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História

A pedagoga dos índios

História de: Geralda Chaves Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2008

Sinopse

Em sua narrativa muito bem articulada, Geralda conta o seu imenso trabalho em diversas comunidades indígenas, e analisa a questão das terras do índio no Brasil de forma clara, precisa e profunda. Sua fala desvenda aspectos muito silenciadas pela história oficial. Narra seu histórico de militância na universidade e como apoiar a estruturação do Rondon no Jequitinhonha a aproximou das questões indígenas.

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História completa

O meu nome é Geralda Chaves Soares, normalmente o pessoal me chama de Gera, que é o nome que eu me identifico também! Eu nasci em Santana, hoje município de Ponto dos Volantes, mas antigamente era município de Araçuaí. Santana era um mundo fechado, né? E quando eu vim pro Colégio Nazareth, em Araçuaí, foi um outro mundo! Tinha biblioteca, tinha irmãs que davam aulas, pessoal muito bom mesmo. Foram pessoas muito importantes para a minha formação política. Na época que eu formei, eu tava deslumbrada com esse mundo de educação, o trabalho que as irmãs faziam, esse trabalho de politização que a irmã Genoveva e que a irmã Marta davam. Então eu não pensava no retorno pra Santana. Voltar pra lá, pra mim, significava voltar atrás e eu queria mais coisas, eu queria trabalhar com a juventude, ser aquilo que as irmãs eram. E assim eu decidi ir pro convento. Aí eu fui, fiquei dois anos no noviciado.

 

No período que eu era noviça, fui aluna de uma pessoa fantástica que é o padre Lino Vaz, que era jesuíta, uma pessoa que marcou esse período de muita insatisfação que foi o período da Ditadura Militar. Então antes de fazer vestibular, o padre Vaz era um arrimo, porque com ele a gente estudava filosofia, antropologia, e dava uma base pra gente enfrentar aquele mundo maluco que estava instalado com a ditadura. Por uma série de histórias eu não fiquei mais, saí. Fiquei em Belo Horizonte pra fazer vestibular. Eu queria fazer psicologia, era um sonho que eu tinha, só que eu não passei na federal. Aí tentei na PUC, passei em pedagogia e como não dava pra perder tempo, fiz pedagogia mesmo.

 

Era uma época complicada demais, toda formação discutindo o papel da educação, e a escola impingindo pra gente uma educação pro mercado de trabalho. Quer dizer, você vai ser condicionado a entrar na fila e ir pro mercado, ou você vai fazer um outro tipo de educação? E aí eu conheci pessoas na PUC que abriram nossa cabeça. Eu me lembro da Consuelo Quiroga, que era da área de assistência social, outra era o Filipe Aranha, que marcou o Jequitinhonha. E as alternativas que nós do Jequitinhonha tínhamos era a guerrilha. Se você quiser mudar as coisas, vai pra guerrilha que lá o pau tá quebrando, então você tem que ir pro Araguaia. E a gente vivia naquele embate, aqui do Jequitinhonha mesmo muitos jovens entraram nessa. Um monte de gente que morreu naquele período e a gente que ficou pra trás, a gente vivia naquele dilema: o que fazer diante de uma violência dessa instaurada no país? E foi nesse período que a gente descobriu o Paulo Freire, através da Escola de Assistência Social. O pessoal importava o Paulo Freire em espanhol e a gente lia clandestinamente na PUC, que era proibido. Nós tínhamos um grupo dentro do curso de pedagogia, eu acho que foi a coisa melhor que eu fiz, que estudava Paulo Freire, tentava ler em espanhol. Imagina, nós daqui do Jequitinhonha tentando ler em espanhol! Eu sempre tinha vontade de voltar pra casa, muita ligação aqui com a roça e muita preocupação com a situação de minha família. E quando eu me formei eu voltei pra cá. Dessas coisas incríveis, porque enquanto a gente tava lá na luta política muito grande, aqui o mundo tava cá atrás.

