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A Vida é uma Luta

História de: Nara Freitas
Autor: Patricia Vieira
Publicado em: 16/06/2016

Sinopse

Quando a vida se desenha na areia com pauzinhos, o rio se transforma em um grande espelho de motivação. É dessa forma que a pedagoga Nara Teresinha Ávila de Freitas, 52 anos, acredita que a vida é uma eterna luta. Com grandes influências no amor, na semente e na convocação para a vida, a pedagoga tem a certeza de que a educação vai mudar o mundo, regando sementes para um futuro melhor.

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História completa

Pedagogia e a luta pela educação pública

 

“A educação vai mudar o mundo” é isso que acredita Nara Teresinha Ávila de Freitas de 52 anos. Ela que escolheu trocar a carreira estável em um banco para militar por uma educação de qualidade, principalmente para aqueles que são excluídos da sociedade e que vivem em condições de vulnerabilidade social.

 

Foi na manhã de uma sexta-feira nublada em Porto Alegre que fomos recebidos pela pedagoga na Escola Municipal de Educação Infantil Valneri Antunes na Vila Mário Quintana, escola onde Nara trabalha há 18 anos e onde atualmente é diretora. A educadora foi a única filha mulher entre quatro irmãos homens que teve que lutar desde a juventude para conseguir continuar estudando, pois de acordo com o pensamento da sua família e com a cultura da época, as mulheres eram feitas apenas para casar e não para estudar. O gosto pelo estudo e pelos livros a fez defender aquilo que acreditava e ir além, fazendo com que a família, com o tempo e ao longo da sua trajetória profissional, passasse a respeitá-la e apostassem juntos naquilo que ela acreditava.

 

O início da sua trajetória profissional

 

A escolha por cursar Pedagogia na faculdade vem por acaso, Nara sabia que queria continuar a estudar, pois tinha gosto pelos livros e foi quando entrou no curso que ela se encontrou e se apaixonou pela profissão. O trabalho no banco foi essencial para que a própria pudesse pagar a faculdade, como ela mesma disse, funcionou como um trampolim para se manter e entrar no ensino superior.

 

Durante esse período de trabalho no banco, estava ocorrendo uma época política agitada o que deu início as suas militâncias. O olhar do lado do movimento dos trabalhadores a fez optar por militar na educação e trocar o emprego estável por uma nova realidade. Depois de formada, empregou-se no Centro Vida, um espaço de cidadania com ações de saúde, trabalho, lazer, educação, esporte e cultura junto a um grupo de educadores, professores, pedagogos, psicólogos, uma médica e um biólogo. O seu papel era assessorar a educação e buscar como atender melhor aquelas crianças que não tinham nem alimentação, que dirá educação.

 

Foi durante este emprego que ela conheceu a comunidade carente da Vila que levava o nome de Metralhadora e Pente. Nara contou-nos histórias impactantes da dura realidade que presenciou durante este trabalho: contou-nos que as crianças comiam sopa engrossada com papelão e que, de acordo com sua opinião, há uma grande distância entre o mundo acadêmico e a realidade que se encontra fora da universidade no dia-dia da profissão.

 

Dezoito anos resgatando vidas por meio da educação

 

Foi no ano de 1998 que a educadora pisou pela primeira vez no seu atual ambiente de trabalho, a Escola de Educação Municipal Infantil Valneri Antunes, localizada em um bairro periférico de Porto Alegre. Ela conta que havia passado no concurso da Prefeitura e que estava maravilhada com a nova proposta de trabalho. Mal ela sabia das histórias que iria conhecer e da difícil realidade que iria encontrar trabalhando com as crianças carentes da região.

 

Foi através de uma pesquisa sociocultural e antropológica da região que Nara, junto com sua colega de trabalho, chegou à conclusão que era necessário fazer mais. Não só pela educação e pelas crianças, mas também pelas famílias das quais elas faziam parte. Ela nos conta que foram feitas visitas dentro da comunidade e que muitas casas não tinham fogão, muitos moravam em meia peça, o chão era de barro e várias casas não tinham nem geladeira. Naquele momento ela percebeu que o papel das educadoras era entender a realidade na qual essas crianças estavam inseridas e procurar uma solução, trabalhar junto às famílias, com a comunidade, trabalhar em rede, com o posto de saúde e assistência social. Foi com o surgimento do orçamento participativo que as demandas da comunidade começaram a ser atendidas.

