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História

Adrenalina sobre duas rodas

História de: Jefferson Klaus de Lara Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/05/2017

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Jefferson nos conta sobre a sua história com a cidade de São Paulo, que começou a conhecer quando tinha 14 anos, trabalhando como office-boy. A paixão pelas duas rodas começou com o bicicross e hoje fala da adrenalina que é trabalhar sobre duas rodas nas pistas de São Paulo, contando sobre o cotidiano dos motoqueiros. Jefferson é apaixonado pela cidade de São Paulo e nos traz as marcas da cidade que não pára de crescer, como o trânsito, a violência, a diversidade para o lazer e o ritmo acelerado dos paulistanos.

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História completa

P/1 – Jefferson, obrigado pela entrevista, vamos começar com uma pergunta básica. Seu nome completo, o local onde você nasceu e o ano em que você nasceu.

 

R – Meu nome é Jefferson, nasci dia 29 de outubro de 72. Sou aqui de São Paulo, mesmo, gosto aqui da terra. Quero agradecer a entrevista com vocês aí, que venha para produzir bastante para as duas rodas aí.

 

P/1 – Legal. Vamos lá. Qual o nome dos seus pais? Eles são vivos, ainda?

 

R – São. É Cesar e Eunice.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho dois.

 

P/1 – Quais são os nomes deles?

 

R – Kleber e Katia.

 

P/1 – Eles são mais velhos ou mais novos que você?

 

R – São mais velhos. Eu sou o caçulinha.

 

P/1 – E onde você morava quando você nasceu, assim, a primeira casa da sua infância?

 

R – Então, aqui na Rua Assembleia aqui, onde tem a 23 de Maio, ali, e a região que eu trabalho, que eu escolhi essa região aqui para trabalhar, que eu acho que é uma energia boa que a gente trabalha nesses negócios de aventura, essa adrenalina na rua. Então, é o lugar que eu cresci, então eu acho que tem uma energia mais legal para me dar mais confiança para trabalhar, que eu já trabalhei em vários lugares, mas lugar que você não conhece, não tem uma visão assim… Igual um amigo meu que pegou e primeiro dia, não conhecia direito a Celso Garcia lá, ele morava na zona leste, mas não conhecia direito a Celso Garcia, saiu procurando o número, o endereço na Celso Garcia, o ônibus veio e pegou ele e levou empurrando cem metros para frente. Aí deu problema também para a empresa, para ele, quebrou tudo, quebrou a moto, atrasou o lado dele, entendeu? O cara já tava ali numa situação difícil, aí piorou a situação dele…

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, daqui a pouco, a gente chega nessa parte da sua vida. Lá atrás primeiro, os seus pais trabalhavam com o quê?

 

R – Meu pai foi taxista a vida inteira, meu pai. A minha mãe foi lojista, trabalhou com loja de roupas, mas foi pouco tempo. Aí foi sempre assim, ajudando nós em casa, nas tarefas de casa, foi sempre…

 

P/1 – E como é que foi a sua infância aqui em São Paulo?

 

R – A minha infância foi meio presa, sabe, meu pai não deixava a gente sair, porque eu morava muito no centro, assim, até os quatorze anos, treze, quatorze anos foi meio presa, meu pai não deixava a gente sair. Aí depois dos quatorze anos, eu resolvi trabalhar e pus isso na cabeça e o meu primeiro serviço foi de office-boy, não tinha motoboy naquela época, ainda. Aí, acreditei, eu falei: “Não, eu preciso”…

 

P/1 – Mas antes de você trabalhar, quando você tinha aí seus dez anos ou mais novo, quais são assim, as lembranças primeiras que você tem? As brincadeiras que você fazia, a relação com os seus irmãos? Como é que era?

 

R – Então, a gente ia de casa para a escola e da escola para casa, não saía muito. Um final de semana, meu pai levava a gente para o Ibirapuera, entendeu, Parque da Aclimação ou coisa assim, ele que levava, ele não deixava a gente sair de casa, porque ali era meio violento o centro, entendeu? Sempre foi meio assim… ele tinha medo de soltar nós, tinha um estacionamento, tinha um estacionamento e duas casas ali no centro, então, a gente brincava no estacionamento e entrava para dentro de casa. Então, era meio preso, entendeu? Não conhecia o mundão, a maldade do mundo, esse negócio tudo, entendeu?

 

P/1 – E vocês brincavam do que no estacionamento?

 

R – Assim, no fundo era um ferro velho e para frente era um estacionamento. Então, nós ficávamos lá brincando de olhar os carros, lavava carro, entendeu, fazia um servicinho e ficava na atividade ali do dia a dia e no final de semana assim, brincava de esconde-esconde lá com o pessoalzinho da rua, que ia tudo no estacionamento, não saía para a rua. Foi meio preso minha infância, comecei a sair… comecei a querer trabalhar porque eu era muito preso, então achei que ia ter liberdade trabalhando, entendeu?

 

P/1 – E você foi trabalhar justo num trabalho na rua?

 

R – Na rua.

 

P/1 – Como é que foi isso?

 

R – Fui trabalhar primeiro com a Capas Plebe, aquelas capas de cobrir carro, sabe? O cara me deu uma oportunidade lá. Aí, fui. Depois, eu fui modelista para medir carro, para fazer as capas, fui para a fábrica, trabalhei lá um tempo também.

 

P/1 – Mas antes disso, quando você foi ser office-boy, como é que foi… você se lembra do seu primeiro dia de trabalho?

 

R – Então, no meu primeiro dia de trabalho, eu não conhecia a rua, não conhecia nada, foi o meu pai que me levou lá na empresa, que eu não sabia nem a rua que eu ia trabalhar, entendeu? Então foi assim, uma luz mesmo que chegou lá e… os meninos… cheguei lá, já me interagi com os meninos, os meninos já começaram a mostrar o guia para mim, os ônibus que eu ia pegar. Aí o primeiro dia, eu fui com um rapaz para ver como que era o serviço, aí eles mandavam sempre para lugares relativos, iguais onde eu tinha ido para eu não me perder já que naquele lugar eu já tinha ido, entendeu? E era tudo pertinho, os lugares que ele me dava, aí ele começou a me dar uns lugares mais longe, entendeu? Capão Redondo, não sei o que e foi aumentando e eu fui pegando fácil.

 

P/1 – Mas descreve para mim, como é que era o seu trabalho, para quem não conhece, conta como é que era o seu trabalho de office-boy naquela época.

 

R – Então, a gente levava capa, era a capa do veículo, instalava a capa do veículo, entendeu, aí ficava de acordo, se não tivesse nenhum defeito, a gente tinha que abrir antes para ver se tinha algum defeito, os defeitinhos, furo… Aí, a gente dava uma olhadinha assim, de pronto e chegava lá, instalava no carro, se deu tudo certinho, o cara gostava, fazia o cheque, nós trazia o cheque para a empresa.

 

P/1 – E vocês levavam isso de ônibus?

 

R – Levava de ônibus. Não tinha moto na época, assim, igual motoboy, entendeu? A gente levava tudo de ônibus.

 

P/1 – E quantos desse você fazia por dia? Onde era o lugar mais longe que você ia? Como é que era?

 

R – Então, era São Paulo inteiro, a gente ia até para interior. Chegou uma época lá, que ele pagou uma passagem para eu ir para o interior, eu lembro, faz um pouquinho de tempo, mas eu lembro que eu fui para o interior uma vez de ônibus.

 

P/1 – Naquela época, você era criança, ainda, né? Adolescente. Você se envolveu em algum apuro andando pela cidade? Alguma história te aconteceu, assim, de…?

 

R – Ah, eu fui assaltado uma vez num bairro lá, eu me perdi lá, fui pedir informação na favela, os caras me assaltaram, levaram um dinheirinho pouco, a minha carteira e a capa também levaram. Aí eu liguei para ele, eles vieram me buscar lá que eu tava em choque, foi o primeiro assalto que eu tive, eu não tinha muita experiência da rua. Aí, foi constrangedor aquele dia lá para mim.

 

P/1 – Como é que foi esse assalto?

 

R – Então, eu tava perdido assim, tava procurando o endereço, o cara me deixou uns quatro, cinco pontos na frente, o motorista e eu pensei que tinha descido no lugar certo. Aí, nós andava com o guia, só que é o seguinte, naquela época, eu não tinha muita malícia do guia. Aí, eu olhava, olhava, eu pensava, ia perto da rua em cima do guia, perguntava pros outros, o pessoal da rua também não conhecia a rua, eu não lembro direito se tava… se a rua tava com o endereço errado, sei que demorou pra mim chegar e eu passei por uma favela e nessa favela ficou minha carteira e ficou o equipamento que eu tava levando também.

 

P/1 – Mas foi à mão armada? Como foi?

 

R – Não, uns moleques, assim, com bambu e tudo, ameaçou, naquela época eu não tinha malícia de mão, de nada. Quatorze, quinze anos, assim, moleque, o cara vem com um pau, quatro, cinco caras, você dá tudo, você nem reage, entendeu? Deu uma bambuzada na minha perna, aí você fica meio: “Não, pode levar, tal, deixa a minha vida aí”.

 

P/1 – E escola? Você lembra da sua primeira escola da infância?

 

R – Foi aqui na Humaitá, uma travessa da Brigadeiro, tem uma rua que chama Humaitá ali, chama Celso Leite a escola. É uma escolinha boa, tem bastante criança lá, eu lembro que eu não passava de ano lá, eu chorava, a professora me dava uns pontinhos e eu chorava no colo… porque eu era muito ruim de nota, sabe? Eu tenho um problema de déficit de atenção, você lê, chega no final da linha você esquece o que você leu, você tem que reler, reler para você ter uma noção do negócio. Eu tenho esse problema de déficit de atenção.

 

P/1 – Você deve ter se envolvido em muita dificuldade na escola por causa disso.

 

R – Muita! E naquela época, não tinha assim, igual tem hoje nas escolas, essas mulheres especialistas nisso, entendeu? Inspetora, essas coisas que vê essas coisas e a minha mãe, também, leiga, não sabia. Eu vim descobrir isso agora com trinta e cinco anos, que eu tinha déficit de atenção, que eu fui fazer curso de oratória para ver se eu melhorava a fala, esses negócios todos de comunicação, que eu era preso, eu falava muito pouco. Aí, eu fui descobrir isso aí com uma amiga, que ela lia muito e ela me deu um monte de livro pra ler, falei: “Não consigo ler” “Por que você não consegue ler? É tão bom ler, tenta”, aí ela veio me regando livros e eu não conseguia chegar nem na terceira página do livro, me irritava ler. Aí, ela falou: “Você tem déficit de atenção”, foi ela que descobriu e aí, eu fui ver mesmo com os médicos e tinha e nem sabia.

 

P/1 – E o quê que você lembra que foi mais marcante na época da escola, provocado por esse problema? Uma situação que você se envolveu, uma decepção que você teve ali, tentando fazer alguma coisa ou uma saia justa?

 

R – Então, você fica muito depressivo, você chega assim, no final do mês, naquela época, o pai vem ver o boletim, vem na reunião, naquela época, o pai vinha na reunião, hoje em dia nem vem mais, né? Ele via aquele boletim todo vermelho: “Pô, você não estuda. Você só vem para a escola e não estuda, você não tira nota”, e eu estudava, mas chegava na prova, chutava e não lembrava das coisas. Eu sempre tive esse problema de esquecer, hoje mesmo, se eu for num endereço e se eu ler o endereço, é que eu já marco e eu já sei onde que é, os clientes. Mas se eu for num endereço novo, pegar o endereço, ver o número, quando eu chego lá, tenho que ver o número de novo que eu já esqueci o número, tenho esse problema de memória, de esquecer.

 

P/1 – E você teve alguma professora que te marcou mais? Mais próxima, que te ensinou mais?

 

R – A que mais me ensinou foi essa colega aí. Essa colega que eu tive aí, que ela me falou que era déficit de atenção, né?

 

P/1 – Mas isso agora, mais recente?

 

R – É.

 

P/1 – Digo assim, lá na época da sua adolescência, infância, teve alguma professora que…

 

R – Foi no primário, que eu chorava lá e ela me dava uns pontinhos, ela gostava muito de mim, me chamava de fofinho, fofo, tal e eu ia ganhando uns pontinhos, né? Nesses agrados que ela dava pra gente pra incentivar, sabe? Teve outro também quando eu fazia o clube também, ali no CI no Ibirapuera, que eu fazia uns clubes lá…

 

P/1 – Você fazia o que lá?

 

R – Eu fazia basquete e vôlei. Aí, lá também davam uns incentivos pra gente, se a gente fizesse um campeonato legal, ela dava umas premiações, arrumava umas camisetas, trazia um docinho no final do grupo para dar um agrado.

 

P/1 – Mas aí, como é que você foi parar lá no Ibirapuera?

 

R – Então, eu tenho problema de lordose, o médico falou que eu não podia jogar basquete, minha coluna tem uma cifose, é meio torta. Aí, ele me proibiu de jogar basquete e o vôlei não, o vôlei, você tá sempre pulando. Eu não sei por que ele proibiu um e liberou o outro, até hoje eu não entendo. Parei de fazer o basquete, fiquei fazendo só o vôlei. Aí também, o pessoal parou, porque o campeonato acabou, nós acabamos também o campeonato do vôlei, eu comecei a fazer natação, aí entrou a época do frio, eu não aguentei ficar na piscina fazendo natação, aí eu abandonei também a natação, aí já comecei a trabalhar, nunca mais fui também.

 

P/1 – E como é que era a relação sua com os seus pais? Eu já entendi que ele te superprotegia, não deixava sair de casa, mas o quê que você costumava fazer com seus pais na infância, na adolescência?

 

R – Meus pais eram muito cuidadosos com a gente na época de estudo, essas coisas, o único problema era a violência, muita violência, meu pai era muito violento. Tinha dia que ele batia na minha mãe, né, qualquer coisinha ele chegava estressado, minha mãe brigava com ele, ele também já ia para cima da minha mãe, passava muito nervoso com isso daí. E eu acho que é por causa do trânsito, a selvageria do trânsito de São Paulo, que eu também, tem dia que eu me estresso. Agora, ando assim, indo pra igreja para dar uma acalmada, porque o sujeito se estressa mesmo. Você tá de boa assim, o cara vem e xinga a sua mãe, o outro te fecha, então você leva um puta de um susto, o cara atravessa na sua frente. Aí, aquilo te abala, acaba com o seu dia, aí você acaba passando isso para os clientes sem saber, entendeu? Você passa aquele nervosismo, aquela angústia para os clientes, vai passar mais rápido, você não fala direito com o cliente, ele percebe, aí da próxima vez, ele vai te tratar do mesmo jeito, aí você vai estar bem naquele dia, já vira aquela bola de neve, sabe? Então, o trânsito é meio selvagem, se você engolir o que eles te põem para dentro, você fica mal. Então, você tem que saber separar isso, tirar isso para você fazer o seu serviço. Aí, com o tempo, você vai pegando assim, esse jeitinho.

 

P/1 – Hoje, falando de hoje, já que você tocou nesse assunto, você pode me falar de alguma situação em que você se envolveu por causa desse estresse do trânsito, com o cliente ou com um colega na rua, com outro motorista?

