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História

Depoimento de História de Vida de Salomão Borges Filho

História de: Salomão Borges Filho (Lô Borges)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2004

História completa

IDENTIFICAÇÃO

Nome, data e local de nascimento

Meu nome é Salomão Borges Filho. Nasci em 10 de janeiro de 52, em Belo Horizonte, no bairro de Santa Tereza.

 

FAMÍLIA

Pais/ Irmãos

Meu pai é Salomão Magalhães Borges. Minha mãe é Maria Fragoso Borges.

Lembro dos avós maternos. Os paternos morreram quando eu tinha dois anos. Convivi muito com o vô Carlos e a vó Raimunda, que morreu há menos de um ano.

 

Sou o filho do meio. Tenho cinco irmãos mais velhos e cinco irmãos mais novos, sendo cinco mulheres e cinco homens.

 

INFÂNCIA/ LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Brincadeiras de criança/ Santa Tereza 

Fiquei até os dez anos em Santa Tereza. Morávamos numa casa cheia de árvores, com um quintal enorme. Tinha bananeira, goiabeira, laranjeira, abacateiro. A gente gostava muito de brincar naquele quintal. Boa parte da infância fiquei brincando com meus irmãos, que eram muitos. Quando eu fui pro primário, me alfabetizar, foi quase um trauma. No primeiro dia que minha mãe me deixou no Instituto de Educação, achei que ela estava me abandonando. Chorei pra caramba, custei a me adaptar à escola. Depois, me acostumei. Até os dez anos, passei indo pra aula, brincando em casa, vendo meus irmãos jogar bola e vendo alguns bailes de carnaval que tinha em Santa Tereza. Uma vida normal de criança normal. As coisas começaram a mudar quando eu fiz dez anos e a minha família se mudou pro centro de Belo Horizonte. Fomos morar no Edifício Levy.

 

LOCALIDADES BELO HORIZONTE/ INFÂNCIA

Santa Tereza/ Parque Municipal/ Primeira infância

Em Santa Tereza tinha muita brincadeira. Era só farra, só festas — e algumas doenças infantis. Lembro que teve uma vez que um cachorro com suspeita de raiva mordeu a minha família quase toda. Meu pai teve que vacinar todo mundo, foi uma loucura. Eu era garoto, devia ter uns cinco anos. Lembro muito dos meus aniversários, eu tinha uns padrinhos maravilhosos, nunca faltavam no meu aniversário. Me levavam brinquedos, roupas. Não esqueço de uma roupa de canoinha, azul, que era superbacana. Em casa eram brincadeiras mesmo, divididas em faixas etárias. Brincava muito com meu irmão um ano mais novo que eu. Tem também as coisas dos irmãos mais velhos. Era tudo misturado. As irmãs também brincavam com a gente. A gente passava a maior parte do tempo nesse quintal, jogando bolinha de gude, finca. Foi uma infância gostosa, saudável, num bairro tranqüilo, repleto de passeios. Nos fins de semana, meu pai levava a gente pro Parque Municipal. Eu ia pra aula a pé, com o meu pai. Atravessava o parque de mão dada com ele. Anos depois fiquei superamigo do parque, jogava futebol todo dia. Mas foi tudo muito tranqüilo. Adorava o meu irmão Yé, que é o cara que eu ficava mais próximo. A gente dormia na mesma cama. Família muito grande, não dava para cada um ter sua cama, então tinha os beliches. E mesmo nos beliches às vezes tinha que dormir dois na mesma cama. E foi isso. Tudo que uma criança pode desejar na infância eu tive. E curti bastante.

 

INICIAÇÃO MUSICAL

Iniciação musical/ O primeiro instrumento/ As influências

Meu tio João, que é vivo até hoje, gostava de tocar violão. De vez em quando ele aparecia em casa com o violão e cantava umas canções bonitas: [Cantarolando] “Os olhinhos do menino marejou quando seu pai viajou/Quando o seu pai viajou lá, lá, lá, lá”. Não lembro da música toda. Sei que o meu tio gostava de tocar violão. Dizem que a minha vó tocava bandolim, mas não lembro. Lembro do filho dela tocando violão. Era um cara supermusical. Também gostava de jogar damas. Era o rei das damas. Ninguém ganhava dele. Um cara superinteligente e supertalentoso.

Não me lembro bem, mas minha mãe cantou em corais de colégios. Rapidamente, a música começou a entrar na minha casa, porque os instrumentos foram chegando. Meus pais compraram um piano, pois eles perceberam a tendência que as pessoas lá em casa tinham pra música. Marilton logo arrumou um violão. Eu ficava mais assistindo às coisas. Minha mãe me colocou pra estudar piano uma época, estudar violão. Lembro desse meu tio, que tocava violão e tocava umas músicas de Dorival Caymmi. É um cara muito legal, e muito musical. Eu era apaixonado por música. Música me comovia, me deixava muito emocionado. Quando eu escutava canções bonitas na TV Itacolomi, quando terminava a programação da televisão e tocava uma música do Dorival Caymmi, eu quase chorava, toda noite. Achava linda a música, ia dormir com os anjos, e com a Nana Caymmi cantando: “Boi, boi, boi/Boi da cara preta/Pega esse menino/que tem medo de careta”. Isso faz parte da minha vida. Me emocionava com música, como até hoje. Então acho que foi o primeiro sintoma. Eu prestava a maior atenção nas coisas que eu ouvia. Adorava rádio, Anísio Silva. Ouvia o que as pessoas na minha casa ouviam. Eu mesmo não colocava discos, escutava por tabela o que as pessoas escutavam. Mas era muito interessado em música. Agora, pra eu intervir na música, começar a criar minha própria história com a música, só depois que eu mudei pro Edifício Levy.

 

LOCALIDADES BELO HORIZONTE/ FAMÍLIA/ LAZER

Edifício Levy/ Moradia/ Cinema

Pra criança de dez anos tudo é festa. Mudar de ar também foi muito legal. Saí de um bairro e fui morar no centro. Era cheio de prédios, de carros, de outras crianças. A gente foi desenvolvendo uma vida nova. Adorava o apartamento que a gente vivia. Era um apartamento grande. E nesse prédio a gente começou a conhecer pessoas. A gente morava no 17° andar, e como toda criança bem animada de dez anos de idade, eu dispensava o elevador, gostava de descer e subir a pé, era um divertimento. Saía pra brincar. Fiz logo amizade no prédio com as pessoas da minha idade: tinha o Marck Miguel, o Gonçalo Abreu, o Gilberto Abreu, o Gilson Abreu, os três irmãos. Fez-se logo uma turma e aí comecei a vida na cidade, no centro de Belo Horizonte, que era uma vida completamente diferente de Santa Tereza.

