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História

A possível formação de um líder

Sinopse

Em 2012, o congolês Alphonse deixou seu pais natal, o Congo, por não se sentir seguro por conta de sua militância. Mudou de país fugindo do governo, e em busca de melhores condições de vida. Relembra sobre algumas dificuldades ao chegar ao Brasil, desafios e um preconceito encoberto por ser estrangeiro, mas também encontrou solidariedade, oportunidades e a perspectiva de continuar os estudos. Seu sonho é tornar-se engenheiro e a longo prazo é tornar-se um líder dos refugiados, trabalhando por sua integração na terra que os adotou.

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História completa

P/1 – Vamos começar então, Alphonse, primeira pergunta. Qual é o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento?

 

R – O meu nome é Alphonse Nyembo Wnyembo, nasci na República Democrática do Congo, especificamente numa província que se chama Nord-Kivu.

 

P/1 – Em que ano?

 

R – Trinta de março, 1986.

 

P/1 – Fala um pouquinho da sua família, o nome dos seus pais, os irmãos que você tem.

 

R – O meu pai, o nome dele é Catumbue Charlie Nyembo, a minha mãe se chama Amysse Assenco. Eu nasci numa família de nove irmãos, onde tem seis meninas e tem três homens.

 

P/1 – O que seus pais fazem ou faziam lá no Congo?

 

R – O meu pai é funcionário público, ele trabalha em seguro de empresas, carros, mas hoje em dia tá muito complicado pra ele, porque eles quase não ganham nada, então o país tá quebrado, tá muito difícil, ele tá trabalhando, só ir, mas no final do mês não tem salário, assim, fixo pra ele.

 

P/1 – Ele continua lá?

 

R – Ele continua, continua.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – A minha mãe tem uma pequena coisa que ela faz, o negócio dela, ela vende algumas coisas, mas não é também tão suficiente pra ela, é como se fosse um bico que ela faz.

 

P/1 – E você, o que você fazia no Congo antes de vir pra cá?

 

R – No Congo eu era repórter, jornalista, na verdade, às vezes eu entrevistava bastante pessoas que saíam nos lugares onde tem conflitos, perguntava algumas coisas, mas não trabalhei muito, muito como jornalista, era bem pouco tempo que eu trabalhei.

 

P/1 – Você escrevia pra um jornal, pra uma revista, como era?

 

R – Era uma rádio, onde a gente falava, às vezes, coisa que tava acontecendo lá, onde tem conflitos, porque eu nasci onde tem conflitos, então eu mudei pra Lubumbashi, que é a segunda capital do Congo, é lá onde muitas pessoas perguntavam sempre: “Como que é lá Nord-Kivu? A gente tá ouvindo bastante coisas sobre a guerra, sobre conflitos, como que é então?”. Sempre a gente tinha um certo conhecimento sobre o local, sobre as guerras, sobre as portas que tá trazendo conflitos no Congo, isso que eu fazia, entrevistava bastante pessoas e às vezes buscava informações.

 

P/1 – Eu vou fazer então igual o pessoal da cidade pra onde você mudou, conta pra gente que não conhece o Congo hoje, qual é a situação política e econômica lá, quais são esses conflitos, conta um pouquinho pra quem não conhece nada do Congo.

 

R – O Congo, eu vou falar primeiramente do ponto de vista da geografia dele, é o segundo maior país da África, tem um potencial bem alto, tem bastante recursos minerais, infelizmente o povo congolês não se beneficia de nada desses recursos minerais. Então tem conflitos atrás desses recursos minerais, tem bastante violência, tem muitas pessoas que crescem sem educação, eles não têm acesso à faculdade, não têm acesso à escola, isso basicamente, o povo é conhecido como o país mais perigoso, onde é muito difícil crescer, fazer uma vida normal, como qualquer outra pessoa. Esse é o meu país, é conhecido por isso, mas ele tem um potencial bem forte, ele tem muitos recursos minerais, tem bastante riquezas, é um país que tem um futuro, mas atualmente o país tá quebrado devido à conflitos étnicos, conflitos de bastante pessoas que chegam, muitas empresas multinacionais que criam conflitos lá no Congo, essa é a atual situação no Congo. Hoje em dia, educação, não tem educação, hoje em dia é muito difícil, não tem estradas, não tem acessos pra você se deslocar em várias províncias, ou seja, vários locais, porque é muito precária a situação atual do Congo, economicamente o país tá ruim, não tá bom.

 

P/1 – E no Norte, de onde você vem, você diz que lá tem conflitos, ali tem guerra civil.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Fala um pouquinho desses conflitos.

 

R – Então, o conflito é entre os ruandeses e congoleses. Lá tem uma cidade que se chama Goma, Goma é como se fosse uma porta de entrada.

 

P/1 – Você estava contando do conflito.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Pode falar, por favor.

 

R – Sim, lá tem uma cidade, lá no Nord-Kivu, é uma cidade que se chama Goma, é como se fosse uma porta de entrada, onde tem bastante pessoas que vem da Ruanda, Uganda, são rebeldes, eles querem criar conflitos, esses conflitos são atrás de recursos minerais, muitas coisas que a gente tem hoje, smartphones, notebooks, tem alguns produtos que eles têm que procurar lá pra levar no mercado multinacionais, as empresas multinacionais, por isso tem esses conflitos. Tem também conflitos de fronteiras, tem conflitos de lugares, muitas pessoas sempre entram em lutas contra... Eles tão procurando um lugar, um terreno, então esse tipo de conflitos, tem violência, então tem muitas coisas. Isso veio depois do genocídio da Ruanda, a Ruanda é um país perto do Congo, depois do genocídio que veio todas essas coisas, conflito, até hoje o Congo não é um país onde você pode viver em paz, é um país bem quebrado e tem bastante coisa acontecendo no Congo hoje.

 

P/1 – Qual foi o dia que você percebeu que não dava pra ficar lá e que você queria sair?

 

R – Bom, o dia que eu percebi isso foi quando a gente tava lutando, como estudante, a gente queria uma certa mudança, como o país é um país de ditaduras, sai outro ditador, vai outro ditador, então a gente tem que sensibilizar, mobilizar estudantes, muitas pessoas que podem fazer tudo pra tirar essas pessoas no poder, para que a gente tenha uma democracia transparente. Então, ao fazer isso aí, era muito complicado pra mim, não só eu pessoalmente, teve bastante pessoas também envolvidas, então esse conflito, lutando com o governo, era já perigoso pra nós, então a gente tinha que deixar o país, sair pra procurar outros abrigos. Era bem tenso, porque a gente tava vendo bastante pessoas mortas lá no Nord-Kivu, muitas pessoas tavam morrendo, mulheres violentadas, crianças que crescem sem educação, em vez de dar educação pra crianças ele dá arma, esse tipo de coisa, a gente tava na luta pra que essas coisas não continuem. Então por isso, lutando, isso, fazendo protestos, manifestações, que criou esses problemas, aí tinha que deixar o país pra procurar outro abrigo.

