu limpo isso aqui?”. Pois não sabe nem arrumar a enxada no chão para arrancar um cisco. “Ô menina, passa um pano aqui nessa casa para mim”. Agora põe o balde ali com água, o rodo na mão: “ô meu Deus, como é que eu passo esse pano?”. Agora eu não sou contra não, porque quando eu entrei um dia em uma casa para dar limpeza, eu fiquei: “ô meu Deus como é que eu vou tirar esse trem daqui da penteadeira?”, porque é sempre na penteadeira. E eu com medo de quebrar os vidros de perfume da mulher. “Ô meu Deus, como é que eu faço?”. Ali ela chegou lá dentro aí eu falei: “Ah, eu não vou mexer com isso aqui não”. Ela foi, falou: “me dá isso”. Tirou tudo da penteadeira, “ó aqui, põe tudo em cima da cama, limpa aqui, depois você torna a por esse aqui, esse aqui”. Aí eu aprendi. Mas por quê? Porque eu não fui criada assim. Aí eu até que falo com minha neta, agora ela é caprichosa, ela passa pano na casa, ela vai fazer quando ela quer. Quando ela não quer, ela cresceu o bico e pronto.

P2 – E esse rio onde a senhora começou a lavar roupa, ele mudou até hoje?

R – O São Francisco? Ó minha filha, não mudou nada. Não, mudou porque tirou o esgoto do matadouro e jogou fora do córrego. Mas antigamente a água caía lá. Porque lá o matadouro lá de São Francisco, tem uma cidadezinha lá que ela chama o bairro de São Francisco, o matadouro é lá.

P2 – O que é matadouro?

R – De matar o gado, matar o porco, já para trazer prontinho para a cidade. Tipo um frigorífico. Agora mudou. Agora melhorou muito porque eles tiraram aquele esgoto que vinha do matadouro que caía dentro do rio, eles tiraram, jogaram para fora. A água agora está mais limpa, só mesmo para a gente lavar a roupa. Inclusive a gente não bebe ela cá em baixo, não. Lá em riba eu não sei se eles bebem, porque lá em riba é mais limpo. Agora no tempo quando tinha esse comercinho lá, a gente usava água do São Francisco para tudo. Beber, cozinhar, lavar roupa, mas hoje em dia, eles lá não estão usando. Já tem água encanada também. Todo canto lá tem água encanada.

P1 – Dona Valdenia, as pedras do rio são importantes para bater a roupa, para limpar?

R – Eu acho. Se tem um sujo no cós, aí você coloca ele lá no lajedo. Passa sabão, toca a escova bem com força, joga uma aguinha, o sujo vai saindo. Se a barra de sua calça está suja, você pega ela, põe ela no lajedo, passa bastante sabão, morrendo de saber lavar roupa, porque tem outra coisa que tem que ter o tanquinho. É a escova. Vai jogando uma aguinha, o sujo vai saindo. Do jeito que quando você olha está limpinha, fala: “ah, eu vou é torcer logo, botar no sol para secar para eu vestir”. É por isso que eu gosto do rio. Porque no rio não é aqueles tiquinho de água, não. E uma é que eu gosto muito de bater na roupa, que ela não vai bater em mim.

P1 – Eu queria perguntar para a senhora porque a senhora gosta de bater na roupa, descarrega alguma coisa?

