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História

É só você acreditar e meter bronca

História de: Antônio Maurício Horta de Melo (Toninho Horta)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2004

Sinopse

Toninho Horta é um músico brasileiro. Mineiro, nasceu no fim dos anos 1940. Na sua trajetória, acompanhou, tocando guitarra, o Clube da Esquina, além de outros músicos como Gal Costa e Elis Regina. No seu depoimento, Toninho fala de suas influências musicais e de diversos momentos que viveu enquanto músico, no Brasil e no mundo. 

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História completa

P/1 – Então Toninho, vou começar a entrevista perguntando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R/1 – Belo Horizonte, graças a Deus, me sinto muito orgulhoso de ter nascido em Minas. Antônio Maurício Horta de Melo. Nascido em 02 de dezembro de 1948.

 

P/1 – E Toninho, quem são seus pais e que atividade que eles desenvolviam?

 

R/1 – Bom, Geralda Magela Horta de Melo(?), minha mãe. Meu pai, Prudente de Melo, já falecido. Minha mãe está com noventa e quatro anos de idade, e minha mãe foi funcionária pública durante muitos anos. Meu pai era mestre de obras, fazia umas construções, ele foi muito idealizador, ele sempre foi um pouco filósofo, assim, tinha umas idéias, umas convicções, umas frases. E eu me lembro que quer dizer, mesmo com a profissão que eles tinham, eles tinham um carinho muito grande pela música. Então, quando eles começaram a namorar, em Pirapora, não sei em que idos, mas nos idos de 1920 ou 1930, tal, minha mãe, filha do maestro João Horta, que deixou Há dois dias atrás, ainda inclusive, leu  para mim um texto que ela fez sobre o pai dela, já nos anos 1950, e Era um maestro de bandas do interior, ele era funcionário da Central do Brasil, mas sempre nos lugares que ele ia, ele montava uma bandinha lá, juntava com o pessoal e fazia Aí eu pude saber um pouco mais da história do meu avô, que foi o primeiro músico, que pelo menos eu tenho notícia, assim que foi da família e tal. E isso passou para minha mãe, minha mãe tocava bandolim, as irmãs da minha mãe, a Clarice, Imai, elas cantavam nos coros e tudo. E eu lembro da minha tia Clarice foi uma santa a tia Clarice, ajudou muita gente. Eu lembro de uma história dela que falava assim: que o avô, pai delas, quando via as pessoas alguém desafinar, um trombonista desafinar na banda, ele ia lá: “Me dá o seu trombone aqui.” Aí pegava a vara, o trombone, tirava a água toda assim e devolvia  para ele tocar. Então, realmente assim, era uma família E meu avô fez muitas missas na edição de Nossa Senhora do Rosário, de São Sebastião, algumas coisas folclóricas assim...é perdão algumas coisas religiosas, na época de Folia de Reis e músicas sacras, muitas polcas, mazurcas, tal. E vendo a minha mãe falar nesse texto, deu para ver a dimensão desse meu avô, que ele ia Uma época que ele passou em Ressaquinha, e na época não tinha papel de música, ele pegava tipo papel de pão para escrever as músicas. Então em várias igrejas, em vários locais do interior de Minas, tem alguma coisa do meu avô. Já saiu um disco dos compositores, mas assim o representativo do barroco mineiro já foi citado. Mas até hoje não se conhece a obra do João Horta. Mas enfim, é uma coisa que eu estou um dos meus projetos pro futuro. E eu acho que eu absorvi muita coisa do João, inclusive essa coisa que meu avô tinha, que Inclusive, nesse texto da minha mãe, ela termina o texto dizendo assim, minha mãe está com noventa e quatro anos, super lúcida, e ela estava quase emocionada quando ela disse  para mim assim, o final do texto falava assim: “Então, me lembro das palavras do maestro Francisco Nunes, que dá o nome ao teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. O maestro Francisco Nunes, quando conheceu o meu pai, falou assim: ‘Só os anjos, eles podem tocar uma música tão bonita e tão grandiosa quanto a sua.’” Quer dizer, o meu o meu avô, que não é conhecido, foi elogiado por uma pessoa que tem hoje um teatro, então foi elogiadíssimo. Então, assim, ele deve ser conhecido um dia. Eu acho que eu peguei muito desse perfeccionismo dele, de trabalhar. Minha mãe falava da formação da última orquestra que ele morreu antes de ele morrer. Uma orquestra já com trinta e oito pessoas, contando os violinos, clarinetes ela falou toda a formação para mim, eu fiquei super orgulhoso disso. Então foi assim, nesse berço que eu nasci. Quer dizer, minha mãe tocando bandolim, tocando violão, meu pai namorando com minha mãe, tocando violão, entendeu? Então isso foi muito produtivo. Quer dizer, quando a minha mãe teve os filhos, minha mãe esperou parece que vinte e três vezes para trabalhar em fazenda, pegava cabrito, não sei quem, para ferrar e tudo. Aí perdia na beira do rio ia perdendo os filhos. Aí vingaram oito e dois, os dois primeiros, acho que um nasceu já morto e outro viveu A Marilene viveu três anos, aí na fazenda não tinha como curar, e tal. Aí, a partir do Paulo Horta, meu irmão mais velho, aí é que vingaram os seis filhos. Então a gente, os seis filhos, a gente nasceu com aquela toda aquela coisa mesmo de música, de ouvir minha mãe. Minha mãe tocava bandolim até nas costas, eu nem me lembro, mas assim ela 

 

   

P/1 – Ah é? 

 

R/1 – Eu me lembro dela tocando violão assim de frente, mas ela falou que tocava até nas costas, tinha uma certa facilidade de tocar. E o meu pai tocava violão, tal, tocava umas coisas do tipo de Hermano Reis(?), tal. Então a gente nasceu, o meu irmão mais velho, Paulinho, que até tem muita coisa para falar sobre ele. O Paulinho, ele foi a pessoa que me colocou na estrada, começou se você quiser parar  para perguntar também, eu já estou até embalando aqui.   

 

P/1 – Não, mas é isso, eu ia pedir para você contar o nome dos seus irmãos e falar um pouquinho sobre eles. Vamos começar do Paulo então.

 

R/1 – Perfeito. É o Paulo, a Letícia, a Gilda, Berenice, Toninho e a Marilena. Então, de nós todos Quer dizer, o Paulo foi o primeiro profissional, e sempre, a vida inteira, já com aquela influência toda materna e paterna de música em casa. Nos anos 1950, ele criou um clube do Jazz com os amigos dele, o Donato, Doutor Vilmar, lá na rua Pouso Alegre. E eles iam tinha uma loja no centro da cidade que eles iam ouvir todo o tipo de música, tudo o que tinha no mercado, e aí eles descobriram o jazz, aqueles discos antigos do Stan Getz, Duke Ellington, Roy Hamilton. Eu lembro, com doze anos, eu imitava o Roy Hamilton cantando, então era muita história. E isso foi uma coisa bem assim pré Clube da Esquina. Então meu irmão, quando eu tinha quinze, dezesseis anos, ele tinha quase trinta, e já era um músico profissional da noite de Belo Horizonte. E ele que realmente puxou todos irmãos. Aí vieram a Gilda Horta, a minha irmã, que era a terceira. Ela cantou um tempo, depois virou produtora. Os primeiros shows de música instrumental no Brasil, com Victor Assis Brasil, Egberto Gismonti, foi ela que produziu. E fez parceria com o pessoal da Jorge Elis(?), que produziram o primeiro show do Tom e Elis no teatro Nacional, que eu até toquei guitarra na orquestra. Trabalhou com Gil e Caetano, Simone, Milton Nascimento nessas produções todas, desde o sucesso do Clube da Esquina também. E depois, ela ficou mais na área de produção, me ajudou muito. Quer dizer, o que eu sou hoje, assim, muito eu devo a Gildinha Horta, querida. E a Berenice, logo depois da Gilda A Letícia, logo abaixo do Paulo, ela sempre cantou, gostava em casa, mas ela nunca fez nada de música. Grande apreciadora, mas não fez nada de música oficialmente. Aí vem a Gilda, depois a Berenice, hoje é diretora do colégio Estadual, que criou a orquestra de violões, que fez homenagem belíssima hoje para a gente, pessoal do Clube. Um dia histórico eu acho, assim na história da música brasileira, que é hoje. A Berenice até comigo tocava violão na época dos anos 1960, a gente ia na TV Itacolomi, e a gente tocava. Tinha uma vez que a gente estava tocando dois violões, e tinha um repertório assim em cima do violão, aí o durex soltou, a gente ficou procurando a música (Risos) São histórias. E ela fez esse projeto da cabeça dela, quando eu vi já estava aprovado, aí eu só incentivei, virei padrinho, dei umas idéias, tal. E a Lena, a caçula, que ela era bailarina, até um dia que eu fui viajar para fora e ela sempre gostava de flauta, de música, eu dei uma flauta  para ela de presente, aí mudou a vida da Lena toda. Hoje ela é flautista formada em Minas Gerais, depois tocou na Orquestra Sinfônica de Campinas. Então, família de músicos. E eu devo muito ao meu irmão, de ter me botado, de ter me mostrado as primeiras coisas aos dez anos de idade. Eu virei profissional aos dezesseis, e logo assim, esses seis anos, antes de conhecer o Milton, antes de ter não, antes de conhecer o Milton não, antes de ter essa data histórica, porque todos, a gente está fazendo uma entrevista para canalizar, no ponto crucial que seria a realização, o lançamento, divulgação, ou seja Já está mais que consolidado o disco Clube da Esquina nº1, que realmente é um marco. Então, quer dizer, antes de ter esse evento Quer dizer, há seis anos antes, eu já conhecia o Milton, e tudo e tem muita história para contar nesse período aí também.       

 

P/1 – Vamos chegar nessa história, mas eu queria voltar no tempo para você contar um pouco Qual era a casa da família Horta, onde vocês moravam? Você se lembra, você consegue descrever?

 

R/1 – Eu nasci na rua Pouso Alegre, eu sou mineiro, Belo Horizonte, Floresta. Hoje tem um prédio lá, mais no final, perto da Lagoinha, onde meu irmão tinha o clube de jazz com os amigos dele e tal. Até lembrando do Manuel, o Audaz, tenho Meu pai tinha um Ford, tipo Ford 29, depois teve os outros Fords, 35, 48, sabe? Mas quando era devia ter uns dois, três anos de idade, meu irmão me pegou e fugiu com o carro do meu pai: “Cadê o Paulinho, cadê o Toninho?” “Ah, foi com o Paulinho...” “Nossa, cadê ele…”, tal. Então me levou, me deu uma volta sei lá aonde com o carro, a família toda preocupada. Então, acho que por causa disso, até hoje eu tenho essa história do negócio do Manuel, o Audaz, de sair, de aventurar, de buscar as coisas, emoções e tudo, acho muito por influência disso. Aí, nascemos, alguns irmãos nasceram na Floresta. E depois a gente mudou pro mudamos, fizemos o circuito ali na rua Guaranésia, a rua Jacuí. Eu me lembro com cinco anos de idade ali na Tinha bonde que passava na rua Jacuí, entendeu? Eu ficava com os meus coleguinhas assim, falando assim: “Quantos carros passar para baixo, eu conto, é ponto para mim. Quando for para cima é ponto para você.” Várias histórias assim, e eu lembro. Também era assim, era o rei de andar descalço e era o rei de dar tropeção com o dedão. Então assim, o meu dedão estava sempre com sangue, um sanguezinho, arrebentado assim. Aí quando já estava secando, aí dava outro trupicão, não tinha jeito. Até um dia que eu vim estudava ali na na como é que chama ali Creche Menino Jesus, perto de onde era o hospital São Francisco, ali no bairro da Graça, que é na rua Jacuí, é logo depois, de hoje, aquela avenida Cristiano Machado. Eu me lembro uma vez que eu voltei da creche, já que é para contar tudo, (risos), aí eu me lembro que eu fiquei apertado, estava nervoso, eu passei mal, não sei o que, mas eu vim pingando bosta assim, (risos), da creche até a rua Jacuí, até em casa. Aí, cada lote que eu passava, chegava lá já fazia mais um pouco. O pessoal estava doido  para chegar: “O Toninho, chega em casa logo, que ninguém vai aguentar.” Então foi uma história inesquecível, assim. Mas a vida da gente, uma família muito simples. Meu pai tinha fazenda enorme em Pirapora, no norte de Minas. Para você ter uma idéia, uma das maiores fazendas hoje, é chamada Fazenda do Triângulo, Triângulo porque tem três partes. Então, Triângulo, se é considerado uma grande fazenda, era para ele uma das três partes da grande fazenda do meu pai. E ele, um tal de um escritor chamado Claude Bernar veio, um francês, rodou Minas Gerais inteiro aí descobriu esse lugar que era o paraíso. Todo dia descobria uma cachoeira, uma novilha nova. Então assim, sempre nas festas, matava aqueles bois, os empregados. A gente a vida inteira, inclusive eu acho que uma coisa que foi muito frutífera para o meu lado pessoal, foi o lado da generosidade do meu pai e da minha mãe de sempre receberem pessoas indistintamente de qualquer classe ou religião e aquelas coisas, e cor, etc e tal. E foi uma coisa que passou. Eu me lembro, quando era menino, lá em casa, os adolescentes, na época nossa, todos adolescentes, todo mundo ia em casa o tempo todo. Era todo dia de tarde, café, comprava dois, três pães de meio quilo, daquele tamanho. A irmã da minha mãe, a tia Clarice, ela fez promessa de ajudar as pessoas depois que o marido dela abandonou ela com três filhos, ela virou santa, praticamente. Ela viveu a vida  para ajudar as pessoas. Minha mãe, hoje com noventa e quatro, ainda fala, fala assim: “Olha, eu estou aqui vivendo para ajudar meus filhos e meus netos para terminarem ainda os projetos deles.” Quer dizer, pessoa que dá a vida pros filhos. Então isso é maravilhoso. Então essa é a energia que me dá para chegar lá com cinquenta e cinco e estar tocando o Clube da Esquina de uma forma meio Rock and Roll, que também foi uma, quer dizer, que uma parte da formação da gente foi o lado de roqueiro, e tal, que a gente não pode negar. Quer dizer, claro, no princípio, eu falava: “Os roqueiros eram o Lô e Beto.” Porque eu era bossa nova, sofisticado, _______ e tal, não sei o que. Mas não, no final a gente, todos nós absorvemos todas essas culturas e tal que a gente pode falar mais na frente. Então, só para arrematar, assim, eu acho que eu vivi uma vida, uma infância muito livre e feliz, com meus irmãos tocando. Quer dizer, fantasiavam, botavam vestidos cumpridos, e dançavam Charleston, Foxtrote, entendeu? E meu irmão sempre com o baixão. O meu irmão foi assim, tipo o arrimo da família. Aquela pessoa que, com o baixo acústico dele, ele conseguiu manter os outros seis irmãos e meu deu a oportunidade de ser o que eu sou hoje. Devo muito ao Paulinho nessa história toda. E meus pais, né? Meu pai e minha mãe que está aí ainda hoje injetando energia na minha pessoa, acreditando. Antes de eu vir fazer entrevista, ela ainda falou umas coisas para mim. Falou umas coisas assim: “Não esquece do projeto do ______ e não esquece dessas pessoas que foram muito importantes  para você.” “Ok mãe.”. ____ a gente podia ter a mãe eternamente, né? Eu acho que vou ter.          

