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História

Bailinhos, beijos escondidos e minissaia enrolada

História de: Irene de Lourdes Yasuoka
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

Irene nasceu na cidade de São Paulo, em 1956, mas logo se mudou, com a família, para Diadema. Lá, o pai conseguiu, com a ajuda de um mutirão feito pelos irmãos, erguer uma casa que mais parecia uma chácara: no meio do mato, tinha água de poço e muitas árvores frutíferas no quintal. No caminho de terra até a escola, que tinha de ser feito a pé, Irene ia recolhendo flores e fazendo ramalhetes para dar de presente às professoras. Mas que ninguém se engane por essa aparente meiguice. Endiabrada, ela costumava se meter em confusões que seguiram pela adolescência e lhe renderam surras doloridas e inesquecíveis. Em uma das vezes, apanhou do pai depois que ele a flagrou por aí com a saia toda enrolada para ficar bem curtinha, à moda dos anos 1970. Irene casou-se cedo, aos 18 anos, com um descendente de japoneses, e, desde então, passou um bom tempo em dedicação quase integral à família. Só depois de ver suas duas filhas já crescidas é que ela resolveu se voltar a si mesma, mais uma vez: alegre e muito ativa, passou a se dividir entre inúmeras atividades, cursos de dança, aulas de pintura e tamborim. “Agora, quero Carnaval!”, diz.

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História completa

Eu nasci em 11 de agosto de 1956, em São Paulo, no bairro do Ipiranga. E eu nasci Irene de Lourdes Tezolin e, depois dos 18 anos, eu me tornei Irene de Lourdes Yasuoka. Meu pai é descendente de italianos e minha mãe, o pai dela era espanhol e a mãe dela era cafuza. Eles se conheceram em um baile e começaram a namorar. E se casaram rapidinho, mal se conheceram. Os dois eram muito pobres – ele veio da roça, trabalhou muitos anos no café e veio com a família para São Paulo.

 

Meu pai foi trabalhando, trabalhando, e conseguiu comprar uma casa quando eu tinha cinco anos. Nós nos mudamos para a Diadema, mas parecia uma chácara a nossa casa, porque só tinha mato e a minha casinha lá perdida no meio! Ele mesmo e os irmãos ajudaram e, com os próprios braços, construíram a casa. Eles faziam sempre assim. Eram em 10, 12 irmãos, e sempre se reuniam e construíam a casa de quem tinha um terreno. Faziam poço e cerca, entregavam a casa pronta. E, em cima, eles sempre arrancavam uma árvore e punham em cima do telhado para inaugurar a casa. Isso me marcou.

 

Eu ficava o dia inteiro no mato colhendo frutinhas, florzinhas, borboletas. Foi uma infância muito agradável! Eu brincava o dia inteiro. Parecia um cerrado, e tinha tudo, umas frutinhas que eu aprendi a comer... Se falaram que era fruta, eu comia! Mas a gente brincava de casinha, fazia fogãozinho de lenha de verdade. Minha mãe dava panelinha, a gente fazia comidinha de verdade, a gente matava passarinho. Eu tinha dois irmãos e eles caçavam passarinho com estilingue. E, um dia, eles apareceram com uma coruja. Estava fácil de pegar a coruja porque ela estava dormindo! (risos) E a minha mãe falou: “Coruja não, coruja vocês não podem comer, coruja come rato!”. Mas foi assim, uma infância muito legal!

 

E tinha uma escola bem longe. A gente ia andando e, no caminho da escola, eu ia pegando dálias, margaridas, rosas. Eu chegava na escola com um ramalhete desse tamanho para a professora! E eu lembro que as professoras ficavam pedindo carona para voltarem pra casa, porque lá não passava ônibus.

 

Eu era muito respondona, arteira. Minha mãe me batia todo dia! Minha mãe pegava uma vara e descascava a vara, ficava branca. E ela era comprida, ela me alcançava. Onde eu estava, a vara chegava até mim! Eu apanhava todo dia (risos). Na escola, eu defendia minha irmã, que era boba. As meninas brigavam com ela, e eu tacava pedra nas meninas. As mães das meninas vinham reclamar com a minha mãe. Aí, eu apanhava! Minha irmã era mais velha que eu, mas era bobona! Eu era muito danada, muito arteira! Um dia, deu uma cheia no rio que divide São Bernardo de Diadema. E ninguém podia chegar perto, porque era perigoso. E eu atravessei aquele rio! Eu podia ter sido levada pela água... Minha mãe me pegou pelos cabelos, mas eu apanhei esse dia até!

 

Tinha um mercadinho de espanhóis, e eles precisavam de uma pessoa para ajudar. Eu tinha 14 anos, e fui ajudar. Só que eu não gostava, porque eles me mandavam varrer. Se me mandassem varrer a frente da loja, eu morria de vergonha! Eu achava humilhante ter que varrer, porque tinha um menino tão lindo que passava, descia a rua. O menino tinha um terninho, acho que era office boy. E eu não queria que ele me visse varrendo! Então, quando me mandavam varrer, eu inventava, ia ao banheiro, esperava o menino passar. Acho que eu dei meu primeiro beijo com 15 anos, e foi com esse menino que descia a rua. Eu ia para o fundo do quintal recolher a roupa, e ele ficava lá em cima e eu lá embaixo. Eu ficava beijando. Meu pai: “O que essa menina está fazendo lá fora?”. “Fui recolher roupa!” Eu era muito danada.

