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História

A terra que vira arte

História de: Crispiana de Jesus Sardinha (Dona Nega)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/12/2010

Sinopse

Neste depoimento, Dona Nega nos conta a história de sua família e de sua infância em meio ao trabalho com a mandioca e o seringal. Nos fala de como se divertia com bonecas e com o barro, coisa que ninguém além dela gostava de lidar. Desta brincadeira nasceu um ofício que lhe acompanha até hoje: o artesanato. Dona Nega nos conta causos que abraçaram essa atividade e o cotidiano do trabalho com o barro. Por fim, vemos também as lendas da região como as cobras d'água e o boto-cor-de-rosa, contadas por Dona Nega.

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História completa

P/1 – Dona Nega, sabe o que eu queria começar? Que a senhora me falasse o seu nome completo.

 

R – Meu nome completo? Meu nome completo é Crispiana de Jesus Sardinha.

 

P/1 – Mas a senhora é conhecida como?

 

R – Nega.

 

P/1 – E este sobrenome, dona Nega, Jesus Sardinha. A senhora sabe de quem que era, da onde veio?

 

R – De quem que era? Era do meu tio... do meu avô que era Sardinha.

 

P/1 – Seu avô era Sardinha?

 

R – Meu avô era Sardinha.

 

P/1 – A senhora conheceu o seu avô?

 

R – Conheci.

 

P/1 – Como ele era? Como era o nome completo dele?

 

R – O nome dele como era? Agora não me lembro não, como era bem o nome dele. Eu sei que ele era Sardinha.

 

P/1 – E ele era pai da sua mãe?

 

R – Não, ele era pai da minha avó. Pai da minha avó.

 

P/1 – Ele era seu bisavô, então?

 

R – Ele já era meu bisavô.

 

P/1 – Ah, tá. E a sua avó, como ela chamava?

 

R – Nome da minha avó? Era Virgulina.

 

P/1 – E a senhora teve avô também ou só avó?

 

R – Não, só avó.

 

P/1 – Avô, não.

 

R – Avô, não.

 

P/1 – E ela era mãe da sua mãe?

 

R – Era, mãe da minha mãe.

 

P/1 – E a sua mãe, como chamava?

 

R – O nome da minha mãe era Severiana.

 

P/1 – Severiana.

 

R – É.

 

P/1 – E a sua mãe nasceu aqui?

 

R – Minha mãe? Nasceu.

 

P/1 – E a senhora sua mãe tinha quantos filhos?

 

R – A minha mãe? Tinha seis.

 

P/1 – Seis?

 

R – É.

 

P/1 – Mas ela era casada ou ela teve o filho, assim...

 

R – Não, ela teve primeiro dois que não eram do marido dela.

 

P/1 – Eles conheceram o pai, não?

 

R – Não. Depois ela teve já foi do esposo dela, que ela casou com ele, né.

 

P/1 – E a senhora é filha de qual?

 

R – Eu? Eu sou filha do primeiro pai, sim.

 

P/1 – Aquele que ela não casou.

 

R – É.

 

P/1 – E a senhora chegou a conhecer seu pai?

 

R – Não, meu pai era esse que ela casou primeiro. Eu sou a segunda filha da minha mãe.

 

P/1 – E ela ficou casada com ele?

 

R – Ficou.

 

P/1 – Pra sempre?

 

R – Pra sempre. Ele morreu, ela ficou.

 

P/1 – Então ela só tinha dois filhos antes, depois ela ficou com ele e aí teve mais quatro.

 

R – Nós éramos quatro.

 

P/1 – Como era o nome do seu pai?

 

R – O nome do meu pai era Firmo da Cruz Correa.

 

P/1 – E onde eles moravam com vocês?

 

R – Eles moravam? Lá na colônia.

 

P/1 – Que colônia é essa, dona Nega.

 

R – Lá na colônia chama-se Laranjal.

 

P/1 – É longe daqui? Quanto tempo de pé?

 

R – De pé é hora e meia, daqui lá.

 

P/1 – Colônia?

 

R – É.

 

P/1 – E como era a sua casa quando a senhora nasceu?

 

R – A minha casa era de palha mesmo, né. Era feita as paredes de palha.

 

P/1 – E dormia todo mundo onde?

 

R – Todo mundo dentro mesmo.

 

P/1 – Junto, pai e mãe?

 

R – Pai, era tudo junto.

 

P/1 – E cozinhava ali também?

 

R – Cozinhava fora, na cozinha. Tinha cozinha.

 

P/1 – A cozinha era fora da casa.

 

R – Era.

 

P/1 – E tinha banheiro?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Fora da casa também?

 

R – Fora da casa.

 

P/1 – E de que vocês viviam?

 

R – De que nós vivíamos? Vivíamos de fazer farinha, cortar seringa.

 

P/1 – A senhora chegou a trabalhar na seringa?

 

R – Trabalhei.

 

P/1 – Desde que idade?

 

R – Desde idade de dez anos.

 

P/1 – E a senhora lembra?

 

R – Eu lembro que quando papai começava a cortar a seringa, a gente colhia o leite pra fazer a borracha. A gente juntava o leite, defumava.

 

P/1 – Como defuma o leite?

 

R – Defumava. A gente enfiava um carocinho de mucajá num pau e aí ia botando o leite em cima e ia botando no fogareiro que tá a fumaça, né? Aí ia rodando, rodando, rodando ele, até quando já ficava grande. Aí continuava sempre, até ficar grande a borracha.

 

P/1 – O que vocês faziam com essa borracha?

 

R – O que fazia com a borracha? Fazia que iam vender em Santarém. Meu pai vendia em Santarém.

 

P/1 – Ele que ia andando até Santarém?

 

R – Ele que ia de batelão pra lá.

 

P/1 – O que é batelão?

 

R – Batelão? É esse que faz de madeira, né.

 

P/1 – Você falou que tinha muita seringueira na colônia?

 

R – Muita seringueira lá na colônia.

 

P/1 – Muita, muita, muita?

 

R – Tinha muita... tinha uns 300 pés de seringa.

 

P/1 – E vocês que sangravam todas?

 

R – Todas.

 

P/1 – Então como era que acontecia, dona Nega? A senhora acordava cedo. Quem que ia lá?

 

R – Quem que ia? Era eu com ele, o meu pai. Meu irmão.

 

P/1 – A sua mãe ia também?

 

R – Não. A gente ia com ele. Nós... duas filhas mais velhas, né... que ia com ele, colhia o leite.

 

P/1 – Sua mãe ficava fazendo o quê?

 

R – Ficava em casa fazendo as coisas. Fazendo negócio de comida, né?

 

P/1 – Como era a comida? O que vocês comiam?

 

R – A gente comia caça.

 

P/1 – Que tipo de caça?

 

R – Era tatu, paca, cotia.

 

P/1 – Quem que caçava?

 

R – Veado. O meu pai mesmo. Matava.

 

P/1 – E a farinha?

 

R – A farinha quem fazia era nós. Minha mãe.

 

P/1 – A sua mãe que fazia. Ela que capinava?

 

R – Ela que estirava mandioca tudinho, cevava, preparava tudo e ela torrava.

 

P/1 – E ela torrava, fazia farinha e seu pai saia e caçava. Era isto que vocês comiam todo dia?

 

R – Todo dia a gente comia caça.

 

P/1 – Então era gostoso.

 

R – Era gostoso.

 

P/1 – Quando não conseguia caçar o que vocês comiam?

 

R – Nós “fumo” criada só com carne de caça.

 

P/1 – Não comia peixe?

 

R – Não, era difícil a gente comprar peixe para comer.

 

P/1 – Vocês iam pra escola, dona Nega?

 

R – Pra escola? Não, pra lá não tinha escola. Lá não tinha escola, onde a gente morava.

 

P/1 – Então era trabalhar direto no seringal.

 

R – No seringal.

 

P/1 – A senhora não trabalhava na mandioca?

 

R – A gente trabalhava, ajudava lá.

 

P/1 – Então ia de manhã pro seringal. Como fazia?

 

R – A gente ia de manhã pro seringal, aí colhia o leite todinho, né, aí vinha pra casa pra defumar a borracha. Fazer a borracha.

