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Antonia Espínula

História de: Antonia Maria da Conceição Espínula
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/07/2005

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Identificação
Meu nome é Antonia Maria da Conceição Espínula, nascida no Estado de Alagoas, cidade de Água Branca, em 20 de agosto de 1953.

Família
Minha mãe é Maria Inácia da Conceição, e meu pai, José Francisco de Lima. [Eles nasceram] na cidade de Água Branca mesmo e se conheceram lá. Meu pai trabalhava na roça, era a única coisa que ele fazia; minha mãe também. Era roça de plantação de mandioca, feijão, milho, essas coisas. A família do meu pai era do sertão do Sul [de Alagoas], que eu não conheço. Era uma família pouca, não era uma família grande, tudo de lá mesmo, a do meu pai. Só da minha mãe que eu não conheci a família: eu não conheci minha avó, nem meu avô. Já tinham falecido. Quando meu avô faleceu, eu estava gerada em dois meses, eu não tinha nem nascido. Tenho seis [irmãos]: Carlos, Zuleide, Joana, Neuza e João. Eles [moram] aqui, só mora um lá no Norte. Estão todos aqui.

Infância e Adolescência
A casa [que eu morava], eu lembro o bairro, rua não tinha. O lugar que eu morava que tinha minha casa chamava-se Alto da Boa Vista. Era um sítio – hoje eles falam sítio, mas na época tudo era sítio, a gente comprava os pedaços de terra lá, tinha mangueira, bananeira, cajueiro, jaqueira. Era uma casa coberta de telha, feita de barro, as paredes – chama pau-a-pique, parece –, eu não me lembro muito, era uma casa que tinha dois quartinhos, uma sala e uma cozinha. As [nossas] brincadeiras eram de se esconder, subir nos pés de árvore, brincar em cima de casinha, no alto das árvores, mangueiras, jaqueiras, nossas brincadeiras eram assim. Eu brincava dentro das roças de milho, fazendo tranças nas bonecas de milho, nos cabelinhos, penteava os cabelinhos, fazia trancinhas; nossas brincadeiras foram assim, fazia bonequinha de barro, fazia boi. O dia-a-dia da casa era a gente brincando por debaixo das árvores. O que é quintal aqui, lá é terreiro. E a mãe ficava em casa, cuidando da casa, carregando lenha, lavando roupa. A lembrança que eu tenho de lá é que a gente era feliz, que a gente ia para as igrejas, assistir às rezas, aos terços. Cada mês lá tem uma festa de cada santo, então a gente participava muito. Eu andei muito na procissão da Nossa Senhora da Saúde – que é em Itacaratu, que fica lá no Ceará – é uma igreja, e eles vinham uma vez por ano, e ficavam um mês e a gente andando atrás da santa. Tanto eu tenho muita fé na Nossa Senhora da Conceição e na Nossa Senhora da Saúde, que me casei na igreja da Nossa Senhora da Conceição, me batizei na igreja da Nossa Senhora da Conceição, tenho a foto da igreja inteira, que eu nunca esqueci, da minha cidadezinha lá. Eu tenho muita lembrança de lá, das festas. As festas lá eram umas festas muito bonitas, tinha roda de fogo na frente da igreja, leilão –antigamente tinha muito dessas coisas, hoje você vai numa festa, você não vê nada mais – então tinham os leilões lá que eles faziam, levavam queijo, bolo, coalhada, frango, que as pessoas ofereciam, eram umas festas muito bonitas, com muitos foguetes, fogos e roda de fogo e aquelas coisas que eles fazem lá, de bonito, que fazem aqueles bonecos, tudo, no meio da rua. Tinha as pessoas que faziam e soltavam muitas bombas, fogueira de São João. Eu sinto saudades das festas de São João. Todo mundo ia na procissão, então umas festas nossas, de lá, eram essas daí, da igreja, nas novenas, a gente ia a pé, uma hora andando. Era uma caminhada, mas eu sei que era muito bom. A gente sentia necessidade, mas a gente era feliz. Tudo era uma festa. Tinha reza de Nossa Senhora da Santana, cada mês tinha uma festa, era muito bonito. Era não, hoje ainda é. E tem [festa] para lá, tanto que um mês, esse ano, eu tive vontade de ir lá, mas não consegui ir; pretendo ir esse ano. Eu tenho muita vontade de ir, de ver a família da gente e essas coisas. A gente não pode sair [daqui], mas se Deus quiser – meu marido ainda não conhece a cidade [Água Branca] –, a gente vai, porque até hoje tudo que eu senti, que eu tinha vontade, eu consegui: foi minha casa, minha família. É, [fiquei] trabalhando [na roça], eu trabalhava para outras pessoas lá, mas era longe – que a gente caminhava três léguas, acho que são três horas, não sei quantos quilômetros tem uma légua, chamava légua – a gente ficava a semana inteira nesse lugar. Eu trabalhava assim, minha vida inteira foi trabalhando na roça, por isso que eu também não estudei, eu não tive como estudar. O meu trabalho era raspar a mandioca para fazer farinha, era arrancar feijão, era quebrar milho; eu mesma tinha uma roça minha também, que eu fiz para mim, eu trabalhava sozinha. Na minha roça eu estava com 13 anos, eu tive essa roça [por] dois anos. Eu pedia para o homem, dono das terras, um pedaço para plantar, e ele me dava aquela terra da pior que tinha, porque era arrendada, eu não podia pagar. Ele me dava, mais ou menos, um pedaço de terra que desse para eu plantar um quilo de feijão, aí ele falava: “Vai plantar naquele lugarzinho para você”. Mas era uma terra que não dava, por isso que ele dava para mim. Eu plantava, limpava ela todinha, levava meu litro de feijão, plantava, eu sabia plantar tudo, roçava o mato, tudo. [Eu trabalhava] sozinha no mato, sozinha, isso eu estava com 12, 13 ou 14 anos. Com 14 anos eu vim para São Paulo, eu devia ter uns 13 na época, que foi por dois anos que eu ganhei esse pedaço de terra, eu repeti, plantei de novo, o milho estava bonito, aí vieram os bois lá, do próprio [dono da terra], comer meus milhos todos. Aí só sobrou o feijão. Com esse dinheirinho que eu comprava roupa para mim e ajudava minha mãe em casa também. Na época [eu recebia], não eram dois reais, era menos. Eu dava para a minha mãe, para comprar comida para comer, para os meus irmãos [comerem]. Eu era a mais velha, e o meu irmão mais velho não vivia em casa com a minha mãe. Ele vivia lá com uma família de lá também, só que ele não dava as coisas. Que esse meu irmão, ele hoje mora lá, as pessoas faziam a cabeça [dele] e ele aprendeu a não gostar muito da família. Ele ficou desligado da família, hoje ele tem a família dele lá e a gente está para cá. Eu que ajudava, trabalhava em troca de comida, para levar para os meus irmãos. Não ganhava dinheiro, o que eu queria [era] levar arroz, feijão – arroz não, que lá não tinha arroz, não dava – o feijão, o milho, eu levava. E quando comprava arroz, era um quilo só, para comer a semana toda, que servia de mistura. Na época a gente não comia arroz, a gente comia feijão com farinha mesmo e um pedacinho de carne assada. Usava as frutas do quintal sim. A gente vivia se alimentando de laranjas, manga, banana, mamão. A água lá era assim, quando chovia as fontes enchiam, quando estava aquele calorão – que passou uma época muito tempo sem chover – você tinha que esperar a água, as fontes eram limpas, aí ficavam minando as pedras de baixo para cima e a gente ficava esperando para trazer água, a noite inteira era fila de gente para conseguir [a água] para beber. Agora, lavar roupa, lavava nos riachos, aquela água corrente que saía descendo, suja, que não dava para beber, água salobra. Tinha vezes que era difícil, tinha uns lugares que juntava as águas que não eram boas, que não prestava para beber, e então lavava as roupas, lá a vida foi assim. A vinda para São Paulo foi assim: uma vizinha minha tinha uma família que veio para São Paulo, que morava aqui em Jaçanã, família grande desse povo. Aí veio uma moça que era casada com o irmão dessa vizinha minha – ele era cabo aqui em São Paulo. E ela foi para lá – porque ela era de lá – passear na casa da mãe. Ela tinha duas criancinhas, comprou passagem para a menina dela e pegou o nenezinho, que ela trazia no colo, e ela me chamou para vir. Eu falei assim: “Olha, eu não vou para São Paulo porque eu não tenho dinheiro”. E eu, nossa, tinha muita vontade de vir para cá Foi tanta história na minha vida que se eu for contar, eu preciso de um dia inteirinho e não vou acabar de contar. Tem uma história triste da minha infância: na época, lá em Alagoas, o meu pai, devido à doença dele – que meu pai foi casado pela segunda vez e ficou doente, e não pôde mais trabalhar na roça –, nós vivemos quase de esmola, o pessoal dando as coisas. E nós ainda éramos pequenos, eu estava com meus oito para os dez anos de idade. Meu pai ficou doente nessa época, aí ele pegou e vendeu a casa dele para o meu primo. Meu primo tinha muitas casas na região e toda casa que ele via barato, ele comprava. Ele foi na minha casa, ele viu a situação do meu pai, e meu pai vendeu a casa para ele, para ele ir pagando, toda segunda-feira dar um pouco do dinheiro, eu lembro que foi oito cruzeiros na época. Me lembro como hoje, assim como num sonho que você teve, que você não esquece, eu vejo tudo: meus irmãos pequenos, meu pai já velhinho, eu ficava no colo dele – eu lembro que ele me botava no colo e eu ficava, toda vez que ele chegava eu sentava no colo dele. Aí ele ficou doente, vendeu a casa para esse meu primo, para pagar 500 cruzeiros, [receber oito cruzeiros] por semana para fazer feira. Eles combinaram assim, durante o tempo que meu pai fosse vivo, a casa era do meu pai, e na hora que meu pai morresse, a casa era dele. E nós éramos cinco dentro de casa, porque esse meu irmão [mais velho] estava com essa outra família. Meu pai durou oito anos vivo ainda, ele não morreu dessa vez, parece que Deus prepara tudo. Quando meu pai morreu, que eu estava com 13 anos de idade, essa família – que é do meu primo – primeiro mandou as filhas dele todas irem lá jogar pedra para a gente sair da casa. Primeiro ele falou que ele fazia o enterro do meu pai, mas quando chegou na hora do enterro ele não queria fazer, só que meu outro tio falou: “Você vai fazer o enterro dele. Se você prometeu, você vai fazer” Aí ele fez, depois de dois meses, ele chegou na minha mãe e falou assim – ele era compadre da minha mãe: “Comadre, eu vou vender a casa, a senhora quer comprar a casa?” E minha mãe: “Compadre, como é que eu vou comprar a casa, se eu não tenho nem o que comer?” Ele disse: “É porque eu estou afim de vender a casa, eu preciso da casa”. A minha mãe disse: “É a única solução? Que eu tenho que fazer? Para onde ir?” “A senhora dá um jeito”. Depois de dois meses, o comprador da casa chegou com a mudança. Nós tivemos que tirar tudo o que a gente tinha – coisinha, não tinha quase nada: não tinha mesa, não tinha fogão, não tinha nada – só panela velha, prato e roupa velha que a gente tinha, que ganhava. Aí pus tudo dentro de uma mala (lá isso chama baú), levamos para debaixo do pé da jaqueira. Aí nisso, os vizinhos falaram assim: “Põe a mala aqui”. Aí minha mãe pôs a mala com as roupas velhas dentro da casa da mulher [da vizinha] que falou para deixar lá, e nós ficamos debaixo do pé de jaqueira, cozinhando ali. À noite, o vizinho, [um dos] outros vizinhos, falou assim: “Olha, duas meninas dormem aqui comigo, os outros dois a senhora arruma lugar para dormir com eles lá”. Porque comida de pobre lá, na época, era feijão só com farinha, que era comida que a gente comia e dava graças a Deus de ter, e a gente comia e era feliz – graças a Deus eu sou feliz. Tudo que eu passei, eu agradeço o que eu tenho hoje – graças a Deus. Aí a gente pegou e ficou debaixo dessa árvore lá, e um compadre da minha mãe – um outro, não o primo – falou assim: “Comadre, se o José Basílio...” – ele chama José Dourinho, esse meu primo – “se ele me der as madeiras...” Porque ele tinha muito madeiramento, mata: “Se ele me der as madeiras, eu faço uma casinha para a senhora aqui nesse terreno”. Que aquele terreno, que tinha do lado, era de uns irmãos que eu tinha aqui em São Paulo. Quando a mulher dele morreu – a do meu pai, a primeira –, foram divididos aqueles pedaços para eles, aí minha mãe escreveu para a minha tia, minha tia entrou em contato com eles aqui, e eles falaram: “Pode deixar eles morando que a terra é nossa, eu nunca vou tomar esse pedaço deles. Aí vocês pegam e constroem uma casinha lá”. Esses irmãos que nem conheciam a gente, que eram filhos só do meu pai, que foi ficou viúvo e que depois que conheceu minha mãe lá e casou, que ajudaram a gente. Aí esse compadre da minha mãe fez a casinha para nós bem baixinha, um quartinho que só cabia a cama, a salinha e um fogão de lenha. A gente vivia assim, lá naquela casinha, até eu vir para São Paulo.

