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História de: Valentina Silveira Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2014

Sinopse

Valentina é uma simpática costureira que contou sua história ao Museu da Pessoa. Em seu depoimento fala das origens de sua família, parte paulista e parte mineira e como seus avós desbravaram e fundaram o distrito de Bacuriti em Cafelândia (SP). Ao falar sobre sua infância, Valentina discorre sobre a animação do pai, nas cantorias e nos bailes da fazenda. Morando em fazenda começou seus estudos em escola rural e terminou depois em Araçatuba. Ela recorda o curso de corte e costura e de como começou a trabalhar nessa área em Lins. Conta como conheceu seu marido, que na ocasião namorava sua vizinha e como se casaram após o rompimento deles. Fala sobre o casamento, o nascimento das filhas e as mudanças de cidade por conta do trabalho do marido no Exército. Finalizando, conta que ainda faz pequenos trabalhos manuais, como os panos de pratos que produziu para a Copa de 2014.

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História completa

Meu nome é Valentina Silveira Soares. Nasci em 19 de setembro de 1924, em Bacuriti, Cafelândia. Naquele tempo era um pequeno lugar que estava começando, um povoado fundado pelos meus avós. Lá tinha onças, essas coisas tudo. Então foi um começo de vida dos meus pais com os meus avós junto. Bacuriti, naquele tempo era Bacuri, depois não sei o porquê mudaram o nome para Bacuriti. Pertence a Cafelândia, comarca de Cafelândia. Que aquele tempo nem tinha a comarca ainda. Ainda é um distrito grande que pertencia a outras cidades. Pirajuí, por exemplo. Meu pai era José Silveira Bueno.  A minha mãe Sebastiana Soares, depois Silveira, que veio do meu pai. A minha família materna era de Itápolis. Lá que quando minha avó veio, parece que veio criança ou neném, vieram depois das guerras que tinha lá, tudo.

 

O meu bisavô era major Silvestre Correia de Moraes Bueno. Ele veio de Minas e ficou em Lençóis. Mas meu avô veio pra Bacuriti, ali tinha ainda era muita mata, tinha onça, tinha tudo. Eles caçavam onça, matavam tudo. E tinha muito pouquinhas casas daqueles moradores, então ele foi abrindo o terreno. Ele foi abrindo, adquirindo coisas, tudo, e os filhos foram crescendo e o meu pai ficou em Novo Horizonte. Ele veio, ele trabalhava em farmácia. E o meu avô veio, tinha casa ali, o outro filho dele se casou também. Meu pai então casou também e veio, trouxe a farmácia no Bacuriti onde estava começando. Minha mãe já fazia queijinho, tudo. Isso atravessou ali pelo Tietê. A primeira máquina de costura que ela comprou, ela comprou de um sitiante que ia embora e queria vender, parece que meu pai não tinha ou ele precisava de uma vaca leiteira, então meu pai já tinha mais, deu a vaca em troca da máquina que mamãe precisava costurar e aquilo era sertão. Minha mãe teve dez homens e cinco mulheres. A casa era de sapé. Depois foi de tábua. Depois o meu pai, como as terras eram muito boas e tinha muita água na fazenda do meu pai, ele já podia construir uma casa boa, melhor, porque o café já cresceu, ele plantou muito café, muito pasto, tudo, foi formando o gado. Então ele foi escolher o lugar onde ele ia construir a casa. Ele ia construir mais no alto. Mas quando ele descobriu uma mina, uma mina muito grande assim que jorrava assim das pedras, ele falou: “Mas eu não posso deixar isso aqui e fazer casa lá em cima, abrir poço e tudo”. Construiu ali perto assim uma quadra assim, um pouco distante da mina.  

 

Como pessoas eles cantavam, eram muito animadas! Meu pai gostava de dançar, tanto que conheceu minha mãe quando ele foi num baile. Tinha uma festa, tinha bailinhos, os irmãos vieram com ela, ele a conheceu ali. Ele gostava muito de dançar, gostava muito de xote. Tinha uma dança que eram só quatro pares. Então a gente já era grandinho assim, eu tinha irmão de dez, 12 anos, vamos dançar. E a minha mãe não sabia dançar porque os pais dela não deixavam. Ele ensinou a dançar e dançava. Ele comprou vitrola. Ele era animado e eles cantavam os dois, cantavam, sentavam assim, cantavam os dois pra gente ouvir aquelas músicas antigas lá do tempo deles.  Então sentava às vezes. Antes de dormir ele ficava com a gente, tomava parte ali com a gente. Quando a gente ia até tarde às vezes com a fresca, queria brincar no terreiro de café, jogar peteca, a minha mãe jogava peteca junto com a gente. Era animado.  A gente brincava de tudo, de roda, jogar.  E a gente tinha uma vida! Trabalhava, porque o meu pai ensinou todos a trabalharem, criou trabalhando, estudavam, depois precisava de escola, lá não tinha, só até o primário. Estudavam em Lins internos, os mais velhos, os dois mais velhos já estudaram em São Carlos. A gente começava na escola com oito anos. Ia tudo junto. Já tinha colônia. Meu pai tinha colônia porque tinha muito café, tudo, empregados, iam os filhos dos empregados, aqueles de longe, andavam léguas pra vir a escola. Era tudo na vila. Era um quilômetro. Tanto que a fazenda nossa depois separou, quando saía ali já tinha a porteira Fazenda São José. Era assim encostado. Tudo ali que saía dali já era, que meu pai foi comprando tudo. Depois quando o meu avô faleceu a última gleba era justamente essa que era assim par com a cidade.