 

P/1 – E que horas ia pra mandioca?

 

R – Quando terminava de trabalhar no leite, ia trabalhar na mandioca.

 

P/1 – E a senhora gostava de fazer isso tudo?

 

R – Gostava.

 

P/1 – Não achava pesado o trabalho?

 

R – Não achava pesado, não. Agora, depois que aconteceu isso comigo, eu não trabalhei mais. Mas sempre gostei de trabalhar. Gosto de trabalhar.

 

P/1 – O que a senhora mais gostava de fazer?

 

R – Eu? O que eu mais gostava de fazer? Era cuidar de mandioca. Descascar mandioca pra cevar. Lavava mandioca tudinho. Botar no aviamento pra cevar.

 

P/1 – A senhora começou a mexer com barro com que idade?

 

R – Eu comecei a trabalhar no barro com idade de nove anos, eu comecei a brincar com barro.

 

P/1 – Da onde deu da senhora ir pegar o barro pra brincar?

 

R – Aí na ponta.

 

P/1 – Que ponta?

 

R – Nessa que a gente tira aí, o barro. Aí no barreiro, mesmo. A gente tirava lá. Meu pai ia buscar pra eu brincar com barro. Ele não tinha preguiça de vim buscar.

 

P/1 – A senhora pedia a ele?

 

R – Eu pedia pra ele vim buscar aí. Ele tirava e levava.

 

P/1 – E os seus irmãos também brincavam com barro?

 

R – Não. Era só eu que gostava de brincar com barro.

 

P/1 – Só.

 

R – Só eu.

 

P/1 – A senhora tinha alguma amiguinha que gostava também?

 

R – Mas quando! Eu não tinha amiga não, pra brincar.

 

P/1 – Não? Por quê?

 

R – As minhas irmãs nunca gostaram de trabalhar nestas coisas. Só mesmo eu.

 

P/1 – E lá na comunidade, lá na colônia: não tinha outras crianças?

 

R – Tinha outras crianças mas não gostavam, não.

 

P/1 – Vocês brincavam do quê?

 

R – Eu brincava de boneca com as crianças, quando vinham pra casa. A gente brincava. Pelo terreiro, andando por aí.

 

P/1 – O seu pai pegava o barro e a senhora fazia o que com ele?

 

R – Eu fazia panela, pote, tudo as coisas miudinhas eu fazia.

 

P/1 – Para brincar de casinha.

 

R – É. Fazia as casinhas de barro. Aí depois, quando me entendi, já fui trabalhando já pra fazer para vender, né.

 

P/1 – Mas como a senhora aprendeu como era a mistura certa do barro?

 

R – Como era a mistura? Eu pedi um dia pro meu pai tirar a casca do... eu perguntei pra ele se ele conhecia alguma casca de pau. Aí ele disse que conhecia a casca do pau para misturar com barro, que era o caripé. Aí eu pedi para ele tirar.

 

P/1 – Então ele trazia o barro e trazia o caripé?

 

R – O caripé. Ele tirava na mata o caripé. Ele queimava, tirava o pó. Aí eu peneirava na peneira. Aí eu misturava. Ai eu ia vendo como era o ponto do barro. Como é que ficava.

 

P/1 – A senhora pegava o barro molhado assim...

 

R – Pegava o barro, misturava tudinho. Aí ia vendo como era o ponto pra ficar, pra enrolar. Pra não ficar aquele murrão - tá aí o Marquinhos - já trabalhei lá, né? Aí é todo feito o murrão pra colocar.

 

P/1 – Como é o murrão?

 

R – O murrão é a gente enrola assim o barro, aí vai espichando, ficando aquele murrão compridinho, né. Aí vai fazendo a roda. Depois vai puxando pra cima, pra suspender.

 

P/1 – Isso tudo a senhora foi experimentando?

 

R – Tudo isto.

 

P/1 – Sozinha, dona Nega?

 

R – Só eu.

 

P/1 – Mas isso dava na cabeça da senhora?

 

R – Dava. Aí eu pensava como devia fazer. Aí fui fazendo.

 

P/1 – Aí a senhora fazia primeiro as panelinhas, depois as bonequinhas.

 

R – Eu fazia as panelinhas, fazia o pote, fazia a moringa, bilha, alguidar...

 

P/1 – isso quando a senhora era criança ainda?

 

R – Não, depois. Já eu trabalhei. Quando eu era criança eu comecei a fazer assim também. Dentro de casa uma coisinha eu ia fazendo. Experimentando a fazer.

 

P/1 – E a senhora teve filho com que idade?

 

R – Eu tava com a idade de... deixa eu ver... estava com a idade de 20 anos.

 

P/1 – Foi primeiro filho ou filha?

 

R – Filho.

 

P/1 – A senhora casou?

 

R – Casei.

 

P/1 – Ah, é? Como chamava o seu marido?

 

R – Meu marido chamava-se João. João Correa Sardinha.

 

P/1 – Onde a senhora o conheceu?

 

R – Onde? Lá na colônia. Eles moravam tudo na colônia. Foram criados tudo na colônia.

 

P/1 – Era primo seu?

 

R – Não, não era. Era conhecido, assim, que trabalhava lá.

 

P/1 – E aí a senhora gostou dele, ele gostou da senhora, como é que foi?

 

R – Ele foi me pedir. Quando quis casar comigo não teve nada de namoro, nada. Foi pedir pra casar logo.

 

P/1 – E a senhora aceitou?

 

R – Aceitei (risos).

 

P/1 – Por que a senhora aceitou?

 

R – Porque se era pra ficar jogada por aí, né? Fiquei logo pra casar, né?

 

P/1 – Mas a senhora casou na igreja?

 

R – Casei. Lá em Belterra.

 

P/1 – Teve festa?

 

R – Não. Não teve festa, não.

 

P/1 – Foi só lá, entrou na igreja...

 

R – Entrei na igreja, saí pra ir pra colônia.

 

P/1 – Seu pai achou bom a senhora casar?

 

R – Não, ele já era morto quando eu casei.

 

P/1 – Quando o seu pai morreu a senhora tinha quantos anos?

 

R – Eu tava com 19 anos.

 

P/1 – Ele morreu de quê?

 

R – Dessas doenças mesmo. Dessas febres grandes que dava.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Minha mãe também, a mesma coisa.

 

P/1 – Morreu também?

 

R – Também.

 

P/1 – Então a senhora ficou sem pai nem mãe.

 

R – Não tenho pai nem mãe.

 

P/1 – Com que idade ela morreu?

 

R – Minha mãe morreu com 60 anos.

 

P/1 – Então ela ainda era viva, nessa época?

 

R – Era.

 

P/1 – A senhora foi pra casa e teve esse primeiro filho com 20 anos. Onde que a senhora teve esse filho?

 

R – Aqui na recordação.

 

P/1 – O que é a recordação?

 

R – É ali numa cabeceira que tem. Primeiro o pessoal que trabalhavam por aí, né. Que eram os moradores por aí.

 

P/1 – Mas a recordação é um lugar?

 

R – É um lugar aí. O Marquinhos sabe onde é, né Marquinhos... naquela casa, né. Aquele cercado lá perto daquele igarapezinho que passa daqui logo lá. Tem uma casa lá debaixo.

 

P/1 – A senhora teve ajuda da parteira? 

 

R – Não, naquele tempo não tinha ajuda de parteira, não.

 

P/1 – O que tinha?

 

R – Era só a mãe da gente mesmo que trabalhava com a gente.

 

P/1 – A mãe que fazia o parto pra senhora?

 

R – Era a mãe.

 

P/1 – Depois a senhora fez o parto das suas filhas também?

 

R – A outra minha tia que fez o parto dos outros filhos que nasceram.

 

P/1 – Os outros seus?

 

R – Foi.

 

P/1 – Depois os filhos foram crescendo e a senhora foi trabalhando com barro, como é que foi que a senhora foi fazendo barro pra vender?

 

R – Depois de eles já estarem criado tudo, aí eu trabalhei em barro.

 

P/1 – Depois dos filhos criados?