 

Até que a PUC resolveu entrar num convênio com o Projento Rondon e recebi uma proposta para participar. Bom, a gente que era mais ligado com o movimento estudantil sabia que o Rondon era uma estratégia do governo de tirar a juventude da área urbana, no meio de toda a efervescência política e trazer pra essas regiões. Chegava aqui, o cara ficava deslumbrado, então achava que o fato de extrair dente, dar uma consulta, tava mudando o país. Podia estar mudando, o problema era a questão da consciência: pra onde essa juventude ia sendo encaminhada? Então aí eu peguei e falei: “Isso aí vai ser uma coisa boa! Vai ter muito universitário, vai ter espaço para discutir, pessoas pra conversar, pra conviver!” E topei.

 

E nós tivemos muitos desafios! De repente chegavam 100 estudantes com a cabeça feita, que eles vinham com os projetos formados em São Paulo, em Belo Horizonte, em Lavras pra implantar aqui. Do lado de cá, as prefeituras achavam que o Rondon ia resolver tudo. É um período de muita seca, eu acho que nós tentamos contornar essa situação, então chegou um momento que a gente chegou a criar um regimento interno discutido com esses universitários qual era a política do Rondon: “Vocês estão aqui, então a gente tem que criar uma alternativa, isso aqui é a cultura urbana industrial chegando na área rural, que impacto isso vai ter, como nós vamos ter que atenuar esse choque?” E com isso a gente criou normas de comportamento com os jovens, começamos a questionar os projetos que eram feitos lá e adequar esses projetos à realidade aqui. Foi durante um tempão! E aí mudaram todos os convênios e acabou. Essa experiência acabou, findou. Mas olhando pra trás você vê que a influência dos jovens aqui foi muito grande aqui, muito grande. E acredito que foi um processo de educação de um lado e de outro, na medida em que foi furando o balão, em que as prefeituras também começaram a ver que o Rondon não ia resolver tudo, aí a coisa foi atenuando e ficando mais pé no chão, né? Se tivesse continuado acho que teria saído muita coisa boa.

 

Foi nessa época do Rondon que eu fui pra um seminário no Equador sobre trabalho social rural, e lá eu apresentei as formas de intervenção que os jovens estavam tendo na área rural, com essa pedagogia diferenciada. E, pra meu espanto, lá todo mundo queria saber sobre os índios: “Ah, tá tendo massacre dos índios no Brasil?” E Dom Pedro Casaldáliga? As denúncias que estão chegando?” E a gente não sabia quase nada! Índio pra mim aqui não existia, né? Voltei com aquela interrogação: que negócio de índio é esse? No Brasil está acontecendo isso mesmo? E eu escrevi pra Pastoral da Terra porque eu achava que a CPT [Comissão Pastoral da Terra] que era responsável pela questão de terra. Aí lá vem uma carta: “Não, na igreja tem o CIMI, Conselho Indigenista Missionário, que é quem cuida da questão do índio”. Era  a única referência que a gente tinha, porque nós já tínhamos uma crítica da FUNAI, que nessa época era o braço da ditadura com os índios. Passou um período de ida e vinda de correspondência, me chamaram pra ir num curso de formação que ia ter em Alcobaça, com muitas pessoas que trabalhavam com índios no Brasil inteiro. Lá foi uma revelação porque um dos pontos principais era a estruturação do CIMI Leste aqui nessa região e a história da nossa região, a resistência dos chamados Botocudos. E eu fiquei muito apaixonada com aquilo. Enquanto eu tinha toda uma visão política da sociedade, do mundo, eu não conhecia a história daqui.

 

A diocese queria que a gente fosse trabalhar com os Maxacali. Nó, tremi nas bases! Falei: “Não, não vou não, tô muito apaixonada, mas não vai dar”. Eu não queria ir sozinha, minha mãe falava: “Olha, essa região aí é de jagunço, povo muito perigoso, essa coisa de índio dá problema de terra”, tinha muita notícia de conflitos. E eu fiquei reticente. “Sozinha eu não vou não: uma que eu nunca trabalhei com índio. Segundo, eu não falo a língua deles. E sozinha não tem pique pra isso, né?” Aí nós ficamos aguardando aparecer alguém. Até que chegou o padre Jerônimo apresentando uma moça advogada pra ir comigo. Aí eu fiquei super feliz, né? Nós fomos pra ficar uma semana e ficamos seis meses, não voltamos não, ficamos lá.

