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Chalé dos Peixotos em Penedo, Alagoas

História de: Chalé dos Peixotos em Penedo, Alagoas
Autor: Fernando Moura Peixoto
Publicado em: 24/06/2015

Sinopse

A verdadeira história do Chalé dos Peixotos, um marco no desenvolvimento social e cultural da velha cidade do Penedo, em Alagoas, narrada por Zurica Galvão Peixoto (1914 – 2005), que nele habitou com a família, de 1914 a 1933. A mais pura emoção e nostalgia transbordam no minucioso relato de quem nunca esqueceu os momentos felizes da infância e adolescência vividos intensamente naquela casa, que hoje se encontra em ruínas.

História completa

CHALÉ DOS PEIXOTOS EM PENEDO, ALAGOAS (A Verdadeira História) por Fernando Moura Peixoto

 

Minha tia Zurica Galvão Peixoto (1914 – 2005) - cujo centenário de nascimento ocorreu em 16 de dezembro de 2014 -, residia desde 1937 com os pais, Fernando da Silva Peixoto (1889 – 1980) e Laura Galvão Peixoto (1889 – 1973), em Copacabana, no Rio de Janeiro. E, em maio de 1996, aos 81 anos, já vivendo sozinha, escreveu uma longa e emocionada carta à Fundação Casa do Penedo, em Penedo, Alagoas, sua terra natal. Reproduzo, a seguir, o teor da missiva.

 

“Casualmente chegou-me às mãos um exemplar do ‘Jornal da Casa do Penedo’, em cuja página principal se encontra a manchete ‘A Casa da Memória’, e aí se acha impressa a fotografia de um lindo chalé. Li todo o conteúdo do jornal e, na página 3, vi o título ‘O Chalé dos Loureiros Será Casa da Memória’. Verifico com satisfação que a Fundação Casa do Penedo adquiriu o Chalé dos Loureiros para ali instalar a ‘Casa da Memória de Penedo’.” “Olhei demoradamente a fotografia ampliada do chalé e fiquei a meditar... Este chalé é meu conhecido! É o meu chalé e do qual guardo as mais doces e gratas lembranças! Chalé dos Loureiros? Sim... Realmente aquela moradia foi construída pelo engenheiro Joaquim A. Loureiro com os requisitos de edificação do final do século 19 e início do século 20, sob influência francesa. Chamo a atenção para o fato de que, se esse chalé pertenceu aos Loureiros, passou posteriormente por outros donos, inclusive o Sr. Fernando da Silva Peixoto, meu querido Pai.”

 

“Lembro-me ter ouvido de meu Pai, quando menina, que o chalé, depois do Sr. Loureiro, tornou-se propriedade do Sr. José Vieira de Figueiredo, antigo e próspero comerciante penedense, de quem ele comprou aquela bela casa para fixar a nossa moradia [1914], pois meu Pai chegara há pouco tempo da Bahia e iria residir definitivamente em Penedo.” “Éramos quatro irmãos, meus Pais e vários empregados. Sendo meu Pai um homem de posses naquela época, de muito bom gosto, e cioso do bem-estar de sua família, resolveu ampliar o chalé. E reformou, mais tarde, suas dependências, tanto na parte térrea (criando uma sala de aulas e de projeção cinematográfica, adega, acomodações para domésticos, área de serviço e um jardim interno) como na superior (aumentou dois quartos e a varanda que ladeava a sala de jantar). Fez um grande terraço que dava entrada para a parte principal da casa. Esse terraço era pitoresco, pois as mangueiras que lá existiam num pedaço do quintal, debruçavam-se naquele lugar, proporcionando uma sombra acolhedora. Com bancos e mesinhas, era ali que muitas vezes tomávamos o chá das 17 horas.”

 

“O ‘Chalé dos Peixotos’, ou ‘Chalé do Seu Fernandinho’, como era então carinhosamente chamado, gozava realmente de um privilegiado posicionamento. Tinha à frente a visão para o Rio São Francisco e o Morro do Aracaré. No fim da casa, na varanda, avistava-se ainda, em curva, o grande rio, e era deslumbrante apreciar o pôr do sol daquele local. O salão de visitas e festas tinha portas e janelas dando para os terraços e jardins sempre floridos.” “Aquela casa era verdadeiramente magnífica, própria para os grandes eventos. Quando ainda menina, de apenas um ou dois anos de idade, houve em Penedo um importante acontecimento realizado no chalé. Um suntuoso ‘Bal Masqué’ (baile de máscaras) organizado por meu Pai, com parentes e amigos, e que foi a sensação do ano (devia ser lá por volta de 1916). Toda a sociedade Penedense compareceu fantasiada. Pessoas ilustres, políticos, médicos, engenheiros, e respectivas famílias. E ainda jornalistas, como o Sr. Amaranto Filho, dono do jornal ‘O Luctador’ (o mais importante da época, fundado em 1833), no qual saiu, em duas páginas, o registro da grande festa carnavalesca.” “

 

Observo mais uma vez a fotografia do chalé. E verifico que no cimo do telhado ainda existe um cata-vento. Vejo-me em cada canto daquela casa. Quantas recordações... Eu, a única penedense, ali chegara com poucos meses de nascida. Mais tarde, já crescida, garota sadia, travessa, destemida, aprendi a conhecer todos os recantos do chalé, desde o telhado ao escuro socavão onde muitas vezes me ocultei, brincando com meus irmãos de esconde-esconde, ou de aventuras de mocinho do cinema.” “Já que o chalé vai ser um museu ou ‘Casa da Memória’, achei do meu dever fornecer algumas informações, talvez úteis, do que exatamente ele representou neste período.”