 

R – Depois dos filhos criados eu trabalhei em barro.

 

P/1 – Enquanto eles estavam crescendo a senhora trabalhava com o quê?

 

R – Trabalhava na farinha, fazendo farinha ainda.

 

P/1 – E seu marido?

 

R – Também. A gente trabalhava tudo na mandioca ainda, né.

 

P/1 – Então nessa época a senhora não trabalhava com barro.

 

R – Depois que eu fui trabalhar no barro.

 

P/1 – Por quê? Deu na cabeça da senhora fazer pra vender?

 

R – Pensei em fazer pra vender.

 

P/1 – Quais foram as primeiras coisas que a senhora fez?

 

R – As primeiras coisas que fiz foram as panelas. Panela de barro.

 

P/1 – E a senhora levou pra vender onde?

 

R – Eu vendi aqui mesmo. Aqui em Alter do Chão mesmo. Que moravam aqui e compravam, né?

 

P/1 – Depois a senhora passou a fazer os bonecos?

 

R – Depois eu passei... não; eu fiz primeiro os bonecos. Aí depois que eu fui trabalhar nessas coisas: negócio de panela, pote, alguidar.

 

P/1 – E a senhora voltou a fazer bonequinha?

 

R – Voltei fazendo. Agora que eu fui lá na oca. Aí eu... pra mostrar como eu fazia com esses que estão aí.

 

P/2 – A senhora contou uma história pra mim, de que a senhora foi trabalhar em Belterra...

 

R – Ah, em Belterra eu trabalhei. Trabalhei com os americanos.

 

P/1 – Hum, como é que foi?

 

R – Quando meu pai tava doente, lá na colônia. Aí eles chegaram lá. Meu pai tava doente, né? Aí eles passaram a conversar com ele, passaram a conversar. Aí chegou um homem que morava aí no Pindobal, aí eles... aí ele começou a contar que eu trabalhava em barro. Aí eles disseram assim pra mim: “Você garante trabalhar pra mim?”. Aí eu perguntei no quê. Eles passaram a contar, né. Aí disse: “Você quer ir comigo para Belterra?”. Eu não sabia, não. Papai que resolvia, né. Aí papai disse: “Ela vai”. Quando cheguei lá eles botaram uma caixa grande, tava cheia de pedaço de caco de índio. Quando eles tiraram da caixa perguntaram para mim: “Você garante fazer essas coisas que tão aí?”. Aí eu disse que ia pensar.

 

P/1 – Fazer o quê?

 

R – Emendar. Eles tiraram tudo aqueles cacos de índio, né? Eles iam colocando pra eu ver como ia ficar.

 

P/1 – Eles queriam que a senhora fizesse a liga.

 

R – Eles colocaram tudinho pra mim e disseram que iam comprar o barro pra eu trabalhar. Eles foram, compraram o barro e levaram pra mim. Eu fiz 41 peças dessas coisinhas que estavam tudo quebrada, emendada assim. Pra ver como ia ficar, né. Aí eu fiz pra eles.

 

P/1 – A senhora ficou juntando os caquinhos?

 

R – Eles mesmos uniam para eu ver como ficavam. Aí eu fiz tudinho.

 

P/1 – E o que eles iam fazer com isto?

 

R – Eu acho que eles mandaram fazer aquilo pra uma mostra pra eles apresentarem. Só pode ser. Depois de tudo pronto eu queimei pra eles tudinho e eles ficaram com tudo.

 

P/1 – Aí passou o seu trabalho ou a senhora passou a fazer outra coisa?

 

R – Não, só fiz aquilo lá.

 

P/1 – Quanto tempo a senhora ficou trabalhando lá?

 

R – Trabalhei... quatro semanas, um mês.

 

P/1 – Era dentro de uma oficina?

 

R – Não, era dentro de um barracão. No barracão eu trabalhava.

 

P/1 – Quando que os americanos foram embora?

 

R – Ah, os americanos? Não sei...

 

P/1 – Eles foram embora?

 

R – Foram.

 

P/1 – Foi muito tempo depois disso?

 

R – Ih, faz muitos anos já...

 

P/1 – O que mais que a senhora soube fazer com barro?

 

R – O que mais que eu soube fazer com barro? Foi só isso.

 

P/1 – A senhora foi ensinar o barro para os meninos?

 

R – Aí eu fui lá.

 

P/1 – Os meninos convidaram a senhora?

 

R – Foi.

 

P/1 – A senhora ensinou para os seus filhos antes?

 

R – Antes? Mas quando... não quiseram trabalhar nessas coisas não.

 

P/1 – Nenhum?

 

R – Nenhum.

 

P/1 – E a senhora ficou chateada que não tinha pra quem ensinar?

 

R – Fiquei porque não quiseram aprender, né? Senão uma agora que estes tempos começou a misturar o barro, foi fazendo, agora ela já faz. Uma, né? Que o Marquinhos sabe. Agostinha. Só que ela não faz panela, só fogareiro. Agora está começando a aprender a fazer.

 

P/1 – E lá na oca a senhora ensinou para quem?

 

R – Para as meninas que estavam trabalhando lá.

 

P/1 – E elas sabem aprender?

 

R – Começaram lá. Cada uma fazia uma coisinha, né.

 

P/1 – Mas a senhora acha que elas podem fazer isso pra vender agora ou não?

 

R – Depende de ter aprendido pra fazer, né?

 

P/1 – Quanto tempo a senhora ficou ensinando?

 

R – Não; levei quantos dias... Marquinho?

 

R2 – Quase um mês, umas três semanas.

 

R – Foi.

 

P/1 – A senhora ensinou a misturar o barro...

 

R – Misturar o barro, molhar o barro, misturar. Aí depois de pronto eles começaram a trabalhar.

 

P/1 – E o seu marido, dona Nega, faleceu quando?

 

R – Ih, já faz... não sei nem com quantos anos. Tá com não sei se seis ou sete anos já de morto.

 

P/1 – Ele faleceu de quê, seu marido?

 

R – Desta febre grande.

 

P/1 – Também? Qual febre grande?

 

R – Essas febres que dá, quando dá assim uma febre que não tem mais cura, né. A pessoa morre.

 

P/1 – É sempre assim?

 

R – Sempre assim...

 

P/1 – Dona Nega, o que a senhora faz hoje em dia?

 

R – Quem, eu?

 

P/1 – É.

 

R – Eu trabalhava assim, ia daqui lá pra colônia, voltava. Trabalhando assim... no quintal, varrendo, lavando roupa.

 

P/1 – A senhora largou o barro?

 

R – Lavava roupa. Aí eu deixei o barro.

 

P/1 – Por que a senhora deixou o barro?

 

R – Porque (risos) não tinha mais quem tirasse o barro pra mim, o caripé que a gente compra, né. O Marquinho... ele sabe como é, né? A gente tem que comprar o material pra fazer. Aí eu não trabalhei mais, não.

 

P/2 – Porque antes era seu marido que tirava pra senhora...

 

R – É, era ele que trabalhava. Tirava pra mim.

 

P/1 – Ele fazia também?

 

R – Ele alisava as vasilhas, quando era muito assim, que eu fazia muito.

 

P/1 – A senhora chegou a ganhar um bom dinheiro com esse barro?

 

R – Eu ganhava sempre. Eu ganhava. Eu pedia 20, 30. Naquele tempo ainda não era real, né? Era cruzeiro naquele tempo, né.

 

P/1 – A senhora tirava quanto. A senhora ia vender de quando em quando?

 

R – Eu vendia até de 20 peças.

 

P/1 – Aí seu marido ajudava. As crianças ajudavam também?

 

R – Não, só ele. Alisando com a pedra, né?

 

P/1 – Ele alisava e a senhora que fazia a forma?

 

R – Tudo.

 

P/1 – E onde a senhora queimava esse barro?

 

R – Onde eu queimava? Queimava aqui, queimava na colônia.

 

P/1 – Agora a senhora deixou de fazer o barro, a senhora não faz mais farinha também?

 

R – Não, não faço farinha nem trabalho no barro.

 

P/1 – Trabalha aqui em casa. 