R – Eu acho que a hora que está batendo na roupa ali o som está saindo. É por isso que eu gosto de bater. Porque a gente antigamente dava dois sabões na roupa, se não desse os dois sabões na roupa, a roupa não estava limpa. Mas antigamente não era esse sabão de hoje em dia, era sabão de quadra. Meu povo dizia que era para sair o fedor do sabão de quadra. E hoje em dia, não, está mais fácil, que é o sabão é em pedra, ou, aliás, sabão em pó. Que antigamente não tinha sabão em pó, não tinha kiboa. Era na base da mão mesmo. Lá nas roças como não tinha ninguém para roubar, dormia no rio, para no outro dia amanhecer alvinha. Chegava a amanhecer cheirando, mas aqui na rua ninguém pode fazer isso. É bater, torcer, botar para secar, mas hoje em dia, tem ajuda da kiboa, do sabão em pó. Você esfrega ele com o primeiro sabão. Eu mesmo não esfrego com sabão em pó para não estragar os meus dedos. Depois que eu tiro aquele sujo grosso, aí eu vou com sabão em pó e a kiboa em outra vasilha e jogo a roupa dentro. Ali eu pego ela, jogo no lajedo. O sol está quente, ali eu vou jogando água. Que quando dá a hora de eu torcer ela, o sujo já saiu tudo, a roupa está cheirando, porque, se você usa sabão em pó mais a kiboa, está cheirando. É por isso que eu gosto de lavar assim.

P1 – E o canto, ele é para ajudar na sua tarefa?

R – Ah, que nem a gente estava pensando assim, lá longe, a gente fala assim: “Ah, tira esse sentido mau”. Aí a gente canta, o menino dali começa: “hum, hum”. Meus netos mesmo é assim. A Mariana até que canta, os meninos homem não, fica assim: “hum, hum”. “Ô menino, que você está falando aí, menino?”. “Ah Vó Estou cantando”. Eu falo: “a gente canta é assim, ó”, aí eu abro meu bocão e todo mundo entra no meio, cantando mais eu. Ó menino, mãe cantava isso. Ó menina, pai cantava aquilo outro. Hoje em dia, meu filho, quando é nas festas de Cosme eu não vejo um neto dentro de casa. Mas correndo atrás de quê? Não é tanto das músicas, são as balas, cocadas. Mas nós não, antigamente a gente gostava de cantar. A minha mãe ia colocar os meninos para dormir, cantava. Disse que cantando os meninos dava sono. Cantava até que o menino dormia. Disse que dava o sono porque estava cantando, mas acho que se tu fizer barulho, o menino dorme com barulho?

P1 – E tinha que colocar as roupas para quarar? Até hoje a senhora faz isso?

R – Até hoje. As minhas roupinhas, as roupas de meus netos, eu lavo é assim.

P1 – Conta para a gente. Descreve um pouquinho como é quarar uma roupa.

R – Como é que quara? É como eu estou falando. Esfrega, estende no lajedo. Quer dizer que o sol está quente, está esquentando. Só não pode deixar queimar, porque se queimar também, Ave Maria. Tem que jogar água, para aquele sabão ir saindo. Quando você, nem sei se você lava roupa no rio, joga água, porque nós fazemos assim: jogou água, desceu água alvinha, ali ela está boa de enxaguar. Vamos enxaguar, botar na corda para ela secar, para levar seca. É por isso que eu gosto da roupa quarada. E falo para o povo, eu não gosto de lavar roupa dentro de casa não. Quem quiser me empreitar uma roupa, manda eu ir para o rio. Basta você me dar uma garrafa de café, nem pão eu quero, não quero biscoito, não quero nada. Basta me dar uma garrafa de café. Para mim está bom, lá no rio. Eu fico até o dia inteiro. Agora quando eu chego em casa, sai leão que eu te mato. Aí eu como tudo.

P1 – Dona Valdenia, e são só mulheres que lavam roupa no rio?

R – No rio? É.

P1 – Porque será que, hoje em dia, não tem homens querendo fazer esse serviço ainda?