 

Tinha uma diversão bem ousada, porque a gente gostava de assistir aos filmes sem pagar ingresso. Então a gente estudava uma maneira de entrar nos cinemas por entradas secretas, que não fosse a porta principal do cinema. A gente entrava no edifício ao lado, numa loja, passava por cima de um telhado, do telhado você abria uma janela, saía no ar-refrigerado do cinema, do ar-refrigerado você pulava pra dentro do banheiro da mulheres, do banheiros das mulheres... [Risos]. Era assim, a gente tinha entradas secretas para vários cinemas em Belo Horizonte. Até que um dia teve um acidente que cortou nosso ímpeto de entrar no cinema: um amigo da gente, quando a gente estava – sete crianças de uns doze anos de idade – entrando no Cine Tamoios, a gente já tinha feito todo esse circuito de entrar no prédio ao lado, de passar por cima de um telhado, entrar por uma veneziana, e quando a gente estava para descer uma escada, uma escada de madeira mesmo, pintou o vigia. E foi todo mundo correndo, que o vigia estava armado. Só que o mais pesado de todos quebrou o telhado, e a gente estava em cima. Ele quebrou o telhado e caiu dentro de uma loja de louças chamada Leão das Louças. Caiu assim, na promoção, pá! Caiu aquele cara enorme num monte de xícaras. Aí nós passamos correndo, vimos ele lá na promoção, todo quebrado [Risos]. Essa era uma das coisas que a gente fazia.

 

Outra forma, que era a mais surreal de todas para entrar nos cinemas, era entrar enquanto o pessoal saía da sessão. A gente entrava de costas [Risos]. Andando de costas. Vi muitos filmes dos Beatles nessa de não ter o dinheiro pro ingresso e assistir. Porque os Beatles a gente queria ver todo dia. Os Beatles são um capítulo à parte.

 

PESSOAS/ INFÂNCIA

Beto Guedes/ Godofredo Guedes/ Brincadeiras de criança

Nessa época que a gente mudou pro centro, eu conheci o Beto Guedes e nós dois tínhamos dez anos de idade. Eu o conheci em cima de uma patinete. Estava passando pela rua, veio um cara em cima de uma patinete maravilhosa. Aí eu abordei o cara e quis saber onde é que ele tinha conseguido aquela patinete, que eu vi que era um negócio artesanal. Depois eu descobri que o pai dele tinha uma oficina de marcenaria com pintura. O pai dele, Godofredo Guedes, era um grande compositor, grande pintor e grande marceneiro. E eu acabei falando: “Você tem condição de fazer uma outra patinete dessa para você. Eu não tenho, vamos fazer uma troca”. Acabei negociando com o Beto Guedes. São as coisas do destinos. Depois viramos parceiros, fizemos mil coisas de música juntos. Mas a gente se conheceu casualmente, fiquei muito amigo dele e acabei ficando com a patinete. Dei para ele alguma coisa, não lembro bem o quê. Depois de adultos, ele já disse que eu não paguei tudo, que devo a ele uma parte da patinete. Até hoje, passados mais de 30 anos! É uma situação esdrúxula, mas de qualquer forma já estou prometendo invadir o palco dele de patinete, a qualquer momento, e entregar uma patinete novinha, parecida com a que ele me vendeu.

 

Eu gostava de ir lá pra oficina. O pai dele pintava assoviando o tempo todo. O cara tinha um assovio maravilhoso. Eles ficavam ali, o Beto fazendo coisas. O Godofredo fazia instrumentos também, chegou a fazer um piano inteiro, artesanalmente. Fez violões, fazia instrumentos. Era um cara superdotado. Gostava de ir praquele espaço, mas gostava muito também de jogar futebol. Era outra turma, porque o Beto não gostava muito de bola.

 

INFÂNCIA/ PESSOAS

Brincadeiras de criança/ Milton Nascimento

O centro de Belo Horizonte era completamente diferente, as árvores eram todas de frutas, tinha muitos casarões de milionários, casarões abandonados. A gente pulava o muro e ia tomar banho de piscina. Depois tinha que sair correndo, porque sempre aparecia um vigia. E a gente passou a vida correndo de vigia. Nessa mesma época eu conheci o Milton. A diferença de idade dele pra mim é de dez anos, eu tinha dez anos, ele tinha 20. Um dia minha mãe pediu pra eu comprar leite, e como qualquer garoto de dez anos, eu dispensava elevador. Aí desci pela escada. Quando eu estava descendo, comecei a escutar um som de violão e uma voz linda e à medida que eu ia descendo, ia me aproximando desse som. Quando cheguei no quinto andar, estava lá um neguinho, tocando um violão superlegal e cantando com uma voz maravilhosa. Eu parei, sentei e fiquei ouvindo aquilo. Ele me perguntou de qual família eu era ali do prédio. Disse que era irmão do Marilton. Ele falou: “Ah, já conheço o Marilton, já conheço o Márcio. Como é que você chama?”. “Lô.” Aí teve uma empatia na hora. Ele começou a pedir para eu cantar as coisas com ele, porque ele sacou, já que o Marilton era musical, o Marcinho era musical, ele quis testar a minha musicalidade também. Fiquei cantarolando algumas coisas com ele, e ficamos superamigos à primeira vista. O primeiro encontro já foi superempático, superforte. Esqueci o que eu estava indo fazer, esqueci de comprar o leite. Quando cheguei em casa, tomei um cacete da minha mãe. Ela falou: “Mas era para demorar cinco, dez minutos e você demorou uma hora e meia.” Porque eu fiquei com o Bituca na escadaria do prédio. E foi marcante conhecer ele dessa forma.

 

FORMAÇÃO MUSICAL

Iniciação musical/ As influências

Logo depois surgiu a história dos Beatles. Na verdade, antes dos Beatles, eu gostava de ficar vendo os ensaios na minha casa. Eram vários músicos, porque na minha casa tinha piano, então era um dos lugares onde as pessoas ensaiavam. Por causa do Marilton, tinha sempre músicos lá em casa. E ele tocava com o Milton, com o Wagner, com o Rubinho, Marcelo Ferrari, Aécio Flávio. Várias pessoas tocavam violão na minha casa, faziam ensaios com banda, contrabaixo acústico. E eu gostava ver, prestava a maior atenção. A hora que eu mais gostava era quando terminava o ensaio, que ficavam todos os instrumentos só para mim, aquele monte de instrumento na minha casa. Aí tocava piano, pegava violão, a guitarra de não sei quem, o contrabaixo acústico.

 

Eu era tão pequeno na época, que, em vez de tocar em pé o contra-baixo, eu montava nele como se fosse um cavalo, e ficava tocando. Era divertido. Isso tudo foi despertando cada vez mais a estrada de música. Nesse encontro com o Beto Guedes, eu tinha falado: “Na minha casa todo mundo transa música”. Ele falou: “Na minha também. O meu pai é compositor e eu gosto de tocar”. Acabei meio que transitando. Ia muito à casa do Beto Guedes e assistia aos ensaios na minha casa. Até o surgimento dos Beatles, que mudou realmente a nossa vida. Já dedilhava alguma coisa de bossa nova, que era o que mais se tocava em casa, João Gilberto, Tom Jobim. Fora jazz, Miles Davis. Como a gente gostava muito de entrar nos cinemas, estava anunciado lá o filme “Os Reis do Iê-iê-iê” aqueles quatro cabeludos. Fiquei apaixonado com aquilo: “Tenho que ver esse filme”.

