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História

Amor pelo tênis

História de: Gustavo Kuerten
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2013

Sinopse

Gustavo recorda em seu depoimento a sua infância em Florianópolis, onde começou a jogar tênis, incentivado pelo pai. Fala sobre a importância de Larri Passos na sua carreira e do apoio que sempre recebeu da mãe e da avó materna. Recorda os primeiros torneios de tênis, suas vitórias em Roland Garros e algumas partidas emblemáticas em sua carreira. Com entusiamo fala sobre a trajetória do Instituto Guga Kuerten e o trabalho social desenvolvido por sua ONG.

 

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História completa

Eu nasci em 10 de setembro de 1976, aqui mesmo em Florianópolis. Meus pais são do estado, mas a minha mãe nasceu em Brusque e o meu pai é de Braço do Norte. São cidades, a distância quase equivalente, em torno de 150 quilômetros. Minha mãe é Alice Thümmel Kuerten, meu pai é Aldo Amadeu Kuerten, os dois de origens alemães, com algumas influências polonesas, austríacas.

Meu avô materno, eu acho que ele é nascido também em Brusque, mas não tenho certeza. A minha avó é nascida em Brusque, na mesma cidade que a minha mãe. Os meus dois avós por parte de pai são de Braço do Norte também. O meu avô paterno era muito envolvido com a política, foi deputado, prefeito, foi presidente da Câmara aqui durante um bom tempo, sempre envolvido com as pessoas. A minha avó, esposa dele, eu conheci pouco, e também nessa época, acredito, as mulheres também exerciam um papel já mais de mãe de família, tanto é que o meu pai tem oito irmãos, então é uma família grande.

A minha única, dessa geração a única pessoa viva ainda é minha avó. É uma super entusiasta do tênis, acompanhou toda a minha trajetória, desde pequenininho. O meu avô por parte de mãe eu cheguei a conhecer também, mas já faleceu. E nós não convivemos muito porque quando eu nasci eles já tinham se separado. Ele estava morando em São Paulo, a gente teve algum convívio com os filhos, irmãos por parte de pai da minha mãe, uma relação boa, mas nunca teve uma proximidade comum. 

O meu pai foi morar em Brusque e na época ele se destacava como jogador de basquete. Tem essas competições dos jogos abertos que acabam recrutando alguns jogadores. Ele jogava basquete, naquela época não existia um profissionalismo. Então ele foi contratado para jogar por essa cidade de Brusque e começou a dar aulas de basquete lá.

E conheceu a minha mãe. Ela frequentava o clube e também jogava vôlei. Teve algumas aulas de basquete com o meu pai e foram se conhecendo, sempre com a custódia da minha avó em cima dos dois. Então os dois saíram de lá para vir para cá, já morar em Florianópolis. A mãe fez faculdade aqui como assistente social.  Teve experiências no Rio muito precocemente, depois voltou para cá, continuou dando o desenvolvimento dessa parte de assistência social, foi funcionária, iniciou na companhia telefônica que existia aqui, estatal, que era a Telesc naquela época, depois acabou se aposentando na Telesc depois de muitos anos. Entrou no Instituto Guga e também já foi presidente da Fundação Municipal de Educação Especial.

Meu pai tinha um caráter de empreendedorismo. Iniciou uma empresa de esquadrias de alumínio, montava boxes e janelas, isso eu estou falando de 80. Aqui em Florianópolis, era ainda começando, ou talvez uma das primeiras. Porque todo mundo dessa época que eu comento fala: “Pô, meu, teu pai fez lá em casa o muro de ferro, tal”, “Teu pai fez lá em casa o box do banheiro”. 

Agora nós somos dois irmãos, mas eu perdi um irmão há cinco anos. Faleceu o nosso irmão mais novo, o Gui, que nasceu deficiente. Ele viveu 28 anos. Foi uma experiência marcante para as nossas vidas até hoje, o envolvimento, a relação com ele, forma de aproximação. Ele tinha microcefalia. Ele tinha uma percepção de vida que esses nossos pequenos atos já era o suficiente para ele está super feliz, confortável, satisfeito com o dia a dia dele e para gente já era um ensinamento contínuo. Ele foi um parâmetro, e principalmente quando eu cheguei no auge da minha carreira. 

Comecei no tênis muito cedo, o meu pai era fanático pelo esporte, por tudo em geral. O principal esporte dele era o basquete, mas ele se apaixonou pelo tênis já com uma certa idade,em torno dos 40 anos. Ele é o grande motivo de eu ter me tornado um jogador. Não existiria uma outra forma porque no início da minha carreira, 82, 83, para dizer, não carreira, mas na minha história de fase bebê dentro da quadra de tênis, com cinco, seis anos. O meu pai ficou um apaixonado pelo tênis, nos incentivou a jogar o tempo inteiro e não tinha muito nexo essa situação.