 

R – Trabalho aqui mesmo.

 

P/1 – E a senhora teve um derrame?

 

R – Foi.

 

P/1 – Como foi isso?

 

R – Foi que eu, eu tava aí, tava deitada aí, levantei e saí lá pra fora. Peguei uma xícara para tomar o café. Quando eu peguei a xícara para tomar o café eu senti... na boca, né.

 

P/1 – Sentiu o quê?

 

R – Senti que entortou, a boca. Aqui. Repuxou pra cá. Aí não teve jeito mais. Aí levaram lá pro posto, ficaram engessando. E lá eu melhorei e vim pra casa de novo.

 

P/1 – E a senhora tá sentindo?

 

R – E aí eu tô aqui. Tomando remédio pra sarar.

 

P/1 – Demorou pra passar então... tá fazendo algum exercício?

 

R – Tô passando só o remédio, pra ver se termina de tremer assim a boca, né? É, tudo é assim.

 

P/2 – A senhora tem muito remédio caseiro, né?

 

R – Tenho. Remédio caseiro que eu tô trabalhando com ele.

 

P/1 – Quais são, dona Nega?

 

R – Remédio caseiro é a copaíba, a aguardente, o óleo de Cumaru, a banha de jacaré. Essas coisas, né.

 

P/1 – Serve para que a banha de jacaré?

 

R – Serve pra isto. Para matar essa doença.

 

P/1 – Qual?

 

R – Essa doença, esse derrame.

 

P/1 – A senhora passa onde?

 

R – Passo aqui no rosto mesmo. Agora que não tá passado porque eu estou aqui ainda, né. Mas é passado tudinho, toda noite, todo dia.

 

P/1 – E o óleo de Cumaru serve pra quê?

 

R – Também, pra fazer isso, pra fazer a puxação também.

 

P/1 – E a andiroba que a senhora me mostrou?

 

R – A andiroba também.

 

P/1 – Tudo serve pra isso?

 

R – Tudo serve.

 

P/1 – E a senhora tá melhorando mais rápido?

 

R – Tô melhorando mais.

 

P/1 – E a senhora dá esses remédios para o pessoal que fica doente por aí?

 

R – Ensino para as pessoas que são assim, também.

 

P/1 – Com quem a senhora aprendeu a usar essas coisas?

 

R – Usar? É uma irmã minha que já está de idade também, que ela também sabe essas misturas de remédios, né. Ela faz.

 

P/1 – E ela aprendeu com quem?

 

R – Agora que eu não sei (risos). Eu acho que eram os tios dela que sabiam. Tia, né, que sabiam fazer.

 

P/1 – Tá bom, dona Nega, muito obrigada pela entrevista.

 

P/2 – Não tem mais nada pra contar?

 

R – A história do boto? Quando eu andava com meu pai aí nessa serra, serra piroca que a gente chama, aí nós íamos daqui pra lá passear. Ele levava a gente passear em cima dessa serra. Aí quando foi um dia ele desceu pro lado de lá, né. Aí ele viu o boto dentro do lago. Lá em cima da outra serra, que desce dessa. Tinha um laguinho assim, ele viu o boto lá dentro do lago. Mas ele chegou lá e foi ver, voltou pra banda da gente e disse assim: “Lá naquele lago tem um boto. Querem ver? Vamos embora lá”. Aí nós fomos com ele lá, ver. Ele mexeu lá, aí o botinho boiou... lá dentro do lago. Aí ele disse que era o dono do lago.

 

P/1 – Quem disse, seu pai ou o boto?

 

R – Não, meu pai. Ele que disse que o boto era o dono do lago.

 

P/1 – Que o dono tinha virado boto ou que o boto era o dono?

 

R – Agora aí nesse meio não sei não. Só a gente viu lá, né. Acho que ele era o dono do lago.

 

P/1 – Depois a senhora viu outros botos por aí?

 

R – Depois? Esses botos aí, por essa ribeira tem muito boto. O boto tucuxi cerca a bota, dessas grandes, né? Não deixa o outro encostar, não. Ele cerca.

 

P/2 – A Senhora disse pra mim que é muito valente, que a senhora não tem medo. Conte a história do sucuriju também.

 

R – A história do sucuriju... tava pegando uma galinha no Igarapé, né, aí nós fomos lá, nós estávamos tomando banho, aí quando nós chegamos lá o sucuriju tava enrolado na galinha. Tudo ficou com medo e eu falei: “Vou pegar o sucuriju”. Peguei no rabo do sucuriju, chamei o resto e todo mundo ajudou a puxar ele lá pra terra. Nós puxamos ele lá em terra.

 

P/1 – A senhora que pôs a mão?

 

R – Peguei no rabo dele, assim, enrolei no meu braço. As outras ajudaram.

 

P/1 – Mas ela não mordeu a senhora?

 

R – Não. O sucuriju é valente quando está com a comida dele. Mas quando a gente puxa, ele não é mais valente.

 

P/1 – Não deu nenhum medo?

 

R – Não, nós éramos muito danadas pra fazer estas coisas...

 

P/3 – Depois vocês mataram o sucuriju?

 

R – Nós deixamos ele lá na areia. Lá ele tava se enrolando e lá ele morreu, na quentura do sol.

 

P/2 – A senhora também me contou quando vocês iam pra Santarém, no batelão, dava o temporal...

 

R – Ah, quando nós íamos pra Santarém, com papai! O batelão era de corda, que a gente chamava, de palha. Quando dava o vento ele me mandava trepar no mastro pra tirar a vela, por causa do vento, que era muito vento. Era muito danada. (risos) Era muito danada. Tudo eu fazia. Mais era eu que fazia com ele as coisas.

 

P/1 – A senhora era sempre a que acompanhava seu pai?

 

R – É.

 

P/1 – A senhora gostava muito dele?

 

R – Gostava, bastante.

 

P/1 – A senhora era mais próxima dele ou da sua mãe?

 

R – Mais dele. Eu sempre trabalhava junto com ele.

 

P/1 – Ele era muito falante? Como que ele era?

 

R – Ele era... não, ele não era muito conversador. Era baixinho, gordo, moreno, cabelo enrolado, parecido com o do Marquinho...

 

P/1 – Ele era bravo?

 

R – Não, não. Não era bravo, não.

 

P/1 – Com nenhum filho?

 

R – Com nenhum filho ele foi bravo, não. Nunca ele deu nos filhos dele.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe não. Minha mãe era meio revoltada.

 

P/1 – Ela batia em vocês?

 

R – Não, em mim ela nunca bateu. Nos outros batia.

 

P/1 – Batia com o quê?

 

R – Ela dava umas palmadinhas de leve (risos). Aí, passava.

 

P/1 – Ela era brava?

 

R – Não, ela não era muito brava, não.

 

P/3 – E a senhora sabe alguma história de coisa aqui da região? Alguma lenda? 

 

P/2 – Tem a da cobra do lago. 

 

R – Ah, a cobra do lago? Sempre que os pescadores iam pescar, os mergulhadores iam também no fundo, daí eles viam... tem uma cobra aí dentro, que era muito peixe perto dela, aí dentro desse lago. Quando os americanos que trabalhavam primeiro aqui, trabalhavam aí dentro do lago, meu irmão trabalhava com eles, eles contaram pro meu irmão que aí dentro desse lago tem a mina. Aí dentro desse lago ninguém tira o que tem aí. Nem eles puderam tirar não.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não sei.

 

P/1 – Mas tem uma mina de quê?

 

R – Não sei, mina de que... disseram pra ele que aí dentro desse lago tem duas correntes. Mas ninguém sabe corrente de quê, né.

 

P/1 – E eles estavam querendo tirar o que do lago?

 

R – Alguma coisa eles queriam tirar aí, mas não tiraram não.

 

P/3 – A cobra seria a protetora do lago?

 

R – A cobra é. A cobra, aí tem uma arraia grande que aparece. Aí dentro do lago. Tudo isso tem aí nesse lago. Tem as cabeceiras. Quando eu pescava, já depois de casada, que eu ia pescar com meu esposo, eu metia a mão dentro do buraco pra tirar o peixe.