R – Pois ali tem um rapazinho ali que lava. Ele está ali com nós. Ele chama Elencar. Ele trabalha na lavanderia, mais as meninas. As meninas pegam a roupa, agora que ele está aqui também as meninas viajam e deixa ele lá na lavanderia, lavando roupa delas, alisando para entregar. E ele entrega tudo e as patroas gostam. Que ele lava limpinho, bem alisadinho, igual se fosse uma mulher mesmo. E eu falo para os netos assim: “ó, em uma comparação, vocês saem daqui para São Paulo, Rio de Janeiro, seus dinheiros não dá para vocês pagar lavadeira, vocês mesmo lava. Vocês mesmo alisam. Aquele dinheiro que vocês tiraram para pagar uma lavadeira, uma alisadeira não custa nada”. É porque como se diz: lavar roupa fora é mais caro, porque é o peso, é por peça. Nós pelo menos lavamos uma roupa. Uma trouxa de roupa no valor de dez, de quinze eu mesma nunca lavo. Vem pra cá com quinze reais pagar para lavar tuas roupas que eu não quero não. E lá é peça, dois reais, três reais, tudo é descontado. Lá em casa, não. Porque a gente lavar tudo embolado, é meia, tudo que vim nós lava tudo. E nesses lugares fora não, é pago pelas peças. É o que eu falo com eles lá em casa. E eles vão e eles lavam. Tem um Marco lá, brabo para caramba, mas é bom lavador. A roupa dele, que ele lava, você sente que ela está limpa. Já o Juninho já é mais seboso. Ele nem gosta de sentar na bacia mais eu. Que eu tenho uma bacia de alumínio lá grande, eu coloco kiboa, sabão em pó, jogo a roupa toda dentro e vou ensaboando. “Ó, vai esfregando essa aqui”. Nem isso o Juninho gosta de sentar perto de mim. Ele quer lavar lá longe, na ponta do Olaredo. Mas por quê? Lá ele passa o sabão da maneira que ele quer, esfrega, enxágua logo e põe na corda. Ele é o primeiro que lava roupa, mas quando chega em casa você vê o sujo todinho. Agora o Marquinho não. Marco é bom lavador mesmo. O Marco está com dez anos. Mas o Marco tudo bem. Mas todos sabem lavar a roupa deles.

P2 – Eles cantam também?

R – Como eu estou falando, lá no rio eles ficam assim: “hum hum hum”, eu não sei o que está cantando. Esfregando a roupa, aí eu pergunto: “o que é isso menino que vocês estão cantando aí? O que é menino que você está mastigando aí?”. “Estou cantando, vó”. Eu falo: “Vocês não estão cantando, vocês estão mastigando”. Aí eu vejo que eles estão cantando. Mariana ainda gosta de cantar muito, a ‘Dona Mariana’. Mas os meninos ficam assim: “hum hum...”, “que isso que vocês estão mastigando?”. “Não, vó, eu estou cantando”.

P1 – E a benção das águas, o que é isso?

R – A benção das águas? Gente, isso veio do mundo inteiro. Rio de Janeiro... Eu tenho umas primas que mora lá, conta história no ano novo, que fica aqueles povo, solta tanto barco de flor, canta, os macumbeiros dança na praia. Na televisão mostra, em Salvador, Jequié, aquelas baianonas dançando na praia com aqueles troços amarrados na cabeça. É isso que nós fazemos aqui. Agora mesmo que elas prepararam ali uma bacia de flor para nós daqui a pouco jogar nas águas. Ali nós cantamos para Maritim, para dona Iemanjá ou dona Ioxum, que é a mesma, mas tudo muda o nome. Quer dizer que tem Valdenia aqui, tem Valdenia em outro lugar. É assim que é a nossa, nosso trabalho é esse, que ele faz. Porque eu cantei, que lá em Almenara tem um moço lá que ele bate tambor mesmo, e nós caíamos no meio. Mas eu saí, porque qualquer coisinha o povo é feiticeira, é feiticeira, eu não sei fazer feitiço. Mas eu fiquei com aqueles cantos na cabeça. Uma época nós estava lá na casa dele, aí eu cantei, ele gostou. “Ô nega, vamos fazer um cd dessa música?”. “Vamos”. E nós fizemos. E hoje em dia, quando eu chego nos palcos, aliás, vem esses músicos de fora, eu vejo eles cantando, ‘lelele’, batendo os instrumentos, eu falo: “ó, não é só nós que canta música de macumba não. Todo mundo canta”. Os meninos de Salvador mesmo quando veio tocar em Almenara, eles cantou, tem um tal de batuque lele. E são bem as musiquinhas de macumba. Eu: “ó, não é só eu só, não. Pois agora que eu vou cantar mais”.

