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História

Campeã na vida

História de: Fernanda Keller
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/10/2014

Sinopse

Fernanda Keller nasceu e cresceu em Niteroi, em uma família amorosa, cheia de primos e um irmão, com quem brincava em casa, na rua e na praia. Sempre gostou de esportes e entrou na faculdade de Educação Física aos 16 anos, ainda sem muita certeza do que faria profissionalmente. Foi nos corredores da faculdade que ouviu falar pela primeira vez do triathlon e depois de completar sua primeira prova, nunca mais parou.

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História completa

Fernanda Keller. Nasci em Niterói no dia quatro de outubro de 1963. Meu pai é Manuel de Sousa Nunes, nasceu em Macaé, no dia sete de fevereiro, não me lembro o ano. E a minha mãe, Terezinha Keller, nasceu dia 14 de maio, esqueci também o ano, em Macaé. O meu pai trabalhou a vida inteira no Sesi, administrador de empresas. A minha mãe é pedagoga, trabalhou na Universidade Federal Fluminense muitos anos, professora da universidade e do mobral também. Meu pai faleceu em 2008, minha mãe ainda está viva. Meus pais são tudo pra mim. E eu tenho um irmão, que é um dos meus melhores amigos, tem o mesmo nome do meu pai, só que filho. Manuel de Sousa Nunes Filho. Está sempre me acompanhando em todos os campeonatos que eu vou competir. Ele vai, ele é um dos grandes incentivadores meus, sempre parceiro.

A maior parte da minha infância eu passei numa casa na Boa Viagem. Uma casa muito legal porque era um bairro que na época não tinha muitos prédios. Hoje tem o Museu do Niemeyer, um ponto turístico da cidade, superperto da praia. Sempre amei praia, mar, brincar na praia, tal, e eu pude ter essa infância que eu vejo que hoje as pessoas não têm tanto essa chance. Não tinha tanta violência assim, brincar na rua, ter um campinho onde você desce e vai pra rua e tem aqueles jogos que você faz com a garotada. Eu sempre fui líder, sempre gostei de comandar os jogos: “Ah, vamos jogar agora isso”, polícia e ladrão, queimada. E era engraçado, porque a gente podia brincar, as brincadeiras não custavam nada, né? Um pedaço de giz que você riscava no chão uns negócios e brincava assim. Bicicleta era uma coisa supercara, era um brinquedo que todo mundo adorava, todo mundo tinha, mas a gente era muito criativo pra brincar, sabe? Não dependia de muita coisa. Era só ter molecada na rua, criança e já tava a festa pronta. Então, essa infância, nessa casa, foi o máximo. Tinha uma pequena piscina na minha casa, que mal cabia quatro ou cinco pessoas, mas era lotada dos meus primos que iam brincar comigo, então era muito divertido. Eu ganhei uma mesa de ping pong, então era uma festa também porque era o bairro todo indo jogar ping pong na minha casa. E sempre teve muitas festas na minha casa, muitas festas. Tinha uma varanda muito grande e a gente fazia almoço, aniversários, sempre foi alegre a casa assim, muito agitada. De criança, se pudesse correr na rua, ficar à vontade, bolinha de gude, todos os jogos eu gostava, gostava de todos. E de muita praia. Acho que, pra mim, não ir à praia era tristeza. Quando a minha mãe falava: “Hoje ninguém vai à praia”. Cara, pior castigo assim. A melhor coisa era brincar na praia, poder ir à praia.

Ah, eu quis ser tanta coisa até porque o que eu me tornei nunca era uma profissão, ninguém nunca ia imaginar que você quando criança, alguém te perguntar: “O que você vai ser quando crescer?” “Eu vou ser triatleta, vou nadar, vou pedalar, vou correr”. Então, eu inventei praticamente a minha profissão, inventei o esporte que na minha geração nem existia, eu sou uma das pioneiras do meu esporte no Brasil. Eu me tornei profissional de um esporte. Então, assim, quando criança nunca imaginaria que existiria triathlon, até porque triathlon, toda criança nasce triatleta, toda criança ama nadar, ama correr, andar de bicicleta, então no fundo eu já nasci triatleta, como todas as crianças nascem. Eu pensava em ser bailarina, professora, gostava de teatro, de fazer peças de teatro. Já sonhei em ser arquiteta, porque eu gostava de desenhar plantas de casas. Eu fiz na escola Arquitetura como profissionalizante. Enfim, um monte de coisas.