 

P/1 – E o Brasil, como que o Brasil entrou na sua rota?

 

R – Então, o Brasil, na verdade, quando eu saí lá no Congo fui pra Tanzânia, a partir lá da Tanzânia eu encontrei algumas pessoas que me ajudaram, como se fosse uma ONG que ajuda bastante pessoas que tá saindo do Congo, fugindo, é uma ONG de opositores, eles também lutaram muito tempo pra que as coisas mudassem no Congo. Só que eles já criaram uma ONG, quando você sai do Congo, eles ajudam um pouco, vêem aonde você pode mandar uma pessoa, uma pessoa que tem uma carreira boa, uma pessoa que quer crescer, então eles perceberam que pra mim era bom vir pra aqui no Brasil. Então a escolha era deles, eles que me ajudaram a vir até aqui no Brasil, outras pessoas foram pra outros locais, outros lugares.

 

P/1 – Quando foi isso?

 

R – Isso foi em dezembro de 2012.

 

P/1 – Quando você chegou no Brasil... Me conta a sua chegada no Brasil, como foi vir para o Brasil?

 

R – Ao chegar aqui no Brasil, eu cheguei aqui em São Paulo, Guarulhos, mas fui parar até Santa Catarina, de lá que eu peguei ônibus, voltei aqui em São Paulo, era meio complicado, eu cheguei na casa de um congolês, é um congolês que tá aqui já há mais ou menos alguns tempos. A gente tem uma comunidade congolesa, então a gente se ajuda, eu cheguei aqui, aí eles me falaram de algumas coisas que eu tenho que fazer pra me dar bem aqui, porque não era tão fácil, eu cheguei aqui, eu não falava nada de português, nada, absolutamente nada, eles tinham que me dar algumas dicas, o que eu tenho que fazer pra conseguir me manter bem aqui.

 

P/1 – Quais foram essas dicas?

 

R – As dicas era que: “Você, como você fala bastante línguas, você fala francês, inglês, suaíli, é bom você começar a dar aula, primeiramente você tem que começar a dar aulas particulares, depois de pegar uma certa experiência, aí a gente pode te indicar numas escolas de línguas”, é onde eu comecei a minha vida. Então eles me indicaram, tinha uma escola, faz muito tempo, que se chamava De Corse, acho que é uma escola falida, não existe mais, aí fui lá, conversei com a dona da escola, eu conversei: “Queria dar aula de Francês e Inglês aqui”, eles me fizeram bastante perguntas, eles fizeram até um teste pra ver se eu conseguia dar aula. Passei nos testes, graças a Deus, comecei a dar aula, eles me deram um aluno, comecei com um aluno, sim, comecei com um aluno, isso.

 

P/1 – Qual é a primeira cena que você se lembra, sua, aqui em São Paulo? Como que São Paulo se apresentou pra você?

 

R – Ao chegar aqui em São Paulo, eu falei: “Nossa, aqui acho que vou me dar bem, aqui no Brasil”, vendo São Paulo, uma cidade grande, uma cidade onde tem bastante pessoas, na minha mente eu percebi que é uma cidade que tem oportunidade, dá pra realizar o meu sonho que eu tinha no meu país, como eu queria continuar a estudar, queria fazer algo: “Acho que essa cidade é bom pra mim”. Assim, ao chegar, ao chegar aqui no Brasil, percebi que era muito bom, mas com o tempo que eu percebi outras realidades, mas chegando eu vi uma cidade muito boa, bastante pessoas e às vezes as pessoas ajudavam. Quando você não fala português, você tá procurando um lugar, ele te fala: “Não, você pode ir pra tal lugar, você pode ir lá”, mesmo algumas pessoas mentiam, pelo menos me ajudava pra conseguir chegar a qualquer lugar onde eu queria ir.

 

P/1 – Descreve pra mim os primeiros lugares que você frequentou.

 

R – Cheguei aqui, fui até Butantã, eu vi o metrô, eu vi bastante prédios, eu vi muitos prédios, eu falei: “Nossa, é uma cidade muito grande”, eu nunca vi uma cidade tão grande, onde a aglomeração é bem alta, tem bastante pessoas, cada pessoa tem uma certa atividade, que é bem difícil de encontrar lá no Congo, a maioria das pessoas lá são desempregadas, muitas pessoas concentram nas cidades pequenas. Mas ao chegar aqui eu percebi uma diversidade maior, de bastante pessoas, pessoas de qualquer lugar, raças diferentes, onde tem uma miscigenação bem forte. São as minhas primeiras impressões.

 

P/1 – Onde que você foi morar no primeiro momento?

 

R – Quando eu cheguei aqui, eu fui morar lá perto de Butantã, perto de metrô Butantã, onde teve alguns congoleses que moravam lá, juntos, a gente morava mais ou menos dez pessoas lá, é como se fosse um quarto, tem bastante lugar onde você pode dormir, passar a noite lá.

 

P/1 – Parte da sua família veio depois?

 

R – Então, quando eu cheguei aqui, eu ouvi falar, depois de mais ou menos um ano, eu ouvi falar que a minha irmã também tava passando por isso, a perseguição política, como eles não conseguiam me achar, então eles tinham que ir atrás da minha família. Então eu conversei com a galera lá que me ajudaram pra vir pra cá, eu falei: “Nossa, é bem perigoso, quero que vocês ajudem a minha irmã pra me encontrar aqui, vou ver se eu consigo ficar com ela aqui”, aí a minha irmã também veio no mesmo caminho, o mesmo caminho que eu.

 

P/1 – Nessa época você começou já a trabalhar como professor de línguas, né?

 

R – Professor de línguas, mas quando eu cheguei aqui, eu não queria trabalhar como professor, eu trabalhei como professor porque eu queria continuar com a minha faculdade. Eu comecei a fazer um curso lá no SENAI, era um curso de eletrônica, dando aula, depois terminou esse curso, eu queria fazer faculdade, como eu sou jornalista formado, eu percebi que é muito difícil me dar bem aqui, trabalhar como jornalista, devido a muitas coisas que eu percebi, porque é raro ver um estrangeiro aqui que tá na TV, ou seja rádio, talvez tem português, que é bem difícil pra muitas pessoas, talvez eles não consigam trabalhar como jornalistas aqui no Brasil. Eu vi que ia ser bem difícil se eu continuasse trabalhar como jornalista, então eu tenho que trocar, fazer algo bem diferente, bem prático, que vai me ajudar a entrar no mercado de trabalho, aí eu comecei um curso de eletrônico e depois eu comecei uma faculdade de Tecnologia Mecatrônica, mas dando aula. Essa faculdade eu paguei do meu próprio bolso, eu acordava às cinco horas de manhã, ia dar aula, depois de dar aula, um pouco lá que eu ganho, eu consigo me manter e pagar faculdade, até eu pedi esse desconto, a faculdade falou que assim: “a gente não tem ainda essa política aqui, é um caso novo de pessoa que tá chegando, estrangeiros, refugiados, imigrantes, aqui é uma faculdade particular, a gente não pode ver, o máximo possível que a gente pode fazer é te dar uma bolsa de 10%”, eles me deram só uma bolsa de 10%. Lutei bastante, graças a Deus eu consegui me formar, mas não era tão fácil assim, era muito difícil, depois de dar aula, dei aula em bastante escolas, Wizard e outras coisas, aí abriu o abraço, o abraço cultural de professor.

