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História

Babs: uma vida de poucos anos e muitos mares

História de: Barbara Veiga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Babs para os colegas. Vitória foi como se apresentou quando infiltrada nas Ilhas Féroes para salvar as baleias. Tudo bem, ela é Bárbara Vitória. A saída de casa foi aos 14 anos e daí traçou seu caminho, sempre no sentido de causas maiores, ligadas à Natureza, aos animais, ao bem estar coletivo, à preservação das espécies. Jornalista, amou o cinema. Fotógrafa, ganhou prêmios. Mas recompensas ganhou embarcada, defendendo as baleias, as florestas, os lugares e as pessoas. Colocou sua vida em risco e sacrificou sua liberdade em defesa de seus sonhos, suas crenças, suas convicções. Morou em barco por quatro anos, depois foi para Paris cumprir o luto pela separação e aproveitou para ganhar prêmios como fotógrafa, lá e em Mônaco. Prepara-se para lançar a história de sete anos vividos em sete mares. Enquanto isso, sonha com o Polo Norte.

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História completa

Bárbara Vitória. Um nome que, de início, me pareceu exagerado, cercado de certa teatralidade. Hoje até que não, digamos que gosto. Nasci no Rio de Janeiro, o ano é 1983. Morei no Meier, na Tijuca, na Barra… Depois segui meu caminho, sozinha, aos 14 anos. Aliás, tive que me jogar na estrada, perdi minha identidade, minhas referências, com a separação dos meus pais. De um lado, eu assistia à entrega ao alcoolismo; do outro lado, a entrega cega a uma religião, como válvula de escape. E eu tendo que buscar a minha trilha independente, o que não foi fácil, quase impensável, mas não vi alternativa naquele momento: começar a trabalhar, estruturar a minha vida, tomar as minhas próprias decisões… Tudo isso aos quatorze anos de idade?!! Mas, vamos lá! Tem que fazer, vamos fazer. Contei, é claro, com alguma ajuda. Pouca, mas o suficiente para me sentir amparada - dos pais de alguns amigos, de uma tia que, por sinal, já havia adotado o meu irmão. E assim foi indo.

 

Apesar da dificuldade de aceitar, entender todo esse cenário, eu consegui, com a ajuda de muitas pessoas, encontrar um caminho mais equilibrado.

 

Trago lembranças de infância, do gosto pela Natureza e do hábito de escrever cartas para os meus pais - nunca respondidas - de lugares imaginários. Claro, em busca de atenção. Nessa época, já me atraía tudo o que se relacionasse às Artes. Uma tendência às cores, à poesia. E sempre querer “saber, conhecer, experimentar”. Também sempre estive atenta às descobertas, ou seja, aquilo que ia surgindo de novo no meu caminho, fosse-me dado pela escola ou pela vida, desde gêneros musicais; formas de me vestir; as chamadas “tribos”; o primeiro namoro; as mudanças do corpo. Fiz Jornalismo, adotei a fotografia, conheci quase o mundo todo, salvei as baleias, fui presa por causa delas; também curti a Natureza e amei as pessoas. Mas, para isso, precisei sair de casa. Ainda adolescente.

 

O meu som, meus CDs, algumas roupas e adeus.

 

O primeiro desafio, de ordem prática, foi suprir minhas coisas básicas. Uma ajuda daqui, outra dali, eu comecei a trabalhar, e, aos poucos, já não era tão desesperador. Na verdade, sair de casa foi acertado e libertador. Teve sensação de abandono, mas trouxe a necessária tranquilidade. Até para aceitar a minha história. Bom, mas aí eu fui fazer Jornalismo. Só que de olho em Cinema, o meu sonho. A fotografia, em alguma medida, me colocou nesse caminho dos sonhos. Ou quase lá. Mas o Jornalismo se impôs como uma forma de dar vazão àquela vontade de “lutar pela verdade das coisas”. Com o Jornalismo vieram os estágios, com os estágios as tarefas de que eu, absolutamente, não gostava. Mas veio, também, a oportunidade de acompanhar a triste realidade dos camelôs do Rio e a implacável perseguição policial - o famoso “rapa”. Com uma câmera emprestada, comecei a registrar episódios de violência, de injustiça. E ouvir histórias comoventes de vidas sem perspectivas.