 

Eu era da comissão de festas de tudo quanto era escola em que eu ia. A comissão de festas era eu, estava lá! Essa era a diversão, porque não tinha dinheiro para ir ao cinema, jantar fora. A gente nem sabia o que era isso! Ninguém tinha carro, ninguém dirigia naquele meio. Já não era tão mato, já estava mais povoado, mas, mesmo assim, era distante. Quando a gente falava em São Paulo, a gente falava: “São Paulo, você vai pra São Paulo?”, como se fosse uma pessoa do interior bem distante. E Diadema é aqui do lado.

 

Depois de adulta, eu apanhava do pai, porque não podia saia curta, não podia decote, não podia batom, não podia, não podia! Era proibido. E eu saía com aquela saiona enorme. Na época em que eu era mocinha, se usava microssaia. Todo mundo com roupinha de mocinha, e eu com aquela saia enorme. Aí, eu enrolava, enrolava, enrolava. Na rua, um dia, ele me pegou. Eu estava com uma saia de preguinha verde, que tem cintura baixa e preguinha. Ele me viu com aquela saia, meu Deus! Toda enroladinha e uma jaquetinha por cima pra esconder aquele enrolado. Só via a perna de fora (risos)! Mas eu apanhei! Meu pai tirou um chinelão, era desse tamanho o chinelão dele. Porque meu pai tem dois metros, imagina o tamanho do pé dele? A minha irmã era esperta, desenrolava a saia dela bem longe. A minha, eu desenrolava só quando estava no portão! (risos) Então, apanhava. Quando era sábado e domingo e tinha festinha de aniversário, tinha de chegar às nove horas. Chegou nove e cinco? Surra! Eu apanhava todo fim de semana.

 

Depois que eu terminei o ginásio, fui fazer o curso de enfermagem. Mas, logo que saí da enfermagem, conheci meu marido. E ele falou: “Não vai trabalhar porque não compensa você trabalhar, você vai ganhar pouco. É melhor você ficar em casa, e eu trabalho. É mais econômico você ficar em casa”. Aí, eu parei de trabalhar.

 

Eu conheci meu marido com 17, 18 anos, tomando ônibus. Ele fazia FEI [Faculdade de Engenharia Industrial], estava no último ano e fazendo estágio na Ford em Rudge Ramos. A vida dele também foi muito difícil. Ele morava numa colônia de japoneses, viveu no sítio, e o pai dele aproveitava dele, porque ele era o mais forte. Depois é que veio para São Paulo. Quando me olhou no ônibus, ele falou: “É com essa que eu vou casar”. Eu olhei para ele, porque ele era bonitão! E ele era um japonês diferente, tinha um cabelo black. Eu nunca tinha visto japonês de cabelo black. Falei: “Nossa, japonês black!”.

 

Começamos a namorar, e ele falou: “Eu quero falar com o seu pai, porque eu quero coisa séria. Eu namoro e caso em um ano”. Ele se formou, arrumou um emprego na Atlantic de petróleo, vendeu o carro que o irmão dele tinha dado, já deu entrada numa casa. Já casei com casa própria. Mas foi duro, porque nós não tivemos namoro de passear. Não tivemos, porque o dinheiro era todo para comprar a casa. Em um ano, ele montou minha casa todinha. Tinha tudo, máquina de lavar roupa, todo o conforto. Porque naquela época não era todo mundo que tinha máquina de lavar roupa. Ele sempre deu tudo, tudo.

 

Meu marido é muito trabalhador e muito seguro com o dinheiro, porque, como ele trabalha muito, ele valoriza muito o que ele tem. É uma pessoa que não tem amizade com ninguém, não gosta de parente, não gosta de amigos, não gosta de nada. Não bebe, não fuma, não joga, não ri. Você conta piada pra ele, ele não entende, fica sério assim pra você! (risos) É o meu oposto! Difícil, mas eu estou há 42 anos casada.

 

Nós temos duas filhas, que são o meu orgulho. Valeu a pena viver só por isso, por elas. Eu já tive muita coisa boa na vida, já tive muitas viagens, tenho carrão, tenho casa boa. Mas a única coisa de que realmente eu me orgulho são minhas meninas. Eu sou o rascunho, elas são a obra-prima. E minha neta vai ser melhor ainda. A continuação da Irene está ali. Ela deita no chão pra gargalhar, de tanta gargalhada que tem naquela criança! Eu falo: “É a minha continuação que está aí, um pedacinho de mim está aí!”

 

Depois que eu cheguei em certa idade, eu falei: “Chega! Já criei minhas filhas, já eduquei, já formei e já informei. Agora eu vou cuidar de mim, eu vou fazer tudo que eu quero”. Eu toco tamborim num cordão de escola, porque eu gosto de alegria, eu gosto de gente! Quero Carnaval. Fiz cinema, fiz um curta, fiz fotografia, fiz desenho, fiz pintura. Eu faço tudo que eu quero! Faço dança, danço carimbó, dança do ventre, dança cigana, dança de salão, faço ioga, faço tai chi. Só faço coisas que eu gosto!


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