 

P/? – Está muito calor Toninho? 

 

R/1 – Não, estou legal.

 

P/? – Eu posso pegar uma toalha para você, se você quiser tirar um pouco 

 

R/1 – Um guardanapinho, uma água.

 

P/? – Pode ser?

 

P/1 – Uma água também.

 

P/? – Uma água?

 

P/1 – Mas Toninho, isso é uma benção, uma mãe com noventa e quatro anos 

 

R/1 – Obrigado. E super lúcida, cara.

 

P/2 – _____ fazer entrevista, já fico 

 

P/1 – Pois é, ia te falar isso no fim, mas a Claudinha comentou...

 

P/? – Toninho tem escolha, olha...

 

R/1 – Minha mãe é assim, todo mundo conhece, o pessoal.

 

P/2 – Não, porque 

 

P/? – Tem toalha, tem um lenço perfumado...

 

R/1 – Pode ser essa toalha aqui.

 

P/? – Essa toalha? 

 

R/1 – Legal...

 

Conversas no fundo, sem identificação.

 

P/2 – _____ de agregar, de congregar, de estar com as pessoas na casa. Muito interessante isso.  

 

P/1 – E o Paulo mora aqui em Belo Horizonte?

 

R/1 –Não, infelizmente ele faleceu.

 

P/1 – Ah, ele já faleceu. 

 

R/1 – Tem dois anos. Mas foi uma figura assim, você fala em Paulo Horta, assim, pros músicos da nova geração. Obrigado. Todo mundo respeita, sabe quem é, um cara de extremo bom gosto. Na época dos anos 1960, mostrava os LPs assim  para todo mundo. Fez a cabeça do pessoal pré Clube da Esquina, e acho, quer dizer, não vou dizer que mas assim foi importante também. Os músicos daquela época, Nivaldo, Paulinho Braga, Carlos Vilela. O Milton era baixista, né. Já era compositor mas era baixista. O Bituca foi lá em casa, eu tinha quinze anos, ele tinha dezenove, vinte, entendeu? Isso já era seis, sete anos antes do Clube acontecer. 

 

P/1 – _____

 

R/1 – Eu fazia música com Marcinho Borges, e o Lô era menino, de usar calça curta assim, jogando botão, nós fazendo música lá. 

 

P/? – ______ (Risos) 

 

R/1 – ______ lembra disso, via ele jogando botão, assim, mas com a orelha desse tamanho aqui olha...

 

P/? – (Risos) 

 

P/1 – Mas tem que contar de novo, tem que contar de novo...

 

R/1 – (Risos) Graças a deus.

 

P/? – ________ 

 

R/1 – Acho que eu precisava dar uma mijadinha rápida, porque eu tomei muita 

 

P/1 – Vai lá, opa...

 

P/2 – Só tirar o microfone.

 

P/1 – Se libertar do microfone aí.

 

R/1 – É só ir lá e voltar, dois minutos para manter o pique, eu gosto de manter o pique.

 

Pausa na gravação.

 

P/1 – ...entrevistado ideal. (Risos)

 

R/1 – _____

 

P/1 – Não, porque a gente só dá para entender você, se jantar esse caldo de cultura musical da sua casa, essa coisa toda...

 

R/1 – É, legal.

 

P/1 – Ninguém, música ninguém surge do nada

 

R/1 – (Risos)

 

P/1 – Então, eu vou 

 

P/? – Toninho, fica a vontade se quiser tomar uma água, se quiser se secar ___________ 

 

R/1 – Tá.

 

P/1 – A gente dá uma paradinha.

 

R/1 – Beleza, tranquilo. 

 

P/? – Fica bem a vontade mesmo.

 

P/1 – Carol, você dá o sinal.

 

P/2 – Ok, só um segundo.

 

P/1 – Porta super fechada ou não? Olha, tranca bem, porque vaza.

 

Conversas no fundo.

 

P/1 – Ô Toninho, você é criado aí nessa casa aí toda musical. E qual o primeiro instrumento que caiu na sua mão? 

 

R/1 – Foi um violão. Tinha um violão velho lá da Del Vecchio amarelo, tenho até hoje. Recentemente o Virgilio, grande craque lá de luthier, de Sabará, ele deu uma reformada nele e tal. Mas é um violão antigo, que tem muita história. Foi onde eu,. os primeiros acordes que eu dei. Inclusive eu comecei a tocar com os dois dedos, e a primeira música que eu toquei, foi uma música do Ary Barroso, até o ano passado foi comemoração dos cem anos do nascimento dele. E eu lembrava que eu tocava o: “Risque Pon dun don dom…” dos baixos e tudo. E foi a primeira música que eu toquei. E as minhas irmãs já tocavam dedilhando, mais delicadamente, assim. Mas daí a pouquinho, eu já estava passando as meninas. (Risos) Aí falaram: “Olha, o Toninho tem jeito pro negócio, tal.”

 

P/1 – Isso você tinha quantos anos?

 

R/1 – Isso eu tinha dez. Mas assim, minha mãe me lembra de uma história, de duas histórias assim, e eu lembro de outras também, que vale a pena registrar. Quando eu tinha um ano e meio, por exemplo, ainda estava babando ainda, (risos), e puxando a saia da mãe assim, engatinhando, tinha uma música chamada “no na ná”, que era uma música cubana, tipo uma rumba, assim, eu adorava, então já tinha uma coisa. Porque meu pai é descendente de índio, a minha mãe já tem história lá de Portugal, da Dinamarca e tal. Então foi uma junção bem peculiar, assim. A bisavó do meu pai foi pegar laço no sul da Bahia, dos índios Cariris e tal, uma história incrível. Então eu tenho tanto o lado de sofisticação, do jazz e tudo, mas eu tenho o lado do ritmo, do groove, do Jorge Ben, que me influenciou, aquela coisa do samba mineiro. Então tinha o negócio da rumba lá, do “No na ná”. E diz minha mãe, que eram setenta e oito rotações, aqueles discos pesados mesmo. E ela disse que eu pedia para tocar tanto, que ela teve que comprar outro, que já não estava tocando. Imagina, esse negócio é rocha, tipo pedra, então eu imagino que eu devo ter enchido o saco da minha mãe. E aí depois, quando eu tinha uns três anos, a gente sempre ouvia muita música clássica lá em casa, por influência do pai dela e tudo isso, sempre ouviam Mozart, Brahms e Tchaikovsky, Liszt, Strauss. Aí quando tocou o Debussy, o Clair De Lune, diz que eu comecei a chorar com Clair De Lune, eu com três anos. Aí, sempre que, as vezes eu vou contar um retrospectivo, eu sempre me lembro disso, eu comecei a chorar. Aí minha mãe falou assim: “Acho que esse menino aí tem, o negócio de música é com ele” porque eu fiquei emocionado. E na verdade, quando eu tinha oito, nove anos e morava, depois de ter morado na rua Jacuí, na rua Guaranésia, aí fui morar na rua Araxá bem adolescente, soltando papagaio, o rei da finca na época da ______, bolinha de gude, eu era o rei da bolinha de gude também. Todas aquelas brincadeiras e tal. Agora, na escola era um fracasso total. Que eu estudei assim, estava repetindo a quinta série já na outra escola, passei para o colégio Arnaldo, foi primeiro, eu implorei para pedir para não me tirarem de lá, não sei o quê. Mas eu ia ganhar o terceiro cartão azul, como se diz. Se ganhasse o terceiro cartão azul, era expulso do colégio. Eu ganhei dois, aí o padre José abriu, chegou lá e falou: “Olha, seu filho não vai poder mais estudar.” Foi a maior tristeza da minha vida porque eu adorava aquele colégio. Eu adorava, porque eu ficava jogando bola o dia inteiro, levava violão, fazia letra de música, mas estudar mesmo eu não queria. E era esperto, às vezes tinha aquele negócio de memorizar, botava-se um santinho, uma correntinha, uma medalhinha e tudo. “Olha aqui, tal.” Eu lembro disso até hoje, assim. ____ tal, rapidinho. “Quantas peças têm aqui? O que é que você viu?” E eu era bem esperto nas coisas. Sempre fui bom na redação de português, apesar de nunca ter gostado de ficar lendo muitas coisas. Mas são as coisas dos dons naturais que Deus deu para a gente. Mas aí, depois passei pro colégio estadual, colégio Anchieta, hoje a Cetec, a escola técnica e tal. Sei que eu rodei outros lá. Uma boate que tinha lá na Contorno, não sei, perto do antigo cinema Floresta, onde eu trocava figurinha, trocava revistinha. Eu era rei a vida inteira, até com quase trinta anos de idade, morando no Rio de Janeiro, eu tinha bala, revistinha e quase não bebia. Eu lembro que o Marcinho falou comigo, eu com vinte e sete anos de idade, não vou esquecer, o Marcinho falava: “Você é uma pessoa mais pura que eu conheço.” Eu falei: “Não Marcinho, eu sou eu...” Eu lembro disso, que talvez ele não lembre disso, ele tem uma empatia muito grande, muito legal. Mas assim, é que eu sempre fui muito natural, e as coisas sempre foram muito pro lado da emoção, da verdade. Tanto que a minha música reflete um pouco isso, essa liberdade que eu tenho de ritmo, de estilos. Quer dizer, eu posso fazer tanto bossa nova, quanto a coisa mais puxada pro pop rock ou, hoje, pro hip-hop ou um pouco o lado do jazz. Agora eu fiz um disco de forró, que tem a Elba Ramalho, minha amiga, Dominguinhos, meu queridíssimo amigo, toquei com ______ no pandeiro, várias coisas. Então, quer dizer, todas influências, porque foi tudo o que eu ouvia. Eu toquei baile com o meu irmão, e nos bailes que eu tocava com ele, a gente tocava rumba, maxixe, tocava samba, entendeu? Toquei muito em casamento, tocava em serenata. Eu não tinha nem namorada, mas tocava pras namoradas dos meus amigos. Tudo bem, eu ficava lá chupando o dedo, mas a minha namorada era a minha viola. Eu era apaixonado pela minha viola, mas do que qualquer menina na vida, né? Tive vários amores platônicos. Também a vida foi muito assim, _____, sem pressa, quer dizer, a gente é o que é na verdade. Mas acho que eu estou passando, extrapolando um pouco.

 

P/1 – Não, está ótimo, é assim mesmo. A gente te puxa por algumas coisas...

 

R/1 – Está bom. (Risos)

 

P/1 – Hoje a gente presenciou aí esse evento histórico lá no colégio estadual. 

 

R/1 – Hoje foi mesmo.

 

P/1 – Você poderia contar um pouquinho como foi a sua passagem lá no Estadual Central?

 

R/1 – O estadual foi, na adolescência, é claro, e na verdade eu conhecia todo mundo da época do Luiz Marcio, Nelson Ângelo, várias pessoas que estudaram no estadual na minha época de adolescente, de ir pro barzinho, de começar a namorar, aquelas coisas. Fazer serenata, essa época dos dezesseis aos dezoito, dezenove anos de idade. Foi uma época muito boa, tinha o bar Veia Poética, ali do lado, onde tinham os poetas, os malucos daquela época. Era muito bom a gente conviver com essa turma toda. Mas eu vim a estudar no colégio estadual, na Sagrada Família. Eram três estaduais. Tinha um na serra, tinha um central, que era o principal, que era a matriz, e tinha outra filial, e que existe até hoje, acho que é a única filial que existe na Sagrada família. Então foi lá que eu estudei, passei um ano no Sagradinha. Mas convivia, vivia lá no estadual vendo as Naquela época tinha muita coisa, muito evento cultural, show que tinha. Hoje a gente tem que batalhar muito isso, de voltar à coisa de botar cultura, fazer lançamento de disco, fazer lançamento de livro, tudo nas escolas, para fazer a cabeça do pessoal antes. Uma vez eu fui tocar numa universidade, alguns anos atrás, lá no campus da UFMG. “Hoje eu vou tocar uma música do clássico da música brasileira, Dorival Caymmi, Saudades da Bahia.” E ninguém cantou comigo, ninguém conhecia o Dorival Caymmi, então já na universidade. Então acho que a gente tem que voltar e pegar os meninos mais jovens e tentar fazer a cabeça deles. Então, eu sempre gostei do colégio estadual, que pelo menos naquela época tinha essa efervescência cultural, tinha uma coisa política. Política eu nunca dei bola, eu nunca gostei, entendeu? Até naquela época, de 1968 que teve aquela passeata de um milhão de pessoas, “E aí Toninho, vai na passeata?” “Não, vou dormir.” Estava no Rio de Janeiro, fiquei dormindo lá no Meu apelido é Soninho Horta, que quando a coisa não me interessa, eu durmo. Aí eu durmo, mas o pezinho fica assim, balançando. Aí, quando tem uma coisa que me interessa, “Opa...” Aí parece que não me aconteceu nada, que eu estou ligado o tempo todo, entendeu? Mas ou menos assim que eu funciono e tal Então foi muito bom, o Estadual sempre foi um colégio muito aberto, de um pessoal muito liberal, eu sempre gostei demais do colégio Estadual. E hoje, eu vendo a minha irmã, que foi professora há mais de vinte anos, e há mais de cinco já é vice-diretora do colégio, ela, por cabeça dela, depois daqueles programinhas da TV Itacolomi, que a gente tocava junto, era violão, tal Ela fez uma orquestra de violões, quer dizer, queria colocar alguma coisa cultural na mão dos meninos, dando a possibilidade de eles saírem das idéias erradas. Que hoje é muito fácil o jovem ir para outros caminhos. Então, assim, mesmo gente com boa intenção, às vezes não tem a facilidade, às vezes não tem a condição financeira do pai comprar um violão, comprar um instrumento. Então ela conseguiu, entrou no projeto do Instituto Jovelino Rabelo, conseguiu um patrocínio, e durante dois anos, o ano passado e esse ano, eles estão bancando essa orquestra. Compraram trinta e tantos violões, e foi hoje a abertura desse evento maravilhoso, em homenagem ao Clube da Esquina, os meninos oferecendo para a gente. Quer dizer, já conhecendo um pouquinho da história, querendo conhecer mais, já que a gente estava tocando na casa deles, falamos: “Olha, nós vamos primeiro tocar...”, aí eu fiz até um arranjo de O Clube da Esquina, meio de última hora, do Clube de Esquina não, do ‘Trem Azul’, do Lô e o Marcio, e depois no Lô e Ronaldo. E foi o que foi, foi uma coisa maravilhosa. Quer dizer, acho que hoje, mais que nunca, por causa da situação a vida está cada vez mais difícil, tem muito mais gente no mundo, tem muito menos água no mundo, tem muito menos grana, tem muito mais violência e tal. Então, cada vez mais, quer dizer, é preciso que se existam essas alternativas e possibilidades do jovem crescer com uma coisa positiva, cultura e tudo. Então, dei a maior força  para minha irmã, para esse projeto. Então por isso e por outras coisas, o colégio estadual sempre foi assim. E nesses anos, neste ano agora de cento e cinquenta anos de comemoração dele, quero parabenizar o colégio, está até hoje, porque é um projeto do Niemeyer, o mata-borrão, a gente tocou hoje no mata-borrão do Niemeyer. Quer dizer, é muito chique, não é não? (Risos) Tocar no projeto do Niemeyer pros meninos, é muito, muito legal. Eu estou muito feliz. Quer dizer, hoje foi um dia muito especial, está sendo, né? Entrevistando, vou ter que gastar o verbo aqui, mas a gente chega lá.     