Formação Escolar
Eu tinha muita vontade de estudar, mas na época, eu não tinha nem roupa para ir para a escola, não tinha material – caderno, lápis e borracha, que era o principal –, só que a professora falava para os meus pais: “Manda a menina ir para escola que ela é muito inteligente, a gente dá lápis para ela e os cadernos”. [Para ir para a escola] tinha que descer uma ladeira de quase uma hora. Era uma escola que tinha as professoras de antigamente, que davam [aulas] nas suas próprias casas. Era escola assim. Um pouquinho que eu aprendi lá, que eu estudei, que eu consegui indo assim, eu aprendi a fazer [escrever] meu nome. Vim para São Paulo já sabendo fazer meu nome. Quando foi no segundo ano, uma madrinha que eu tinha aqui em São Paulo, que hoje já faleceu, me prometeu o livro, ela me deu o livro. Aí foi nessa época que eu vim para cá, e não estudei mais, fui trabalhar em casa de família. Lembro [de uma professora] que era muito legal, ela era muito boa, era uma professora que ensinava mesmo – graças a Deus, todo mundo gostava de mim lá –, tanto que essa minha professora, tinha vez que ela própria me levava para a roça para trabalhar, devido à [minha] necessidade. Eu não tinha nada, roupa, eles me levavam e me davam uma coisinha, me davam até comida para eu levar para os meus irmãos em casa. Era assim, tinha vezes, quando era época de férias, que eu ficava com ela lá, ia com o marido dela para a roça, ia só eu, olha como é que é hoje e [como era] antigamente, como é diferente o respeito: ele me levava montada na garupa do cavalo dele, eu trabalhava sozinha com ele na roça, plantando feijão, quebrando milho, na época, catando algodão, ele me levava, e ela ia me levar o almoço. Eu ficava o dia inteiro lá com ele, a gente sozinho. Quando [alguém] dava é que eu tinha a roupa, o sapato, para eu não ficar descalça na escola. Quando não tinha, eu não ia para escola, eu faltava às aulas, não passava de ano. Não tinha outro jeito. [A escola] era uma casa com as cadeirinhas, tinha escola lá que cada um levava seu banquinho, na época era assim, cada um levava sua cadeira. Agora, quem não tinha cadeira, a professora arrumava. Eu não tinha, mas a maioria levava seu banquinho e deixava lá o ano inteiro, durante as aulas. Deixava já na sala dela. Era banco mesmo, sabe? Tamborete que chama – que tem pessoas que não sabem o que é tamborete. Para voltar a estudar foi assim: quando eu fui trabalhar no Pacaembu, eu trabalhei nessa casa e era para eu ser copeira. Mas a copeira precisava atender telefone e eu não sabia anotar os recados. Só que a mulher me colocou [para atender o telefone] – hoje ela já é falecida, eles [os donos da casa] já morreram todos. Ela arrumou uma escola para mim, no Colégio São Luís. Só que uma empregada dela, que foi criança para lá – sabe aquelas pessoas que não queriam ver ninguém bem? – ela falou que ela queria voltar para lá. Ela trabalhava com a filha dessa mulher, que estava nos Estados Unidos, e ela não ia ficar sozinha na casa. Por ela saber que eu ia para escola e tudo, que a mulher arrumou escola para mim de dia, ela fez com que eu saísse da casa. Quando eu me casei, eu pedi para o meu marido também – porque logo eu fiquei grávida, era minha primeira filha, eu não tinha como estudar. Depois que eu tive meus filhos, eu queria ir para a escola, porque tinha o Mobral [Movimento Brasileiro de Alfabetização] perto da minha casa. Aí eu fui à noite para esse Mobral. Fui receber o diploma da quarta série lá, que foi onde eu aprendi. Depois eu entrei no supletivo lá no Jaraguá, um colégio, aí eu estudei mais um ano e aprendi mais um pouquinho. Mas devido a um problema de saúde, de pressão, minha cunhada faleceu ... Eu perdi o ano. Aí eu não voltei para a escola mais.