 

P/1 – Tinha muito peixe, então?

 

R – Muito peixe dentro do buraco.

 

P/1 – Que peixe que era?

 

R – Era tarira, jacundá e caratinga, jaraqui, caraco, esses peixes. Eu metia a mão e tirava. Botava dentro do panero. Era assim.

 

P/1 – Obrigada, dona Nega.

P/1 – Dona Nega, sabe o que eu queria começar? Que a senhora me falasse o seu nome completo.

 

R – Meu nome completo? Meu nome completo é Crispiana de Jesus Sardinha.

 

P/1 – Mas a senhora é conhecida como?

 

R – Nega.

 

P/1 – E este sobrenome, dona Nega, Jesus Sardinha. A senhora sabe de quem que era, da onde veio?

 

R – De quem que era? Era do meu tio... do meu avô que era Sardinha.

 

P/1 – Seu avô era Sardinha?

 

R – Meu avô era Sardinha.

 

P/1 – A senhora conheceu o seu avô?

 

R – Conheci.

 

P/1 – Como ele era? Como era o nome completo dele?

 

R – O nome dele como era? Agora não me lembro não, como era bem o nome dele. Eu sei que ele era Sardinha.

 

P/1 – E ele era pai da sua mãe?

 

R – Não, ele era pai da minha avó. Pai da minha avó.

 

P/1 – Ele era seu bisavô, então?

 

R – Ele já era meu bisavô.

 

P/1 – Ah, tá. E a sua avó, como ela chamava?

 

R – Nome da minha avó? Era Virgulina.

 

P/1 – E a senhora teve avô também ou só avó?

 

R – Não, só avó.

 

P/1 – Avô, não.

 

R – Avô, não.

 

P/1 – E ela era mãe da sua mãe?

 

R – Era, mãe da minha mãe.

 

P/1 – E a sua mãe, como chamava?

 

R – O nome da minha mãe era Severiana.

 

P/1 – Severiana.

 

R – É.

 

P/1 – E a sua mãe nasceu aqui?

 

R – Minha mãe? Nasceu.

 

P/1 – E a senhora sua mãe tinha quantos filhos?

 

R – A minha mãe? Tinha seis.

 

P/1 – Seis?

 

R – É.

 

P/1 – Mas ela era casada ou ela teve o filho, assim...

 

R – Não, ela teve primeiro dois que não eram do marido dela.

 

P/1 – Eles conheceram o pai, não?

 

R – Não. Depois ela teve já foi do esposo dela, que ela casou com ele, né.

 

P/1 – E a senhora é filha de qual?

 

R – Eu? Eu sou filha do primeiro pai, sim.

 

P/1 – Aquele que ela não casou.

 

R – É.

 

P/1 – E a senhora chegou a conhecer seu pai?

 

R – Não, meu pai era esse que ela casou primeiro. Eu sou a segunda filha da minha mãe.

 

P/1 – E ela ficou casada com ele?

 

R – Ficou.

 

P/1 – Pra sempre?

 

R – Pra sempre. Ele morreu, ela ficou.

 

P/1 – Então ela só tinha dois filhos antes, depois ela ficou com ele e aí teve mais quatro.

 

R – Nós éramos quatro.

 

P/1 – Como era o nome do seu pai?

 

R – O nome do meu pai era Firmo da Cruz Correa.

 

P/1 – E onde eles moravam com vocês?

 

R – Eles moravam? Lá na colônia.

 

P/1 – Que colônia é essa, dona Nega.

 

R – Lá na colônia chama-se Laranjal.

 

P/1 – É longe daqui? Quanto tempo de pé?

 

R – De pé é hora e meia, daqui lá.

 

P/1 – Colônia?

 

R – É.

 

P/1 – E como era a sua casa quando a senhora nasceu?

 

R – A minha casa era de palha mesmo, né. Era feita as paredes de palha.

 

P/1 – E dormia todo mundo onde?

 

R – Todo mundo dentro mesmo.

 

P/1 – Junto, pai e mãe?

 

R – Pai, era tudo junto.

 

P/1 – E cozinhava ali também?

 

R – Cozinhava fora, na cozinha. Tinha cozinha.

 

P/1 – A cozinha era fora da casa.

 

R – Era.

 

P/1 – E tinha banheiro?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Fora da casa também?

 

R – Fora da casa.

 

P/1 – E de que vocês viviam?

 

R – De que nós vivíamos? Vivíamos de fazer farinha, cortar seringa.

 

P/1 – A senhora chegou a trabalhar na seringa?

 

R – Trabalhei.

 

P/1 – Desde que idade?

 

R – Desde idade de dez anos.

 

P/1 – E a senhora lembra?

 

R – Eu lembro que quando papai começava a cortar a seringa, a gente colhia o leite pra fazer a borracha. A gente juntava o leite, defumava.

 

P/1 – Como defuma o leite?

 

R – Defumava. A gente enfiava um carocinho de mucajá num pau e aí ia botando o leite em cima e ia botando no fogareiro que tá a fumaça, né? Aí ia rodando, rodando, rodando ele, até quando já ficava grande. Aí continuava sempre, até ficar grande a borracha.

 

P/1 – O que vocês faziam com essa borracha?

 

R – O que fazia com a borracha? Fazia que iam vender em Santarém. Meu pai vendia em Santarém.

 

P/1 – Ele que ia andando até Santarém?

 

R – Ele que ia de batelão pra lá.

 

P/1 – O que é batelão?

 

R – Batelão? É esse que faz de madeira, né.

 

P/1 – Você falou que tinha muita seringueira na colônia?

 

R – Muita seringueira lá na colônia.

 

P/1 – Muita, muita, muita?

 

R – Tinha muita... tinha uns 300 pés de seringa.

 

P/1 – E vocês que sangravam todas?

 

R – Todas.

 

P/1 – Então como era que acontecia, dona Nega? A senhora acordava cedo. Quem que ia lá?

 

R – Quem que ia? Era eu com ele, o meu pai. Meu irmão.

 

P/1 – A sua mãe ia também?

 

R – Não. A gente ia com ele. Nós... duas filhas mais velhas, né... que ia com ele, colhia o leite.

 

P/1 – Sua mãe ficava fazendo o quê?

 

R – Ficava em casa fazendo as coisas. Fazendo negócio de comida, né?

 

P/1 – Como era a comida? O que vocês comiam?

 

R – A gente comia caça.

 

P/1 – Que tipo de caça?

 

R – Era tatu, paca, cotia.

 

P/1 – Quem que caçava?

 

R – Veado. O meu pai mesmo. Matava.

 

P/1 – E a farinha?

 

R – A farinha quem fazia era nós. Minha mãe.

 

P/1 – A sua mãe que fazia. Ela que capinava?

 

R – Ela que estirava mandioca tudinho, cevava, preparava tudo e ela torrava.

 

P/1 – E ela torrava, fazia farinha e seu pai saia e caçava. Era isto que vocês comiam todo dia?

 

R – Todo dia a gente comia caça.

 

P/1 – Então era gostoso.

 

R – Era gostoso.

 

P/1 – Quando não conseguia caçar o que vocês comiam?

 

R – Nós “fumo” criada só com carne de caça.

 

P/1 – Não comia peixe?

 

R – Não, era difícil a gente comprar peixe para comer.

 

P/1 – Vocês iam pra escola, dona Nega?

 

R – Pra escola? Não, pra lá não tinha escola. Lá não tinha escola, onde a gente morava.

 

P/1 – Então era trabalhar direto no seringal.

 

R – No seringal.

 

P/1 – A senhora não trabalhava na mandioca?

 

R – A gente trabalhava, ajudava lá.

 

P/1 – Então ia de manhã pro seringal. Como fazia?

 

R – A gente ia de manhã pro seringal, aí colhia o leite todinho, né, aí vinha pra casa pra defumar a borracha. Fazer a borracha.

 

P/1 – E que horas ia pra mandioca?

 

R – Quando terminava de trabalhar no leite, ia trabalhar na mandioca.

 

P/1 – E a senhora gostava de fazer isso tudo?

 

R – Gostava.

 

P/1 – Não achava pesado o trabalho?