 

R – Então, eu tive um caso que o rapaz saiu… agora tem a faixinha para motoqueiros e a faixinha para carro, o cara saiu empurrando a moto, até pegou do lado da moto, né, aí eu fiquei meio estressado, naquele dia, eu não sei, eu acho que eu saí fora de mim, era um moleque, o moleque veio batendo boca que eu tava errado e que eu não andava numa via expressa daquela, que eu já tinha que sair de uma vez. Falei: “Calma aí, para, tá com pressa? Pode passar, eu deixo você passar” “Não, que motoqueiro é tudo folgado mesmo, não sei o que…”, sabe, motoqueiro já tem uma fama, né? Aí, já veio querendo bater boca, não sei, deu um branco em mim, já comecei a puxar ele de dentro do carro, já fiquei nervoso também, já os carros no trânsito pararam, esse dia foi o dia mais agressivo, assim, que eu saí fora de mim. Os caras começam a xingar a mãe, começam a te ofender, aí depois você para e pensa: “Olha que besteira que eu ia fazer, né, por um minuto, o cara tirou você da sua…”, aí comecei a ir na igreja, fui lá na igreja que eu me batizei aí, aí tô conseguindo dormir melhor, escuto as palavras lá, o cara tá ensinando como não colocar isso pra dentro de você, a tirar isso de lado, igual o ensinamento, tudo que tem na rua, quando chega dentro de casa, deixa lá suas coisas, você dentro de casa é outra coisa, é família. Aí, comecei a limpar um pouco isso dentro de mim, mentalmente, né?

 

P/1 – E aí, voltando agora na relação com o seu pai, você se lembra do seu pai contar histórias que ele viveu na rua como taxista? Porque são profissões que têm similaridades, né, a que você tem hoje e a que seu pai teve. Você lembra dele contar alguma história que ele se envolveu na rua andando por São Paulo, sendo taxista?

 

R – Ele não contava, o meu pai, entendeu, mas o meu pai, ele trabalhava só à noite. Eu, sei lá, eu trabalhei uns dois anos à noite quando era época de gráfica e você trocar o dia pela noite fica meio… fica fora de si, entendeu, você quer ganhar um pouquinho do dia, um pouquinho da noite e você não fica normal. Então, acho que deve ter batido só pinos nele e ele ficava agressivo, ele era mais velho na época, então por isso que eu acho que ele era meio violento. Ele chegava em casa, ele gostava de ver as coisas todas em ordem, se tivesse alguma coisa bagunçada, ele já saía falando… então, o meu pai era muito certinho com as coisas. Aí, qualquer coisinha ele se irritava, eu acho que era do trânsito, entendeu? Igual a gente motoboy, pega muita poluição, tudo que vem, nós pega, eu chego à noite, o nariz tá preto, a cara tá preta por causa da poluição, o Controlar parou aí também, tá prejudicando muito a gente, pulmão, tá tudo… tem noite que eu tenho que chupar uma bala Halls para dar uma aliviada no pulmão, porque tá pesado.

 

P/1 – A agressividade do seu pai, isso deve ter sido alguma coisa que te marcou.

 

R – Marcou muito.

 

P/1 – Qual que é a pior lembrança que você tem disso?

 

R – A pior lembrança foi o dia em que o meu irmão falou: “Hoje você não vai bater mais na minha mãe, se quiser bate em mim”, meu irmão foi para cima dele. Aí depois desse dia, ele nunca mais bateu na minha mãe, meu irmão peitou ele. Aí foi um bafafá danado, ele também peitou o meu irmão, meu irmão acho que já tinha mais de dezoito anos, aquele dia foi complicado.

 

P/1 – E você nessa história, estava onde?

 

R – Eu tava trancado dentro do quarto com medo, eu era pequeno. Era pequeno, meu irmão é mais velho, eu acho que eu tinha quatorze, treze. Tava trancado no quarto com medo das violências que tinha quando a gente era criança. Era bem…

 

P/1 – E aí, você foi trabalhar como office-boy nessa empresa de capas. Foi trabalhar na rua e com carro. E começou a crescer lá dentro, conta como é que foi que você foi crescendo, você ia distribuir as capas e continuou trabalhando nessa mesma empresa?

 

R – Então, um dia lá foi o retrovisor do carro… também cobria até o retrovisor e foi sem o retrovisor, entendeu? Aí, eu falei: “Pô, foi sem o retrovisor. Tem como levar lá na capa, o cara gostou da capa, mas ele quer hoje e se não for com o retrovisor, ele não quer”, aí eu voltei sem pegar o cheque, fui lá na fábrica, pegamos um carro com um rapaz que tava lá, colocamos os retrovisores que eram umas capinhas assim, cortou, pôs o retrovisor, levamos para o cara lá para não perder o cliente. Aí depois desse dia, o patrão viu e falou: “Não, você é um cara diferenciado, porque você viu um negócio aí que a gente nunca ligou”, porque a capa era reta assim, sabe, e ele queria com o negocinho no retrovisor. Aí depois desse dia que começou a fazer com o chifrinho lá, que era só um pedacinho do retrovisor que ele queria, porque senão ficava muito assim, né, e ficava voando. Aí, ele falou: “Vou dar oportunidade para você dentro da fábrica”. Aí, eu entrei dentro da fábrica e comecei a fazer medidas, cortar pano, esse negócio e tal. Aí, quando precisava, eu tinha calhambeque, sabe esses carros que são diferentes que não têm capa? Eu ia lá medir, tirava medida, tal, levava uns panos para ver a cor do pano que o cara queria, tinham três tipos de pano, preto, cinza e um outro camuflado e fui crescendo lá dentro da firma, até um dia que eu parti para outra, né?

 

P/1 – Nessa época, você já era um pouco maior, então, você já podia sair de casa, etc. Como que era a sua vida fora do trabalho na sua juventude? O quê que você frequentava aqui em São Paulo, o quê que você gostava de fazer?

 

R – Eu gostava de fazer esporte, aquela época era bicicross, sabe? Tinha freestyle, bicicross, eu era fascinado por isso aí do esporte. Aí, eu montei uma bicicletinha e corria, eu corria de bicicross, ganhei umas medalhinhas e tal e tinha freestyle também. Aí, o meu primo morava aqui na João Dias, Granja Julieta aqui, tinha muito menino que competia e a gente viajava, alugava ônibus e viajava pra fora, Catanduva, viajava pra fora para competir, trazia uns troféus, tinha uma galerinha lá boa. Aí, no decorrer desse tempo aí, tinha até o Ueda que tá competindo até hoje que andava com nós, ele pediu para o pai dele, ele tinha uma garagem assim, pediu para o pai dele fazer um half na garagem da casa dele, porque ele não tinha espaço, ele era fissurado o menino. Aí, o pai dele fez, quebrou a garagem dele, fez um half para o menino, para andar de bicicleta e de skate esse menino, o japonesinho e colocava os carros no half dele porque não tinha lugar para guardar os carros, para satisfazer o filho. Isso me marcou muito, falei: “Nossa, seu pai fez isso por você?”.

 

P/1 – E você morava no mesmo lugar ainda? Ali perto da 23?

 

R – Perto da 23.

 

P/1 – Como que era o seu bairro nessa época? Descreve ele para mim, como que você se lembra dele?

 

R – Era muito violento, era uma esquina assim, com umas duas casas antigas, acho que tombamento histórico e o pessoal invadiu e tinha muita malandragem lá dentro, muita coisa, meu pai não deixava a gente sair de casa. E era uma esquina, a gente tinha que passar ali para ir para a escola, passar ali para ir para a padaria, e a gente tinha medo de passar ali, então, a gente não saía de casa, a gente ficava ali, acuado.

 

P/1 – Mas me fala um pouquinho mais, essas duas casas, como é que foi? Foi invadido? O que acontecia lá?

 

R – Elas eram casas antigas, hoje já foi demolido, bem ali na 23 de Maio onde foi demolido, ali, tem uns arcos, assim, se você passar na 23 de Maio, assim, chama Rua Jandaia, é atrás do Cine Paramount, ali para trás, você passa agora, você vê uns arcos de tijolinho assim, segurando a Rua Jandaia, ali antes era tudo casa, foi demolido. Hoje já não tem mais.

 

P/1 – Mas o quê? O pessoal invadiu? Como é que foi isso?

 

R – Invadiu as casas, estava fechado como tombamento histórico, aí a turma invadiu e ficou morando anos e anos. Ficou uns quinze, dez anos lá morando, até demolirem tudo.

 

P/1 – Mas o quê que tinha de malandragem que deixava vocês com medo? Ou era só porque vocês eram crianças e ficavam…

 

R – Uma vez, tinham uns meninos que andavam armados, assaltavam, aí do lado assim da minha casa tinha uma casa de travestis também, que eles alugaram que era violento. Aí, rolava muita droga à noite, nós ficava vendo pela janela, mas a gente tinha medo de se identificar. Aí, ele pegou e saiu com a arma assim e deu uns tiros, aí chamaram a Rota para ele…

 

P/1 – Quem que é ele?

 

R – Um rapaz que deu uns tiros lá que é filho da dona da casa, sabe, aí os travestis estavam brigando e ele deu uns tiros no cara lá, saiu pra fora e deu uns tiros, aí pegou e chamaram a Rota para ele, aí veio a Rota lá e o estacionamento do meu pai ficava bem no meio, sabe? Eles pularam… acho que tava dentro da caixa d’água, aí a Rota já tinha saído, já tinha ido embora, ele pulou lá por trás, pegou uns garrafão, que tinha um ferro velho no final do estacionamento, ele pegou uns garrafão de vinho, jogou bem alto assim, caiu bem em cima da Rota assim, estourou, afundou o teto da Rota. Aí, os caras pegou o carro da Rota, saiu cantando pneu e foi embora, voltou um monte de polícia lá. Era meio violento aquela época, eles punham a polícia pra correr naquela época.

 

P/1 – E o que aconteceu no fim dessa história? A polícia voltou e aí?

 

R – Voltou, invadiram a casa, levaram um monte de travestis, tal e o rapaz mesmo não levou. Esse moleque era… esse moleque era muito violento, esse menino aí…

 

P/1 – Mas o estacionamento era do seu pai e o ferro velho também?

 

R – Era, o estacionamento era também e as duas casas pra cá, tinha uma casa dos travestis, depois começavam as casas ruins, que a gente tinha medo, entendeu, que era tudo violento.

 

P/1 – Entendi. E namorada nessa época? Essa aí, que você já estava trabalhando lá na fábrica de carros, você lembra da primeira namorada? Como é que foi?

 

R – Eu vim assim, arrumar namorada, que nem, depois nós saímos de lá, né, que demoliu tudo, a prefeitura mandou demolir tudo por causa dessas casas aí, que não conseguia tirar, tal, aí demoliu e fez tudo praça. Aí depois, nós fomos morar aqui pra zona leste. Aí, na zona leste nós ficamos mais soltos, bairro, né, mais solto. Aí, já começou a namorar, já tinha o serviço, aí já começou a namorar, eu conheci uma menina, casei, fiquei uns sete anos com ela, fiz um filho, né?

 

P/1 – Espera aí, como é que foi essa história de demolir a sua casa?

 

R – Então, junto dessa casa também dos travestis do lado com as outras duas que estavam… as casas estavam irrecuperáveis, era tudo de madeira dentro, já… aí quando eles fizeram a demolição de lá, já fizeram o planejamento para demolir tudo, que ia virar tudo praça. Aí, já pagou uma parte para o meu pai, falou que ia ser tudo na demolição, que não sei o que, meu pai também não concordou com os advogados, ficou um tempo, ficou um ano rolando isso, sabe? Aí, meu pai aceitou pegar uma parte em dinheiro, não sei o que, aí compramos lá na zona leste, onde nós estamos hoje. Aí, nós acabamos saindo aqui do centro para ir para a zona leste.

 

P/1 – Mas teve esse problema de advogado, tal, mas depois o seu pai aceitou?

 

R – Aceitou, que o estacionamento e as duas casas eram dele.

 

P/1 – E aí, a casa para onde você mudou é onde você mora até hoje? A mesma casa? Ou não?

 

R – É, para onde nós mudamos, é, a mesma.

 

P/1 – Onde é que você mora hoje?

 

R – Hoje em Guaianazes.

 

P/1 – Então, mas desde aquela época você mora lá?

 

R – Desde aquela época.

 

P/1 – Como é que foi essa mudança? Como é que foi chegar lá? Você disse que tinha mais liberdade, podia brincar na rua ou sair, você já devia ser um pouco mais velho…

 

R – O primeiro dia que eu fui para lá, eu vou falar a verdade para você, meu pai levou a gente de carro, eu nunca tinha ido para lá, meu pai já tinha visto a casa, já tinha arrumado tudo, né, aí eu fui junto com a mudança, não tinha ido ainda. Trabalhava de office-boy já. Meu, chegou no Tatuapé, eu falei: “Nossa, que lugar longe!”, no Tatuapé, que aquela época, a Radial Leste não tinha o Corinthians Itaquera, não tinha aquele complemento da Radial Leste, era tudo por dentro assim, sabe, meu, demorou umas três horas pra chegar lá. Eu: “Meu Deus do céu, que fim de mundo…”, a rua era de barro, não era asfaltado, igual é hoje, eu falei: “Isso aqui é o fim do mundo, meu pai trouxe a gente pra cá.” “Pelo menos isso aqui vai ser nosso, o que deu para comprar, por enquanto, provisório”, e esse provisório foi até hoje. Aí, lá evoluiu, nós acabamos ficando lá. Aí, falaram que ia passar o metrô, Itaquera ia chegar até Guaianazes, falei: “As casas vai valorizar agora, espera o metrô chegar em Guaianazes, nós vende as casas e volta para o centro de novo”. Aí, não chegou o metrô em Itaquera, chegou até lá em Guaianazes, aí fizeram o metrô chegar até Itaquera e não foi até Guaianazes, aí o que aconteceu? Desvalorizou tudo de novo, aí quebraram tudo, colocaram os fiozinhos do trem e colocaram trem até lá, que vai até o Brás, tal… e o metrô chegou só até Itaquera, então não valorizou lá então, nós acabamos ficando lá esperando valorizar, não valorizou, nós estamos lá até hoje.

 

P/1 – Mas como é que era lá? Rua de terra, quando você chegou?

 

R – Chegamos lá, era rua de terra, para o caminhão chegar lá, ele atolou, nós tivemos que subir a mudança no braço, caminhão atolou, era feio, não tinha muro a casa. As casas eram tudo novas assim, de bairro, você que tinha que fazer o muro e o portão. Era tipo, só as casas, assim, sabe? Divididas assim em rua, tudo, calçada, mas não tinha asfalto. Aí, quando chovia, era uma subida assim, você não conseguia subir com o caminhão, era feio. Aí depois de um bom tempo, depois de um ano, oito meses, fizeram asfalto, aí melhorou.

 

P/1 – E o quê que você fazia lá na sua hora de lazer?

 

R – Lá? Então, eu tinha bicicleta, né, minha bicicletinha, minha companheira. Aí, eu comecei a dar umas bandas lá, comecei a conhecer a vizinhança, tinham uns meninos que andavam, corria de bicicleta, eu comecei a me envolver com eles, aí me envolvi também com o meu primo que corria aqui na João Dias, né, perto da Santo Amaro, aí de vez em quando, eu vinha para cá. Eu levava a bicicleta para o serviço, que eu trabalhava na Saúde, aí levava a bicicleta para a Saúde, trabalhava lá até meio-dia no sábado e de lá, eu já ia para o clube, ali para o Ibirapuera que tem umas pistas de bicicross, lá treinar e de lá, eu vinha embora. Colocava a bicicleta dentro do metrô, tirava a roda, naquela época podia, não sei se pode ainda, tirava a roda da frente, podia levar a bicicleta no metrô…

 

P/1 – Mas isso, você já tava na gráfica?

 

R – Já tava na gráfica.

 

P/1 – Foi um pouco depois?

 

R – Foi depois.

 

P/1 – Antes disso, você ainda tava na fábrica, lá. Onde que ficava essa fábrica, a das capas?

 

R – A fábrica das capas? Então, ficava na Amaral Gurgel.

 

P/1 – Como é que você fazia para ir lá de Guaianazes até a Amaral Gurgel?