 

“Foi hóspede em nossa residência, lá pelos anos 1920, a jovem Nicaula Fernandes Lima, filha do então governador de Alagoas, Dr. José Fernandes Lima, pessoa amiga de nossa família. Tempos mais tarde recebemos outros visitantes ilustres: Dr. Guedes de Miranda, advogado de renome em Maceió e professor do Liceu Alagoano; Costa Rego, governador de Alagoas; Álvaro Paes, também governador de Alagoas; e Afonso Carvalho, poeta e interventor de Alagoas naquele momento. Em 1930, tivemos ainda albergados um dos comandantes revolucionários, coronel Aluísio de Moura, e toda a sua comitiva, que atravessaram Penedo em direção à Bahia.” “Encerrando essa sequência de pessoas importantes, o chalé honrosamente hospedou o eminente presidente da República, Dr. Getúlio Vargas, quando de sua passagem por Penedo nos anos de 1931 ou 32, em campanha política. Na ocasião, Papai, eu e toda a família estávamos na Bahia, ausentes de Penedo. No entanto, o Sr. Amarílio Sales (meu tio por afinidade) escreveu a meu Pai, pedindo o chalé para acolher o Dr. Getúlio Vargas, que deveria rumar a Sergipe. Nossa casa foi prazerosamente cedida e teve a primazia de alojar o Dr. Getúlio, que ali descansou, chegando a fazer a barba em uma das varandas. Durante muito tempo guardamos como lembrança a cadeira de vime em que o presidente sentou-se.”

 

“Uma curiosidade. Morou no chalé, cerca de seis anos, uma preceptora irlandesa, Miss Margaret Edmond Doyle, a ‘Míssis Dóili’ (professora de Inglês que afirmava descender do escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle), trazida especialmente do Rio de Janeiro, contratada por Papai para cuidar da educação dos filhos.”

 

“Com essa longa narrativa, podemos observar como o chalé era palco de grandes acontecimentos. Foi casa alegre e festiva de uma família penedense que ali viveu por vinte anos. Papai, um alagoano penedense devotado a sua terra natal, e meus irmãos Danilo, Murilo e Perilo Galvão Peixoto, que, embora baianos de nascimento, criaram-se em Penedo e amavam aquela cidade, talvez mais do que a própria Bahia.” “Olhando novamente a fotografia do chalé, recordo com ternura a figura gentil de minha adorada Mãe, Laura Galvão Peixoto (uma sergipana de Brejo Grande), colhendo jasmins nos jasmineiros em flor que ladeavam os terraços. Noto ainda o gradil de ferro, onde eu, garota levada, enfiava os pés e subia para melhor observar a rua, na qual passava um bondinho puxado a burro. Naquele tempo a rua não possuía um nome definido e o bairro era conhecido como ‘Cajueiro Grande’.

 

Lembro-me com saudade das festas de São João, Carnaval e outras datas importantes. O salão se enchia de parentes e amigos, e nós dançávamos, dando expansão às nossas alegrias juvenis, ao som da música do piano ou da eletrola.” “Foram muitos dias felizes vividos naquela linda mansão. Mas, como na vida nada é duradouro, uma série de fatores políticos, perda de entes queridos, e toda uma ordem de imprevistos nos obrigaram a deixar Penedo e o chalé [em 1934 foram para Maceió, e depois, Rio de Janeiro, em 1937/38].” “Hoje residindo no Rio de Janeiro, em Copacabana, distante há tantos anos, nunca esqueci minha terra natal. Embora de longe, acompanho interessada os vários melhoramentos e o progresso que nela se realizam. Recebi prazerosamente a notícia de que o chalé não irá mais ser demolido, e que vai se tornar a ‘Casa da Memória’. Só posso desejar o maior êxito a esse nobre e auspicioso projeto.” ZURICA PEIXOTO (1914 – 2005)

 

Esta é a verdadeira história do Chalé dos Peixotos, um marco no desenvolvimento social e cultural da velha cidade do Penedo, em Alagoas, narrada por sua antiga moradora Zurica Galvão Peixoto (1914 – 2005), que nele habitou com a família, de 1914 a 1933. A mais pura emoção e sensibilidade transbordam no minucioso relato de quem jamais olvidou os momentos felizes da infância e adolescência vividos intensamente naquela casa. O chalé hoje recebeu outro nome e se encontra em ruínas, certamente pelo descaso de quem o adquiriu em 1996 com o intuito de transformá-lo em um museu-memorial - ou coisa que o valha - para a preservação das tradições da região do Baixo São Francisco, no que não logrou êxito. E continua esperando uma verba federal que o ajude na empreitada, justamente por parte de um governo que não se importa com a cultura no país. Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C) Chalé dos Peixotos em Penedo, Alagoas Meu vídeo: http://youtu.be/exGBeFXEu4g

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