Vida profissional e Trabalho
Até eu vir para São Paulo, fui trabalhando e fiz amizade com uma dona da padaria lá, e comecei a vender pão. Aí o dinheiro dos pães era para mim. Eu trabalhava a semana inteira na roça, para o povo, para aqueles que tinham dó [da nossa situação] – porque não era todo mundo que me chamava, eu ainda era fraquinha, não tinha força para fazer o serviço que uma pessoa adulta fazia –, mas eles me chamavam mais por dó para trabalhar, para eu ganhar alguma coisinha. Aí eu comecei a vender pão, e [com] esse dinheiro eu comprava roupa para mim, que foi [quando] eu comecei a ir para as festinhas. Eu até fui nesse lugar em Itacaratu, eu fiz uma promessa, e eu cheguei a ir lá, fiquei dois dias na casa de umas pessoas, e com o meu dinheiro do pão, paguei a caminhonete que levava as pessoas. Fui uma vendedora de lá para cá, e até hoje eu sou vendedora. E eu vendia [bem], vendia 120 pães por sábado e domingo, aí eu ganhava 20%. Vendia e entregava nas casas; comprei um balaio. A dona da padaria primeiro me deu um balaio para começar. Com o dinheirinho que eu ganhei, na primeira semana, eu comprei um balaio e um saco, alvejei ele – porque lá não tinha esses negócios que clareiam, era no sabão e no sol – ficou branquinho, para eu cobrir os pães: “Como é que eu vou vender os pães dentro de um cesto puro?” Na outra semana eu já comprei uma toalha de plástico, porque o dia que chovesse, cobria os pães para trazer. Era um cestão. Eu chegava com o meu pescoço doendo em casa, porque lá era pão doce, antigamente tinha pão doce, pão crioulo, pão aguado, que chamavam assim, e bolachão. [Pão aguado] é esse pão hoje [pão francês daqui]. Crioulo é aquele que tem duas bandinhas, que aqui chama sovado. Eu levava a cesta na cabeça, aí comecei a vender; o pessoal todo comprava. Aí tinha um homem que [também] vendia pão, só que ele vendia dentro de um saco, um senhor moreno, de idade já. Os pães dele ficavam todos amassados, porque ele jogava o saco nas costas, e eu, com meu cesto bonitinho, todo mundo [vinha comprar], peguei a freguesia do homem toda. Um dia esse homem, ele me encontrou dentro de um caminho – porque são poucas casas, você tem que andar muito. Subia e descia para vender os pães, para estar lá na segunda-feira e dar o dinheiro para a dona da padaria. Chegava na segunda-feira, era dia de feira o dia inteiro. Até hoje é a feira na segunda, na minha cidade. Aí eu recebia do povo na feira. Estava [ficava] atrás das pessoas porque o povo pegava tudo fiado, [então eu] recebia o dinheiro e levava lá para a dona da padaria. E esse homem, ele me encontrou assim, num lugar estranho, e falou assim: “Escuta aqui menina, você tomou minha freguesia, não é?” Eu falei: “Não, eu não tomei sua freguesia”. “Tomou, porque ninguém compra pão de mim mais”. “Ué, mas eu não tenho culpa, se o senhor não vende seus pães”. “Quer saber de uma coisa menina? Tu vai vender pão no inferno, viu?” “Vá vender o senhor que sabe o caminho” Eu falei assim para ele. Eu não tinha medo. E se ele me desse uns tapas lá no meio do caminho? Ninguém ia ver. Nunca mais eu vi esse homem, ele não foi mais. Ele chegava com o pão todo amassado, o pessoal não queria. Os meus estavam todos inteiros, todo mundo comprava. Eu vendia [muito], aí eu vim para São Paulo. Minha mãe, minhas irmãs, ficaram lá vendendo os pães, e eu busquei tudo para cá, quando eu casei. Eu vim completar 15 anos aqui em São Paulo. Vim [para] trabalhar. Eu estava com 14 anos eu ia completar 15 em agosto. Eu vim [para São Paulo] em março, dia 20 de março – eu lembro do dia certinho que eu saí de lá. Aí eu vim e minha tia tomou um susto quando soube que tinha uma sobrinha dela aqui em São Paulo. Ela trabalhava em casa de família, não tinha como deixar eu na casa. Aí eu fiquei na casa dessa pessoa [que me trouxe de Alagoas] uma semana, depois minha tia conversou com a patroa dela, me trouxe, e a patroa dela me arrumou serviço de babá. Essa mulher, que trabalhava na Rua Rio de Janeiro, e a [patroa] da minha tia faziam cabelo no Clube Paulistano. E ela conversando lá, uma moça falou assim: “Olha, minha cunhada está precisando de uma babá, mas ela paga pouquinho”. Eu falei: “Imagina, qualquer quantia para mim está bom”. Comecei ganhando 40 cruzeiros, na época. Trabalhei na Consolação, lá embaixo. Essa mulher que eu trabalhei na casa, ela se chamava Diva, o marido dela era compositor do Roberto Barreiro, ele chamava Samuel Lila, não sei se você já ouviu falar. E eu tenho saudade das músicas do Roberto Barreiro, porque eu nunca mais ouvir tocar. Eu nem sei se ele ainda existe, esse artista. Ele era compositor das músicas dele, e morreu. Nesse serviço eu fiquei seis meses só, porque eu já arrumei um outro serviço para ganhar dobrado, aí eu saí de lá, mas eles eram umas pessoas boas. Das casas todas que eu trabalhei, eu tenho lembrança. Eu cuidava duma menina que chamava Alexandra. Ela era filha de uma italiana, nunca mais eu vi essa menina desde que eu casei. Eu tenho saudades dela, tenho a foto dela, que eu falei que um dia eu ia pôr ela na internet, ia procurar ela, porque ela me chamava até de mamãe. Depois o meu patrão, na época, ele desempregou, e foi embora. Eu sei que surgiu um monte de coisa, eles sumiram – ela era italiana, não sei se foi para lá, só sei que tinha essa menina. Depois disso, eu fui só babá na mesma família, da casa que eu [trabalhava quando] casei e... até hoje. Aí fui babá dos meus filhos. Eu trabalhei assim, na época, quatro anos.

Namoro e Casamento
Sou casada. Meu marido se chama Geraldo Evangelista Espínula, a profissão dele era soldador. Hoje ele é um taxista, devido [ao fato de] que ele não conseguiu emprego de soldador mais. Tenho quatro [filhos]. A minha primeira filha chama-se Rosângela, [depois tem] Ricardo, Roberlei e Roberta, [a] caçula tem 24, vai fazer agora em agosto. A mais velha fez 31, o meu outro, o segundo, fez 28, e o outro vai fazer 26 agora. Meu marido, eu conheci trabalhando ali no Pacaembu. A cozinheira da casa morava lá onde eu moro, lá no Jaraguá. Um dia ela falou para mim: “Ô, Antonia, vamos na minha casa”. E minha tia – eu vivia com a minha tia, final de semana – tinha namorado, ela já estava cheia de mim: “Você precisa arrumar um namorado”. Eu sempre tive medo de namorar porque nunca tinha namorado, vou pegar o primeiro que eu nem sei de onde é que é? Aí essa minha amiga que trabalhava comigo falou: “Ô, Antonia, vamos na minha casa, lá é tão gostoso, tem minhas irmãs, tem bastante rapazinho que vai lá na vila”. Porque antigamente eles ligavam a vitrola e dançavam o baile, eu era doida para dançar, porque lá no Norte eu dançava. Depois das novenas tinha baile, dança com sanfona. Se eu gostava? A melhor coisa da minha vida era dançar Aí eu falei para a minha tia: “Ah, tia, eu vou com a Angelina lá para a casa dela”. Essa mulher, ela já faleceu também – ela tem família, mas ela faleceu –, me levou para a casa dela para conhecer a família. E nesse dia eu conheci meu marido, lá na casa dela. Quando eu vi meu marido, eu olhei para ele, ele parecia ser um homem casado, com a calçona toda larga, eu falei: “Ih, esse é um velho, esse daí”. Ele começou a gostar de mim; na outra vez que eu fui, ele já foi me levar em casa, no meu serviço. Aí começamos a namorar: “Eu posso levar você na sua casa?” “Pode”. Mas ele nunca falou que estava namorando comigo. “Posso levar você no cinema?” “Pode”. Aí ele pegava na minha mão, botava minha mão atrás das costas dele para eu abraçar ele. E a vergonha? Eu não abraçava, custou para ele me dar um beijinho aqui [no rosto], eu ficava com vergonha dele. Depois ele falou: “Eu vou conversar com a sua tia, para nós ficarmos juntos, saindo, não é?” “Está bom, pode ir”. Ele também não falou que nós estávamos namorando. Minha tia fez um sermão para ele, falou que ele tomasse cuidado comigo, que eu era uma menina pura, aí ele me respeitou até o fim. Nós namoramos quatro anos, graças a Deus, ele me respeitou que nem fosse filha, casamos e graças a Deus, hoje nós vivemos bem. Depois de falar com a minha tia, ele me convidou para ser noiva dele, depois de dois anos, e eu falei: “Você ainda nem falou de namoro para mim, você já está querendo ficar noivo?” Aí ele brincou comigo: “Você quer namorar comigo?” Porque ele nunca chegou a falar nada, a gente foi tendo amizade, saindo junto. Aí ele me levou para Minas, para conhecer os pais dele. A irmã dele estava aí, ela me acompanhou, porque eu era menor, eu não podia viajar com ele sozinha. E nem eu ia, porque na época não tinha essa liberdade de um namorado sair com a namorada e chegar na casa dos pais, porque os pais iam se assustar. Tinha respeito antes. A irmã dele foi comigo e a gente ficou noivo lá em Minas, lá numa cidade que chama Matinho. Tanto que, quando eu casei, o pessoal falava: “A sua lua de mel foi aonde?” “Foi no Matinho”. Aí as pessoas: “Ué, você é doida, falar que casou no matinho?” “Num lugar que chama Matinho, lá em Minas”. Eu falo isso, Matinho, e as pessoas já têm maldade mesmo. [Eu me casei com] 19 anos. Eu comecei a namorar com ele com 15 anos, ainda ia completar 15, quando eu conheci. [Logo] tive minha filha, que foi a primeira. Foi assim, casamos e fomos construir uma família. Tenho duas netas maravilhosas, uma chama-se Maria Gabriela e a outra Yasmim. Essa Maria Gabriela foi a história da minha vida também. Eu queria pôr o nome dela de Maria Gabriela, a mãe não queria. Aí eu fiz um pedido para ela, porque ela nasceu no dia da Mãe Rainha e ela queria pôr Gabriela. Eu falei: “Não, põe Maria Gabriela, não tem problema”. Ninguém chama ela de Maria Gabriela, mas eu só chamo ela de Maria Gabriela, eu não sei falar: “Como é o nome da sua neta?” “Gab... Gab...”, não sai só Gabriela, sai Maria Gabriela. Eu ensino para ela: “Quando perguntam seu nome, diga Maria Gabriela”. Antes, quando perguntavam, ela: “Maria Bribiela”. Ela não sabia falar os dois juntos. Mãe Rainha é uma santa, a Maria, então ela é uma santa, a igreja do nosso bairro é da Mãe Rainha.