 

R – Não achava pesado, não. Agora, depois que aconteceu isso comigo, eu não trabalhei mais. Mas sempre gostei de trabalhar. Gosto de trabalhar.

 

P/1 – O que a senhora mais gostava de fazer?

 

R – Eu? O que eu mais gostava de fazer? Era cuidar de mandioca. Descascar mandioca pra cevar. Lavava mandioca tudinho. Botar no aviamento pra cevar.

 

P/1 – A senhora começou a mexer com barro com que idade?

 

R – Eu comecei a trabalhar no barro com idade de nove anos, eu comecei a brincar com barro.

 

P/1 – Da onde deu da senhora ir pegar o barro pra brincar?

 

R – Aí na ponta.

 

P/1 – Que ponta?

 

R – Nessa que a gente tira aí, o barro. Aí no barreiro, mesmo. A gente tirava lá. Meu pai ia buscar pra eu brincar com barro. Ele não tinha preguiça de vim buscar.

 

P/1 – A senhora pedia a ele?

 

R – Eu pedia pra ele vim buscar aí. Ele tirava e levava.

 

P/1 – E os seus irmãos também brincavam com barro?

 

R – Não. Era só eu que gostava de brincar com barro.

 

P/1 – Só.

 

R – Só eu.

 

P/1 – A senhora tinha alguma amiguinha que gostava também?

 

R – Mas quando! Eu não tinha amiga não, pra brincar.

 

P/1 – Não? Por quê?

 

R – As minhas irmãs nunca gostaram de trabalhar nestas coisas. Só mesmo eu.

 

P/1 – E lá na comunidade, lá na colônia: não tinha outras crianças?

 

R – Tinha outras crianças mas não gostavam, não.

 

P/1 – Vocês brincavam do quê?

 

R – Eu brincava de boneca com as crianças, quando vinham pra casa. A gente brincava. Pelo terreiro, andando por aí.

 

P/1 – O seu pai pegava o barro e a senhora fazia o que com ele?

 

R – Eu fazia panela, pote, tudo as coisas miudinhas eu fazia.

 

P/1 – Para brincar de casinha.

 

R – É. Fazia as casinhas de barro. Aí depois, quando me entendi, já fui trabalhando já pra fazer para vender, né.

 

P/1 – Mas como a senhora aprendeu como era a mistura certa do barro?

 

R – Como era a mistura? Eu pedi um dia pro meu pai tirar a casca do... eu perguntei pra ele se ele conhecia alguma casca de pau. Aí ele disse que conhecia a casca do pau para misturar com barro, que era o caripé. Aí eu pedi para ele tirar.

 

P/1 – Então ele trazia o barro e trazia o caripé?

 

R – O caripé. Ele tirava na mata o caripé. Ele queimava, tirava o pó. Aí eu peneirava na peneira. Aí eu misturava. Ai eu ia vendo como era o ponto do barro. Como é que ficava.

 

P/1 – A senhora pegava o barro molhado assim...

 

R – Pegava o barro, misturava tudinho. Aí ia vendo como era o ponto pra ficar, pra enrolar. Pra não ficar aquele murrão - tá aí o Marquinhos - já trabalhei lá, né? Aí é todo feito o murrão pra colocar.

 

P/1 – Como é o murrão?

 

R – O murrão é a gente enrola assim o barro, aí vai espichando, ficando aquele murrão compridinho, né. Aí vai fazendo a roda. Depois vai puxando pra cima, pra suspender.

 

P/1 – Isso tudo a senhora foi experimentando?

 

R – Tudo isto.

 

P/1 – Sozinha, dona Nega?

 

R – Só eu.

 

P/1 – Mas isso dava na cabeça da senhora?

 

R – Dava. Aí eu pensava como devia fazer. Aí fui fazendo.

 

P/1 – Aí a senhora fazia primeiro as panelinhas, depois as bonequinhas.

 

R – Eu fazia as panelinhas, fazia o pote, fazia a moringa, bilha, alguidar...

 

P/1 – isso quando a senhora era criança ainda?

 

R – Não, depois. Já eu trabalhei. Quando eu era criança eu comecei a fazer assim também. Dentro de casa uma coisinha eu ia fazendo. Experimentando a fazer.

 

P/1 – E a senhora teve filho com que idade?

 

R – Eu tava com a idade de... deixa eu ver... estava com a idade de 20 anos.

 

P/1 – Foi primeiro filho ou filha?

 

R – Filho.

 

P/1 – A senhora casou?

 

R – Casei.

 

P/1 – Ah, é? Como chamava o seu marido?

 

R – Meu marido chamava-se João. João Correa Sardinha.

 

P/1 – Onde a senhora o conheceu?

 

R – Onde? Lá na colônia. Eles moravam tudo na colônia. Foram criados tudo na colônia.

 

P/1 – Era primo seu?

 

R – Não, não era. Era conhecido, assim, que trabalhava lá.

 

P/1 – E aí a senhora gostou dele, ele gostou da senhora, como é que foi?

 

R – Ele foi me pedir. Quando quis casar comigo não teve nada de namoro, nada. Foi pedir pra casar logo.

 

P/1 – E a senhora aceitou?

 

R – Aceitei (risos).

 

P/1 – Por que a senhora aceitou?

 

R – Porque se era pra ficar jogada por aí, né? Fiquei logo pra casar, né?

 

P/1 – Mas a senhora casou na igreja?

 

R – Casei. Lá em Belterra.

 

P/1 – Teve festa?

 

R – Não. Não teve festa, não.

 

P/1 – Foi só lá, entrou na igreja...

 

R – Entrei na igreja, saí pra ir pra colônia.

 

P/1 – Seu pai achou bom a senhora casar?

 

R – Não, ele já era morto quando eu casei.

 

P/1 – Quando o seu pai morreu a senhora tinha quantos anos?

 

R – Eu tava com 19 anos.

 

P/1 – Ele morreu de quê?

 

R – Dessas doenças mesmo. Dessas febres grandes que dava.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Minha mãe também, a mesma coisa.

 

P/1 – Morreu também?

 

R – Também.

 

P/1 – Então a senhora ficou sem pai nem mãe.

 

R – Não tenho pai nem mãe.

 

P/1 – Com que idade ela morreu?

 

R – Minha mãe morreu com 60 anos.

 

P/1 – Então ela ainda era viva, nessa época?

 

R – Era.

 

P/1 – A senhora foi pra casa e teve esse primeiro filho com 20 anos. Onde que a senhora teve esse filho?

 

R – Aqui na recordação.

 

P/1 – O que é a recordação?

 

R – É ali numa cabeceira que tem. Primeiro o pessoal que trabalhavam por aí, né. Que eram os moradores por aí.

 

P/1 – Mas a recordação é um lugar?

 

R – É um lugar aí. O Marquinhos sabe onde é, né Marquinhos... naquela casa, né. Aquele cercado lá perto daquele igarapezinho que passa daqui logo lá. Tem uma casa lá debaixo.

 

P/1 – A senhora teve ajuda da parteira? 

 

R – Não, naquele tempo não tinha ajuda de parteira, não.

 

P/1 – O que tinha?

 

R – Era só a mãe da gente mesmo que trabalhava com a gente.

 

P/1 – A mãe que fazia o parto pra senhora?

 

R – Era a mãe.

 

P/1 – Depois a senhora fez o parto das suas filhas também?

 

R – A outra minha tia que fez o parto dos outros filhos que nasceram.

 

P/1 – Os outros seus?

 

R – Foi.

 

P/1 – Depois os filhos foram crescendo e a senhora foi trabalhando com barro, como é que foi que a senhora foi fazendo barro pra vender?

 

R – Depois de eles já estarem criado tudo, aí eu trabalhei em barro.

 

P/1 – Depois dos filhos criados?

 

R – Depois dos filhos criados eu trabalhei em barro.

 

P/1 – Enquanto eles estavam crescendo a senhora trabalhava com o quê?

 

R – Trabalhava na farinha, fazendo farinha ainda.

 

P/1 – E seu marido?

 

R – Também. A gente trabalhava tudo na mandioca ainda, né.