 

Não conhecia nenhuma música ainda, aí soube que era uma banda que estava revolucionado o mundo, que a juventude do mundo inteiro estava ligada naquilo, que existia beatlemania. O Marcinho e o Bituca me levaram para ver o filme. Consegui que eles me levassem. E foi incrivelmente forte, virei um beatlemaníaco na hora. As pessoas gritavam dentro do cinema, eu gritava, foi uma explosão. A partir disso, o Marcinho e o Bituca me deram o disco “A Hard Day`s Night, Os Reis do Iê-iê-iê”. Peguei esse disco e levei na casa do Beto Guedes. Ele tocava coisas mais regionais, as coisas do pai dele, enfim. No primeiro momento ele estranhou o visual dos caras. Porque ninguém tinha cabelo grande, era uma coisa absolutamente nova a maneira dos caras se vestirem, o cabelo. O Beto teve uma certa resistência, falou: “Esses caras estão com umas caras meio de veado”. [Risos] Num primeiro momento ele não gostou, mas coloquei para ele a primeira faixa: [Cantarolando] “It’s been a hard day`s night”.

 

FORMAÇÃO MUSICAL / PERSONALIDADES

As influências/ Profissionalização/ John Lennon

Dali pra frente, o cara ficou mais beatlemaníaco que eu. O cara se apaixonou na hora. Um mês depois, nós montamos um grupo vocal: eu, Beto, Yé e um cara que morava no centro também, um amigo da gente chamado Márcio Aquino. A gente cantava música dos Beatles e o grupo se chamava The Beavers, “os castores”. Começamos a ter uma atividade semiprofissional. Tinha um programa chamado “Petilândia”, na antiga Secretaria de Saúde e Assistência, que hoje é o Minas Centro. Nós participávamos desse programa de televisão aos domingos de manhã. A gente era uma atração especialíssima do programa. Os Beatles eram uma novidade, mas quatro garotos de 12 anos cantando as músicas dos Beatles era mais novidade ainda. O público ia à loucura.

 

A gente cantava também na antiga Rádio Inconfidência, onde hoje é a rodoviária. A gente cantava na Feira de Amostras também, cantava no Jaraguá, um clube que existe até hoje, perto do Aeroporto da Pampulha. E lá a gente tocava no almoço dançante. O conjunto do Marilton era que tocava, mas no meio da apresentação entravam os The Beavers. E nesse dia não teve apresentação, acho que morreu um diretor do clube, o clube não abriu. Como garotos, a gente só queria saber de aventura. Aí fomos andar pelo meio do Aeroporto da Pampulha, nas cercanias, lugar proibido de andar. Fomos entrando na área da Aeronáutica, mas lá é uma região meio pantanosa, e quando a gente viu, estávamos num pântano. Começamos a ter dificuldade de sair, mas foi todo mundo saindo. E teve um que foi só descendo, descendo, descendo. A gente teve que pegar um pedaço de ferro e ficar puxando o cara, o cara quase sendo engolido pelo pântano. Nesse dia que a gente foi cantar e não teve show, quase que deu uma tragédia. Daí a pouco apareceu uma Kombi da Aeronáutica e levou todo mundo preso. E a gente já tinha o cabelinho meio grande, imitando os Beatles. Eles ameaçaram cortar o cabelo da gente.

 

Essas histórias aconteciam, muitas histórias. Tinha até uma coisa meio ridícula, que nós éramos quatro e tínhamos um empresário. O empresário era da mesma idade da gente! Então a gente era patrocinado por uma loja chamada Guanabara, que dava os nossos uniformes. Calça curta azul e camisa branca, tipo escolar. Bem chinfrim mesmo, bem pobrinho. Não tinha nada a ver com os Beatles [Risos]. Se eles fizessem uns terninhos talvez fosse mais interessante, mas eles davam uma calça curta e uma camisa de colegial. E a gente se apresentava. E era assim: ficavam os quatro Beavers cantando, e a um metro e meio de distância o empresário, de uniforme também [Risos] com os braços cruzados. Era uma situação ridícula. E teve um dia lá no “Petilândia” que foi muito engraçado. Acabou a energia elétrica no meio do programa e a gente estava cantando. E foi estranho porque a gente teve que parar no meio da apresentação, porque acabou a energia, o som do microfone não funcionava, e aí a gente: “Pô, que sacanagem, que merda, agora ter que ficar esperando voltar essa energia”. Aí o Beto falou: “Puta que pariu, é foda!”. Na hora que ele falou “puta que pariu, é foda!” voltou a energia. E ele: “Puta que pariu, é foda!”, na maior altura. A platéia toda escutou [Risos]. Na hora que voltou a energia, estava o Beto dando uma torrada no que tinha acontecido. Mas esse conjunto não durou muito. Durante dois, três anos cantamos as músicas do Beatles e ficamos nos alimentado de Beatles.

 

Nesse programa chamado “Petilândia”, a platéia era só de crianças. Os pais levavam as crianças, então tinha muitos pais também. Na Rádio Inconfidência também tinha muita criança, os pais levando as crianças. Mas nesse clube, no Jaraguá, nosso público era adulto. Era um almoço, a gente entrava como os garotos maravilhosos. Mas era um programa de adultos. A banda do meu irmão ficava tocando, e no meio da apresentação deles a gente fazia cinco, seis números cantados e pronto.

 

Nessa época, só o Beto tocava violão. Eu tocava, mas não tocava muito as músicas do Beatles, gostava mais de tocar bossa nova, que eram outros acordes, não tinha palheta. Por ter tocado com o pai dele, e ser coisa de palheta, música regional, o Beto tinha mais proximidade. Os acordes eram mais parecidos com os acordes dos Beatles, acordes perfeitos, maiores. Os meus eram todos de dissonantes, acordes de João Gilberto. No primeiro momento, os The Beavers tinham só o Beto que tocava violão. A gente fazia vocalização.

 

Desde o primeiro dia que eu vi os Beatles, eu adorei a cara do John Lennon, a voz do John Lennon, as canções do John Lennon. Sempre achei o John Lennon o mais interessante. Era o que me chamava mais a atenção. Assisti aos filmes dos Beatles 20 vezes cada, e ficava o tempo todo olhando para o John Lennon. Me interessava pouco pelos outros, achava legal e tudo, mas o John Lennon era meu beatle predileto.

Das canções também, as canções dele eram as que eu mais gostava. O cara fez tanta que não preciso ficar dizendo quais foram as canções.

 

LOCALIDADES BELO HORIZONTE

Centro/ Santa Tereza/ Edifício Levy

Enquanto ouvia e cantava muito Beatles, continuava estudando, fazendo ginásio. Visitava pouco Santa Tereza, porque lá foi minha primeira infância. Meus valores, minhas coisas eram ainda muito dentro de casa. Depois, quando voltei a morar em Santa Tereza, eu ia todos os dias pro centro. O Marilton e o Márcio, quando a gente se mudou pro Edifício Levy, iam muito a Santa Tereza, porque tinham idade de ter amigos, e iniciações de todas as ordens, sexuais, de amizades. A referência deles era Santa Tereza. Eu não tinha muita referência com Santa Tereza, tinha referência da minha casa, da minha família. E como nos mudamos pro centro, minhas referências passaram a ser o centro. As coisas mais fundamentais na minha vida foram pessoas que conheci no centro de Belo Horizonte. Quando me mudei, aos dez anos, comecei a sair da barra da saia da mãe, a ter minhas amizades na rua. Antes era tudo dentro de casa, que era enorme, tinha quintal, tinha tudo. Tanto que não me lembro dos amigos de infância de Santa Tereza. Só depois que eu voltei, com 16, 17 anos, que reconheci algumas pessoas da época. Mas não me lembro de brincar com elas. Minha família era tão grande, tinha tantos irmãos, que eu não precisava arrumar amigo para brincar, já tinha bastante.