P1 – Qual o significado dessa benção? Para que ela serve?

R – Eu não sei. Diz o Carlos Farias que serve para muita coisa. Tipo descarregar, diz eles, que naquela hora que está ali cantando o santo está ali. Agora eu não vejo não.

P1 – Mas a senhora gosta?

R – Adoro Eu vou falar a verdade, eu gosto é de tudo. Porque de tudo eu já brinquei. Contra-dança eu já brinquei. Cantar, as vezes que meus pais cantavam, a gente ficava de longe escutando. Esse negócio de macumba nós íamos direto na segunda, na quarta, na sexta. Quando não estava fazendo nada, não ia caçar festa, então vamos embora para macumba divertir. Os outros dançando, nós ali, sentado olhando. Mas os xula, tudo entrando na cabeça.

P1 – E no coral são só vozes, tem instrumento também?

R – Tem.

P1 – Quais instrumentos têm?

R – Tem sax. Tem violão. Tem guitarra. Tem o atalho de botija. Tem uma cabaça. Tem o chocalho. Tem tudo.

P1 – E como que é para a senhora cantar em público?

R – Ah, é uma alegria. Trenzinho vem lá daquela serra, hoje em dia está no mundo inteiro. Para mim, faz de conta assim, que eu estudei o ginásio, formei. Para mim esse coral, para mim é escola. E cantar no palco, no meio dos colegas para mim é uma formatura.

P1 – E como foi gravar cd também?

R – A primeira vez nós foi com Bernardo, um rapaz que mora no Rio de Janeiro. Aí a turma: “você topa fazer?”. Eu falei: “topo Nós vamos lá, se não der nada nós voltamos para trás. Não estou nem aí”. E logo eu vi um povo do Rubinho tudo no meio, eu falei: “ah, também vou. Os outros não melhores do que eu”. Aí ele pegou lá, gravar aquelas fitinhas, para lá ele colher o que ele queria, fazer o trabalho. Foi no dia, chegou a notícia, foi até a dona Nice Amorim, que nessa época, tudo isso ajudava a gente. “Como é meninas, vamos?”. “Vamos sim”. Ela arranjou carro e nós fomos fazer essa gravação. Primeiro foi o povo do Rubinho, entrou primeiro. Falei: “é, quando eles vim de lá, eu vejo a resposta, como é que é o troço aí dentro”. Aí já foi animando mais o coração. Aí quando ela saiu chegou nossa vez. Nós fomos. Fica aqui, fica aqui e vamos ver as meninas, aí nós, também fomos sós três mulherinhas, mas foi dos outros que a gente trabalhou para completar. Aí quando foi uma época, Carlos José disse assim: “vocês topam fazer uma gravação?”. “Ah, nós agora acabou o medo”. Nós tudo ficou alegre. “Ah, nós agora acabou o medo, ô nós vai ter medo de fazer gravação, por quê?”. Pois é. Tal dia é para nós gravar um cd, que é o Batuquinho Brasileiro, aquele verdinho. Vai cantando aí, ensaiando aí, aí depois vem cá fazer gravação nas fitas, que eles fazem nas fitas para depois. Aí nós soltamos o pau. Chegou no dia, Carlos mandou o carrão lá na porta da lavanderia, “ô beleza, que trem lindo”. Levar essas marmota, encheu o carro, fomos batendo até Belo Horizonte. Nós nem ensaiamos na casa dele não, nós foi logo para o estúdio. Eu falo: “ó meu Deus, eu vou ter medo de quê?”. Eu tenho medo do carro tombar e eu cair lá e morrer, mas é uma coisa que eu podia achar mais difícil, entrar no estúdio. E não é isso que faz medo a ninguém, a gente depende de botar as coisas no lugar. A gente não deve ter medo de trabalhar. Não ter medo de lutar, para nada. A gente tem que colocar na cabeça e no coração, pensamento em Deus, depois os colegas, daí o trabalho da gente, que a gente vai em frente.

