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História

O tropeiro era telefone e “levador” de recado

História de: José Alves de Mira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/01/2009

Sinopse

Dono de uma incrível memória, o falante José Alves de Mira, o Zé Mira, contou sua história ao Museu da Pessoa em 2007, um ano antes de falecer. Nascido em 1924, na zona rural de Cristina, em Minas Gerais, ele voltou à época de criança, quando tinha acabado de completar sete anos de idade, para falar do momento em que aprendeu, com o pai, as duas funções que o acompanhariam por toda a vida. A primeira foi o trabalho de tropeiro, que exerceu pela região do Vale do Paraíba, onde passou a viver, transportando alimentos, cartas e até retalhos de pano entre os povoados rurais. A segunda foi o cargo de cantador e violeiro de Folia de Reis, que fez dele mestre conhecido em sua região. Ambas as atividades deram origem à Casa de Cultura Zé Mira, que ele fundou em São José dos Campos para preservar e compartilhar as tradições de sua vida, que se orgulhava de definir como caipira.

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História completa

Meu nome é José Alves de Mira, eu nasci em outubro de 2024, como é que é? De 1924, né? Meu pai trabalhava na enxada, plantava muito, a gente plantava muito e trabalhava com tropa. Nas colheitas, ele trabalhava com tropas. Baldear as coisas para a cidade era o trabalho dele. Levava arroz, feijão, milho, café. Quando vendia porco capado, vendia os capados também na roça, punha no cargueiro e levava para a cidade, para os açougues. Era o trabalho manual do caipira lá na roça.

Com sete anos, eu comecei a cantar na Folia de Reis do meu pai, com esse cavaquinho que está aí me acompanhando, que custou dez tostões aqui em São Paulo, porque lá não tinha instrumento para vender. E estou até hoje nessa lida, trabalhando na roça, trabalhando com a música, trabalhando com a cultura popular, que é uma coisa... Negócio de “folcrore”. Quando eu vim de Minas Gerais que encontrei essa palavra aqui em São Paulo. Eu não sabia dobrar a língua para falar essa palavra: “folcrore”. Até hoje não falo direito, né?

Essa senhora que me levou para a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, que é a Dona Ângela Savastano, agradeço muito ela por ter me posto, ter me procurado, como dançador de Moçambique e cantador de Folia de Reis, para entrar no grupo do Piraquara, que é o grupo que ela fez em homenagem aos Piraquaras da beira do Rio Paraíba. Estou até hoje nessa vida, 20 anos, cuidando da roça, cuidando da minha família, e me sinto honrado por isso.

Eu comecei a trabalhar com meu pai já com sete anos de idade. Comecei a acompanhá-lo na roça, na enxada, na tropa. Eu sou o único tropeiro ainda em atividade no Vale do Paraíba, que expõe... Tenho toda a tralha, não tenho mais burro porque estão acabando com tudo, mas tenho tudo em casa. Se você chegar lá e falar: “Quero uma cangalha, feita em 1800”, eu tenho. Aquele cabeçote feito com o gancho inteirinho não tem emenda, feito em 1820, da tropa do meu bisavô que eu nem conheci, né? Balaio, eu mando fazer balaio para carregar arroz sem pôr no saco, sem pôr nada. Café, feijão, dobrado que a minha família faz lá em Minas Gerais, que é um orgulho eu ter isso, ter a família que ainda faz e trazer para São Paulo.

Vieram o carreador, o carro de boi. Tinha que abrir uma estrada para caber os dois bois e o carro. Até que veio o caminhão, tirando as tropas da trilha e tirando o carro também da estrada. O carro ainda continuou mais um tempo, mas a tropa foi acabando rapidinho, porque gastavam dez tropas com dez burros para carregar a carga de um caminhão daquele tempo, do Ford, que não era essa carreta, era um caminhão 3/4, né? Então, ele carrega 100 sacos, e gastavam dez tropas para carregar 100 sacos. Os fazendeiros preferiram mais a roda de borracha do que o casco do burro. Eu falo que foi trocado o pneu do carro pelo casco do burro, porque era mais fácil. Dava trabalho, tinha que abrir estrada para chegar na tulha, e não tinha máquina, era tudo no enxadão, na picareta. Tudo isso foi feito para facilitar o negócio do carreto, e a tropa foi acabando. A tropa foi ficando só na fazenda para descer as mercadorias do aberto até o ponto do caminhão. E assim foi a minha vida.

Hoje não, hoje todo mundo foge comer a carne do porco, a gordura do porco, mas antigamente não. Eu como até hoje toicinho cozido, assado na brasa cheia de cinza. Comer um feijão sozinho bobo, que é feijão sem temperar, sem nada. Eu ponho na gordura quente, deixa ali, pôe um salzinho, mexo com farinha e ponho um toicinho assado lá na brasa, cheio de cinza para eu comer. Levanto quatro horas, se eu levantar quatro horas e comer um virado de feijão com torresmo, eu estou almoçado. Era o meu trabalho de tropeiro, que a gente fazia para poder sair com a tropa, porque saía de madrugada e não sabia que hora que ia fazer almoço. O almoço era um feijão-tropeiro feito na trempe, os dois ferros fincados para pôr aquele ganchinho, para pôr a panela, para pôr o fogo embaixo para ferver, fritar o torresmo. É o que comia.

Carro não tinha, avião não tinha, trem não tinha. O telefone não existia. Quando você ia viajar, a sua casa vivia cheia de mulher chegando da colônia pra entregar bilhete pro filho, pra levar recado, pra levar carta, pra levar recado, compra de remédio pra trazer. Era carta pra levar pra família. Vinha retalho. “Fala pra Fulana mandar um retalho, 20 centímetros desse metro, que não deu pra fazer o vestido da Joana.” “Manda trazer 40 centímetros desse riscado aqui, que não deu pra fazer a camisa do Chico e você traz um retrós igualzinho.” Agulha de costurar na máquina, dedal pra pôr no dedo pra costurar, pra pontilhar, tudo aquilo a gente pegava. Não tinha quem fizesse, era tropeiro.

A vida do tropeiro era essa vida. Ele era um telefone, ele era um carteiro, ele era um “levador” de recado (risos). Tinha que fazer tudo com as viagens dele, e, mesmo na cidade, se fosse pra uma cidade aqui, a dez quilômetros aqui, o tropeiro saía e levava aquele monte de encomenda.

Quando as tropas iam chegando nos pousos que tinha, que são as colônias, às vezes tinha a “ranchada”, os pontos de pouso, as meninas já falavam: “Hoje tem função.” Então, falar em “função” hoje ninguém sabe. Lá, tinha um sanfoneiro, ele já ia lá pro rancho, junto com os tropeiros, oito baixos pra tocar, eu no cavaquinho, outro lá no violão cantando, e as meninas ali em volta olhando, e as mães dançando com os pais e dançavam com as filhas. Mas ai de você se chegasse pra pegar uma menina daquela pra dançar! Não tinha disso, a gente paquerava no olho e olha lá. Mas de tudo, tudo aquilo a gente tem saudade. Hoje eu tenho saudade, sofri bastante, mas tenho saudade daquele tempo. 

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