Busca avançada



Criar

História

Democratização da água

História de: Frei Dom Cappio (Luis Flavio Cappio)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/09/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Luis Flávio Cappio conta sua relação com a religião na juventudade e como ingressou na Ordem dos Frades Menores Franciscanos. Fala sobre sua jornada pelo sertão brasileiro, ensinando, alertando e lutando pela conservação do Rio São Francisco e a democratização da água. Fala sobre da relação da água com Deus e como passou a entender o papel importante dela na vida do sertão.

Tags

História completa

Meu nome completo é Luis Flávio Cappio. Nasci na cidade de Guaratinguetá, estado de São Paulo, e meus pais se chamavam Luis Cappio e Letícia Levis Cappio. Eles nasceram na Itália e vieram para o Brasil na década de 1930.

Eu venho de uma família cristã, católica praticante, e toda a minha infância, a minha adolescência, a minha juventude foi nesse ambiente assim marcadamente formado pela religião, pela fé. E nesse clima eu descobri minha vocação religiosa sacerdotal e optei por entrar na Ordem dos Frades Menores Franciscanos. Ingressei na Ordem dos Franciscanos, me ordenei Sacerdote e logo depois eu vim para o sertão da Bahia. Já faz 33 anos que eu trabalho no sertão da Bahia.

Eu vim como missionário porque, como a senhora deve saber, os franciscanos optam por aqueles locais mais carentes, mais necessitados e mais pobres. E o sertão da Bahia é o lugar onde predominantemente vivem os mais pobres deste país e é por isso que eu vim morar e servir esse povo.

Eu conheci o Rio São Francisco como acidente geográfico nas aulas de geografia no meu tempo de estudante. Mas quando eu vim para o sertão da Bahia, eu observei que o São Francisco é muito mais que um acidente geográfico: ele é a vida de um povo, não é? Ele é o pai de um povo, é a mãe de um povo. É o rio e a sua bacia que garante a vida de milhões de nordestinos. Então eu passei a admirá-lo e venerá-lo, como um ente, um dom de Deus para a vida dessa população. E me preocupei, me impressionei muito, pelo seu grau de degradação, e eu percebi que a vida do povo depende da vida do rio, então lutar pela vida do rio é lutar pela vida do povo.

O que nos motivou a essa peregrinação foi justamente a situação em que o rio se encontra e a necessidade de entabular um diálogo com as comunidades beiradeiras para refletir com o povo a situação do rio e mostrar para o povo que em primeiro lugar esse rio é um grande dom de Deus para a vida deles. Em segundo lugar, que ele está num agudo processo de degradação. Em terceiro lugar, que é necessário que o povo assuma essa luta em defesa do seu rio. E nós estamos vendo a resposta do povo, não é? Nós iniciamos a nossa peregrinação no dia 4 de outubro de 1992, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, onde o rio nasce, e concluímos a nossa peregrinação no dia 4 de outubro de 1993, lá na Foz do Rio São Francisco, onde ele deságua no mar. E durante todo esse ano nós passamos em todos os municípios beiradeiros, nas Sedes Municipais, nas comunidades banhadas pelo rio, nós visitamos todas as escolas, desde a pré-escola até a universidade, falamos com todos os meios de comunicação, Câmaras de Vereadores, Prefeituras, Poder Público Municipal, autoridades, povo ribeirinho, justamente refletindo sobre a vida do rio e a necessidade de preservá-lo.

Nós só assumimos aquela postura de greve de fome, que eu vejo como sendo radical, porque quando nós soubemos do intuito do Governo Federal de realizar o projeto de transposição nós tentamos de todas as maneiras possíveis fazer com que o projeto não acontecesse. E quando nós vimos que ele estava para ser viabilizado, e não havia maneira de fazer com que a voz do povo chegasse até a oficialidade, nós então dizíamos: “Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho”. Então demos esse grito, que foi um grito que foi muito desesperado, mas que alcançou seu objetivo: motivou a todos para a questão do rio. Despertou a nação brasileira, e quem sabe até o mundo, para a real situação do rio. E só desfizemos, saímos do jejum, deixamos o jejum, porque houve um acordo explícito assinado entre eu, representando a sociedade civil brasileira e o presidente Lula, representando o Governo, onde lá se estabelecia que se abriria um amplo diálogo nacional para discutir esse projeto porque, dada àsua magnitude, merecia uma conversa com a  população. E como, infelizmente esse diálogo não aconteceu, não houve meio algum – nesses dois anos tentamos de tudo para fazer com que ele acontecesse, e não aconteceu. É por isso que estamos aqui de volta.

            Em primeiro lugar, ele é economicamente absurdo, economicamente absurdo. Por quê? Porque hoje o próprio governo tem as alternativas. No início desse ano a Agência Nacional de Águas, a ANA, publicou o Atlas do Nordeste, com mais de quinhentas alternativas de abastecimento hídrico das comunidades dos centros urbanos de todo Nordeste brasileiro, e a Articulação do Semi-Árido, a ASA, também tem uma série de experiências destinadas a dar água para as comunidades rurais. Então, se essas alternativas, que são do Governo, fossem levadas a sério, seja da ANA, seja da ASA, nós atenderíamos 44 milhões de habitantes de todo o Semi-Árido brasileiro, não apenas dos Estados do Nordeste Setentrional, pela metade do preço da transposição. O próprio Governo tem as alternativas e economicamente muito mais interessantes. Por isso que eu digo que é economicamente inviável. Em segundo lugar, é ecologicamente insustentável. Por quê? Porque vai usar água de um rio que está urgentemente necessitando de ser ajudado, de ser revitalizado, e nós não podemos atrelar o projeto de revitalização com o projeto de transposição. Em primeiro lugar, o Rio São Francisco precisa ser revitalizado, e como eu sempre digo: anêmico não doa sangue.

E é ecologicamente insustentável porque já está provado que no Nordeste Setentrional tem água suficiente. O que é necessário é democratizar a água. Nós estamos na beira do Rio São Francisco e as comunidades não têm água. Então o que falta é uma infra-estrutura de distribuição da água, não é? Então é por isso que eu sempre digo: é ecologicamente insustentável. Em terceiro lugar, é socialmente injusto, socialmente injusto. Por quê? Porque tira essa água para quê? Não é para levar para os pobres, como a propaganda enganosa do governo diz, não é para isso. É para atender a infra-estrutura industrial dos grandes aglomerados industriais, então é uma água que vai para o incremento do capital, e não para o abastecimento hídrico das comunidades carentes. O povo paga uma água que vai ser utilizada pelas oligarquias. Com esse projeto inaugura-se um “hidronegócio”.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+