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Cresci

História de: Simone Silva de Sousa
Autor: Simone Silva de Sousa
Publicado em: 15/06/2015

Sinopse

Cresci no tamanho, na coragem, nos desafios, nas responsabilidades, nos sonhos e agora quero crescer na vida.

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História completa

Quando tinha cinco anos, uma coisa que eu não entendia, era o porquê a carteira em que eu me sentava do jardim de infância era diferente das outras crianças, ela era menor. Quando eu queria ir ao banheiro, a professora tinha que me levar, porque eu não conseguia sentar sozinha no vaso sanitário. Não me deixavam ficar na fila do lanche, eu tinha prioridade, pegava na janelinha com as tias. E eu odiava o recreio, porque as crianças que tinham a mesma idade que a minha, disputavam para me pegar no colo. Eu nem gostava de ir para a escolinha. Não consegui entrar direto na pré-escola porque a diretora disse a minha mãe que eu não tinha tamanho suficiente, a idade não importava, e sim o tamanho.

 

Aos três anos de idade fui diagnosticada com a deficiência de GH (hormônio do crescimento), e a minha cidade natal, Assis Chateaubriand, não tinha suporte suficiente na área da saúde para o meu tratamento.  Minha mãe resolveu então ouvir o meu endócrino e tomou uma decisão, que iriamos para Curitiba, porque no Hospital de Clinicas havia tratamento. Mas essa decisão foi dois anos depois do meu diagnóstico.

 

Tenho dois irmãos, eu sou a caçula, o meu irmão mais velho é deficiente auditivo, eu lembro que ele tinha um aparelho que parecia um walkman, por isso ele sempre usava camisa pólo com bolsinho para guardar o aparelho.

 

Bem, quando minha mãe foi conversar com o meu pai sobre irmos para a capital, ele não aceitou, achou que ela estava exagerando, e disse que caso ela fosse, seria só ela, eu e meus irmãos, ele não veio. Tínhamos parentes em Curitiba, ficamos na casa da minha vó. Assim que chegamos a capital logo comecei meu tratamento, exames e mais exames, consultas a cada duas semanas. Aos seis anos de idade comecei a tomar o hormônio do crescimento, injeção subcutânea todos os dias antes de dormir, na coxa, na barriga, no braço e nas nádegas. De vez em quando estava doente, minha imunidade não ajudava. Além das injeções tratava a anemia, alteração da tireoide e pneumonia por três vezes.

 

Desde o momento em que deixamos nossa casa em Assis Chateaubriand, meu pai se ausentou, e a minha mãe se tornou pai e mãe. Ela trabalhava como diarista e eu, aos sete anos, já cuidava da casa. A infância já não era mais só brincadeiras, e as responsabilidades não eram só tirar o pó, até almoço eu aprendi a fazer.

 

Uma das cenas que não esquecerei nunca foi em um dia que eu estava andando de bicicleta com outras crianças e avistei a minha mãe que chegara há pouco do trabalho, ela me encarava, meu Deus, eu morri de medo  porque naquele dia não tinha arrumado a casa, minha mãe jogou minha bicicleta no chão, na frente das outras crianças, e quando chegamos em casa ela pediu ao meu irmão que desmontasse a bicicleta, e eu chorei.

 

Mudávamos várias vezes de bairro e, consequentemente, de escola, então não tenho amigos de infância e o fato de minha mãe estar sempre trabalhando, fez com que ela estivesse sempre ausente nas apresentações da escola, eu não entendia o porquê ela nunca pode estar lá.

 

Eu sempre corri atrás do meu pai, porque sentia muita falta de um. Certa vez fui passar as férias com ele na minha cidade natal, e ele me deixou na casa da vizinha, por sete dias eu me senti mal, porque eu estava lá para ficar com meu pai e não com estranhos, pedi para que me levassem no trabalho dele, e quando eu o encontrei ele me disse que não podia ficar comigo porque tinha de trabalhar. Eu o questionei: nem na hora de dormir eu posso ficar na sua casa? Liguei para minha mãe chorando e ela foi me buscar, não queria mais ficar lá, e aos doze anos, parei de correr atrás do meu pai, acredito que foi a primeira grande decepção.

