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História

Calçando Campinas

História de: Roberto Alceu Bevilacqua
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/08/2008

Sinopse

Nascimento em Campinas. Origem e descrição das atividades da família. Lembrança da casa onde morava quando criança e das brincadeiras com os amigos. O comércio em Campinas. As escolas onde estudou e de onde trabalhou ainda jovem. Descrição dos espaços de lazer. Impressões sobre a cidade e início do namoro. Mudança nos calçados comercializados. As novas formas de compra de calçados com o surgimento da internet. Funcionamento da loja, maneiras de vender. Descentralização do comércio. Formas de pagamento, com a aceitação de cartões. Informatização. Percepções do comércio na cidade.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Eu me chamo Roberto Alceu Bevilacqua. Nasci dia 23 de agosto de 1950, em Campinas.

FAMÍLIA
Meus pais são Antônio Bevilacqua e Rute Castilho Bevilacqua. No lado paterno, meus avós eram italianos. E materno, o meu avô era descendente de espanhol e a minha avó de português. A minha avó paterna, veio criança para o Brasil e morreu quando eu era pequeno. Eu convivia mais com a minha avó materna. A minha avó tinha vários irmãos. Alguns nasceram aqui e outros em Portugal, porque eles ficavam viajando. Eu não sei o porquê, mas meu avô viajava daqui pra lá e vice-versa. Ela tem um irmão aqui, um irmão de lá, um irmão daqui, outro de lá. O meu avô trabalhava na Fazenda Boa Vista. Ele tomava conta da fazenda. O meu pai sempre teve loja. Desde 17 anos, ele trabalha lá. O meu avô paterno montou a loja e deu pra ele trabalhar, em 1939. Ele está lá desde quando montou a loja. O meu avô tinha um armazém na mesma rua e pôs o meu pai pra trabalhar na loja. O meu pai trabalhava aqui perto, na Rua Campos Salles. O meu avô tinha um armazém na Rua Treze de Maio. O meu avô, pai do meu pai, morou em Amparo durante um tempo. Não sei o que ele fazia lá. Depois, eles vieram pra Campinas e ele montou um armazém. Ele casou em Amparo, porque meu pai nasceu lá, em Socorro. Eles moravam ali perto. Depois de certo tempo, ele montou uma loja e deu para o meu pai trabalhar. A minha mãe nunca trabalhou, cuidava da casa. O meu pai veio criança pra cá, era bem criança, e a minha mãe nasceu aqui. Tenho uma irmã que é quatro anos mais velha do que eu. Ela está aposentada. Quando casou foi morar em Santos e agora mora aqui.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Eu morava no Cambuí, do lado do Regatas, do Clube Campineiro de Regatas e Natação. Eu morava na Rua Baía Monteiro e era a última rua calçada do Regatas. Pra baixo era tudo terra. A rua da minha casa era a única que era calçada daqui até o centro. Isso eu lembro, de quando eu era pequeno. Eu me lembro que a cidade era pequena porque o Cambuí acabava ali. Dali pra baixo não tinha mais nada, tinha algumas ruas de terra. Que eu me lembre, a vila está do mesmo jeito, a Vila Industrial onde nós estamos. Nova Campinas estava montando. O Castelo, até a Escola de Cadetes, é a mesma coisa até agora, porque lá tem o Exército. São Bernardo era o último bairro, depois não tinha mais nada. Campinas era pequenininha.

INFÂNCIA
Eu andava muito de bicicleta. Andava a cidade toda de bicicleta. Nós tínhamos carrinho de rolimã, que andávamos bastante também. Muito depois que asfaltaram a rua de casa. Antes era só terra, mas isso eu já tinha um pouquinho mais de idade, quando asfaltaram. Ia muito ao Regatas. Ia todo dia nadar porque eu morava a uma quadra. Tinha turma que ia. Todo mundo ali era sócio.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Ia muito às Lojas Americanas comprar bugigangas, buscar carrinho. Eu adorava carrinho e nós íamos comprar lá. Ia muito à loja do Lunardi buscar peças de bicicleta. O que eu mais me recordo é das Lojas Americanas mesmo. Agora está voltando... Tiraram as fachadas, esse ano que passou, eles fizeram a limpeza na Treze de Maio, os prédios voltaram a aparecer, porque estava tudo escondido com aqueles cartazes. Tinha o Mercadão porque não tinha supermercado, naquele tempo. Era só o Mercado Velho, que eu me lembro. Tinha a mercearia, na Barão de Jaguara, muito antiga, todo mundo conhece, a Seleta, e eu lembro que eu ia lá.