 

P/1 – Vai, vai ter que gastar.

 

R/1 – Vai ter que gastar.

 

P/1 – Então, Toninho, você começa no violão, e aí quem te descobre na família, é o Paulo, que aposta em você?

 

R/1 – É, com certeza. É, o Paulo. Aí eu já vinha tocando quando eu lembro, um pouquinho antes, quando eu tinha oito anos de idade, teve uma festa, eu morava na rua Araxá, num sobradinho do lado da casa que eu morei anos, que foi no 566, que é em frente a praça do Alto do Colégio Batista, eu lembro que na época eles falavam que tinha até duende na praça, eu acreditava que tinha duende na praça, eu falei: “Pô, duende!” Então eu vivia na _____ soltando papagaio. Acho que quando a pipa subia, eu ia junto, porque eu sempre gostei dessa coisa. Então, eu consegui na música naturalmente isso, entendeu? Assim, graças a Deus está essa liberdade melódica, harmônica, entendeu? Então foi, foi muito assim E com oito anos de idade, teve uma festa lá em casa, foi uma das festas que eu mais ganhei presente na minha vida. E meu irmão trouxe todos amigos deles músicos, Dino saxofonista, Plínio, pessoal da Laércio Flávio, que foi uma grande pessoa na minha vida, grande contribuidor, incentivador, é maestro, vibrafonista, flautista, pianista, compositor. E vinha tocar depois com o Laércio com a banda Bacana, junto com o Paulinho. Mas esse dia eu lembro que tinha tanta gente lá em casa, eu ganhei tanto presente. E aí o Dino, aí eles tocaram, sempre nas festas lá em casa eles tocavam, a banda tocava. Aí o Dino esqueceu o sax dele, e guardou o sax lá em casa, no armário. Ah, eu fui querer montar o sax no dia seguinte. Aí eu fui montar aquele cachimbo do sax, mas eu não sabia de jeito nenhum. Mas aí eu estraguei o sax dele todo, aí o meu irmão ficou chateado. Mas aquela vontade de ser músico, vontade. Então já estava naquela época, querendo entrar na onda, né? Com dez anos comecei a tocar o violão. Aí aos treze eu fiz a primeira canção, ‘Barquinho Vem’, já inspirado um pouco, ou totalmente naquela música do: 

“Num cantinho um violão

 Esse amor, uma canção

 para fazer feliz a quem se ama.” Aquela em lá menor, com sexta e vai descendo a bemol diminuto. Naquelas épocas eu não sabia nada de nomes não, só sabia de música. E eu fiz a música:

“Vem meu barquinho

 Vem me buscar” Até a nota era parecida, 

“Quero ir com você pro imenso mar”. Quer dizer, um mineiro com treze anos falando em mar, não tinha nada a ver. Mas era, na verdade a gente já estava pensando em sair das montanhas, pensando além das montanhas, nessa época. A letra foi feita pela minha irmã Gilda, e logo depois, aos catorze anos, eu fiz a música ‘Flor que cheira saudade’, e eu tenho vários primos que são grandes músicos também, a Gina Horta, que é uma compositora bissexta, tem várias outras atividades, mas de vez em quando ela faz um disco, muito competente, escreve bem letra, e tudo. E o irmão dela é um craque, um pianista fabuloso, Ali Flamarion, tocou na noite de São Paulo, muitos e muitos anos, é um cara virtuoso, só que do clássico, o popular, com maior categoria. O cara é uma pessoa que deveria ter sido descoberto. Quer dizer, na verdade, eu também estou aqui um pouco, com essa energia toda, tentando fazer vingar o valor dos músicos. Eu acho que a minha batalha nesse mundo eu acho que é valorizar o músico. Que o meu irmão foi um operário da música a vida inteira, tocou quarenta anos na noite, bebeu e se destruiu bebendo. Bebida e cigarro a vida inteira, então chegou uma hora que ele não se aguentou e _____. Então vários músicos, eu vim acompanhando o processo de várias gerações de músicos, e vi que vários músicos, uns piraram, outros se drogaram, os outros viraram, no bom sentido, produtores de jingles, ou diretores de gravadoras, ou sei lá o que. E poucos mantiveram aquela coragem audaciosa de quererem ser compositores e músicos a vida inteira, né? Porque, até tantos anos atrás, era marginalizado músico, tal. Então, eu tenho vários projetos em andamento, mais  para valorização do músico. Assim, eu devo muito, quando eu falo assim do Paulinho, do Laércio, do Dinho, dessas pessoas todas, eu falo com muito gás assim, com muita alegria porque eu acho que o músico é um batalhador. E são as pessoas que fazem a alegria, a cabeça das pessoas, eu acho assim, né? Tem muita gente, a imensidão de pessoas que eu conheci que chegavam para mim: “Toninho, pô, ‘Beijo Partido’, aquela música que você fez.”, que a Nana Caymmi: “Pô, legal sua letra, sua música, tal.” Mas assim, foi história para muita gente. ‘Dor de cotovelo’, e tal, as pessoas tem a referência. Tem a referência do ‘Girassol do seu cabelo’, do ‘Trem azul’, do Clube da Esquina 1, Clube da Esquina, várias do ‘Nascente’, entendeu? Então assim, tudo é referente. Então a música assim é uma coisa inebriante, uma coisa divina, é uma das coisas que salva, que pode salvar o mundo, é a música, entendeu? Por isso eu respeito demais, e não existiriam os grandes cantores, Maria Bethânia, Gal Costa, Ângela Maria, Elza Soares, se não existissem os músicos batalhadores lá, e que foram sempre os injustiçados. Quer dizer, também não é, não estou falando uma coisa assim, acho que é muito legal ser músico também, entendeu? Aguentar o pessoal fumando na sua cara, conversando, se tocando. Mas harmonias geniais. Pô, sentindo para caramba. Mas o pessoal não está nem aí, falando para namorada: “Pô, o cara deu porrada na cara do outro.”, entendeu? Então são as coisas mais diversas, mas acho que tudo faz parte. Então, de vez em quando eu estou tocando em um lugar que não tem nada a ver, e tudo, mais pelo prazer de tocar, oportunidade de tocar. Mas as pessoas às vezes não sabem da importância dele, mas acaba ficando. De repente, tem um cara no final do show que fala assim: “Pô, gostei daquela música.” Ou: “Aquela frase me pegou.” “Pô, aquele acorde da guitarra.” Pô, não existe nada mais maravilhoso que isso. Então eu já estou realizado, em parte. (Risos) Tem muitos projetos ainda  para fazer, mas assim, eu acho que eu sou um privilegiado. Acho que o que eu já ganhei, e recíproca e tudo. E tento também colocar, minha energia em prol de muita coisa que o próprio Museu do Clube da Esquina, assim, voltando a falar do Marcinho, que é um super corajoso, um audaz, mais que um Manuel, audaz, né? Eu acho que só ele poderia fazer isso. Eu luto em função de alguma coisa que pode eternizar, né? E a gente que fez sucesso numa época que não tinha a palavra mídia, não tinha.         

 

P/1 – É, não tinha a palavra mídia.

 

R/1 – É, uma coisa mais natural. Não tinha não. Então, quanto mais verdadeiro Eu fui agora em um seminário em Itaberá, tinha uns meninos lá falando do Drummond. Montaram um grupo lá, não tem nem produtor, e tudo, uma meia dúzia de adolescentes, rapazes e moças falando da poesia de Drummond, mas foi tão verdadeiro, tal, que eu vou fazer uma trilha de graça para eles, tal, acompanhando os poemas de Drummond  para eles representarem. Porque vale a pena a gente investir na coisa verdadeira. E é uma coisa dúbia, o que que é a verdade? Então tem muita gente que considera a verdade muitas coisas. Você nem sabem qual a verdade que eu estou querendo falar, mas tudo bem, aí já é divagação de mais. (risos)

 

P/1 – Toninho, então, você estava falando aí do músico. Então você disse que foi tocar na noite com o seu irmão? Quando que isso aconteceu?

 

R/1 – Isso aconteceu depois da primeira experiência profissional, com dezesseis anos, eu estreei no Minascentro, em Belo Horizonte, era a antiga secretaria de saúde a assistência. No auditório para mim e poucas pessoas, teve o Primeiro Festival, não sei se chamava Instrumental, primeiro se chamava Sindicato dos Músicos de Belo Horizonte, que meu irmão trabalhava no sindicato, ajudava na ordem, tal. Ele ajudou a organizar. E eu lembro que eu acompanhei a cantora Malu Balona, que hoje não mexe mais com música, é irmã do compositor, do tecladista, uma figura representativa da noite de Belo Horizonte, Célio Balona, a Ana Balona também, que era compositora. Então, eu acompanhei a Malu nessa história lá. A música ‘Morria de amor’ e uma música minha ‘Você que não vem’. Então, foi a primeira vez que eu tinha participado. Voltando um pouquinho, há dois anos antes, com catorze anos, eu fiz a música ‘Flor que cheira saudade’, e a banda do Laércio Flávio na época, um conjunto chamado Conjunto Laércio Flávio, com meu irmão no baixo, o Plínio no trompete, o Washington no piano, Dino do sax, Márcio José cantando, devo ter esquecido, Valtinho na bateria, eles gravaram então ‘Flor que cheira saudade’. Então a segunda música que eu tinha feito na minha vida, uma bossa, um samba-canção, e sendo registrado por um conjunto já famoso, conhecido e gravado no Rio de Janeiro, então para mim foi assim, a glória. E isso foi um grande incentivo para mim. Então daí há dois anos, eu já estava me tornando profissional e quando eu fui para a noite mesmo, já tinha dezenove anos, quando o meu irmão falou assim: “Olha, agora você já está bem grandinho. Nós vamos lá no shopping, comprar uma guitarra para você. Você vai começar a fazer baile com a gente. Vai começar a ganhar grana. Não pode ficar a vida inteira eu te paparicando aqui não, agora você vai começar a trabalhar.” Aí a gente comprou uma guitarra Snake, que logo, assim um ano, dois anos depois, eu gravei, eu fiz aquela participação no Festival Estudantil da Canção em Belo Horizonte, que teve o Tavinho Moura com ‘Como vai minha aldeia’, teve o Lô e o Beto tocando ‘Equatorial’. E foi mais ou menos naquela época, do edifício, tinha o edifício Levy, que a família Borges morava, e eu morava no mesmo prédio que o Beto morava, ali na rua Tupis, assim a trinta, quarenta metros, trinta e oito metros e meio de uma portaria para outra, e eu morava no segundo andar e o Beto no nono, e tal. E o Beto sempre encontrava com o Lô Borges, e tudo assim, aí eu falava: “Ih, aqueles roqueiros e tal.” Aí, ele olhava  para mim com violão e falava: “Ih, aquele cara do jazz, da bossa nova, não está com nada, tal.” Mas acabou que no festival nós nos encontramos, em 1969. E foi legal demais, porque todo mundo virou amigo a partir daquela época. E eu tenho uma foto muito representativa desse festival, tocando a música ‘Iara Bela’, com a Joyce cantando, uma cantora carioca que sempre teve empatia com os músicos mineiros. E foi aliás, a primeira cantora, fora de Belo Horizonte, a gravar uma música minha. Em 1968 ela gravou ‘Litoral’, foi a primeira música que eu fiz no Rio com o Ronaldo Bastos, e ela gravou essa canção. Então, em 1969 ela já veio cantar essa música, e era o Naná Vasconcelos de percussão. E o Naná veio do nordeste, percussionista fabuloso, um cara sempre criativo. E na época até do Clube da Esquina, ele chamou a gente para mostrar o Jimi Hendrix também, então tem muitas histórias dessa época aí valiosa. E essa foto, tem uma foto com essa guitarra Snake, que é, acho que é a única coisa que eu tenho física, que eu posso doar pro Museu Clube da Esquina, que é essa guitarra inicial, a primeira guitarra que eu tive. Que era, na época chamava Sunburst, ela era preta, depois ia para marrom, para vermelho e para amarelo, eram quatro cores, assim, toda, chama Sunburst. E depois, o Beto Guedes, com aquelas idéias todas de ter uma guitarra natural, “Toninho, vamos raspar essa guitarra ai?”       