Ingresso na Natura
A Natura chegou assim: eu tinha uma amiga minha que vendia Natura. Eu vendia Avon, eu comecei a vender Avon. Ela disse assim: “Você não usa Natura?” Eu falei: “Eu nem sei o que é Natura”. Ela disse: “Natura é um perfume”. Aí ela me mostrou a revista e as fragrâncias, eu gostei do Ramage, foi o meu primeiro perfume. O que eu usei da Natura foi o Ramage. Eu comprei o perfume da mão dela, esse perfume tinha que durar um ano, porque ele era... Diferente dos outros que eram mais baratinhos. Eu só usava Natura, mas eu vendia Avon para todo mundo; depois eu resolvi usar, o pessoal achava o cheiro gostoso em mim, aí eu falava: “É Natura”. “Ah, mas é Natura?” “Você quer Natura? Então, espera aí”. Fui pegando a revista [a Vitrine] dessa minha amiga, eu vendia para ela, fui começando a mostrar Natura e entrei direto vendendo Natura [como consultora] e, graças a Deus, hoje eu tenho um emprego, porque eu nunca trabalhei depois que eu casei. E hoje, graças a Deus, eu falo para todo mundo que eu sou empregada, que eu tenho meu dinheirinho, nunca faltou dinheiro para mim; a partir desse momento, juntei dinheiro. Eu já fiz muitas coisas com [o dinheiro] da Natura, graças a Deus, porque eu sei trabalhar com a Natura. Antes eu já vendia, eu sei como que se ganha dinheiro (risos). Não me lembro da data certinha que entrei na Natura – tem horas que eu tomo tanto remédio, que me foge da cabeça –, tem oito anos que eu entrei, parece que foi no mês de março, por aí. Eu fiz uma viagem para Porto Seguro, em janeiro, oito anos atrás, e quando eu cheguei (janeiro para fevereiro) eu entrei.

Trajetória profissional na Natura
Eu falo muito [da Natura] para as pessoas porque, às vezes, as pessoas falam assim: “Ai, mas eu não tenho dinheiro, estou sem emprego”. Porque eu ofereço perfume e mostro: “Ah, se eu estivesse trabalhando...” “Você não está trabalhando?” Elas falam: “Não”. “Você não quer vender Natura? Natura é um emprego, você vai ganhar, você vende tanto, você ganha tanto, e tem as promoções que você pode comprar e vender para outro, que você ganha”. Então eu já levei muita gente para a Natura, [pessoas que] eu conheço, pessoas [que] nem conheço, que eu ouvi falar que está desempregado, eu dou o meu nome todo para ela, completinho, e falo: “Se você resolver entrar na Natura, você dá meu nome, em tal lugar tem o escritório, então você liga direto e dá só meu nome”. E, às vezes, eu recebo muita cartinha da Natura, de pessoas que eu nem sei quem são, agradecendo. E eu lembro [da primeira caixa] nossa Eu não via a hora de abrir a caixa, porque a primeira vinha [com] aqueles sabonetes, vinha uma colônia – o Kaiak, na época, um sabonete daquele de mão (o Erva Doce) e o óleo Sève. Eu não via a hora de abrir aquelas coisas e ver o kit que estava lá dentro, e com aquele kit que eu inteirei para fazer os pontos que eu tinha pedido, inteirei o primeiro mês, fiz 85 pontos e comprei o resto [para inteirar os cem pontos] e foi assim que eu fui começando. Eu falei: “Ai, meu Deus, será que esse mês eu vou vender? Eu vou vender sim” Eu tinha muita fé, quando eu falei: “Eu vou vender, eu vou conseguir” Eu consigo e consegui, eu não tenho medo, eu faço cada loucura, que eu falo: “Será que eu vou conseguir?” Chega no dia, dá tudo certinho, foi de lá para cá que eu comecei. [Faço consultoria] mais no Jaraguá. Só que por onde eu ando, Jardim Macedônia – onde eu tenho parentesco de família – eu sempre estou oferecendo, estou levando. Eu ligo lá, tem pessoas que moram na cidade [no centro], minha tia trabalha, eu falo para ela levar [a Vitrine], as pessoas compram e ela leva. Eu faço tudo o possível, [faço] o que eu puder. Eu estou fazendo porque eu acho que, se a gente está lidando com essas coisas assim, quanto mais você tem amizade e demonstrar o seu produto, melhor para a gente. Que tem pessoas que nem sabem o que é Natura, e é bom a pessoa saber. Tem pessoas ainda hoje que não sabem, porque tem um produto que chama In Natura, eles confundem muito esse com a Natura, eles acham que esse é a Natura, e não é, chama In Natura, é uma revista. Um rapaz ligou para a minha casa, ele disse que pegou meu nome no computador, disse que sabe que eu sou vendedora de muito tempo disso e daquilo, se eu não gostaria de entrar. Aí eu não me interessei não, porque eu falei: “Eu já vendo Natura, eu não quero misturar”. Eu dispensei ele, falei que já era muita coisa para mim e que eu preferia ficar só com a Natura mesmo. Se eu pegasse outro produto, iam cair minhas vendas da outra parte, e eu preferia ficar assim. E ele não ligou mais. Tem pessoas que ainda falam para mim desse daí [In Natura], aí eu falo: “Não é esse aí, é outro”. Eu não sei, eu acho que ele é desconhecido, não sei se vocês conhecem, foi até da [região] da Paulista que ligaram para mim. [O número de clientes que atendo] varia, umas 30, 40 pessoas [por mês] que compram; [quando o produto] acaba, vem de novo me procurar, aí eu vou fazendo mais divulgação. [Os clientes] não são exigentes, as únicas coisas que exigem é a sacolinha, porque eu acho que a vendedora que tem seus produtos, seja lá qual for, tem que ter sacolinha. Fica mais chique para você entregar um produto na sacolinha, não é você ir pegando uma sacola no supermercado e dar [com os produtos dentro]. Eu fico feliz quando uma pessoa sai da minha casa com uma sacolinha da Natura na mão. Eu compro ela separado. A gente compra e fica bonito, não é verdade? Na minha família não tem outras pessoas que sejam [consultoras], só eu que sou. Sei que tem muitas coisas, tanta coisa bonita que eu poderia ainda contar...