FORMAÇÃO
Fiz a escola normal, na Avenida Anchieta. Fui primeiro para o Cesário Mota, depois para o Ateneu, porque o Cesário fechou, eles derrubaram lá, fizeram o centro de convivência ali em cima. Derrubaram o colégio e fomos todos para o Ateneu. Até o colegial. Meu pai queria que eu fosse médico. Era o sonho dele, mas não era o meu. Nunca gostei disso. Depois ele desistiu. Eu sempre gostei de mexer com alguma coisa. Depois que eu saí do quartel, eu trabalhei um ano no Banco Itaú, depois fui pra loja. Não saí mais. Eu procurava ir o dia todo. Mas sempre saía pra fazer alguma coisa, como até hoje, às vezes, tem tanta coisa que tem pra resolver.

JUVENTUDE
Tinha o Clube Concórdia, que tinha bastante baile. O Cultura, o Tênis. Depois, mais na adolescência, tinha a Hípica, que tinha baile de carnaval. É que agora não tem mais, não tem mais nada disso. Cinema tinha alguns no centro, nós íamos sempre ao cinema, quando adolescente.

VIAGENS
Quando eu era adolescente, eu ia comprar roupa em São Paulo. Roupa da moda. Eu ia com um amigo para comprar roupa e sapato em São Paulo, apesar de o meu pai ter loja. Mas era sapato da moda, nós íamos buscar. Íamos de ônibus. A minha mãe tem muito parente em São Paulo, então ia bastante pra lá, na casa dos primos. Sempre de carro. Em Santos também. Meu pai tem parentes em Santos, sempre íamos pra Santos.

TRANSPORTE
Um parente de minha mãe tinha fazenda em Ibitiúva, em São Paulo. Todas as férias, nós íamos de trem pra lá. Era aquele trem que ia devargazinho. Almoçávamos no trem. Lembro que nós íamos de manhã, almoçávamos no trem e à tarde estávamos lá, apesar de ser perto hoje, mas de trem demorava. Era gostoso. Eu acho que era pela Paulista, Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Pegava aqui do lado, demorava não sei quanto tempo, ia pra fazenda de trem. Nas férias, passava certo tempo na fazenda e certo tempo em Santos, na casa das tias do meu pai.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Terminando o quartel, trabalhei um ano de no Banco Itaú. Depois fui pra loja. Antes só ia de vez em quando, nunca ficava muito tempo lá. Ia só um pouco, fazia alguma coisa e ia embora. A loja é pequena, eu sempre fiz de tudo, porque eu sempre gostei de fazer de tudo. Eu consertava as coisas, vendia, recebia, ia ao banco, fazia de tudo. Quando eu comecei a trabalhar na loja, eu já tinha um carro, eu já comprei um carro.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Campinas era diferente do que é hoje. Nós conhecíamos todo mundo, a cidade era sossegada, tinha pouco carro na rua. Quando se ia a algum lugar, conhecia todo mundo. No Tênis, à noite, no Cultura... Tinha os barzinhos de antigamente, o Armorial que eu comecei a ir lá quando era mais adolescente, mas era mais pro público adulto, tinha piano. Era ali na Rua General Osório. Enfim, não tinha muita coisa pra fazer, mas era gostoso. A cidade era muito boa.

CASAMENTO
O pai da minha esposa tinha um amigo que tinha uma casa em Bertioga. E nós íamos muito pra lá. Era do lado do Sesc em Bertioga. Todo ano nós íamos pra lá, na casa, a turma toda. O meu sogro tinha uma Kombi, então a Kombi ia também cheia de gente, além dos outros carros que iam. Ia pela Estrada Velha de Santos. Não tinha essas duas pistas novas, era aquela estradinha. Até São Paulo era a Anhanguera. Passava por São Paulo e depois pegava aquela estrada fininha pra Santos. Bertioga era aquela mais fininha ainda. E eu já namorava a minha esposa que conheci na casa de uma amiga. Tinha uma reunião lá, eu fui e a conheci lá. Tinha 20, 21 anos.