 

P/1 – Raspar?

 

R/1 – Aí raspamos a guitarra toda. “Aí, vamos cromar, esse que está cromado, vamos fazer dourado.” O Beto sempre teve aquelas histórias. Aí fomos  para São Paulo. “Não, vamos botar um captador Gibson, tem que virar uma guitarra...” Envenenando a guitarra. E hoje ela está aí, toda mexida, mas vai ser a coisa mais representativa que eu posso doar. Porque foi a guitarra que eu fiz o solo do ‘Trem azul’, que ficou famoso, o solo. E depois, até o Tom Jobim, eu comentei hoje no show, na palestra show que teve hoje no colégio estadual, que o Tom Jobim é um grande fã do Lô Borges, que eu também considero um dos maiores compositores do Brasil e do mundo. Um cara altamente inventivo, com uma liberdade também de criação absurda mesmo. Impressionante de boa, de concepção musical maravilhosa. E aí ele fez esse solo do Clube da Esquina, o Tom Jobim extraiu todo o meu solo e passou pras cantoras dele, e aí elas cantaram: “Taram ram ” Com vocal e tudo. Então para mim foi a maior glória, que _____, foi a glória do Tom gravar o ‘Trem azul’. Que o Tom quase não gravava música de ninguém, então porque ele era fã mesmo. E ele gravou meu solo também, aí realmente eu tenho que tirar o chapéu.  

 

P/1 – Depois nós vamos falar sobre o Tom, você tem até o disco...

 

R/1 – Isso.

 

P/1 – Mas vamos seguir a cronologia. 

 

R/1 – Ok.

 

P/1 – Então Você poderia falar mais da sua Snake aí? Como é que é essa coisa, depois de violão você ter uma guitarra só sua?

 

R/1 – Aí foi legal. O primeiro baile que eu fiz no grupo Darcy Flávio, no Conjunto Darcy Flávio eu toquei como que se eu tivesse tocando violão, ou seja, olha que impressionante agora: achei até que tinha um violão aqui do meu lado, já ia fazer assim, olha. (Risos). Eu juro que eu vi um braço de violão aqui, mas acho que foi só, aí eu vi, e não era. Mas foi só visão, não tem problema não, que a música está o tempo todo comigo. E aí, eu fui acompanhando as músicas do baile, nas formaturas, tal, tocando sempre nas cordas do meio, como se tocasse violão. Aí o Laércio falou comigo: “Não Toninho, o negócio é o seguinte: nas guitarras você deve explorar as cordas dos agudos, entendeu? Você pode colocar nas quatro cordas mais agudinhas, você pode colocar umas inversões, uns acordes, tudo. De repente você pode fazer uma “Tim dim dim”, pode ____. Ou tem as oitavas ______ que eu ouvia quando tinha dez anos de idade, aí lembrava do ______ Aí você pode explorar, porque a guitarra te dá muita possibilidade.” E foi aí que eu comecei a andar na praia. E aí, logo, logo eu já estava assim e sempre ouvindo muito Tal Falor, tem outro guitarrista que na época, nessa época eu ouvia muito, o Barney Kessel, que fez um disco histórico com a Sylvia Telles, um disco de bossa nova, só ele acompanhando a Sylvia. Quer dizer, o cara, uma harmonia fantástica e tudo. Então a gente bebeu muito dessa fonte, desses guitarristas da música americana. Aí, quando veio a bossa nova, negócio do balanço, também sofisticado, a gente pode juntar isso. É a escola do Juarez Moreira, do Flávio Henrique, do Célio Santos, do Chiquinho Amaral, do Robertinho Brant, das pessoas que foram todas hoje lá nesse concerto. Então foi muito legal tocar, essa experiência de baile é muito bom. Acho que dá para você nadar em toda praia. Naquela época o pessoal ainda falava assim, olha: “Dois.” Dois era o que? Dó, Ré. Ré maior. Aí, acho que tinha um negócio, não sei se era _______, sei lá, tinham uns códigos doidos assim. E foi aí que eu comecei a aprender cifra. Com dezesseis anos, eu cheguei a fazer seis meses de teoria em Solfejo, numa escola, Universidade Mineira de Arte, hoje chamada FUMA. Mas eu não queria estudar aquelas coisas assim de teórico, eu queria fazer música, tocar, tal. Mas eu lembro que até o negócio de cifragem para mim era muito complicado, né? Entender e tudo, eu não queria mesmo. Mas com o tempo, com a prática do baile, aí eu aprendi bastante com o Laércio. Aí, quando as primeiras pessoas começaram a gravar as músicas minhas no Rio, depois do Festival de 1969, aí veio o primeiro show do Milton, em 1970, no Rio de Janeiro, que o Milton já tinha Ah, quer dizer, antes de 1969 teve 1967, que foi o festival onde o Milton ganhou segundo lugar com ‘Travessia’, né? 

 

P/1 – Não, espera aí. Quando você conhece o Milton?

 

R/1 – Bom, aí eu tinha quinze para dezesseis anos, e mais uma vez, o meu irmão e as minhas irmãs promoveram um baile lá em casa, chamava “Hora dançante.” Então era tipo um encontro para dançar, namoradinhos e namoradinhas, aquela coisa de paquera e tudo, salgadinhos, refrigerante, acho que na época tinha Cuba Libre, sei lá que bebida que tinha. E depois, o meu irmão vinha com a banda dele, tocava, tal. Então, nesse dia, a banda tocou o tempo todo, aí chamou o Marilton Borges, o grupo, o conjunto do Marilton daquela época, eu não sei se era o Gemene Sete, foi todo o grupo para lá. E a banda do Porque o Bituca falou assim perdão, o Paulinho, meu irmão, falou assim: “Olha, eu vou trazer uma banda aí, o Gemene Sete vai tocar aqui.” E estava escrito Braga, que é o meu guru na guitarra, um grande violonista e guitarrista. “ E vai vir o pessoal da minha banda e vai vim o grupo do Marilton. E vem aí um rapaz, um crioulo, no bom sentido. Um crioulo aí do interior aí, mas o cara é uma fera.” Olho o meu irmão, com a idade dele e eu com a minha idade, falando comigo, eu lembro como se fosse hoje. Assim, o cara é uma fera. Quer dizer, o meu irmão tinha o maior bom gosto, sabia que ele ouvia? Henry Mancini, aquela orquestração toda, o cara, o meu irmão sempre teve uma concepção muito avançada. E ele falou assim: “Olha, vou trazer esse cara aí, é demais. Toca contrabaixo, e canta na banda do Marilton. Aí, tal, teve a hora da dança, todo mundo dançou, a banda tocou, ba, ba, ba. Aí acabou a festa, ficaram só os músicos. Aí, eu me lembro, nós fomos para a copa, lá da rua Araxá 566, e eu era um menino de calça curta lá, tal. A gente naquela época, não usava o short não, era calça curta, era calça cortada.  

 

P/2 – Qual a diferença de idade entre você e o Paulo? 

 

R/1 – De idade? O Paulo, são catorze anos. Eu estou com cinquenta e cinco, mais quinze, conta setenta, né? É, ele iria fazer setenta e um agora, nesse ano eu vou fazer cinquenta e seis, diferença de quinze anos. Aí o Paulinho falou: “Olha só, agora vamos tocar, vamos apresentar.” Aí, o orgulho do meu irmão, sempre foi me apresentar (Risos) Que legal, do caralho isso Do caralho desculpa. (Risos)

 

P/1 – Não, não tem censura. 

 

R/1 – E aí, legal. E aí ele falou assim: “Olha, toca aí umas músicas aí pro Milton aí…” Não, não era Milton, era Bituca” “...toca uma música pro Bituca aí.” ______ “Olha, gente, aqui é o Toninho, meu irmão, tal, tal, tal, está fazendo umas musiquinhas, tal...” Aí toquei o ‘Barquinho veio’, ‘Flor que cheira saudade’, ‘O ciúme da areia’, eram as três primeiras músicas que eu tinha feito, tal. E aí, depois o Bituca pegou o violão. Aí ele mostrou ‘Barulho de trem’, aí deve ter mostrado ‘Crença’, que é uma das músicas mais antigas, com o Márcio também, eu não me lembro exatamente _______ desde que ele tocou. E aí criou uma primeira empatia, assim. O Milton virou meio fã da família também e foi uma noite assim inesquecível para mim. E aí o Bituca sempre ia lá para a casa também, antes de ter o lance dos Borges, que os Borges adotaram. Que na verdade, eu acho que já tinham até adotado, que ele estava tocando com o Marilton, da família Borges, mas assim, ele já ia muito, frequentava lá em casa, tal Em 1966, talvez uns dois ou três anos depois desse encontro, um ano antes dele ser classificado pro festival internacional da canção, no Rio de Janeiro, com três músicas, e eu com duas, ele vivia lá em casa, assim as vezes de fim de semana ou, sei lá, qualquer dia de semana, e um dia nós fizemos uma música que chama ‘Segue em paz’. E parece que ele não assumiu muito. “Né bituca, vamos assumir um pouco essa canção, nem que for para história.” E aí o Bituca, ele fez essa música, chama ‘Segue em paz’. Melodia minha, com letra dele.

“Segue em paz

 Que eu já vou pela vida

 Já se vai esse tempo em que o bem 

 Longe está demais...”

Então, é um samba-canção bem bonito, assim. E de vez em quando eu entro numa e eu toco na televisão, tudo, eu estou divulgando a música demais, até o dia que ele não vai ter jeito mesmo e ele vai ter que autorizar alguém a gravar. 

 

P/2 – (Risos) 

 

R/1 – Mas é Então foi muito legal uma experiência assim, mas como também a parceria não foi muito para frente, que ele era compositor mesmo. Ele gostava de fazer melodias e tudo. Aí, em 1967 foi classificado pro festival. E a gente pegou o mesmo avião, naquela época do sapato de bico-fino, a calça pega-franga, até as expressões...

 

P/1 – Pega-franga?

 

R/1 – Calça pega-franga e sapato bico-fino. Tem uma foto, até que eu, poxa. eu vou rezar para um dia essa foto aparecer. A gente no aeroporto, junto com o Carlos Hamilton, o cantor, e outro cantor, Mário José, que foi cantar a minha música, com um avião assim atrás, a gente chegando no Rio de Janeiro. O Bituca, bem magrinho e eu um pirralho de gente também. E acho que um pouco dessa história é falada um pouco no ‘Sonhos não envelhecem’, pelo menos a preparação de mandar as fotos, a classificação, o Pacífico, que levou a gente ______, grande personalidade. Nunca foi um compositor assumido, porque ele tinha outras atividades profissionais, mais é um cara que estava sempre lá fazendo a sua música, com o coração todo para Belo Horizonte, uma pessoa muito importante. E ele que levou a gente para gravar música para a TV Globo, e foi classificado então nesse festival. E aí acho que começou a história mesmo, a se vingar profissionalmente, foi realmente quando a gente foi pro Rio. Quer dizer, eu acho que o Milton já tinha uma história, em 1966, se não me engano, era época do festival da Record, ele morou um ano ou dois em São Paulo, quando a Elis Regina cantou a ‘Canção do sal’. Acho que foi um pouquinho antes de 1967, talvez um ano antes. Mas eu acho que São Paulo não foi um bom astral pro Milton, pelo que eu me lembro, assim, não foi um lugar que ele gostou muito, apesar de ter conhecido a Elis, a Elis ter gravado a música. Mas eu acho que em 1967, no Rio de Janeiro que as coisas aconteceram. E eu o acompanhei em todos os lugares que a gente era chamado para tocar. Todo mundo queria saber quem eram os compositores mineiros que tinham mais de uma música no festival. Todos os compositores brasileiros tinham uma música. Um letrista brasileiro, tinham duas letras, era quem? Vinicius de Moraes.    

 

P/1 – Ahm...

 

R/1 – Vinícius de Moraes. E só dois músicos tinham mais que duas músicas, era eu, Toninho Horta, com “Maria madrugada”, parceria com a Júlia Horta, minha prima, e o ‘Nem é carnaval’, uma parceria com o Marcinho, foi interpretada pelo Márcio José? Pelo Márcio José, em 1967. E o Milton, com ‘Travessia’, parceria com o Fernando, ‘Maria, minha fé’ e uma outra, qual que era a terceira? Bom, qual que era a terceira música? 

 

P/1 – Você estava com dezoito anos?