 

INFÂNCIA/ EDUCAÇÃO

Cotidiano/ Descrição do cotidiano escolar

Com 12 anos a gente já tinha banda, mas não podia parar de estudar. Meus pais achavam legal a gente tocar, não tinha problema, mas tinha problema se perdesse média na escola. Então a gente tinha que estudar legal para poder cantar. Mas isso era na minha família. O Beto não tinha esses problemas não, estava sempre liberado para tocar. Teve vários shows da gente que eu e o Yé não pudemos fazer porque estávamos mal na escola. Tinha uma certa pressão pra que a gente estudasse e a gente acabou estudando. Porque cantar era um grande prazer e um grande divertimento. Até não podíamos sair muito não, era só cantar. E se não fosse bem na escola, não podia brincar na rua, só dentro de casa. Não podia encontrar com os amigos, não podia jogar bola no Parque Municipal. Tinha uma série de restrições quando a gente não ia bem na escola.

 

NOME

Apelido

Me apelidaram de Lô na infância. Eu não sabia que meu nome era Salomão, descobri na escola, nos primeiros momentos que eu tive que aprender a escrever o nome. “Meu nome é isso tudo, desse tamanho?” Achava que era só Lô. Porque desde que eu era garoto de dois, três anos de idade, todo mundo só me chamava de Lô. Demorei uns cinco anos para saber que eu chamava Salomão. Eu não sabia escrever, não sabia ler, então pra mim era Lô. Dizem que minha avó foi que me botou o apelido. Mas não sei, talvez algum irmão mais velho saiba melhor a gênese do meu apelido. Eu sempre fui o Lô, Salomão fui poucas vezes. Mesmo porque já tinha o Salomão, que é o meu pai. Sou mais um Lô mesmo.

 

FORMAÇÃO MUSICAL/ MÚSICAS

As influências/ Composições/ Aprimoramento/ “Clube da esquina n°1”

Tinha 15 anos quando acabou o The Beavers. Aí começa a fase de esperar os discos dos Beatles, tirar todas as canções. E, ao mesmo tempo, estão começando os Festivais da Canção, Chico Buarque. Eu virei um “chicobuarquemaníaco” também, tirava todas as canções depois que ele apareceu cantando “A Banda”. A Tropicália, tudo isso me chamava atenção. Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré. Mas principalmente os Beatles. Esperando sair os discos, tirava todas as canções. E dessa galera toda, o meu predileto na música brasileira era o Chico Buarque. O mesmo interesse que eu tinha pelos Beatles, tinha por ele. Saía disco do Chico Buarque, eu tirava todas as canções. Tinha facilidade pra tirar canções dele, porque sabia tocar bossa nova, eu já tinha essa formação também.

 

Nesse momento eu já tocava tanto música brasileira, bossa nova, Tom Jobim, quanto as canções dos Beatles. Tocava de palheta e sem palheta. Isso me ajudou muito a desenvolver um gosto diversificado. E aí começou a pintar a fase de voltar para Santa Tereza, e nessa fase eu comecei a compor. Peguei todas essas influências, de Festivais da Canção, de Beatles, e comecei a ousar, a fazer as primeiras tentativas musicais de composição. Foi superlegal esse processo, foi meio tímido, com critérios, muito cheio de autocríticas demais. Não falava assim: “Que música legal eu estou fazendo”. Achava tudo meio começando demais. “Será que eu consigo, será que eu não consigo?”. Não sei como é a iniciação das pessoas, mas o compositor no começo tem um pouco de dúvidas com o que está fazendo, se está bacana, até se sentir libertado, falar: “Poxa, consigo fazer música, sei fazer música”. Isso leva um tempo, o processo é um pouco doloroso, e comigo não foi diferente. Então comecei a fazer minhas primeiras dedilhadas. Foi logo no início que eu comecei a mostrar para o Milton.

 

O Milton já tinha desenvolvido a carreira dele, já tinha saído do Edifício Levy, tinha ganhado o Festival Internacional da Canção com “Travessia”. Mas sempre que ele vinha a Belo Horizonte, ele perguntava: “Cadê o Lô?”, porque ele gostava muito de mim, desde esse encontro na escadaria do prédio. E a minha família falava: “Está lá na esquina tocando violão”. Aí a história do Clube da Esquina: eu ficava lá tocando violão no lugar que a gente chamava de Clube da Esquina. Um belo dia ele apareceu lá e eu resolvi mostrar a música que eu estava fazendo. E ele acabou fazendo a música comigo, o “Clube da Esquina n°1”. 

 

As aulas de harmonia com o Toninho Horta duram pouco tempo. Foi “A escolinha do professor Toninho”. Ele queria incentivar a gente a aprender teoria musical, mas nós não éramos aplicados, a gente gostava de fazer a coisa de ouvido. O Toninho já tinha conhecimento teórico, era um cara que gostava disso e via na gente talento para aprender. Mas eu e o Beto, a gente se interessou pouco por isso. Acho que não deram um ano essas aulas. A gente gostava era de ficar tocando violão com ele, tomando cerveja.

 

As aulas eram logo desvirtuadas pra outra coisa. Aprendi pouca teoria musical, tanto com Toninho, quanto com a professora de quando eu era mais novo. Minha mãe me colocou na aula de piano, e a professora queria que eu aprendesse um pouquinho de religião antes da aula teórica de música. Achava aquilo meio chato, apesar de eu achar da maior importância teoria musical. Mas eu não me firmei nessa praia. Toda minha ligação com a música é intuitiva, ligada ao ouvido e à intuição. Dizem que os músicos têm uma relação com a matemática. Mas na minha última prova de matemática, eu precisava tirar dez para não ser reprovado, e tirei dez. Mas não era muito bom não, sempre ficava no fim do ano precisando tirar uma nota altíssima. Era a única hora que eu estudava matemática. Só no fim do ano eu era bom de matemática. Gostava de português, geografia, outras coisas. No meu caso, essa relação com a matemática era só forçando mesmo. Tem muitos músicos arquitetos, pessoas ligadas à matemática, mas não era o meu caso. Se bem que achava matemática interessante, só não tinha muito saco de estudar. Em momento nenhum da minha vida fui um grande aluno.

 

FORMAÇÃO MUSICAL

Preferências musicais

Não tinha muito contato com a música clássica. Ouvia as coisas que se ouvia na minha casa. Como meus pais gostavam, eu ouvia por tabela. Tem vários autores, Wagner, Mozart, Debussy, Ravel, que eu escutei meio por tabela. Mas nunca me interessei muito, achava muito belo, mas nunca foi objeto de estudo meu. Escutava mais era o popular, que me interessava mais. Tanto o popular internacional quanto o nacional.

