Busca avançada



Criar

História

A vida de agora em diante

História de: Virgínia Joaquina de Oliveira Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

A simplicidade marca a narrativa da pernambucana Virgínia Joaquina, que nasceu num sítio, nos arredores de Timbaúba, em 1937. Quando criança, passou mais tempo na roça, ajudando o pai na plantação de coco e mandioca e na criação de animais, do que na escola. Apesar do trabalho pesado, se lembra com saudade da infância e das aguardadas festas de São João no quintal de casa, que incluíam fogueira e pamonha no jantar. Seu desejo, na época, era ser dona de casa e cuidar da própria família. E assim foi. Já casada, com cinco filhos, mudou-se para São Paulo, onde passou a ser merendeira. Enfrentou a morte repentina do marido e, como sempre, não deixou de lutar. Hoje, seu único sonho é manter a vida simples, fazendo seu crochê e seu artesanato para filhos, netos e bisnetos.

História completa

Nasci em 20 de março de 1937, Timbaúba, Pernambuco. O meu nome é Virgínia Joaquina de Oliveira Lima. E o da minha mãe é Joaquina Virgínia de Oliveira. Quando meu pai foi pôr os papel do meu casamento, diz que confundiram na igreja. “Ô, xente, o nome da fia tem o nome da mãe e o nome da mãe tem o nome da fia!” Foi essa confusão danada!

 

Eu trabalhei muito mais meu pai, na roça. E minha mãe trabalhava também na roça. Costurava, tinha uma máquina, ela costurava pra gente todinho, fazia vestido de noiva. A noiva ia casar, ia lá e ela fazia o vestido de noiva. Fazia renda. Você sabe o que é fazer renda no bilro? Ela fazia, até eu aprendi lá no Norte. Mas, quando eu vim pra aqui, deixei os bilro lá, almofada, esqueci.

 

Eu sinto muita saudade do meu pai. Quando eu era solteira, tudo que ele fazia era comigo. Eu gostava de sair com ele pra trabalhar pra roça. Apanhei muito algodão, arranquei muita mandioca, plantava e arrancava, fazia farinha. Tinha casa de farinha. E o sítio da gente era de coco. Plantava muito coco. Colhia o coco de três em três meses. E criava gado, criava cabra, criava carneiro, muita criação a gente criava. Lá plantava milho, colhia milho, plantava fava. Tinha a fava branca, o carocinho era branco; tinha uma fava mulatinha, que o caroço era pintadinho. A gente plantava no milho. Trabalhei muito na roça, minha fia! Lutei muito, minha vida é toda na roça!

 

A maior festa era São João. Quando era noite de São João, papai fazia uma fogueira bem grande no terreiro. Ele ia na loja, comprava um pano pra mamãe fazer um vestidinho. Mamãe fazia aqueles vestidos, ia na feira, comprava um tamanco. Comprava fogos, aquele diabinho e estrelinha. E, nesse tempo, tinha milho verde, e mamãe fazia pamonha. Logo cedo, trazia milho pra fazer, assar na fogueira. Eu não via a hora de chegar a noite pra vestir aquele vestido, pôr aquele tamanquinho no pé e ir pra porta ali, que papai acendia a fogueira. Ele dava, a cada um, um pouquinho daqueles fogos que ele comprou. Ele sentava ali, acendia a fogueira, e a gente ficava tudo ao redor. Tudo feliz da vida, viu? Aí, ficava mais um pouquinho, mamãe arrumava a janta. A gente ia jantar, era pamonha. Era muito legal, eu tenho saudade.

 

Eu entrei na escola, estava com dez anos. Entrei na Carta de ABC. Aí, comecei ler. Ia fazer 13 anos, quando eu saí da escola. Tinha estudado o primeiro ano primário, só o primeiro ano deu pra estudar. Eu saí e fui pra roça trabalhar. Fui viver a vida.

 

Quando foi com 20 anos, eu casei. Eu nem conhecia ele direito! Eu só conhecia a família, né? Mas eu não tinha contato com ele nenhum. Só sei que deu certo, casei. Foi a primeira vez que eu andei de carro, minha gente, foi no dia do meu casamento! Papai alugou o carro em Timbaúba. Era longe, veio buscar na igreja. Casemos.

 

Depois que eu casei, fui morar perto do pai do meu marido. Passemos uns anos, ganhei dois meninos lá, os dois mais velhos. Aí, não deu certo lá, viemos morar perto de papai. As três meninas nasceram lá. Que eu tenho cinco filhos: os dois primeiros, dois meninos, Vanderlei e João. E as meninas, as três, Maria das Graças, Maria Nazaré e Maria José, que é a caçula.

 

Queria ser uma dona de casa, casar, ter filhos. Foi o que eu fiz. Depois, eu vim pra São Paulo. Só saí da roça quando eu vim pra São Paulo. Quando cheguei cá, passei quatro meses na sala do dentista, morando, porque meu marido trabalhava lá. Era guarda e vivia nessa sala. Nove pessoas na sala do dentista! Nós se viremos. Aí, eu vendi as vacas que eu criava lá, trouxe o dinheiro. Ele já tinha comprado esse terreno em que eu moro, estava construindo. Ele acabou de construir. Aí, com quatro meses, fomos morar lá.

 

Em 74, eu arrumei serviço e fui trabalhar. Ele arrumou serviço na prefeitura pra mim, pra eu ser servente numa cozinha de uma escola, servente da merendeira. Depois de um ano, mudaram pra perto de casa. E eu era servente, passaram pra merendeira. E, aí, meu marido faleceu, e eu fiquei. A minha sorte é que eu trabalhava. Eu saía de manhã, trabalhava com aquela criançada, me divertia, né? Mas, se eu estivesse em casa, sem fazer nada, acho que eu tinha pifado, tinha enlouquecido. E meus filhos nunca me desprezaram, sempre ali!

 

Agora, é ficar mais velha do que estou, é não fazer mais nada, porque o que eu tenho mais de fazer? Já tô no fim da vida. Sonho é fazer o meu crochezinho, fazer meu balainho, emendar retalhinhos de pano pra fazer as colchinhas pros meus filhos, pros netos. E é essa vida meu sonho de agora em diante. E curtir os netos, curtir os filhos, os bisnetos. É isso. A minha vida vai ser essa de agora em diante, né? Não tem mais o que esperar, não.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+