 

Outro ponto que atinge esta comunidade e que foi ressaltado pela educadora é a questão das drogas. “Muitas das crianças que chegam à escola não têm mãe, nem pai. Ou já morreram ou estão pelo mundo afora, e quem acaba criando é a avó, a tia, a amiga”, conta Nara. Portanto, o trabalho educacional é feito com essas novas figuras de família, uma família estendida que se constitui através daquela pessoa que assume e que pode fortalecer e dar total suporte para que essa criança se desenvolva. A violência é outra questão preocupante, pois muitas vezes perde-se o jovem para o tráfico, e o papel da escola nessas situações é ser um espaço alternativo, que serve para tirar a criança deste ambiente violento, mostrando outros caminhos como o desenho, a arte, a música, os passeios e o teatro.

 

O processo de resgate da escola acontece também por meio da inclusão. Nara conta que existe esse processo com crianças excluídas da sociedade por possuir deficiências físicas ou cognitivas e emocionais. Existe uma batalha ainda mais árdua a ser percorrida por essa criança que nasceu em uma comunidade carente. Embora não tenha nascido na comunidade, Camila foi uma das primeiras a passar por esse processo. Filha da educadora Cristina Peixoto, que também atua na escola, a menina nasceu com Síndrome de Down e teve Nara como primeira professora.

 

O principal objetivo da escola em que ela é diretora é aproximar a família do ambiente escolar, aproximar pais e filhos. Ela relata que por vezes é procurada por mães que buscam desabafar e que encontram ali uma palavra amiga. Mães que já foram presas, que nunca tinham sido filhas e que precisam aprender a serem mães. O trabalho de resgate é essencial para que haja troca de carinho e aproximação entre mães e filhos. Ela trabalha para que a escola seja abraçada pela comunidade. Uma das coisas que a educadora ressalta é que o essencial é saber ouvir, ter empatia, se colocar no lugar de cada uma dessas pessoas. Ela afirma ser apaixonada pela comunidade e acredita que o respeito se conquista com afeto.

 

Entre os certificados de cursos que a pedagoga fez, pode-se destacar um especial, um curso com Paulo Freire que, para ela, é um dos grandes educadores sensíveis que tem uma proposta de base para a comunidade mais carente, uma educação que de fato promove mudanças. Ela também possui uma Especialização em Educação Infantil.

 

O futuro da Pedagoga

 

Entre sonhos e projetos para o futuro ela destaca a vontade de escrever um livro, um livro que terá como título “Por que somos Felizes?”, onde pretende contar as histórias das realidades da comunidade que ela tem contato todos os dias e que, embora eles tenham que passar por várias dificuldades diariamente, há felicidade em diversos momentos de suas vidas. Ela nos fala que não é necessário morar em uma casa boa, em um bairro bom e ter certa quantia de dinheiro para ser feliz, o que se pode perceber é que a felicidade está nas pequenas coisas, presente em cada sorriso das 202 crianças da Escola da Vila Mário Quintana.

 

A aposentadoria já está a caminho, mas ela diz que não quer deixar só para si todo esse conhecimento adquirido com o estudo e com a vivência da profissão e que pretende continuar trabalhando, fazendo com que histórias de vida sejam modificadas através da educação.

 

Latinhas e um pauzinho na beira do Rio: As primeiras lembranças

 

Uma infância pobre, o banheiro que ficava na rua, o balanço no pátio, a luz do lampião que iluminava a casa à noite. Essas são as primeiras lembranças de Nara, que, em Cachoeirinha – RS, cresceu brincando com seus irmãos na verdadeira creche que era o quintal de casa. A mãe, Teresinha, lavava roupa no rio, pois não havia água encanada. Enquanto um irmão cuidava do outro, Nara era protegida por todos eles.

 

A necessidade de vir para Porto Alegre se tornou obrigatória no momento em que uma enchente invadiu a casa da família, fazendo com que perdessem o pouco que tinham para as águas. Nessa vinda, a mudança era constante. Entre duas e às vezes três peças, seus pais criavam ela e seus irmãos na esperança de um futuro melhor.

 

Feminismo e rodas de música: O início da adolescência

 

A música era uma grande aliada e se fez presente em toda a infância e adolescência da menina. Após a morte do pai, Pedro, quando Nara tinha apenas 12 anos, os quatro irmãos se uniram ainda mais para manter o suporte necessário à mãe. Nesse período, a reviravolta na cultura do país chegou à família através da necessidade de sustento: a ideia da mulher “do lar” foi abandonada por Teresinha quando essa assumiu a força de trabalho maior no sustento da casa, estudando e atuando no mercado a fim de pagar as contas. Tais ideias feministas e o contato com o mundo do trabalho viraram espelho para Nara, que entrou na vida profissional atenta aos movimentos sociais e políticos da época.