 

P/1 – Vamos chegar lá daqui a pouquinho, mas antes disso, naquele primeiro momento você não falava português?

 

R – Não, não falava nada de português.

 

P/1 – Eu imagino que você deve ter se deparado com várias situações.

 

R – Exatamente, situações bem complexas.

 

P/1 – Conta uma.

 

R – Então, eu lembro, falar “ônibus” era bem difícil pra mim, como a gente tem um francês puxado, tem aquele sotaque lá de francês, quando eu falava sempre “ônibus”, falava: “Onibús”, “Onibús”, porque o francês tem uma tônica bem subida, então muitas pessoas não entendiam. Aí um moço me falou: “Onibús, o que é onibús?”, aí “Ah, você tá falando ônibus”, a partir de lá que eu aprendi que você tem que [acentuar] uma tônica quando você tá descendo, então o sotaque era bem difícil pra mim, aí eles me ajudaram nisso, nesse caso pegar ônibus, vai ao centro, chegar lá na Sé, Praça da Sé, ver exatamente as coisas. Mais uma outra coisa, falar de comida, né: “Eu quero um pãozinho, quero alguma coisa assim”, era bem difícil, tinha que perguntar: “Eu sou estrangeiro, eu não falo bem. Qual é o nome desse?”, “Ah, isso aqui é pão de queijo, esse daqui é isso”, a partir de lá sempre eu tinha um caderninho onde eu anotava todas as coisas, a partir de lá que eu comecei a falar bem português, algumas palavras eu conseguia sair e ir sozinho no centro e voltar até em casa.

 

P/1 – Mas você se envolveu em alguma situação tipo essa do ônibus, porque de repente você foi parar em outro lugar ou que aconteceu uma confusão?

 

R – Aconteceu sim, aconteceu isso, às vezes quando você pergunta o endereço, aí uma pessoa te passa o endereço, você não entende bem, aí você se perde, aí o que que eu fazia sempre? Eu tinha uma dica de perguntar mais ou menos três pessoas, se três pessoas me confirmam a mesma coisa, significa que é o lugar bem certo, porque tem algumas pessoas também que mentem, você pergunta uma coisa, o cara quer te perder mesmo e te fala que: “É tal lugar, pega direita, esquerda, assim, assim”. Então era bem complicado, me perdi várias vezes, mas eu tinha que perguntar três vezes, três pessoas pra que eu consiguisse chegar no lugar certo.

 

P/1 – Por falar nisso, como você sentiu a recepção das pessoas de São Paulo a você?

 

R – Então, ao chegar aqui, os congoleses, eu fui bem recebido, aí depois, quando eu comecei a falar um pouco de português, algumas palavras, ia nas padarias, era chegar assim nas padarias: “Ah, você fala diferente, você não fala a nossa língua. Da onde você é?”, aí eu falo: “Eu sou do Congo”, “Ah, nossa, legal, seja bem-vindo”. Essa simpatia eu tinha, encontrei bastante pessoas simpáticas, muitos deles que queriam na verdade ser amigo, mas não todos eles, simpatia eu tinha, algumas pessoas me receberam bem, falando bem, me ajudavam. Eu lembro quando eu tava lá no SENAI, fazendo curso de eletrônico lá, era bem difícil me comunicar, falar com o professor, perguntar algumas coisas, mas muitas pessoas me ajudaram com livros, bastante coisas pra ler, peguei muitos livros, pra ler literatura, gramática, história brasileira, então muitas pessoas me mostraram essa simpatia.

 

P/1 – Há quatro anos que você tá aqui, mais ou menos?

 

R – Sim, quatro anos.

 

P/1 – Tem alguma passagem, alguma história que seja tocante pra você, emocionante, de alguém que fez algo que te mostrou essa hospitalidade ou o contrário, alguém que não foi hospitaleiro?

 

R – Sim, tem dois casos com certeza, eu encontrei uma pessoa, ela se chama Gisela, é uma mãe, ela é ativista também, participou de bastante coisas, então ela me ajudou bastante, bastante mesmo, não sei como posso agradecer ela, são muitas coisas, me indicou na faculdade, me deu bastante dica daqui, o que eu tenho que fazer pra me dar bem aqui no Brasil. Não só ela sozinha, teve também outras pessoas, eu lembro, onde eu iniciei o meu estágio numa empresa bem pequena de pontos de venda, se chama Pontonet, é uma empresa de eletrônico, eu encontrei bastante gente boa, me ajudaram bastante, com bastante recursos, o Bernardo, o Rodnei - é uma empresa da Sony - o João, eles são bem carinhosos, eles ficaram bem de boa comigo. Eles me falaram: “Não, Alphonse, não te preocupa, a gente vai te ajudar aqui, qualquer coisa que precisar, especificamente da sua profissão, vai ser bem, vai se dar bem”, então eles me ajudavam bastante. Só que aconteceu que, como eu não tinha os documentos certos, muitas coisas certas, não deu pra eu ficar trabalhando lá, por isso eu tive que sair, depois de um ano de estágio que eu fiz lá com eles, mas era como se fosse uma família, muita gente boa mesmo, não sei como posso descrever eles. Até eu esqueci como, eu sou congolês, eu esqueci, fazia como se fosse parte do brasileiro, daqui, da vida de vocês, o cotidiano de vocês, todo dia, você esquece às vezes que eu não sou brasileiro. Também eu encontrei bastante pessoas ruins, pessoas que não queriam ajudar, pessoa que queria falar bastante coisas: “Você está chegando aqui pra pegar emprego, tirar nosso emprego”, encontrei isso também, tem os dois lados. Mas o bom é que eu encontrei mais positivo que negativo, então eu encontrei mais pessoas boas do que ruins, é uma minoridade que tem, sempre, em todos os lugares tem esse tipo de coisa. Eu lembro, eu encontrei uma pessoa, era uma afrodescendente, e me falou: “Ah, você chegou aqui no Brasil, muito bom, filho, eu vou te falar uma coisa, você quer fazer a sua vida aqui, não vai ser tão fácil pra você, o Brasil é um país onde o racismo é ainda um alvo, é uma coisa que o governo tá tentando diminuir, mas tem racismo, um dia, não se preocupa se isso acontecer com você, tem que se preparar já”. Ela me falou isso, eu falei: “Tudo bem, eu já sei, eu sei que eu vim aqui, não é meu país, mas pode acontecer, mas já tô preparado, como você tá me avisando”, me falou que tem que trabalhar bastante, tem que fazer tudo pra se destacar: “Não vai ser tão fácil pra você”, ela me falou isso, conversei com eles, eu falei: “Tudo bem, eu tô esperando”. Mas até hoje eu nunca encontrei uma pessoa que tá me discriminando verbalmente, um preconceito verbalmente falando, mas acontece aquela coisa, você chega num lugar, já com sua linguagem corporal você percebe que não: “Ah, essas pessoas não tão gostando da minha presença aqui”, dá pra perceber isso também, esse tipo de coisas acontecem, mas verbalmente eu nunca passei isso.

