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Lavadeira dos outros

História de: Valdenice Ferreira Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2008

Sinopse

Valdenice Ferreira aprendeu desde cedo os afazeres domésticos. Crescida em uma fazenda, ainda criança já roçava, cuidava de animais, plantas, cozinhava e lavava roupa no rio. Esta última tarefa, que realizava sempre cantando as cantigas que os mais velhos ensinavam para amenizar e alegrar o trabalho, tornou-se profissão. Quando mais velha, Valdenice integrou o grupo As Lavadeiras de Almenara. São mulheres, lavadeiras desta cidade do Vale do Jequitinhonha, que cantam as cantigas aprendidas na infância. Nesta entrevista, Valdênia fala sobre o coral das Lavadeiras de Almenara e de como sua participação neste trabalho mudou sua vida. Na narrativa há muita água, muita roupa batida e quarada nas pedras e, invariavelmente, muita música que harmoniza com fortes melodias o trabalho daquelas que ainda dedicam seu tempo a lavar roupas na água corrente dos rios.

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História completa

Não é porque eu já estou nessa idade que vou dizer: “Ah, eu já estou velha mesmo, eu vou morrer”, não. Pois agora que eu vou em frente, agora tenho juízo, tenho a minha memória, sei o que estou fazendo. Agora que eu vou caprichar, ser mais feliz. Tenho prazer todinho do que eu fiz. Ser mãe, ser avó, tudo é cria! Tenho uma felicidade muito chique, graças a Deus. Tem hora que estou lá em casa, eu rezo agradecendo a Deus: “Deus, obrigada desse trabalho todo que eu fiz!”. Só a leitura que foi pouca, né? Agora depois de velha eu estudo quando tenho tempo. Eu tenho uma professora boa para danar. Diz que eu sou certinha. Eu meus netos todos estudam.

 

Nasci em 15 de novembro de 1952 em uma fazenda chamada Quati, na cabeceira do córrego Marobá, Minas Gerais, a terra da fartura, jaca, cafezal, canavial, jaqueira. A escola era essa: colher café, moer cana, fazer farinha. Nós só somos em três irmãos, eu, a Maria da Paz e o Alvimar.. Esse irmão meu era pequeno, ele tinha que ir para a roça mais eu. Ali eu estava ajudando eles para aprender a plantar feijão, milho. Em uma plantação você vai plantando a manaíba daqui para cima, não pode colocar o olho para baixo que a raiz sai lá para cima, tem que virar. Então eu aprendi, né? Tudo é escola para a gente viver e trabalhar.

 

Canto desde criança. A gente ia olhar passarinho no brejo, acho que os passarinhos nem atacavam o arroz porque nós cantava demais. Eu e essa Maria, minha irmã. Tinha uma música de boiadeiro para tocar os bois no engenho para moer cana, até isso nós já fizemos. Achava bonito! Aprendi a cantar com os adultos. Meu pai mesmo cantava muita contra-dança, batuque: um com bumba, um com violão, outro com uma caixa, nesse tempo não tinha pandeiro, era um prato com um garfo, né, e ali formava um samba. Tudo isso nós ficava lá de longe assistindo, nós não ia para perto não. “Adeus terra rica, terra de pobre viver”, isso era meu pai que cantava, né, “Adeus terra rica, terra de pobre viver, lá em baixo, na baixinha para meu canto enverdecer. Esta morena que eu vou me embora com você”. E nós gostava.

 

Quando eu fui pra cidade, já estava grande, era mulher de 15 para 16 anos. Cheguei sendo empregada da dona Joaquina, que ainda tem o hotel lá em Almenara. Nessa idade eu comecei a entrar no fogão dos outros, sem medo de errar, porque tudo a minha mãe ensinava nós. Ensinava a fazer tempero, ensinava a temperar uma carne, temperar o feijão, como é que fazia um arroz, como é que fazia verdura. Porque as mães de algum tempo tinha muita inteligência, muito cuidado.

 

A cidade era ruim demais, nesse tempo não tinha luz. A luz vinha lá de Água Bela, quando dava dez horas da noite a rua estava escura. Olhava para aqui, olhava para acolá, aquela escuridão! “Ê, meu Deus, nós podia voltar para trás, nós podia voltar para fazenda de novo, porque lá é tão bom, festa e bam-bam-bam!” Tinha o carnaval na cidade, mas nós tinha medo de ir. Porque ali nós não tinha conhecido e lá na roça nós tinha bastante conhecido, homem e mulher, né? E na cidade nós não tinha. Tinha muita festa, mas a gente tinha medo de ir. Aí quando chegava o mês de junho, Maria e eu fazia as trouxas e ó, ia para roça! Ficava lá dois, três dias, era alegria. Quando a gente foi acostumando na cidade, acabou o medo. Mas menos ir para festa. Eu nunca gostei de festa da cidade. A roça é mais calma de que a cidade. A cidade eu acho muita violenta.