Meu irmão, que começou praticamente, nessa mesma faixa etária, com sete, oito. Eu já fui muito precoce, iniciei com cinco, seis anos, eu ia ao clube frequentemente, jogava duas, três vezes por semana, isso fez eu desenvolver já uma capacidade bem adiantada do que muitos dos outros garotos que eu conhecia na época. 
O primeiro torneiro foi ainda com o meu pai vivo. A primeira experiência num torneio mais marcante, que era uma viagem, um comboio, todo mundo indo junto aqui da cidade, foi em São Paulo. Mas eu tinha ainda seis para sete anos, super jovem, aquela brincadeira.

O meu primeiro jogo, obviamente, eu perdi, tinha seis anos. Joguei com um menino que tinha sete, oito anos. O pai vibrando ali, o outro pai do menino do outro lado. Depois a gente foi jogando até 14, 15 anos, a gente se enfrentava e mantém a relação com a família até hoje.  Até os 14 eu diria que eu viajava bastante, mas não tanto para comprometer a escola, conseguia gerenciar bem.

Tenho professoras que me marcaram, mas as minhas lembranças principais são esporte. Eu era o turista da turma, o último ano que eu completei eu fui 50 dias à aula. Tinha um respeito e relação com os meus professores de tanto afeto quanto quase idolatria. Na aula cada vez eu fui tendo menos contato.  Teve uma vez que eu fui três meses para Europa, já com 15, 16 anos, no terceiro ano do Estudo Complementar já, que é o último, levava as apostilas todas naquela época.  Então na minha trajetória foi essa, eu fui cumprindo com as minhas tarefas na escola, consegui me formar sofrido. Mas foi super valioso, até mesmo para eu desenvolver uma das minhas principais habilidades dentro da quadra, que foi saber solucionar as dificuldades, me livrar dos problemas, utilizar essa minha inteligência pro esporte que eu já estava aprimorando.

O Larri, ele encaixou literalmente na minha vida como, eu digo, como se fosse uma parcela do meu pai. Ele ocupou um grande espaço nisso, porque ele que conviveu comigo durante a minha juventude, muito mais do que qualquer outro ente familiar. O contato com ele começou através do meu pai também. Ele levou o Larri em casa quando eu tinha sete, fez um churrasco para o ele, querendo que o Larri viesse morar em Florianópolis para me treinar. E são duas coisas engraçadas, porque o meu irmão também se destacava bastante nessa época, mas o meu pai tinha uma convicção diferente comigo. Assim o Larri veio para cá com um jogador, que da época é esses que eu digo, que tinha 13, 14 anos, que o Larri já treinava.


A minha carreira é muito sistemática e progressiva. A única coisa de estranha que tem, que ainda bem que foi estranho assim, foi o Roland Garros. Esse 97 o natural era eu ter ganho dois jogos.  Eu acho que o fato do desconhecimento me ajudou bastante, para mim Roland Garros, se eu soubesse o que é Roland Garros hoje naquela época eu não teria ganho. Entrando numa parte mais técnica, um momento de inspiração excepcional, que eu consegui jogar tênis num avanço de dois ou três anos da minha carreira.  A primeira rodada era um jogo talvez mais parelho, mas a partir da segunda todos eram melhores do que eu. Então, e na hora que tinha que ser, o ponto mais importante, que eu precisa ganhar e não podia duvidar, eu ganhava.  Eu não tinha a mínima ideia de que era Roland Garros e que eu ia ser campeão de Roland Garros de verdade, como eu entendo hoje. 
Ganhei em 97 depois e já era o Guga do mundo todo.

Comecei a entender qual era a consequência dessa minha busca obstinada pelo tênis, que tinha esse reflexo mundial que eu não tinha ideia ainda. Eu com 12 anos tinha o McEnroe no meu quarto de um lado, o meu irmão tinha o Borg, mas é fantasia para mim. Não era. E essa emoção eu nunca senti tão forte na minha vida quanto nesse jogo, foi a maior de todas que eu tive. Foi o jogo mais profundo dentro de uma quadra de tênis, nesse sentido de integração com a torcida para o desempenho e a felicidade, pô, e eu joguei diversas vezes aqui no Brasil, mas aquele momento foi especial.

Em 2004 foi minha última grande aparição nas quadras. Eu tive mais, um lampejosinho em outros torneios, mas nada de especial. Aquele ano ainda foi quartas de final de Roland Garros, e bateu na trave ali, era um dos anos, assim como 99, que eu tinha chance de título, que não aconteceu. Cheguei a Roland Garros, jogando ainda tecnicamente bastante bem. Mas brinco, que eu falo saci pererê, meio que numa perna só. Ganhei um, dois jogos. E de repente fui jogar com o Federer e eu tinha, tirando todo o aspecto favorável de volume de jogo, ele ser número 1.  Então passei por ele, três a zero, minha última grande lembrança. Aquele Roland Garros bateu na trave ali com o Nalbandian nas quartas de final. Me escapou o set point para ir para o quinto set . Mas nesse ano eu não quero lembrar de uma partida que eu perdi, eu fico resgatando as lembranças desse jogo com o Federer.  Até hoje o cara não perdeu ainda antes das quartas de final, desde daquele jogo comigo que ele perdeu na terceira rodada. 