 

R – Naquela época, eu pegava um pedacinho… tinha o Jardim São Paulo, né, ponto final. Ele fazia todo trajeto, era um ônibus que quebrava até um galho, que ia até o Parque Dom Pedro. No Parque Dom Pedro, nós pegávamos o metrô, ou então, descia no Tatuapé, o metrô tinha até o Tatuapé naquela época, não tinha até Itaquera, era até Tatuapé, descia no Tatuapé e ia até o centro na Praça da República. Descia na Praça da República e é do lado da Amaral Gurgel, ali. Ia a pé.

 

P/1 – E depois você saiu dessa fábrica e foi para a gráfica, como é que foi essa mudança?

 

R – Então…

 

P/1 – Quantos anos você tinha, mais ou menos?

 

R – Ali eu já tinha uns dezesseis para dezessete e eu conheci esse menino, um colega meu de bicicleta, que eu conheci na rua, ele trabalhava na gráfica. Eu falei: “Tô tentando mudar de ramo, para eu dar uma melhorada, ganhar um pouquinho mais", ele falou: “Os caras lá pagam melhor, o piso lá da gráfica é melhor”, eu acho que era 300 cruzeiros na época, eu ganhava 150, um salário mínimo, ”Só o piso lá é 300”, aí eu falei: “Pô, então, se eu ganhar o piso e fizer um por cima na máquina, alguma coisa assim, melhor, eu posso melhorar”. Aí, entrei de ajudante, fiquei lá de ajudante no acabamento dos papeis, fazer caderno, essa coisa toda…

 

P/1 – Como é que era o seu trabalho? Descreve ele para mim.

 

R – Intercalava nota fiscal, sabe? Número um, número dois, tinha até a quatro, quatro vias, né, intercalava uma por uma, era manual. Hoje tem máquina que faz isso, mas antes era tudo manual, folha por folha, você fazia bloquinho por bloquinho manual, era intercalação que chamava isso aí. Aí, passei para área de encadernação, né, furar, fazer encadernação. Aí depois, arrumei um biquinho lá na máquina, ajudante da máquina. Quando vi a máquina, pra mim, eu sempre me dei bem mexendo com máquinas, eu falei: “Putz, essa máquina é coisa de louco, eu preciso aprender essa máquina”, aí o cara falou: “Quer aprender? Tô precisando de um ajudante aí, fica com nós, aí, para você dar uma força aí para mim, no óleo, vamos ensinando você”, eu peguei tão rápido, o cara mandou ele embora, um rapaz lá que tava dando problema que o cara bebia, sabe, ia um dia, faltava três, tal e acabou me deixando na máquina no lugar dele. Mandou o cara embora e eu acabei ficando na máquina. E nessa coisa, eu fiquei como ajudante, entendeu? Os caras colocavam a chapa, tal e eu só tocava a máquina, ficava lá só… aí foi indo, foi indo, ele foi pegando confiança em mim, “Pô, será que não dá para você me deixar efetivo lá? Eu gostei. Me dá a oportunidade”, ele já tinha colocado anúncio no jornal para pegar um cara e eu ia voltar de ajudante de novo, aí fiquei mó triste, aí os caras: “Vai lá e fala com ele, lá, vê se ele efetiva você, você tá tocando bem a máquina aí.” E era só tiragem grande e na época, fazia envelope box, uns laranjas, não sei se você lembra para envelopar o dinheiro para colocar no caixa, eram uns laranjas antes. A gente fazia aquilo lá. E ficava rodando direto lá, então, não tinha muito acerto, entendeu? Aí, eu fiquei lá, ficava até mais tarde, tinha hora extra, naquela época pagava hora extra, agora é… como que é?

 

P/1 – Banco de horas?

 

R – Banco de horas, antes era hora extra, eu estourava na hora extra. Aí, me incentivou isso, entendeu? Aí, eu fui, fui… “Quer saber? Eu vou dar uma continuidade”, e subi lá no escritório, só tava ele e o pai dele, seu Waldemar. O Eugenio e o seu Waldemar. Falei: “Tô vendo que vocês colocaram anúncio aí no jornal, fiquei triste, pô, tô lá me desenvolvendo…”, ele falou: “Não, você tá mesmo desenvolvendo legal, mas você não tá muito maduro ainda, Jefferson, tenho medo de você colocar a mão na máquina, precisa ter responsabilidade, nós precisamos de um profissional, vai entrar um serviço aí mais graduado, precisamos de um profissional”. Aí, o pai dele: “Não, deixa ele lá na máquina, eu seguro”, o pai dele falou. Aí, os outros serviços mais graduados passava para os outros e eu fazia só aquele. Aí, comecei a passar para outras máquinas que precisava virar à noite, eu virava à noite, sabe, para fazer um agrado para eles e foi… fui pegando o jeito legal, virava à noite, aí eles gostaram. E me efetivaram para a impressora. Aí, a gráfica foi crescendo, foi crescendo, tem até as fotos aí das máquinas e eu fui… quando eles compravam uma máquina nova, vem um técnico do Japão, vem um técnico do Brasil, uma intérprete, tudo, para te ensinar, entendeu, como é adaptar, fazer a função e é tudo bem mais fácil que o manual, o negócio faz tudo sozinho. Nós pensamos que era bicho de sete cabeças, não vamos conseguir fazer, negócio eletrônico, isso aí não é para nós, parece que é um monstro, mas é um negócio para facilitar, para ajudar a gente. A máquina super veloz, rodava quinze mil por hora, você não via nem cair a folha, assim, a mesa enchia que era coisa de louco. Aí, aquela máquina foi e revolucionou a gráfica, porque fazia aquela quantidade de milhão de envelopes, tal, depois ele comprou uma outra máquina que fechava só envelope. Ele arrumou uma briga, o Doutor Eugenio arrumou uma briga com um cara que também chamava Eugenio que tem uma outra gráfica na Casa Verde, a gráfica dele é muito grande e você sabe que essa luta de comércio aí você acaba pegando os clientes do cara, porque você faz preço; você acaba pegando o cliente do cara sem saber e ele pegou aquele Ticket Refeição, não sei se você lembra, que era papel, hoje é cartão. Era um papelzinho, um talãozinho, pegou aquele ticket para fazer e o Doutor Eugenio que era da Casa Verde, ele era da Saúde, falou para ele: “Se você não largar esse talãozinho que é meu, que eu sempre faço, tô fazendo há uns cinco, seis anos, já, eu vou fazer todo o seu serviço de graça, eu vou quebrar a sua gráfica”. Aí, eu lembro que o motorista que falou isso para mim, foi lá buscar uma coisa e ouviu a discussão dos dois. Aí, ele falou: “Tudo bem, vou largar”, mesmo assim, ficou batendo o pé em cima dele, ficou perseguindo ele. Aí, o quê que ele fez? Ele já tava na área de envelopes, aí ele viajou lá, não sei se foi para Itália, onde é que ele foi, e trouxe uma máquina de envelope, mas não tinha operador para a máquina, a máquina era muito estranha, e trouxe a máquina como sucata, não trouxe a máquina… ele comprou uma máquina boa lá, usada e trouxe como sucata, entendeu, tira a plaquetinha da máquina e trouxe como sucata pra cá. Chegou e montou a máquina, limpamos tudo, compramos esmeril, limpamos, pintamos, mandou cromar, chamou um mecânico para a máquina, e operador? Onde é que nós íamos arrumar operador para aquilo lá? A máquina super veloz, ela entra bobina grande assim da largura de um envelope, esse planalto aí, esse envelope comum e sai uma quantidade enorme, ela corta, tem a faca, ela corta e vai indo, um monte de buraco assim, ela sai lá do outro lado e nas caixas assim, já, naquelas caixinhas de envelope, sabe, que vem mil? É uma produção que você não tem noção! Aí, ele achou um cara lá que é de Avaré, o cara tava parado lá há um tempão, sabia mexer com a máquina, achou o cara lá e tem, essas máquinas aqui também. Aí, achou esse cara, esse cara era super exigente, ninguém passava por cima dele, ninguém. Uma vez, o cara pegou e falou assim: “Jefferson, vai lixar a máquina, depois você pode começar a pintar, vai lá na casa de tinta, pega uma tinta e já começa a pintar” “Que cor o senhor quer?” “Cinza”, aí fomos pegar a tinta no portão lá, já tava pintando, ele: “Não, porque essa máquina tem que ser da cor original, tem que mandar fazer a cor da tinta, é um cinza claro…”, e brigou: “Então, você vai lá e fala com o Doutor Eugenio, que ele mandou pôr essa tinta ai” e brigaram, aí começaram a brigar, desentender, aí ficou um tempão, ele ameaçava de ir embora, pedia aumento, ele não dava, aí ele ia embora mesmo, ficava uns três dias fora, dava aumento para o cara, nossa, só sei que o cara ficou com o salário, sabe, de médico e era operador. Ele falou que não aguentou mais o cara, aí ele arrumou um outro operador que era ajudante, entrou como ajudante e esse cara conhecia outros caras que já trabalharam também na área e arrumou um cara que era bom igual a ele, aí acabou mandando ele embora. Esse cara tomou a liderança, né, dessas máquinas, onde… aí, ele acabou comprando mais, comprando mais e hoje, o cara estoura fazendo envelopes, ele mudou a história da gráfica, entendeu? Por causa desse problema que o Eugenio ficou perseguindo ele. Continuou perseguindo ele no mercado, ele não aguentou, porque ele era pequeno, ele comprou máquina grande, mas se você não tem serviço, você não tem como pagar, entendeu? Aí, ele entrou na área de envelopes de cabeça, mudou totalmente.

 

P/1 – Você ficou quantos anos lá nessa gráfica?

 

R – Eu fiquei quinze anos lá.

 

P/1 – Ah, você trabalhou muito tempo lá.

 

R – Muito tempo…

 

P/1 – Agora em paralelo, você conheceu a sua primeira namorada lá, que virou sua primeira esposa. Como é que você conheceu ela?

 

R – Não foi bem um conheceu, nós estávamos assim, numa rodinha de amigos, aí tinha um menino lá que eu nem lembro o nome dele, acho que era… não lembro o nome dele, um amigo meu lá, que não mora mais lá, e ele falou: “Tem uma menina aí na redondeza que ela deve sair com um cara lá no centro, que ninguém consegue sair com ela aqui” e eu era super curioso com essas coisas, como é que ninguém consegue sair com ela? Vou tentar, mano, vou conseguir. Aí, fui lá, fiquei fuçando, fiquei no portão do prédio dela, comecei a perguntar para as colegas: “Me apresenta ela”, não sei o que, aí foi indo, fui fazendo amizade, tal, comecei a buscar ela na escola, no serviço, aí já naquela época, eu consegui comprar uma motinho, eu ia buscar ela no serviço, saía do meu serviço, já buscava ela, ela mudou de serviço, que ela trabalhava na Kopenhagen lá no centro, mudou de lá, foi no Shopping Ibirapuera, não, Shopping Aricanduva, aí eu saía do serviço, ia para o Shopping Aricanduva e ficava esperando ela até às onze horas da noite, para sair, para eu levar ela, sabe? Acabei gostando dela mesma, acabei namorando e casei, foi um negócio assim, falei: “Ninguém consegue então você é a mulher da minha vida”, e eu acabei conquistando e ficou, eu não sei como é que eu conquistei ela, entendeu? Foi um dia na praia lá, um dia na praia, aconteceu lá, aí aquele dia deve ter nascido o meu filho, lá, o Guilherme, que ela apareceu grávida, depois de um tempo lá, um tempinho, ela apareceu grávida, falei: “Então, foi aquele dia na praia que nós pediu para sua mãe, lá…”, eu fui lá pedir para a mãe dela para ela deixar ir para a praia. Aí, aconteceu, ela engravidou, eu falei: “Agora não tem jeito, vamos… tem que casar”.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu acho que eu tinha dezessete pra dezoito, já. Ou tinha vinte, um negócio assim. Era bem novo. Minha primeira moto, eu acho que eu não tinha um ano de moto. Era bem novo. Ela era nova também.

 

P/1 – O quê que essa moto, a sua primeira moto te proporcionou, assim, de especial? Por exemplo, você tava contando que você dava carona para a pessoa que virou sua esposa depois, né? Como é que era a sua relação com a moto? O quê que você costumava fazer?

 

R – Que nem, eu fazia freestyle de bicicleta, de skate, essas coisas, então eu passei a fazer com a moto também, entendeu? Eu não fazia nem para fazer bonito, eu gostava de viver aventura, fazia trilha assim, no final lá de onde eu moro, pra Guaianazes, tem a trilha das sete torres, entendeu? Então, você entra lá no meio do mato de moto, é uma aventura, uma paisagem maravilhosa, cachoeira, tem um monte de coisa, umas matas virgens, tem umas trilhazinhas lá que você passa só o pneu da moto assim e lá em baixo é barranco. Um negócio assim, meio…

 

P/1 – Isso é onde?

 

R – É na trilha das torres que chama, Trilha das Sete Cruzes…

 

P/1 – Mas é município de São Paulo?

 

R – Tipo Salesópolis, naqueles lados, bem no fundão, perto de Mogi das Cruzes, aqueles lados, aí você se enfiava no mato, saía no outro dia de lá, fazendo trilha. Aí também, nós fizemos uma pista lá de motocross que chama beco, né, na época. O Pateta fez, que é o cara que fazia romaria, todo ano tem essa romaria aí de moto, mais de um milhão de motos e como eles soltavam tudo de uma vez, assim, numa boiada, não segurava gradualmente, sabe, essa galera vai tal hora, essa galera vai tal hora, ia tudo de uma vez, então um batia no outro, caía, passava por cima, morria, entendeu? Aí, teve até um cara que a gente tava em alta velocidade assim, naquela época, nós empinávamos, né, andava com aqueles caras, o Ratinho, o Dentinho que é da Associação da Honda, esses meninos aí que hoje trabalham com evento sério para a Honda, para a Yamaha. Nessa época, nós era tudo moleque, agora eles são profissionais. Chegou até um cara, não sei se você lembra daquela moto, sete galo, uma potentona, grandona da Honda? Lançou na época, andava uns 300 por hora aquela moto, era muito veloz. Aí, o cara vinha assim, a milhão, bateu no outro e aí, caiu do outro lado da pista da Dutra, que a Dutra que ia para lá, né, Aparecida do Norte, para essa romaria e bateu no outro carro e o cara levou ele ao contrário assim. Nossa, esse foi o acidente mais feio que eu vi na vida.

 

P/1 – Você viu?

 

R – Estraçalhou assim a moto e o cara. Nossa, a moto e o cara voou para o outro lado da pista e o outro carro pegou de frente, voou uns cem metros pra frente, assim, capotando e os dois capotando, o carro e a moto, esse acho que foi o acidente mais feio. O outro também teve, que os meninos queriam até bater foto, filmar. Uma menina que tava drogada, passou à noite… naquela época, tinha uns companheiros que usava, tinha uns que não usavam droga, né, e esse daí tinha o Liu, ele trabalhava no centro, ele trabalhava com retífica de pistão, fazia motor, essas coisas e ele usava droga, injetava, tudo e ele tinha uma menina também que usava. Aí, o que acontece? Passaram à noite, nós passamos à noite na balada esperando aquela hora para ir na romaria, era uma ansiedade, só que ela tava muito mal, ela tava mais desligada do que ativa, já, muita cerveja, droga e coisa e ela acabou… apagou, uma hora nós estava com ela, ela apagou, de repente, ela caiu da moto. Nisso, vinha uma carreta atrás, passou todos os pneus em cima dela. Aí, ficou assim, o couro da cabeça, sabe? Nossa, um negócio muito feio. Aí, os meninos queriam bater foto, os caras começaram a bater foto, um colega nosso lá, nossa, e aconteceu muito acidente…

 

P/1 – Essa romaria, fala um pouquinho melhor dela. O quê que era esse evento? Como é que era?