 

MÚSICAS/ DISCOS/ LOCALIDADES RIO DE JANEIRO

“Equatorial”/ “Lennon e McCartney”/ “Nuvem cigana”/ “Clube da Esquina”/Praia Piratininga, Niterói

A primeira canção que eu fiz talvez tenha sido “Equatorial”. Acho que antes de “Clube da Esquina”. Fiz com o Beto Guedes e com o Márcio Borges. Eu morava no centro de Belo Horizonte ainda, ou eram minhas idas ao centro, já não sei. Mas a gente fez “Equatorial” mais ou menos na mesma época de “Clube da Esquina”. Aí começou a vir realmente uma vontade de compor. O Milton fez o “Clube da Esquina” comigo, gravou num álbum chamado “Milton”, anterior ao álbum “Clube da Esquina”. E no mesmo disco ele gravou “Para Lennon e McCartney”, que eu tinha feito com o Márcio e com o Fernando Brant. Aí comecei a me entusiasmar, porque as músicas eram logo gravadas pelo Milton, que já era um cara de nome nacional. “Poxa, acho que eu estou levando jeito aqui, o cara está gravando as coisas.” Minhas primeiras composições já foram logo gravadas, então não tive muito tempo de elaboração, de me sentir um compositor. Logo depois do “Clube da Esquina”, fiz o “Disco do Tênis”. Eu fazia a música de manhã e gravava à noite. Tinha uma certa urgência em tudo, porque eu não tinha um repertório extenso, as minhas primeiras composições já foram logo sendo gravadas.

 

Compor é parecido com comer, tomar água. É uma coisa meio fundamental, básica na minha vida. Costumava dizer que o fato de acordar de manhã, estar vivo e ter um instrumento à disposição já é um grande fator de inspiração. No começo da minha carreira eu tocava violão o dia inteiro, acordava tocando violão, dormia tocando violão, dormia com o violão na cama, deixava ele do lado, às vezes acordava no meio da noite e tocava alguma coisa. Nunca teve muita ligação com fatos específicos que me motivassem a compor. Era uma coisa meio compulsiva, eu gostava de estar sempre com um instrumento na mão. Nem sempre pra compor, era tocar mesmo. Alguma coisa virava música, outras não. Mas eu dedicava bastante tempo para tocar. Hoje toco menos, não tão compulsivamente. Num álbum meu recente, “Um dia e meio”, compus direto. Parecia os anos 70, uma música atrás da outra. Vai passando o tempo, vai ficando mais esparso, você vai só na boa, toca. Você aprendeu tanta coisa que quando vai compor, já vai com a idéia mais ou menos elaborada. Antes era igual um cavalo solto: tudo virava música. É legal ter sido assim, como é legal ser diferente do que era. As coisas não são estáticas. À medida que você vai atingindo maturidade, sua relação com as coisas todas, inclusive com a música, vai mudando.

 

A idéia original do Milton era gravar um álbum comigo, porque ele estava gostando das minhas composições. Cada canção minha que ele gravava era surpreendente, e foi mais surpreendente ainda quando ele me convidou para gravar um álbum. Quando ele me chamou pra gravar o “Clube da Esquina”, foi uma complicação. Minha mãe me achava muito novo pra ir morar no Rio de Janeiro e interromper os estudos. Mas acabei convencendo meus pais que aquele era um caminho legal. Já o convite ao Beto foi um convite meu. Disse pro Milton: “Só vou pro Rio se eu puder levar um cara da minha geração comigo. Porque chegar lá, vou ficar lá com os seus amigos, não conheço ninguém. A gente podia levar o Beto”. Ele falou: “Eu adoro o Beto, vamos levar o Beto também”. Aí fomos pedir à mãe do Beto, pedir a mão do Beto em casamento [Risos]. Fomos na casa do Beto pedir, mas a mãe dele ficou grilada: “Vocês têm que tomar conta do Beto. Alberto é um menino do interior, Alberto não sabe nem atravessar a rua direito. Senhor Milton, o senhor pelo amor de Deus, o senhor toma conta do Alberto direito”. Mas acabou deixando o Beto ir.

 

Aí fomos felizes os três pro Rio, moramos em vários lugares. A gente tinha uns 16, 17 anos. Quando o disco saiu, um ano e meio depois, eu tinha 18 pra 19. Mas eu não tinha músicas, tive que compor. Essa foi a fase pré-Clube da Esquina, quando começamos a construir o repertório do disco. Morei com o Milton em vários lugares, em mil apartamentos. No Jardim Botânico, no Leblon, Copacabana. Até que achamos uma casa em Niterói, numa praia chamada Piratininga. Na época era superdeserta, hoje você passa de avião por cima e parece Miami. Na época era estrada de terra. Ali rolaram as principais intervenções de composição, ali a gente compôs para valer as canções do “Clube da Esquina”. Tive o prazer de ver o Milton compor coisas maravilhosas. E era dividido. Em cada quarto da casa ficava alguém compondo. Num quarto estava eu compondo, noutro estava o Beto, abria o outro e estava o Milton, cada um fazendo suas coisas em prol de um disco.

 

Foi muito interessante morar nessa casa, tem vários casos. Um dia eu estava compondo “Nuvem cigana”, estava caindo uma tempestade, e eu sentado na cama com uma janela de vidro atrás de mim. Essa janela tinha uma estrutura metálica forte, pesada, e atrás dela tinha um muro. Estava ali há um tempão, compondo “Nuvem cigana”, estava chovendo, caindo raios, de repente resolvi levantar para mostrar pro Milton o que eu estava fazendo. No que eu levantei, antes de chegar na porta do quarto, caiu a janela em cima do lugar onde eu estava sentado. A janela e o muro. Não era pra eu estar aqui contando essa história, era pra eu ser um ex-compositor, porque quebrou a cama, tamanho o peso da estrutura. Fui salvo pelo gongo, o sexto sentido me tirou dali naquele momento. Nessa casa tinha um caseiro, a mulher dele fazia comida pra gente. A gente achava aquele pessoal um pouco estranho, uns hábitos estranhos. Mas era legal, uma época também de muita loucura, todo mundo bebia muito, tinha muita história. Uma vez, o Ronaldo Bastos estava lá, e tinha uma unidade do Exército mais ou menos próxima do lugar onde a gente morava. E teve um dia que começou a estourar umas bombas, sei lá o que a gente tinha feito, a gente entrou numa paranóia danada. Era época de repressão, ditadura militar, então a gente achou que o pessoal estava soltando as bombas pra gente, que eles estavam invadindo a nossa casa. O Ronaldo Bastos chegou a entrar de baixo da cama, a gente ficou apavorado. Mas foi um lugar fértil, onde a gente compôs muita música, praticamente ensaiamos e compusemos todas as canções do álbum “Clube da Esquina” naquele lugar, em Piratininga, em Niterói.