 

Minha mãe morreu do parto, do último filho. Depois que nasceu o neném bem, muito bonito, tudo, teve um problema. O neném nós criamos porque tinha a minha irmã mais velha que tinha 17 anos. Ela tinha 17 anos, que ela tava estudando, estava interna. Passaram três anos, quando meu pai casou com uma cunhada, ele falou: “Vocês vão casar um dia. Não sei o que, tal, tal. Eu também preciso casar e tudo, a Isaura também. Eu tenho as duas sobrinhas lá coitadinhas...”. A minha madrasta era de família era pobre, muito pobre.

 

Depois voltei terminar o curso primário. Eu voltei, mas com dificuldade porque eu que tomava conta da casa, tudo. Voltei, fiquei em casa. Então eu fui fazer o curso de corte e costura. Eu queria aquilo. Eu não queria continuar mais. Eu queria aquilo, eu gosto de trabalhos manuais, tanto que eu trabalho até hoje. Até hoje eu faço crochê, faço gorrinhos, faço tudo que eu posso fazer, panos de prato, essas boinas. Tudo. Eu faço tudo isso. Aperfeiçoei na costura. Eu tenho diploma, eu sou formada. Eu sou formada mesmo! Eu fui pra escola de corte. Nessas alturas, já tinha 18 pra 19 anos, porque o meu pai já tinha casado.  Eu fiquei com a minha prima em Araçatuba. A minha tia, a escola era dela, tinha bastante alunos. O curso era no fim do ano, eu cheguei tinha perdido uns dois meses de aula, três. Tinha que fazer tudo, acompanhar as outras, eu cheguei lá fiquei meio perdida, achei que não dava, mas como eu era muito prática, eu já sabia mexer em máquina, fazia muita coisa, ficava sozinha, tudo, então, num instantinho, eu peguei, engatilhei, olha, eu tirei diploma em primeiro lugar, tirei com 93! Quando eu aprendi que eu vim embora para Araçatuba, nós já voltamos para cidade, para Lins. Ficamos todos na cidade. Ele tinha caminhão, ele aprendeu a dirigir, aprendeu, levou o chofer, ficava lá, quando precisava, ia, dava aula, vinha, trazia muita laranja, muita… trazia tudo que tinha em casa, e dava ainda para o chofer.  Fiquei como costureira e modista mesmo, ensinando.

 

Meu marido, nos conhecemos porque ele era do Exército, e foi do tempo da Guerra. Então, ele veio transferido de Lorena para cá. Eu fiquei conhecendo ele lá, mas depois, ele namorava outra moça, sabe, namorou até tempo uma moça que morava perto da minha casa. É interessante eu contar essa história para você. Eu tinha outro namorado, entendeu? Mas eu até já tinha desistido, porque eu vi que não ia dar certo, desisti. Mas essa vizinha,ela começou a namorar esse moco, o meu marido. Tudo da mesma idade, ali, junto, de 20 e poucos anos, 21, 22, assim. Então, ela falou: “Eu não quero esse namoro com esse soldado, imagine, não conhece ele, não sei o que”, mas ela continuou namorando. Eles brigaram, brigaram feio. Ele que brigou, desistiu dela, umas coisas lá que ela. Brigaram feio. Mas quando chega fim de ano, a gente sempre tem as pessoas que você manda, amigos, amigas, ele mandava também, uma lembrancinha, um cartão pra mim. Quando eu estou lá costurando, isso já passados uns quatro ou cinco… jogam uma carta assim, com o meu nome. Abri a carta, ele dando as Boas Festas para mim, era minha a carta, dando Boas Festas, porque eu tinha mandado cartão para ele, como todo ano, mas já fazia, meses, já. Respondendo e se abrindo, falei: “Minha nossa senhora”, ai, falei: “Eh, meu Deus, eu não tenho nada com ele, nem conheço direito”, porque eu via, mas não conhecia, eu sabia que ele era bom e achava que ele era bom, porque as minhas irmãs conheciam ele. Tinha uma irmã que ia na padaria pequenininha, ele mexia com ela, achava bonitinha e tudo, sabe? Eu falei: “Meu Deus do céu, eu não vou responder, porque ele está respondendo a minha carta”. Eu respondi a carta dele, falando. Ele estava de licença, cancelou, veio embora, transferido para cá, transferiu para Lins. Nós começamos a namorar, não tinha o que namorar muito tempo, nós namoramos, acho que oito meses só, porque ele estava pronto para casar. O casamento foi uma beleza, foi lá na igreja, mas demos um almoço, foram poucos convidados, demos um almoço. Foi muito bonito. Depois, viajamos, fomos para Aparecida do Norte, e a minha irmã tinha casado pouco antes, uns seis meses antes, ela era casada, ele assistiu o casamento, ajudou no casamento, ficou conhecendo o meu cunhado. Moramos em Lins. Uma casinha, uma vila, chama Vila Alta, bem longe de casa, a gente saía muito, ia no cinema. Eu levei cinco anos para ter filhos, cinco anos, que nasceu a Rogéria, a primeira filha. A gravidez veio meio no improviso, eu não sabia. Fui muito feliz até nisso, passei muito bem, eu sempre trabalhei, não queriam que eu costurasse, mas eu gosto, as freguesas, não dava tempo, tinha ajudante muito boa, mas sempre estava pronta para sair, quando ele estava em casa, eu estava sempre com ele.