 

R/1 – Eu estava. Dezoito para dezenove anos. Eu me lembro assim, olha, a gente era chamado para a casa Maria Amélia Marcondes Ferraz, no alto da lagoa, jardim Botânico. Mas era assim, era todo mundo tocando, os festivais, tudo Paulinho Tapajós, Arthur Verocai, Dori Caymmi, Marcos Valle, ______, todo mundo tocava o seu violão, piano, a gente rodava as noites do Society lá. Aí, no final, todo mundo queria saber quem era Milton, Toninho Horta. Eu tocava timidamente atrás do violão, aquela vozinha assim, tal Aí, o último era o Milton, que todo mundo queria saber quem era o Milton Nascimento, quem classificou três músicas no festival. Aí começava cantando Você só via gente indo pros lados chorando, impressionante. Emoção assim absurda, ninguém acreditava no que era. A voz de Deus, o Bituca O dom supremo musical era o Bituca. Quer dizer, o dom da voz e de como passar essa emoção. Quer dizer, um compositor assim que Deus deu tudo para ele, as compreensões Até uma música antiga do Edu Lobo que eu gostava de cantar, que eu gosto ainda, ‘As mesmas histórias’. Pô, e eu, considerado o rei da harmonia, até o Tom Jobim falou: “Rei da harmonia.” Falava do Hermeto Pascoal, que era considerado um dos maiores músicos do mundo, falava: “Quem é o músico que você quer tocar?” Ele fala: “O Toninho Horta, tal...” Mas aí, no mundo inteiro, Toninho Horta Mas aí, teve essa música  “As mesmas histórias”, teve uma hora que eu estava tocando, naquela época, né? Hoje talvez não fizesse esse erro, mas Eu nunca contei essa história. Aí eu falei: “Oh Bituca, eu estou com uma dúvida aqui assim, eu estou tocando aqui, mas eu sei...”, eu já sabia que eu não estava no caminho certo numa hora da música. Ele falou: “Não, é isso aqui.” Ele pegou e tocou. Então o pessoal pergunta hoje: “O Bituca toca violão assim?” Quer dizer, ele não é aquele exímio instrumentista, ele conhece tudo, e o mais importante, a musicalidade. Não importa a maneiro ou o som arranhado, é o entendimento harmônico e melódico da coisa, isso é uma coisa mais dos seres supremos e a presença de Deus nas pessoas mesmo. Então, o Milton assim, é a pessoa que eu mais tiro o chapéu, agradeço, sou influenciadíssimo e, sem demagogia nenhuma, eu não estou aqui para falar do Bituca em si, mas é um dos grandes inspiradores e muito daquela coisa do violão rasgado que eu faço, ou as coisas de vocalista que eu faço, parcamente, modestamente, é muito influência do Bituca. Claro que já tinha as influências do jazz, do meu irmão, e tudo. Mas o Milton misturou. Parece que ele fazia aquela coisa do ele tinha um negócio de Dj naquela época ele era programador de uma rádio em Três Pontas, então ouvia tudo o que a gente estava ouvindo em Belo Horizonte, já estava ouvindo em Três Pontas. Henry Mancini, tudo, então ele já tinha cabeça. Aí misturado com a coisa do negro, que é aquela coisa forte, o canto do trabalhador, entendeu? Então a coisa dele é muito mais profunda. E mais a necessidade, de repente, da pessoa por ser negro e se afirmar, tudo. Então acho que ele, graças a Deus, provou pro mundo inteiro. É uma pessoa que todo mundo, qualquer lugar que eu vá, eu tenho que falar do Clube da Esquina, e o Milton é o Deus. Graças a Deus.

 

P/1 – E Toninho, conta um pouquinho das noites do festival.

 

R/1 – Do festival, né? Eu me lembro que naquela época, meus pais foram, minha mãe é grande aplaudidora, eu não sei se existe isso, eu estou meio Guimarães Rosa até hoje aqui. Aplaudidora, não é? E tinha muita música bonita sim, mas era muito bonita, era uma festa, era uma coisa assim. Era uma coisa única você ver quinze mil pessoas no Maracanãzinho, aplaudindo as canções, os músicos se conhecendo, as jóias começando a ter um contrato pela hoje Universal, antiga PolyGram, querendo gravar música minha. Conheci Agostinho dos Santos, nossa senhora. E naquela época eu era um cara bem grilado, mineiro, desconfiado. Naquela época a gente sempre tinha uns grilos, adolescente sempre tem grilo. Eu não sei que grilo que tem desde aquela época. Aí o Bituca já _______ Agostinho falou assim: “O Toninho é assim mesmo?” Falei: “É, o Toninho é assim mesmo.” Isso é complicado de nascença assim mesmo, tudo né? Eu não sei que assunto que era, mas não importa. O que importa é que os músicos se respeitavam, então todo mundo se conheceu. E o Rio, realmente é assim, como Nova York é a nível mundial, onde recebe músicos do mundo inteiro, russos, austríacos, africanos, europeus e tal asiáticos então o Rio de Janeiro foi esse lugar centralizador de pessoas do Brasil inteiro. Então, a gente conheceu Capiba(?), grande compositor do nordeste, Edino Krieger, que é da área erudita, mas que também faz a sua canção popular também, todos, Dori, Edu quer dizer, na verdade Edu, Dori, Milton, já era dona de geração um pouco abaixo do um pouquinho menos mais jovens que o Tom Jobim, e depois é que vinha a minha geração. A minha geração já entra aí Fernando Leporace, Nelson Ângelo, Tavito, Danilo Caymmi, um pouco mais novo, entendeu? Então, quer dizer, claro que essa geração foi privilegiada, dos festivais, que foi a grande exposição naquela época dos anos 1960, foram os festivais. Não tinha essa coisa da televisão, dessa mídia, não tinha. Então o que era mais o que chegava no público eram os festivais. O Caetano Veloso, com ‘Sem lenço, sem documento’, aí depois tinham Geraldo Vandré, ‘Disparada’, ‘Só não falei de flores’, sei lá tinham umas coisas políticas na época, tudo. Mas assim, eu guardo muito boa recordação, curti demais, viajei demais. Eu lembro, até assim  para falar uma coisa meio particular, até para ilustrar, para ficar mais engraçado, aquela cantora Claudia, cantora competentíssima, maravilhosa, na época era uma gatinha. Então tinha no Hotel Savoia, quando eu cheguei no quarto do Hotel Savoia, aí fui tomar um banho, quando eu olhei na janela do outro lado, tinha a Claudia...(Risos) A Claudia maravilhosa, falou: “Mas que beleza, hoje eu vou te contar, estar em festival da canção, coisa melhor do mundo.” (Risos) Por aí né. Muito boa recordação. Assim, para lembrar muita coisa assim, que a gente não fica preparado para lembrar as histórias todas, mas    

 

P/1 – Que legal.

 

R/1 – Assim, com o tempo a gente vai lembrando.

 

P/1 – E como foi a volta a Belo Horizonte depois do festival?

 

R/1 – Bom, aí a gente voltou meio ídolos né, e até hoje pessoas altamente representativas, que sempre deram valor para a música e pros valores mineiros, como Bob Toches, que é também cantor e tudo. Tinha uma coluna, acho que a primeira nota do Toninho Horta saiu, foi na coluna do Bob Toches. Eu tenho até um recortezinho, eu devia ter uns quinze ou dezesseis anos. Aí depois, quando a gente veio, foi legal que as pessoas procuraram a gente para fazer as matérias de jornal e tudo, então tem muita coisa dessa época. E frutificou muito porque não só as pessoas começaram a vangloriar e nos dar os parabéns pelo trabalho, quer dizer, no Rio de Janeiro abriram as portas. Os cantores começaram a gravar músicas minhas, gravar do Milton. Aí o Milton foi fazer um disco com o Tamba Trio, que tem um _____ de alto nível musical e artístico. E logo depois, em 1970, a gente já estava Teve o festival em 1969, em 1970 o Milton foi chamado  para fazer o primeiro show no Rio de Janeiro no Teatro Opinião. E esse show ele me chamou para fazer participação especial. Já que era uma pessoa também que já estava, eu estava meio paralelo com o Milton. Quer dizer, às vezes a história do Clube da Esquina confunde. Todo mundo acha que todo mundo começou com o Clube da Esquina, e tal. Então mais o Lô e o Beto que usufruíram mais dessa história, porque eles se formaram mais ______ com a história junto com o Milton, eu já vinha, até por causa da idade, por causa da influência com o meu irmão em Belo Horizonte. Mas também não tem sentido nenhum, mas eu estava falando do da coisa do  

 

P/1 – Da volta. Que aí essa efervescência que deu a partir do festival. Quer dizer, nessa época é que você mora no mesmo prédio que o Beto? 

 

R/1 – É, o Beto É, exatamente, em 1967, quando veio a classificação do festival, eu estava morando na rua Tupis, exatamente. Então, conheci o Marilton por causa dessa história, o Bituca e tudo, mas eu nem frequentava Talvez eu tenha ido na casa deles um dia, ou pelo menos sabia onde é que era, que era lá em cima nos últimos andares. Mas eu não me lembro, não tenho recordação nenhuma da casa deles. Agora, depois eles mudaram para a rua da Bahia, o Márcio, a família do Marcinho. E eu fui fazer umas músicas com o Márcio, e o Lô era menino, quer dizer, jogando bola, coisa de botão, futebol de botão e tal. Então eu me lembro da rua da Bahia sim, eu tenho uma noção muito grande, uma lembrança legal. E depois da rua da Bahia sim, eles foram para Santa Tereza, que aí é aí onde o pessoal já estava mais próximo à época do Clube da Esquina, já era final dos anos 1960, princípio dos anos 1970. E parece que até já tinha tido, não me lembro direito, o show do Milton e Ah, O Som Imaginário. A banda chamava Ah, O Som Imaginário. O Milton Nascimento e Ah, O Som Imaginário. A banda não era o som imaginário não, era Sonho Imaginário não, era Ah, e O Som Imaginário. E foi legal, foi uma temporada de, sei lá, duas, três semanas. E todo dia era muita gente, e o pessoal se emocionava demais. Naquela época era Elvis Vilela no piano, GG na bateria, Laudir de Oliveira na percussão, Luiz Alves no baixo, Robertinho Silva na Bateria Eu me lembro das histórias todas, quando   

 

P/1 – Fredera, né?

 

R/1 – Fredera Fredera veio depois. Espera aí Fredera não, acho que a primeira formação, agora eu não se ele já estava. Fredera estava ou não? Não tem ninguém aqui para comprovar.  

 

P/1 – Está escuro ali, não estou ouvindo.

 

R/1 – Mas em 1970, nessa mesma época, acho que o Tavito, de ______. E quando foi gravado o disco ‘Milton Nascimento’, pela EMI, que tem a gravação de uma música minha com o Fernando. Em 1968 o Milton gravou “Aqui, Ó”. Até o Fernando diz na letra assim: 

“O Minas Gerais, um caminhão

 Leva quem ficou por vinte anos ou mais...” 

Quer dizer, eu já estava me desprendendo de Belo Horizonte pro Rio, e ele fez uma letra assim, me despedindo de Minas pro Rio de Janeiro, tal. Aí o Milton gravou, em 1968 eu fiz uma participação, cantando com ele assim, tocando violão. E já em 1970, teve o registro do ‘Durango Kid’, uma música minha e do Fernando, que na época nem tinha aprovado, não era aprovado a letra, porque o Fernando sempre foi um craque, mas assim, eu me assustei demais. Assim como a letra do  ‘Manuel Audaz’, eu me assustei com a letra do ‘Durango Kid’. 

“Esse jornal é o meu revólver

 Esse jornal é o meu sorriso...”

Me assustou bastante na época, entendeu? Mas o Milton cantou divinamente, um arranjo do pessoal do pessoal do Som Imaginário. E nessa gravação eu não participei, era só música minha e tal. Já era um registro, mas o segundo registro que o Bituca tinha feito meu. Aí, dois anos depois é que aconteceu então o convite pela EMI, e o Ronaldo Baz, que era que já era um poeta, e era uma pessoa ligada na área de produção, foi uma das pessoas mais importantes nesse projeto todo, que ajudou inclusive a convencer a EMI a fazer um álbum duplo, porque era tanta riqueza musical e de letra e de tanta possibilidade, acho que não dava. Naquela época tinham várias pessoas na América fazendo album duplo. Não estou me lembrando aqui agora, mas de repente, sei lá. Sabe o ________(?), sei lá quem, James Taylor, não sei, não poderia lembrar assim. John Cooker, aqueles álbuns do Woodstock, entendeu?

 

P/1 – Era triplo, não?

 

R/1 – Então isso tudo.

 

P/1 –  Brothers(?), tinham várias coisas, tinham muitos duplos. 

 

R/1 – Tinha mesmo, saiu muita coisa naquela época assim de álbum duplo. E o Ronaldo sempre foi aquariano, sempre pensou na frente, então assim, ele foi uma pessoa batalhadora para conseguir gravar aquele LP do que foi assim uma coisa maravilhosa, o Clube da Esquina 1. 

 

P/1 – Então, vamos dar uma pequena pausa para a gente falar do Clube da Esquina 1?

 

R/1 – Vamos, porque deu uma leve canseira, só  para dar uma respirada.

 

P/1 – É, esquentou aqui, vamos...

 

R/1 – É, deu uma esquentada sim. 

 

P/1 – O bate papo também ficou quente. 

 

P/? – (Risos)

 

P/1 – Mas está bacana demais, você não imagina...

 

R/1 – Te agradeço. 

 

P/2 – Uma riqueza, não?

 

Fim do CD 01

 

P/1 –  Então Toninho, retomando...

 

R/1 – Espera aí, tem mais luz aqui do que estava antes ou não?

 

P/? – Não, está igualzinho...

 

P/2 – Está estranhando? 

 

R/1 – Dá uma canseira assim ___ então tá. Daqui a pouco eu acostumo. 

 

P/1 – Retomando então o que a gente estava falando do disco duplo, o Clube da Esquina 1, quase primeiro disco duplo brasileiro.

 

R/1 – É, exato foi.

 

P/1 – Então você poderia contar como surge essa idéia, como você estava integrado nisso?