 

Muitos músicos, amigos do Milton, que acabei ficando amigo, também freqüentavam a casa. O Toninho Horta, o Novelli, o Robertinho Silva, várias pessoas do Rio de Janeiro, pessoas que acabaram gravando o álbum com a gente. Teve um dia que a gente saiu para fazer umas compras — morava com a gente o primo do Bituca também, o Jacaré —em Niterói. Tinha uma lagoa do lado do mar. Em vários momentos do dia ou a água do mar entrava na lagoa ou a água da lagoa entrava no mar. E nesse dia estava a água do mar entrando na lagoa, e o Milton estava deitado, apagado na areia. A gente chegou das compras, viu o cara apagado, já eram quase seis horas da tarde, escurecendo, eu falei: “Jacaré, acho que aquele cara que está deitado ali é o Bituca, e ele está apagado”. E caindo aqueles blocos de areia, já chegando próximo dele. A gente foi correndo salvar o cara, que ele ia acordar dentro de uma lagoa. Isso foi uma coisa marcante também. Teve um tombo que eu levei que também foi marcante. A ponte que atravessava essa lagoa era bem precária, cheia de buracos, a madeira velha. E teve um dia que a gente foi passar, eu desci do carro pra dar uma pista pro cara que estava dirigindo de como é que ele tinha que vir com a roda. Então: “Para cá! Mais para lá!”, de repente eu sumi. Tinha um buraco na ponte, caí dentro desse buraco. E dentro da água, fui lá embaixo. Mas de qualquer forma foi muito legal ter morado lá, ter composto essas canções todas, e ter visto o Milton fazer coisas muito legais. Foi muito bom ter convivido com o Beto, com os amigos do Bituca, o pessoal do Som Imaginário. A gente saía para ver vários shows, ia em todos os shows, a gente era acompanhante do Bituca. Como a gente morava com ele, ia pra vários lugares com ele. Assisti a várias apresentações históricas do Milton.

 

CIDADES

Rio de Janeiro

Conviver com o mar é maravilhoso. Pro mineiro, viver em frente ao mar era maravilhoso. Vivia tomando banho de mar, nadando. Tem até uma foto dentro do “Clube da Esquina” que sou eu, o Beto e o Milton dentro da água, pegando um jacaré. Morar em frente ao mar é tudo que um mineiro gosta. A gente morava bem na beira da praia mesmo, tinha areia até na entrada de casa. Aquilo pra gente era o máximo. Até que um belo dia teve uma coisa que ajudou a gente a mudar de lá. De vez em quando, a gente via uma espécie de macumba, umas coisas na praia. E teve um dia que a gente acordou, e tinha uma cabeça, com chifre e tudo, de um boi. E o cachorro comendo o nariz do boi, uma cena meio forte. Pouco tempo depois apareceu uma criança sacrificada também. Aí a gente achou que o lugar estava ficando meio tenebroso, e coincidiu com a época de a gente sair dali para começar a gravar o disco. Aí voltamos pro Rio de Janeiro.

 

DISCOS

“Clube da esquina”/ “Girassol”

A gravação do disco foi uma festa, era todo mundo tocando na música de todo mundo, todo mundo intervindo em todo mundo. Eram só dois canais pra gravar, então você tinha uma responsabilidade muito grande. As canções que a gente ia gravar com orquestra, com banda, tinha que gravar ao vivo. Eu não sabia teoria musical, tinha que gravar com orquestra, como se estivesse lendo partitura, mas sem estar lendo partitura. O “Girassol” foi gravado assim, tudo ao vivo.Deodato regendo e a gente gravando ao vivo. Só que sem cantar, as vozes eram colocadas depois. O instrumental era feito de uma vez, podia ser só violão e percussão, ou podia ser orquestra com vários componentes, mas tinha que ser tudo ao vivo. Nessas a gente teve que criar uma experiência à força, tinha que ficar esperto pra poder fazer isso bem feito. Todas as canções que eu gravei foram ao vivo. A voz, a gente colocava depois. Tinha que estar muito afiado, muito ligado, muito atento, para poder acertar sempre. Se você errasse, derrubava uma orquestra inteira. Isso nos revestia de uma responsabilidade que, absolutamente, aparentemente, nós não tínhamos. Nem experiência. Então tivemos que criar.

 

MÚSICAS

“Trem Azul”/ “Trem de doido”

O “Trem azul” foi numa das minhas vindas a Belo Horizonte. No tempo em que eu morei no Rio, sempre voltava a Belo Horizonte, adorava vir pra cá. Freqüentei a estrada Rio—BH aos montes, sabia de cor a curva, por qual cidade estava passando. E o “Trem azul” eu acabei compondo em Belo Horizonte. Foi num domingo, eu tinha chegado do Mineirão, tinha visto o Cruzeiro jogar, um time maravilhoso que o Cruzeiro tinha. Não fiz a música pro time do Cruzeiro, mas estava muito feliz no dia, o Cruzeiro tinha ganhado uma partida importante. Comecei a tocar os primeiros acordes do “Trem azul” num domingo, no fim da tarde. Depois eu levei pro Rio, e o Ronaldo fez a letra. Mas foi uma canção feita num domingo, em Santa Tereza, em Belo Horizonte. Não imaginava que teria a repercussão que teve. A gente não dava grande importância às canções, não achava que poderia virar um clássico ou uma canção que perdurasse tantos anos. A gente fazia tudo cotidianamente e achava que aquilo ia ser uma coisa cotidiana, que ia ser registrada em disco, ia durar o tempo que o disco durasse. Só que as canções duraram muito mais tempo do que a gente esperava. “O Clube da Esquina” fez trinta e tantos anos, e até hoje as pessoas cantam essa canções. A gente jamais imaginava isso. E não só “Trem azul”. Com todas as outras, “Para Lennon e McCartney”, “Um girassol da cor do seu cabelo”, foi tudo feito sem nenhuma pretensão. A gente só queria registrar num álbum, mas não sabia que esse álbum ia marcar uma história grande, importante na vida de várias gerações. A gente não tinha essa noção, não fez com essa postura. A gente estava fazendo o dia de hoje, não pensando no dia de amanhã, não pensando que aquilo poderia gerar frutos nos anos subseqüentes. Até hoje tenho que tocar “O trem azul”. Isso é muito comum na vida de certos compositores — sem querer comparar, apesar de o Tom Jobim ter gravado “O trem azul” —, era impensável ver um show do Tom Jobim que ele não tivesse que tocar “Garota de Ipanema”. Vários compositores têm as canções que tem que ser tocadas a vida inteira, senão o público pega de porrada. O público e os filhos desse público, netos desse público, a coisa vai passando de geração para geração.

 

“Trem de doido” também foi uma das canções da época de compulsão por compor. Fiz meio que rapidamente, peguei o violão, toquei. É como a gente compõe até hoje. Aí chamei o Marcinho pra escrever, era época da safra do “Clube da Esquina”. Não me lembro bem qual foi a idéia que ele teve pra falar da letra, ele pode dizer melhor. Sei que a canção eu fiz como todas as outras. Fiz porque achei gostoso estar fazendo. “Pô, tem uma canção dentro dessa harmonia, dentro desses acordes.” Mas não sei de uma referência do dia, ou por que o Marcinho colocou o nome de “Trem de doido”. O tempo vai passando, você perde um pouco essa referência. Até porque era uma coisa compulsiva, o tempo todo. Apesar de serem canções que duraram muito tempo, na época em que elas são feitas, elas não têm grande importância pra gente, a não ser a celebração do dia. “Fizemos uma canção, ficou legal.” Agora, você se reportar e tentar lembrar porque a idéia surgiu, fica difícil. Cada vez que sou levado a descrever esses momentos, eu me enrolo, porque as canções foram feitas em seqüência. O Ronaldo, no “Trem azul”, falava dum trem que da Holanda ia a Paris, a idéia dele era essa. E tem gente que acha que era por causa do time do Cruzeiro. Quer dizer, tem muitas distorções nas histórias, várias interpretações. Mas era fazer música, fosse que música fosse. A idéia era ficar pronta e a gente celebrar depois, que a gente adorava celebrar, tomar um cervejinha depois que a música estava pronta. Isso que motivava a gente a fazer música, a celebração subseqüente.