Durante o período de competição a gente não conseguia receber carta, porque a gente ficava pipocando para lá e para cá. Às vezes precisava mandar alguma coisa, tinha que mandar com um mês e meio de antecedência, mas no caso era alguma raquete, um tênis que precisava.  Chegava pelos Correios. Tinha época que botava ‘Guga’ na carta e chegava. Eu recebia carta do mundo todo, do Japão, do Oriente Médio, África. E constantemente ainda chega. O pessoal que pede autógrafo, uns que são colecionadores, uns que me viram jogando. Hoje em dia quem está mais próximo já se conecta de outra forma, mas ainda recebo ocasionalmente algumas coisas por via carta. Tinha época que chegava de tudo, brinquedo, presente, flor, carta, pedido de casamento. A minha mãe, ela gostava muito de ler, porque eu estava na correria também, volta e meia ela me mostrava umas coisas engraçadas para caramba.  Umas passagens, vinha também episódios tristes. Mas eu acho que é uma aproximação muito forte, o marcante é isso, as imagens que vêm à cabeça.

O primeiro patrocinador eu tive, o primeiro deles foi a Schlösser, que é a empresa que o meu bisavô fundou aqui, de tecido. Era uma ajuda simbólica, hoje seria, 300, 500 reais por mês.  Na minha carreira eu fui, se tiver que escolher entre média alta ou baixa eu tenho que escolher para alta.  Fui privilegiado em ter as oportunidades, até mesmo por esse caso de ter um certo apoio.  Então hoje até fica uma consequência natural de metas, tentar retribuir um pouco ao tênis, ao esporte, uma condição melhor para os jogadores. Teve uma situação muito difícil porque eu tinha um contrato de dois anos, que foram com 17 e 18 anos, eu, 93, 94 terminei entre os dez melhores do mundo juvenil. Durante todo esse período já era razoavelmente posicionado no profissional, mas a empresa cortou meu patrocínio. Foram os quatro ou seis piores meses da minha vida como tenista.  Um amigo meu, que tinha uma outra empresa que patrocinava ele, me levou pessoalmente até o patrocinador dele para meio que repartir a ajuda que ele tinha comigo. Aquele ato foi incrível, até hoje é um grande amigo meu, o Ricardo Schlachter. E o dinheiro ali fez a diferença para mim. 

O Instituto, coincidentemente, veio no ano 2000, no ano que eu me tornei número 1 do mundo, mas ele veio precoce a isso, são dessas tacadas de intuição que a recompensa vem a galope. A ideia de tentar retribuir sempre existiu, o ano anterior eu fiz um programa que era relacionado às partidas que eu ganhava ou aos aces, e doava uma quantia de dinheiro com o objetivo de fazer uma casa para os deficientes que eram órfãos, ou até mais alguns que eram mais velhos que queriam morar ali na APAE.  A gente decidiu: “Por que não fazer um Instituto?”, “Ah, vamos”. Fizemos uma pesquisa. Tudo foi muito mais complexo do que parecia, então montar o Instituto foi um desafio bem interessante. 

A missão do GK, ela continua a mesma do início: trabalhar com os deficientes, de qualquer faixa etária e crianças da escola pública. Nós ficamos com eles em parceria com as escolas, atendendo ou de manhã ou de tarde. Vinculamos os pais aos projetos, parece distante ou irreal, mas aqui em Florianópolis a gente lida com crianças com todos os piores tipos de problemas, envolvendo droga, envolvendo assédio sexual.
Tem esse projeto que eu acho fantástico, é um dos meus especiais do Instituto, que é o FAPS, é o Fundo de Apoio aos Projetos Sociais que vinculam os deficientes. A gente pegou o estado todo, repartiu em nove regiões, e dessas nove regiões todos poderiam enviar os seus projetos e tem um conselho que é formado para fazer o estudo e ver quais os projetos adequados para gente ajudar financeiramente, capacitação, tanto de montagem de projeto administrativo como depois prático, no dia a dia. A nossa relação com os Correios começou uns dois, três anos. Os Correios são patrocinador do tênis a mais tempo do que isso, então naturalmente a gente se aproximou nas atividades, os objetivos eram comuns, de desenvolvimento do tênis. Eles começaram já apoiando a gente na Semana Guga, que é um evento que eu faço aqui para os tenistas juvenis.

 

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