Relacionamentos Natura
Eu peguei uma promotora muito boa, porque a Gilséia – eu falo muito bem dela para todo mundo, porque é difícil uma promotora do jeito dela – é muito amiga da gente. Não digo as outras, mas como tem consultora que vende com as outras promotoras, elas falam que as promotoras delas não são do jeito que eu falo que a minha é: “Nossa, sua promotora fez [tal coisa]?” “Fez, ela faz muita promoção para a gente”. Ela liga para a gente, ela fala, ela incentiva, ela é uma pessoa legal. Reunião mesmo, eu só vou no meu setor. Agora, [com] as outras promotoras, eu nunca participei. Eu, às vezes, convido essas meninas que vendem para mim, que me ajudam, eu chamo elas para irem na reunião, mas elas nunca podem. Eu falo: “Vamos lá para você conhecer os produtos”. Eu chamo as pessoas que compram o produto para irem conhecer, só que tem pessoas que nunca têm tempo, tem pessoas que o tempo delas é sempre para a casa, para a televisão. Eu não tenho tempo de televisão – para ficar assistindo –, porque da minha vida eu não dou conta. Eu atendo as pessoas que chegam, eu vou para o banco pagar, eu vou buscar o dinheiro, faço muita coisa, e tem as outras reuniões que eu freqüento. A Gilséia me convida para ir à Natura e eu vou. Nunca deixo de ir, porque algumas coisas você vai aproveitar se for. Eu sinto que, indo, eu vou procurar me distrair mais e aprender. Se eu receber esses convites – porque eu gosto de ir nos convites [ir onde sou convidada] – para esses eventos, todos os lançamentos dos perfumes, o show-room, eu nunca deixo de ir. Tem um negócio lá na Natura que [eles fazem] demonstração do sabonete que saiu, das coisas novas; eles convidam a gente e eu acabo indo para a oficina de perfumes. Eu nunca deixo de ir, porque eu gosto de aprender mais coisas e para mim, como eu não tenho uma leitura, me entrosando no meio das pessoas que sabem eu aprendo também, procuro me distrair e aprender. Onde eu estou eu faço amizade, então as pessoas que ficam do meu lado estão sempre dando risadas. Seja dentro do ônibus, porque eu conto histórias de coisas que aconteceram, elas acham engraçado e ficam dando risada. Eu nem acho graça, elas riem, eu falo: “Ai, meu Deus do céu”. É igual o filme daquele homem engraçado, que já faleceu, do Mazzaropi, todo mundo dá risada e eu não consigo. Eu dou risada porque eu vejo os outros rindo. Tem umas coisas que acontecem com a gente, que marcam, coisas de você viajar com as promotoras, com as colegas de trabalho, a gente vai junto com elas... Nossa, eu nem imaginava que a Natura era o que ela é hoje. Eu imaginava uma coisa diferente, porque essas coisas que eu vendia, eu nunca tive convite para participar igual eu tenho da Natura. Então essas coisas que eu vou, que a promotora me convida, isso tudo me incentiva, você tem mais alegria, você sente mais prazer de estar no meio das pessoas num lugar lindo, maravilhoso. Só de entrar ali dentro, você já fica leve. Eu me sinto leve quando eu entro na Natura, eu me sinto tão feliz lá dentro, que eu me sinto grande, enorme lá. E eu converso com todo mundo, eu faço amizade com as pessoas, você conhece bastante amigas de trabalho, que vendem, e faz amizades. Eu estou sempre brincando, não sei se a Gilséia já falou para você, mas nada para mim está ruim. Se eu estiver com dor de cabeça, eu fico quieta um pouco, e daqui a pouco eu estou bem, tomo o remédio e já volta tudo ao normal. Eu sou assim, eu animo as pessoas também. Tem pessoa que está triste: “Você está triste?” Às vezes, eu estou até pior. “Por que você está assim?” Mas a vida é tão boa, que conversando com a pessoa eu melhoro, eu fico bem também. É, porque eu fico: “Ai, meu Deus”. Estou lá embaixo e a pessoa diz [alguma coisa que] me derruba mais? Não, eu procuro animar a pessoa, mesmo que eu esteja lá embaixo, porque, às vezes, a gente não está bem mesmo de saúde, e as pessoas falam: “Nossa, você pensa assim?” “É, eu penso assim”. Falo minhas besteiras, falo cada uma que as pessoas morrem de dar risada. Meu marido: “Você é louca? Você me deixa morto de vergonha”. “Não deixo não, meu filho, a realidade é essa”.

Linhas e Produtos Natura
Os [produtos] mais conhecidos no meu começo eram o Kaiak, o óleo de calêndula [óleo Sève], que era o que eu mais vendia na época, e uma colônia que eu não estou lembrada mais do nome. O produto que tem o meu jeito? Sei lá, eu acho que é o Kriska Jeans. Eu vendo muito ele também, e essa colônia que eu te falei, Ramage. Agora tem outros perfumes gostosos que saíram, eles fizeram muitos, então para falar a verdade eu acho que todos os perfumes da Natura têm o meu jeito, todos, porque eu gosto de todos... Adoro o Tarot. Os que eu vendo mais, para falar a verdade, são da linha masculina: o Kaiak, o Sintonia, o Hoje. Eu vendo todos, mas o que sai mais, o que eu peço bastante e vendo tudo, quando eu vejo já não tem mais nenhum, é o Kaiak mesmo. Os mais conhecidos são o Kaiak, o Sintonia, que as pessoas me pedem muito, o Horus – que antes tinha aquele outro que tinha o cheiro do Horus, era um outro [Rarus]. Eu sei que todas as pessoas perguntam: “Ah, eu gosto desse. Você tem esse perfume?”. “Tenho”. Mas os mais conhecidos mesmo são esses [perfumes] aí. O Sr. N, que é o desodorante que as pessoas compram muito, o Kaiak, é o desodorante que eu vendo mais, e o Sintonia que está saindo muito. O pessoal pede muito o Sintonia. Agora, esses outros novos, a gente ainda não tem a base, se vai ser igual, porque vende bastante também. O Kaiak Aventura também está saindo bem. Com [o refil, a venda] facilita muito. Tem pessoas ainda hoje que não sabem que tem refil, então a gente, que é boa vendedora, tem que explicar, para ajudar as pessoas. Porque as pessoas, vamos supor, compram o desodorante e não sabem que tem o refil, então ajuda muito porque eles se incentivam a comprar mais, porque sai mais um pouco mais barato e eles acabam comprando mais, eles acabam usando mais porque sabem que o refil é mais barato. Eu acho que todos [os produtos] deveriam ter, agora os perfumes eu não vou dizer, porque perfume com refil não pega bem. As pessoas já me perguntaram: “Não tem refil?” Eu falei: “Não tem”. [As pessoas] pedem o refil.