 

DISCOS/ ADOLESCÊNCIA/ MÚSICAS

“Clube da esquina 2”/ “Disco do Tênis”/ Movimento Hippie/ “O vento de maio”

O “Clube da Esquina 2” já foi uma história diferente. No “Clube 1”, eu tinha muito mais responsabilidades, eu dividia o disco, assinava, metade das composições eram minhas, então tive uma responsabilidade maior. No “Clube da Esquina 2”, a idéia do Milton já foi diferente. Era reunir várias pessoas, de diversas tendências, diversas características musicais. Ele convidou Mercedes Sosa, Toninho Horta, Beto Guedes, Flávio Venturini, Chico Buarque. Abriu um leque grande. E eu entrei nesse disco com uma responsabilidade bem menor. Não participei ativamente do “Clube da Esquina 2”. Fui lá com minhas duas canções — cada um tinha direito a duas canções ou era convidado para fazer duas canções. Levei minhas canções, gravei, participei de algumas canções do Beto Guedes, do Flávio.

 

Nesse disco fui só de participante mesmo, um convidado como os outros. Eu não ia aos estúdios todos os dias, não tinha que compor toda hora pra poder fazer música pro álbum. Mas isso foi um tempo depois, porque antes disso eu fiz o “Disco do tênis”. O “Clube da Esquina 2” já foi em 78.

 

Depois do álbum “Clube da Esquina 1”, a EMI Odeon me convidou imediatamente pra fazer um disco-solo, que pra mim foi motivo de orgulho, mas também de espanto. As canções que eu tinha eram aquelas que eu fiz pro “Clube da Esquina”. Eu não tinha um baú cheio de músicas para poder gravar. Estava me iniciando como compositor. Então foi um processo meio maluco: eu fazia as canções de manhã, o Marcinho escrevia as letras à tarde e à noite a gente ia pro estúdio e gravava. Foi um disco urgente, urgentíssimo, tanto que é composto de 16 ou 17 canções, cada uma mais curtinha do que a outra. Vários recados rápidos assim. É um disco que eu gosto, pois foi uma provocação criativa. Tinha que fazer as músicas e isso pra mim era legal. Em alguns momentos me sentia meio pressionado, falava: “Pô, mas não tenho que fazer música por obrigação. Tenho que fazer porque eu gosto de fazer”. Mas o estúdio estava marcado, a gravação marcada, e eu, pra não cancelar as coisas, comecei a compor assim: “Tem gravação hoje à noite. Tem música? Não. Não tem? Eu vou fazer”.

 

Então isso era criativo, era como um laboratório. Os arranjos eram todos criados na hora também, não teve nenhuma elaboração. Foi o disco mais visceral, tudo acontecia na hora. Acordava de manhã, pegava o instrumento, fazia a música, o Marcinho sentava do meu lado, fazia a letra, a gente à noite ia para o estúdio, botava a música na roda, gravava, fazia os arranjos dentro do estúdio. Foi um disco todo ao vivo, tudo registrado no momento em que era concebido. Cada canção durava um dia pra fazer. Música, letra, arranjos e registro. Era um auto-retrato daquele momento que estava vivendo, sem tirar nem pôr. As emoções mais frescas, no momento mesmo eram registradas. Um disco foto três por quatro. Flashes de tudo que eu estava vivendo. E nos próprios dias que eu estava vivendo, tinha que registrá-los, sem tempo para elaborar, a não ser um fim de semana ou outro. Às vezes pegava a fita e falava: “Gravei isso essa semana. Semana que vem vou gravar o quê? Ah, não tem música, então vamos fazer” [Risos]. Era um retrato do que eu vivi naquele momento.

 

Quis botar o tênis na capa, porque era um sintoma do que aconteceu depois. Eu queria era parar, estava me sentido pressionado, queria era pegar a estrada. E era uma época de ditadura, de pessoas sendo mortas, sumindo. Juntava mais de três numa casa, já poderia ser considerado aparelho subversivo. Tinha um quadro no “Programa Flávio Cavalcanti”, aos domingos, mais ou menos como o “Domingão do Faustão” hoje, o programa da principal TV, de entretenimento, de música, tinha um quadro que era “Denuncie seu vizinho e ganhe um milhão”. Era época de terror. E eu não queria mais morar no Rio de Janeiro, tocar minha carreira daquela forma, de ter que ficar fazendo uma música atrás da outra, por obrigação. Então o tênis simbolizava o que eu estava a fim de fazer, que era pegar a estrada, fazer as coisas que o pessoal da minha geração estava fazendo: ou você pegava em armas ou se juntava a alguma célula de resistência à ditadura. Ou você ia virar bicho-grilo, ir pra Bahia de carona. E foi a minha opção.

 

As pessoas sete, oito anos mais velhas que eu tinham uma consciência política maior. Eu queria fazer o que a minha geração específica estava fazendo, que era conhecer o Brasil, sem compromisso. Peguei esse “Disco do Tênis” e saí viajando. Fui de ônibus pra Porto Alegre, uma viagem romântica. Cheguei lá, não conhecia ninguém, me hospedei numa pensão. Chegava nas praças, onde tinha uma turma que eu achava mais ou menos simpática e dava o meu disco de presente. Depois fui até Belém de ônibus. Fiquei viajando o Brasil com meu disco debaixo do braço. Fui fazendo a divulgação assim nas praças, tipo um camelô, um camelô que não estava vendendo, estava distribuindo o produto. Tinha ganhado uns cinqüenta ou cem discos e saí romanticamente fazendo a divulgação pessoal, entregando pras pessoas que eu achava interessantes. Ficava em pensões e com o dinheirinho do “Clube da Esquina 1” custeei essa viagem.

 

Fui pra Bahia, pra Arembepe, fiquei morando em comunidade hippie. E desbundei legal assim. Falei: “Não quero saber de gravadora, de Rio de Janeiro, de disco, de shows. Cansei dessa vida. Agora eu quero aproveitar meu Brasilzão, viajar, conhecer coisas, pessoas, lugares”. E foi um gesto libertário, porque a música estava virando uma obrigação e eu me julgava muito novo para ter que cumprir todas essas obrigações. Achava tudo um pouco precipitado, achava que eu devia demorar uns três anos pra gravar outro álbum depois do “Clube da Esquina. Ia ser legal, ia ter calma pra fazer as coisas. Mas não, foi no próprio ano do “Clube da Esquina” que o pessoal já me ofereceu um contrato. Tinha que entrar em estúdio daí a seis meses, oito meses, uma coisa que não me deu tempo de digerir o álbum “Clube da Esquina” nem o show do “Clube da Esquina”, que a gente fez no teatro Fonte da Saudade. Então comecei a me sentir pressionado. Aí chutei o balde. “Está aqui o ‘Disco do Tênis’, agora vou viver a minha vida e, quando me der vontade, quando eu tiver saco, eu volto pra música. Por enquanto quero viver minha vida sem obrigação de fazer música.”

