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A paz de Deus: dos rigores da matemática à prática do bem

História de: Paul Gottfried Ledergerber
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Paul Gottfried Ledergerber nasceu na Suíça e viveu a infância entre os livros, a música, os bosques e os rios, em particular o Reno. Alfabetizou-se sozinho e cedo reconheceu o fascínio pela botânica, a preferência pela matemática. Fez os estudos superiores com estágio no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], em direção ao doutoramento. Foi lecionar na Colômbia, radicou-se no Brasil. Ensinou na USP, mas especializou-se na prática do bem: durante dez anos construiu as bases de uma nova realidade para os deserdados da sorte, os filhos da miséria, os excluídos de oportunidades. Levou sua obra pelo mundo, proporcionando aprendizagem, dignidade, crescimento pessoal e profissional para crianças e adolescentes que, sem sua interferência, estariam condenados a perpetuar um quadro de condições sub-humanas. Hoje sonha que esse trabalho se torne maior e auto-sustentável.

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História completa

Nasci em São Galo, na Suíça. Meu nome,  Paul Gottfried, significa Paz de Deus. Uma presença constante na minha infância foi o Reno, rio que nasce na Suíça e faz a fronteira com a Alemanha. E outra foram as árvores; por exemplo, o bosque que existe ao lado do Reno e que era mais fácil estar nele a partir de uma cidade para onde nos mudamos - eu fiz o jardim de infância e o primário, até a quarta série, em São Galo, mas depois nos transferimos para um lugar na divisa com Liechtenstein, um principado, porém vivendo no lado da Suíça, do Reno. Então, eu sempre gostei do mato, atravessava um parque com pássaros e patos, frutos que podia coletar, assim como subia nas castanheiras, tudo isso a caminho da escola.

 

O contato maior era com minha mãe, vez que meu pai quase sempre estava viajando. Mas, quando ele voltava, a gente jogava cartas, xadrez, e passeava. Nesses passeios, ele frequentemente me levava ao Jardim Botânico.

 

Já naquela época, eu me interessava muito por Botânica e conhecia as plantas medicinais; isso era fascinante para mim. De resto, eu lembro de visitar a avó nos fins de semana e ganhar um bolo delicioso, que ela fazia. Lembro dos Natais e da tradição de preparar biscoitos especiais, cada qual mais gostoso que o outro. Como lembro, também, da Páscoa e dos ovinhos pintados, coloridos e escondidos para a gente procurar.

 

Tinha colegas, é claro, e brincadeiras interessantes - uma espécie de lego, uma horta, uma pipa que não voava. Mas, dentro de casa, preferia brincar sozinho, sem minha irmã - nós brigávamos muito por causa de ciúmes e, além disso, ela era dois anos mais nova e nossos interesses nas brincadeiras eram diferentes. Aprendi a ler em casa, sozinho. E a lembrança que tenho da primeira escola é de professores bem rígidos. Mas eu era um bom aluno, com boas notas, estava sempre entre os primeiros. E já nessa época eu me questionava sobre o que seria quando crescesse: músico, químico ou matemático? Senti-me fortemente vocacionado para a Matemática. Até porque não exigia laboratório, que eu detestava. Iniciei o segundo grau onde residia e concluí em São Galo.

 

Um tempo representado por muita dedicação aos estudos, muito envolvimento com línguas, mas também muitas atividades prazerosas. Como, por exemplo, as idas à biblioteca da cidade, esquiar com meu tio, nadar nas piscinas que os beneditinos construíram, caminhar por florestas e rios. Também frequentava o Mosteiro, comparecia a missas, concertos, festas religiosas. E, num envolvimento maior com a religião, que eventualmente poderia ter significado algum indício vocacional, eu era um dos líderes de um grupo de escoteiros católicos. Mas depois percebi que a vocação maior era a matemática. Assim, após a Faculdade fiz o doutoramento incluindo um estágio no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], nos Estados Unidos.