 

Bom, depois que eu passei a ser mãe, fui cuidar dos meus filhos. Porque tinha hora que eu saía de casa para trabalhar de doméstica e deixava as crianças. Minhas crianças nunca tomou mamadeira, era o leite materno. Às vezes eu trabalhava o dia inteirinho, chegava no começo da noite e os bichinhos lá com a barriga grudada no espinhaço! Vocês me desculpa falar assim, mas é do jeito que a gente se fala, né? Acordava eles para mamar. Era um alívio a hora que eles mamava. Aí eu falei assim: “Quer saber de uma coisa, eu vou sair dessa vida de fogão dos outros, porque eu tenho que olhar os meus filhos. O meu ganho não dá para botar um para cuidar dos meus filhos, tem que ser eu mesma”. Passei a ser lavadeira.

 

Olha como foi: lá na roça tinha a dona Tervina, nem sei se ela é viva. Era lavadeira dos outros. Ela ia com aqueles “lençolzão”, botava na goma, botava para secar. Quando aquilo secava, ela pegava, dois trabalhos, ia lá pegava um pano molhado, passava naquilo tudo e vinha com um ferro de brasa. Também quando ela colocava ali, aquilo chegava a brilhar e o fumaceiro levantava. Eu: “Um dia eu vou ser uma lavadeira, uma gomadeira”. Quando eu consegui lavar roupa para engomar, já tinha caído da moda foi tudo: foi ferro de brasa, foi goma de roupa. Ficou mais fácil para mim, porque aí agora só pegou uma só dobra, né, umas ainda alisa e outras não. Não é toda roupa que eu aliso não.

 

Eu acho melhor lavar roupa no rio. Porque lá a água não é o prefeito que paga, é Deus que mandou. Com arador demais, lajedo, arame para a gente estender roupa para vir sequinha para casa, né? Lá não paga imposto de nada. Nem de arame, nem de água. Ali eu derramava tudo que eu queria. Eu lavo no Jequitinhonha, mas não gosto não, que só vou mais os netos. Eu gosto mais do São Francisco que a água lá é muito funda, só tampa a cabeça dos meus dedos. É por isso que eu gosto de lá. Mas tem lajedo, tem arame lá dos fazendeiros, que eu estendo roupa. É por isso que eu gosto. Já leva farofinha no saco, garrafa de café, que eu adoro um cafezinho amargo na beira do rio.

 

Se tem um sujo no cós, aí você coloca ele lá no lajedo. Passa sabão, toca a escova bem com força, joga uma aguinha, o sujo vai saindo. Se a barra de sua calça está suja, você pega ela, põe ela no lajedo, passa bastante sabão, né, morrendo de saber lavar roupa, porque tem outra coisa que tem que ter o tanquinho. É a escova. Vai jogando uma aguinha, o sujo vai saindo. Do jeito que quando você olha está limpinha, fala: “Ah, eu vou é torcer logo, botar no sol para secar para mim vestir”. É por isso que eu gosto do rio. Porque no rio não é aqueles diabo de tec-tec, não. E uma é que eu gosto muito de bater na roupa, que ela não vai bater em mim, né?

 

A hora que está batendo a roupa ali o som está saindo. É por isso que eu gosto de bater. Porque a gente antigamente dava dois sabão na roupa, se não desse os dois sabão na roupa, a roupa não estava limpa. Mas não era esse sabão de hoje em dia, era sabão de quadra. Meu povo dizia que era para sair o fedor! E hoje em dia, não, está mais fácil, que é o sabão em pó. Antigamente era na base da mão mesmo. É bater, torcer, botar para secar, mas hoje em dia, tem ajuda do sabão em pó, né? Você esfrega ele com menos sabão. Eu mesmo não esfrego com sabão em pó para não estragar os meus dedos. Depois que eu tiro aquele sujo, grosso, aí eu vou com sabão em pó e a Qboa em outra vasilha e jogo a roupa dentro. Aí eu pego ela, jogo no lajedo. O sol está quente, ali eu vou jogando água. Que quando dá a hora de eu torcer ela, o sujo já saiu tudo, a roupa está cheirando, que se você usa sabão em pó mais a Qboa a roupa está cheirando. É por isso que eu gosto de lavar assim.

 


Mas o serviço melhor que eu gostei foi o coral, né, que é diferente de cobra coral, né? Aquela se morder mata e nós… O coral começou por causa das lavadeira. A lavanderia é uma casa grande. Tem tanque. Quem tem tanquinho, bom! E quem não tem, lava na mão mesmo. Eu mesmo lavo na mão, que eu não, ó gente, eu vou falar a verdade, fogão a gás e tanquinho para mim, não é comigo não. Agora cantar é uma alegria. Para mim, faz de conta assim, que eu estudei o ginásio, formei. Para mim esse coral, para mim é escola. E cantar no palco, no meio dos colegas para mim é uma formatura.


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