VIAGENS
Na adolescência, às vezes, eu ia pra São Paulo ou pra praia. Ia mais de carro, com a turma de amigos. Depois, eu comecei a namorar e ia a namorada mais o pai dela. Muitas vezes, eu ia e voltava rápido e outras vezes ficava bastante tempo. Quando ia por conta própria, ia um dia e voltava no outro. Ou dormia na casa de um amigo, ou na casa do meu primo, coisa assim. Mas quando eu ia com a família, nós ficávamos bastante tempo.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Restaurante é o Rosário, que é o tradicional. O Éden Bar que sempre teve, ainda tem hoje. Tinha a Sears, que nós íamos comprar roupa, que era atrás da Catedral e não existe tem mais. Comprava roupa na Casa Ezequiel, que ainda tem.

COMÉRCIO DE SAPATOS
Vendemos sapatos de todos os tipos. Feminino, masculino. Inicialmente, vendia os melhores que existiam na época. Depois o povo, eu acho que foi empobrecendo, e nós acabamos vendendo coisas mais inferiores. Agora é artigo mais popular. Porque o povo da Rua Treze de Maio agora é mais popular. Eu tenho a impressão que o povo que compra coisa mais cara vai para o shopping. Tem uns 20 anos que tem shopping, mais ou menos. Só mudou o jeito de fazer. Não tem mais freguês ou menos freguês. Mantém-se a mesma proporção. O que mudou foi o que se vende. O sapato masculino que nós vendemos, é mais pra trabalho. É o artigo que mais vende na loja, coisa pra trabalho tipo botina, um sapato de trabalho mesmo. Não tem mais sapatos finos na loja. Antigamente, vendia sapatos sociais, aquele sapato de cromo. Não é da minha época. Quando eu entrei já tinha mudado um pouco. Eram todos industrializados. Indústrias grandes. Vinha ou viajante ou nós ligamos na fábrica e eles mandavam. Quando nós já temos o produto conhecido, não tem necessidade de vir ninguém. Sapato feminino sempre veio mais do Sul. Até hoje. E sapato masculino é mais de Franca. Tem de todo lugar, mas a maioria vem de Franca e feminino, do Sul. Compramos pelos viajantes, pelos representantes porque todas as fábricas têm. Agora com a Internet ficou diferente, nós até compramos por e-mail, por catálogo, por site, você vê o produto, já conhece a qualidade, você vê o modelo e pode comprar. Mas a maioria é viajante que vai à loja. Representante, no caso. Eles trazem amostras e o resto é catálogo. Trazem um pra gente ver a qualidade e os modelos estão no catálogo. Senão fica com muita bagagem pra trazer. Antigamente, se vendia muito sapato de salto. Hoje não trabalho mais com esse tipo de sapato. Hoje, pra mulher, eu só tenho sandálias, um sapato baixinho. Enfermeiras compram muito sapato branco, sapato de trabalho. Eu acho que na Treze de Maio não tem esse público que compra sapato melhor, mais caro. Antigamente, não se vendia muito tênis. Agora se vende muito. Cada vez mais se vende tênis. Eu mesmo, antigamente, não usava tênis e agora uso. O que mais vendia na loja, que eu me lembre, era uma marca chamada Maquelli. Era o que mais vendia. Coisas da Alpargatas vendia muito. A Alpargatas mudou também o jeito de fazer os produtos. Única coisa que manteve foram as Havaianas, o resto mudou tudo. Sempre vendeu bastante na loja. A Maquelli era só masculino. Não era um sapato nem muito caro, nem muito barato. Era um sapato médio. Vendia muito. Vulcabras, que agora não tem mais, mas já teve muito. Pouca coisa que continuamos vendendo. Da Alpargatas eu só vendo Havaianas agora. Não tem mais nenhum produto que eu venda deles. Vendia Rainha, Topper, Puma, Adidas. Hoje eu não vendo nenhuma dessas marcas. A única marca mais conhecida que eu vendo é o All Star. O resto são produtos mais acessíveis para o público. Geralmente são três vendedores. Três ou quatro, no máximo. O funcionamento sempre foi das oito às seis. Nunca foi diferente. Na loja não teve grandes mudanças. O meu pai sempre manteve, nunca foi uma pessoa muito atirada. A loja sempre mantém um padrão, sempre a mesma coisa. Entra crise, sai crise, a loja está sempre igual. É por isso que está há muito tempo.