 

P/1 – Qual foi a pior situação que você se envolveu, nesse tipo de preconceito?

 

R – Bom, a pior situação que eu posso falar, eu ficava numa empresa lá, aí eu fiquei muito chateado, sempre as pessoas saem pra almoçar junto, eles sempre me deixavam, sempre me deixavam, eles iam lá, aí depois eu falava: “Cadê o fulano?”, “Ah, já saiu, já”, então eu tinha que correr atrás deles, não mostravam essa simpatia. É uma empresa X, eu não quero falar o nome, mas eu fiquei bem chateado com isso, eu falei: “Nossa”, eles me empregaram falando que iam me tratar bem, esse tipo de coisa, eu não gostei desse tipo de coisas, aí depois eu chegava lá: “Ah, a gente tava te procurando”, quando eu estava lá. Sempre em horário de almoçar, eles sempre conversam: “Ah, a gente vai junto, vamos lá pessoal”, aí eles saem juntos, aí às vezes acontecia que eles me deixavam, aí eu tinha que ir atrás deles, ao chegar lá eu ficava com vergonha, então: “Será que eu vou sentar com eles depois disso aí”, então esse tipo de coisa era coisa bem chata. Mas uma outra coisa, isso aqui não é pior, eu lembro, cheguei numa escola, uma escola que não é tão qualificada também, não é uma escola onde tem os bons professores, não é uma escola que tem uma certa estrutura, que a gente conhece, mas eu fiquei discriminado, porque eles acharam que os alunos não vão gostar de mim, eles acharam só isso. Eles falaram que não: “Seja bem-vindo, mas a gente tá vendo, você tem uma experiência muito boa, você tá lecionando bem, mas a gente não vai te por numa sala pra você dar aula”, quando eu cheguei, quando era bem recente aqui: “Você vai ficar no corredor, você vai começar a ajudar alunos que têm dúvidas”, isso também eu fiquei muito chateado, porque eu percebi, não tinha um professor que tinha qualificações, ou seja, que sabia inglês bem, ou seja francês, como eu, porque a gente ficou mais de um mês fazendo treinamento, fazendo esse treinamento e eu percebi que não, eles só não gostavam de mim. São dois casos que eu percebi, mas tem bastante outras coisas, não dá pra lembrar tudo, mas to falando mais ou menos os pontos significantes.

 

P/1 – Me fala um pouquinho, eu confesso que eu não conheço a comunidade congolesa aqui em São Paulo, você falou que tem uma certa união, fala um pouquinho, onde eles estão, quem são essas pessoas, conta um pouquinho dessa comunidade.

 

R – Então, às vezes a gente se encontra lá no Brás, se tiver uma reunião, uma coisa assim, a gente se encontra, mas é bem raro, a vida aqui em São Paulo é bem difícil, é muito difícil, não dá pra você ir o tempo todo, ir lá, você pode ver depois de seis meses uma coisa, se eles marcam alguma coisa, você vai lá. Não é tão, assim, frequente, você tem que ir lá frequentemente, mas a gente se encontra mais ou menos uma vez por ano, uma coisa assim, é uma comunidade que não é tão sólida, é mais... Cada um faz um bico bem diferente, é muito difícil entrar em contato com muito congolês, porque eles, a maioria deles não têm profissões aqui no Brasil. Eu me formei aqui, eu tenho que entrar em contato com pessoas que podem me ajudar profissionalmente, minha carreira, a minha faculdade, porque na verdade quero continuar, terminar mais dois anos e meio pra me formar como engenheiro, mas a gente se vê bem raramente. A gente ficou junto durante um tempo, aí aconteceu que cada um tinha que sair, tinha que se virar, isso que é a realidade, isso que aconteceu comigo.

 

P/1 – Hoje, pelo o que eu entendi, você não mora mais no Butantã.

 

R – Não, não moro lá.

 

P/1 – Conta pra mim a história dessa mudança, de onde você mora hoje e fala um pouquinho dessa região onde você mora hoje.

 

R – Sim, hoje eu moro lá na Zona Sul, acho que no nosso bairro eu sou o único africano, eu saí lá do Butantã porque eu tinha que despedir, galera lá falando que não: “Agora já eu tenho trabalho, tô dando aula, acho que eu tenho que sair, eu já tenho que alugar a minha própria casa, acho que é melhor pra mim, porque tem uma irmã minha também que vai vir, com certeza a gente tem que ficar junto”. Aí eu saí lá do Butantã, agora to morando lá na Zona Sul, Socorro, perto de Santo Amaro.

 

P/1 – Como que é a sua região?

 

R – A região é uma região de família média, mas puxado mais pra ricas, as pessoas ricas, eu fico lá porque eu encontrei uma pessoa que falou que: “Não, vai ser muito difícil, você não tem fiador, você não tem nada, ninguém te conhece aqui, ninguém pode confiar, te dar uma casa, ou seja, alugar”. Então eu encontrei uma pessoa que eu tava dando aula pra ele, aí ele falou: “Eu tenho um kitnet, onde você pode ir, você vai pagar, como você já tá trabalhando, você vai pagar e você vai ficar lá nessa casa, nesse kitnet”, é bem alto, eu pago mais ou menos novecentos reais, porque eu junto com a minha irmã pra que a gente consiga morar lá. Eu não quero sair de lá, porque a minha irmã também trabalha num lugar bem perto, bem perto, mas a maioria das pessoas que tão chegando aqui no Brasil, se você não fala outras línguas, é muito complicado, tem que fazer serviços gerais, se conseguir também fazer. Entrar na sua profissão, trabalhar como formado, tem que ter bastante contato, pessoas que podem te ajudar pra fazer isso.

 

P/1 – Nessa história toda, como surgiu a ONG aqui na sua vida, esse trabalho atual seu?