 

E fiquei três anos, depois voltei para a Suíça, fiz o meu doutoramento em um ano e meio, com base em tudo o que eu havia estudado lá no MIT.

 

Na volta à Suíça, eu passei pelas Ilhas Maurício, onde me aguardava uma namorada. Na verdade, uma moça que eu havia visto uma única vez, em Londres, e que iniciamos uma correspondência intensa. Ficamos noivos e ela queria casar. Só que eu queria, na época, estudar. Acabei casando com uma outra moça, que também fazia matemática. Casamos e fomos para Cali, na Colômbia. Lá ela concluiu o seu doutoramento - com a minha ajuda - e de lá viemos para São Paulo, que havia um convite para lecionarmos na USP.

 

O que nos levou, em 1970, para a Colômbia - na verdade, para a Universidade Del Valle, em Cali - foi um inexplicável interesse pelos astecas. Como não foi possível ir para o México, o convite para a Colômbia pareceu-nos interessante por causa dos incas. Mas lá não existia o “substancial salário”, apenas o risco proveniente da guerra civil. Acabamos praticamente fugindo para o Brasil, numa viagem que, seguramente, pode ser considerada uma epopeia. Aqui ensinamos na USP - eu, Topologia Algébrica; e ela, Geometria e Reflexões. Tivemos três filhos e ela, grávida de mais um, resolveu viajar para a Suíça, sem a intenção de retornar. Continuei a minha vida, dando aula, provendo o sustento deles, ela foi trabalhar no segundo grau - antes, quando ainda estava no Brasil, ela trocou a USP pela PUC, tornou-se titular, escreveu um livro, mas estava decidida a viajar. Fui lá, nos divorciamos, eu ainda permaneci um tempo - cumpri algumas obrigações na Escola Suíça Brasileira - e voltei.

 

Eu tinha a minha família aqui. Cento e sessenta meninos que precisavam de um pai.

 

Aí, fiquei dez anos exclusivamente entregue à missão que me impus, mas por opção; ao compromisso de ajudar, de encaminhar pessoas em condições sub-humanas. Foi quando construí essa entidade, essa obra assistencial que me consumiu inteiramente - e ainda me consome - mas que é enormemente gratificante. Faz-me sentir capaz de realizar alguma coisa que contenha grandeza, além de ensinar matemática. Hoje, aposentado, dedico todo o meu tempo, todos os meus esforços, toda a minha energia à entidade. E, curiosamente, foi nesse trabalho que eu encontrei e identifiquei afinidades com aquela que acabou se tornando a minha esposa brasileira.

 

Considero amplamente recompensado todo o empenho havido, assim como válida toda a mobilização empreendida ao longo desses 33 anos em que buscou-se garantir, para todas as crianças e adolescentes assistidos, um ambiente saudável, uma vida com dignidade, as reais oportunidades a que todos têm direito, em especial aqueles que a sociedade exclui, infâncias difíceis e futuros ameaçados. Começamos com uma creche para 170 crianças, quando aquela comunidade sequer compreendia o significado e o papel de uma creche. Depois, tornou-se possível construir um centro juvenil, que atendia até 240 alunos. Na verdade, um ano e meio antes de iniciarmos as obras já dispúnhamos de um berçário - zero a um ano - abrigando 27 crianças. Todas egressas da miséria absoluta - favelas da região de Caucaia do Alto.

 

Hoje, nosso trabalho é reconhecido. Já conseguimos levar essas crianças, esses adolescentes ao exterior para fazer apresentações de natureza cultural. Uma atividade que os valoriza, ensina e faz crescer. Dá-lhes visibilidade e aumenta a auto-estima, além de revelar talentos.

 

Agora, se você imaginar que tudo isso é a realização de um sonho… bem, pode ser. Mas, sonho maior é a sua continuidade, a sua expansão e a sua auto-sustentação, o que significa a independência do poder público.


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