 

P/1 – Então nessa época a senhora não trabalhava com barro.

 

R – Depois que eu fui trabalhar no barro.

 

P/1 – Por quê? Deu na cabeça da senhora fazer pra vender?

 

R – Pensei em fazer pra vender.

 

P/1 – Quais foram as primeiras coisas que a senhora fez?

 

R – As primeiras coisas que fiz foram as panelas. Panela de barro.

 

P/1 – E a senhora levou pra vender onde?

 

R – Eu vendi aqui mesmo. Aqui em Alter do Chão mesmo. Que moravam aqui e compravam, né?

 

P/1 – Depois a senhora passou a fazer os bonecos?

 

R – Depois eu passei... não; eu fiz primeiro os bonecos. Aí depois que eu fui trabalhar nessas coisas: negócio de panela, pote, alguidar.

 

P/1 – E a senhora voltou a fazer bonequinha?

 

R – Voltei fazendo. Agora que eu fui lá na oca. Aí eu... pra mostrar como eu fazia com esses que estão aí.

 

P/2 – A senhora contou uma história pra mim, de que a senhora foi trabalhar em Belterra...

 

R – Ah, em Belterra eu trabalhei. Trabalhei com os americanos.

 

P/1 – Hum, como é que foi?

 

R – Quando meu pai tava doente, lá na colônia. Aí eles chegaram lá. Meu pai tava doente, né? Aí eles passaram a conversar com ele, passaram a conversar. Aí chegou um homem que morava aí no Pindobal, aí eles... aí ele começou a contar que eu trabalhava em barro. Aí eles disseram assim pra mim: “Você garante trabalhar pra mim?”. Aí eu perguntei no quê. Eles passaram a contar, né. Aí disse: “Você quer ir comigo para Belterra?”. Eu não sabia, não. Papai que resolvia, né. Aí papai disse: “Ela vai”. Quando cheguei lá eles botaram uma caixa grande, tava cheia de pedaço de caco de índio. Quando eles tiraram da caixa perguntaram para mim: “Você garante fazer essas coisas que tão aí?”. Aí eu disse que ia pensar.

 

P/1 – Fazer o quê?

 

R – Emendar. Eles tiraram tudo aqueles cacos de índio, né? Eles iam colocando pra eu ver como ia ficar.

 

P/1 – Eles queriam que a senhora fizesse a liga.

 

R – Eles colocaram tudinho pra mim e disseram que iam comprar o barro pra eu trabalhar. Eles foram, compraram o barro e levaram pra mim. Eu fiz 41 peças dessas coisinhas que estavam tudo quebrada, emendada assim. Pra ver como ia ficar, né. Aí eu fiz pra eles.

 

P/1 – A senhora ficou juntando os caquinhos?

 

R – Eles mesmos uniam para eu ver como ficavam. Aí eu fiz tudinho.

 

P/1 – E o que eles iam fazer com isto?

 

R – Eu acho que eles mandaram fazer aquilo pra uma mostra pra eles apresentarem. Só pode ser. Depois de tudo pronto eu queimei pra eles tudinho e eles ficaram com tudo.

 

P/1 – Aí passou o seu trabalho ou a senhora passou a fazer outra coisa?

 

R – Não, só fiz aquilo lá.

 

P/1 – Quanto tempo a senhora ficou trabalhando lá?

 

R – Trabalhei... quatro semanas, um mês.

 

P/1 – Era dentro de uma oficina?

 

R – Não, era dentro de um barracão. No barracão eu trabalhava.

 

P/1 – Quando que os americanos foram embora?

 

R – Ah, os americanos? Não sei...

 

P/1 – Eles foram embora?

 

R – Foram.

 

P/1 – Foi muito tempo depois disso?

 

R – Ih, faz muitos anos já...

 

P/1 – O que mais que a senhora soube fazer com barro?

 

R – O que mais que eu soube fazer com barro? Foi só isso.

 

P/1 – A senhora foi ensinar o barro para os meninos?

 

R – Aí eu fui lá.

 

P/1 – Os meninos convidaram a senhora?

 

R – Foi.

 

P/1 – A senhora ensinou para os seus filhos antes?

 

R – Antes? Mas quando... não quiseram trabalhar nessas coisas não.

 

P/1 – Nenhum?

 

R – Nenhum.

 

P/1 – E a senhora ficou chateada que não tinha pra quem ensinar?

 

R – Fiquei porque não quiseram aprender, né? Senão uma agora que estes tempos começou a misturar o barro, foi fazendo, agora ela já faz. Uma, né? Que o Marquinhos sabe. Agostinha. Só que ela não faz panela, só fogareiro. Agora está começando a aprender a fazer.

 

P/1 – E lá na oca a senhora ensinou para quem?

 

R – Para as meninas que estavam trabalhando lá.

 

P/1 – E elas sabem aprender?

 

R – Começaram lá. Cada uma fazia uma coisinha, né.

 

P/1 – Mas a senhora acha que elas podem fazer isso pra vender agora ou não?

 

R – Depende de ter aprendido pra fazer, né?

 

P/1 – Quanto tempo a senhora ficou ensinando?

 

R – Não; levei quantos dias... Marquinho?

 

R2 – Quase um mês, umas três semanas.

 

R – Foi.

 

P/1 – A senhora ensinou a misturar o barro...

 

R – Misturar o barro, molhar o barro, misturar. Aí depois de pronto eles começaram a trabalhar.

 

P/1 – E o seu marido, dona Nega, faleceu quando?

 

R – Ih, já faz... não sei nem com quantos anos. Tá com não sei se seis ou sete anos já de morto.

 

P/1 – Ele faleceu de quê, seu marido?

 

R – Desta febre grande.

 

P/1 – Também? Qual febre grande?

 

R – Essas febres que dá, quando dá assim uma febre que não tem mais cura, né. A pessoa morre.

 

P/1 – É sempre assim?

 

R – Sempre assim...

 

P/1 – Dona Nega, o que a senhora faz hoje em dia?

 

R – Quem, eu?

 

P/1 – É.

 

R – Eu trabalhava assim, ia daqui lá pra colônia, voltava. Trabalhando assim... no quintal, varrendo, lavando roupa.

 

P/1 – A senhora largou o barro?

 

R – Lavava roupa. Aí eu deixei o barro.

 

P/1 – Por que a senhora deixou o barro?

 

R – Porque (risos) não tinha mais quem tirasse o barro pra mim, o caripé que a gente compra, né. O Marquinho... ele sabe como é, né? A gente tem que comprar o material pra fazer. Aí eu não trabalhei mais, não.

 

P/2 – Porque antes era seu marido que tirava pra senhora...

 

R – É, era ele que trabalhava. Tirava pra mim.

 

P/1 – Ele fazia também?

 

R – Ele alisava as vasilhas, quando era muito assim, que eu fazia muito.

 

P/1 – A senhora chegou a ganhar um bom dinheiro com esse barro?

 

R – Eu ganhava sempre. Eu ganhava. Eu pedia 20, 30. Naquele tempo ainda não era real, né? Era cruzeiro naquele tempo, né.

 

P/1 – A senhora tirava quanto. A senhora ia vender de quando em quando?

 

R – Eu vendia até de 20 peças.

 

P/1 – Aí seu marido ajudava. As crianças ajudavam também?

 

R – Não, só ele. Alisando com a pedra, né?

 

P/1 – Ele alisava e a senhora que fazia a forma?

 

R – Tudo.

 

P/1 – E onde a senhora queimava esse barro?

 

R – Onde eu queimava? Queimava aqui, queimava na colônia.

 

P/1 – Agora a senhora deixou de fazer o barro, a senhora não faz mais farinha também?

 

R – Não, não faço farinha nem trabalho no barro.

 

P/1 – Trabalha aqui em casa. 

 

R – Trabalho aqui mesmo.

 

P/1 – E a senhora teve um derrame?

 

R – Foi.

 

P/1 – Como foi isso?

 

R – Foi que eu, eu tava aí, tava deitada aí, levantei e saí lá pra fora. Peguei uma xícara para tomar o café. Quando eu peguei a xícara para tomar o café eu senti... na boca, né.