 

Em casa não tinha muito diálogo e nem explicações sobre as coisas do mundo ou da vida, e eu ficava pensando se eu já tinha dificuldades, imagina o meu irmão mais velho que é deficiente auditivo, minha mãe já não conseguia se comunicar com ele como antes, com o tempo ela foi esquecendo os sinais, o fato de meu irmão ter frequentado fonoaudiólogo desde sempre, fez com que ele desenvolvesse melhor a fala, conseguindo pronunciar mesmo que com dificuldade algumas palavras. A comunicação passou a ser em leitura labial. Ele sempre foi revoltado, nunca aceitou ser surdo e minha mãe sempre sofreu com isso.

 

Desde sempre eu fui a intérprete dele, tanto em casa, quanto na família, ou lugares que ele precisava ir eu quem o acompanhava.  Demorou muito para eu me sentir sobrecarregada, porque até mesmo em casa eu precisava ser interprete, ele se irritava porque os outros entendiam errado o que ele falava, e ele não entendia o que a própria mãe falava.

 

Não demorou muito para o meu pai se mudar para Curitiba, não tínhamos muito contato, ele tentou várias vezes, mas já não tinha tanto interesse.

 

Aos dezessete anos eu desisti do hormônio e me arrependo até hoje, o médico disse que o tratamento seria até os dezoito anos, eu estava quase completando dezoito, e não tinha me desenvolvido totalmente, a falta do hormônio não afeta apenas o crescimento, afeta também o desenvolvimento do corpo no geral. Mas eu não suportava mais tomar injeção, estava com tanta sensibilidade e sentia muita dor, hoje, por exemplo, ainda tenho útero infantil, e já foi diagnosticado que não posso ter filhos, antes nem ligava pra isso, pensava, não quero mesmo, mas pra mim foi uma fase.

 

Quando saí do Ensino Médio, só havia prestado vestibular para universidades particulares, mas não tínhamos condições de pagar a mensalidade, então comecei a trabalhar registrada, para ter as minhas coisas e ajudar em casa.

 

Entrei em uma universidade muito depois que minhas amigas do Ensino Médio, era bolsista do Prouni, fazia Comunicação Social, mas era uma bolsa de 50%, e meu salário era praticamente para pagar a mensalidade, ficava guardando dinheiro para pagar rematrícula, já estava no terceiro período.

 

No dia 24 de julho de 2012, eu e minha mãe estávamos indo a maternidade, meu irmão do meio estava sendo pai pela segunda vez, assim que chegamos ao quarto o celular do meu irmão tocou, ele ficava me olhando, começou a encher os olhos d’agua, eu já fiquei preocupada, quando ele desligou, sem rodeios ele disse: "o pai faleceu".

 

A tristeza foi tomando conta, o que eu comecei a sentir nunca vou conseguir explicar, ele podia ser ausente, podia ser o que quisesse naquela hora, eu só conseguia recordar das coisas boas que vivi até os cinco anos ao lado dele.

 

Meu pai não tinha seguro de vida, plano de saúde, plano funeral, nem mesmo contribuição de INSS. Fomos todos pegos desprevenidos, e lá se foi o dinheiro da rematrícula, para dar um funeral decente pra ele.  Era o mínimo que eu podia fazer naquela hora.

 

Atrasei demais a rematrícula, já vencia uma parcela, começou a virar uma bola de neve, a decisão foi uma das mais difíceis, mas tranquei a faculdade até me estabilizar novamente.

 

Aos vinte e seis anos consegui entrar na UFPR, e estou finalizando o terceiro período de Tecnologia em Comunicação Institucional, e faço LIBRAS também na UFPR, tudo o que envolve a língua dos sinais, me chama a atenção, presenciar essa dificuldade do meu irmão dentro da nossa própria casa, me faz querer ensinar a ele coisas que ele ainda não conhece, e o melhor de tudo, fazer com que ele se sinta compreendido quando, e que ele também possa me compreender.

 

Essa é a base da minha história, tem muito mais linhas, mas o meu desenvolvimento no crescimento foi o alicerce para todas as experiências vividas até hoje.

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