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História de: Nádia Campanholli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2016

Sinopse

Nádia conta como descobriu que tinha hiperinsulinemia e todas as situações difíceis que viveu por conta desta condição, chegando ao recém diagnosticado diabetes e seu medo das agulhas. Em um momento de mudanças em sua vida, Nádia compartilha seus maiores medos e descobertas desta nova fase e destaca como é importante gerenciar a doença por meio da informação.

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História completa

Meu nome é Nadia Campagnoli, nasci no Município de Santo André, grande São Paulo, em 15 de julho de 1959. Meus pais são Edne di Angelo Campagnoli e Miguel Campagnoli Stupelli. Meu pai é filho direto de imigrantes italianos, então, ele veio de registro, a família migrou no passado para o Brasil e para a cidade de Registro e lá, tiveram atividades de agricultura, porque na Itália eram camponeses e depois de um tempo migraram para o ABC e minha mãe já era moradora da região e eles se conheceram em um baile de casamento de parentes em comum.

Como eu sou filha única, me sentia muito sozinha. Minha mãe muito cuidadosa, ela foi trabalhar fora quando eu tinha seis anos, mas ainda não podia me deixar na escola, porque a escola só começava a partir do Pré. Então, para trabalhar fora, ela me deixava na casa da minha avó materna e as lembranças que eu tenho já com quatro anos, cinco anos, sabe o Sitio do Pica Pau Amarelo? Igual! E adivinha se eu quis sair de lá? Não. A casa era uma lida muito parecida com o que se vê na história do Monteiro Lobato. E chegada a hora de ir para a escola, ser alfabetizada, eu não queria ir para a escola. Então, minha família em busca de uma solução, me colocou em uma escola que não seguia os métodos convencionais de ensino, chamava-se Escola Experimental Irmã Catarina e nessa escola que fui alfabetizada.

Depois desse período foi um momento difícil para mim porque eu fui aprovada para fazer o ginásio, no exame de admissão e mudei de escola. O ambiente era todo muito diferente, regras, horários, um modo diferente de aprendizado que as crianças estavam acostumadas e que eu tive que me adaptar. Além disso, eu também tive que sair da casa da minha avó e ser sozinha lá na casa dos meus pais, por rotinas diversas, circunstâncias familiares, eu fui para a minha casa de origem num bairro vizinho, para poder ir para a escola estadual, onde eu tinha passado na admissão. Foi bem chato na época.

Quando eu terminei o ginásio, no colégio estadual, como eu queria fazer uma faculdade na área da saúde, eu não sabia ainda se era Medicina, se era outra coisa eu entrei para um curso que chamava-se Núcleo de Aplicação da Faculdade de Ciências e Letras da Fundação Santo André. Lá haviam três cursos profissionalizantes e eu escolhi Patologia Clínica. Os professores que nos davam aulas, além dos professores especializados naquele curso técnico específico, como patologistas e médicos, os professores das disciplinas comuns, Geografia Matemática, História, Física, Química, etc., eram os mesmos da faculdade, que davam inclusive aula para Medicina ABC, então, o nível docente era muito elevado.

A escolha da faculdade, eu fiquei um tempo na dúvida entre Psicologia, Medicina e Nutrição. Aí, me chamou mais fortemente a Nutrição quando eu fiz teste vocacional. Eu queria cuidas das pessoas de alguma forma, era isso que tinha no amago desse desejo e a questão do alimento, essa vivencia intrínseca com o alimento, por ajudar a cuidar da horta, colher, plantar na casa da minha avó, sempre esteve arraigado. Prestei, entrei em duas, escolhi Mogi, ia ser uma trajetória difícil, porque teria que passar horas no ônibus indo e voltando, era integral o curso, 79, e mais uma vez, os professores eram professores ligados a faculdade de Medicina de Mogi. Então isso eu não estranhei, o colégio de aplicação da Fundação, como os docentes eram docentes que davam aulas para terceiro grau e nós tínhamos todo esse contato profundo com a área de Biológicas, eu não tive nenhuma dificuldade em fazer a faculdade, escolhi e foi bem escolhido, eu gostei muito e me sai muito bem.