 

R – Nossa, essa ONG, eu posso falar, é como se fosse algo que veio pra ajudar estrangeiros, pra ajudar refugiados que estão chegando aqui no Brasil, eu encontrei, teve um jogo de futebol de refugiados, imigrantes, aí teve um jogo lá, era como se fosse uma Copa, pra eles, refugiados, imigrantes, aí depois disso eu cheguei lá. Eu vi bastante pessoas, então muitas pessoas me entrevistaram: “Você é do Congo?”, eu falei: “Sim, eu sou do Congo”, “Ah, legal, muito bom, aqui é bacana, então a gente tá gostando muito de assistir o jogo aqui, é bom o futebol aqui”, eu falei: “É muito bom se a gente tem esse tipo de atividade com frequência, com mais frequência, vai ser muito bacana, vai ser uma coisa boa”, “Ah, legal”. Aí eu saio de lá, abraço, eu não sabia nada disso, aí eu conheci uma pessoa, é um congolês, ele entrou em contato com o Marcelo do Adus, é o Marcelo do Adus, ele que indicou ele pra cá, aqui na Adus, falando que: “Não, lá ele está querendo abrir uma escola de línguas, só refugiados, imigrantes que vão dar aula lá”, eu falei: “Não, isso é uma coisa muito bacana. Aula de quê?”, “Ah, Inglês, Francês, Suaíli, Árabe, qualquer outra língua, se você sabe uma língua, pode ir lá”. Então, como eu tinha bastante experiência de dar aula, ao chegar aqui já o André gostou de mim, falou que: “Não, cara, a gente vai te dar esse trampo aqui, você vai começar a trabalhar aqui como professor, a gente tá começando, a gente tá iniciando e a gente tá vendo como que vai ser, entendeu”, então eu falei: “Nossa, é muito bom, tô precisando disso”. Aí eu percebi que isso aí é algo que tá ajudando bastante, tem muitas pessoas que estão chegando aqui no Brasil, especificamente sírios, africanos, que não falam português, a metodologia nossa, que a gente tem aqui, um professor passa por um treinamento de você dar aula, a gente usa communicative approach, significa que você não precisa falar português pra ensinar, mas tem metodologia de fotos, imagens, pra que um aluno, seja aluna, entenda, aprenda como se fala uma língua. Ajuda também porque bastante brasileiros que vêm aqui se esforçam pra aprender, porque sabem: “O professor não fala a minha língua, eu tenho que fazer o máximo possível pra entender o que ele tá dando”, a gente tem essa metodologia que facilita isso, é assim que eu entrei em contato com a ONG aqui.

 

P/1 – Conta pra mim, qual é a distância de onde você mora pra aqui onde você trabalha? E me conta como você faz pra vir aqui, descreve esse trajeto pra mim.

 

R – Eu pego ônibus, depois de ônibus, eu pego trem, aí o trem faz baldeação, pego metrô, eu chego até aqui, é mais ou menos uma hora e quinze minutos pra chegar até aqui, eu não sei quantos quilômetros tem, mas pelo menos dá pra ver isso com a hora que eu gasto.

 

P/1 – Quase são as imagens, as paisagens que você vê quando tá vindo pra cá? Aleatoriamente, assim, você tá saindo da sua casa hoje de manhã, me conta um pouco qual é a paisagem que tá na sua memória.

 

R – Então, saindo eu encontro sempre bastante pessoas nos botecos, vendo bastante pessoas bebendo, conversando, sempre eles falam: “Ah, negão, como você está, beleza?”, isso saindo, na minha avenida: “Ah, beleza”, aí já eu pego o ônibus, eu venho até aqui, lá no ônibus sempre tem pessoa conversando, tem outras pessoas bem quietas. É bem diferente lá no Congo, lá no Congo, quando você está num transporte público, você senta com uma pessoa, se quiser pode conversar com uma pessoa, perguntar algumas coisas, mas eu percebi que aqui bastante pessoas tem receio, a pessoa não quer conversar, perguntar algumas coisas, como se fosse um individualismo, uma pessoa não quer se envolver na vida de outra, isso é o que eu percebo. Você está no metrô, cada um no celular, uma outra pessoa tá lendo um livro, eu também, eu me acostumei, eu fico só lendo um livro, tô lendo alguma coisa na internet, isso é o que eu faço sempre.

 

P/1 – E a sua vida como professor aqui, tem alguma passagem marcante, um aluno ou uma história de aprendizado?

 

R – Bastante, bastante, eu vou falar, na verdade os meus alunos me ajudaram muito a entender o que é o Brasil, o que é São Paulo, porque quando a gente tem essas aulas culturais, a gente conversa de qualquer coisa, a gente conversa sobre bastante coisas, outros alunos, você vai perceber que tem outras pessoas que chegam aqui que querem aprender e ajudar também. Isso aqui marca muito, você percebe que uma pessoa tá se dedicando a aprender uma língua, mas ele tá ajudando também o refugiado, seja imigrante, se dar bem. Eu vou falar isso, porque tem maioria dos alunos que tá continuando tendo as aulas normais, mas depois vem dar voluntário, virar voluntário, porque eles querem que essa ONG cresça, isso que é bem marcante, entendeu? Tem muitas pessoas com vontade de ajudar, porque hoje em dia, aqui no Brasil, não tem ainda um mecanismo que facilita os refugiados pra trabalhar, não tem ainda, é uma coisa que é bem burocrática, o governo acho que tá trabalhando nisso, tá chegando bastante pessoas, então esse tipo de escola de idiomas ajuda muito, tá ajudando muito os refugiados, imigrantes chegando aqui.

 

P/1 – O que você mais gosta de fazer em São Paulo?

 

R – Eu gosto, às vezes, de ir ao cinema, assistindo um filme, mas outra coisa, eu fico lendo, assim, a minha atividade que eu gasto tempo, é de ler, fico lendo livros.

 

P/2 – O que você lê?

 

R – Livros, livros de literatura, às vezes livro de, assim, documentários, eu gosto de assistir também documentários, mas a maioria são livros, gosto de ler livro de gramática e muitas coisas, porque eu quero manter as três línguas perfeitas, inglês, francês, português, eu falo também suaíli e ngala.

 

P/1 – O que você já leu, você já leu alguma coisa de literatura brasileira que você gostou?

 

R – Sim, gostei muito de um livro que se chama “Maratona da vida”, entendeu, esqueci o nome aqui do autor, eu gostei muito, explicou bastante coisa, o que uma pessoa pode fazer até pra conseguir passar num concurso público, o que uma pessoa pode fazer pra conseguir sair num momento depressivo, um momento de enfraquecimento, pra você conseguir viver uma vida normal, como outras pessoas, gostei muito desse livro, “A maratona da vida”.

 

P/2 – E do Congo, você lê livros de lá? Ainda tem alguma coisa da cultura que você tinha?

 

R – Sim, muito, bastante livro, eu era jornalista, então eu tinha que ter bastante conhecimento sobre qualquer coisa, porque lá, quando você é jornalista, você tem que ter um conhecimento amplo, qualquer assunto, qualquer pessoa pode te perguntar qualquer coisa, então tem que ler bastante, tem que estudar, focar mesmo, sou bom também em matemática, computação também eu manjo um pouco, algumas linguagens de programação, isso faz muito tempo que eu faço isso em casa, eu fico lá programando, Java, mais, mais, entendeu, então eu fico só fazendo o máximo possível, aprender, eletrônica, mecânica, eu fico lendo, isso que é minha atividade.

 

P/1 – Mas agora, sem ser essas atividades domésticas, tipo ler, fazer programação no computador, considerando a Cidade de São Paulo, o que você costuma fazer por aqui, os lugares que você costuma frequentar, as coisas que você gosta de fazer, fala um pouquinho disso.