Dicas e Estratégias de vendas
Você tem que ter as manhas para ir ganhando, porque eles oferecem muita coisa boa para você. Ela dá aquelas promoções de pontuação se você vender tanto; [dependendo] dos pontos [que] você fizer, você ganha. E eu fui juntando com as promoções e consegui juntar muito, e graças a Deus eu tenho o meu estoquinho em casa. Quem pede, eu já tenho para entregar, quando acaba eu já estou pedindo de novo, já renovo tudo; aqueles que eu não tenho, eu já vou vendo que não tenho e já coloco lá e, assim, eu atendo todo mundo, graças a Deus. Vendo bastante para homem, para criança e para senhora de idade, eu estou oferecendo duas amostrinhas para eles sentirem, eu falo: “Não é obrigado a comprar, você sente o cheirinho. Se você gostar, você me procura”. E assim eu comecei, fazendo amizade com as pessoas. [O meu relacionamento com os clientes] é com brincadeiras o dia inteiro. Quando eu estou vendendo, incentivo, falo para eles que pessoa perfumada é outra coisa. [A pessoa de] cabelo limpo... cheirosos, principalmente os homens. Eu passo perfume neles, as amostrinhas, no braço deles com a minha mão bem levinha. Muitos vão até minha casa [buscar os produtos], porque eu passo meu telefone, sabem que eu tenho meu estoque lá, eles pedem de última hora: “Ah, eu preciso amanhã dar um presente, você tem isso?” “Tenho”. Quando não tem [no estoque], eu incentivo a comprar outra coisa, porque não é tudo que você tem [em estoque], eu compro um pouquinho de cada e conforme sai, eu pego de novo. Eu faço [estoque] porque vendo mais assim, em casa, do que na revista [na Vitrine]. O que eu [mais] tenho [no estoque] é o sabonete Erva Doce, os desodorantes e o refil, [que] são os que mais saem, e tenho um pouco de cada perfume. Os perfumes mais caros, eu pego dois, três, daí quando só tem um, eu vou e peço de novo. Eu vou fazendo assim, eu fico olhando, porque se o cliente pedir, eu tenho lá, eu não vou deixar ele sem, eu sempre deixo um de reserva. Tem um lá, eu vou e compro dois; se tem promoção, eu compro mais. Shampoo eu também tenho, tenho refil, a única coisa que eu não gosto de deixar lá é batom e maquiagem, porque as pessoas pegam coisas diferentes; esses aí eu não deixo não, eu deixo pouquinho lá e, como eu faço o pedido e a entrega é rápida, eu pego e já faço um pedido rapidinho e já chega, está na mão. “Amanhã seu produto já está na mão, não se preocupe, porque eu dou um jeito de chegar”. Em alguns lugares eu vou levar [o pedido para o cliente], outros vêm buscar em casa, porque eu ligo: “Olha, seu produto já chegou”. Se a pessoa pedir para eu levar, eu vou levar. É tudo perto. Agora, se é longe, eu procuro levar de carro – eu vou levar, não é por isso que a pessoa vai ter que vir buscar: “Pode ficar tranqüilo, você quer para que dia?” “Tal hora”. “Posso levar de noite?” “Pode”. “Estou indo levar”. Não tenho hora de entregar também não. Eu trabalho assim: dou para as minhas amigas venderem, aquelas que não querem entrar direto [como consultora Natura], elas também me ajudam. Não vou dizer que sou só eu, porque elas, essas meninas que vendem, são minhas companheiras também de trabalho. Para elas é bom, eu dou o dinheiro delas, eu também ajudo. Elas me ajudam e eu ajudo elas. Acabo ajudando elas mais que elas me ajudando, porque eu incentivo elas a usarem o produto também – porque elas não usavam, eu falei para elas usarem o Chronos, eu dei as amostrinhas para elas usarem; elas ficaram [felizes] e acabaram usando, comprando. Eu dou a amostra mesmo, não fico com nada em casa, dou todas as amostras. Dou para homem, dou para senhora, para aquelas pessoas que estão no tempo de usar, conforme a idade, eu dou as amostras do creme. [Depois a pessoa] acaba comprando, tem pessoas que falam assim: “Olha, aquele perfume que você me deu, sabe aquela amostrinha que você me deu?” Eu falo: “Você tem que me trazer o vidrinho, para eu saber o que eu dei”. Porque eu não vou gravar o que eu dei. Eu falo: “Você guarda o vidrinho se você gostar” – quando eu dou – “se você gostar, você me pede, não jogue fora, e se você não quiser comprar de mim, você compra de outro”. Eu também deixo aberto. Elas acabam [me] procurando: “Sabe aquele lá, sabe aquele batonzinho que você me deu, gostei tanto dele, ainda tem amostrinha?” Eu falo: “Não, amostrinha agora não tem, só para comprar”. Que eu também não vou dar só amostra. Primeiro eu faço assim, eu dou a amostrinha para pessoas que nunca compraram a Natura, eu dou, eu sempre estou dando. Agora, as que já usam Natura, que compram o batom, se eu ficar dando as amostrinhas do batom elas não compram mais. E eu dou uma amostrinha primeiro porque está saindo [é lançamento], eu pego e dou para mostrar a cor, elas acabam gostando do batom e encomendam. Eu não vou dar o segundo para ela, eu não faço isso. Tem umas vendedoras que podem até fazer, só que eu não faço. Quantas [clientes] me pedem o mostruário para comprar: “Você arruma mostruário para mim?” “Não, a Natura não vende mostruário, só para nós, porque se nós formos vender [mostruário], nós não vamos vender o produto”. Principalmente para quem faz maquiagem, elas querem aquilo lá, me pedem muito: “Ah, mas fulana disse que vai conseguir”. “Mas não pode”. E a gente não deve fazer isso, porque nós deixamos de vender sombra, batons, pinturas [maquiagens]. E nós deixamos de vender porque ela já tem lá, usa só as amostras. Tem pessoas que trabalham em firma, aí eu dou uma revista [a Vitrine] para eles levarem, ponho o meu telefone na Vitrine e falo: “Você oferece, se a pessoa não quiser comprar hoje ou depois, você pega e manda ligar para mim, anota e depois dá para eles”. Era para eu fazer [meus cartões], mas sabe, [fica] na memória e eu não peço os cartões. Porque isso ajuda muito: eu dou o meu telefone, escrevo, dou o cartãozinho. Mas os cartõezinhos da Natura incentivam mais a gente, é um desleixo meu não ter feito ainda. Eu coloco o telefone nas Vitrines, distribuo tudo, mando deixar lá, só que o telefone está lá; as pessoas, às vezes, ligam e falam: “Você é a fulana?” “Sou”. “Porque eu estou com a sua revista aqui e gostaria de saber desse produto, ainda tem?” “Tem”. Tem [uma] pessoa aqui na [Avenida] Paulista que tem minha revista e sempre me liga, essa pessoa usa shampoo de caspa. E para entregar, a minha amiga trabalha na casa há muitos anos, ela leva. Eu sempre faço assim, eu procuro, onde for longe, ter outras pessoas [para entregarem]. Meu marido mesmo, quantas caixas de produto ele não levou para o Pacaembu? Eu moro no Jaraguá, tem uma academia lá no Pacaembu, eu tenho uma conhecida que trabalha lá, e ele foi levar duas caixas cheias. Quais os clientes que compram? São mais pessoas na faixa de 30 anos para cima. Homem e mulher juntos. [Os clientes] ficam amigos, eu dou brinde para eles, dou sabonete, [mas] tem que ser amiga: “Nossa, você está [me] dando?” “Estou dando para você sim, você fez uma compra, você merece”. Compra de 150 reais não merece ganhar uma caixa de sabonete? Não merece ganhar um desodorante? Não merece ganhar uma nécessaire? Que às vezes vêm os kits, às vezes eu compro a mais, a pessoa pede uma colônia, não tem um brinde lá dentro? Eu dou com tudo, eles ficam felizes de comprar uma colônia e vir um brinde lá dentro. Então eu faço isso, eu sempre procuro deixar as pessoas felizes de comprarem de mim, porque eles ganham os produtos. Quantos não vão na minha casa com outro [amigo], que a outra pessoa leva, e não [deixo sair] sem nada: eu dou sabonetinho, dou um perfuminho. Eu agrado as pessoas que vão na minha casa, [mesmo as que] não compram, eu falo: “Você não usa Natura?” “Nunca usei”. “Leva esse sabonetinho para você lavar o rosto”. E elas acabam comprando de mim depois, elas me ligam. Tem gente que compra Natura: “Eu gosto de O Boticário”. “Não, eu vendo Natura” Eu explico que a Natura tem uns perfumes muito bons, que é usando a Natura que [a pessoa] vai aprender a gostar; se a pessoa nunca usou, não vai nunca saber se a Natura é boa ou não. Para essas pessoas, eu dou a amostrinha para usar, para sentir o cheiro, porque eu também já usei O Boticário. Igual eles que usam O Boticário e não conhecem a Natura, então tem essas pessoas, poucas pessoas perguntam, a maioria é mais Natura mesmo. E eu incentivo as meninas a venderem mais a Natura mesmo, [oriento] para elas falarem do produto.

Dicas para as novas e os novos consultores
A dica para uma nova consultora seria a dica de que ela procurasse a promotora, vamos supor, que quisesse entrar. Que nem, eu incentivo elas a entrarem mesmo, para vender Natura. Você tem um trabalho, é uma profissão sua ser vendedora, o meu ponto de vista é esse. Eu aconselhava elas [as novas consultora] a entrar [na Natura], porque tem pessoas que, realmente, precisam ter seu próprio dinheiro, ter sua vida, não ficar dependendo de uma pessoa que, vamos supor, o marido também ganhe pouco. Eu acho que é um incentivo para elas venderem, terem o próprio dinheiro, e também de ter um pouco mais de alegria nelas mesmas. Ter para ela, porque eu acho que uma mulher que só vive dentro de casa vendo televisão não é feliz. Ela tem mais é que sair um pouco, porque saindo, ela chega com felicidade quando [recebe] o marido dentro de casa. Ela fica tão feliz que, às vezes, o marido chega nervoso, ela passa aquela alegria dela toda para ele, que ela sentiu, que ela tem. Agora, se ela está nervosa, está lá dentro: “Ai, meu Deus, eu tenho que pôr a roupa no varal, a novela já vai começar tal hora”. Porque tem mulher assim, que não faz as coisas, não sai por causa da novela, não faz nada e reclama que não tem [dinheiro], fica com os cigarros fumando, fica com os cinzeiros entupidos de bituca de cigarro, não tem coragem nem de levantar e jogar o cinzeiro fora. Então eu acho que essas mulheres deveriam ter mais um pouco de ânimo nas suas vidas e fazer alguma coisa na vida. Porque eu procurei fazer isso para mim, me distrair; ganho o meu dinheiro, ajudo meu marido, e se ele estiver apurado, eu falo: “Ó, não se preocupe, nós vamos fazer isso, vamos lutar” Incentivo ele a me ajudar, levar as coisas: “Precisa entregar [um produto] em tal e tal lugar”. Porque ele trabalha, e quando ele trabalhava em firma, ele também me levava [para fazer as entregas] à noite, quando chegava, porque de dia não dava. Agora que ele trabalha com táxi eu pego ele de manhã cedo para sair, porque ele só chega às 11 horas da noite. De manhã cedinho, nós estamos saindo, vamos lá, eu digo: “Puxa, bem, tão legal, você viu?” Eu animo ele também, porque tem homem que não gosta que a mulher saia vendendo as coisas porque tem medo, sei lá. E não é assim que o homem deve pensar da sua mulher.