EMBALAGENS
Tudo o que nós compramos, que tenha uma qualidade melhor, vem em uma caixa mais bonita. Uma caixa, colorida, com escrita. E sapatos mais populares, vêm em caixa sem nada escrito. Vem só o modelo, a cor e não tem nada escrito. O Picadilly tem escrito no fundo como você lava o sapato, como você cuida, como limpa, coisas assim. Tem sapatos que vem com instruções no fundo da caixa. Não são todos, alguns vêm. As marcas mais famosas, sempre vieram escritas.

ORGANIZAÇÃO
Na loja sempre teve vitrine. Antigamente, antes de reformar a loja, eu tinha vitrines pequenas. A loja tinha duas vitrines na frente e do lado, como tem três portas, tem vitrines separadas. Depois que nós reformamos, fizemos duas vitrines grandes, uma de homem de um lado, e outra de mulher do outro. É só o que nós separamos, põe tênis, depois sapato, depois bota. Às vezes, muda a mercadoria, então você tem que pôr em outro lugar. Ou aumenta uma coisa e diminui a outra, você tem que mudar um pouco. Mais ou menos, é sempre igual. Feminino de um lado e masculino do outro. Como masculino tem bem mais, tem uma vitrine bem maior. Eu só mudo quando é inverno e verão. Quando é verão, eu ponho sandália na frente e sapato no fundo, de mulher. E quando é inverno, eu faço ao contrário. De homem não. De homem está sempre igual, porque de homem não tem o que mudar. Lá na loja eu tenho seis portas. Tem duas na frente e quatro do lado, que é loja de esquina. Nessas portas do lado eram vitrines pequenas. Antigamente, faziam vitrine pequenininha, só na frente do vidro. Depois, quando reformou, fez uma vitrine inteira. Fica mais moderno e mais prático também. Fica uma vitrine bem maior e mais prática de arrumar. Antes era de madeira, agora é alvenaria. Antes era porta de abrir, agora é de correr, facilita. Por muito tempo fui eu que arrumei as vitrines. Eu e alguém que ajudava. Depois minha prima, que trabalhou na loja por um tempo, fazia. Sempre algum funcionário ou eu ajudo. A vitrine não é muito grande, não tem muito o que mudar. É só questão de pôr mesmo os calçados do inverno e verão de um lado e de outro. Antigamente, o que tinha na loja era tipo um sofazinho. De uns 30 anos pra cá, tem cadeiras, tem poltroninhas. Já andaram reformando, mas a poltrona é a mesma ainda.

CLIENTES
Quando a pessoa entra disposta a comprar, compra rápido. Ele olha na vitrine: “Me dá um desse.” Experimenta, compra e vai embora. Ou, às vezes até nem experimenta. Às vezes, a pessoa está com pressa: “Me dá um sapato desse número tal.” E vai embora. E algumas pessoas ficam experimentando: experimenta um, experimenta outro, esse acaba até nem comprando porque ele está passeando, ele não entra necessariamente pra comprar. Às vezes, acaba até comprando, mas o intuito dele não é comprar, é passear.

