Busca avançada



Criar

História

A musa da jovem guarda

História de: Ivani Macedo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

Quando criança, nos anos 1950, Ivani se sentia uma estranha em seu próprio corpo. Em seu emocionante depoimento, ela conta que não entendia por que sua pele era negra, em contraste com os meninos de “zoio azul” que via em seu bairro, na Casa Verde, em São Paulo. Um dia, tentou esfregar o irmão com sabão e esponja de aço; em outro, rolou no meio de uma poça de água da chuva, na esperança de se tornar branca. Com o tempo, Ivani foi aceitando sua cor e sua história. Mas não deixou de sofrer: além das surras, enfrentou a indiferença da mãe, que tentou abandoná-la mais de uma vez. Aos 12 anos, já trabalhava como empregada doméstica e, aos 19, encarava a gravidez e o desprezo de seu primeiro companheiro. Casou-se novamente e, após a morte do marido, sem o apoio da filha, acabou ficando sozinha. Sem deixar a autoestima cair, Ivani segue, então, na busca de seu verdadeiro ninho, que acredita estar em Portugal, país de alguns de seus antepassados, que ela já conseguiu visitar e em que sonha viver, um dia.   

Tags

História completa

Meu nome é Ivani Vaz de Arruda Macedo, nasci em 12 de dezembro de 1954, São José do Rio Preto, São Paulo. O meu pai era de Bauru e era neto de português. E minha mãe era de Bauru também, e era filha de Paulo e de Iolanda. Minha mãe é negra, meu pai também era negro, mas ele era mais pra mulato, alto. E eles vieram pra São Paulo e se encontraram. Formaram uma família.

 

Com 22 anos, meu pai foi pra guerra de Itália, ele ficou na fronteira da Itália. Saiu do Brasil e foi pra guerra, a Segunda Guerra Mundial. E minha mãe era dona de casa, trabalhava fora como empregada doméstica. E, aqui em São Paulo, ela ficou fazendo faxina, diarista que se chamava. O meu pai, por ele ter ido à guerra, naquela época, não se usava psicólogo, essas coisas. Então, ele ficou muito deprimido. E eu fui criada numa família bem paupérrima, e meu pai começou a beber muito, virou alcoólatra, mais por essa questão de ter ido à guerra.

 

Nasceu a Iraci, que é mais velha, nasci eu e nasceu o Idail. Mas eu era a filha do meio, então, quando nasceu o Idail, a Ivani ficou do lado. Minha mãe não dava muita bola pra mim, e meu pai que me apoiava mais. Ele dava toda atenção pra mim e, onde ele ia, eu ia atrás. Eu era o xodó do meu pai, e minha mãe não queria saber muito de mim, não.

 

Minha mãe foi trabalhar e eu falei assim: “Nossa, como criança branca é bonita, né? Olha, vem vindo aquele menininho lá dos ‘zoio azul’... Ele é bonito! Eu queria ser ele”. Eu peguei e botei meu irmão na bacia. E peguei um Bombril e taca limpar essa criança! E dá-lhe esfregar. “Minha mão é branca, porque não posso ser branca também?” E esfreguei, esfreguei, esfreguei e começou a aparecer um branquinho, e ele gritava! Quando a minha mãe chegou, eu virei pra ela e falei: “Olha aqui, você não dá banho em nós, não limpa, você tem que arear nós!”. Aí, contou uma história que a gente tinha as mãos brancas porque Jesus tinha feito todo mundo negro, mas que, daí, tinha umas poças d’água e as pessoas se banharam lá e ficaram brancos. Quando choveu, eu fugi de casa e fui lá para as poças d’água. Deitei naquelas poças, rolei naquelas poças e nada de ficar branca. Falei: “A senhora é mentirosa, eu não fiquei branca, eu vou arrancar isso aqui”. Ia lá no Bombril, mas não tinha jeito, machucava tudo, não ficava branca de jeito nenhum. E, aí, passou, né? A gente vai acostumando com o corpo, vai crescendo. Mas eu não me reconhecia. Eu sentia que não era certo eu ser daquela cor, eu queria ser aquele “zoio azul”, aquela pele que eu achava linda.

 

Um dia, eu fui e liguei o rádio e ouvi uma estação, não me lembro o nome, tocando um cantor estranho, com uma língua estranha lá: “Ro, ro, ro, ro, ro, ru!”. Ah, eu me senti muito leve! Eu viajei! Eu viajei naquele som, e era um programa que tocava umas músicas europeias. Italiana, portuguesa, francesa. E aquilo foi meu mundo, onde eu me encontrei nesse dia. Chegava a hora do programa, eu sentava. E, então, começaram a me chamar de portuguesa. Minha mãe, meu pai, meus irmãos. Minha irmã dizia: “Lá vem essa portuguesa! Lá vai ouvir as músicas dela!”.

 

Vai pegando uma certa idade, meu pai morreu. Ele morreu em 62, devido ao alcoolismo, depressão. Teve umas doenças, fígado, deu uma parada em tudo. Aí, apareceu meu padrasto, viveu com ela, pra ajudar a criar.

