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A menina de sinhá

História de: Valdete da Silva Cordeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2008

Sinopse

Valdete nasceu na Bahia, migrou com sua família para Minas Gerais, participou de grupos de dança, lutou pela construção de sua moradia própria e com muito amor e superação criou a sua família. Conta sua trajetória até a criação do grupo Meninas de Sinhá, no bairro Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte.

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História completa

Vou contar a história do meu primeiro aniversário. Eu não sabia qual era a data, só sabia o ano: 1938. A minha madrinha me falava: “Ah, menina, não sei não quando é seu aniversário!” Inventei o dia: 7 de setembro. Fui juntando dinheiro e quando chegou o dia, convidei a meninada, comprei doces, cortei tudo em pedacinhos e pus em um prato. E o bolo? Arrumei uma caixinha de sapato, comprei as velas, enfiei na caixa, e pronto: foi esse meu primeiro bolo de aniversário. Fui para o fundo do quintal e fiz a festa! Foi maravilhosa! A meninada adorou a minha festa com bolo de caixa de sapato e doces de botequim.

 

O meu nome é Valdete da Silva Cordeiro. Meu pai se chamava Manoel e minha mãe, Ornelina. Eu nasci na cidade da Barra, na Bahia. Quando meus pais morreram, a minha madrinha de crisma me pegou para criar. Ela veio para Minas Gerais, eu vim junto, com mais ou menos seis anos. Era um casal de brancos de classe média que nunca tiveram filhos, criavam, geralmente, o filho dos outros. Não tive muita oportunidade de estudar. Acho que como eles nunca tiveram filhos, não sabiam o que era a responsabilidade de criar uma criança, né?

 

O meu primeiro trabalho foi como empregada doméstica em casa de família. Dessa casa, saí no dia em que me casei. Meu marido era pintor de parede e ele jogava em um time de várzea. Depois, ele passou a jogar profissional em Formiga. Me mudei para lá com ele. E lá ele teve um fracasso. Passei muita necessidade, tive que vir embora para Belo Horizonte, recomeçar a minha vida. Não podia voltar mais para a casa dos meus pais de criação. Eu já tinha quatro filhos.

 

Fui para a favela do Alto Vera Cruz, vivendo, procurando emprego, voltei a ser empregada doméstica. Morei de aluguel algum tempo. Às vezes era despejada das casas porque não tinha dinheiro para o aluguel. Até que um dia a minha irmã de criação falou comigo: “Eu te dou um pedaço, você constrói e sai do aluguel”. Fui atrás dos engenheiros que desmanchavam prédios e pedia para eles me darem os tijolos. Ajudava a desmanchar casas pra ganhar os tijolos. E daí por diante fui lutando. Consegui construir dois cômodos. A minha filha caçula tinha três meses quando me mudei para lá. Quando eu cheguei, lá não tinha água, não tinha luz, não tinha rua. Tinha só algumas casas e muito mato. Quando comparei o lugar onde eu fui criada, o bairro dos Funcionários, com o lugar onde eu estava morando, a diferença era muito grande. Mas pode ser igual, por que não?

 

Depois da luta pela melhoria em nosso bairro, surgiu meu trabalho com as Meninas de Sinhá. Foi assim: eu passava todo dia em frente ao Centro de Saúde e sempre via as mulheres saindo de lá com sacolas de antidepressivo. Eu achava aquilo um horror. Como uma pessoa toma tanto comprimido em um dia? Comecei a observar as mulheres, parar e conversar com elas: “Por que você toma esse remédio?”; “Ah, porque eu sinto uma dor aqui dentro... Uma angústia, uma tristeza! Eu tenho vontade de chorar. Se não tomo esse remédio, eu não durmo”. Comecei a notar que as mulheres não eram doentes, elas precisavam de autoestima, precisavam cuidar mais delas. E voltei para casa pensando: “O que vou fazer com essas mulheres?” Chamei as mulheres para bater papo. Mas foi difícil, porque elas falavam: “Tenho roupa para lavar, tenho casa para cuidar, almoço para fazer. Eu vou bater papo?! Sentar para bater papo?!”Elas não tinham tempo para isso.

 

Começamos, então, a fazer trabalhos manuais, como tapetinhos de fuxico. Quem sabia alguma coisa, passava para a outra. Mas aquilo não estava melhorando muito a vida das mulheres, elas continuavam tomando remédios, continuavam tristes. Eu não sabia o que fazer. Eu pensava: “Eu estou tirando as mulheres do trabalho em casa e pondo elas para trabalhar de novo. Isso que elas fazem, nós fizemos desde a infância. Porque na infância a gente aprendeu a bordar. Isso tudo desde pequena! Estou trazendo as mulheres para trabalhar de novo”.

 

Até que um dia, fiz expressão corporal e vi que era aquilo que o grupo precisava: trabalhar com o corpo e com a mente! A professora era da Prefeitura. Fui à Prefeitura, expliquei, eles deixaram a professora comigo por seis meses. Fomos convidadas para apresentar a expressão corporal num evento. Estavam lá duas mil pessoas, a maioria jovem. E as mulheres diziam: “Valdete, não vamos ali em cima, vamos ser vaiadas. Tantas meninas novinhas e aí sobe esse monte de velha”. Dentro de mim, eu estava com medo, só não podia demonstrar para elas. Quando subimos e começamos a fazer a apresentação, foi um silêncio... Eu olhava e só escutava o barulho dos carros. “Meu Deus, depois desse silêncio, se vier uma vaia, o que eu trabalhei com essas mulheres, até hoje, vai tudo por água abaixo.” Quando nós terminamos, fomos muito aplaudidas, tinha gente chorando, gente assobiando, foi aquela maravilha! Uma delas olhou para mim, pôs a mão nas cadeiras e falou: “Viu, minha filha?! Nós somos artistas!” E daí por diante começamos a apresentar expressão corporal em todas as festas de prefeitura, seminário, congressos…

 

Geralmente, uma falava assim: “Vamos brincar de roda?” Elas sempre traziam um canto que lembravam da infância. Gravamos as músicas e fizemos pesquisas: senhoras de bastante idade, que já não andavam muito, elas iam lá, conversavam, cantavam e a gente gravava a música daquelas senhoras. “Olha, Valdete, nós temos que mudar o nome do nosso grupo”, que na época se chamava Lar Feliz. Quando meus filhos eram pequenos, participaram de um grupo de maculelê que se chamava Meninos de Sinhá. Então pegamos o nome Meninas de Sinhá. E aí se formou o grupo, com roupa nova. Meninas de Sinhá. Inauguramos um centro comunitário no Alto Vera Cruz. E desse dia em diante rodamos Minas Gerais quase toda, o Vale do Jequitinhonha, Rio, São Paulo, Salvador, gravamos um CD.


O amor fez crescer o nosso grupo. A família que não tive, achei junto com as mulheres. E hoje eu sou uma mulher feliz. Elas são felizes, somos em torno de 50 mulheres. Elas não tomam mais remédio para depressão. E elas não têm mais tristeza, é só alegria. E já temos agora as Netinhas de Sinhá, que também estão aprendendo as cantigas de roda. Eu queria terminar falando que os adultos nos procuram porque lembram de coisas antigas. Porque eles falam comigo: “Lembrei da minha avó”; “Aí, lembrei da minha mãe!”; “Lembrei da minha infância”. E muitas vezes as pessoas choram mesmo. Teve um senhor que chegou perto de mim e falou assim: “Olha, eu não tive vergonha de chorar, eu chorei!” É bom a pessoa chorar de alegria.

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