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Defendendo a cultura indígena

História de: Vera Popygua (Pedro Miri Delani)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/09/2011

Sinopse

Pedrinho saiu de sua aldeia no Paraná para vir a São Paulo visitar parentes. Decidiu investir nos estudos e se formou em Pedagogia pela USP, tornando-se professor de guarani e português para a população de seu povo. Alvo de preconceitos pela cultura branca, Pedrinho percebeu que ensinar era a melhor forma de resistir.


 

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História completa

P/1 – Pedrinho, bom dia. Pra começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Bom, meu nome completo é Pedro Miri Delani, conhecido como Pedrinho, chamam aí. Em guarani é Vera Popygua. Tenho 28 anos, sou professor na Escola Estadual da Escola Guarani Gwyra Pepó.

 

P/1 – E seu nome em guarani tem algum significado próprio?

 

R – Cada nome em guarani tem um significado. O meu é relâmpago.

 

P/1 – Relâmpago. Legal. Eu vou pedir também, pra registro, o nome dos seus pais e o que eles faziam.

 

R – O nome do meu pai era Jorge Delani, morreu quando eu tinha uns três meses. E minha mãe é Cleuza de Fátima Delani.

 

P/1 – E eles eram guaranis, os dois também.

 

R – Eram guaranis.

 

P/1 – E eles tinham alguma função específica na aldeia?

 

R – Não. Eles trabalhavam mais com artesanatos.

 

P/1 – Legal. Eu queria que você contasse um pouco pra gente do lugar onde você morava na sua infância, se você morava na aldeia, se você morava na cidade. Onde você morava?

 

R – Eu vim pra São Paulo em 2000. Nasci em Laranjeiras do Sul, Paraná e vim pra cá visitar meus parentes. Acabei fazendo Pedagogia na USP e me tornei professor hoje.

 

P/1 – Legal. E em Laranjeiras, como era o seu convívio? Como era o interior?

 

R – É município de Laranjeiras do Sul, tem uma aldeia Guarani e tinha a aldeia dos Kaingangs.

 

P/1 – E você morava com quem na aldeia?

 

R – Eu morava com a minha avó.

 

P/1 – Com a sua avó? E ela que te ensinou toda...

 

R – Ela que me ensinou a falar guarani, os contatos, ensinou a sobreviver na mata. Ensinou-me tudo, foi minha avó.

 

P/1 – Legal. E na sua infância quais eram as suas brincadeiras favoritas? O que vocês faziam?

 

R – A nossa infância era ir pra casa de reza à noite, à tardezinha. Dançar, cantar e dançar o xondaro. Era uma das nossas brincadeiras, apesar de a dança do xondaro não ser uma brincadeira. A gente se divertia muito.

 

P/1 – Conta pra gente um pouco o que é essa dança do xondaro.

 

R – Dança do xondaro é uma dança de guerreiros guaranis, que eles dançavam no passado e a gente tem até hoje a nossa dança. É uma dança de habilidade, tem que estar concentrado, senão você pode se machucar.

 

P/1 – E que língua vocês falavam na aldeia? Você sempre falou guarani?

 

R – Eu comecei a falar as duas línguas: português e guarani.

 

P/1 – Desde pequeno?

 

R – Desde pequeno.

 

P/1 – E você chegou a frequentar escola?

 

R – Sim. Primeira série a gente já começou a falar guarani e a gente foi aprendendo o português e o guarani na escola também.

 

P/1 – Como foi o primeiro contato com a escola? Chegar lá e...

 

R – A gente leva um susto. A gente nunca tinha falado em português, a gente não sabia falar muito e [quando] chegava à escola tinha que só falar português. E ali eu fui aprendendo com os amigos de fora também.

 

P/1 – Na escola então é onde você aprende o português?

 

R – Ahã.

 

P/1 – E você sempre estudou na mesma escola em Laranjeiras? Desde a primeira série?

 

R – Eu estudei em várias escolas. Primeiro em Laranjeiras, que eu fiz... Comecei com sete anos a estudar. Eu estudei algum ano e depois eu fui pra outra aldeia.

O guarani anda muito, anda bastante. Quando uma aldeia não tá sendo boa pra família eles procuram outra aldeia pra morar.

 

P/1 – E se você tivesse que falar… As escolas têm suporte hoje em dia pra receber guaranis ou não? Da sua vivência, o que você...

 

R – Antes a gente sempre sofria discriminação, a gente estudava em outra escola. Como a gente era indígena eles riam da gente, do modo de a gente se vestir. Isso foi bastante sofrido, acho que até hoje é assim, quando a gente sai pra estudar fora sofre discriminação.

 

P/1 – E sair do interior e ir pra São Paulo, como foi essa transição? Foi ainda mais complicada.

 

R – É. Quando eu vim pra São Paulo eu morava em Palmerinha do Iguaçu, em outra aldeia, município de Chopinzinho, Paraná. Eu resolvi vir pra São Paulo pra visitar os parentes, tenho bastante parente em São Paulo, aí acabei vindo. Minha mãe mora em Paraná ainda, minha família toda mora lá.