 

R – Esse evento, o Pateta, ele fez tipo assim, de uma promessa, entendeu? Ele tem o Moto Clube Abutres, não sei se você já ouviu falar? Já passou bastante na televisão, esse Moto Clube Abutres, tem o Trovão que também trabalha lá, acho que na TVS, lá, Trovão. Aí, ele fez uma promessa que todo ano, se ele conseguisse alcançar o que ele queria, ele ia fazer essa romaria para pagar a promessa dele e daí, começou essa romaria, começou a ir com cem motos, duzentas motos, foi crescendo, mil motos, um milhão de motos e o negócio saiu fora do controle, entendeu? E todo ano tinham, todo mundo ficava esperando, todo mundo tava lá às seis horas da manhã pra sair com aquele bando e tudo, entendeu? E onde tinha muito acidente. Aí, chegava lá em Aparecida do Norte, passava em vários ranchos, as paradas que a gente tinha, sabe, o sítio, tomava leite lá da vaca com chocolate, tal e chegava na Aparecida, o padre estava esperando nós pra fazer uma missa e a missa era lá fora, porque não cabia as motos lá dentro… era no pátio, já estava esperando nós lá, com a missa lá no pátio, lá fora. Aí, mandava acelerar as motos para abençoar as motos e nós vinha tudo alegre, voltava tudo alegre, tava abençoadinho. Isso encantou os motoqueiros que não tinha ninguém um cara assim que via… isso aí é tipo um carinho com os motoqueiros, que não tem hoje, entendeu, o motoqueiro sai aí a milhão, fazendo trezentos por hora, quatrocentos por hora porque não tem outra coisa. O cara compra uma moto que roda quatrocentos, seiscentos por hora, ele não tem o que fazer, é a velocidade e velocidade, se ele tivesse que andar assim, desfilasse, que mostrasse a tecnologia da moto, igual o coiso tá fazendo, comparar com outras motos, com outras marcas, outro tipo de evento, igual o megacycle, não sei se você já ouviu falar de megacycle? Megacycle é um encontro que tem todo ano também de moto, que vem moto de Daytona, aqueles caras, os riders lá, eles põem a moto dentro do avião e trazem para cá para irem nesse evento, tem moto de madeira, tem tudo quanto é tipo de coisa de moto, tem mulher brigando na lama. O mais bonito que tem é em Serra Negra que eles fazem todo ano, acho que é outubro, que eles fazem em Caraguá também, é um evento só para moto, é enorme, eles ficam fritando moto ali. Então, eles queimam a energia deles tudo ali. Então, eles não vão queimar na velocidade lá na estrada, entendeu? Eles até queimam para chegar lá, mas lá, eles vão estourar toda a energia deles ali, entendeu? Então, vão voltar cansados, vão voltar de boa, tranquilos, igual mesmo aconteceu comigo. Eu fui lá nessa época lá, ficamos três dias lá dormindo na praça, porque pousadas estavam todas lotadas, barraca, nós não levamos, então ficamos dormindo no banco. Passa à noite, dá uma cochiladinha no banco e começa de novo, a beber, um monte de coisa, distrair, todos os amigos lá, trio elétrico e passa, e tem um monte de evento, um monte de barraquinha fazendo promoção, dando pneu, um monte de coisa, então, muito… Aí, as meninas da Honda lavando as motos, um monte de coisa de evento, uma empresa grande lá, patrocinando. Aí, tem um churrasco, aí pega um frigorífico grande, a Skol, uma coisa também, ela patrocina umas duas, três… latinhas de cerveja, frigorífico grande que dá a carne, aí são uns tambor assim de carne que o prefeito também banca para chamar a atenção da cidade, para o turismo crescer na cidade. Aí, entra o prefeito também junto, é um negócio grande, não é um negócio pequeno e ele se envolveu, a promessa dele acho que era isso, do Pateta, dessa romaria, porque ela gosta muito de moto, é envolvidão e tem a sede dele lá na Vila Ré até hoje, tem uma sede, quando os caras vêm de fora, tem lugar para dormir lá, tem tudo, entendeu?

 

P/1 – Agora, antes de você se envolver mais com moto, depois da gráfica, você foi trabalhar na parte de turismo com van, foi isso?

 

R – É…

 

P/1 – Como é que foi isso? Como é que você passou de uma coisa pra outra?

 

R – Então, tinha que trabalhar e tinha saído da gráfica e fui tentar montar uma lan house na minha casa. No bairro, para você montar essa lan house, um colega meu foi lá, montou todas as coisas, mas não sabia mexer no computador direito e a molecada sabia, então, aprendi com a molecada na rua, comprei lá uns dez computadores, falei: “Vou ganhar dinheiro com isso daqui por enquanto que tá a febre agora”, fui lá, tentei, fiquei um ano, só gastei dinheiro com isso, o negócio só trocava figurinha, não dava dinheiro, fiz de tudo ali. Nós fazia documento para fora, de cara que vinha pintar prédio lá, nós fazia documento dos caras lá, ficava lá altas horas, de madrugada lá, alugava a máquina, né, naquela época nem todo mundo tinha computador em casa e internet, então ia todo mundo pra lá, fazia fila, era a maior febre. Aí, passou um tempo, eu falei: “Vou deixar a minha sobrinha aqui”, que a minha sobrinha já tinha inteirado, ela não trabalhava ainda, eu falei: “Vou arrumar uma outra atividade…”, aí o quê que eu fiz? O muro da minha casa era baixo, minha mãe ia ficar lá com a minha sobrinha, deixei o muro bem alto para não correr o risco de alguém entrar lá e pegar elas e fui me aventurar em outra coisa. Aí, tinha uns amigos que trabalhavam na van: “Jefferson tira carta D aí que você pode pilotar a minha van”, falei: “Que legal, e viaja pra todo lado?” “Viaja”, aí ele me deu a oportunidade sem eu ter a carta, só tinha carta de carro, de van eu não tinha, que é a carta D. Aí, ele me deu a oportunidade, eu comecei e falei: “Vou tirar a carta, eu gostei”, aí tinha viagem para tudo quanto era lado, para Minas, Sorocaba e se enfiava aí, Ribeirão Preto, ia para tudo quanto é lado. Aí depois, eu peguei uma outra empresa lá que eles me indicaram, o cara tinha uns contratos com umas empresas de eventos, aí eu peguei um evento uma vez que foi para Ribeirão Preto e fiquei lá quinze dias, uma empresa que fazia quinze eventos com escola particular e quinze eventos na escola pública, então, era meio a meio. Então, nós levava lá uma quantidade de Toddynho debaixo da van, tinha um porta-malas embaixo cheio de Toddynho par distribuir para as crianças, que era só prezinho, tal, não era para a escola inteira, só… e um menino vestido de Toddynho, uma caixa de Toddynho assim, tipo um tapete, sabe, tipo urso só que quadrado de Toddynho e ele dava umas piruetas, o cara gostou dele, trabalhava na rua, no farol. E a mãe dele trabalhava de faxineira nessa agência: “Nós estamos montando um quadro aqui, preciso de um moleque assim”, aí foram uns trezentos moleques lá e os moleques davam pirueta, falavam bem e tudo, mas não se interagiam com o personagem. E ele tava lá, ele é meio ligeirinho da rua, sabe esses moleques que correm muito, pirueta, tem que fazer um agrado em segundos para o cara comprar a balinha dele no farol, sabe? A mãe dele falou assim: “Tem um rapaz lá que não tá dando certo lá no coiso, você quer tentar fazer? Eu conheço na casa do patrão, vou falar com ele, ver se ele te encaixa”, e acabou encaixando mesmo o menino da rua lá. O moleque foi lá, quando deu uma pirueta lá, o cara: “Esse é o cara”, porque agradou e o jeitinho dele, com a caixa, mexendo. Ele falou: “Aqui, eu tive oportunidade, eu saí da rua. Eu ganho menos aqui, mas eu sou registrado. Ganhava mais no farol, mas aqui eu sou registrado.” Ele contando essa história para mim, eu era o motorista na época. E as meninas doidonas, as atrizes que falavam, elas comentavam, ia uma organizadora e duas que eram as apresentadoras, entendeu, falava bem do Toddynho, que ele é feito de leite, do leite direto da fazenda, tal, tal, tal e contava a história do Toddynho, que o Toddynho foi inaugurado em tal ano e tem até hoje e tem não sei o que, que é bom para o estômago e é bom para o cabelo… contava uma historinha, né, para agradar as crianças para incentivar a tomar e dava um para cada um para viciar eles a tomar, mais ou menos isso. E nós viajava, e fazia um tour, comecei a viajar com esse pessoal, fazia um tour, fazendo as escolas… uma coisa também que me tocou muito nessa viagem aí, tem uma escola, se não me falha  a memória, acho que é uma escola que chama COC [Curso Oswaldo Cruz], acho que tem uma aqui na Vila Mariana, se eu não me engano, uma das melhores escolas lá de Ribeirão Preto. E tem uma fazenda, eles montaram uma fazenda, uma mini fazenda e  uma mini cidade dentro da escola. Aí, falei: “Os cara é maluco, pra que vai montar uma cidade dentro da escola, mano? E pra que uma vaca dentro da escola?”, aí eu fiquei com o nó na cabeça, não falei, né? Aí, sobrou um tempo lá, veio a diretora e veio um rapaz lá também que deu uma puta cordialidade para nós lá na época, levou nós para dar um rolê na cidade, ficamos quinze dias em Ribeirão Preto fazendo um tour, né? Ela falou: “Sabe pra que tem a vaca aqui na escola? Porque as crianças do prézinho, é só criada em apartamento, não é criada na fazenda, então, eles pensam que o leite era caixinha, não sai da vaca. Então, nós manda apertar a teta da vaca pra incentivar, se você falar que não vem da caixinha, ela te xinga, fala que você é burra, o bagulho sai da caixinha”, pra ela, o leite nascia da caixinha. E outra, eles montaram uma cidade com prefeitura, uma mini prefeitura, mercado, tinha tudo, um pouquinho de cada, padaria, tudo, para eles entenderem o que é uma cidade e andar na cidade, porque eles mesmos não andam na cidade, eles ficam só dentro do apartamento, entendeu? A prefeitura é para isso, tem esses órgãos, e tal. Aqui é o ministério da fazenda que serve para isso, para isso… então, eles tinham esses estudos assim, já entendendo o que era aquilo. Pequeno já, olha o que era o desenvolvimento da escola, para você ver. É um negócio bem bacana, mesmo. Achei muito bem destacado isso aí.

 

P/1 – E os outros trabalhos que você fazia nas empresas de van, aqui em São Paulo? Que tipo de coisa você fazia aqui em São Paulo, nessa época?

 

R – Uma vez, pegamos um pessoal ali em Santana, aquele pessoal da aeronáutica, ali, negócio de guerrilha, sabe? Não sei se você já ouviu falar no negócio de guerrilha que eles fazem no meio do mato? Eu fui lá pegar um pessoal de madrugada para fazer guerrilha no meio do mato, foi para o interior que eles entraram no meio de uma mata fechada lá e eu fiquei com a van esperando eles lá. E os caras voltaram tudo sangrando, entraram dentro da mata fechada, mesmo, sangrando assim, cortados, com os galhos que entrou. Aí, voltaram lá. Tem um tipo de uma maratona dentro do coiso, para subir em árvore, descer de árvore, tem que nadar e um monte de coisa, não cheguei a presenciar, mas os meninos falou que foi doido, os moleque veio tudo cheio de barro e tudo rasgado, tudo cortado dos matos, foi um negócio que eu falei: “Eu não fazia isso aí, não”, eles falaram: “Tem que fazer, tem que ganhar ponto lá, porque senão você… qualquer falha que… se não tiver ponto, você vai preso”, tava falando lá…

 

P/1 – Mas isso, de novo, foi uma viagem que você fez…

 

R – Uma outra viagem.

 

P/1 – Mas e não tinha transporte aqui dentro da própria cidade? Você não andava por São Paulo nessa época em que você trabalhava com van?

 

R – Tinha. Aqui tinha umas linhas aqui que a gente fazia para o Playcenter, a gente levava o pessoal para o Playcenter, Hopi Hari, entendeu? Tinha uma mulher que ela fazia… como é que fala? Para idosos, a área dela era idoso, então, ela ia para Águas de Lindóia, pegava uns quinze idosos, assim, que querem só curtir a vida, já viveu o que tinha que viver, pegava uns idoso lá e ia viajar com os idoso. Aí, chegava lá na cidadezinha, tem uns guias turísticos, aí eu parava lá, já negociava o preço do guia turístico, pagava sei lá, vinte, trinta reais pro guia turístico e ele mostrava toda a cidade, os pontos oriental, as coisas que tinha legal na cidade, os pontos turísticos, teatro, mostrava tudo, shopping, tudo que a mulher achava interessante e falava, ele falava “Tem um ali, vamos lá”, e eu ia dirigindo e passava o dia pra cá e para lá com eles.

 

P/1 – E nesse tempo, você já tinha se separado ou você tava casado?

 

R – Esse tempo eu já tinha, já. Eu fiquei sete anos casado. Aí, eu me separei.

 

P/1 – E continuou morando com a sua mãe?

 

R – Aí, eu fui morar com a minha mãe, né? A casa do lado, aí separou, dei a parte, separamos legalzinho, numa boa, não deu certo…

 

P/1 – E o seu pai?

 

R – Aí depois de um tempo, o meu pai separou da minha mãe também. Depois, eu nunca mais tive contato com o meu pai, meu pai sumiu, nunca mais tentou contato com a família, quis procurar ele, não acho.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É, ele não quis mais ter contato com a família depois que ele separou da minha mãe.

 

P/1 – Isso faz quanto tempo?

 

R – Isso faz vinte anos, mais de vinte anos, ele sumiu. Eu sei que ele tá morando em Itu com a minha prima lá, mas lá, ela esconde ele. Já fizemos campana, tudo lá para achar ele e nós não acha.

 

P/1 – E como é que foi o dia que ele separou? O que foi o estopim para ele separar? Para a sua mãe separar dele?

 

R – Foi assim, eles tinham muita briga, meu pai ficou muito obsoleto e aí, chegou um dia lá, minha mãe falou: “Eu não quero mais”, quando a minha mãe falou nesse dia: “Não quero mais”, eu falei: “Então pai, vê o que é melhor para o senhor e para a mãe, porque nós estamos tudo grande, esse negócio de violência aí, vocês estão velho, uma hora vai bater, vai machucar o outro de verdade”, eles só se empurravam um o outro, não batia, “Vai machucar de verdade, faz uma coisa que é boa para vocês dois”, mas os dois se gostava, sabe? Aí, chegou um dia que a minha mãe falou: “Não quero mais ele, não vou dormir mais com ele”, aí começou a dormir em quarto separado e ficou um negócio, aquela bola de neve pesada, sabe? Aí, ele mesmo foi lá e procurou advogado, que ele já não tava aguentando mais dormir separado de mulher, né, dentro de casa… Aí, ele mesmo procurou advogado, falou que queria separar, aí nós fizemos vaquinha com os irmãos, demos a parte dele e falamos: “Vamos comprar uma casa para o senhor aqui perto, mesmo, pra nós poder ir ver o senhor. Não temos condição financeira muito grande para comprar uma coisa…”, eu acho que ele entendeu que nós queria tirar ele de lá, entendeu? E deixar a minha mãe lá, porque a minha mãe não trabalhava e ele trabalhava. Aí, um tinha que ficar na casa, dar metade para ele… eles mesmos que se entenderam e combinaram isso lá e depois, a gente falou: “A mãe não tem dinheiro, como que ela vai dar a parte dele? Então, vamos juntar os irmãos e ainda vai fazendo a prestação”, que nem o dinheiro a gente tinha também, nós era tudo funcionário. Aí, fomos pagando a prestação. Então, eu acho que com isso, eu acho que ele ficou pensando que nós colocamos ele pra fora, pode ser que seja isso, mas foi um mal entendido, nós não tivemos essa intenção, nós era tudo pequeno, não tinha maldade na cabeça, entendeu, foi uma coisa que o advogado fala, um para cada lado, tem que dividir as partes. Até foi lá o advogado e falou: “Você tem que pagar uma pensão para ela porque ela não trabalha. Você ganha quanto? A metade é dela”, aí a minha mãe nem quis, falou: “Não, se ele resolver separar, eu não quero mais nada com ele, nem nada dele”. Aí foi assim, separou. Aí depois, ele saiu de casa, levou as coisas dele, fomos pagando, quando terminou tudo, nunca mais nós vimos ele, a prestação para pagar a casa dele, nunca mais. O meu irmão tinha uma lotação na época, ele se envolveu na lotação, comprou uma lotação lá, meu irmão viu ele na rua, aí o meu irmão fechou ele para ir falar com ele, ele pegou e subiu a calçada assim e foi embora, depois desse dia, nunca mais vimos ele, nem o meu irmão e nem ninguém, sumiu. Mas ele tá vivo, ainda. Ele fica se escondendo, ele não quer falar mais com nós.