 

P/1 – Sentiu o quê?

 

R – Senti que entortou, a boca. Aqui. Repuxou pra cá. Aí não teve jeito mais. Aí levaram lá pro posto, ficaram engessando. E lá eu melhorei e vim pra casa de novo.

 

P/1 – E a senhora tá sentindo?

 

R – E aí eu tô aqui. Tomando remédio pra sarar.

 

P/1 – Demorou pra passar então... tá fazendo algum exercício?

 

R – Tô passando só o remédio, pra ver se termina de tremer assim a boca, né? É, tudo é assim.

 

P/2 – A senhora tem muito remédio caseiro, né?

 

R – Tenho. Remédio caseiro que eu tô trabalhando com ele.

 

P/1 – Quais são, dona Nega?

 

R – Remédio caseiro é a copaíba, a aguardente, o óleo de Cumaru, a banha de jacaré. Essas coisas, né.

 

P/1 – Serve para que a banha de jacaré?

 

R – Serve pra isto. Para matar essa doença.

 

P/1 – Qual?

 

R – Essa doença, esse derrame.

 

P/1 – A senhora passa onde?

 

R – Passo aqui no rosto mesmo. Agora que não tá passado porque eu estou aqui ainda, né. Mas é passado tudinho, toda noite, todo dia.

 

P/1 – E o óleo de Cumaru serve pra quê?

 

R – Também, pra fazer isso, pra fazer a puxação também.

 

P/1 – E a andiroba que a senhora me mostrou?

 

R – A andiroba também.

 

P/1 – Tudo serve pra isso?

 

R – Tudo serve.

 

P/1 – E a senhora tá melhorando mais rápido?

 

R – Tô melhorando mais.

 

P/1 – E a senhora dá esses remédios para o pessoal que fica doente por aí?

 

R – Ensino para as pessoas que são assim, também.

 

P/1 – Com quem a senhora aprendeu a usar essas coisas?

 

R – Usar? É uma irmã minha que já está de idade também, que ela também sabe essas misturas de remédios, né. Ela faz.

 

P/1 – E ela aprendeu com quem?

 

R – Agora que eu não sei (risos). Eu acho que eram os tios dela que sabiam. Tia, né, que sabiam fazer.

 

P/1 – Tá bom, dona Nega, muito obrigada pela entrevista.

 

P/2 – Não tem mais nada pra contar?

 

R – A história do boto? Quando eu andava com meu pai aí nessa serra, serra piroca que a gente chama, aí nós íamos daqui pra lá passear. Ele levava a gente passear em cima dessa serra. Aí quando foi um dia ele desceu pro lado de lá, né. Aí ele viu o boto dentro do lago. Lá em cima da outra serra, que desce dessa. Tinha um laguinho assim, ele viu o boto lá dentro do lago. Mas ele chegou lá e foi ver, voltou pra banda da gente e disse assim: “Lá naquele lago tem um boto. Querem ver? Vamos embora lá”. Aí nós fomos com ele lá, ver. Ele mexeu lá, aí o botinho boiou... lá dentro do lago. Aí ele disse que era o dono do lago.

 

P/1 – Quem disse, seu pai ou o boto?

 

R – Não, meu pai. Ele que disse que o boto era o dono do lago.

 

P/1 – Que o dono tinha virado boto ou que o boto era o dono?

 

R – Agora aí nesse meio não sei não. Só a gente viu lá, né. Acho que ele era o dono do lago.

 

P/1 – Depois a senhora viu outros botos por aí?

 

R – Depois? Esses botos aí, por essa ribeira tem muito boto. O boto tucuxi cerca a bota, dessas grandes, né? Não deixa o outro encostar, não. Ele cerca.

 

P/2 – A Senhora disse pra mim que é muito valente, que a senhora não tem medo. Conte a história do sucuriju também.

 

R – A história do sucuriju... tava pegando uma galinha no Igarapé, né, aí nós fomos lá, nós estávamos tomando banho, aí quando nós chegamos lá o sucuriju tava enrolado na galinha. Tudo ficou com medo e eu falei: “Vou pegar o sucuriju”. Peguei no rabo do sucuriju, chamei o resto e todo mundo ajudou a puxar ele lá pra terra. Nós puxamos ele lá em terra.

 

P/1 – A senhora que pôs a mão?

 

R – Peguei no rabo dele, assim, enrolei no meu braço. As outras ajudaram.

 

P/1 – Mas ela não mordeu a senhora?

 

R – Não. O sucuriju é valente quando está com a comida dele. Mas quando a gente puxa, ele não é mais valente.

 

P/1 – Não deu nenhum medo?

 

R – Não, nós éramos muito danadas pra fazer estas coisas...

 

P/3 – Depois vocês mataram o sucuriju?

 

R – Nós deixamos ele lá na areia. Lá ele tava se enrolando e lá ele morreu, na quentura do sol.

 

P/2 – A senhora também me contou quando vocês iam pra Santarém, no batelão, dava o temporal...

 

R – Ah, quando nós íamos pra Santarém, com papai! O batelão era de corda, que a gente chamava, de palha. Quando dava o vento ele me mandava trepar no mastro pra tirar a vela, por causa do vento, que era muito vento. Era muito danada. (risos) Era muito danada. Tudo eu fazia. Mais era eu que fazia com ele as coisas.

 

P/1 – A senhora era sempre a que acompanhava seu pai?

 

R – É.

 

P/1 – A senhora gostava muito dele?

 

R – Gostava, bastante.

 

P/1 – A senhora era mais próxima dele ou da sua mãe?

 

R – Mais dele. Eu sempre trabalhava junto com ele.

 

P/1 – Ele era muito falante? Como que ele era?

 

R – Ele era... não, ele não era muito conversador. Era baixinho, gordo, moreno, cabelo enrolado, parecido com o do Marquinho...

 

P/1 – Ele era bravo?

 

R – Não, não. Não era bravo, não.

 

P/1 – Com nenhum filho?

 

R – Com nenhum filho ele foi bravo, não. Nunca ele deu nos filhos dele.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe não. Minha mãe era meio revoltada.

 

P/1 – Ela batia em vocês?

 

R – Não, em mim ela nunca bateu. Nos outros batia.

 

P/1 – Batia com o quê?

 

R – Ela dava umas palmadinhas de leve (risos). Aí, passava.

 

P/1 – Ela era brava?

 

R – Não, ela não era muito brava, não.

 

P/3 – E a senhora sabe alguma história de coisa aqui da região? Alguma lenda? 

 

P/2 – Tem a da cobra do lago. 

 

R – Ah, a cobra do lago? Sempre que os pescadores iam pescar, os mergulhadores iam também no fundo, daí eles viam... tem uma cobra aí dentro, que era muito peixe perto dela, aí dentro desse lago. Quando os americanos que trabalhavam primeiro aqui, trabalhavam aí dentro do lago, meu irmão trabalhava com eles, eles contaram pro meu irmão que aí dentro desse lago tem a mina. Aí dentro desse lago ninguém tira o que tem aí. Nem eles puderam tirar não.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não sei.

 

P/1 – Mas tem uma mina de quê?

 

R – Não sei, mina de que... disseram pra ele que aí dentro desse lago tem duas correntes. Mas ninguém sabe corrente de quê, né.

 

P/1 – E eles estavam querendo tirar o que do lago?

 

R – Alguma coisa eles queriam tirar aí, mas não tiraram não.

 

P/3 – A cobra seria a protetora do lago?

 

R – A cobra é. A cobra, aí tem uma arraia grande que aparece. Aí dentro do lago. Tudo isso tem aí nesse lago. Tem as cabeceiras. Quando eu pescava, já depois de casada, que eu ia pescar com meu esposo, eu metia a mão dentro do buraco pra tirar o peixe.

 

P/1 – Tinha muito peixe, então?

 

R – Muito peixe dentro do buraco.

 

P/1 – Que peixe que era?

 

R – Era tarira, jacundá e caratinga, jaraqui, caraco, esses peixes. Eu metia a mão e tirava. Botava dentro do panero. Era assim.

 

P/1 – Obrigada, dona Nega.

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