 

R – Na verdade eu sou caseiro, eu fico em casa, mas se aparecer uma oportunidade de ir num teatro, porque hoje em dia tá tendo bastante eventos da imigração, isso eu participo, aí eu ajudo na parte da tradução, porque quando tem eventos vão precisar de tradutor, ou seja, intérprete, porque muitas pessoas não falam português, então eu tenho que ajudar nisso. Às vezes eu faço tradução, seja intérprete, quando tem um evento, uma coisa cultural, então eu tenho que ir lá ajudar nesse tipo, quase todos os domingos tem eventos, então eu faço isso, seja se tem feiras, como hoje tem na Faria Lima, lá do Adus, às vezes eu fico indo nesses tipos de lugares.

 

P/1 – Qual é o lugar de São Paulo que você mais gosta?

 

R – Que eu gosto de ir ou seja de ficar? Acho que o meu bairro, eu gosto muito do meu bairro, é um bairro muito bom, tranquilo, onde também eu gosto de ir às vezes é perto da Rebouças, porque tem o Shopping Eldorado lá, às vezes, se tiver um filme interessante, eu vou lá assistir. Parque Ibirapuera também, às vezes, se tenho amigos, ou seja, tem um evento, eu vou lá, pelo menos ir lá passear, vendo muitas pessoas, se acostumar com a vida aqui em São Paulo.

 

P/1 – Agora eu vou fazer uma pergunta em termos gerais, eu perguntei de onde você mais frequenta, onde você mais gosta, mas de um modo geral, assim, o que você acha que São Paulo tem de melhor?

 

R – São Paulo, eu vou falar primeiramente do povo daqui, a maioria das pessoas que eu encontrei são gente, pessoas com o coração bom, eles querem ajudar, eles querem ajudar, mas eles não têm recursos suficiente pra fazer isso, aí às vezes você encontra uma pessoa, te fala: “Cara, você pode vir almoçar na minha casa”, esse tipo de coisa eu gosto, porque a África é assim. A África, eu vou te falar uma coisa, você está comendo uma coisa, uma pessoa tá passando na rua, você pode chamar essa pessoa: “Vem aqui, se junta com a gente, pega uma banana, uma coisa assim”, tem pessoas corajosas também que vão lá, que vão comer junto, tal, esse tipo de coisa, eu to me sentindo como se fosse em casa, na verdade, esse tipo de coisa eu não sinto falta. Tem sempre algumas pessoas que eu converso com elas e você percebe que: “Nossa, esses aqui são gente boas demais”, isso que eu percebo que é bom, mas tem mais uma outra coisa, é muito difícil aqui em São Paulo, as pessoas que querem ajudar, eles não têm oportunidade de chegar aonde tem imigrante, aonde tem refugiados, é muito difícil, eles não conseguem fazer isso. Tem um individualismo muito forte aqui, a pessoa está com medo, você sempre sente isso, pessoas desconfiantes, eles acham: “Nossa, essa pessoa tá chegando aqui no Brasil, como que é?”, então esse tipo de coisa, tem pessoas que tem vontade de ajudar, eles têm vontade de ajudar mesmo.

 

P/1 – O que tem de pior aqui?

 

R – De pior, o que, de pior, o que eu vou falar em termos de empregos, vou falar, não vou falar pessoalmente pra mim, mas vou falar pelos meus irmãos congoleses e outras pessoas, é muito difícil entrar, trabalhar como profissional aqui, isso eu vou falar, porque muitas pessoas falavam sempre: “Ah, você chegou aqui no Brasil, tem que aprender português”. Ok, fizemos tudo pra aprender português: “Ah, ok, o seu diploma lá do seu país não vai ser, a gente não vai considerar esse diploma, tem que estudar uma outra faculdade aqui”, fizemos outra faculdade, mas entrar no mercado é bem difícil. Isso eu vou falar que é o pior, isso pode manter um estrangeiro, seja um imigrante, aqui no Brasil, trabalhar, conseguir pagar aluguel, conseguir pagar as suas contas, isso que é mais difícil, é isso que a gente tá fazendo muita campanha, sensibilização para que as coisas mudem.

 

P/1 – Quando você fala com algum colega, amigo seu lá do Congo, familiar, alguém que nunca ouviu falar de São Paulo, como que você descreve São Paulo pra eles? “Ah, onde que você tá morando, Alphonse?”, como você fala?

 

R – Deixa eu te falar, primeira coisa, quando muitas pessoas lá na África falam do Brasil, tem três coisas, samba, futebol, carnaval, mulheres bonitas, muitas pessoas sempre perguntam: “Como que é lá?”, então a gente sempre fala: “Nossa, tem carnaval aqui, tem bastante pessoas, música, samba”, os amigos sempre perguntam. Eles perguntam: “Como que é lá? Você tá trabalhando já, cara?”, porque sempre quando você sai do seu país, se você está em contato com outros amigos, eles sabem que você está numa situação boa, você está vivendo bem, porque lá no meu país é muito difícil, economicamente o país tá quebrado. Então as pessoas sempre falam: “Não, cara, você tá trabalhando, já tá ganhando a sua vida”, mas eles não sabem que aqui também tem algumas realidades... Sempre, ao estar aqui, eu não posso falar pra eles que aqui é assim, assim, sempre a gente passa o positivo, o mais positivo possível.

 

P/1 – Mas aí, quando você fala com eles, como você descreve aqui: “Olha, tem samba, tem futebol”, mas como é São Paulo?

 

R – Eu falo assim: “Aqui é uma cidade onde você tem que trabalhar o tempo todo, você tem que sair da casa, não tem como dormir muito, como as pessoas dormem lá no Congo, então é uma cidade movimentada, uma cidade bem movimentada, tem atividades, tem bastante coisas”, isso que a gente sempre fala, entendeu?

 

P/1 – O Brasil, de modo geral, mas São Paulo mais ainda, é uma cidade com muita diversidade.

 

R – Diversidade, realmente.

 

P/1 – Muita gente do mundo inteiro, como que você vê isso? Como você lida com isso no seu dia-a-dia? Você conhece, por exemplo, os bairros de imigrantes aqui, como você enxerga essa diversidade da cidade de São Paulo?