 

P/1 – Deve ser difícil, né?

 

R – É difícil. O cara que te criou, tudo, é o seu pai, você não ter o contato. É a mesma coisa que perder um pai, né, é difícil, bem complicado, mesmo.

 

P/1 – E você foi já lá atrás dele? Como é que é isso?

 

R – Já fui, minhas tias, tudo, fala que ele deve estar morando com essa tal de Tia Otília, aí, que é prima dele, mas sempre que nós vai lá, ela fala que não tá, que não viu e também não dá para ficar muito tempo de campana. Dá para passar uma tarde lá, entendeu? Mas nós não mora lá, mora em São Paulo, para ficar lá em Sarapuí. Já fomos em Sarapuí, Itu, tudo atrás dele, não acha. Tem que esperar a boa vontade dele, um dia, ele vai se tocar e falar: “Não, eu tô com saudades, quero ver meus netos”, aí vai procurar, fazer o quê?

 

P/1 – Isso tem quanto tempo?

 

R – Isso tem uns vinte anos, já. Já tô com 43…

 

P/1 – E por falar em neto, você teve um filho com a sua primeira esposa?

 

R – Eu tive um filho, vai fazer dezoito anos agora em junho.

 

P/1 – Como é que ele se chama?

 

R – Guilherme, já se formou, já.

 

P/1 – E é o seu único filho?

 

R – Meu único filho.

 

P/1 – Agora, vamos chegar na sua profissão de motoboy. Você trabalhou na fábrica, depois foi para a gráfica, depois foi trabalhar na van, aliás, antes de chegar no motoboy, eu me lembro que você conversou comigo de um episódio que você foi buscar uma estrela no aeroporto. Como é que foi isso?

 

R – Ali foi na época em que eu trabalhava com a Marlene Mattos, eu trabalhei com a Xuxa, com a Marlene Mattos, eu trabalhei na Globo…

 

P/1 – Ah então espera aí, eu não sabia desse detalhe. Depois da van, você foi trabalhar na Globo?

 

R – Com carros também, carros, van, aí foi assim, foi crescendo gradualmente as empresas de van, entendeu? Fui saindo de uma, entrando na outra e tal. Aí, eu fui trabalhar na empresa do… esqueci o nome do rapaz, que ele era agregado a Marlene Mattos, trabalhava com a Xuxa e fazia esses eventos grandes, então, todos os eventos grandes que tem em São Paulo é da Marlene Mattos, que era a namorada da Xuxa, não sabia direito… e naquela época, saiu aquela Q7 da Audi, aquelas grandona, tal, aí eles põem aquela gravata, terno, tudo bem arrumadão, sabe, Giorgio Armani, um negocião, pá, parecia gente mesmo, fortalecia, aí chega lá no aeroporto internacional lá e ficava esperando, ia seis, sete carros e ela ia num carro sem identificação na frente, tudo com insulfilm, sabe? Aí, um carro sem identificação porque se alguém for sequestrar ela, não sabe em qual carro que ela tá, entendeu? Aí, ele vinha num carro no meio e todos os carros iguais escoltando ela de lá do aeroporto…

 

P/1 – Isso a Xuxa?

 

R – É, a Xuxa, trazia também… trouxemos a Ivete Sangalo, trouxemos… eu fiz o Charlie Brown, fez a Beyoncé também, fomos buscar a Beyoncé no aeroporto, quais outros artistas? Trouxemos bastante artista.

 

P/1 – E como é que era isso? Como é que faz? Conta pra mim como é que era.

 

R – Então, é tudo por rádio, né, os caras vão se combinando, chegou, desceu voo tal, aí recepção tal espacial, ele tá descendo, entendeu, já tem que ficar tudo preparado e aquelas camisas de rouparia, tudo, segurança e lá também já tá tudo certo, camarim dela. Então, os caras preparam tudo, é uma correria danada. Quando a mulher desce do avião, é uma adrenalina monstro que você sai fora de si, é um negócio… ficam todos os fãs, você tem que tomar cuidado com os fãs para não atropelar os fãs, que ficam batendo nos vidros, é uma coisa de louco. É bem legal o negócio…

 

P/1 – E qual que foi o mais interessante dessas todas que você foi buscar?

 

R – Foi desse show da Beyoncé e da Ivete Sangalo. A Ivete Sangalo abriu o show, né, depois ela entrou. Aí, a Ivete Sangalo foi lá no palco, que foi no Morumbi, ela falou no palco: “Nossa, ela é maior simples, eu fui lá falar com ela e ela é muito legal, vocês vão adorar ela”, aí todo mundo: “Aeee, estamos esperando ela” “Ela é show de bola”, esses bagulhos emociona, ainda mais estar assistindo lá, porque nós estava com as vans lá fora, então, com os carros lá fora e tudo, ficava vendo… aí, nós podia entrar no camarim dela, depois que ela ia pro show, nós podia ficar circulando, passava dentro do camarim, segurança, conhecia todo mundo, pegamos amizade. Aí ficava naquele, só pico legalzão, entendeu? Aí, eu saí mais assim por causa disso aí, mesmo, por causa de pagamento, que chegava no final do mês não tinha pagamento. Aí, tinha esse rapaz aí que morava, vizinho meu lá, que era dono de uma firma de motoboy, chamava Valtão e nós andava desde moleque junto, ele montou essa firma aí andando de motoboy muitos anos, esse tinha muito tempo de motoboy mesmo. Hoje em dia, ele até perdeu a perna, ele perdeu a perna empurrando um rapaz que quebrou na serra a moto e ele subiu empurrando com a perna e deu um estiramento na perna dele, tal de trombose que fala, teve que amputar a perna por causa disso aí.

 

P/1 – Como é que é? Não entendi. Explica de novo.

 

R – Subiu a serra empurrando a moto do cara a pé, porque ele tinha o jeito, né, é fortão, grandão e ficou muito tempo forçando a perna, diz ele que deu sei lá, uma distensão na perna e a distensão foi nessa e teve que amputar essa perna, que entupiu uma veia, não sei…

 

P/1 – Amputou as duas?

 

R – Não, amputou uma, deu problema nessa, teve que amputar essa, senão, ele ia morrer, apagou. Mas não foi no mesmo dia. Foi assim, chegou em casa, tomou um banho, aí foi sair para trabalhar, no serviço de manhã… teve uma reação no outro dia.

 

P/1 – E foi esse cara que te pôs no mercado de motoboy?

 

R – Ele que me pôs no mercado, falou: “Meu, vamos lá trabalhar com nós”. Aí, eu fui trabalhar lá, não sei se os pontos dele eram muito baixo, eu comprei uma moto também que era muito ruim, eu comprei uma moto quebrada, era muito ruim, eu não conseguia ficar em cima da moto, me dava dor nas costas. E eu trabalhei uma semana, duas, não recebi quase nada, muito pouco. Eu falei: “Nossa, isso aqui não dá dinheiro não, não vou trabalhar com isso, não”, eu trabalhava na gráfica, ganhava muito bem, fazia hora extra e ganhava muito. Aí, eu saí da gráfica pra trabalhar em outra gráfica e ganhava lá… quando você fica, por exemplo, você entra com um salarinho pequeno, vai graduando, né, eu tava na época lá com quatro, cinco mil na carteira, sai de lá para trabalhar no outro, outro de três turnos pra ganhar… como é que chama? Banco de horas, né? Três turnos e banco de horas, se um falta, você fica no lugar do cara e faz o banco de hora. Aí, você recebe em banco de hora, você pode faltar um dia porque você tem aquele dia, então não recebe, então, desanimou, entendeu? Para quem ganhava quatro para ganhar um pau e oitocentos. De moto, hoje, que eu sou um profissional, eu ganho três mil, três e meio, o resto varia nessa faixa, tem mês que é fraco, tem mês que é forte, depende de você, você que faz o seu salário, então eu fui aprendendo com a experiência dos anos e foi aumentando também.

 

P/1 – Mas aí, como é que foi o começo lá? Como é que foi o seu primeiro dia de trabalho?

 

R – Meu primeiro dia? Nossa, foi escuro, eu via a rua assim, como se fosse uma selva. As placas, eu lia as placas, mas não sabia que rua que era aquela, as principais eu não sabia, eu era leigo de tudo, sabe, o bairro tal eu não conhecia, tinha que ficar perguntando, os caras: “Vai nessa direção aqui, vai se enfiando aí que é nessa direção aí”, chegava lá, ia perguntando. E apesar de eu ter trabalhado de office-boy muito tempo, muita coisa você não conhece, tem rua que até hoje aí… Hoje mesmo, eu perdi uns vinte minutos para achar uma rua na Aclimação ali. Aclimação é uma minhoca ali, que pelo amor de Deus, eu do lado da rua e eu não conseguia chegar na rua.

 

P/1 – Mas você se envolveu em alguma enrascada nesse começo, sem conhecer direito a rua?

 

R – Ah, foi! Uma grande enrascada pra mim. Foi uma vez que tava… acho que era para o Arujá, era para ir para Arujá e eu passei, fui embora, fui parar lá perto da Serra das Araras, não chegava nunca. O cara falou: “vai vendo aí que tem uma placa aí, quando chegar Arujá…”, Arujá é aqui perto, Bonsucesso, “Quando chegar Arujá, você…”, que eu nunca tinha pego aquela estrada, quando eu comecei como motoboy, era tudo aqui na região de São Paulo, né, aí eu fui, chegou em Arujá, fui parar quase no Rio de Janeiro. Aí, eu: “Mano, tô aqui em tal lugar”, ele falou: “Você é louco? Mano, volta. Arujá é aqui. O que você tá fazendo aí?”, eu liguei para os caras para os caras me darem informação. “O cara falou que eu ia ver a placa e que eu ia entrar. Eu tô andando aqui já faz duas horas e eu não chego”, já tava chegando no Rio de Janeiro. Aconteceu já isso comigo, de errar assim, estrada, assim.

 

P/1 – E dentro da cidade aqui, dentro de São Paulo?

 

R – Aqui? Aqui, quebrou o amortecedor da minha moto uma vez. Meu pé, esse pé aqui foi parar debaixo da moto, quebrou o amortecedor da moto, eu rolei, nossa, foi feio aquele dia, também. Meu pé ficou machucado aqui e a moto, quebrou tudo, fui rolando na ladeira, ali no Morumbi, um condomínio que tem, no Real Parque, ali, atrás daquela favela que saiu na novela, lá, como é que chama?

 

P/1 – Paraisópolis.

 

R – Paraisópolis. Tem um condomínio lá com uma ladeirona, assim, aí passei no bueiro, quebrou o amortecedor, sai rolando ali, aí machuquei tudo. Ali foi fogo aquele dia, uma dor do caramba.

 

P/1 – Foi o único acidente que você teve?

 

R – Tive outros, mas foi bem fraquinho, foi só rolinha mesmo, mas esse aí foi mais feio, machucou legal o pé, não sei como que não quebrou, o sapato ficou irreconhecível.

 

P/1 – Como que é o dia a dia do trabalho de um motoboy aqui em São Paulo?

 

R – O dia a dia é assim, tem dia que você fica… que nem hoje, nós ficamos até às dez da manhã e na parte da manhã até às três horas eu fiz uns dez serviços, dez, onze serviços até às duas, mais ou menos. Aí, tem dia que é fraco, tem dia que você faz duas, três OSs [Ordem de Serviço], tem dia que você faz bastante, é um dia pelo outro, entendeu? E tem gente que faz serviços por fora, eu não faço, eu costumo fazer só o serviço da empresa, da própria empresa. Eu nunca tive o costume de fazer serviço por fora. Uma vez eu fui fazer que ocasionou que eu fui entregar um serviço na Raposo Tavares, não sei se é Raposo Tavares ou se é na Régis [Bittencourt], acho que é na… era uma das duas, uma indústria de engrenagem, sabe, um negócio grande. Eu fui levar umas correias para as máquinas. Aí, o cara tinha uma engrenagem para entregar, falou: “Pô, chamei o motoboy, o motoboy falou que não leva essa engrenagem, que não cabe na moto dele”, aí eu falei: “Eu levo pra você, onde que é?”, para o centro e era para o Brás, onde é a minha base, eu falei: “Eu vou ter que voltar lá mesmo, passa pra mim que eu levo”. E o cara foi fazer a nota, ou fazer um tipo de promissória, com o meu nome, meus dados, demorou uma hora e os caras me ligando: “Vem pra cá que tem serviço” e eu: “Caramba, esse cara não me libera e por causa de cinquenta reais, vou fuder metade do meu dia”, sabe, que foi dando angústia para levar para o cara e ganhar aquela merrequinha que ocasionou de ir, entendeu? Eu falei: “Vou ajudar o cara e ainda vou ganhar alguma coisinha e é do lado lá da minha base, vou ter que voltar lá para pegar mais serviço”, e nunca… foi só essa vez, depois eu nunca mais peguei, porque no fim, eu fui ajudar o cara, me atrasei uma hora, em uma hora você faz uns três, quatro serviços, se for assim, encaixadinho um do lado do outro, você pega três e vai fazendo ao decorrer do dia, né, me atrasou pra caramba, ainda demorei para chegar no centro, tava um trânsito do caramba, choveu, aí cheguei lá, entreguei a peça para o cara e falei: “Agora você dá uma ligada lá, como somos novo, não se entendemos muito, o cara não me conhece, então dá uma ligadinha só para confirmar que chegou e tal”, ele falou: “Beleza”. Acho que eu cobrei… o motoboy que ia levar tinha cobrado oitenta reais e não quis levar porque a peça era tão grande que era, eu cobrei cinquenta, ele chorou, ficou por trinta, se eu não me engano. Foi um prejuízo monstro. Eu falei: “Nunca mais eu vou fazer serviço para fora, nunca mais, porque eu não sei cobrar, então preciso de uma pessoa que cobre para mim”, porque eu não sei fazer preço, eu não sei cobrar, então até hoje, nunca mais, eu trabalho direto para a firma, ela que cobra, ela que sabe, ela que me dá os pontos, ela que… trabalho administrativo, ela que faz.

 

P/1 – Como é que é? Você sai que horas da sua casa? Como é que é o trajeto da sua casa até o trabalho? Você vai na base antes de sair para os outros lugares? Como é que é?

 

R – Eu tenho, assim comigo, uma meta de sair da minha casa trinta, quarenta minutos para chegar aqui. Então, eu tenho que chegar aqui no mínimo vinte minutos antes para não pegar… tem um número de fila lá, pessoal chega, então, quem chegou primeiro? Tal. Então, quem chegar primeiro, já vai saindo. Então, se eu chegar às sete e meia, eu vou pegar o número um ou dois ou três. Se eu chegar sete horas, eu vou pegar o número um, entendeu? Vou ser o primeiro a sair. Se eu sair e voltar logo, eu faço mais, entendeu, no decorrer do dia e se eu pegar o número quatro, cinco, vou sair às dez horas da manhã, entendeu? Então, vou fazer menos, nós ganha por produção. Então, tenho que acordar cedo. Saio de lá, seis e meia, sete horas assim, estourado para vim de boa também, para não esmerilhar a moto, para não depenar a moto, para não comer ela e não dar o desgaste total e ganhar na espera, mas tem dia que nem hoje mesmo, eu saí era dez horas, eu fiz mágica para fazer todos esses serviços aí, encaixei um no outro, fiz um roteiro…

 

P/1 – E qual que é a distância da sua casa até aqui na base?