ABORDAGEM
Eu tenho notado que hoje em dia, você vai em toda loja é sempre jovem que vende. O jovem hoje vende melhor, passa uma imagem melhor. Mesmo lá na loja, entra vendedor que nunca trabalhou, nunca vendeu nada, ele entra e em 15 dias está vendendo bem. Jovem. Eu acho que é o jeito de conversar, de ser mais descontraído. Ou passa uma imagem melhor. Lá na loja sempre teve vendedores mais velhos. De um tempo pra cá é que entraram os mais jovens. O jovem, hoje, funciona melhor. Naquela época, era diferente. Já eram pessoas casadas, com família, que eram vendedores de loja. Hoje, a gente nota que toda loja é sempre gente com 20 anos, 18 anos. Não tem gente com mais idade vendendo.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
No ramo do comércio de sapatos, tinha a Picoloto, que já fechou, a Modelo, que está fechando, porque eles só vendem coisas mais finas. Você vê que eles estão fechando a loja, na Treze de Maio. A Modelo diz que não vai abrir em lugar nenhum, a Picoloto ainda tem no Shopping. Mas no centro já fechou. A Baby, que tem a mesma idade da nossa loja, embora já mudou bastante de dono, mas a loja ainda continua lá. Não tinha muita loja de sapato. Acho que só tinha essas, naquele tempo. Eu acho que no shopping vende coisas mais de moda. Hoje tem bastante. Hoje tem muita. No shopping tem bastante lojas de calçados. Grande não tem muito, mas tem bastante lojinha pequena que vende sapato. Na frente mesmo tem uma loja que vende um monte de coisas e vende sapato também. Supermercado vende sapato. Em Campinas, em 70, mais ou menos, começaram os supermercados. Veio o Eldorado que foi o primeiro, acho, e depois, em 86, pegou fogo. O Carrefour comprou aquilo lá.

CLIENTES
Tem algumas pessoas que sempre compram. A cidade cresceu muito, então a pessoa cada hora compra em um lugar. Há pouca fidelidade. Antes tinha mais gente que era mais fiel à loja. Tanto é que hoje, o povo daqui é a maioria de Hortolândia, pessoal que mora na periferia, passa muito na Treze de Maio. Tem uns pontos de ônibus, o pessoal sobe e desce por ali. Antigamente, o pessoal saía de um lugar pra vir aqui comprar. Hoje eu acho que a maioria é povo que está trabalhando, que está passando. Tanto é que se você abrir a loja no feriado, não tem ninguém porque não tem gente trabalhando. O maior público hoje é o pessoal que trabalha. Por isso eu acho que mudou o público da Treze de Maio.

TRANSPORTES
A cidade mudou, parece que nós moramos em outro lugar. Hoje você pega o carro, tem grandes rodovias pra todo lugar. Antigamente, era diferente. Ia pra Indaiatuba em uma estrada pequenininha, ou ia de trem. Tinha o trem que parava em Indaiatuba. O trem turístico pra Jaguariúna, eu acho que é aquele trem que ia pra Indaiatuba antigamente. Eu ia muito à fazenda de um amigo em Indaiatuba. Era naquele trem. Hoje não. Hoje mudou o jeito de viver. Hoje dá pra você fazer uma compra em São Paulo, que você vai em uma hora e volta. Às vezes, até menos de uma hora, se não tiver trânsito. Antes pra ir pra São Paulo era uma viagem mesmo. Hoje já não é mais. O comércio acompanhou, o comércio mudou muito, porque pulverizaram as lojas. Hoje você tem loja em todo lugar. Tem loja em bairro, em shopping, tem shoppinho, tem galerias, por isso que o comércio da Treze de Maio mudou nesse aspecto.

FORMAS DE PAGAMENTO
Cada vez mais cartão. Teve um tempo que eu tinha maço de cheques. Hoje eu não tenho cheque nenhum. Agora eu não estou nem aceitando mais cheque, porque não funciona. Hoje é 50% cartão. Financia no cartão, divide no cartão. Na loja nunca teve crediário. Teve um tempo que andou voltando um pouco de cheque. Nós tomamos conta, nunca teve problema com isso. Fiado, acho que no tempo do meu pai já não tinha. Acho que era antes, no tempo do meu avô. Era mais em armazém que se vendia assim.

FAMÍLIA
Casei em 74. Não tive filhos. Ela trabalhou um tempo e agora não trabalha mais. Não chegou a trabalhar na loja. Nós tínhamos até uma oficina de jóias que ela tomava conta, mas fechou porque mudou até o jeito de vender. Hoje não se usa mais ouro, jóias, acabou.

PROMOÇÕES
Não costumo ter promoções na loja porque é uma loja pequena, começa a não vender uma coisa é só não comprar mais e já mudamos pra outra coisa. Não sobra mercadoria de ter que queimar. Às vezes, eu ponho alguma coisa mais barata, uma coisa pra acabar mais depressa, mas não chega a ser uma coisa grande não.

PROPAGANDA
O meu pai nunca gostou de fazer propaganda. No tempo dele nunca fez. Eu, uma vez mandei fazer sacolas, timbrados. Ele é mais tradicional, tem aquele jeitinho dele. Ele nunca quis mudar nada, nem aumentar a loja, nem abrir uma filial. Ele ainda vai à loja todo dia. Ele abre e fecha a loja. Tem 84 anos. Ele começou a trabalhar lá quando estava com 17 anos e até hoje ele vai.

COTIDIANO
Eu tenho alguns amigos que vão lá, sentam, conversam um pouco. Na loja do Lunardi, eu vou todo dia tomar café. De manhã nós vamos até o barzinho, tomamos um café, voltamos. Eu tenho alguns vizinhos ali de cima, nós vamos tomar café e amizade mesmo é com o Lunardi.

SUCESSO
A loja durou até hoje porque meu pai nunca teve a vontade de tentar aumentar muito. Às vezes, a pessoa tenta aumentar e acaba indo pra trás. Ele sempre manteve a loja em um determinado patamar. Se os negócios começam a ir mal, ele tem de onde tirar. Se começa a ir bem, ele guarda um pouco. Acho que a loja esta lá até hoje por causa disso. Ele nunca arriscou grandes coisas. Nunca fez. O Collor, quando tirou o dinheiro de todo mundo, muita gente ficou desesperada. Ele não. Lá não compro e não vendo nada a prazo. Quer dizer, se amanhã não vender nada, ninguém vai bater na porta cobrando. Não existe esse problema. Por isso que a loja está lá até hoje. Hoje as coisas são do mesmo jeito. Inovações sim. Até no jeito de vender. Hoje eu tenho computador, que antes não tinha, fax, antigamente não usava, são coisas pra melhorar o atendimento. Cartão, que antes não tinha. Se não tivesse posto essas coisas, a loja teria ficado muito pra trás. Hoje em dia tem certas coisas que você precisa ter. Tem que acompanhar.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Hoje nós temos contato com todo tipo de gente, de tudo quanto é lugar. É diferente de antigamente que tinha pouca gente de outros lugares. Hoje é difícil você ter uma pessoa que nasceu em Campinas. Você conversa com gente de todo lugar, vem gente de todo lugar. A facilidade da locomoção. O pessoal muda de cidade pra trabalhar. Antes tinha muito pouco isso. Você arruma um emprego aqui hoje e amanhã está em outro lugar. Acho que antes era muito centralizado. Pela internet você compra em outro país. A facilidade do carro, de ir de um lugar pra outro. Nesse sentido acho que mudou muito a vida de todo mundo. O público universitário aumenta muito a venda de toda a cidade. Vende sapato, vende restaurante, vende barzinho. Aumenta bastante, tem muito estudante circulando. Nós vivemos no Primeiro Mundo, porque aqui tem tudo. Os melhores hospitais, a cidade. Quem não conhece, se mudar da Europa pra cá, não vai notar nada pior.

LIÇÕES DO COMÉRCIO
Todo mundo que trabalha deve procurar fazer uma coisa boa, procurar favorecer não só a nós mesmos como aos outros. Você pode contribuir com muita coisa. Se você vender um sapato, vender uma comida, você tem que vender uma coisa boa, porque se não, além de você não contribuir para a melhora de nada, você não aprende a fazer nada melhor. Devemos procurar na vida sempre dar o melhor.

MEMÓRIAS DO COMÉRCIO DE CAMPINAS
Eu gosto de coisas antigas, fotos antigas, embora eu não tenha muita coisa. Mas eu gosto de saber das coisas, é gostoso. É importante preservar a memória porque se não, daqui pra frente, como as pessoas vão saber como nós éramos? Alguma coisa sempre se aprende. Eu nunca tinha dado entrevista e hoje aprendi (risos).

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