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História

Alinhavando memórias, revisitando histórias

História de: Natália Gonçalves
Autor: Natália Gonçalves
Publicado em: 02/03/2015

Sinopse

"A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo as coisas de rasa importância. De cada vivimento real que tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim eu conto." (João Guimarães Rosa, em "Grande sertão: Veredas").

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Da infância, não lembro muito. Sei do que me contam, nessa vivência embaciada que a lembrança dos outros nos condiciona. As férias: casa de vó, biscoito de polvilho, fila para o banho, mosquitada. Lá, nesse lugar que cheirava o calor do estrume de cavalos, era sempre ao entardecer que as histórias aconteciam. Um dia, veio a da moça que fora “estrupada”. Como se não bastasse, queimaram-na com cigarro, “bateram-lhe muito”, era o que minha tia dizia. O corpo da morta estava do outro lado da rua, na capela do pequeno hospital. No outro dia enterrariam, naqueles cortejos de cidade pequena, que toda a sorte de gente e os cachorros acompanham, mesmo sem conhecer o defunto. Não havia nada para fazer. O tédio nos força a essas situações.

Eu não sabia o que era “estrupo”. Em realidade, o pavor da morte, da ruptura não programada, aterrorizava-me o bastante para sequer pensar nisso. Tudo contribuía: luz baixa e vozes, mais ainda.

Tinha também as histórias de meu pai. Era um homem alto e magro, que economizava nos cabelos e gostava de paçoca. Frequentemente acometido de dores na coluna, não raro encontrava-o sentado, as costas para cima, joelhos colados ao peito, cabeça baixa. Eu não entendia aquilo, e aproveita o momento para aporrinhá-lo com minha curiosidade de criança aos domingos. Com a voz repleta de honestidade, meu pai afirmava ser o “Senhor Sapinho” – que, por vezes, travestia-se de “Senhor Tartaruga” –, e que o Joaquim (seu nome) voltaria logo.

Uma vez, meu irmão comeu uma semente de romã. Meu pai, muito sério, disse que eu não deveria me preocupar: logo nasceria uma árvore no estômago dele. Pranteei fraternalmente, com aquele pesar infantil em imaginar a vida de alguém que tinha raízes por dentro. Minha mãe nada achava, apenas ria. Ela era bonita, generosa e que fazia bolinhos, roupas de boneca e grude para nós brincarmos; não obstante fosse enérgica.

Um dia, meu pai parou de contar histórias. Durante muito tempo, esperei que os faróis do Gol marrom invadissem a casa pela porta de vidro, como acontecia de segunda à sexta-feira ao final da tarde. Eu, minha mãe e meu irmão nos reunimos muitas noites na sala de estar com o pretexto de assistir ao jornal e à novela. Só havia uma televisão. O silêncio é vazio e, por isso, comporta tanta coisa.

Ele morreu em 1998. Ou podia ser em 2003. Houve um dia no qual eu achei ser em 2010. Doía. Doeu tanto que, às vezes, era difícil saber que a danada estava era pelo lado de dentro. Não! Eu achava que estava na música que ele gostava, no doce que ele comia, nas coisas que ele falava... Turvava assim, na frente dos olhos. Mas fazia nitidez; voltava, estalando na testa – latente; fiapo de pele soltando ao redor das unhas, daquelas que a gente arranca com um prazer sádico. Então, eu percebi que não lembrava – esse esvaziar-fugidio, peça que prega a memória.

No fundo, acho melhor dessa forma. Tanta coisa acontece, tanta história que não é nossa – mas que nos invade –, que a memória se encarrega de evitar que o cérebro estoure. O tempo todo, a gente respira os outros: puxa o ar, corre o corpo, solta. Só de nascer, já somos um mundo de coisas, embora não caibamos em muitas delas. Sou de Minas Gerais, pois é o que diz a certidão. Mas as Minas são muitas, escreveu Guimarães Rosa; e eu, sou modesta. Só de ouvir falar do trem, por exemplo, eu já era ferrovia. Eu devia ter uns 22 anos quando entrei numa Maria Fumaça, essa moça bonita, lenta, melódica... Mas ela já habitava em mim. Uma vez, um maquinista me chamou de frô. Eu gosto de pão de queijo, mas não tomo café. Isso é uma ofensa para muitos mineiros.

Aos 19 anos, saí de casa pela primeira vez. O que veio antes não difere da travessia: muita luta e algum tempo administrando sonhos. Em todos os meus aniversários, era onze e meia e chuviscava, independente do local. Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana, Pelotas, Montevidéu... Todas as cidades me ofereceram como presente dias nublados. Deve ser o fardo dos filhos do outono.

Há de certa forma, um prazo de validade para os lugares. Seu andar é arrastado e não acompanha o sentir da gente. Com o tempo ficam pesados e precisamos partir. Em realidade, talvez eles sejam infinitos: abarcam muitas falas, temporalidades, desejos, ideias; frequentemente sobrepostos. Pessoas não são bem assim: acumulamos coisas e precisamos transbordar em outras terras. Meu recipiente é pequeno, e a vontade de conhecer o mundo é grande demais. Ainda não sei bem onde é o lugar ao qual pertenço.

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