 

R – Nossa, eu enxergo isso, eu acho muito legal, sabe por quê? Porque, quando tem um americano, sempre ele gosta de perguntar algumas coisas, né: “Ah, por que você está aqui no Brasil? Como que é? O que você acha de São Paulo?”, eu encontrei bastante americanos aqui, eu encontrei bastante franceses, eu encontrei canadenses, então pessoas de qualquer lugar. Eles me falam: “Aqui no Brasil, aqui em São Paulo, a gente gosta de calor, a gente gosta de passeio, passear, entendeu, conversar bastante, samba, música”, isso a gente fala sempre, porque sempre eu pergunto pra eles: “O que você aprendeu no pouco tempo que você tá aqui no Brasil?”, eles não falam: “Ah, eu aprendi bastante coisa, eu aprendi comer feijoada, eu aprendi comer algumas coisas, comida bem típica aqui no Brasil, eu aprendi também uma outra língua, hoje eu falo português, algumas palavras”, porque os americanos tem sua dificuldade de falar português, eles demoram muito pra falar. Pra mim era mais fácil, porque eu falo francês, como são línguas latinas, então tem algumas similaridades, por isso eu tinha essa facilidade de aprender, isso é o que eu falo, aí eles me falam: “O que você acha, você vai ficar aqui pra sempre?”, aí eu falo assim: “Vou ver, se eu consigo me dar bem aqui, beleza, eu fico, mas dá pra ficar, dá pra fazer uma vida aqui”, isso que eu converso com eles. É uma diversidade, uma outra coisa que eu vou falar que eu vi aqui, que eu nunca tinha visto antes, era o caso de travesti, travesti no meu país não tem, é uma coisa que eu não sabia que existia. Ao chegar aqui, nossa, pessoas estavam me explicando: “Isso não é um homem, é uma mulher”, eu falei: “Nossa, uma mulher, como assim?”, são algumas coisas que eu falei: “Nossa, eu não sabia que essas coisas existiam”. Então eu aprendi também que não, tem travesti, tem esse tipo de coisas, porque lá no meu país não tem, são algumas coisas que percebi que é em São Paulo, você ver nas esquinas, qualquer lugar onde você passa, você vai ver essas pessoas lá.

 

P/1 – O que mais que você viu aqui que você nunca tinha visto antes?

 

R – Uma outra coisa que eu vi aqui que eu nunca tinha visto antes é essa miscigenação bem forte, de japonês, negros, brancos, pessoas de qualquer lugar, isso também eu nunca tinha visto antes, eu percebi que era uma coisa nova pra mim. Mas uma outra coisa, tem comidas também, por exemplo, caju, no nosso país a gente não tem, tem a bebida guaraná também que não tem, então são as coisas novas que eu nunca tinha visto antes, mas em termos de comida, é uma comida bem pesada, África também é assim, então eu não sinto muita falta da culinária africana.

 

P/1 – O que você sente mais falta do seu país?

 

R – Os meus pais, os meus irmãos, amigos, meus pais, eu sinto muita falta deles, como lá a internet é muito, não é todo mundo que tem acesso à internet, então é muito difícil conversar com eles, falar com eles, eu sinto muito a falta deles, isso que eu sinto, com certeza. É essa amizade bem forte, de amigo, de ficar sempre junto, porque os africanos sempre são unidos, aquilo que chama solidariedade africana, você tá com problema, quando eu cheguei aqui, quando eu fiquei sozinho, me virando sozinho, eu fiquei com muito medo, eu pensava que talvez ia ficar na rua. Porque eu percebi que é bem difícil, cada um na sua, ninguém, não como a África, você pode chamar: “Pai, amigo, assim, cara, eu tô com um problema”, a pessoa te ajuda, aí eu fiquei com muito medo, depois de um tempo lá, seis, oito meses aqui. Aí depois, bom, comecei entrando em contato com algumas pessoas, aí já me acostumei, porque sempre na África as pessoas ficam juntas, trabalhando juntas, tem alguma coisa, uma coisa assim, você pode ver uma pessoa pra ajudar. Então eu cheguei numa situação, eu fiquei com medo, muito medo mesmo, aí eu fiquei com medo: “Será que tudo vai dar certo? Como que tá?”, então fiquei com uma preocupação muito grande, maior ainda, porque eu falei: “Nossa, no meu país dá pra ligar a um tio, uma pessoa assim, se tiver problema, aqui vou ligar pra quem?”, entendeu? Então fiquei com esse tipo de medo.

 

P/1 – O que você mantém do Congo aqui na sua vida, algum hábito, alguma coisa?

 

R – O que eu mantenho, eu vou falar da minha cultura, sempre eu vou manter isso, em termos de gênero, eu gosto de ficar com uma mulher, eu sou pró-vida, com certeza, isso com certeza vou manter, vou continuar assim, eu vou manter isso, mais uma outra coisa que é o meu jeito de ser, não preciso colocar bastante tatuagem, muitas coisas no meu corpo pra ser assim, isso aqui vou manter, é isso aí que vou manter aqui.

 

P/1 – Se eu te pedir pra descrever São Paulo com uma palavra só ou uma frase, como você descreveria?

 

R – São Paulo vou descrever como uma cidade de oportunidades pra uma pessoa que trabalha muito duro, vou descrever isso, vou falar também, é uma cidade de uma miscigenação forte, que recebe bastante pessoas de qualquer lugar, especificamente isso, porque tem todo mundo aqui em São Paulo, isso como vou descrever.

 

P/1 – Qual é o seu sonho aqui?

 

R – O meu sonho, vou te dar os dois, no longo prazo e curto prazo, o meu sonho de curto prazo é terminar a minha faculdade, me formar como engenheiro, porque falta dois anos e meio pra eu me formar, como eu não tinha recursos, dinheiro pra continuar, eu tive que parar no meio, isso a curto prazo. Eu vou ver também se eu consigo viver uma vida boa aqui no Brasil, fazer a minha família aqui, quem sabe, talvez, casar com uma mulher brasileira aqui, isso são os meus sonhos de longo prazo.

 

P/1 – Você conseguindo se formar, falando especificamente da atividade profissional, o que, daqui a cinco anos, por exemplo, vamos supor que tudo tá dando certo na sua vida, onde você se vê daqui cinco anos?

 

R – Daqui cinco anos eu me vejo como líder, como um líder especificamente de bastante pessoas que tão chegando aqui, porque eu sou como se fosse uma cobaia, na verdade de realidade aqui, do estrangeiro aqui em São Paulo, vai vir bastante pessoas que vão me perguntar: “O que eu tenho que fazer pra me dar bem?”, isso que eu tô me vendo hoje, entendeu? Muitas pessoas que tão chegando aqui no Brasil, eles se perdem, aí eu vou ser como um líder, ajudar essas pessoas, ajudar, mostrar caminho certo, o que eles têm que fazer, ver as habilidades deles, hoje eu sei que essa pessoa não vai conseguir isso aí, esse aqui vai conseguir, isso hoje eu sei disso. Então daqui cinco anos eu me vejo como um líder, não só do Congo, mas um líder de muitas pessoas, da imigração, eu me vejo nisso, porque eu já participei em bastante fórum, em bastante coisas, eu sempre, muitas pessoas me falam disso, já tenho experiência, já sei como que é a vida aqui em São Paulo, o que eu tenho que fazer pra me manter, eu me vejo como um líder, isso que eu me vejo daqui cinco anos.

 

P/2 – Se você fosse indicar uma pessoa de São Paulo, tanto cultural ou de comida pra alguém do Congo, o que você indicaria? Assim como, se você fosse indicar alguma coisa pra alguém de São Paulo do Congo, o que você indicaria?

 

R – Ah, comida.

 

P/1 – Ou livro, pode ser qualquer coisa.