 

R/1 – Bom, a gente tinha essa relação conhecimento com o Milton, desde Belo Horizonte, depois Festival Internacional da Canção em 1967. Show no Teatro Opinião, temporada com Milton Nascimento e Ah, O Som Imaginário e depois veio então a gravação do aí teve a gravação do disco Beco do Mota, que teve a música gravada ______, depois em 1970 teve a gravação. _____, então, depois 1972 Clube da Esquina. Mas, nesse meio tempo eu trabalhei com a Elis Regina em 1970. O Nelson Ângelo, que já era um companheiro, um parceiro nosso aqui, grande compositor mineiro, fizemos várias apresentações em movimentos estudantis, de colégios, coisas culturais. Teve até um o Marcinho é que gosta dessa história também do chamado acho que era agora esqueci, não era O Fio da Navalha não, era outro projeto que tinha um show que não deu nada certo, um show que deu tudo errado. Mas assim, tinha que ser tinha que contar um gastar uma tarde só para falar desse Você lembra de um evento que teve no Instituto de Educação? Assim,  para começar, lotada a platéia do Instituto. Quando abriu a cortina, o cenário era tudo o que tinha de peças atrás do palco, de espada de teatro, camisola, e tudo desbotado. Quando abriu já foi aquela coisa né, aí foi incrível. De repente o cara foi tocar, falou: “Ah, eu vou chamar aqui não sei quem aqui para frente.” Aí tinha aquele poço do maestro, aquele alçapão, o cara já pulou, já caiu lá para dentro. Aí o outro não sei quem foi tocar cello e a partitura e aí a partitura foi amarrada com barbante. Quer dizer, foi tudo assim maluco. Então assim: “Agora com vocês o trio do Bosco Baterito(?), aí entravam mais três pessoas eu não lembro desse negócio. E o Nelson Ângelo estava nesse mas a gente morria de rir, sempre que eu lembrava do Marcinho. Fala com o Marcinho que ele vai lembrar dessa história. Então, o Nelsinho foi um grande parceiro e a gente estava sempre junto nos festivais e eventos e tal. E aí, quando teve ele foi morar no Rio antes de mim e até o Novele chegou aqui agora, grande Novele, um pernambucano que virou mineiro pela empatia, e essa amizade com o pessoal do Clube da Esquina. O Nelson ficou amigo do Novele e daí a pouco eles me chamaram, o Nelson me ligou, falou assim: “Olha Toninho, está tendo aqui um vai ter uma audição com a Elis Regina, e eu vou fazer uma audição com ela. Mas como a gente toca junto há muito tempo, você não quer fazer de repente esse teste não? De repente passamos nós dois, duas guitarras pro cara é genial. E eu estou querendo montar uma banda com você chamada banda ‘A Tribo’, uma banda toda psicodélica, naquela época do exatamente 1970, junto com a Joyce, Naná, o Novele, o Nelson e eu. Aí você vem aqui, mora com a gente e a gente então participa da Elis Regina.” Aí, fizemos o teste com a Elis, ela adorou e tal, viajamos com ela o Brasil inteiro, tal foi o maior barato, maior experiência. E aí toquei na ‘A Tribo’ com o Nelson durante o ano. Aí fizemos várias músicas, alguns discos, com Nelsinho era líder com a Joyce, e eu participava mais como músico, mas foi uma época muito interessante. Então, só vou te falar dessa ligação com  

 

P/1 – O disco, né?

 

R/1 – Com o disco. Então já conhecia, tal O Marcinho Marcinho já era meu parceiro, a gente já tinha feito ‘Nega carnaval’, a gente já se cruzava, o Marilton era amigo do meu irmão. O Fernando apareceu na época do festival até tem uma história, o negócio da fotografia, que nós fomos tirar fotografia juntos no ‘Sonhos não envelhecem’, tudo. Não lembro exatamente quando o Fernando apareceu, mas aí já virou mais um da trupe. A gente se encontrava na Pavuna(?), na rua que era um grupo que a gente tinha na rua Tupis, entre Rio de Janeiro e Espírito Santo, atrás da igreja São José a gente ficava falando as coisas da época, tudo. E de cerca de sete às nove da noite era um barato. E aí daí a pouco quer dizer, quando eu só me lembro mais ou menos assim de eu ter sido quando pintou oportunidade de o Milton gravar, quando eu já soube do eu fiquei já sabendo do convite, né? Tipo assim: “Olha, o Milton vai gravar, tudo, e quer você e tal.” Não sei se ele mesmo falou, ou se foi o Ronaldo. Queria minha participação falou: “Vai estar todo mundo. Paulo Moura, Wagner Tiso, e tal, todo mundo”. Então, todo mundo que estava com o Milton esse tempo todo, desde o meio dos anos 1960, as pessoas mais que tinham mais amizade com o Milton, e obviamente que tinha musicalidade, tinha um recado musical  para dar, o Milton chamou e tal. Agora aí como quando eles A preparação do repertório, eu me lembro que eles ficaram numa praia em Mar Azul, em Piratininga durante um mês, e o Ronaldo falou: “Não é possível que você não vá ficar lá nenhum dia.” E eu era para ter participado, pelo menos eles me chamaram para ficar na casa com eles. Então nessa casa eles fizeram todas as composições do Clube, o Beto, o Lô e o Milton, principalmente. Mas e aí aconteceu que acho que eu estava gravando, não sei se com a Gal, quantas pessoas, com a Elis, eu já era um músico do estúdio. Depois que eu gravei com a Elis, já estava no Rio de Janeiro desde o final dos anos 1960, eu sempre viajava com o Lô Borges, a gente ia na Útil ou na Cometa pro Rio, a gente sempre ia de ônibus. Eu lembro que a gente sempre dormia um no ombro do outro, tem hora que um dormia, depois descansava e o outro dormia, a gente era muito amigo. Viajamos de trem no Vera Cruz várias vezes, tal Então era uma maneira de a gente ter esse contato com pessoas na época já do show do Clube, tal. Mas voltando assim, no convite, eu me lembro, de repente eu não pude participar da preparação. Mas o Ronaldo falou: “Você vai, nem que for no último dia.” Aí no último dia da casa, lá em Piratininga, eu cheguei com o Ronaldo, ele no fusquinha branco (Risos) Que era o Manoel, o pré Manoel ____. Aí a gente fiquei lá com o pessoal um pouco. Fiquei até algumas horas assim, nem cheguei a dormir uma noite não “Olha, o pessoal está indo embora no dia seguinte.” Então, foi uma coisa muito rápida. Quando eu fui quando eu me lembro, já estava no estúdio gravando. E era tanta gente  para gravar, que tinha o Lô, o Beto, o Milton, o Wagner, aí chamaram o Novele, o Robertinho de Percussão, eu tinha outro baixista, não sei se o Luiz Alvez estava, mas assim eram muitos. Nelson Ângelo, Tavito, e deve ter mais gente que eu estou esquecendo. Mas o interessante da gravação acho que a coisa mais característica que eu acho da gravação que foi, foi a liberdade que todo mundo tinha. Porque o Wagner já era considerado o grande maestro da turma, a mãe dele era pianista clássica, tudo. Ele começou a fazer uns arranjos com Paulo Moura, aprender arranjos lá no Rio de Janeiro. E era mais velha, um pouco já da geração do Milton, batendo a idade cinco anos mais velho de mim e tal, do pessoal. E aí a gente quer dizer, o Wagner era a pessoa que ele queria organizar o trabalho Ia fazer assim o contexto final, assim aquele retoque final para todos os arranjos e orquestrações, tudo foi o Wagner. Mas eu participei muito daquela coisa de base, entendeu? Aqueles arranjos de base. Então, por exemplo, chegava o Milton de manhã, falou: “Olha, a música é essa.” Aí vê quem tava ali na hora assim. Aí, de repente, quem acordava cedo estava ali, quem acordava tarde não estava ali (Risos) Ficava cansado. Então o pessoal que estava ali, então vamos lá passar uma música, e tal. E gente: “Não!” Um dava idéia aqui, outro dava idéia ali, daí a pouco a música estava pronta e tal. Aí chegava mais outro no finalzinho, pegava um badulaque lá, começava a falar: “Não, eu vou tocar percussão nisso.” Então, várias vezes já cheguei e a coisa já estava pronta. Aí, eu pegava um cachichi(?), fazia uma percussão. Quando eu estava antes, eu ajudava a organizar: “Não, isso aqui, vamos fazer isso aqui a introdução. Ah, não tinha baixista? Olha o baixista, chegou atrasado, Novele está ali?” “Não, o Novele só vem na parte da tarde”. Muitas vezes o pessoal acordava tarde. Quando eles passavam lá no hall desse prédio, onde tinha um estúdio da EMI, no início da Rio Branco, ali no Rio eu acho que era no quarto andar No hall tinha um Café Lanches lá, mas com um choppinho maravilhoso, aí não dava para resistir. Aí, o pessoal que acordava tarde, já ficava por ali mesmo, entendeu? E aí “E cadê o pessoal?” “Está lá embaixo tomando, tal.” Aí a gente fazia acabava gravando uma música, tal. Aí a gente gravava uma música e descia  para tomar um choppinho. Aí, quem já estava lá, subia. Então, o interessante é que nunca coincidia cada música Se você pegar a ficha técnica de cada música, não coincide porque é tudo Então, às vezes quando faltou baixista, eu tocava de baixo, faltava guitarra, eu tocava, faltava entendeu? Então era tudo muito assim espontâneo. Então eu ajudei muito a organizar essa coisa da base, o Lô mostrando as músicas, tal e fazer as introduções, fazer os finais “Vamos repetir a primeira parte, segunda.” Realmente a minha contribuição foi muito mais em cima, já que eu não participei da criação do repertório. E acho que isso foi uma coisa muito linda. E acho que isso resultou numa coisa muito original, assim. Cada música é uma história diferente, entendeu? Então, tem umas músicas que o Beto toca bateria, tem outra que outro está no teclado, então assim é realmente, o Clube da Esquina foi uma felicidade total. O repertório todo de um alto nível musical, e tinha aquela pulsação da juventude, que na época todo mundo estava aí com vinte e poucos anos e tal. Então tinha aquel, quer dizer, o Lô e o Beto, com influência do rock, de Beatles e sei lá quem mais, o Rolling Stones. E a parte do pop-rock que eu peguei, eu pegava assim James Taylor, mais light, né? Emerson _______, _______, aquelas bandas, _____ Brothers, e tal. Mas aí eu venho de uma escola mais ____ e tal, mais sofisticada, de harmonia. O Vagner já vem da escola erudita com a mãe dele, entendeu? Então assim, Norival Dornelas, também já vem com aqueles meio barroco mineiro. Então, essa mistura, e o Milton com o negócio do canto: “E re, re, re...e...”. Aquelas coisas modais e tudo. A junção disso tudo é que foi a riqueza do Clube da Esquina. E feliz do Milton, e de nós todos claro, de ele realmente ter sacado as pessoas naquela época, assim: “Olha, você, você, você, você tal.” E foi o que deu. Quer dizer, esse disco para mim é um marco, agora eu estou dando uma opinião assim eu acho um marco mesmo da música brasileira, e acho mesmo que o Clube da Esquina, mais que o Tropicália, é uma revolução musical. O Tropicalismo é coisa mais da estética, da letra, da revolução, até de costume, porque eles colocaram guitarras na música popular brasileira, ainda a metade do pessoal. Mas os baianos, como os cariocas, ou o pessoal que vive nas praias, que vem das praias, tem muito mais oratória, muito mais descontração, muito mais E o mineiro é aquela coisa contida, meio arredio e tal, então Mas é, então assim, de certa forma a potencialidade musical que cada um tinha é absurda, entendeu? Então isso o tempo provou que depois dos primórdios da música brasileira, da época de ouro, Lamartini, Ary Barroso, Ismael Silva e todos aqueles grandes craques da época de ouro. Depois bossa nova Bossa nova que foi a revolução já ___ uma coisa harmônica, influência um pouco da harmonia européia e tudo, com balanço que vinha do João Donato E tinha antes o garoto, Valzir(?), que fizeram o pré do ______ o samba de verdade, o samba de primeiro samba de raiz da época de ouro até a bossa nova, teve uns compositores importantes ali no meio, até Aí, quando chegou na samba-canção, que já era um pé já na história da bossa nova, aí, depois disso, com certeza o Clube da Esquina, com certeza foi assim o trabalho mais a história provou que musicalmente foi uma revolução, a nível de harmonia, de melodia e tal. E eu estou cansado para falar, mas assim, vamos tentando falar assim...                      

 

P/1 – Eu vou te fazer umas perguntas mais técnicas...

 

R/1 – Mais técnicas.

 

P/1 – Em relação ao Clube da Esquina. Você se recorda aí de instrumentos que você usou, o baixo, a guitarra, era a sua Snake ainda, você já estava com outra guitarra?

 

R/1 – É, no Clube da Esquina foi a Snake que eu usei. Mas tinham umas guitarras da EMI, as gravadoras sempre tinham uns instrumentos que eles compravam. Tinha uma Fender, tal, eu pegava os instrumentos lá. Quando eu tocava baixo, ou era um baixo tinha um baixo Gibson, que era até do Bituca, um baixo vermelho, eu tocava com palheta, adorava o som parece que dá vontade de comer de tão gostoso o som. Eu tocava com palheta, dava um som muito bonito de baixo. E tinham outros baixos que eu fiz, num outro baixo, não sei se era Réquiem Baker, que naquela época o Fender ainda não era famoso. Réquiem Baker é mais daquela geração que tocava rock nos anos 1960, e tal. E teve um outro baixo naquela época eu toquei, fiz várias gravações com esse baixo também. E a guitarra era Snake, parece que tinha uma Fender e tinha uma outra Gibson eu me lembro de uma outra Gibson, tipo um 335, que era uma guitarra que eu sempre toquei, já na temporada, nos shows depois do Milton. Como se diz? ______ eu já estava com uma guitarra vermelha, que era Gibson também. Então, a EMI também o antigo estúdio da Odeon tinha uma guitarra maravilhosa também. Mas os registros mais foram com essa guitarra Snake. E estava até uma faixa com o Édson Machado. Ah não, isso já foi mais para frente, que eu toquei baixo acústico, meu irmão tocava baixo acústico. Ataquei de vários instrumentos. Mas toquei piano, tecladinho, aquelas besteirinhas assim. Mas o negócio naquela época a gente tinha tanta liberdade, era tão criativo, que valia tudo, entendeu?  

 

P/1 – Toninho, em relação a algumas faixas, por exemplo: ‘Trem azul’. ‘Trem azul’ você participa?