 

DISCOS

“Via Láctea”

Anos depois, vem o “Via Láctea”. Se eu tivesse gravado o “Disco do Tênis” três anos depois do “Clube da Esquina”, talvez o “Via Láctea” viesse sem grandes interrupções. Seis anos depois do “Disco do Tênis”, o Milton me convidou para gravar o “Via Láctea”. “Queria produzir um disco seu, depois do “Disco do Tênis” você desapareceu, não fez mais nada, largou a música.” Mas aí eu já estava compondo legal, já tinha dado o tempo necessário, então já estava bem mais seguro, tinha repertório suficiente pra fazer um ou dois álbuns. Já tinha me sedimentado como compositor, tinha um baú com canções. Estava mais seguro, já não tinha 18, 19 anos, tinha 24, 25. O “Via Láctea” foi uma coisa bacana, fiquei superentusiasmado com o convite do Milton, falei: “Vou retomar minha carreira”, pois tinha tido um começo muito bonito, mas abrupto.

 

Aí ensaiei aqui em Belo Horizonte com uns amigos que eu tinha conhecido, uns músicos, o Paulinho Carvalho, o Mário Castelo, Fernandinho, uma série de pessoas, e fui pro Rio de Janeiro. O Telo Borges começou a lidar com música nessa mesma época, e ele tocou teclado no disco. Gravei música dele nesse disco, “O vento de maio”. Foi o disco mais tranqüilo que eu gravei porque estava a fim de gravar, estava com saudade de entrar em estúdio. Deu tempo até de ter saudade de entrar no estúdio. O “Via Láctea” foi um disco bem produzido, o Milton produziu magnificamente, e que as pessoas gostam muito até hoje.

 

FORMAÇÃO MUSICAL/ PESSOAS

Preferências musicais/ Flávio Venturini

A moçada dos Mutantes, O Terço, essa rapaziada, eu era fã, comprava os discos, mas não tive nenhum relacionamento pessoal com eles. A não ser com o Terço, porque o Flávio Venturini, na época iniciando a carreira, foi tocar no Terço. E depois teve um outro tecladista do Terço, o Túlio Mourão, que é de Minas também, de Divinópolis. Com eles eu tive mais contato. Adorava Os Mutantes, tinha os discos, aprendi a tocar as canções, mas com eles não tinha nenhum contato pessoal, assim como eles também não tinham com a gente.

 

DISCOS/ PESSOAS

“Os Borges”/ Elis Regina

O disco dos Borges foi uma idéia da Maria do Carmo Leal, esposa do Marcinho na época. Fez essa proposta pra EMI Odeon, porque ela achava incrível todo mundo na minha casa gostar de música, todo mundo saber tocar alguma coisa, compor. E teve essa idéia, que foi muito legal, e a EMI topou. Só que eu já estava com minha carreira em curso, e nessa época estava fazendo uma turnê do álbum “Via Láctea”. Então minha participação foi no intervalo de uma turnê em São Paulo. Não estive tão presente quanto gostaria, um pouco porque já estava bem cuidado, eram vários músicos ali, vários repertórios dos componentes da família, cada um cuidando da sua parte com o maior carinho. E no intervalo de uma turnê e outra, eu fui ao estúdio fazer minha participação. Gravei as minhas canções, dei opinião a respeito das canções das outras pessoas, mas não foi um álbum que eu tenha participado ativamente.

 

Então gravei numa brecha da minha agenda. E foi até o dia que eu conheci a Elis Regina. Ela estava gravando um álbum no estúdio do lado, e veio caminhando na minha direção. Eu entrando no estúdio, chegando de São Paulo, e ela chegou perto e falou: “Você é o Lô Borges?”. “Sou.” Ela disse: “Muito prazer, Cláudia”. Ela era superirônica [Risos]. Cláudia era aquela cantora de São Paulo que as pessoas falavam que imitava ela. E ela falou: “Bicho, estou cantando uma música sua”. Eu assisti à gravação do “Trem azul”. Quer dizer, a gravação do disco dos Borges me proporcionou conhecer Elis Regina e assisti-la gravar o “Trem azul”, que foi um show de bola completo. Nunca vi uma pessoa cantar desse jeito, parecia que ela estava até se exibindo pra mim, porque cada vez ela cantava mais bonito, e o César Mariano, que estava produzindo o disco, ficava assim: “Está bom, não precisa cantar mais nenhuma, já dá essa aqui, está ótima!”. E ela: “Não, vou fazer uma melhor, o autor está aqui na minha frente, vou fazer uma melhor”. Aí cantava outra vez. Cantou umas cinco, seis vezes “O trem azul”, cada vez mais bonito.

 

Nunca vi uma pessoa com tanta capacidade de se superar. Porque eu já tinha certa experiência em botar voz num disco, eu cantando e também vendo o Milton, que é um dos maiores cantores do mundo. Às vezes essas pessoas consideravam a gravação definitiva com muito mais rapidez. Ela dava show de bola, cantava cada vez melhor. Se tivesse que cantar 15 vezes a mesma coisa, a 15a ia ser melhor que a 14a. Fiquei muito chocado de ver a capacidade dela de cantar bem. Agora, o disco dos Borges foi isso, fiz minha participação, fiquei muito feliz com todo mundo gravando, maior festão quando eu cheguei. O disco já estava em curso, as pessoas já tinham gravado bastante coisa, e eu com saudade da minha família, vendo aquele disco sendo feito, e me envolvi mais com o disco. Assisti a várias gravações. Foi um álbum histórico, que eu me orgulho muito de ter participado.

 

TRABALHO/ PESSOAS

Projetos futuros/ Samuel Rosa

A música é uma coisa atemporal, independe do momento histórico em que você fez. Ela tem o poder de aproximar gerações, de aproximar as pessoas. O fato de eu ter um bate-bola superlegal com a geração nova é uma casualidade da música mesmo, é ela que proporciona isso. Tenho maior orgulho de fazer shows com o Samuel Rosa, de ter parcerias com ele, de ter sido gravado por Nenhum de Nós, pela banda Ira!, por pessoas de várias gerações. Tenho o maior orgulho de ter sido gravado pelo Tom Jobim, pela Nana Caymmi, pelas gerações já anteriores à minha. Na verdade, a música serve muito bem pra misturar as gerações. Tenho um projeto com o Samuel Rosa, a gente vai se juntar pra compor várias coisas. Já que as nossas parcerias têm sido legais, a gente se entusiasmou e quer fazer um disco novo.

 

FORMAÇÃO MUSICAL

Clube da Esquina: Museu

Esse projeto do Museu é uma coisa muito legal. O Clube da Esquina foi um movimento que durou tanto tempo, acho importante registrar. O Marcinho sonhou com esse projeto, que foi tão significativo pra música no Brasil: a história do Clube da Esquina. E abrir isso pra muitas pessoas, pras pessoas visitarem, terem acesso a essa história, é realmente pertinente. No que eu puder colaborar, estou à disposição. O Clube da Esquina foi uma coisa muito importante na música brasileira e é uma coisa que dura até hoje, as pessoas têm grande interesse, compram os discos antigos até hoje, lêem o livro do Márcio. Ficou uma coisa bem carismática. Quero saudar o Márcio Borges por essa idéia.

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