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História

Como a Lua: cheia de fases

História de: Luana Mercante da Rocha Viana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Luana é mulher negra, carioca e conta como foi voltar a ter cabelo crespo, passar pela transição e se assumir. E também como é ser mulher numa cidade que supervaloriza o corpo. Sobre o corpo, também fala da Dermatite Atópica, doença que tem e que a fez enfrentar uma grande crise durante a época da faculdade.

História completa

Antes, o cabelo crespo não era bonito. Quando eu estava passando pela transição, minha mãe não gostou muito. Hoje ela gosta, mas antes ela falava: “já para a sala alisar esse cabelo”. Comecei a alisar cedo. Tem uma cena muito engraçada na minha memória: eu estava no jardim de infância e tinha feito um relaxamento para abaixar a raiz. Eu estava me achando com aquele cabelo! Pequenininha, era uma comédia. Aí, brincando, um menino veio e colocou a mão no meu cabelo e eu falei: "Não encosta no meu cabelo porque eu acabei de alisar!" E isso marcou porque as professoras brincavam: "Ela com esse cabelo não sossega!"

 

No colégio, quantas pessoas tinham o cabelo crespo? Sei lá, eu e mais uma; eu e mais duas. Liga a televisão, pega a Barbie: qual brinquedo tem cabelo crespo? Nenhum. Aí eu comecei a querer ter o cabelo alisado. Por muitos anos.

 

Foi de uma hora para outra que eu voltei pro crespo. Eu nunca pensei que eu fosse ter coragem. Porque eu lembro que na faculdade – eu estudava na UERJ – tinham vários movimentos que faziam isso e eu falava: "Eu me sinto tão bem com o meu cabelo alisado que não tem necessidade". Eu não sou menos negra por não ter meu cabelo crespo, não é? Aquilo, para mim, é muito forte. Mas depois eu não sei de onde saiu essa força que eu estava começando a ter um outro trabalho. Eu estava enrolando – eu nunca gostei do meu cabelo liso, chapado – eu dava uma enrolada nele. Falei: "Vou parar. Vamos ver se eu vou aguentar". E está até hoje. De uma hora para outra, passaram-se os três meses que eu fazia progressiva; não fiz mais.


Ser mulher e ser negra é muito complicado. Ainda mais aqui no Rio de Janeiro. Porque há uma supervalorização do corpo, então você se sente um pedaço de carne que a qualquer momento vai ser devorada, sem dúvidas. Sendo universitária, também. Ainda mais no antro em que você vive, de discussão, de formulação de ideias. Então, muita gente fala “a pessoa é universitária, não vai levar muito a sério”, e não respeita esse momento de aprendizagem. Atrelar tudo isso junto é complicado. Tem que estar sempre se informando, fazendo questão de se colocar, ter um lugar na sociedade. Porque se você não tirar das suas forças, ninguém vai te ajudar, você só vai apanhar.


A dermatite atópica está na minha vida inteira. Sempre fui muito alérgica, sempre tive bronquite, e a dermatite sempre esteve muito presente.


Em colégio, tem época que está muito fechado, tem época que está ótimo, mas tem época que está horrível. Então, é horrível você conviver com isso também. Durante a faculdade tive uma crise. Acho que tem a ver muito com a parte psicológica, emocional. Eu acabava de ter tido um problema com meu pai de reaproximação. Uma discussão dessas. Não sei o que aconteceu. Sabe quando dá um apagão e você não sabe dizer como começou? Só sabe que começou. Aí veio tudo. Foi horrível. Essa crise foi um tormento, foi desesperadora. Eu não sei dizer o que passou pela minha cabeça, o que tudo isso culminou, mas foi péssimo. Parece que todo o mundo desabou no mesmo momento. Porque não tem só a parte de estética, você ter um corpo ok.

 

Meu corpo ficou todo aberto, o corpo inteiro aberto. Você também tem uma depressão. A depressão está até hoje. Você fica muito vulnerável a tudo, uma tristeza absurda dentro do seu coração, não tinha vontade de fazer nada. Fiquei três meses sem sair de casa.

 

Muita tristeza, um vazio. Muita solidão. Sentimento de culpa. Questionando por que eu estava passando por isso. Tanta coisa para acontecer, por que eu tenho que passar por isso? Por que isso não acaba? Porque a dermatite, por mais que tenha sido a primeira vez que ela ficou tão forte em mim, ela sempre esteve presente. Em todos os momentos eu me questionei, por que isso acontece comigo? Eu me trato, ainda mais nesse momento. Quando conheci o médico específico, que eu comecei a tratar de forma correta. Passa um turbilhão de coisas na sua cabeça. É muito forte, pesado.


Meu corpo inteiro só coçava, só doía. Meus vasos estavam dilatados, ficava me tremendo, como se tivesse tendo calafrios 24 horas por dia. Minha cabeça estava um lixo. Eu estava me sentindo o pior ser humano do mundo. Zero vontade de viver, de ficar no meio das pessoas. Às vezes, quando tem alguma época do ano que pega muito forte, eu sinto que está tudo errado de novo, mas é claro que a gente passa a criar um escudo para não cair de novo nisso, porque é muito forte. Eu pelo menos, não vou ficar me entregando para esse tipo de sentimento que é ruim.


Mas quando está muito atacado, é aquele sentimento de isolamento. Você não se sente apto para estar no meio. Porque você não está feliz. E nesse meio tempo todo, tinha eu tomando muitos remédios. O tratamento ficou muito intensivo, eu tomava 80 gramas de corticoide por dia. Então, eu fiquei super acima do meu peso. Eu não estava entendendo, como eu não saía de casa, eu não estava entendendo, eu não me via. Quando eu fui botar uma roupa, um short que ficava super largo em mim, não passava da minha coxa.

 

E as pessoas são cruéis nessa hora, não sabem pelo o que você está passando. Não sabem por que você está triste, as pessoas não sabem por que você está daquele tamanho. Era um discurso repetitivo. Toda vez explicar, só para você tirar aquela culpa, para as pessoas entenderem que aquilo não é culpa sua.

 

É um momento muito difícil, eu espero nunca mais ter isso.


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