 

Ah, eu devia ter quase 30 anos já. Fiquei oito anos com os Maxacali. Peguei uma barra muito pesada e acho que me identifiquei muito com eles, eu não queria sair de lá, quando eu saí, saí por força do problema. Ou morria lá ou ajudava na luta, ia continuar de outro jeito, dando força pra eles de uma outra forma. A gente tinha que ter estratégia, nós não podíamos chegar e entrar porque a FUNAI tinha poder de polícia lá dentro. E um belo dia chegou um um grupo enorme de índios que tava de passagem. Os homens todos com arco e flecha, as mulheres com as crianças e chegaram, devia ser umas 15 pessoas, na nossa casa. Eles iam viajar no dia seguinte e perguntaram se eles podiam dormir lá. Aquilo pra nós foi um sonho! Aquele tanto de índio! Nós fizemos o seguinte: tiramos a mesa e as cadeiras, botamos esteira e fizemos uma fogueira dentro de casa porque tava chovendo muito, pegamos coberta pra todo mundo, deitamos na sala com eles, ficamos lá, passamos a noite conversando e ouvindo essa história, o outro lado da história da terra. E, até então, a gente não sabia o que motivou aquela aproximação, porque eram índios de uma área já na divisa com a Bahia, praticamente não falavam português, só dois falavam, o Camilo, que era o pajé, e um outro. Aí, depois de um tempo, a gente soube o seguinte: o chefe de posto da FUNAI falou que a gente é mulher da vida. E eles passaram um tempo observando o que estava acontecendo e chegaram à seguinte conclusão: “Se elas duas estão apoiando os trabalhador contra os fazendeiros, os fazendeiros estão com raiva delas, então esse povo não é gente ruim, a gente vai lá pra saber quem é.” E nós, sem saber de nada, dormimos na sala com eles, conversamos a noite inteira. E aí começou uma relação boa com os Maxakali a partir deles, da descoberta deles de quem era a gente, da investigação deles. E dessa data em diante mudou, nosso esquema de relação com eles, então eles passaram a ensinar a gente como chegar na aldeia sem passar pela FUNAI.

 

A gente começou a ver com os olhos da gente o quê que se passava, e ouvir a história deles, a história contada por eles. Foi um povo que marcou muito a minha vida. Eu acho que eu era uma ativista na universidade e com muita crítica de tudo, mas com os índios eu aprendi um outro lado: da afetividade, da proximidade das pessoas. Você vivia uma vida junto, muitos desafios, mortes, assassinatos e famílias inteiras lesadas.

 

Depois de ter passado tantas coisas, tantos processos, eu acho que eu cheguei bem no funil, tô aqui em baixo no funil e acho que o indígena é o grande projeto de vida pro mundo. Porque não é que o índio é bom e nós somos ruins, os projetos de vida são diferentes. O indígena tem um projeto de vida comunitário, de vida junto, de um responsabilizar pelo outro. O nosso projeto é egoísta, cada um se vira...


Muita gente fala assim: “Minha avó foi pegada no laço, foi amansada, ela era muito brava, aí teve que trazer ela pra civilizar, pra ela virar gente”. Aqui é comum você ouvir isso. E hoje quando eu vejo os Krenak brigando contra a Vale do Rio Doce, exigindo a terra ancestral que são dos Botocudos... Os Aranã aqui que estão sem território, brigando por um espaço e por cidadania... Os Pankararu, os Pataxós, todos, eu vejo isso muito bonito, eu acho que se o povo do Jequitinhonha tivesse a consciência da história, da força e do passado, eu acho que isso aqui ia ser igual Chiapas no México, sabe, ninguém segura, né? Eu penso assim. Então espero que muitos outros povos comece com essa história a se assumir.


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