 

R/1 – É, acho que até participo eu diria que seria a faixa que eu estou mais inserido com o disco é o ‘Trem azul’, porque eu fiz um solo, e eu me lembro A vida inteira eu fui grilado com negócio de solo, sempre nunca achava que era solista, muito solista, porque eu não tenho muita técnica, ainda mais de achar a nota certa, o bom gosto, tal. E eu fiz um solo, aí eu falei: “Quero fazer de novo.” Naquela época só tinham dois canais, então não podia negócio de play back e tal, não sei o que “Olha, tem que fazer. Então a gente vai gravar tudo de novo, tem que fazer.” Aí eu fiz um outro solo na época. E eu me lembro que eu fiquei tão feliz com o solo Que é aquele negócio assim, você tem que fazer, porque não dá  para gravar de novo, aí eu acho que o desafio é bom de mais por causa disso. E eu fiz um solo que começa: “Pan, dan, dan, dare...” Comecei a cortar, depois eu passo pras terças e tal. Aí depois até falaram que o Peter Mancini(?), anos depois ouviu as minhas terças, começou a copiar e se inspirar num trabalho dos mineiros, quer dizer, o pessoal do Clube da Esquina. E aí eu fiz um solo muito simples, mas muito assim delicado e contando uma história. E eu lembro que eu fiquei tão satisfeito também que na época eu contava, como se eu tivesse, vamos supor: “Pan, dan, dan, dere...” Então, assim por exemplo, o solo o recado do solo seria: “O gente, eu estou aqui...” Aí, vai mudando coisa aí Então, cada trecho do solo, era mais como se fosse uma história contada. “Pan, dan, dan, dere...” Então, tem uma conclusão, uma história do princípio ao fim. Como se estivesse chegando  para uma pessoa: “Vou contar uma história assim aí passou por aquilo, tal, não sei o que, e vamos chegando, tal “Pan, dan, dan, dere...” E termina uma coisa assim...apoteótica, vamos dizer assim. E mesmo assim, sem muito estardalhaço estardalhaço que eu digo em termos sonoros, acompanhamento assim, com a pulsação legal, gostosa, mas sem ser com muito impacto, e a coisa meio sofisticada assim, e deu certo. Deu tanto certo que o Tom Jobim depois ele ele adorava o Lô Borges como um dos compositores brasileiros mais importantes e significativos, que eu também acho. E ele resolveu gravar no disco brasileiro, antes dele se despedir de nós, ele gravou ‘O trem azul’ e resolveu registrar o meu solo, porque achou que o solo estava tão inserido no contexto da música, que Aí ele apresenta a música, e depois aparece: “Pan, dan, dan, dere...” As meninas do Tom cantando. Ele copiou o solo, todo que eu fiz, como se a música como que o solo fizesse parte da música. Isso para mim foi assim um reconhecimento maravilhoso. Ainda mais que Tom Jobim, para mim é o mestre maior. Quer dizer, em termos de música popular no Brasil, ele foi o maior compositor brasileiro de todos os tempos. 

 

P/1 – E Toninho, você vê aí as pessoas interpretando ‘O trem azul’, e todo mundo faz esse solo, né? Esse solo marcou.

 

R/1 – É, pelo menos pega aquela atmosfera do aquela idéia assim acho que uma coisa que marcou, igual É interessante, por exemplo, eu fiz uma introdução no ‘Beijo partido’, que fala: “Po, re, re, re, re...” Então acaba fazendo parte da música, o final: “Pan, dan, dan, dere...” Aquela introdução do ‘Travessia’: “Tom, dem, dem...” Já vira uma é a própria composição. Então, isso todo mundo, não só no Brasil, no mundo inteiro, o pessoal já toca música com arranjo, com solo. Muito legal. E eu acho que a coisa quando é feita com verdade, ela vinga, acho que O negócio do Clube da Esquina deu certo por causa disso, porque era coisa boa e era muita verdade, um lance assim. Era muito bom.  

 

P/1 – E aí Toninho vocês gravam o disco Você estava na rua Divinópolis, naquela famosa audição do disco? 

 

R/1 – Eu devia estar, mas eu não me lembro não. Mas eu estava o tempo todo. E eu me lembro de vários encontros. Teve uma vez que a antiga revista Manchete, publicou uma foto onde estávamos em frente a um barzinho que é esquina da divisa nossa com Paraisópolis, já tinha uma mercearia e estava o Fernando, Lô, Beto, eu, tal Naquela época todo mundo meio hippie, eu de bigodinho assim, bico fino e tal, cabelão Então eu devo ter isso talvez em algum lugar, essa foto da Se eu não tiver, alguém aí do pessoal deve ter. Então, assim eu não lembro da audição, mesmo do dia assim não. Mas eu me lembro, por exemplo, no Rio de Janeiro na casa do Lô Borges Não, perdão, na casa do Ronaldo Bastos ouvindo o Clube da Esquina pronto. Eu estou me lembrando agora, recordando que acho que a primeira vez que eu ouvi o disco, eu estava na casa do Ronaldo. E aí foi assim choradeira, ouvindo uma música atrás da outra, vendo o resultado final do coisa né? Coisa criativa  

 

P/1 – Choradeira?

 

R/1 – É, emoção. Que todo mundo ali era menino, e quando você vê aí você faz, aquela empolgação de fazer Pô, legal, tal! Aí ______ apresenta. Aí vira já uma coisa concreta, aí você vai ouvir Hoje não. Hoje eu tenho muito mais autocrítica, tenho muito mais a gente fica sempre assim querendo fazer melhor e “Ah, porque o som do instrumento não era aquele...” Não, eu acho que o mais importante não é não é de repente o timbre do instrumento. Quer dizer, hoje a gente se preocupa com o timbre, com a dinâmica, com a pulsação dos músicos, se o músico está tocando aquela música se eles, de repente Tem um timbre de música que é bom para um tipo de Um tipo de música que é bom para um tipo de músico. Um músico toca bem uma praia, meio de rock, mas não toca bem a bossa nova, ou da bossa nova toca bem, mas não toca na praia do rock. Então assim Então de repente mas assim, hoje eu penso muito nisso. Mas naquela época não, aquela época estava tudo muito bom demais. E vendo hoje, acho que era tudo só poderia ter sido gravado pelas pessoas que gravaram, entendeu? Que é que foi uma coisa muito assim muito verdadeira e muito estava todo mundo muito junto, muito amigo, não tinha como dar errado não, não tinha não.  

 

P/1 – E a repercussão do disco? 

 

R/1 – Repercussão? Eu lembro que a gente ficou várias semanas no tinha muita coisa engraçada. Estava lembrando na mesa lá do Tip-top(?) assim, ________ “Noite chegou outra vez...” O pessoal tocando Clube da Esquina Cadê o Wagner? Mas aí eu vou falar baixaria aqui, não dá.  

 

P/1 – Pode falar, depois apaga.  

 

R/1 – Apaga. Não, aí de repente veio tocando lá “Cadê o Wagner?” Não estava no palco. Aí aparece um veio um corregozinho assim, uma água correndo assim lá de trás até a frente do palco, assim...(Risos) ______ Mas tem muita história minha aí também barra pesada, que você pode contar também. (Risos) Então não deu jeito, foi atrás da cortina mesmo que ele soltou o negócio todo lá. Então assim mas o lance musical foi incrível, que todos iam muitos músicos, muitos artistas e o pessoal ficava desbundado. Realmente assim as emoções do show do Milton no campo do Botafogo, no Moriço(?) no Ibirapuera em São Paulo, era cada lugar que a gente ia que era emoção demais. O Bituca naquele auge de e uma banda muito boa, a gente tocando verdadeiramente assim. Então foi muito bom. Então na época deu muita repercussão, mas eu não sei se a gente, sei lá, não soube levar quer dizer, o Milton também partiu  para outros tipos de trabalho, de banda. Depois em 1978, já mudou a banda do Clube da Esquina, depois do Gerais. Fiz o ‘Minas’ e o ‘Gerais’, que ainda eram discos que tinham semelhança com a atmosfera do Clube da Esquina. Já em 1969, quando ele foi para Ariola(?) _____, que ele fez o______ ‘O Sentinela’, parece. Aí já veio com outra proposta musical, e já tinham outros produtores “metendo o bedelho” na música do Milton, então tornando a música um pouco mais comercial, tudo. O que na minha opinião, eu acho que descaracterizou um pouco, quer dizer, não descaracterizou, continuou boa, como é até hoje assim, mas a música que é feita pelos mineiros é diferente. Era até um negócio diferente. 

 

P/1 – Você acompanha então o Milton nos álbuns, depois do Clube da Esquina...

 

R/1 – Até 1978 eu fiquei. 

 

P/1 – Até o ‘Minas Gerais’?

 

R/1 – Eu fiz o Clube da Esquina, depois fizemos o ‘Milagre dos Peixes’, também que foi uma emoção total no teatro João Caetano, no Rio e no Teatro Municipal, em São Paulo. E foi...nunca vi até mais do que o show do Clube da Esquina, ‘O Milagre dos Peixes’, porque tinha orquestra e tudo, emocionou mais ainda. Que também aí o público do Milton já tinha aumentado, então em 1974, era mais gente que era fã do Bituca. Em 1976 veio o disco ‘Minas’, que gravou até uma música minha, ‘O beijo partido’, a Nana Caymmi gravou mais ou menos na mesma época também foram duas gravações geniais assim, bem próximas uma da outra. E ‘O beijo partido’ ficou conhecido através dessa gravação do Bituca, em 1976. Em 1978 teve o ‘Minas’ É, teve o ‘Gerais’, que ele gravou ‘Viver de amor’ Ah, perdão em 1978 acho que teve o Clube da Esquina 2, em 1979 o ‘Gerais’. E aí, depois do ‘Gerais’, aí acho que o Milton mudou de gravadora, aí já mudou de banda aí já é aquela coisa. De repente, quer dizer a pessoa já entra no A situação é normal, você De repente o ciclo das coisas, o curso do rio, de repente você entra numa numa tangente, numa paz assim que vai  para outro lugar, e tal, e os músicos que tocavam com ele, que eram que eram fielmente, partiram também para outros trabalhos e tudo. Eu comecei a viajar com outras pessoas, toquei com a Gal, gravei com o Milton na América também. Pô, com o Milton, a primeira vez que a gente gravou na América em 1976, que ele já tinha gravado o disco ‘Courage(?)’, com arranjo do ______ ________(?), genial, no final dos anos 1960. Quando eu tive oportunidade para ir com o Milton para a Califórnia, e até me deu lá os nos finais da gravação Quer dizer, quando acabou a gravação do disco dele, aquele Milton que tem ele todo com cabelo de água assim, ele me chamou e junto com o Ronaldo falou: “Olha, se vocês quiserem gravar alguma coisa aí, algumas coisas do Toninho, tal...” Foi aí que eu comecei a fazer o meu primeiro disco, ‘Terra dos Pássaros’, através desse presente do Bituca, que foi me ceder o estúdio, tinham mais alguns dias de bobeira no estúdio, e dez tapes de duas polegadas, aquele 546, aquela fita Genial, o técnico, tudo lá de bobeira. Aí eu comecei a gravar o disco ‘Terra dos Pássaros’ lá. Um presentão dele. Então assim eu poderia ficar falando aqui dias e horas, tudo, lembrando de cada momento assim Mas foi assim um momento muito intenso, até entre 1970 e 1978, me parece que até 1979 foi onde aquelas pessoas do grupo estavam sempre juntas: Lô, Beto, Bituca, o Nelsinho, Wagner. E depois disso, aí começou cada um já fazendo disco solo, carreira própria. Eu fiz, eu ajudei a fazer os arranjos, orquestração e arranjo de base pro Beto, pro Lô, depois veio o Tavinho Moura, depois veio o Flávio Venturini, que é uma pessoa da nova geração, também do clube. Mas assim, o importante é que continuou todo mundo amigo, e assim todo mundo sempre tentou pelo menos tentou se encontrar nesses últimos anos, dos anos 1980 quer dizer, tem vinte anos que a gente está tentando se encontrar. Aí teve algumas junções. Teve um por exemplo, ‘Minas em concerto’, que eram todos os componentes menos o Bituca, era o Wagner, eu, Flávio, Lô e Beto, e fizemos alguns registros. Fizemos em umas seis, sete capitais do país. O único país? Estados do Brasil, o único que a gente não conseguiu patrocínio foi em Belo Horizonte. Aquelas coisas né? (Risos) Brincadeira. Depois teve outros, então a gente está tentando se encontrar. Eu acho que o lance do Museu é interessante: Primeiro, acho que como primeiro passo assim é reaproximar todo mundo. Que todo mundo se respeita, se gosta. Mas a vida acabou separando a gente de uma forma, que de repente nós, quer dizer, vinte anos, depois quinze, vinte anos depois, nós não não conseguimos arranjar uma maneira mais fácil, talvez porque o mineiro, da mesma forma que o mineiro é criativo, ele tem uma ligação ao mesmo muito forte com a terra, mas também quando ele extrapola as montanhas, ele já sai daqui pro mundo ele já PÁ! Já faz uma coisa internacional. Tem muita gente que faz música e continua dentro do Brasil. O mineiro não, o mineiro consegue ser regional ali e tal, mas ele já é entendido, já tem uma visão muito universal, eu acho. E então mas mesmo por causa disso, assim eu acho que a gente ainda é muito preso. Tem uma coisa assim das pedras preciosas, que era uma força muito grande, que segura a gente. Então, às vezes a gente fica medindo palavras, ou medindo frases, ou pensando, entendeu? Aquela época não. Aquela época era tudo muito fluente. Mas depois, quando todo mundo amadureceu, me dá impressão de que a pessoa ainda está pensando em vez de ser um pouco, hoje em dia está mais relaxado, entendeu?  Principalmente para assumir essa coisa do Clube da Esquina. O que eu estava tentando falar, antes ali, de assumir não sei nem se era hora de falar isso, mas...       

 

P/1 – É pode, vamos falar!

 

R/1 – Então parece que dá impressão é que até hoje não caiu a ficha, quer dizer, tudo bem, o Marcinho sabe da importância, todos nós sabemos, ou pelo menos cada um tem uma consciência. Mas a gente não tem a mesma consciência, para um o Clube de Esquina são duas pessoas,  para outro são cinco, para outro são milhões, que nem tem na letra do Clube da Esquina 2, né? Então assim, a gente tem que estar tem que estar junto, sempre que tiver igual hoje, que foi um dia mágico, sempre que tiver alguma coisa do Clube da Esquina, se eu tiver por perto, eu vou ser sem me chamar, eu vou querer aparecer sei que eu já estou chamado eternamente. Mas sempre que eu souber, eu vou estar junto. Agora, claro, a pessoa tem compromisso, não pode.  

 

P/1 – Toninho, deixa eu só porque, quem está acompanhando a entrevista... Você poderia contar porque hoje foi um dia mágico?

 

P/2 – É, esse encontro de gerações quem estava no palco, quem estava...

 

P/1 – O que aconteceu hoje, dia 16?

 

P/2 – Assistindo, as professoras assistindo com os alunos, os filhos dos compositores tocando junto com vocês. O que...?

