Busca avançada



Criar

História

As sementes do quintal

História de: Cridemar Aquino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Nascido em São João de Meriti, filho de mãe mineira e pai pernambucano, Cridemar tem duas irmãs e boas memórias de infância: brincadeiras no quintal, a mangueira que plantou referências do jongo e do candomblé herdadas pelo avô. Por influência da professora, começou cursos de teatro, até entrar na Escola Técnica Martins Pena. Fez vários trabalhos pontuais em minisséries, novelas e programas. Em Suburbia, Cridemar interpreta o  personagem Moacyr.

 

Tags

História completa

As pessoas ficam me botando vários nomes, elas me chamam de Creidemar, Crildemar, Crisdemar, Clidemar. Cridemar é fácil. Eu prefiro Cridemar, foca! Eu lembro que a minha infância inteira é lá no quintal da minha avó com a molecada toda, porque a família era muito numerosa. E minha avó ficava em casa o dia inteiro, às vezes ela lavava roupa pra fora, mas a rua inteira acolhia minha avó como uma avó de todo mundo. O quintal vivia cheio de moleque, cheio de criança brincando. O pessoal ia para o trabalho, falava assim: “Dona Maria, passe o olho”. Quando via o quintal tava lotado de criança brincando o dia inteiro, aquela coisa toda. Eu lembro muito disso, que a minha infância naquele quintal foi muito importante, porque a gente fez muita loucura ali. A gente pegava legume, porque meu avô tinha uma horta no fundo do quintal imensa, linda, uma horta cultivada com todo carinho, todo amor.

Na infância, lá no quintal, brincando com os moleques, todo mundo lá, a gente fazia teatrinho sem saber que era teatro. A gente montava cenário, colava sol, lua, pá, botava o tijolo aqui e aqui, fazia de plateia, chamava os moleques na rua pra poder ver a pecinha. Mas a gente não sabia que aquilo era teatro. Minha avó por parte de mãe frequentava os terreiros de candomblé. Ela não era da religião, ela também ia à igreja, e ela fazia as rezas dela lá em casa, não sei o quê. Ela cantava uns pontos que ela trouxe de Minas, que era de jongo, e ninguém sabia da família. Ela cantava assim: “Pisei na pedra, a pedra balanceou. Pisei na pedra, a pedra balanceou, disse: ‘Levanta, povo, cativeiro se acabou’. Disse: ‘Levanta, povo,cativeiro se acabou’”. E eu fui saber agora, dez anos atrás quando eu comecei a fazer jongo, porque comecei a conhecer mais a cultura popular brasileira. Aí cantei uma música dentro de casa, minha mãe: “Para de cantar macumba dentro de casa”. Eu: “Mãe, isso não é macumba não, isso é jongo”; “a sua avó cantava essas músicas, não sei o quê”. Aí eu: “Mãe, isso não é macumba não, isso é jongo, ponto de jongo”. Aí eu fui explicar. “Ih, sua avó cantava isso direto”. Eu nunca tinha ouvido falar na minha vida em maracatu, coco... sei lá que raio é esse de coco, meu Deus! Ficava assim de bobeira.

E assim, todas essas danças que eu fiz: coco, jongo, maracatu, embolada, xote, xaxado, todas essas danças e outras, quando eu vou pra uma viagem, às vezes eu to lá em Belém do Pará, vejo um cacuriá, eu falo: “Caramba!”. Há 12 ou 13 anos eu fiz a oficina e pratico até hoje, porque na minha companhia a gente também foca nessas danças de matrizes africanas. Minha família nunca tinha pisado num teatro na vida. Eu nunca tinha entrado no teatro. Eu entrei numa escola, no GP175, no José Lins do Rego. Tinha uma professora, que se chama Valéria Monã, que era uma professora de animação cultural na escola. Pegou um texto, falou assim: “Leia isso aqui e mais tarde a gente vai trabalhar esse texto aqui na oficina”. Era um poema do Solano Trindade e do Pixinguinha chamado “Eu sou negro”. Aí eu não fui à aula. Eu tava com medo, morri de medo daquilo. Comecei a fazer o curso no Centro Cultural José Bonifácio lá na Gamboa, um centro cultural de influência negra, de matriz africana. Comecei a fazer teatro lá, fiz um mês, duas vezes por semana, sem minha mãe saber, porque ela não podia saber. Hoje minha mãe vai ao dentista e leva o flyer meu de espetáculo: “Ah, meu filho tá fazendo um espetáculo, não sei o quê”. Fica dando para as pessoas. Eu: “Mãe, para com isso” “Não, porque meu filho é artista”. O personagem Cleiton não tem nada a ver comigo a não ser essa vontade de viver, que ele curte a vida como se realmente fosse o último momento da vida dele.

Ele é intenso, o cara. Agora, tem algumas coisas nele... por exemplo, meu pai era um grande jogador de sinuca, isso me traz uma lembrança muito gostosa, porque quando eu pego o taco me lembro do cara, aí isso me dá uma postura, o cotovelo já levanta, são coisas que são bacanas. E o Cleiton tem uma coisa legal, porque ele gosta de estar junto com a família, e eu gosto de estar junto com a minha família. Final de semana lá em casa também tem “panelão”, churrasco. Às vezes a gente tá tomando uma cerveja, daqui a pouco o quintal já está cheio de gente, que o pessoal vai chegando. E ele também gosta disso, gosta de chamar as pessoas, de estar próximo, de fazer festa. Essa simpatia é natural dele, não é nada forçado. Ele não quer aparecer, ele quer estar, quer existir.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+