Eu só fui autorizada a namorar com 18 anos. Namorei todos os anos da faculdade, fiquei noiva um ano e me casei. Então, o meu marido foi o meu primeiro namorado. Tivemos três filhos, a filha do meio faleceu de uma doença não genética, mas congênita. O casamento durou 13 anos, e depois me separei do Marcos. Fiquei um tempo na casa dos meus pais e depois me mudei. Mas teve todo um processo de adaptação, porque tive que retomar a minha profissão que com o casamento eu abandonei por um tempo e todos as responsabilidades de administrar uma casa sozinha com dois filhos e problemas no trabalho, eu tive um problema de saúde que chama Síndrome de Burnout e na segunda vez que tive essa síndrome eu me afastei do meu trabalho por questões de saúde. E além do Burnout eu também era portadora de Hiperinsulinemia, que provavelmente, eu nasci com esse distúrbio, ele é proveniente de algumas situações clínicas, entre elas, Síndrome dos Ovários Policísticos. Hoje já se sabe, já se faz até em crianças que passam em postos de saúde, já se faz alguns exames de sangue e imagem, porque a menina portadora de Síndrome de Ovários Policísticos, ela é uma candidata a ter diabetes tipo um ou 2, provavelmente tipo dois na maturidade, como foi agora o meu caso. A portadora de hiperinsulinemia, o pâncreas fabrica cada vez mais insulina até que o corpo fica intoxicado com insulina e ela não é efetiva. A primeira crise de hipoglicemia eu tinha uns 18 anos, estava indo no ônibus para Mogi. Eu convivi muitos anos com esse distúrbio sem nenhum médico saber o que estava acontecendo comigo. Eu só fui descobrir quando trabalhei em uma clínica de endócrinos e fui atender uma pessoa que possuía os mesmos sintomas que eu, e situações clínicas parecidas e era portadora de Hiperinsulinemia. Atualmente, eu descobrir faz pouco tempo que desenvolvi a diabetes tipo 2, devido ao meu quadro clínico e tive a sorte de já ser amparada por um médico reconhecido e excelente na área de diabetes.

A minha adaptação com a diabetes agora tem sido tranquila. Eu não entrei no luto ainda, não sei se vou entrar, porque existe no diabetes, a partir do diagnóstico da evolução, existe a negação, às vezes, total, existe o luto. Está previsto nos artigos científicos, principalmente na área de psicologia, não sei se eu vou entrar no luto, porque eu fiquei exultante no sentido de que a dieta que ele prescreveu, eu sempre defendi lá em 2000 e que não era bem aceita também, os médicos não entendiam, tinham resistência. E eu falei: “Não acredito que você tá prescrevendo isso”, ele falou: “Por quê?”, eu falei: “Então você também concorda com 40% de carboidratos totais nessa condição?”, ele falou: “Lógico”, eu falei: “Porque eu sempre prescrevi isso e tinha que explicar muito para médicos”, para o paciente, não, mas para médicos, tinha que explicar muito, o médico questionava. Então tudo que já passei sendo portadora de hiperinsulinemia e precisando me adaptar sozinha, já que nenhum médico conhecia essa disfunção e agora como diabética, posso dizer que para mim foi um doutorado.

 

Meu sonho sempre foi trabalhar em diabetes. Sempre! Então, poder atuar nessa área, tenho dado aulas para algumas nutricionistas, capacitando-as na técnica para formar um grupo de atendimento específico para diabetes em nutrição, dentro dessa técnica, ou seja, passar tudo que eu sei, estou passando para colegas. Então assim, eu não vou morrer sem fazer isso, mas eu estou plantando já faz dois anos, mesmo antes de diagnósticos, de pensar nisso, esse anseio de capacitar profissionais mais jovens na técnica, nos conceitos metabólicos da nutrição para diabetes, deixar esse legado. Então, eu tenho esse anseio de capacitar essas moças, de supervisionar o atendimento delas, porque existe demanda, não cobrar preços abusivos, atendimento em grupo, porque isso funciona muito, você reunir grupos de pacientes hipertensos, diabéticos e dar os conceitos básicos: como o corpo funciona, por que esse alimento faz esse efeito, aquele não faz, enfim, numa linguagem coloquial, instruí-los de modo que eles se sintam mais empodeirados porque isso é muito importante. Eu percebo que as pessoas que sofrem de doenças crônicas não transmissíveis, o diabetes é uma delas, ficam muito reféns do médico, do serviço de saúde, do que eles escutam nos convênios e assim por diante. Então um lugar onde o especialista orienta os pacientes, de modo que eles troquem informações entre si, suas dores, suas alegrias, isso é provado em diversos estudos que melhora a qualidade de vida de todos, inclusive, daquele que participa como instrutor, não só do paciente. Então, essa troca é muito gratificante em ambos os lados e a gratidão é muito curativa.

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