 

R – Dá uns trinta e cinco quilômetros, trinta e dois, por aí, dá uns quarenta minutos vindo de lá, na boa assim, oitenta, cem.

 

P/1 – Quantos quilômetros?

 

R – Dá uns trinta e dois, trinta e cinco por aí.

 

P/1 – É longe.

 

R – É bem longinho.

 

P/1 – Você já fez as contas de mais ou menos quantos quilômetros você roda por dia, trabalhando, na média?

 

R – Tem dia que eu rodo mais indo e vindo da minha casa do que no serviço. Que os serviços aqui, a maioria é tudo no centro. Maior assim é Berrini, Barueri, entendeu? Não vai muito longe. Tem algumas viagens que saem de vez em quando. Tem dias que eu rodo menos do que a distância que eu vou para casa e volto, por isso que eu tô vendendo a minha casa lá, que eu quero vir para cá, para o centro, porque pra mim não compensa essa distância. Estava até estudando isso, minha casa tá à venda lá.

 

P/1 – Você já se envolveu em algum problema, por exemplo, com chuva aqui em São Paulo, com alagamento, alguma coisa que… uma certa adversidade que a cidade ofereceu para você por causa da chuva, por causa de alagamento, por causa de trânsito?

 

R – Tem uma história que eu contei pra você daquela motinha primeira que eu tinha, era uma motinha baixinha, uma CGzinha, aí não sei se você reparou, essa moto original dela não é dessa altura, eu já ergui ela. Então, eu tenho esse complexo de enchente, porque quando eu trabalhava no Brás, o Brás, qualquer chuvinha, alaga as ruas lá e alaga um tanto assim. Aí, o que acontece? Os clientes, quando chove, bomba, não sei se você sabe, todo mundo quer levar as coisas, mas São Paulo pára, entendeu, e ele quer levar e quer na hora e tudo alagado, entendeu? Então, eu já peguei isso na mente, eu ergui a moto, entro em qualquer lugar, vira um jet-ski da vida porque o negócio passa mesmo e tomar cuidado com os buracos, né, dar na sorte, você não vê o chão, você só vê a água, você passa assim, nas ruas que alaga mesmo, você não vê nem a calçada, você vai na sorte. Para chegar nos clientes para pegar serviço, para não perder, porque depois, parou a chuva, você tá com três, quatro serviços, você ganha um dia, entendeu? E se ficar esperando a chuva passar, com serviço nenhum, depois que a chuva passou, não tem serviço, o cara não te liga mais, aí você fica sem serviço até dar a hora de embora e vai embora sem serviço, entendeu? Então, eu fiquei com isso na mente. Então, todas as motos que eu pego, eu pego alta e ergo um pouquinho mais, já para não ter esse problema de enchente.

 

P/1 – Mas como é que é isso? Você já caiu num buraco fazendo isso? Você já viu alguém que caiu? Porque deve ser arriscado, né?

 

R – Eu tenho isso na mente porque quando eu trabalhava na gráfica, tinha o… eu trabalhei de ajudante até carregando as coisas dentro da perua, naquela época que eu trabalhava de ajudante, quando eu comecei lá. E nesse dia, eu não tava, mas o motorista falou: “Meu, tinha um cara de moto na 23 de Maio do meu lado e tinha um bueiro, eu vi o bueiro, mas o motoqueiro não viu, meu, a roda dele da frente caiu dentro do bueiro, ele tava do meu lado, de repente, ele sumiu”, ele olhou pra trás, o motoqueiro no chão. Aí, eu fiquei com esse negócio na cabeça. Eles sempre falavam pra mim: “Jefferson…”, eu não tinha experiência de volante, ainda, né, tava começando na gráfica, tinha pouca idade, ele falou assim pra mim: “Olhe sempre adiante, sempre lá na frente, não olha no carro daqui, o carro daqui… sua própria visão, seu 3D daqui vai acabar olhando o reflexo do freio, alguma coisa do carro, você vai acabar identificando, mas sempre olha lá na frente, o farol que fechou lá na frente, o carro que parou lá na frente, porque o cara parou o carro lá na frente, isso aqui, automaticamente, vai parar e você não vai ter tempo de frear na chuva. Então, você olha sempre lá para a frente, se tem buraco, já vai olhando piso, não anda muito colado, porque o cara vai passar no buraco, você não vai ver, você vai passar”, aí ele me deu essa visão, então eu sempre tive isso na cabeça, entendeu? Já sei o que tá acontecendo lá na frente, não vou ficar olhando o carro daqui, ficar esperando o carro acender a luz de freio para frear, se ele frear muito brusco, não consigo parar e aí, bate, entendeu?

 

P/1 – E qual que foi a chuva mais brava que você já pegou, que você saiu para trabalhar?

 

R – Teve uma que eu tava na Ayrton Senna, embaixo da ponte, esperando passar um pouco porque era pedra de granizo, sabe? E bateu na minha mão lá, que eu não conseguia, eu tava sem luva e eu falei: “Não tô conseguindo”, tinha uma entrega no aeroporto internacional urgente e aquele aeroporto é enorme para você andar, tem não sei quantos hangares, o negócio lá é doido, você anda muito lá dentro. Aí, eu desesperado, né, porque chegava lá, tinha que procurar o cliente ainda, o cara é gringo, você não fala a língua do cara, aí beleza. Aí, tô indo, aí essa chuva pegou de um jeito, começou a doer a mão, as pedras de gelo, pelo menos, as pedras de gelo vai ter que passar, aí eu fiquei no canto. Aí, de repente, cara, a chuva, mas tava caindo um temporal, mas tava meio de dia, meio que escurecendo, assim, sabe quando ainda tava de dia, a nuvem passa, não fica escuro? Meu, passou um caminhão assim na Ayrton Senna, deu um raio bem em cima do caminhão e fez assim… aquilo lá foi inédito para mim, cara, o caminhão só deu uma reduzida assim e continuou andando, acho que ele nem sentiu que foi com ele, mas o clarão que deu, sabe, você ouviu o raio bater assim, no chão assim, tinha mais dois motoqueiros comigo lá, eu falei: “Olha, se nós estivéssemos lá, cara, tinha morrido, mano”. Aí, fiquei um tempão lá esperando parar a pedra de gelo. Aí, logo, logo, essa chuva de pancada rápida parou logo, né, aí eu acabei seguindo viagem.

 

P/1 – Aí, você chegou lá e como é que foi o fim da história?

 

R – Aí lá, entreguei… esse dia, eu entreguei normal, eu achei o cara lá, o cara já tava esperando lá, já, com o papelzinho lá. Geralmente, eles ficam com um papelzinho, esperando, com o nome da pessoa, tal, já liga para a base, os caras falam: “nós estamos com um papelzinho, camisa vermelha, nós estamos no hangar tal, A, B ou C, tal, internacional…”, tem vários, agora a gente já tá mais acostumado. Agora teve um outro também que foi um avulso, um avulso que nós fizemos aí. Era mais ou menos, seis horas, eu tava fazendo serviço, mais ou menos, seis horas e pintou esse daí, o cara falou… acho que era nove horas da noite ou dez horas da noite e como eu moro lá para aqueles lados da Ayrton Senna, que é perto de Guarulhos: “Jefferson, você é o cara, mano, mora lá perto, serviço é para entregar tal hora, o serviço tá aqui. É um celular. E a menina vai estar lá, é o celular da filhinha dela, da amiga, não sei, sei que tem que levar esse celular lá”, aí beleza, né? Fui lá, tal. “E você já recebe lá”, falei: “Beleza, se a mulher tiver lá, a gente já recebe lá mesmo e de lá pode ir embora”, aí chegou lá, e não acho a mulher e eu procuro a mulher lá no internacional e tal, falei: “Puta, é agora”, não acho, ligo pra mulher, de repente, o telefone da mulher ficou mudo, eu fiquei lá umas duas horas procurando a mulher e não achava a mulher. Aí, nesse meio tempo, fiquei ligando para ele, ele ligava para mim, ligava para a mulher, não conseguia falar com a mulher, no fim, a mulher tava namorando com o cara no estacionamento do aeroporto internacional, o cara tava com o carro lá dentro e tava namorando com o cara lá, era um gringo e ela era uma garota de programa e nós não sabia disso, entendeu? Mora lá na Alameda Santos, hoje é cliente nossa.

 

P/1 – Ela é garota de programa?

 

R – É. É uma coisa a parte, né, isso não pode misturar. E ela tava lá. Aí, de repente, ela aparece: “Tô dentro do avião”, ela ligou o celular: “Pô, nós estamos há duas horas tentando encontrar você”, foi o Wagner, não, não foi o Wagner, naquela época, foi o Diego, o Wagner entrou no lugar do Diego: “Tô duas horas aqui, o Jefferson tá aí no aeroporto tentando falar com você e não consegue”, aí ela pegou e falou: “Não, eu tava aqui no hangar e tal, tava com umas tonturas… fui dar uma descansadinha lá no carro de um amigo”, aí, o Diego meio ligeiro, né, escutou o cara falando: “Sua cachorra, fala…”, ele escutou, né, depois que nós deduzimos que era isso aí. Aí, beleza, aí depois que nós descobrimos que ela era garota de programa, depois ela falou pra nós, tudo. Aí eu fui levar o celular para ela e a polícia federal grudou eu lá: “Como é que você traz um aparelho? Cadê a nota do aparelho? De quem que é esse aparelho aí?” “É de uma menina que tá embarcando, eu tenho que levar dentro do avião, perto da escada lá, não sei do que, lá, que já tá quase dentro do avião, ela não pode voltar para cá, para eu levar lá, não tem como?” “Não, você não pode, você não tem nota, não tem nada” e ficou naquele vai e vem… aí, só sei que eu peguei o celular do cara: “Não precisa levar lá, não”, “Volta aí, volta aí”, os caras da Federal. Aí, eu desci a escada rolante e fui embora, aí eu falei lá fora: “Tô levando o celular embora, os caras estão atrás de mim aqui e vão me prender, cara, aqui no coiso, que o negócio não tem nota, não tem nada, eles vão me prender, amanhã você se vira com ela”. Aí, acabou deixando quieto e eu peguei minha moto, já tava com a moto fora do aeroporto, deixei na entrada lá no coiso, senão você tem que andar muito, tem que deixar a moto lá na vaga as motos e andar, eu deixo bem na entrada da onde fica a vaga dos caras da Polícia Federal, ali, dois carrinhos, deixo ali, bem na curva que tem a parte de baixo e a parte de cima, né, eu deixo bem na curvinha ali. Aí, eu corri, já montei na moto e fui embora, sumi. Aí chegou no outro dia, ele falou: “Meu, a mulher falou que vai pagar o negócio, para você ir lá receber, ali na Alameda Santos, que o cara tinha uma…”, como é que chama? Com duas mulher, tá ligado? Tava ela e uma colega dela e o cara tinha uma aventura para fazer no aeroporto e elas foram fazer lá e depois, seguiram viagem com o cara, não sei para onde… Miami, não sei…

 

P/1 – Mas no outro dia, ela já estava aqui de novo?

 

R – Não, aí foi depois de um tempo, depois de uma semana, ela voltou, aí depois que já fechou todas as esperas, tal, ele falou: “Vai lá e busca esse valor, entrega o celular para a mulher”, a caixinha ficou umas duas semanas lá na firma lá, e ele ligando para a mulher, falando com a mulher pelo whatsapp e tal…

 

P/1 – O que você foi levar no começo era o celular da amiga dela? É isso, dessa mulher?

 

R – É, acho que era da amiga dela, entendemos que era da filha, tal, não entendemos direito naquela época, mas acho que era da amiga dela, que tava fazendo programa com ela no carro no aeroporto, que era a fantasia do cara, entendeu? E depois, ela contou para ele, viramos tudo amigo, dando risada, no fim era isso, nós ficamos lá duas horas, desesperados no aeroporto, pensando que a menina tinha sido sequestrada, eu falei para o segurança lá: “A menina foi sequestrada”, já tinha falado com todo mundo no aeroporto que eu não achava a menina, vish, foi um rebu do caramba aquele dia lá.

 

P/1 – E aí, só uma parte que eu não entendi. Aí, quando você conseguiu falar com ela, ela já tava embarcando, é isso?

 

R – É, tipo embarcando, queria que eu levasse o celular lá, o pessoal da Federal tentou me grudar, aí eu me desesperei, falei: “Vou ficar preso aqui”, que os caras começaram a falar grosso: “Não, pega a identificação dele, pega não sei o que”, eu falei: “Não, não quero saber disso não, pode deixar para lá, vou jogar fora isso aqui”, saí correndo dentro do aeroporto, já fui lá, peguei a minha moto e fui embora.

 

P/1 – Mas por quê que eles… só porque você tava segurando o celular, eles já quiseram…

 

R – Porque eu tava com um aparelho, que tinha que entrar lá e ela não queria descer, a caixa fechada, eu falei que era um celular, não sabia se era droga, se era arma, o quê que era, acho que acharam estranho e queriam já me revistar, queriam a minha identificação e eu queria entrar de qualquer jeito.

 

P/1 – Aí, você chegou lá, você tava com uma caixa e eles não sabiam o quê que tinha na caixa. Conta isso aí.

 

R – Uma caixa pequena, tipo, celular, acho que era um celular tipo… era uma caixinha de celular mesmo e era para entregar para a colega dela, lá, todo mundo pensava que era a filha, pelo o que ele tinha falado e eu entendi, acho que era a colega dela, lá. Aí, os Federal me acuaram lá, eu pensei que os caras iam me prender, já pediram identificação, um monte de coisa, eu peguei o negócio e falei: “Não precisa levar nada não, essa mulher aí que se vire depois”, peguei o negócio e saí correndo do aeroporto, aí peguei a minha moto e vim embora. Aí, liguei para a base, não para a base, que já era tarde, liguei para o telefone, que eles ficam com o telefone da firma: “Mano, tô indo embora, o telefone da mulher já era, ela que vá buscar lá na firma, não vou entregar mais nada, os caras quiseram me segurar lá, amanhã vocês acertam, o cara fotografou lá a empresa, vai segurar, eu…”, aí o Diego: “não, pode ficar tranquilo, Jefferson, não vai acontecer nada com você, não, pode deixar que eu vou conversar com ela”. Depois conversando com ela, ela contou a história do cara que tinha a fantasia, para se explicar e tal, depois num outro dia, que eles tinham bebido também. Aí, ficaram tudo amigo e tal, fomos fazer serviço para ela depois.

 

P/1 – Mas que tipo de serviço você faz para ela?

 

R – Faz cartório, documentação, vai fazer documento de RG, essas coisas, que as meninas são tudo de Santa Catarina, vem morar aqui. Onde eu morava ali, também, trabalhei e morei, trabalhei na Vila Olímpia, trabalhei e morei lá um tempo, é uma empresa que chama Para Todos, eu acho que assim, eu não conheço muitas empresas aqui em São Paulo, entendeu, que eu trabalhei eu acho que em quatro empresas, só, mas essa empresa é que mais… que me deu mais conforto, sabe, ele tinha sítio, ele deixava nós ir no sítio dele, final de semana, casa na praia, ele deixava nós ir, tinha almoço na firma, mecânico, vale-peça. Meu, o que você precisava ele te arrumava, dinheiro emprestado, ele te emprestava sem juros, a melhor firma que eu trabalhei. Eu precisei ficar uns tempos lá, que eu briguei com o meu irmão lá por causa da separação da casa e tal, briguei com o meu irmão, ele falou: ”Se quiser ficar na base aí, pode ficar, tem geladeira”, ele pagava café da manhã, pagava o almoço pra nós, era uma gozolândia aquela firma, lá. Aí, foi a firma que eu tive mais regalias, foi essa Para Todos.