 

Filhas são a Rogéria, Ronice e Roseli, que é a caçula. Meu marido era Francisco Orlando Granado Soares.  Ele foi convocado para Guerra, ele queria ir a Guerra. Ele foi o número quatro, quando saiu a escala, ele era o número quatro, recebeu tudo o que tinha para Guerra, tudo! O coronel não deixou ele e outros, porque eles trabalhavam em tesouraria. Ele falou: “Não pode”, e ele sentiu muito, tanto que aqueles que foram para Guerra, voltaram tudo com posto adiante, tudo, e ele ficou naquele posto que ele tinha. Depois de certos anos, de oito anos, ele foi promovido bem lá em cima e recebeu tudo atrasado, quando a gente foi para Cáceres. Em 45 ele estava no Exército, eu sabia tudo, acompanhava, vieram os colegas dele. Veio um que foi que era até da turma dele e que foi, chegou lá, morreu. Ele tinha tirado retrato, eram amigos, tudo. Ele sentiu aquilo. Eu mudei bastante, porque eu morei lá na fronteira, perto da Bolívia, morei pertinho da fronteira da Bolívia, o pessoal da Bolívia, ali, Santa Cruz, vinha fazer compras ali em Cáceres. Era tudo transferência. O Exército é isso, transferência. Depois, fomos transferidos para Belo Horizonte, ele foi a ultima transferência dele, ele se aposentou nessa última, pediu a aposentadoria, porque fez 25, já pode, mas ele foi ficando, ficando. Ele não aguentou aos 30 anos, que ele saía major, faltavam três anos, meu pai ficou bravo: “Porque eu nunca me aposentei”, “Mas o senhor é outra coisa, trabalha de outro jeito”, então, ele não quis, não quis, tanto que os meninos já estavam na escola em Piraju, tudo, ele só esperou, em outubro, ele aposentou, esperou as aulas passarem, terminar o ano e veio embora para a nossa casa, a gente tinha casa em Lins, tudo. Ele fez faculdade. Ele foi estudar. As meninas começaram a fazer faculdade, ele foi fazer, também e ele era tão estudioso, gostava tanto de estudar, que ele levava colegas para ensinar em casa, de tanto que ele gostava. Ele fez Administração de Empresas, porque ele foi trabalhar na Arapuã, tinha a Fenícia. A Fenícia é letras de câmbio, essas coisas. Ele trabalhou dez anos com isso, que nós chegamos a fazer outra casa nova, boa. Faz 16 anos que meu marido morreu de câncer, de fumar. Quando descobrimos, tava assim, uma coisinha assim, já levamos, operou, tirou, ele ficou livre, fez todo o acompanhamento, cinco anos, depois teve alta, ele sarou. Daquele, sarou. Mas depois veio outras consequências, não daquilo, daquilo, ele ficou bom, graças a Deus. Mas é uma pneumonia, é uma coisa, e três anos, ele ficou assim que não podia andar e ele gostava muito de andar e queria andar, precisava andar com ele assim, na rua. Eu tive três anos assim, bem assim, bem puxado.

 

Os sonhos, eu estou com 90 anos, então, os sonhos... não é que eu quero, quando Deus me chamar, estou pronta, mas que fique sempre com essa saúde, saúde mesmo muita ninguém tem, mas eu ainda tenho muita disposição. Mas força, eu já não tenho muito mais, eu tenho muito problema de osteoporose, dor no braço, essas coisas, mas tenho ânimo. Hoje, levantei, fiz almoço, deixei tudo arrumado para poder vir aqui e todo dia, eu tenho essa luta. Eu tomo conta da casa. Só o serviço pesado, não, elas não me deixam fazer de jeito nenhum, nem posso. Mas elas estão sempre junto. Mas elas incentivam tanto: “Mãe, faz isso que é gostoso, faz aquilo”, isso. E mesmo compra, assim, supermercado, eu não vou, não saio em São Paulo e mesmo em lugar nenhum sozinha. Mas eu gosto de fazer compra, porque a gente tem prática, a gente tem prática, tudo… então, é assim. E eu estou fazendo muito pano de prato agora. Para Copa, eu fiz uns cento e tantos panos, para Copa, cada um mais lindo, lindo, lindo!  

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