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História

A vida da gente é uma verdadeira política

História de: Nelita Souza Matos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Nelita Souza Matos nasceu em Novo Acordo, Tocatins, mas quando era bebê foi para Brasília com os pais, que migraram em busca de trabalho. Criada de forma rígida, Nelita trabalhava e estudava quando conheceu o marido, e enfrentou a família para poder se casar. Numa decisão repentina, mudou-se para o bairro Fercal, quando sua vida tomou outro rumo. De funcionária pública a líder comunitária, Nelita luta por melhorias sociais do bairro que se tornou definitivamente o seu lugar.

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História completa

Eu nasci em Novo Acordo em 28 de setembro de 1956. Meu pai era comerciante, era pobre, ele veio de São Luís do Maranhão para o Tocantins, chegou lá ele roubou a minha mãe, porque os pais da minha mãe não queriam o casamento com um aventureiro. Eles vieram pra Brasília, no comecinho, em 56, eu tinha poucos meses de vida. Ele tinha uma bicicleta de carga, e saía vendendo peixe lá no IAPI para os operários de Juscelino Kubitschek. Na época se criou a cidade de Taguatinga Sul, onde ele foi contemplado com um lote.

  Eu não tinha boneca, não tinha brinquedo, naquela época, não tinha brinquedos evoluídos na tecnologia como são hoje, mas assim, as minhas amiguinhas vizinhas, a gente brincava de “cozinhadinho”, a gente pegava uma latinha de sardinha, fazia a panelinha. Queria brincar de boneca, a gente ia lá ao quintal do vizinho, roubava uma espiguinha de milho, puxava os cabelinhos da espiga, botava os bracinhos de fósforo. Eu fui muito feliz nessa época lá na Vila Dimas.

  Eu já tava, assim, com 17 ou 18 anos, não lembro, quando eu conheci o Delson. Ele dava dinheiro, dava uma balinha, um chiclete para o meu irmão entregar cartinha pra mim. E a coisa foi caminhando pra um rumo, que nós ficamos namorando. Meu pai falava bem assim: “Eu prefiro ver a minha filha casada com um cachorro a um PM”. Não queria o casamento em hipótese alguma. Eu fui e falei pra minha mãe, que eu era tão autêntica como ela: “Se a senhora não me deixar namorar, não me deixar casar, eu vou fugir igual a senhora fugiu. Eu vou fugir”. Mãe sempre dá aquele jeitinho, aí foi conversando, conversando com o meu pai. Aí começamos a namorar mesmo. Meu pai concordou não concordando, mas preferiu arrumar o casamento.

  Eu não tinha planos de vir morar aqui na Rua do Mato, na Fercal. Eu já tinha a Deise, estava com oito meses, tinha o Daniel, Júnior e Daniele, cada um na barra da saia, um pegava de um lado, outro pegava de outro. E eles estudavam do lado do HUB, onde eu trabalhava; iam e voltavam comigo, que na época tinha ônibus funcional. E Delson entrou de licença especial, ele tinha um Opala, e como gosta muito de fotografar, pegou a máquina e simplesmente: “Fui”. Nós não nos separamos, ele foi curtir a licença especial dele, e eu fiquei com os meninos.

  Ainda morávamos de aluguel nessa época, na Ceilândia, onde era o pior lugar mesmo de se morar. E eu saía cedo, cinco e meia, pra seis horas pegar o ônibus funcional. Aí Delson não dava notícia, e eu com aqueles meninos ali naquela confusão danada, dormindo sozinha mais as crianças. Aí eu pensei: “Gente, eu não sei o que eu tô fazendo aqui nessa Ceilândia”. Do nada me deu um estalo. E quando me dá um estalo assim, não tem nada que tire pra eu deixar de fazer. Fui lá ao centro da Ceilândia, vi um caminhão, falei: “Moço, quanto o senhor cobra pra levar a minha mudança daqui pra Fercal?”. O cara, se eu não me engano, falou: “Cento e 20 mil” – naquela época. “Moço, então, por favor, cinco e pouco o senhor esteja à minha porta. O senhor aceita um cheque pré-datado pra 30 dias? Olha, pra onde o senhor vai levar a minha mudança, lá eu vou ficar”. Ele: “Eu aceito”. Ainda ajudou botar os cacarecos tudo. Quando foi lá pelas 11 horas da noite nós conseguimos vir pra cá debaixo de uma chuva... Isso aqui era só argila, não tinha nenhuma casa desse lado, isso aqui era tudo terra vermelha, argila mesmo, porque a Tocantins explorava aqui. Era um morro de argila, onde é o lugar da minha casa.

  Eu cheguei meia-noite com o caminhão, com os meninos, com os cacarecos, meu sogro acomodou e tal. E, coincidentemente, o primo dele mudou pra Planaltina e a casa ficou pra alugar. Eu corri e aluguei essa casa. Quando Delson veio das viagens dele, terminou a licença-prêmio, ele foi direto na Ceilândia. Chegou lá, cadê a mulher? Cadê os filhos? Sumiram. Ele perguntava, os vizinhos: “Não. Sei não. Ela mudou. Chegou com o caminhão aí, encheu o caminhão e não falou pra onde ia”. E eu não tinha falado mesmo pra vizinhança pra onde tinha vindo. Ele veio pra cá e eu já tava lá na casa com os meninos. Chegou: “Pai, cadê minha mulher? Cadê os meninos?”. “Uai, sou eu que vou saber da sua mulher e dos seus filhos?” Meu sogro deixou ele sofrer um pouquinho; quando foi de manhã, falou: “Vá lá naquela casa”. E assim começou.

  Logo que terminou a exploração de argila falei para o meu sogro que queria um pedacinho pra construir uma casa. Ele me deu esse terreno e levantamos essa casa. Terminamos lá em 98 e estamos aqui no cantinho.

  Na época não tinha telefone, a gente era assim, bem jogado mesmo aqui, principalmente na Rua do Mato. Quando foi em 1998 falei: “Vou sair candidata a deputada estadual pela Fercal”. Naquela época eu era filiada ao Partido dos Trabalhadores. E sem dinheiro, sem nada, só com a ajuda dos amigos mesmo, eu ainda consegui 1.798 votos aqui na Fercal. Mas também, terminou a campanha, fui direto pra UTI. Por que eu decidi sair candidata? Pra mostrar que a Fercal existia naquela época. Mas pra mim foi válido. Válido, porque pelo menos eles viram que a Fercal, se nós quisermos nos unir, a gente tira um distrital daqui.

  O meu sonho, assim, é nunca parar. Parar quando morrer. Eu não saí da política e nem a política saiu de mim, porque a vida da gente é uma verdadeira política. Assim, eu quero continuar trabalhando em prol da minha comunidade, da minha cidade, da RA31, da administração da Fercal.

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