Quando eu entrei na faculdade com 16 anos, então, na realidade foi uma loteria. Com 16 anos você não tem muita certeza do que você quer. Eu tinha achado que tava entrando no clube porque eu estudei na UFRJ, então tinha aula de vôlei, basquete, handebol, natação. Era muito bacana, mas eu não tinha essa consciência: “Eu sou uma universitária, eu estou estudando pra ser uma profissional”. Muito nova, não tinha essa maturidade. E na sequência eu comecei a ter essa maturidade na universidade, comecei a ser professora na universidade, começava a dar aula porque eu achava divertido. Com 18 anos eu já organizava colônia de férias, depois eu comecei a dar aula em escolas, fazer estágio. Na própria universidade eu dei aula de dança. Depois eu comecei a fazer triathlon, foi o segundo triathlon, primeiro, segundo que aconteceu no Brasil, eu fiz como um desafio: “Ah, eu quero fazer porque eu ouvi falar que é legal e tal. E foi na época que eu estudava Fisiologia e Atletismo com o Paulo Figueiredo. Logo na sequência eu tive a honra e a sorte de começar tendo ajuda de um fisiologista, então, eu comecei superbem. Ele me orientou, não pro triathlon só, porque ninguém sabia o que era triathlon, era novo, mas pro treinamento, porque o treinamento esportivo, independente do esporte, a questão de fisiologia é a mesma. Então, foi aí que eu comecei a me tornar um atleta. E aí eu não sabia o que era ser atleta, gostei de ser atleta, fiz a prova e achei bacana pra caramba. Consegui terminar, era o meu objetivo, aí eu falei: “Nossa, se eu consegui terminar, bacana. Agora eu vou treinar mais”. Eu comecei a treinar, aí o meu objetivo de terminar se transformou em melhorar meu tempo. Em três anos eu tava já ganhando as provas, sendo campeã brasileira. Aí eu comecei, em consequência disso, eu virei profissional do esporte. Mas não foi assim: “Eu vou ser profissional”, aconteceu de ganhar e as pessoas me procurarem e me oferecerem patrocínio e tal. Eu falei: “Quem não quer patrocínio, vão me pagar pra fazer isso? Nossa, que bom, eu amo fazer isso, vai ser ótimo”. Aí eu comecei a entender o que era ser uma atleta profissional. Mas eu consegui, na realidade, unir o útil ao agradável. Ser profissional no que eu mais gosto de fazer.

Na primeira vez eu ouvi dizer que ia ter uma prova que nadava, pedalava, corria, eu falei: “Nossa, que incrível”. Eu achei que seria uma oportunidade enorme pra mim de conhecer uma coisa diferente, praticar um esporte que não existia, mas não tinha dimensão o que ia ser, foi um papo de corredor, de universidade, assim que eu descobri. A minha primeira prova era no Rio, tinha que nadar, pedalar, correr nos lugares mais incríveis no Rio que era a Orla Marítima. O Rio é superbonito, nadava em Guaratiba, pedalava pela Barra e corria até Copacabana. Então, assim, foi uma experiência desafiadora porque a prova era longa, eu saía de uma extremidade. Meus pais falavam: “Tomara que ela pare, entre no carro, é muito longe”. Eles estavam preocupados que eu tinha inventado um esporte tão difícil, não tinha essa proporção. Nem existia, né? Eu inventei um negócio supercomplicado. Mas no final eu tinha essa resistência, sabe, é uma coisa minha, física, de gostar e tal. E aí foi uma descoberta desse talento, do dom pra fazer uma prova que durava tanto tempo.

Perguntavam pro meu pai: “Coitada da tua filha, você não dá dinheiro pra passagem, ela vai correndo pra praia, é tão longe”. Aí minha mãe ficava: “Ai, tadinha da minha filha, ela vai fazer uma maratona, demora tanto”. Ela rezava para eu desistir e voltar no meio. Depois que eles começaram a entender. Eu comecei a ganhar, ganhar troféus, eles falavam assim: “Ah, minha filha é triatleta”. “Triatleta, o que é triatleta?” “Ela vai fazer uma peça de teatro, onde é?” “Não, ela é triatleta: nada, pedala e corre” “Ah tá” “E ela é campeã, ela ganhou”, aí eles começaram a ter orgulho, sabe? Mas no início eles achavam uma coisa meio extraterrestre, ninguém era triatleta, só eu.

O mais marcante eu acho que é a sua família que tá lá te esperando, é meu pai que sempre ficava um pouco antes da chegada. Na realidade o meu torcedor número um é meu pai, minha mãe e meu irmão. E agora meu marido. Acho que a família é seu torcedor principal. Meus primos, meus tios. E depois vem todo mundo, seus amigos, as pessoas e depois vêm as pessoas que você não conhece, mas que passam a te adotar também, né? Então, meu pai ficava um pouco antes da chegada. Ele ficava nervoso demais. Ele deixava até eu nervosa, não podia ficar muito comigo antes da prova, a minha mãe falava: “Manuel, vamos dar uma volta e tal”. Ele ficava antes, quando chegava 200 metros antes, aí ele tava lá com a mão: “Pô, valeu, valeu, mais uma!”. Isso é, nossa, eu vivo de novo isso cada vez que eu fecho os olhos assim, eu me emociono de novo, eu vejo isso. Não tem preço. Quando você se entrega a uma profissão, você tem a honra de ser abençoado com isso, eu acho que se eu ficar com 80, 90 anos eu vou conseguir viver isso de novo. Porque a coisa do campeão, não existe ex-campeão, porque não existe o ex-ano de 2000. Eu sou uma campeã e vou ser eternamente, porque se eu fechar os olhos eu vivo isso tudo de novo, eu vejo meu pai, eu vejo a mão dele. Eu cruzo aquela linha, entendeu? De novo, com a mesma emoção. É difícil até de falar sem se emocionar porque é uma sorte assim, num país que não tem esporte, as crianças não são incentivadas na rua a serem atletas, é tão difícil isso, num país que não tem esporte você ser campeão. Não só campeão regional, mas ser... Eu fiquei 14 vezes entre as dez melhores atletas do mundo, cinco vezes campeã do Ironman Brasil, então, milhares de títulos. Seis vezes entre as três melhores atletas do mundo. E aqui a gente vê que todo mundo me pergunta assim: “Ai, como é que eu faço pra conseguir patrocínio?”. É triste porque não tem nem como falar, é difícil, é quase uma Mega Sena você ter patrocínio, você conseguir viver do esporte no Brasil. E eu consegui. Então, eu me considero, não que eu ganhei na Mega Sena, que tem que trabalhar muito, mas imagina, eu tenho 50 anos, eu vivi 30 anos do esporte, não sou milionária, não consegui, não posso parar de trabalhar, preciso continuar a trabalhar, mas eu consegui viver do esporte, isso é uma Mega Sena. No meu país é. É um honra, um privilégio.

Bom, o Instituto Fernanda Keller tem 15 anos. Eu sempre pensei muito no que fazer com tanto troféu, com tanta medalha. Eu sei que pra mim é importante, pro meu país, o que eu conquistei, profissionalmente isso me dá uma credibilidade muito grande. Mas fica uma coisa meio egotrip, né? Eu acho que a forma mais bacana que eu encontrei de dar sentido aquela quantidade enorme de troféu foi compartilhar aquilo. Ver que o que eu ganhei poderia servir pra inspirar jovens e crianças a seguirem a trilha do esporte. Porque eu sei que ser campeão não é pra todo mundo, mas ser campeão na vida é pra todo mundo. Você ter os seus objetivos e vencer esses objetivos é pra todo mundo. E o esporte tem que ser pra todo mundo. O esporte é fundamental na formação de uma pessoa, ele é essencial na saúde de uma pessoa. Ele é fundamental pra socialização. O esporte é mágico, ele é uma linguagem universal. E a minha forma de compartilhar foi levar isso pra criançada. 

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