P1 – Valdenia, eu queria, se fosse possível, a senhora cantar um pouquinho para a gente.

R – Que música?

P1 – A que a senhora quiser.

R – Se eu não tivesse que alisar roupa com raiva eu tinha queimado ela. Eu não. Mas eu liguei o ferro. Ah, pois o trem grudou. Se eu tivesse deixado o ferro com pouca quentura, regulado o ferro, eu não tinha queimado a saia. Então tudo só vale com amor e carinho e amizade.

P1 – A senhora cantou uma música ontem no show. A primeira música, você podia cantar ela para a gente?

R – A Maria no meio da rua. Não, eu canto outra.

P1 – Então, tá.

R – A musiquinha que minha mãe cantava para meu irmão dormir. Fica mais fácil, mais baixinha.

P1 – Pode cantar?

R – Deixa eu ver a garganta se presta ainda. “Eu vendi minha agulinha, emprestei o meu dedal”. Sabe o que é dedal? “Vendi minha agulinha, emprestei o meu dedal, só falta eu vender o meu ferrinho de engomar”. Já falei o que é ferro de engomar. “Adeus goma, adeus goma, adeus ferro de engomar”. Por que adeus ferro? Porque trabalhou muito, vendeu. O dedal ela emprestou. A agulha também, tinha alguém, a minha colega precisava. Eu tenho uma agulha aqui, eu tenho um dedal aqui e o ferro trabalhou muito, não precisou mais dele, “vamos vender ele? Vamos”. Por isso que eu não vendo nada velho, eu guardo tudo.

P1 – E essas músicas que a senhora canta até hoje, qual a importância das meninas mais novas, dos meninos mais novos, conhecerem isso?

R – Está muito alegre, nós estamos querendo colocar elas no nosso lugar. Nós falamos para elas, nós falamos com Carlos: “ó, Carlos, nós já está chegando a idade que nós não vai agüentar mais nem entrar na van, nós estamos achando melhor você colocar esses mais novos do que nós”. Ele disse assim: “será que eles topam?”. “Topa”. “Ah, então vocês reúnam umas pessoas suas assim que gosta do trabalho para nós colocar no lugar”. Então nós estamos vendo se vai dar certo elas quererem. E também se elas não quiserem pode entrar qualquer um, que quer trabalhar e quer viver, conhecer o mundo, não é? Porque para conhecer o mundo da maldade, da traição, da perseguição, não pode. Mas para felicidade é bom conhecer o mundo. Que eu falo a minha verdade, se eu mais nova tivesse aquele pensamento, aquela idéia, há muitos anos que eu estava nesse trabalho, mas eu vim recolher o meu trabalho foi dessa idade que eu já estou para cá. E a mesma coisa eu falo com meu povo, com meus netos. Eu mesmo queria comprar um caixinha ali para levar para os meus netos bater, daquelas miudinhas, cem reais, mas eu não estava com dinheiro e tomara que, se eu voltar lá que eu comprar uma para levar para os meus netos, para os meus netos também aprender a bater.

P1 – A senhora viaja um monte para cantar, mas o que significa para a senhora o Vale do Jequitinhonha, a sua casa?

R – Eu acho bom. Que é a minha terra, bendizer onde eu nasci, aliás, eu não nasci lá, como eu falei para vocês, que eu nasci em uma fazenda chamada Quati. Mas foi mais feliz descendo, fazenda de Manezinho da Sapata, fazenda do Velho Petrolino, fazendeiro que eu não sei se vocês conheceu, acho que até neto e filho para lá. Descendo para a fazenda de Poti, depois da fazenda de Poti que eu vim para Almenara.

P1 – E a senhora conhece bastante o rio Jequitinhonha?