 

P/1 – E aí, você ficou morando na Vila Olímpia por um tempo?

 

R – Fiquei morando lá na base, fiquei morando um ano lá. Aí, depois eu falei: “Na boa, vou voltar para a casa, já fiz as pazes com o meu irmão, já esfriei a cabeça, vou voltar para a casa”, aí eu voltei para casa, mas fiquei morando um ano na firma, lá. Abria, comprava o pão de manhã, fazia o café do pessoal lá, aí chegava a menina do escritório, já passava o serviço pra nós, já saía, normal.

 

P/1 – E vem cá, a gente tava falando no começo dessa entrevista, o trabalho de vocês tem muito a ver com pressa, com agilidade. Você já contou histórias assim, da chuva, dessa entrega diferente aí no aeroporto, agora e a pressa, em quê que você já se envolveu no trânsito que tem a ver com a necessidade de você chegar rápido no lugar, entendeu?

 

R – A necessidade de chegar rápido é fazer mais serviço, não a pressa do cliente, para falar a verdade. É o nosso ganho, nós sabe os clientes que reclamam mais, os clientes que pagam, os caras que são ruins de pagar, os caras que reclamam, que querem protocolo, que tem que voltar com protocolo.

 

PAUSA

 

P/1 – Você tava falando da pressa… que você já conhece os clientes, sabe quem tem mais pressa…

 

R – Nós já tem uma noção hoje, hoje eu tô mais envolvido com os clientes e tal, tô mais sabidinho assim de como ratar com os clientes, então eu sei qual que dá para esticar mais os horário, qual que não dá, então, a gente põe os nossos roteiros nesse esquema. Tem uns que reclamam, tem uns que querem rápido, tem os que querem tal hora, tem uns que dá para você empurrar mais. Então, a gente vai encaixando um serviço no outro.

 

P/1 – Já teve alguma corrida dessa que você teve que fazer voando por causa de algum motivo, que vamos dizer, foi o maior risco que você já correu, ou a maior aventura que você já teve aí pelas ruas de São Paulo?

 

R – Teve, assim, esses dias teve um fórum para fazer, o fórum fechava acho que era quatro horas, a menina me deu o serviço acho que era quatro e quarenta, eu desci essa Brigadeiro igual louco aí, para chegar lá para… era um negócio assim, ou era cinco horas, não sei, que ia fechar o fórum, não sei. Nós desce igual louco, se tem marronzinho, nós não vê nada, para fazer agrado para o cliente, para não perder e nós já tem o jeito já de alta velocidade que nós temos o costume já para furar os faróis que dá para furar e os que não dá, já tenho essas habilidades, entendeu? Às vezes, dá um erro, né, mas acontece de dar uma fuga assim, muito rápido. Esse dia mesmo, eu desci a Brigadeiro aí em mais de 80 por hora e cheguei lá em tempo, consegui fazer, entrar lá e fazer o serviço e voltar.

 

P/1 – Você já se envolveu com algum problema com a polícia ou com o [agente da] CET [Companhia de Engenharia de Tráfego]?

 

R – Já. Teve um ali uma vez que eles me deram a maior força, minha moto tava toda atrasada, que eu tava comprando essa moto aí, que eu tava legalizando, tinha uma Bros e a Bros, meu, estava assim, a ponto de… sabe? De peça, de tudo, estava bem… manutenção bem… mas sabe aquela moto cansada, que já tem que passar para frente? E eu falei: “Vou segurar o documento dela, preciso fazer o documento dela e eu vou fazer o documento dessa outra aqui, que eu prefiro um monte de coisa, xerox, taxa e não sei o que, vou fazer porque vou precisar, então, vou segurar o dessa moto aí, não vou fazer o documento ainda, vou deixar para fazer depois, vou deixar essa aqui em ordem, porque vou trabalhar com essa”, mas como eu tava colocando adesivo ainda, baú, um monte de coisa pra passar lá no DTP [Departamento de Transportes Públicos], eu tava fazendo o documento da outra, não fiz o da outra. Aí passei ali na ponte que é em cima da 23 de Maio, ali na Liberdade, tem uma ponte ali e tem uma base da polícia lá, os caras me pararam: “Essa moto não vai poder sair”, aí fiquei maior triste, falei: “Putz, mano, essa moto aí já me ajudou bastante…”, comecei a contar história da moto, tal, agradeci os caras que os caras davam os peitos lá para ajudar a gente na segurança, bati um papo legal com os caras e os caras gostou de mim: “A gente vai dar uma chance aí pra você, mas essa moto era para ficar aí, tá toda atrasada. Não tem jeito de andar com essa moto”.

 

P/1 – Tá, esse dia, a polícia te liberou?

 

R – Me liberou, mas direto, a gente dá uma fugazinha no farol, passa uma contramão, desce uma contramão, os caras veem a gente, vêm atrás da gente, a gente tem que dar fuga, porque se os caras pegar nós, eles enchem a gente de multa. Se pegou a placa, pegou, se não pegou… é a correria do dia a dia, a pressa, entendeu?

 

P/1 – Mas eles vão atrás de você de moto ou de carro? Como é que é isso?

 

R – Muitas vezes assim, eles veem placa vermelha, veem os caras de uniforme assim, eles nem vai, vai num cara assim, que tá a paisana, entendeu, que não tem uniforme. Eu já dei várias fugas, já, deles, se eu vejo que eles olharam para mim, e eu tô errado, às vezes, eu faço assim: “Beleza e tal”, os caras não falam nada, “Desculpa aí”, tem uns caras que aceitam, tem uns caras que não, os caras montam na moto e vem atrás de você, você tem que dar fuga, entrar numas vielas, desce a 23 de Maio aí e some.

 

P/1 – E você já fez isso?

 

R – Já. A gente faz várias vezes.

 

P/1 – E qual que foi a mais complicada que você já fez? A fuga mais…

 

R – Tem aí nas vielas que a gente conhece aí, que a gente dá as fugas aí, eles se perdem, você vê só eles passando. Tem garagem que nós entra, a garagem tá aberta, entra, depois, nós pede desculpa pro porteiro: “Desculpa aí, entrei errado ai”, a polícia passa, depois: “Errei, desculpa aí”, aí você sai da garagem.

 

P/1 – Mas teve alguma dessas fugas que deu errado?

 

R – Teve… comigo, assim, nunca aconteceu. Eu tive sorte até hoje, sabe, mas com os amigos assim, dos caras contando… também não relato, não lembro, não, mas tem que lembrar, mas eu dei sorte, acabei dando sorte, que essas fuguinhas assim, você vê ele pelo retrovisor, ele pensa que você não tá vendo ele, mas você vê pelo retrovisor o cara vindo atrás de você, entendeu? Então, o cara não acha que você dá a fuga dele, na hora que ele virou a esquina, não vê mais você, entendeu?

 

P/1 – Como é que é pilotar no meio dos carros, tipo assim, descreve um pouco isso pra mim. O quê que vocês fazem de errado, que você falou que de vez em quando, faz alguma coisa errada que justifica vocês darem essas fugas. Descreve um pouco pra mim, o quê que vocês têm que fazer no dia a dia da correria do trânsito?

 

R – A minha visão de andar no corredor, hoje, é diferente. Quando eu fiz o cursinho, aquele de 40 horas que tem lá no DTP [Departamento de Transportes Públicos] para se profissionalizar motoqueiro, eles falam: “Cara, não tem piloto bom, não tem profissional, não tem nada. Moto mata, é um veículo perigoso. É o seguinte, a única maneira de você se proteger disso é você abaixar a velocidade. Andar de boa, porque o que você tem que fazer, o motoqueiro profissional hoje é trabalhar com a mente”. Trabalhar com a mente é o quê? Trabalhar inteligente com a moto, é você já fazer o seu roteiro, o mais curto possível, o mais perto do outro pra você não precisar correr. Você faz aquele roteiro, os caminhos mais perto, os buraquinhos mais perto que a gente já conhece para não precisar correr, você faz rápido o seu serviço, termina em curto prazo e não precisa correr, porque cara que não conhece os roteiros, os endereços, ele sai daqui, da Praça da Sé, ele vai entregar outro lá na Berrini, depois, ele volta para entregar outro no Paraíso, depois ele entrega outro na Consolação, igual esse aplicativo aí que o pessoal agora estão lançando, né, diz que a Uber vai lançar para moto também agora, estão falando, na Europa parece que tem, o Express Uber, aqui não tem ainda, mas parece que vai ter. Aí, eu acho que à noite maravilhoso…

 

P/1 – Como é que é trabalhar à noite? Você faz corrida à noite, de vez em quando?

 

R – Eu adoro trabalhar à noite, porque o meu pai sempre foi da noite, eu acho que eu peguei isso na veia dele, ele foi taxista. Mas eu trabalhei entregando pizza à noite, não aguentei muito tempo, porque eu moro longe, então, pra sair daqui uma hora da manhã para pegar essa Radial aí, cansado… chegou um dia que teve muito serviço, eu quase dormi na Radial Leste, eu peguei e abandonei a pizzaria, não posso correr risco de vida. Mas é maravilhoso trabalhar à noite, tudo iluminado, o seu farol fica aceso, você enxerga todo mundo, o pessoal da noite é tudo alegre, saindo para curtir, um pessoal diferente, não é um pessoal estressado, sabe, dá caixinha, conversa mais com você, te agradam, os que não dá caixinha, cumprimenta para entrar: “Tem uma festa aqui, pode ficar à vontade” “Não, tô trampando, valeu aí, mesmo”, é tudo assim, mais evento à noite, entendeu, não é assim, só aquela correria, aquele estresse, aquele compromisso, aquela seriedade igual tem de dia. Aí, o aplicativo veio e os caras estão trabalhando até onze horas da noite, entendeu? Eu achei legal isso aí, você trabalhar até à noite, porque com umas motos novas dessas, você não cansa, umas motos velhas, que você não tem muito conforto, você chega às seis horas, você tá morto. Então, aí o cara aguenta ficar até mais tarde, até umas onze horas da noite em cima de uma moto o dia inteiro, entendeu? E dá uns trocos legal para um cara assim, que tá aí desempregado, na área aí, não consegue emprego, o cara arrumar uma motinho e se agregar assim, dá para ele ir sobrevivendo legal, paga o aluguel dele, paga a escola do filho, numa boa, vai depender dele, se ele trabalhar, ele ganha, se não trabalhar, não ganha.

 

P/1 – Como… você que é um especialista em trânsito em São Paulo, descreve para mim o trânsito de São Paulo. O quê que o trânsito de São Paulo é para você?

 

R – Eu acho que é igual ao lactobacilo vivo, correndo na veia São Paulo, eu já acostumei, já entrou entro de mim, é igual a você tomar um Yakult e o negócio correr nas veias, aqueles corredores, aquela iluminação, parece que você já fala com os carros, os carros falam com você, você se entranha, passa em cada beco, assim, que você não imagina que vai passar, você fala com o carro, parece que a sua alma já fala nos corredores junto, porque às vezes, tem cara que tá com o carro parado e de repente, ele quer encostar no outro, você vai passar naquele buraquinho ali para você pegar o corredor e arrumar uma brecha lá na frente pra você chegar no farol, para o cara ficar mais na frente, para você ganhar tempo. De repente, o cara quer sair com o carro aqui para encostar no outro, parado o outro carro ali e você naquela velocidade, a 80 por hora, você vai ter que passar naquele buraquinho ali, o cara resolve… sabe? Você passa naquele buraquinho, você consegue passar. Então, a habilidade que você tem, o conhecimento que você tem. Hoje a minha visão para passar no corredor, se eu vejo uma velhinha em cima do volante, olhando assim, em cima do volante, você vê que a pessoa não tá olhando o retrovisor, dá para ver, os carros que não tem insulfilm dá para você ver o motorista, como é que ele tá lá dentro do carro. Se eu vejo uns boyzinho com o banco deitado lá para trás assim, de bonezinho, esses caras, o negócio deles é dar aquele quebrão, sabe? Pá, eu sou o dono da rua, entendeu? E qualquer hora, a qualquer momento, ele pode dar um ziguezague e você pegar a lateral deles e morrer. Então, esses caras, quando eu vejo um boné, alguma coisa assim, eu já olho no retrovisor, quando não dá para ver dentro do carro porque tem insulfilm, eu vejo pelo retrovisor, como é que é o perfil do cara. Dependendo do perfil do cara, eu acelero, dependendo do perfil do cara, eu saio fora, entendeu? Você vai pegando essa habilidade dentro de você. Ou então, o corredor que tá mais fechado, você já reduz mais a velocidade, você fala: “Não dá para correr, não tem como”, carreta na Marginal também. O cara que não tem experiência na rua, pegar uma Marginal, no meio dessas carretas aí, é super perigoso.

 

P/1 – Você tem alguma história de colegas que se envolveram em acidentes graves?

 

R – Assim, eu tenho um colega meu que na época, eu não era motoboy ainda, mas a gente andava na noite, tal, andava tudo de moto à noite e eu não cheguei a ver ele, mas me falaram que ele bateu, do jeito que ele bateu a moto, o guidão da moto entrou dentro dele, diz que foi uma coisa muito feia, um tal de Véio, o apelido dele era Véio. Ele trabalhava na rua de moto, era motoqueiro profissional, muitos anos, eu nem sonhava em trabalhar de moto, nem sonhava! Os caras me falaram isso, isso aí me marcou muito, esse acidente aí, falou que a batida que deu, ele faleceu porque o guidão entrou dentro dele.

 

P/1 – Muita gente morre por dia, né, por mês aqui em São Paulo, motoboy, né?

 

R – Morre, bastante! Em colisão, então, tem um monte. Mas você vê assim, que nem… eu não gosto de barulho, entendeu? Mas é bom barulho na moto, porque chama a atenção do piloto. Eu já não gosto, eu vou mais pelo meu sensor, mesmo, mas um barulho na moto ajuda bastante. Uma moto barulhenta avisa o motorista lá que ele tá passando, é bom também. Eu já não gosto de barulho, porque você o dia inteiro na moto com barulho, você chega à noite, tá zuuuuu… no seu ouvido, sabe? Eu já tenho outro sistema de trabalhar.

 

P/1 – O quê que é ser motoboy em São Paulo?

 

R – Motoboy é… eu entrei nessa vida aí para quebrar um galho e não consigo sair, se eu tivesse uma outra opção, eu saía, mas é uma sobrevivência, né, você tem que trabalhar, chega o dia para pagar as coisas do seu filho, da sua residência, você não tem outra opção. Igual, se eu voltasse para a van lá, eu não ia ter o mesmo salário que eu tenho aí, entendeu? Então, eu tenho conforto por trabalhar assim, se eu quiser sair mais cedo, eu saio, eu não tenho a responsabilidade de bater cartão, entendeu? É uma regalia, eu falo: “Preciso sair mais cedo”, não precisa nem bater o cartão, não tem nem ponto, não tem nada para assinar. Você chega… ele pôs uma regrinha para chegar até às nove, a partir das nove, volta, sabe, porque senão, a turma abusa, mas é livre, é tranquilo. Não tenho sábado e domingo. Qual serviço você não tem o sábado e o domingo? Quase todos, uma padaria, um mercado, você trabalha sábado e domingo, doze horas, até meia-noite, numa loja, o maior faturamento que mais dá é numa loja é sábado e domingo, você tem que ficar sábado, domingo, feriado.

 

P/1 – Esse é o lado bom do motoboy?

 

R – O lado bom do motoboy.

 

P/1 – E o lado ruim?