Gente bonita de verdade
O que é uma mulher bonita? Eu acho que é uma mulher que sente felicidade dentro dela. Eu sinto que a beleza da pessoa [está em] ser comunicativa, dar carinho, ter uma noção de ter carinho um do outro... Eu acho que a vida é tão boa... Se todo mundo pensasse [assim], ninguém maltratava ninguém, todo mundo tinha carinho um com o outro, todo mundo ajudava o outro. “Eu vou a tal lugar, vamos comigo? Que lá é tão legal, eu vou levar você”. No meu ver, isso é uma forma de você achar uma pessoa bonita.

As mudanças e aprendizados mais significativos
O maior desafio [que tive] e o sonho [realizado] foi o de ter a minha casa, porque eu sonhava com uma casa. Na época, eu tive um sonho, quando eu era ainda criança – criança não, dos meus 13 anos –, eu tive um sonho de uma casa grande, acabadinha, com piso, porque eu nunca tive uma casa dessas lá no Norte. Então meu sonho de lá era esse, de um dia eu ter a minha casa. Tanto que, quando eu estava lá, eu sonhei com uma casa, só que essa casa não foi a minha, foi uma casa em que eu trabalhei aqui em São Paulo. Na primeira vez que eu cheguei na casa, eu fiquei olhando para ela porque eu já tinha andado nela, no sonho que eu tive. Eu tive um sonho antes e eu realizei, que foi de ter, um dia, a minha casa. [Sonhei com um marido] que fosse meu e, meu marido, eu consegui. Porque eu tive muita fé em Deus e eu pedia para ele me mostrar um marido, porque meu marido é muito bom, ele é um marido e um pai junto, tanto que tem vezes que falo assim: “Você é igualzinho ao pai. Você é meu pai”. Chamo ele de pai, tem horas [que] eu chamo ele de pai e ele fala: “Eu não sou seu pai não”. “Você é meu pai sim”. Porque ele foi bom comigo, com meus filhos. Então foi um sonho que eu tive, de um dia ter uma família bonita e minha casa, e hoje eu tenho. Dessa vida toda que eu tive, ajudei minha família, que até hoje eu estou ajudando, procuro fazer alguma coisa de bom para eles. A minha sobrinha, eu ajudei a fazer as festas dela de casamento, de aniversário, incentivei ela a subir na vida. Meus irmãos [também]. Então tem coisa que eu já passei na vida que eu falo: “Gente, dêem graças a Deus que vocês têm seus filhos, não precisa ter dinheiro nem riqueza. Se vocês tiverem uma família que seja boa, vocês conseguem tudo”. Porque é na união que você consegue, porque minha família é unida. Meu marido, com meus filhos, ele não deixa faltar nada para eles; eles já viram o que nós passamos, desempregado meu marido (desempregou uns três anos), nós passamos necessidades. Se não fossem as coisinhas que eu vendo... Nós passamos muita coisa para chegar até onde nós chegamos. As crianças todas pequenas, não tinham sapato para pôr no pé, iam para a escola com o sapato todo furado, arrancando os pedaços. Eu pedia cola para o homem, [cola] de madeira, lá onde fazia móveis, colava o sapato deles, punha debaixo do bloco para, no outro dia, ir para escola; o menino vinha chutando lata no caminho, o sapato vinha todo rasgado de novo, eu falava: “Ai, meu Deus, eu não acredito nisso”. Tinha um que tinha camiseta minha, que eu comprava, e mordia a camiseta toda Mas já passou tanta coisa na minha vida Meu marido perdeu o carro, teve acidente, teve um monte de coisas e, graças a Deus, nós não deixamos de ter fé, nunca. Na estrada de Minas o nosso carro caiu com a gente dentro, ribanceira abaixo, e não aconteceu nada. Ele caiu em câmera lenta lá embaixo, no abismo, do meu lado; eu só segurei no volante para defender minha cabeça. Saímos de lá perfeitos, com o carro funcionando normalmente, na estrada de Minas – a minha viagem era para Minas porque a família de meu marido mora lá até hoje. A gente ia com os filhos pequenos para lá, meu marido com aquele carro dele, aconteceram essas coisas todas. Só que a gente teve muita fé. Eu falo: “A pessoa tem que ter muita fé e nunca se desesperar, porque nesse mundo a gente passa por muita coisa”. Você passa, e Deus está preparando para ver até onde vai sua fé; e é na nossa fé que nós conseguimos as coisas. Que nem hoje que eu falo: “Eu sou uma vendedora”. Porque eu acho que todo mundo que quer ganhar também perde, não é só ganhar; todo mundo passa por esses momentos. Quantas pessoas que compram, não gostam de pagar, fogem. Nem por isso eu vou deixar de vender; não, você perde aqui, você ganha ali. Nós temos que ter fé, e não é porque você perdeu que você não vai voltar mais [a ganhar]. Meu marido perdeu um carro para o ferro-velho, capotou três vezes com ele dentro, não aconteceu nada com ele. Foi para o ferro-velho o carro. Entraram na minha casa, meu marido desempregado, eu comprei as coisas com o meu dinheiro – que eu vendia as coisas –, comprei a comida, no Natal o ladrão foi lá e levou tudo. Vou fazer o quê? Leva Tem que ter fé. Depois a gente conseguiu de novo e hoje a gente tem nossa casinha, recebo todo mundo, pessoas pobrezinhas, mendigo que vai na minha casa, eu dou comida, nunca neguei nada, nem água. Se chegar assim: “Você está com fome?” “Estou com fome”. “Então eu vou fazer [alguma coisa para você comer]”. Faço; graças a Deus, na minha casa eu tenho fartura de comida, eu faço mesmo. Porque o que eu passei na minha vida para trás, de você comer, almoçar aquela comida e de noite você não ter para jantar e dormir com fome; ou você se alimentar de manga ou então de laranja, de banana – eu já comi até banana verde cozida. [Teve] uma vizinha lá [em Alagoas], nós morando lá debaixo do pé de jaqueira, com a panelinha no fogo, fomos buscar água nas fontes, e quando nós chegamos – tinha um courinho de porco no feijão para dar gosto – a mulher não foi comer? Minha vida mudou [com a Natura], porque depois que eu comecei a vender Natura, eu passei a ganhar mais. Fiz muita coisa depois que eu comecei a trabalhar para a Natura: o aniversário de 15 anos da minha filha, viagem, já ajudei meu marido na casa, na construção da casa, dei dinheiro para o meu filho comprar uma chapa de táxi – que também ele desempregou, eu só tinha dinheiro para comprar um carro, que eu juntei. Porque eu falava assim: “Eu vou comprar um carro, porque com meu carro na mão eu vou vender mais”. Eu poderia fazer as entregas, porque se você não tem carro – que nem eu que não tenho carro, eu dependo do meu marido quando preciso. Eu falei, vou juntar e comprar um carro para mim, porque assim eu faço minhas entregas, vou levar, e apresento as coisas da Natura, levo no carro. Mas Deus não quis que eu tirasse minha carta, eu fui reprovada três vezes no Detran, porque eu sou nervosa, aí eu falei: “Quer saber? Eu vou deixar, vou guardar um dinheiro, para se eu precisar sair de táxi”. Aí meu filho ficou desempregado, eu pensando no meu filho desempregado, e eu com aquele dinheiro lá, ele tinha feito o negócio [documento] do carro que faz [virar] táxi, uma carteirinha lá, meu marido falou: “Se eu tivesse um dinheiro, eu ia comprar uma chapa de carro para pôr esse menino para trabalhar na praça”. Aí eu falei “Estou com um dinheirinho”. Meu marido não sabia, aí eu falei que ia comprar um carro para mim, ele falou assim, ele e meu próprio filho, os dois: “A senhora vai comprar carro e vai tirar carta para quê? Para dirigir carrinho de pipoca?” Porque eles achavam que eu não tinha dinheiro para comprar o carro, mas eu tinha, porque eu guardei e não falei que eu tinha, eu fui guardando, e falei: “É, é carrinho de pipoca mesmo que eu vou comprar, vocês vão ver o carrinho de pipoca”. Eu tinha, na época, 16 mil [reais] guardados, e foram os 16 mil que eu dei para ele comprar a chapa do carro, eu falei para o meu marido: “Eu tenho dinheiro sim”. Ele falou: “Como você tem esse dinheiro? Você vai pegar emprestado dos outros?” Eu falei: “Não, esse é meu dinheiro, eu ia comprar meu carro. Você lembra daquele carrinho de pipoca que eu ia comprar? É esse dinheiro que eu tenho, você vai comprar a chapa [para o filho], eu dou para você comprar, depois ele vai me pagando como pode, eu não vou exigir”. Mas você também não pode pegar e dar, a pessoa também tem que lutar que nem a gente lutou, aí meu marido falou: “Tem certeza desse dinheiro?” Eu falei: “Tenho, pode comprar a chapa que eu dou o dinheiro”. Eu fui no banco e dei o dinheiro na mão dele, ele olhou para mim e falou: “É...” Eu sei que meu filho ficou feliz, graças a Deus, e hoje ele trabalha [na praça] com o carrinho dele. Depois ele tinha comprado uma casa em Minas, eu fiquei com a casa em Minas para mim, que estava pagando, que ele não podia pagar, eu peguei e fiz uma troca na casa de Minas por uma aqui em São Paulo, então eu tenho duas casas na mesma rua, tudo com esse dinheiro que me ajudou, eu falo: “Gente, o pouco com Deus é muito”. A pessoa que quer, consegue, porque nós não tínhamos nada. [A Natura] mudou [o meu jeito de ver o mundo]. Antes, eu vivia deprimida, hoje eu não choro mais. Eu choro sim de alegria, choro de tristeza também, de emoção, que eu sou chorona mesmo, as lágrimas descem e dá um rio aqui. Qualquer coisa eu choro, qualquer emoção que eu tiver, eu estou chorando. Eu fico feliz com as coisas, e quero que a minha família e todo mundo que eu conheço também seja assim, que não sofra por pouca coisa. Porque, às vezes, a gente põe [uma coisa] na cabeça, acaba adoecendo, e ninguém consegue mais [animar], dá uma depressão. Quanto jovem, rapazinho que não é nada meu, chega e eu ajudo, na palavra amiga. Eu sempre procuro dar uma palavra amiga para as pessoas, sinto vontade de abraçar as pessoas depois disso tudo. Eu sinto vontade de dar abraço, seja em homem, seja em mulher, adoro dar abraço e, antes, eu não era assim, de abraçar as pessoas, ter carinho pelas pessoas. Também fico triste de as pessoas, às vezes, não saberem como que a gente é, e quererem maltratar a gente. Elas não conseguem fazer o que a gente faz, aí elas ficam assim, às vezes, críticas, eu falo: “Por quê? Não, a vida não é assim”. Eu procuro conversar com as pessoas, não maltratando; eu dou uma lição de moral numa boa, para a pessoa falar: “Puxa, aquilo que ela falou é verdade”. Não maltratando, porque você não deve maltratar, você deve conversar, conversar normal, mesmo que esteja com vontade de dizer um monte. Mas Deus me prepara, eu converso calma, e as pessoas me falam: “Nossa, mas você é crente?” “Não sou crente não, sou crente em Deus só”. Não tenho religião de igreja, de crente, eu sou católica, só que o Deus é um só. Cada um com a sua religião, do jeito que se sente bem, eu não critico nenhuma religião.

Projetos futuros e metas
Já recebi o prêmio [da Natura], de cinco anos. Eu acho que com dez anos você recebe um broche... Eu vou chegar lá, se Deus quiser. Eu tenho um grande sonho de fazer uma viagem com o meu marido, sozinhos, que eu nunca fiz. Eu queria levar ele para conhecer minha terra e Fortaleza – que eu tenho vontade de conhecer lá, porque eu não conheço – e passear um pouco com ele fora, só eu e ele.

Auto-retrato
Como seria um auto-retrato da Antonia? Esse retrato eu não sei. Eu sou uma pessoa animada, sou carinhosa, tenho carinho com as pessoas: adulto, velho, criança, sinto carinho dentro de mim pelas pessoas. Se eu pudesse, abraçava todo mundo. Eu queria ser uma mulher bonita, sair numa foto, num quadro. Eu queria ser uma mulher assim, não exibida, uma mulher simples; meu coração é bom, graças a Deus, eu tenho [beleza] daqui de dentro [do peito] para dar; eu posso não ter de fora, a minha beleza, mas daqui eu tenho.

A entrevista
E participar dessa entrevista para mim, nossa Eu fiquei tão feliz que, quando vocês me ligaram, eu até chorei. Tinha um consultor [vendedor] lá em casa, um rapaz que ele vende para mim, e ele escutou a minha conversa com você no telefone, eu falei assim para ele: “Eu vou te levar na Natura, você vai vender Natura ainda”. É um rapaz, ele leva minha revista [a Vitrine] lá na firma onde ele trabalha, ele foi me pagar – eu acho que é tudo coisa de Deus – ele não demora lá em casa, e naquele dia ele demorou. Tinha ele e um outro rapaz do Recife – que esse é da Bahia – que estavam lá em casa. Ele mora sozinho, é um rapaz sozinho, tem o apartamentinho dele, e ele fez amizade comigo e vende Natura para mim. Ele não quer nada, ele só vende, não quer comissão, não quer nada, eu acabo dando coisa boa para ele, dou kit para ele: “Não, Toninha...” Ele me trata de Toninha, a maioria das pessoas me chamam de Toninha, aí eu acho essa palavra Toninha carinhosa, eu me sinto mais assim miudinha... Aí eu falei: “Eu vou levar você lá, Gil”. Ele chama Gil. “Você ainda vai conhecer a Natura, eu vou te levar lá, você vai ser um consultor da Natura, você vai ver como é legal mesmo. Eu ainda vou levar você lá – só se não quiser ir – para você conhecer a Natura”. Aí os meus filhos: “Ai mãe, nossa, você leva meu cartão e mostra lá para a Natura”. Ele mexe com carro de som: “Que eu sou o Eletro Neném, mostra lá para mim, mãe”. Esse meu filho chama Roberlei, esse meu filho que é brincalhão: “A senhora leva lá meu cartão?” E o meu genro: “Nossa, puxa” E a Roberta pegou um papel, eu vim com o papel na mão, para eu dar autógrafo, ai meu Deus do céu, disse que eu ia ficar famosa. Eu achei legal [participar da entrevista] porque dessa história, se eu pudesse, eu fazia um livro, eu tinha vontade de escrever tudo que eu passei na vida, que nem agora. Eu pulei muitas coisas, que se eu fosse falar, não ia dar. Eu ia escrever um livro, do comecinho da minha vida até hoje, mas tudo que eu fosse lembrando [ia escrevendo]: “Ah, eu lembrei disso”. Eu ia lá e escrevia, tem muitas coisas que eu passei... Porque que nem na época desse meu primo – vou te contar só um pedacinho do que aconteceu com ele, esse meu primo que pôs a gente debaixo do pé de jaca – ele tinha muitas coisas, muitas propriedades – e acabou que tudo que era dele depois, ele perdeu. Ele ficou de esmola, ele ficou cego. Isso foi uma coisa que ele fez não só com a gente, de maldade. Eu falo: “Gente, maldade não se faz para ninguém”. Porque com esse meu primo que aconteceram essas coisas, hoje ele não tem nada, e ele era um homem rico, ele não precisava fazer o que ele fez com a gente. Só que a gente não teve maldade com ele em nada, mas o que ele fez? Não só com a gente, ele fez com os outros, de colocar veneno nos mamões para as pessoas não comerem, os mamões estavam [se] perdendo lá, ele colocava essas coisas. Eu acho que isso não é coisa de Deus. É como eu falo para os meus filhos, falo para todo mundo: “Não façam coisa errada, porque, às vezes, a gente não sabe no que vai acabar”. Eu sempre faço isso e falo para todo mundo, para as pessoas que eu conheço, converso, para não fazerem nunca as coisas erradas, que Deus só tem a dar, não a tirar. Quem anda certo, Deus dá dobrado. Se você tira de uma pessoa, para você, sem estar precisando... Nós não vamos levar nada desse mundo, essa vida acaba dentro de um caixão. Adorei, adorei [dar a entrevista]. Se eu pudesse, eu ficava o dia inteiro aqui. Adorei.

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