 

A gente foi morar na Cachoeirinha e lá era o quê? Lá era um depósito de banana! Um pedaço era de tijolo, o outro pedaço de madeira, cheio de frestas, de vãos, que via tudo que estava do outro lado. Chovia mais dentro que fora. Quando meu padrasto pegou minha mãe na Cachoeirinha, ele tirou dessa casa, que era um porão e que era um depósito de banana, e levou pra Casa Verde Alta, num dois cômodos já. Com água, luz, tudo.

 

Eu fui criada mais pelas vizinhas. A minha mãe eram as vizinhas que me adotavam e me educavam e me ouviam nas minhas necessidades. Como eu fui a fora do ninho, então, as minhas vizinhas viam que minha mãe me abandonava, me judiava. Então, eu via a vizinha que gostava mais de mim, porque eu era bem comunicativa, eu chegava, ia lavar uma louça. “Minha mãe fez isso hoje, minha mãe queimou minha orelha, minha mãe jogou um garfo em mim, minha mãe jogou uma xícara, minha mãe jogou um copo.” E aí: “Fica aqui”. E eu ficava, e elas orientavam pra que eu não fosse tão judiada. Mas não adiantava muito porque, quando voltava, não tinha feito serviço de casa e levava uma surra de fio de ferro. Fio de ferro, nem de ferro, não tinha. Fio de correia de máquina, que era puro couro. Então, aquilo sangrava toda perna, costa.

 

Com 12 anos, eu trabalhava em casa de família, dormia cuidando de criança, lavando louça, era uma mulher. Tratavam a gente como se tivesse 20, 30 anos dentro de uma casa de uma família. Uma menina com 12 anos trabalhava das oito horas às oito da noite.

 

Aí, eu me casei, queria casar com branco, mas não deu certo. Uma amiga minha falou: “Você precisava conhecer um tal de Betinho”. E, quando eu conheci ele, eu senti uma sensação ruim. Mas a gente queria namorar. Fomos namorar e não deu muito certo. Três dias antes do casamento, grávida de uma criança, ele me deixou. E a vida continua, né? Eu quase morri, fiquei com depressão, os convidados dentro de casa e minha mãe me socando. Ele voltou, casou por causa que ele viu a menina, que era a cara dele. Mas não foi muito bom o primeiro casamento. Aí, eu separei e fui viver minha vida, quando surgiu o José Aparecido Macedo.

 

Aí, meu marido morreu em 2003, o José Aparecido. Quando ele faleceu, eu peguei uma quantidade financeira e fui conhecer Portugal. Não desfazendo do meu país, da minha terra natal, do Brasil, mas eu tenho que ver essa sementinha portuguesa que está aqui dentro, esse lado que está gritando há muitos anos dentro de mim. E eu tinha que ir desvendar isso e ver o meu ninho. E, quando eu desci em Portugal, desci até o chão, ajoelhei e agradeci e pedi licença pra entrar naquele país. Oh, filha, daí em diante é uma coisa que, se eu pudesse, não teria voltado.

 

Minha filha é minha inimiga número um. Porque o sentimento de mãe, se eu comesse uma cocada na rua, a metade, eu levava pra ela, porque na época nós estávamos em dificuldade. Quando eu separei do primeiro pai dela, se eu tivesse comendo pastel, a metade era pra ela. Ah, eu ficava doente quando ficava longe dela. Hoje, eu olho no olho dela e vejo que ela não gosta de mim, que ela não gosta. Ela me odeia e, se puder fazer toda maldade, ela faz. Se puder falar mal, inventar...

 

Aqui, nesse meu Brasil, essa vida que eu vivi até agora não foi legal. Não tive mãe, minha mãe fazia a cabeça dos meus irmãos pra eles não gostarem de mim e não gostam de mim até hoje. Eu não tenho Natal, não tenho Ano-Novo, não tenho domingo. Aqui, a gente é muito chamada de macaca, os negros, é muito chamado de macaca, na terra onde que é tudo misturado, onde não tem uma raça pura, onde todos nós somos de ancestrais negros. As pessoas humilham a gente. Em quase todos os lugares. Então, isso não me agrada mais. A única coisa que eu tenho vontade é de ir embora pra Portugal, pra começar uma vida lá, o negro lá é mais rainha, a gente é muito bem aceito lá, o negro, o brasileiro, o negro é mais aceito.

 

Eu fiz o curso de Enfermagem, em 93. Então, hoje, eu vivo só com o dinheirinho que eu tenho da pensão e da minha aposentadoria. É doído, é sofrido, eu tenho minhas condições de sobreviver, de ter alimento. Mas é muito triste. É muito doído demais a gente não ter família.

 

Eu levanto, faço minha oração, vou tomar meu banho, passo perfume, penteio o cabelo, eu faço as unhas duas vezes na semana, eu mesma. Eu vou à igreja, eu vou caminhar. Eu faço várias atividades. Mas eu estou só, eu caminho só. E não é bom. E eu sou feliz, agora, a gente quer ser mais feliz.

 

Eu pensei que eu ia fazer a história da patinha feia. Mas eu não sou patinha, eu sou gente! O patinho feio, ele ganhou a liberdade! Porque tudo aquilo que a minha mãe, tudo aquilo que a vida me proporcionou me fez crescer. Tanto é que eu sou invejada, eu sou linda, eu sou bonita, eu sou inteligente. Eu sou carismática, eu tenho o dom do Espírito Santo! Isso é a coisa mais linda pra mim. Então, o patinho feio é um ganso lindo! É um ganso lindo, e isso que é importante.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+