R – Ah, o rio Jequitinhonha só não conheço a cabeceira mesmo, porque quando nós fomos em Diamantina o Carlos mostrou porque disse que era muito longe. Porque disse que ele nasce naquele meio de Diamantina, a terra do ouro, a terra da prata, diacho, terra rica Aí eu faço que nem a contra-dança, “Adeus terra rica, terra de pobre viver”, isso era meu pai que cantava. “Adeus terra rica, terra de pobre viver, lá em baixo, na baixinha para meu canto enverdecer. Deixe estar morena que eu vou me embora com você”. E nós gostávamos.

P1 – Tem algum outro nome para o rio Jequitinhonha?

R – Não. É só o nome mesmo de Jequitinhonha. Agora a Almenara era Virgília. De uns anos aí atrás foi que mudou para Almenara. Lá tinha farmácia com o nome Virgília, o poço ali onde é abaixo da ponte, era o poço da vigilância, que todo mundo conheceu. Era barca, era escalé, era canoa, era isso que era travessa dali onde é a ponte hoje. Aquela ponte está com quarenta e poucos anos que ela foi feita. A idade que tem minha filha mais velha, tem que fizeram aquela ponte. A maioria que trabalhou naquela ponte foi até parente meu. O chefe dali, o comandante, chamava Zé de Souza. Eu não sei se ele já morreu.

P1 – E assim, Almenara é muito próximo da Bahia? Qual a sua relação com a Bahia, a senhora foi para lá? Gosta?

R – Em Conquista, eu ia direto, porque eu tenho um irmão que mora lá. Mas lá não tem água. Lá só tem água quando chove, porque tem aqueles poços, dos fazendeiros. Mas a Bahia para o lado de Porto Seguro eu gostei porque tem muita água. Tem o mar, tem o braço do mar, então eu gostei.

P1 – Quais são a vegetação da ilha de Almenara, aquela região? Qual é o tipo de árvore, de frutas?

R – Tem demais, naquelas fazendas, é isso aí que você está fazendo a pergunta?

P1 – É.

R – Laranja, mexerica, que nós chamava lá é tanja. É isso que você está fazendo a pergunta? Mangue, cafezal, canavial. É?

P2 – Qualquer árvore.

R – Tem demais para aquelas fazendas. Agora ali mesmo no nosso terreno nós não plantamos, modo da água. Porque se a água fosse farturosa para a gente, cada um tinha um pé dessas coisas plantado no terreiro. No tempo que eu não pagava água, meu terreno parecia uma chácara. Mas depois que eu peguei de pagar a água, então eu diminui minhas plantas. Mas no meu terreno eu tinha.

P1 – E animais?Tem animais lá também?

R – Sem meus cocós, não deixo de criar não. Minha cachorrinha para latir de noite, os malandros que ela mata, ta lá amarrada. Porco eu não posso criar, porque aí já é o povo da prefeitura que perturba. Eu não posso criar, mas tem espaço de eu ter chiqueiro, para eu ter um porquinho lá dentro. Mas não posso, por modo disso. Agora galinha, cachorro, acho que eu tenho lá cinco galinhas botando, estou pensando aqui que eu deixei uma presa. Se os meninos não soltaram, ela morreu. Dormi essa noite pensando nessa galinha, essas crias. E ela está botando, esses dias ela tinha tirado os pintinhos, aí eu falei: “Eu vou deixar essa galinha botar que é para eu comer ela gorda”. E aí deixei a galinha lá presa. Se eles lá não soltaram, ela morreu, porque desde ontem.

P1 – Essas festas que tinha de santos, tem bastante ainda?

R – Ainda tem, mas o povo está esmurecendo. Porque uns gosta e outros falam demais. Eu mesma, eu adorava macumba. Por que eu saí? Porque “ah, Fulana é feiticeira, está na macumba”. E não é, a gente vai para divertir, conhecer. Ninguém vai para fazer ruim para os outros. Mas falando a verdade, eu não gosto que ninguém reza de mim, não. Só confio em Deus mesmo.

