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Costurando Histórias - Da alfaiataria ao futebol

História de: Nito Nallin
Autor: Centro de Memória de Cosmópolis
Publicado em: 30/03/2015

Sinopse

Nito Nallin segue costurando. A alfaiataria é o negócio da família há quase oitenta anos. Entre agulhas e dedais, Nito conta histórias e relembra o tempo em que foi jogador profissional em times como Guarani e Ponte Preta.

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História completa

Meu nome completo é Helynito José Nallin. Nasci em 1936, tenho 76 anos, estou próximo dos 77. Por parte do meu pai, tive nono, que veio da Itália e era alfaiate. Tinha 12 filhos e todos eram alfaiates, entre eles homens e mulheres que costuravam calça na alfaiataria. Meu pai abriu a alfaiataria em 1935, eu nasci em 1936, vai para 78 anos que essa firma aqui está aberta. Meu pai abriu alfaiataria e loja lá na Avenida Ester, onde é a alfaiataria do Arlúcio Zan, que foi empregado nosso dos 14 aos 28 anos. Depois a loja se mudou para duas quadras abaixo, onde é o açougue do Valdomiro, depois se mudou novamente, para a esquina onde hoje é aquela farmácia, onde é o semáforo. Saí dali aos 17 anos e estou aqui nesse endereço até hoje. Isso faz 60 anos.

 

Algumas pessoas da minha família abriram alfaiataria em Cosmópolis, aqui tinha quatro; um abriu em Artur Nogueira, outro em Itatiba, e tinha um em São Paulo. Morria um, vinha outro em seguida; a geração toda era de alfaiates. Depois um saiu porque virou bombeiro, outro porque tinha perua de aluguel, outra porque trabalhou em banco e em um monte de lugar, fui o único que ficou com meu pai, porque eu jogava bola e depois do futebol vinha trabalhar. E aprendi tudo o que pude com meu pai, ele era um livro, uma enciclopédia, ele era muito bom, um craque. Eu fiquei com isso aqui, comecei aos doze anos com meu pai e aqui estou. Saí da escola aos doze anos, não tinha dinheiro para estudar, meu pai tinha sete filhos, dois morreram, sobraram cinco. Todos os meus irmãos aprenderam um pouquinho do ofício. Antigamente não existiam roupas confeccionadas em fábricas. Tanto que aqui em Cosmópolis tinha seis alfaiatarias: do meu tio Guerino, do meu tio Humberto, do Seu Honorato Fozatti, do Pedro Tonussi e do Hermínio de Campos. Depois, com a chegada da roupa comprada pronta, foi parando um, parando outro, foi diminuindo, fechando, aposentando... Sobramos eu e o Artur Suzan. Esqueci dele, ele trabalhou comigo, saiu daqui e abriu a alfaiataria. Para você ver quantos alfaiates tinha!

 

O Artur Suzan fechou e fiquei eu. Agora tem um moço aí, que começou a trabalhar comigo quando tinha 12 e saiu com 48 anos. Ensinei tudo e ele trabalha por conta hoje. A coisa de roupa comprada pronta mudou muito. Mas tem pessoas que não se acostumam a isso. Tanto que eu tenho uma freguesia que é barbaridade. É enorme a minha freguesia, eu não paro de trabalhar nunca. A roupa comprada feita dominou, porque é mais barata, não é bem feita igual a nossa. Não é desfazer de ninguém, mas a pessoa que quer andar bem vestida, tem que fazer na medida, porque essas roupas aí não tem medida.

 

Alfaiate tem que ser bom, caprichoso, competente, não tem outra saída. Eu me considero competente, e não falo para esnobar. Isso aqui está aberto há 78 anos, se não fosse bom já tinha fechado, né? Craque de bola Sempre fui fome para jogar bola, com doze anos jogava no infantil do Cosmopolitano Futebol Clube. O Cosmopolitano é o time do meu coração, é a minha segunda casa. Com doze anos jogava no infantil, depois no juvenil, com dezesseis anos tinha o time de cima; antigamente eles falavam primeiro e segundo quadro. Joguei só duas vezes no segundo quadro e eles me promoveram para o time de cima com 16 anos. Joguei lá até os 18, 19 anos e só depois fui para o Guarani. Hoje um jogador treina o dia todo, dois períodos, de manhã e a tarde. No meu tempo era de quarta-feira à tarde, eu trabalhava de manhã e ia embora treinar. Na quinta era de manhã, eu treinava, tomava o ônibus e vinha embora trabalhar. Eu nunca fui de ficar parado, queria melhorar minha vida, ganhava dos dois lados, mas nem por isso estou rico.

 

O futebol está no meu sangue. Uns gostam de pescar; eu, de futebol. Gosto até hoje, como não posso jogar mais, só assisto. Joguei como meia direita, como se fosse um centroavante na frente. Tenho orgulho de falar que em todos os times por onde passei fui artilheiro. O cara que mais fazia gol era eu. Tenho recorde no Guarani, até plastifiquei isso aí, campeonato juvenil até 20 anos, eu tinha dezenove, dez a zero, eu fiz os dez. Não fui eu quem escreveu, foi o jornal que escreveu! Mas o Guarani não me deu valor. Quando acabou o contrato, eles queriam me vender para outro time. Aí falei: “Para fora não vou, longe eu não vou”. Aí fiz uma reversão para amador. Do amador fui para o profissional e depois voltei para o amador. Naquele tempo você tinha que parar um ano para voltar ao amador. Quando parei, fiquei jogando aqui no Cosmopolitano e um pouco na Usina. Em Campinas tinha um monte de jogador que jogou comigo no Guarani e na Ponte, como me conheciam, passaram aqui onde estou agora e me levaram para o União São João de Araras e lá fiquei três anos. Lá voltei a ser profissional. Fui campeão e artilheiro do time por três anos. Vim depois para a Ponte Preta, fiquei um ano e só não fui campeão porque na última partida o homem me tirou do time, e a Ponte Preta apanhou e não foi campeã! Dali eu fui embora para o Internacional de Limeira, fui campeão e artilheiro de novo.

 

Futebol tem momentos bons e ruins, mas tive muito mais momentos bons do que ruins. Dizer um momento mais marcante no futebol é difícil, mas um deles é fazer uma partida juvenil e fazer dez gols, tendo dez jogadores com você e só você fazer os dez, é uma alegria que não tem tamanho. Outra alegria: numa decisão entre São João de Araras e Mirassol, o jogo foi quatro a zero, no primeiro tempo eu fiz três gols! Fomos campeões porque não é possível você levar quatro gols com o time que eu tinha. É uma alegria para mim até hoje. Joguei dos 19 aos 29 anos, mas nunca deixei de trabalhar. Parei aos 29, bonzinho, tinha condições de jogar ainda mais quatro ou cinco anos, mas parei porque meu pai estava doente. Ele teve diabetes e começou a ficar cego. Acabou a minha última partida e falei “Acabou o meu contrato, não venho mais”. Parei! Dava até para ganhar mais um pouco de dinheiro, mas o meu pai estava na frente. Ele durou pouco, morreu antes dos 70 anos. Eu fiquei jogando por aqui. Faz três anos e meio que parei de jogar bola, joguei até os 73! ( Edição de texto por Heyk Pimenta)

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