 

Deve ter começado aí o meu envolvimento com a luta entre o forte e o fraco; o agressivo e o indefeso; a ameaça contra as pessoas, os lugares, as espécies. Em breve, eu estava embarcada para a Amazônia, pelo Greenpeace, com armas, banners e bagagem para enfrentar a multinacional que devastava a floresta. Era o embate direto entre quem tem o ideal, a missão preservacionista e aqueles paus mandados que cuidavam, simplesmente, de defender seus empregos. Mas aí, não parou mais. Dali para o Caribe. Agora eram as baleias que eu tinha que defender. E, invariavelmente, em meio a repressão e até prisão - cheguei a ficar em solitária. Mas queria continuar aquela vida de aventuras.

 

Da Amazônia para o Caribe, eu acabei passando pelo mundo todo - foram mais de oitenta países nessas missões, fazendo amigos, me despedindo de pessoas que se tornaram família…


 

Lembro-me de que eu pensava exatamente assim, mas ouvi de alguém mais pragmático: “(...) a vida é assim: de ‘his and byes’ (oi e tchau)’”. Em determinado momento, eu deixei o Greenpeace e fui para o Sea Shepherd pela oportunidade de ir para a Antártida. E como fotógrafa! Um sonho dentro do outro. Colocando-me, literalmente, “entre o arpão e a baleia”. Trabalhando com a lenda que é Paul Watson, quarenta anos protegendo os oceanos. Fora aquela deslumbrante natureza selvagem, com o gelo oferecendo o espetáculo da variação de brancos - e filetes de cores.

 

Depois de anos embarcada, uma pessoa chegou em minha vida - um companheiro, com quem dividi gostos, interesses, visões de mundo e um veleiro, que foi nossa casa por quatro anos. Um dia, nos separamos. E foi muito doloroso. Mas… Continuei navegando. Sem o veleiro, sem o companheiro; agora a serviço das ONGs, novos trabalhos, novas missões. Na Antártida; no mar Mediterrâneo protegendo o peixe atum; infiltrada entre os baleeiros nas Ilhas Féroes... Ali foram dois meses conquistando a confiança deles, fazendo-me amiga e, o que é pior, muitas vezes me envolvendo pessoalmente - um convida para almoçar, o outro para conhecer a família, um terceiro para o aniversário do filho… Mas, missão é missão: assim que ficava sabendo da próxima matança programada, ia lá e avisava a ONG. Lembro de uma menina que falou:

 

“Eu sinto uma força dos meus ancestrais quando eu vejo (o mar) ensanguentado, sabe? Eu acho bonito, é vitória, é força; para a gente isso tem um símbolo muito importante, historicamente”.


 

Lembro-me de ter, na época, estabelecido, mentalmente, uma relação entre os dois momentos que vivi: o da Amazônia, lá atrás, com aquele trabalhador que colocava suas necessidades pessoais - e de sua família - à frente do cuidado ambiental, da preservação de florestas; e o dessa moça, que era uma questão histórico-cultural. Bom, mas entre enfrentamentos de toda espécie; fotografias; filmagens; ações de combate; de salvamento; momentos perigosos e momentos deslumbrantes - eu cheguei a estar a vinte metros de uma baleia, identificando a força da espécie, mas também a suavidade - eu concluí então ser desnecessário estar embarcada o tempo todo. De qualquer forma, pensei, até mesmo a partir do lugar que eu escolher para viver, para me fixar, posso “continuar trabalhando questões transformadoras”.

 

Então, fiz de São Paulo a minha base. Mas antes resolvi me entregar a um desejo antigo de morar na França - especificamente Paris - seja por sua história, pela literatura, seja pelo próprio charme das pessoas e do lugar, seja, ainda, para tratar da alma depois da tal separação. Aí, cheguei ao Brasil, de volta, fui ao Monte Roraima, me envolvi com tribos indígenas, pajés e que tais, porque costumo dizer que minha rotina é, justamente, não ter rotina. Hoje aqui, amanhã em algum outro lugar buscando, lutando, descobrindo. Como descobri que São Paulo era o meu pouso. Como descobri que valia a pena reunir todas as anotações que eu fiz em sete anos de aventuras e escrever Sete Anos em Sete Mares, que lançarei em breve. E por falar em livro, devo falar, também, no agito cultural que promovi na França - e estendi a Mônaco - com um prêmio de fotografia ganho da National Geographic, que me possibilitou posteriores exposições.

Acho que chegou o tempo de passar adiante as experiências, as realizações. E sonhar com a que falta: o Polo Norte.

 

Agora é outra fase, fase da terra, de enraizar e espalhar para o mundo um pouco do que eu vi nessas vivências.


 

E espalhar é contar tudo o que vivi, tudo o que foi anotado em sete anos inimagináveis:

 

(...) desde batalha com os baleeiros japoneses até perdas e ganhos dos pontos de vista emocional e humano.

 


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