P1 – Você está muito ligada à igreja, às festas ainda?

R – No domingo na igreja, quarta e sexta na macumba. Aí coração. Dois corações. Eh, aí não dá. Por isso que eu falo: “aí não dá não. Tem que ser um coração só”. Mas agora falando de Deus, eu não esqueço Ave Maria meu pai. Se não fosse o senhor onde é que eu estava? De que é que eu estava vivendo?

P2 – E nas festas de santo não se misturam as religiões?

R – Não. Agora não estão se misturando mais não. Quem mistura são meus netos. Não fui mais não. Outra coisa que a gente vai numa reza na cidade. Não tem mais aquelas festas que tinha das roças não, gente. Compra um quilinho de carne, dois, três, faz uma churrascada de lá, assa. Comeu, acabou. Bebeu aquela cachacinha, pronto. E na roça não, é fartura mesmo. Para tudo.

P1 – A senhora que percorreu muito já o Vale, tem alguma diferença entre a cultura, as pessoas, no alto, no médio, no baixo do Vale? Tem várias regiões no vale, tem alguma diferença entre uma pessoa que mora lá perto da Bahia e outro que mora ali perto de Belo Horizonte?

R – E daí?

P1 – Tem diferença?

R – Eu acho que não tem diferença não. Porque todos que eu vejo são todos iguais com a gente. Aquela presença, aqueles amor. Tem hora que eu chego e penso assim, que eu pergunto: “será que aqui é minha terra, nessa felicidade que eu estou?”. Eu acho que nunca fiz uma viagem para eu dizer assim: “Ah, tal lugar é ruim”. Para mim todos são bons. Todos me tratam bem. Tratam nós todos, que não sou eu só que estou no meio, é todo mundo. Eu não acho nada diferente. Eu fui para Teixeira de Freitas, em uma van, estava bem assim, eu fui, quando o sol esquentou, eu falei: “sai dessa camarada Tomar sol na praia nada, eu vou é me embora”. Mas gostei de lá, gostei do povo. Ninguém veio olhar para gente assim, porque eu tenho uma raiva disso, eu tenho um pouquinho de prosa eu falo: “xô Sai de mim que eu também sou gente”.

P1 – Eu queria que a senhora falasse um pouco dos festivais acontecendo. Qual a sua participação?

R – Qual é o festival?

P1 – O festival daqui. Qual a sua participação, você vem cantar sempre, faz muito tempo já? Faz o que? Seis anos, sete anos, que a senhora vem cantar no FESTVALE?

R – Eu nunca vim cantar aqui não. É a primeira vez.

P1 – Mas esse festival aqui tem sempre?

R – Não, nunca vi não.

P1 – E em Araçuaí no ano passado?

R – Em Araçuaí eu acho que fui já duas vezes. Nesses cantinhos aqui de vez em quando nós vai.

P1 – E como que é a recepção do público?

R – Falam que está bom. Diz que está uma beleza. Agora eu que estou lá em riba.

P1 – Para a senhora está bom também?

R – Está bom.

P1 – E a senhora pretende continuar cantando?

R – Ainda mais. Aí a garganta vai limpando, ainda mais ainda, vai melhorando muito mais.

P1 – Vai limpando durante...