 

Aos 15, a matriarca casou novamente e a família foi morar em Viamão na tão sonhada casa própria, onde ganharam mais um irmão logo depois. Em plena Ditadura Militar, Nara participava de pequenos movimentos políticos de resgate da comunidade através da música, cujas letras traziam críticas ao regime ditatorial.

 

Após terminar o ensino médio, ela sabia que não poderia desistir de continuar estudando, mesmo com algumas críticas e olhares duros da família. Trabalhar durante o dia como bancária do extinto Banco Meridional era uma tarefa fácil, quando lembrava que seria para custear seus estudos. Nara prestou vestibular e passou na FAFINC (Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Imaculada Conceição), universidade que existia na época em que iniciou seus estudos e sua busca pela carreira profissional. Lá, encontrou apenas dois cursos (Filosofia e Pedagogia) e a escolha ficou pela segunda opção. Em meio a estudos teóricos e práticos, descobriu o primeiro amor pela profissão. Ela sabia que poderia fazer mais pela educação.

 

O amor pela vida, pelos seus filhos e pela luta

 

Durante toda luta que tivera sobre o regime militar enquanto estudante universitária, seus irmãos conheceram o cunhado primeiro que ela, de forma que eles acabaram apresentando-a, sem querer, ao seu futuro marido, Luís Rosa, com quem é casada até hoje. Com ele, participou do movimento Hippie, de grandes aventuras (acampamentos, rodas de debates e música) e casaram-se em 1987. Foram em busca do seu lar, em Porto Alegre, em um demonstrativo que a busca por uma vida melhor ainda não tinha acabado.

 

Um prédio no bairro Jardim Leopoldina foi invadido e os dois recém-casados lutaram pela ocupação e pela moradia. Em um JK, a família começou a ser construída com um dos irmãos, Sérgio Freitas, que tinha acabado de casar e a esposa estava grávida. Foram muitas negociações, planos e acordos (inclusive sobre como dividir um espaço pequeno para tantas pessoas) que enfim saiu a regularização do imóvel. Em 1993, nasceu o primeiro filho, Matheus, e logo em seguida, em 1996, o segundo, Daniel. No momento em que a família começou a crescer e o espaço a diminuir, Nara achou que era hora de ter uma casa e um pátio para que seus filhos pudessem ter a mesma infância que ela tivera.

 

Foi em 1998 que ela e seu marido conseguiram comprar um terreno, e aos poucos, juntando o pouco que tinham, iam moldando as coisas para ficar como queriam. Começaram nivelando o terreno e depois, fazendo cinco peças. Com o tempo a casa foi tomando novos formatos, dando origem a casa que ela criou os dois filhos.

 

Em 2010, Nara perdeu sua mãe para uma batalha contra o câncer, que durou cerca de três anos. Além de boas lembranças de uma vida intensa e feliz, a matriarca deixou para a filha a responsabilidade de cuidar da família e também do seu padrasto, Josué, a quem chama de pai e demonstra todo o amor e carinho. A necessidade de se fazer presente na vida de cada um é algo que Nara não dispensa, pois sua mãe sempre gostou muito de praticar. Com uma lista imensa de sobrinhos e afilhados, o sentido da palavra “maternidade” nunca foi tão intenso em sua vida.

 

Mãe de três filhos, “dois de sangue e um de coração” como ela mesma diz, em acolhida um rapaz de 15 anos. O jovem Luís Felipe Gaspari, amigo de um dos seus filhos, teve uma história de vida sofrida, uma vez que a relação com a mãe era muito difícil e o padrasto tinha envolvimento com o crime. Ela deu lar, educação, amor e documentos ao rapaz, que hoje está com 22 anos, pai de um menino e atuando como tatuador, uma grande realização profissional para ele.

 

Cuidar dos outros e cuidar de si

 

Além de cuidar da família, Nara não dispensa o cuidado de si própria. E isso fica claro no prazer que demonstra ao cozinhar, cuidar de suas plantas, pintar esculturas (esse hobbie está em desenvolvimento), jogar cartas, palavras cruzadas, ler livros e ouvir música, mantendo-se em atualização constante. Além das conquistas familiares trazerem diversos tipos de sensações, as diferentes conquistas de colegas de trabalho, alunos e amigos remetem a um sentimento bom.

 

Sobre a receita da felicidade? Ela garante que não precisamos de muito para sermos felizes. Basta plantar a semente da imaginação, regar com muito cuidado a criatividade e as lembranças boas e varrer as folhas ruins que caem ao redor. Manter a proximidade com o amor, agradecer pelos frutos e mostrar para as novas gerações que a felicidade está dentro de cada um de nós, nas coisas mais simples da vida.

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