 

R – O lado ruim é o perigo, é o risco, você sai de manhã e você não sabe se você volta. É igual um policial, o cara de segurança, às vezes, a gente fala mal: “Esses caras da segurança do carro forte é o maior perigoso”, mas o seu também é, se um caminhão aí perde um eixo, igual aconteceu, eu tava na Régis, de repente, caiu a roda da Brasília, caiu e começou a sair aquele fogaréu assim, que pegou a lona no chão, começou a sair aquele fogaréu e a roda passou e foi embora e o carro arrastando e eu bem em cima do carro, sabe, no corredor, porque tinha um carro aqui e tinha um carro aqui, caiu a roda dele aqui, no momento, ele podia fechar eu ali e eu cair, entendeu? Eu consegui segurar, ele também pegou o acostamento, o carro não capotou, nem nada, conseguiu segurar, eu também consegui segurar e parei, mas ali era para ter acontecido uma fatalidade que não foi culpa minha e nem do cara, caiu a roda, pode ser culpa do borracheiro que não apertou a roda, entendeu? Isso acontece direto, cair a roda de carro, acontece direto. Outra coisa que eu aprendi no curso também, no DTP, você não ficar do lado do caminhão, porque certos lugares tem golpes de vento que puxam você para baixo da carreta, por isso que agora, colocaram… não sei se você reparou, umas barras de ferro do lado do caminhão é para isso. Eu já tentei passar do lado ali para ver se acontece isso, sabe, provocando para ver se acontece, porque eu nunca vi essa força de gravidade que eles falam, mas é dependendo do lugar que você tá, a posição que o vento vem girando te leva para debaixo da carreta, porque você é um veículo leve, não é um veículo pesado, uma 150 é leve, você também tá leve, tá em alta velocidade, qualquer coisa que bater ali, te joga. Eu já andei analisando isso, dependendo… tem dia que tá no vento mesmo, você pega umas pistas largas aí, você tá indo em alta velocidade, bate um vento tão forte, que você muda de pista e é verdade, mesmo. São noções que esse curso dá que é muito bom todo mundo forçar e fazer o curso, porque eu ganhei bastante noção com esse curso, eu reduzi a minha velocidade, não passo mais do lado de caminhão, no corredor, já não abuso, vou mais maneiro. Eu procuro andar na faixa do ônibus, prefiro tomar multa na faixa do ônibus, mas eu tenho a minha via só para mim, porque andar no corredor… eu só não ando quando tem marronzinho, alguma coisa, senão, eu ando.

 

P/1 – O quê que tem de mais difícil no trânsito de São Paulo? Mais complicado, pior?

 

R – O pior? É na hora da chuva, é complicado, molha os documentos, você tem que se preocupar com os documentos, tem que se preocupar com o motorista que não tá te vendo, os vidros tá tudo embasado. Aí, para todo o trânsito, todo mundo quer passar naquela vez e atravessa os carros na frente e você tá vindo, tem uns buraco com água que você não… pode cair a roda dentro e você não vê as poças de água. Você pode cair ali e o carro vir e passar por cima de você. Às vezes, você tá com problema de casa na cabeça, não dá para prestar atenção direito no trânsito, você tá levando de casa, não tem como você descartar isso, que às vezes, é filho, é família, entendeu? Então, você fica a milhão, é uma profissão de perigo, assim, quem leva assim na rua é um cara que gosta de trabalhar com emoção, com adrenalina, porque senão, eu acho que não fica, não. Eu vi vários parceiros meus saindo daí, já. Já foi trabalhar na Petrobrás, já foi trabalhar na parte elétrica, já saiu que não aguentou. O cara não era de adrenalina, mesmo, só fica os caras assim que gosta de trabalhar com adrenalina, porque os caras não aguentam. O cara tem que ter braço, gostar, ter muita agilidade, porque senão… se o cara cair duas vezes no mês, o cara toma prejuízo e não fez nem para as peças da moto, porque não é barato hoje, o custo caiu, esse aplicativo em vez de vim ajudar nós ou pelo menos manter o preço, eles abaixou pela metade do preço, aí nós tivemos que abaixar os preços também no decorrer desse mercado. Aí, esse aplicativo, tá todo mundo com smartphone na mão, o cara não quer saber de telefone, você mete um whatsapp, um aplicativo, eles não gastam, vai pela internet. Então, pra que o cara vai ter telefone? Além dele economizar com o aplicativo que é mais barato, ele não gasta telefone.

 

P/1 – Se você pudesse escolher, você trabalharia com o quê?

 

R – O que você fala assim?

 

P/1 – O ideal, você queria trabalhar com o quê?

 

R – Qualquer área que assim… eu trabalhei com eventos, eu gostei muito. Evento me fascina, nem durmo. Quando eu trabalhava com a van, eu ia levar uma época, os caras alugaram uma limusine para buscar lá o negócio dos Beatles, sabe, que eles iam fazer o negócio dos Beatles lá, apresentação para os coronéis lá em Campinas, aí eu fui levar eles lá, tal, aí leva a banda, leva instrumento, todo esse negócio, eles se vestem de Beatles, na época assim, fica tudo trajado, alugaram uma limusine, cara, para buscar eles lá do quartel para um salão lá que eles alugaram que era também do Exército, né, sei lá, não sei se era do Exército, até a portaria do negócio, né? E como choveu muito, eles não usaram a limusine, pagou sete mil reais na limusine para ficar lá à disposição deles no dia, lá em Campinas para trazer eles de lá, quando chegar, todo mundo tá na fila e ver eles chegando de limusine: “Os Beatles chegou…”, e não usou a limusine, quem usou foi nós, nós fomos andar de limusine lá… bebendo as coisas dentro da limusine, tal. Então, esses picos assim é legal, se envolver nesses eventos. Eu acho muito legal trabalhar com evento, porque é uma coisa que não te paga muito, mas você vive. Igual eu trabalhava na Rede TV, trabalhava com a van, a gente pegava o pessoal nos bairros e levava lá na Rede TV para fazer a gravação lá do Pânico, dos coiso lá e depois levava o pessoal tudo para lá, para casa de novo, de madrugada, entendeu? E ficava lá assistindo televisão, e ficava lá com o pessoal da câmera, em televisão, todo mundo é a milhão e tal e é legal, você faz amizade com o pessoal, aparece na televisão, tem um palco lá para assistir também, só não fica na primeira fila, que só ficam na primeira fila as mulheres, os homens ficam na terceira ou na quarta, lá pra trás. Aí, você conhece o pessoal, a Dani Bananinha, se envolve, então, com artista é legal, cruza o pessoal na rua: “Trabalho na SBT”, legal, né, um cara da televisão e fica legal, mas chega ao final do mês, o cara não dá um agrado legal, por isso que eu saí, cara, senão, eu tava até hoje trabalhando com evento. Eu acho que eu escolheria essa área de eventos.

 

P/1 – O quê que São Paulo tem de melhor, você acha?

 

R – São Paulo?  São Paulo é maravilhoso, cara! São Paulo tem o Ibirapuera, tem muitos lugares de graça, que você pode entrar, que você não precisa pagar, a turma não sai de casa porque fala: “Vou gastar um cemzão ali, uns cinquenta”, você não gasta nada. Tem aquele Hotel Unique, lá, aqui na Brigadeiro, aqui embaixo, você pode entrar lá, subir lá em cima, ficar na pracinha, tem uma pracinha lá em cima, do lado da piscina lá, uns drinks, se você quiser beber, você bebe, se não quiser, você fica lá em cima vendo a paisagem da Nova Conceição, assim, né, aquelas mansão, um lugar bonito, o Ibirapuera todo iluminado, você vê o Obelisco. Ali, você fica igual um rei ali, entendeu, todo mundo fala inglês do lado, um francês, um chileno, várias línguas, você se sente ali, tô internacional aqui e você não paga, você pode entrar e sair dali e não cobra nada, você só paga o que você gastar. Tem um sofá, uns negócios assim, você fica num ambiente legal. Tem o Edifício Itália também que você só vai lá e pode ficar no vigésimo e tálala andar lá, um puta de um restaurante fino, pode sentar num banco e ficar lá, não precisa consumir nada, não tá gastando nada.

 

P/1 – O que você foi fazer lá no Unique, quando você foi a primeira vez?

 

R – Unique, eu levei uma namorada lá, uma vez. Fui fazer um serviço, né, com a van, aí conheci tudo, embaixo assim tem um bar, tem todos os whiskies do mundo inteiro, uma coisa bem bonita, uma coisa maravilhosa, é um navio, tem até os buracos dos quartos, sabe e em cima tem um salão, que eles alugam para os eventos e em cima, lá na torre tem uma piscina com uns negócios e em baixo, tem os quartos dos hospedes, é um hotel, e o formato de um navio. E eu fiquei lá, eu gosto muito daquela região ali, sabe? Aí, dali, nós sai ali para comer uns hambúrguer ali na Joaquim Floriano, tem uns hotel, uns negócio legal ali, nós se envolve muito. Tem um monte de coisa turística em São Paulo. Aqui perto também, aqui no Riacho Grande também tem, tem o Templo Zulai, tem uns negócios para andar de barco, tem bastante coisa aqui em São Paulo.

 

P/1 – E o quê que tem de pior?

 

R – Esses morador de rua, cara, corta o coração você ver um cara dormindo na rua aí na Paulista, acordando de manhã, você saindo para trabalhar e você vê o cara dormindo lá, comendo negócio na rua, aí corta o coração você vendo essas coisas, o governo aí… invadiram vários prédios aí no centro. Você viu aquele hotel do lado da prefeitura? Um puta de um hotel chique, cara, nunca entrei naquele hotel quando aquele hotel era chique e tava funcionando. Os morador de rua invadiu aquele hotel de ponta a ponta, destruíram o prédio inteiro, cara. Agora a prefeitura foi lá e fechou tudo, diz que vai ser um órgão da prefeitura lá no hotel. Vários prédios, eu acho que tem mais de cinquenta ou sessenta prédios invadidos aqui em São Paulo com moradia, pessoas que não têm lugar para morar, a fila… Esses dias, eu fui, tava vendo a fila para fazer inscrição de moradia, mano, eles falam que é sessenta mil, tem mais de trezentas mil pessoas inscritas, não tem noção da previsão de quando vai te chamar, se é daqui cinco anos, dez anos, se vai te chamar para você começar a pagar. Então, você desanima de fazer inscrição num negócio desse, os caras vão para um lugar mais fácil. Eu fui fazer uma documentação pra mim e precisei passar no negócio do empreendedor ali na Avenida Prestes Maia, que é a continuação da Tiradentes. Do lado, tem um negócio da prefeitura que você faz toda a documentação, do lado tem um prédio invadido lá. Tem uns olheiros embaixo, tem porteiro, tem tudo, de morador de rua, mas tem tudo, tudo organizado, tem câmera, tem computador lá embaixo, parece que o negócio é organizado.

 

P/1 – Deixa eu ver a última pergunta para te fazer. Você consegue descrever São Paulo pra mim em uma palavra?

 

R – Pra mim? Paixão, cara. Eu tenho paixão por esse lugar. Eu já morei em vários lugar e eu não consigo sair daqui, eu não quero mais sair daqui. Eu nasci aqui, a energia que eu tenho aqui pra viver, para trabalhar, eu tenho paixão por essa cidade.

 

P/1 – Como é que é o seu bairro hoje, já que você mora no mesmo bairro há muito tempo? Você descreveu lá atrás. Como é que é hoje? O quê que transformou de lá para cá?

 

R – Lá é o seguinte, zona leste, ela não tem muito investimento do governo, entendeu? O máximo que ele faz é saneamento e asfalto, as escolas tudo bem precária. Agora, estão colocando umas escolinhas melhorzinha, uma faculdade colocaram lá, mas ficou muito tempo debilitado, entendeu? Esse mesmo Corinthians Itaquera quando foi feito lá, chamaram várias empresas para ir lá dar uma força, dar uma… ninguém foi, foi só a prefeitura que bancou e aqueles gringos que entrou da Copa, que fez aqueles negócios lá, que deu uma pressão, que acabou fazendo aquele estádio, senão, não ia nem sair aquele estádio lá. Porque chamaram várias empresas para a região, que ia cortar os impostos, não sei o que, para dar mais emprego, para crescer a região e ninguém quis ir para lá, não, pelo o que eu vi assim, no jornal, jornalismo, né, que eles falavam. É um lugar assim que não tem muito investimento do governo.

 

P/1 – São Paulo, desde que você se lembra da sua infância para hoje, o quê que você acha que mudou aqui? Nos quarenta anos de vida seus?

 

R – Mudou bastante coisa, cara. Assim, já mudou bastante coisa, as ruas, as pontes, já fizeram bastante coisa, bastante benfeitoria, sinalização já melhorou bastante, já deu uma boa melhora da época que era. Eu acho que tá bem melhor, lugar para parar, hoje nós tem bolsão moto frete, tem bolsão moto normal, bolsão para caminhão para parar, antes não tinha, se parava, os caras descia a caneta: “Aí não pode, aí não…”, você não tinha o seu lugar para parar, hoje já tem, tem a sua faixinha amarela, sua faixinha branca, seu bolsão, tem lugar para táxi, tá mais organizado, eles estão assim…

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que você queria falar da sua vida como motoboy que eu esqueci de perguntar ou que você esqueceu de falar lá atrás? Alguma história, algum comentário?

 

R – Assim, eu acharia que tudo que tá acontecendo hoje de tecnologia, quem não quer se adequar, quer ficar na época arcaica, tudo lá, eu acho que tem cliente para todo mundo, sabe, nessa área aí, tem cliente para todo mundo. Acho que ninguém deve desistir, tem que persistir e continuar, porque pelo o que eu tô vendo aí, entrou esses aplicativos aí e já estão saturados, não cabe mais ninguém dentro. Só se entrar outros para dar vaga para outros e as empresas estão… caiu bastante o serviço das empresas, mas as empresas estão sobrevivendo. Eu acho que é só questão de tempo, entendeu, todo mundo vai ter o seu cliente, vai sobreviver, ninguém precisa desanimar, fechar firma, fechar as portas, acreditar mais em você. E quem tem alguém para segurar, que segure que vai melhorar lá para frente, eu acho. Eu acredito que o brasileiro é muito forte.

 

P/1 – Última pergunta, qual seu sonho?

 

R – Meu sonho? Assim, não é muito grande não, é que eu tô querendo vender a minha casa lá para a casa do sonho, né, eu sou vidrado em ter uma casa do sonho, assim, sabe? Minha casa é simples, eu queria ter uma casa melhor assim, mais espaçosa, para os meus familiares, tal. Como eu parei assim, um bom tempo para investir no meu filho, eu esqueci um pouco de mim. Então, agora que ele tá criado, com dezessete, dezoito anos, começou a trabalhar agora, já desenvolveu a vida dele, já tá estudando e trabalhando, então agora eu vou começar a viver a minha vida. Então, agora eu acho que vou comprar um carrinho, vou fechar um negócio com uma casa boa, melhorzinha que eu vou gostar e vou aí, pé na estrada, meu, o que eu gosto de fazer, pé na estrada e vou curtir um pouco a vida. Trabalhar um pouco menos, ou então, sei lá, pegar um serviço que me agrade, se for de evento, ou alguma coisa assim, que eu viva com aquilo, que eu me sinta bem, entendeu? E vou viver aquilo. É isso aí, a nossa felicidade, encontrar a felicidade e ficar bem com você, porque você ser rico, milionário, ter tudo acho que não é tudo, acho que é você se sentir bem com você mesmo, entendeu, onde você tá, com as pessoas que você tá ao seu redor, essa é a sua felicidade.

 

P/1 – Legal. Vocês querem fazer alguma pergunta? Ok? Obrigado então pelo seu tempo, pela longa entrevista. Obrigado pela paciência, pela dedicação. Foi super legal.

 

R – Obrigado. Também agradeço vocês aí, que isso aí tenha muita repercussão para população aí, que ajude muitos motocas aí.

 

P/1 – Beleza! Obrigado, viu!

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