R – Porque aquele espaço que a gente tem para cantar, quer dizer que a garganta da gente, como se diz? Limpa mais. Eu acho. Esses dias lá em casa, eu estava com a voz tão ruim que eu mesma senti, falei para o meu menino: “é, estou imaginando viajar, que eu estou sentindo falta da minha voz, força na minha garganta”. Aí ele ainda falou assim: “Ave Maria, mãe, que é?”. Eu falei: “eu não sei Zé”. Porque ele chama José, eu trato ele de Zezinho, que ele foi o primeiro filho. Eu falei: “ô, daí eu não sei meu filho, eu estou sentindo, estou até com medo de ir nessa viagem, eu estou achando que eu não vou cantar nada”. Então eu acho assim que a gente às vezes canta, às vezes a gente fala, a garganta vai se, como é, esticando. Vou comentar outro causo, outra coisa a gente tem criança: “cala a boca menino”, você sabe que isso não é bom? Lá em casa tem uma vizinha que tem um filho mudo. A minha cunhada tem um neto que ficou mudo. Ô, lasquera. Me leva pião A menina dela disse que o bichinho ia falar; porque a criança quando ele está novinho, gralha ele, se ele já está andando, ele vê você conversando, ele aprende a perguntar uma coisa. Você ensina, porque a gente também tem que ensinar. Disse que ela falava: “cala a boca menino, deixe desse barulho”. Quando foi tirar residência, que o bichinho pegou a crescer, já ficou naquela tristeza de não conversar. Quando levou no médico, o médico ensinou para ela, isso não foi lá em Almenara não, foi em Conquista. O médico falou: “ó, esse menino mudou a voz, não sai. O culpado foi você”. A hora que a criança começa a engatinhar, começa a gralhar, você tem que conversar com ele, para ele ficar alegre, aprender as vozes. Lá em casa tem um que é rapaz, aí em Almenara, viu? Ficou mudo. A avó dele chama Lora. Ela mesma queixou que foi a filha também. Tudo na vida a gente tem que ter alegria, fornecimento, ajudar a viver. Maria, minha irmã, tem um dizer, “que a criança, ela na barriga da mãe, ele entende as pessoas”. Pois eu já vi essas duas crianças. Ficou, não nasceu mudo, um é neto da minha cunhada e o outro é vizinho, que ele mora em uma rua eu moro na outra. Ele hoje é um homem. Valente, acho que com raiva, já está grandão, não fala.

P1 – Então para ser uma boa cantora tem que aprender desde cedo?

R – Desde cedo. E o que viu hoje, colocou na memória para amanhã. Tem dia que eu deito lá em casa, vêm assim, outras músicas, sem ser essas que estão gravadas, eu falo: “é, essa eu vou guardar para levar para Carlos fazer”. Quando é no outro dia eu levanto, doida no fogão, fazendo café, botando coisa no fogo, esqueço.

P1 – Queria perguntar para a senhora, está acabando já, a senhora dá várias entrevistas. Mas qual a importância de registrar, para a senhora qual a importância de registrar a memória das pessoas? Assim como a gente fez hoje aqui, conversar um pouco da história, qual a importância para a senhora disso? R – Eu acho feliz. Eu gosto. Porque eu tenho recebido jornal com essas palavras. Já chegou uma revista lá em casa comigo daqui para cima. Eu falei: “ah, meu Deus, o que essa revista veio fazer aqui?”. Até que aquela Juraci xingou: “mas essa Valdenia é exibida”. Eu falei: “não é me exibir, não”. Porque desse jeito eu estou no mundo inteiro. Está chegando até numa revistinha aqui e essa revista sumiu, acho que elas mesmo apanhou. Carlos Farias entrega a nós todos os jornais, de todos os lugares que nós vamos, ele entrega. Lá em casa está cheio de jornal. E os meninos falam: “guarda mãe, que um dia nós vai precisar desses papel”. E eu pego e guardo tudo, eu não jogo fora não.

P1 – E o que a senhora achou de dar essa entrevista para gente?

R – Gostei. Não estou tomando sol. Está fresquinho. Agora se o sol estivesse quente você ia ver como eu estar com uma cara, você já viu onça acuada de cachorro? Estava eu aqui com uma cara tão fechada por modo do sol. Vixe Nossa Senhora. Eu não agüento. Eu lavo roupa, mas amarro um pano aqui. É as vistas. Minha vistas dói. Gostei.

P1 – Então, muito obrigado.

R – De nada. Obrigada vocês também.

P2 – Obrigada.

R – De nada.

P1 – Adoramos.

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