 

P/1 – E dessas transições de aldeia você tem alguma lembrança marcante? Alguma aldeia em especial nesse convívio?

 

R – Não. Não tenho muitas lembranças, não.

 

P/1 – Legal. E o ingresso no vestibular, como você escolheu Pedagogia, como foi?

 

R – A gente foi escolhido pela comunidade. Primeiro a gente fez uma formação de magistério indígena, era para todos os indígenas e cinco etnias: Kaingang, Krenak, Tupi-guarani, Guarani e Terena no Estado de São Paulo. Eu fiz seis meses de magistério, porque eu já tava adiantado no estudo. Depois a gente foi pra USP terminar a formação.

 

P/1 – E das dificuldades e facilidades, como foi esse mundo acadêmico? Como foi o ingresso lá?

 

R – Bom, o magistério indígena surgiu pela luta dos guaranis, das lideranças de todas as etnias, de formar professores indígenas. E foi nessa aí que a comunidade escolheu, a Secretaria do Estado de São Paulo arrumou uma verba pra gente poder entrar na faculdade.

 

P/1 – Depois você se forma, você vai dar aula pra crianças guaranis?

 

R – Sim. Faz cinco anos que eu tô... Vai fazer cinco anos esse ano que eu tô na escola já. Ensino o guarani e o português também pra quando eles crescerem eles terem mais uma forma de defender a cultura, defender as nossas terras, os nossos direitos.

 

P/1 – E por que você optou? Você sempre desejou ser professor? Foi uma opção? Como foi isso?

 

R – Bom, eu sempre quis ser professor pra ajudar o meu povo. A gente via isso como uma sobrevivência que eu tive antes, no passado, de a gente ter essa discriminação nas escolas de português. E desse modo que eu tive o pensamento de ser um professor, pra ensinar o mundo, mostrar o mundo diferente da nossa cultura.

 

P/1 – E fora a língua você também ensina a cultura guarani, outras áreas. O que você ensina para seus alunos?

 

R – Bom, como a gente mora no... Nossa terra são 25 hectares pra 130 famílias, é bastante difícil poder mostrar tudo que a gente via antes. A gente não tem mais mata, mas a gente tenta buscar as coisas que foram ensinadas dos mais velhos pra gente, pra gente passar na escola também. A gente passa... Vai pra mata, a gente tem uma mata ainda, que não é... A gente tá em demarcação de terra, não foi demarcada ainda. A gente vai fazer armadilha, vai caçar ainda. Mostrando para as crianças de modo que eles cresçam sabendo da cultura.

 

P/1 – Vocês vieram aqui pra aldeia pra apresentar o coral. Como se deu seu ingresso no coral, quando você iniciou?

 

R – Não era pra eu estar aqui. Eu vim porque as pessoas mais responsáveis… Era o cacique Timóteo que era pra vir, mais outra professora. Não deu pra eles virem e eles acabaram me escolhendo pra eu poder estar aqui, participar.

 

P/1 – E foi o maior orgulho então você ter sido escolhido como responsável.

 

R – Maior orgulho. Ter uma responsabilidade de trazer e apresentar a nossa música, o nosso canto, a nossa dança.

 

P/1 – E na aldeia você... Tem outras pessoas também que tenham ingressado no magistério? Como tem sido esse contato com a outra cultura que não é indígena?

 

R – Nós somos cinco professores guaranis, que fizemos esse magistério. E também sofremos dificuldades até pra conversar com os professores da USP, mas a gente foi bem... A gente aprendeu o máximo pra levar para as comunidades.

 

P/1 – E quantos anos vocês ficaram na universidade?

 

R – A gente ficou três anos na USP.

 

P/1 – Legal. Você contou bastante sobre a importância de preservar a cultura guarani. Eu queria que você contasse um pouco mais pra gente do porquê você acha importante, o que deve ser preservado, que você falasse um pouco pra gente.

 

R – Primeiramente a gente luta pelos nossos direitos de recuperar as terras indígenas. Isso é o primeiro passo de todas as lideranças indígenas por modo de não atingir os que veem: nossos filhos, nossos netos. Porque se eles crescerem sem uma terra pra fazer plantações, ter uma terra do povo guarani é difícil. A gente tem muita preocupação em perder essa nossa cultura, nossa língua, nossas danças. Isso é nossa preocupação.

 

P/1 – E fora ser professor na aldeia, que outras funções você tem?

 

R – Bom, eu tenho outras funções de... A gente tem um projeto do povo guarani buscar uma terra sem mal e a gente tem que estar com esse projeto, a gente tem uns produtores lá de filmagem que fazem com a gente e a gente faz a tradução de guarani para o português, transcreve fazendo uma tradução.

 

P/1 – E hoje qual é o seu maior sonho? Seu maior objetivo?

 

R – O meu maior objetivo hoje é recuperar as nossas terras e aumentar a população, não deixar diminuir o povo guarani. Essa é minha maior preocupação.

 

P/1 – Tá ok, então. Obrigadão, Pedrinho.



 

 

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