 

R/1 – Até eu fui um pouco culpado disso, no bom sentido (Risos) que eu gosto sempre de ajudar a botar lenha na fogueira. Às vezes, quando o fogo está pegando forte, eu saio correndo, entendeu? (Risos) Mas eu sempre gosto de incitar as coisas assim no bom sentido. Então assim, ontem o Marcinho tinha me falado do que seria o primeiro registro, em áudio e vídeo pro acervo do Museu, e todas as pessoas iam fazer a mesma coisa. Daí, depois ia cada um dar um depoimento tal, e que ia ter essa palestra com estudantes, que é um lugar assim muito especial, que foi o lugar de formação intelectual de todos de muitas pessoas que estudaram no colégio e tudo. Interessante que o colégio está fazendo 150 anos, a minha irmã é, por coincidência é diretora, e ela formou uma orquestra de violões, que ficou sabendo que ia acontecer esse evento, aí os meninos falaram: “Ah, então a gente quer quer tocar alguma coisa para eles lá, vamos fazer uma homenagem.” Eu falei: “Então tudo bem, então vamos fazer um...” Aí bolei lá um arranjo rapidinho do ‘Trem azul’, assim meio a grosso modo, tudo, mas só  para ajudar a compor a coisa. Eles fizeram essa homenagem para gente, e na noite anterior, a não no dia, acho que foi um dia antes, encontrei com Marcinho, né Marcinho? E comentei que eu queria chamar, porque ele falou que talvez só teria eu de músico, para lembrar os músicos do Clube da Esquina. E o Marcinho ainda cantou. Eu sou cantor, mas também não é assim, eu não lembro todas as letras do clube, tal. Lembro das melodias, as harmonias e tudo, mas tem muito tempo que a gente não tocava. Aí fiquei meio com medo, meio arredio. E o Murilo também, é poeta, né? E aí eu falei: Então porque que a gente não chama fulano, tal. Aí eu dei um toque no Tattá Spalla, depois lembrei do Rodrigo Borges, que é filho do Marilton, sobrinho do Marcio. Aí eu fui começando a lembrar, falei: “Pô, porque que não dá para chamar fulano, fulano, fulano...?” Aí eu comecei a dar o toque na galera. Ontem, o Tattá foi comigo, tal e acabou que como tinha greve dos professores, a coisa não rolou e resolveram adiar para hoje. Aí foi assim maravilhoso, porque aí deu mais um dia de prazo. Aí, comecei a ligar pro pessoal, aí eu falei assim: “Eu vou...” Então fui pedir a Marcinho autorização ontem (Risos) Falei: “Olha Marcinho, se você me der me der o passe eu vou chutar.” Ele falou: “Está liberado, está liberado.” Diretor liberou, aí eu falei assim: “Então vou chamar a galera.” Aí tentamos o Telo, tinha ensaio, tudo “Pô, mas vamos tirar o Telo do ensaio, vai ensaiar ao vivo lá.” Dei um toque pro Mario Castelo ontem eu não consegui falar com ele, liguei para ele hoje nove da manhã: “O Mario, às dez horas vai rolar um negócio eu preciso de você.” “Onde é que é?”  Eu falei: “É um negócio do Clube da Esquina.” “Já estou, onde é que é que eu já estou, já estou ligando, vou tomar um banho”. Então quer dizer, esse espírito tem muita gente que permanece ainda nesse espírito maravilhoso e tal. E aí ontem eu dei um toque no Robertinho, foi no show do Wagner Tiso, um show maravilhoso, orquestrando a obra do Tavinho Moura, que também que é um grande representante da música de Minas. Não só do Clube da Esquina, mas vem com um trabalho regional há muitos anos. E, de uma forma sinfônico, foi maravilhoso. Só que estava todo mundo lá. A Chiquinha Amaral, Robertinho Brant. Aí eu falei: “Olha, vou chamar a galera.” Gabriel falei: “Gabriel, me ajuda a chamar o Valdir aí, pá pá pá. E quando chegou hoje de manhã, foi chegando um, foi chegando outro quando eu fui vendo todo mundo lá, e quando eu soube que o Telo vinha, Paulinho. Aí, eu falei: “Acho que pô, consegui, senão sufoco assim...” E acho que deu um resultado muito bom, porque essa nova geração, o Tatá, o Robertinho, Rodrigo, o Gabriel Guedes, filho do Beto, eles tem viveram isso com a gente, então eles tem mais convicção do Clube da Esquina, eu acho, do que a gente entendeu? Eles sabem da verdade, assim. Então eles se até resolvi assumir com eles. Falei assim: “Olha gente, se vocês toparem, eu vou produzir agora uma banda com vocês, eu vou estar tocando eu, Paulinho Carvalho, Mário três velhinhos e o resto novinho, e vamos fazer, e vamos correr aí. E vamos fazer e vamos correr aí. Porque às vezes é difícil, porque o Milton, o Beto, o Lô, eu, cada um tem agenda, tem compromisso, tudo. Então assim para simplificar, vamos pegar o pessoal que é mais doido, mais animado e vamos tacar o pau. Aí eles toparam. Então assim por isso que foi um dia mágico, que a gente não ensaiou nada, na hora que a gente combinou: “Quem vai tocar o que?” Aí chegou o Mário, da nova geração, super guitarrista, aí falou: “Mário, toca aí.” Aí veio o Afonsinho          

 

P/1 – Afonsinho...

 

R/1 – ...Também, que era da praia do rock, mas tocou bossa nova. Eu falei: “Mas você vai tocar aí, vai tocar o solo de ‘Trem de doido’.” Passei a guitarra para ele. Então, isso é que é legal, de a nova geração estar junto, reconhecendo o valor da do trabalho, tudo o que a gente plantou e já solidificou. Mas que a gente mesmo do Clube, as pessoas que estão na frente, precisam acreditar mais. Quer dizer, o Museu vai ser uma forma acho que a melhor forma, eu acho, que não poderia ter uma forma melhor, e só o Marcinho mesmo… Aproveitando que o Marcinho está aí que, cara, se não fosse você, não teria que ser mais ninguém. Uma pessoa íntegra, maravilhosa, talentosíssimo, cineasta, intelectual, poeta, produtor e alta sensibilidade. Temos muitas letras juntos aí. Podiam ter mais, mas por falta de tempo, de coincidências a gente não fez. Mas enfim, eu acho que é uma oportunidade, primeiro para reunir todo esse pessoal. Eu acho que até.. Bituca, espero que um dia, se a gente montar essa banda aí, o Lô, o Beto, eles se depois que eles verem que a nova geração está acreditando mesmo, talvez um dia a gente, meu sonho é poder ver todos nós no palco. E a gente perdeu 20 anos de mídia. Depois que saiu do dicionário para entrar no cotidiano das pessoas, o marketing, essas coisas todas quer dizer, a gente está perdendo esse tempo todo. Quer dizer, hoje o Manguebeat, é o que? Que era o Chico Science, com o pessoal lá do coisa, mas isso os caras levam a sério o negócio ‘Premeditando Breque’, com o Itamar Assunção, Arrigo Barnabé, e outras pessoas que fizeram Movimento da Vanguarda Paulista. Também, aconteceu tudo bem, uma coisa assim. Até que de certa maneira, limitada musicalmente, sem querer mas tinha uma coisa uma coisa muito poética, interessante uns arranjos interessantes, mas também agora o Clube da Esquina é fortíssimo, entendeu? Se eles acreditam nos movimentos deles, porque que a gente não vai acreditar no nosso, né? Eu acho que cada um acredita, mas a gente não tem um pensamento único, isso que eu queria tentar explicar, que a gente não pensa. Quer dizer, eu, Beto, Lô, Marcinho, Ronaldo, Fernando, o Bituca, cada um acho que os pesos e medidas são um pouco diferentes. O meu sonho é um dia acontecer, isso que aconteceu, assim de as pessoas quererem chegar e tocar, mas com o pessoal de frente, o pessoal contínuo principal (Risos) De repente, está ali marcado, você não esperar e Bituca aparecer. Querendo ou não, ele é o carro chefe, o Bituca foi a pessoa que acho que foi muito duro para ele, teve muitas críticas em cima dele em várias épocas, tudo. Muitos empresários que sacanearam. Mas é claro, muitas pessoas energéticas, que contribuíram também, que  para inclusive ter o Bituca hoje. Não só o Bituca, mas o Lô, Telo, que ganhou o Grammy agora. Se não tivesse a energia dessas pessoas, acreditando o tempo todo, alimentando a nossa eterna juventude, eu acho que a gente não estava aí. Eu estaria aí meio fora da onda, o Bituca também. Então está todo mundo aí. Agora precisa estar mais. Eu queria que esses museus, o sonho meu desse Museu é isso. Eu acho que o Marcinho está conseguindo, nós vamos conseguir juntar essa galera toda. Mas eu acho que isso é que todo mundo está esperando. O dia que juntar de novo, aí o pessoal vai realmente acreditar que não, o movimento Clube da Esquina, realmente é um movimento, não foi uma coisa institucionalizada, mas depois de dez anos, quer dizer, nos anos 1980, já como referência musical, batendo nos ouvidos, influenciando pessoas, músicos no mundo inteiro. Quer dizer, então está mais do que arraigado isso. Então a gente tem agora, a gente tem que sentir isso mais verdadeiramente, mais na pele e sem nenhuma dúvida. Quer dizer, a ficha ainda está caindo, está no percurso, mas ela vai vai bater? (Risos) Né Marcinho?      

 

P/1 – O Toninho, eu sei que você está aí com o seu horário...

 

R/1 – Não, não tenho horário não, o negócio é que a gente vai cansando um pouco, a cabeça, tudo mas vamos aí...

 

P/1 – Claro. Mas eu e a Claudia tínhamos ainda umas questões. Não, vamos continuar, eu acho que assim, a sua carreira solo é enorme, a sua aventura aí pela América, pela Ásia, a gente vai ter que ter um outro dia para... 

 

R/1 – Não, tranqüilo, isso aí não tenho...

 

P/1 – ...para contar. Mas eu queria que você falasse um pouquinho, já aí marcado, do seu disco,  do _________, da música ‘Manoel _______’, todo mundo tem uma curiosidade enorme. O que é isso? 

 

R/1 – Você falou no ________ e no ‘Manoel’ como?

 

P/1 – Da música. Você falar um pouquinho do disco, do ________...

 

R/1 – Qual que é o... Aquele antigo né?

 

P/1 – Aham. 

 

R/1 – Ah tá. Pois é, esse disco se chama ‘Toninho Horta’, que só tem o meu nome O disco, na verdade não chama ________  

 

P/1 – Desculpa, é que tem a música ________, é Toninho Horta.

 

R/1 – É um disco que, junto com a ‘Terra dos pássaros’, ele fecha um ciclo assim, que são músicas que eu compus em meados dos anos 1960, até até vamos supor 1980, praticamente assim. Vamos supor praticamente entre 1970 e 1980. Então tem 10 anos ali de composição, nos dois discos, o ‘Terra dos pássaros’, e nesse que só tem o meu nome. Então, quer dizer, são discos que tem participações de vários músicos, tem muitos dos companheiros do Clube da Esquina, como o Lô, cantando comigo ‘Manoel _____’, Wagner Tiso, que fez o arranjo do do ‘Bons amigos’. O Robertinho, que gravou ‘O Clube da Esquina’, Luiz Alves, tem muito uma galera, Nivaldo Ornelas(?), que também levei com a gente desde o Berimbau Aqui ‘Bá-Berimbau, Bote Berimbau’, em Belo Horizonte. Então assim, quer dizer, são dois discos que eu registrei um repertório que já vinha fazendo músicas com os parceiros do Clube, o Ronaldo, o Fernando. Infelizmente, não teve nenhuma música com o Márcio, assim, nesses dois discos. Mas assim, é mas tem tudo tinha umas feras daquela época, então, eu registrei as influências minhas da bossa nova, um pouco dos arpejos violonistas da música erudita, que eu absorvi um pouquinho, um pouco do barroco mineiro que eu via quando era criança nas igrejas. Um pouco do pop-rock, do James Taylor, Jimi Hendrix, então o meu repertório também foi um pouco variado. Então muita gente, tem um pessoal que gosta do Toninho Horta, que toca as músicas mais pops, tem outros que gostam de eu cantando, tem outros que gostam de eu solando na guitarra, entendeu? Então porque eu sempre viajei em várias praias, eu nunca consegui fazer uma coisa só assim eu sempre fui meio atirador, tentando fazer várias coisas. Então esses dois discos retratam bem essa versatilidade ou pelo menos a diversidade musical que eu tenho, que gosto de ter, de viajar em todas as partes. Eu acho que música… Todo tipo de música é boa. Eu acho que eu sempre vejo pelo ponto de vista musical, acho que tudo tem qualidade, só você saber fazer e ter um background, uma influência boa para você poder fazer uma coisa de qualidade assim. E são discos assim, por exemplo, ________ virou disco de cabeceira do pessoal do Skank, do Samuel, entendeu? Então e graças a Deus o pessoal, assim tanto do pop rock nacional, como Lulu Santos, o Herbert Vianna, uma vez me viu num bar em São Paulo: “Meu mestre, meu mestre.” O Lobão. Então, desde esse pessoal até o pessoal da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, que eu gravei várias vezes orquestra de cordas com eles lá nos estúdios. O pessoal me respeita, tal. Então sempre que eu aquela coisa do baile, de fazer baile e entender o jazz e a música pop. Quer dizer, e indistintamente, considerar quer dizer, fazer a música de uma forma natural e tentar por o bom gosto assim independente de você “Olha, eu não gosto disso, não gosto daquilo.” A única coisa que eu não gosto, quer dizer, isso é uma coisa que ninguém gosta musicalmente, mas não precisa nem falar está no mercado.     

 

P/1 – Todas essas músicas tem uma história, a gente não vai poder falar de todas, mas como surgiu a música ‘O Manoel ______’? 

 

R/1 – Manoel, né? Como você falou no ‘________ eu só queria falar do Manoel. A música ‘_____’, ela tem um é um tipo de samba, meio Partido Alto, que faz (Batucada falada) que é aquela introdução. E é uma influência que eu tive do Jorge Ben, nos anos 1960. Em 1965 ele gravou aquele disco que vendeu 100 mil cópias, e eu tirei o disco todinho, de cabo a rabo. E tinha até um programa na televisão chamado ‘________, dá a chance’ e que eu toquei...(Risos) mas eu não ganhei nada. Eu ganhei uma bomba de flit(?) no final. (Risos) porque não deu nada assim 

 

P/1 – Chamava ele mesmo assim?

 

R/1 – Chama ