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Arquiteta da paz

História de: Luciene Maria Figueiredo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Nascida em São Paulo em 1960, Luciene formou-se em Arquitetura e construiu uma carreira de 33 anos como funcionária pública da prefeitura. Sua trajetória, no entanto, não foi nada linear; esteve cheia de reviravoltas marcantes. Casou-se e separou-se duas vezes. Com o segundo marido, viveu dois anos na África do Sul, onde teve a oportunidade de participar de um jantar ao lado de Nelson Mandela. De volta ao Brasil, envolveu-se em inúmeros projetos profissionais, que incluíram o desenvolvimento de um parque sustentável (o Vila Sílvia, na zona leste), uma exposição em que pôde mostrar sua faceta de fotógrafa e o lançamento de um livro sobre um tema que ela mesma inventou: Arquitetura da Paz, sobre como os ambientes podem proporcionar serenidade às pessoas.

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História completa

Nasci em São Paulo, 9 de setembro de 1960. Meu pai, Natal Alves de Figueiredo, nasceu em Catanduva, em 1917. Era fazendeiro de café. E minha mãe, Antonieta Benincasa, era filha de imigrantes italianos e nasceu em Campinas. Infelizmente, ela faleceu, eu tinha 27 anos, e meu pai foi cinco anos depois.

 

Meu pai queria vir para São Paulo, para os filhos estudarem. E eu não era nascida. Os meus seis irmãos são bem mais velhos que eu. Eles vieram para São Paulo em 59, eu nasci em 60. Então, eu já sou paulistana e com uma diferença de idade bem grande com relação aos meus irmãos. O meu irmão mais novo é dez anos mais velho que eu. A minha irmã mais velha era 21 anos mais velha que eu. Já era casada quando eu nasci. Eu tenho uma sobrinha que tem diferença de um ano só, mais nova que eu.

 

Eu estudei num colégio ali na Parada Inglesa, Externato Padre Luiz Tezza, que ainda existe, onde eu conheci pessoas que são grandes amigos. Entrei com sete anos, não fiz pré-escola, nada. Minha mãe tinha dó de me botar na escola. E me colocou para estudar piano com cinco anos, e na escola com sete.

 

Depois do externato, fui para o Santa Marcelina, que é ali nas Perdizes. Daí, foi outro choque. Porque, imagina, eu fui para uma escola onde as meninas tinham avião. Uma vez, uma olhou para mim e falou: “Você não tem avião?” (risos). Eu não tinha avião. Mas fiz amizade, fui bem também. Teve uma interrupção, que eu fui morar com a minha irmã e com o meu cunhado, e nós mudamos para o Rio de Janeiro.

 

Logo na primeira aula que eu tive de desenho de Arquitetura: “Nossa, vou gostar disso”. Eu gosto de tudo relacionado a artes. E arquitetura é esse lado de artes. Na faculdade, eu fazia muito curso. Eu fiz curso de fotografia, gosto muito de fotografia, até hoje. No ano passado, fiz uma exposição de fotos, junto com outros fotógrafos.

 

Concluí. Daí, entrei na prefeitura. E fui, trabalhei. Com os primeiros dois salários, consegui comprar uma moto. Era uma 75 Yamaha. Eu achava uma gostosura moto. Nossa, que liberdade! Nossa, que coisa legal! Eram outros tempos. Você imagina, 1976, não tinha esse trânsito maluco, essa poluição, não existia motoqueiro, motoboy, era outro contexto. Era mais tranquilo. Todo mundo tinha moto. E só parei de guiar moto quando eu estava grávida e caí. Daí, eu falei: “Não! Eu não sou mais um, eu sou dois. Então, não posso mais ficar andando de moto”. Daí, só garupa. E hoje em dia eu nem gosto muito nem de garupa.



Eu sempre quis ser mãe. E eu estava fazendo Projeto Rondon em Irecê, sertão da Bahia, quando eu descobri que estava grávida. Quando a gente estava indo lá, eu tive enjoo, e umas moças, médicas, falaram: “Nossa, mas será que você está grávida?”. Coletaram a urina. “Nossa, mas já pensou levar lá no laboratório uma menina do Rondon?” Falei: “Ah, mente o nome. Coloca que é Filomena da Silva”. Daí, a gente foi buscar o exame de Filomena da Silva, que era o meu, e: grávida! Eu chorava. Voltei para São Paulo, a gente apressou o casamento. Estava nos planos. Mas estava nos planos casar depois que terminasse a faculdade. Não eu com 21 e ele com 24. E engravidei, casei e separei, porque ele me traiu. Mas, hoje em dia, somos amigos e tudo bem.

 

A gente casou em março e o Rafa nasceu em agosto. Ai, foi lindo! Agnaldo Rayol cantando Ave Maria, maior festa. Foi na Cruz Torta, em Pinheiros, uma igreja que foi projetada até por um arquiteto, Joaquim Barreto, que foi nosso padrinho de casamento. Uma igreja bonita, uma igreja moderna. A festa foi no salão da Cruz Torta. Ah, eu estava muito feliz. Eu sempre quis casar. Acho casamento uma coisa muito legal. Branco, flor de laranjeira, toda a festa foi bonita.

 

Trabalhei no DPAV, Departamento de Parques e Áreas Verdes, projetei vários parques e praças de São Paulo. O primeiro parque sustentável de São Paulo é um projeto meu: Parque Vila Sílvia. Trabalhei na prefeitura 33 anos. Só que não foram ininterruptos. Eu morei na África do Sul, tirei um afastamento de quase dois anos. Morei em Johanesburgo, uma cidade bonita. E eu estive em uma festa em que estava o Mandela. Infelizmente, eu não tenho fotografia com o Mandela. Mas eu estive no mesmo espaço que ele.

 

O meu segundo ex-marido queria morar no Canadá. Daí, eu falei não, não. Vou voltar para a minha terra, eu gosto muito do Brasil. E, quanto mais eu viajo, mais eu gosto do Brasil. Acho o nosso povo o melhor do mundo. E eu queria ter a minha vida nas minhas mãos. E, daí, só voltando para a minha terra. E voltei. Voltei e separei. Minha separação foi por procuração. É, foi bem triste.

 

Voltei para a prefeitura. Eu sempre fui atrás de inovações. Assim que começou essa ideia de sustentabilidade, eu fui fazer tudo quanto é curso, Eu dei aula na PUC [Pontifícia Universidade Católica] de sustentabilidade, na Universidade Aberta à Terceira Idade. Foi bem legal. Depois, eu dei aula na Anhanguera que, na época que eu entrei, ainda chamava Uniban [Universidade Bandeirante de São Paulo]. Daí, eu fiquei três anos por lá. Dei aula de paisagismo, desenho ambiental, história da arte, legislação, elementos construtivos.

 

Eu sempre corri bastante. Eu, com oito anos, eu fazia balé, pintura, piano, linha litúrgica e escola. Eu sempre gostei de fazer um monte de coisa. Em 2016, eu peguei um conto de um livro meu e, daí, saiu nesse Mais do que Palavras, uma antologia, e, no ano passado, finalmente, o meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso], que foi Arquitetura da Paz, uma pesquisa que eu fiz durante muito tempo, eu publiquei o livro como resumo do meu TCC. Neste ano, eu vou na Bienal com esse livro. Foi uma experiência bem emocionante publicar um livro.

 

Foi um tema que eu inventei: Arquitetura da Paz. O que te proporciona paz? Como que os ambientes têm que ser projetados para você encontrar esse estado de serenidade? E demorou bastante. Eu comecei a fazer essa pesquisa lá atrás, em dois mil e bolinha. E dei essa palestra em vários lugares. E o pessoal gosta, o pessoal se interessa.

 

Eu ainda espero fazer muita coisa. A única de coisa ruim do envelhecimento é o físico, que você olha já e não tem... Eu estou começando a ter cabelo branco. Tem gente que, com 30, começa. Eu comecei agora, com 57.

 

Achei legal dar um depoimento que sirva para alguém, que sirva para alguma coisa, de inspiração. Que as mulheres vejam e falem: “Nossa, ela teve coragem, casa e separa, casa e separa e continua acreditando em relacionamento”. Sim, estive no meio de tiroteio e enchente e gente morta, e não perdi a confiança no ser humano. E acho que uma sugestão é que as pessoas procurem aprender o tempo inteiro. E, depois de aprender, tentar ensinar o que aprenderam.


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