 

R – Tá bom, comida primeiramente, lá tem folha de mandioca, que é uma comida muito gostosa, é bastante congolesa, africana também, só que aqui vocês não consideram folha de mandioca, até na Bahia acho que eles não comem muito, mas isso é muito gostoso, é uma comida muito boa. Mas uma outra coisa que vou indicar lá pra pessoas no Congo, são alguns livros de português e espanhol, porque eu sempre falo pra eles: “Como vocês gostam de aprender bastante coisas, aqui, o Brasil é um país bom pra aprender as duas línguas, espanhol e português”, eu vou indicar isso pra eles. Explicar algumas tecnologias que não tem lá no meu país, porque a gente não tem ainda fogão de gás como aqui, a gente usa fogão elétrico, como a gente usa corrente alternativa, sempre cai, acaba a luz, não tem uma certa estabilidade. Então vou indicar esse tipo de coisa, essa tecnologia pra que o meu país também consiga sair nisso aí, tem bastante coisa com certeza que dá pra contribuir, fazer uma coisa ao meu país, eu aprendi já bastante coisa, eu posso fazer isso também no meu país.

 

P/1 – Deixa eu fazer uma última pergunta, lá no começo da entrevista você falou que quando você chegou em São Paulo você viu o tanto de prédio, a cidade muito grande, tem algo específico que te mostrou que te fez ver o tamanho da cidade, enfim...?

 

R – Então, algo bem específico, assim, não tinha, mas quando eu entrei aqui em São Paulo, a primeira coisa, vou te falar, a gente foi perseguido saindo assim do aeroporto, uma pessoa que tava lá comigo no carro, depois de sair de Guarulhos, até mais ou menos perto do Butantã, quando você tá chegando no Butantã, aí o motorista percebeu que tinha algumas pessoas atrás. Ele percebeu que: “Ah, mas esse carro tá atrás da gente”, a gente deu uma volta, mais ou menos três voltas, os caras fizeram as três voltas com a gente, aí eu falei: “Nossa, tem algumas pessoas atrás da gente, eu tenho que ligar pra polícia”, aí ele ligou, ele falou que: “Não, vou ligar pra polícia sim”. Quando colocou o celular no ouvido dele, então os caras perceberam: “Não, será que talvez o cara tá ligando polícia”, então os caras fugiram, aí ele falou que: “Cara, essa é a realidade, você entrou no mundo do São Paulo”, eu falei: “Ah, tudo bom, beleza, não tem problema”, mas eu percebi que, como não era só eu que tava lá dentro do carro, tinha outras pessoas, então eles perceberam as malas, algumas coisas, então achava que a gente tinha dinheiro, uma coisa assim. Uma outra coisa, quando eu cheguei eu vi, nossa, bastante carro, o trânsito muito forte, uma cidade bem calorosa, você está sentindo que: “Nossa, essa é uma cidade bem grande”, vendo a atividade, pessoas de qualquer raça, de todos os lugares. Isso eu percebi chegando aqui, porque eu fui na África do Sul, Tanzânia, outro país, mas não tinha esse tipo de coisas, eu pensei que é uma cidade muito grande, muito grande. Mais uma outra coisa, quando a gente tava descendo, a gente levou mais ou menos uma hora de voo pra descer, até eu percebi que essa aqui é uma cidade bem grande, são algumas características que eu percebi ao chegar aqui.

 

P/1 – O mundo tá vivendo um momento muito especial no que diz respeito aos refugiados, a Europa passando por tudo aquilo que a gente lê, né?

 

R – Sim.

 

P/1 – Tem uns episódios muito bonitos, mas a maioria são cenas lamentáveis.

 

R – Lamentáveis, sim.

 

P/1 – Você, como um imigrante aqui no Brasil, de certa forma refugiado também, por causa da questão dos conflitos no seu país, você acha que a cidade de São Paulo tem alguma coisa a ensinar ao mundo ou a aprender com o mundo?

 

R – Eu acho, vou falar as duas coisas, o que São Paulo tem que aprender... Hoje a gente tá vendo a Jordânia, pequeno país como Turquia que tá recebendo bastante pessoas, porque hoje a gente tá vivendo num mundo que a gente nunca tinha visto antes, o caso dos refugiados é uma crise, a maior crise que tem depois da Segunda Guerra Mundial, hoje tem mais de 69 milhões de pessoas se deslocando, saindo dos países deles por causa de conflitos, problemas. É um momento onde o mundo precisa de se unir, porque a gente tem um único planeta, é uma crise, é um câncer que a gente tem que ver como combater e São Paulo, eu percebi, tem uma potencialidade maior pra ajudar nessa crise, especificamente o Brasil. O Brasil é um dos países que tá crescendo muito bem economicamente, devido mesmo, aconteceu essas crises, mas o Brasil já é conhecido, um país que pode fazer mais que esses países, países como Jordânia, Turquia, que tem mais de milhões de refugiados lá, hoje, aqui no Brasil, são nove mil, entendeu? Aí eu percebo que é pouco coisa, o Brasil dá pra fazer maior, dá pra ajudar, isso pode ser uma coisa que vai, se tiver outros países também pra receber refugiados, receber imigrante, então São Paulo acho que tem potencialidade, se a imigração der certo aqui, a integração do imigrante, refugiado, pessoa que tá chegando aqui, isso, São Paulo vai ser líder de toda cidade aqui na América Latina. Porque, hoje, a América Latina, onde tem bastante imigrantes, refugiados é aqui em São Paulo, então como é um líder em termos de economia, em termos de empresa, negócios, pode ser também um líder em termos da imigração, de acolhimento de pessoas que tão passando por um momento bem difícil. Isso é o que eu posso falar de São Paulo, eu acredito que São Paulo pode dar mais do que tá dando hoje, eu acredito nisso, isso que eu posso falar.

 

P/1 – Tem mais alguma história que você gostaria de contar?

 

R – Eu acho que já tá suficiente, já, acho que falei bastante, até eu tô falando português meio errado, porque (risos).

 

P/1 – Tá ótimo, você fala muito bem.

 

P/2 – Eu quero aproveitar que é rara essa oportunidade da gente tá entrevistando uma pessoa do Congo, se você pudesse contar algum mito do Congo.

 

R – Algum mito do Congo? Acho que tenho que lembrar, to com pouco tempo pra pensar nisso, um mito do Congo, o Congo é um país onde sempre as pessoas falam que é um país abençoado com bastante recursos minerais, a gente tem tudo, só que o Congo é limitado, os congoleses não conseguem aproveitar o próprio recurso. É como se fosse um mito, porque as pessoas falam: “A gente não conseguiu aproveitar isso, recursos que a gente tem”, é um país bem rico, outras pessoas sempre falam: “A África é como se fosse um revólver e o Congo é a gaxeta”, isso também é um mito do Congo, entendeu? É isso aí.

 

P/1 – Então tá bom, obrigado pela entrevista.

 

R – De nada.

 

P/1 – Foi um privilégio, boa sorte.

 

R – Obrigado, muito obrigado.

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