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História

Do benzer ao resgate histórico

História de: Lucília Francisca de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Lucília é mestre Griô por conhecer profundamente cantigas de roda, rezas e benzeções. Mas na entrevista ela revela, além destes conhecimentos, uma outra grande paixão: as quitandas. Deliciosamente ela prepara imaginariamente as receitas, verbalizando o preparo, a cor, a textura, o sabor e o aroma dos seus doces. Narra também de sua infância na roça, das suas brincadeiras de criança das cantigas de roda e de seu filho, que teve paralisia infantil.

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História completa

Meu nome é Lucília Francisca de Souza. Nasci em Nova Lima em 12 de agosto de 42. Meu pai chamava Antônio Francisco de Assis. Minha mãe, Miriam Francisca Miranda. Meu pai era lavrador, mexia com carvão. E a minha mãe era doméstica, do lar. Nós morávamos no mato mesmo, em uma roça mesmo. Meu pai mexia com carvão, a minha mãe fazia doce, mas tudo lá na roça. Morei com eles até os sete anos. Depois dos sete anos, eles mudaram lá para São Sebastião de Águas Claras. A gente tinha uma casinha por lá e já estava na época também de eu ir para a escola. E lá começou a vidinha da gente.

Eu brincava de roda, morava pertinho do grupo. Tinha hora de aula. Ajudava a mamãe a fazer doce. Terminava os doces a gente ia brincar, só que não brincava até tarde, porque não tinha luz, era tudo escuro. Brincava até ali umas oito horas e ia para casa, ia dormir. E assim foi a vida da gente. Ir para aula, brincar, ajudar no serviço da casa, até que a gente foi crescendo, saiu da escola. Saí da escola, eu estava com 11 anos. Fiz só até a terceira série, porque não tinha também mais grade de estudo. Então para ficar muito à toa a gente arrumava uns (carrolé?), fazia uns bordados, ajudava na casa, aprendia a bordar. Ninguém nunca me ensinou, aprendi com minha espontânea vontade.

Aos 19 anos, eu casei. Não freqüentava baile porque papai não deixava. Papai nunca deixou a gente dançar. Eu gostava, adorava dançar, (risos) mas ele não deixava, não. Nós nunca freqüentamos um baile. Eu fui morar perto deles mesmo. Continuou a vidinha de casada, ajudando eles. Eles também me ajudando, porque logo de início eu tive o primeiro filho, ele sofria de paralisia infantil. Foi a minha luta. Ia em Belo Horizonte, faziam massagem nele, voltava para casa de pé, andava nove quilômetros a pé, indo e voltando todo dia.

Nós cantamos na roda. Nós estamos sentadas lá na praça, cantamos. Outra hora, quando é música de roda nós damos a mão, pra brincar. Igual essa última roda que nós fizemos lá do Griô, lá da última quarta-feira do mês. Foi agora, acho que dia 26 de junho. Nós fizemos a roda, tomamos conta lá do lado da Igreja. Um monte de gente estranha compareceu, deram as mãos. Todo mundo cantou, todo mundo participou. Uma hora na praça, outra hora lá no Cairós.

Nós fazemos os remédios todas as terças-feiras. Eu sou voluntária lá para ajudar a fazer os remédios. Fiz o curso das ervas também, até foi oito meses de curso. Participei o curso todo, durante o curso eu falhei duas vezes só. E agora das ervas eu também vou continuar. Eu pelo menos aprendi com minha vizinha. Ela me benzeu muitas vezes, benzeu meus filhos, era muito bom. Então ela falou: “Eu vou passar a benzeção para você, porque eu já vi que você gosta, tem muita fé. Então eu vou passar para você”. Então o que eu pude aprender com ela eu aprendi. Não aprendi todas, mas várias eu aprendi com ela.

Eu benzo de olhado, olho gordo, vição, espinhela caída, cozi, igual estou te falando, o dedo, por exemplo você machucou, às vezes, o nervo não está bem, então tem que benzer, cozer, a gente coze. Então a gente coze para que os nervos cheguem no lugar. Aí sara.

Meu menino estava lá em Salinas, com a perna ruim. Ligou para mim: “Mamãe, eu estou com a minha perna assim, assim, explicou”. Eu falei: “Meu filho, você está com erisipela, você já deve ter ouvido falar nisso. Você está com erisipela na perna”. “Mãe, será que é isso?”. Eu falei: “É, pelo que você está me informando é erisipela que você está na perna”. Ele disse: “Como que eu vou fazer?”. Eu falei assim: “Olha, meu filho, a erisipela eu não sei benzer. Tem a minha amiga que benze, mas não sei se ela benze de longe”. Eu falei: “Melhor você procurar aí, se tem alguma benzedeira aí que benze, e pedir para benzer para você”. Ele falou: “Mãe, o médico queria até me internar”. Eu falei: “Pois isso aí não tem internação, não, você tem é que cuidar”. Ele procurou a dona, achou a dona. Pediu a dona para benzer. A dona falou: “Meu filho, pode jogar esses remédios tudo fora. Sua mãe está certa. Sua mãe falou que você está com erisipela e é erisipela mesmo”. Benzeu ele,sarou. Agora outro dia ele esteve aí, estava me mostrando, não tem nada na perna. E não precisa de benzer só as pessoas, não. Por exemplo, você notou que essa planta está com problema, que alguém olhou ela e ela está dando para trás, benze ela também. Pode benzer as plantas também. Criação.

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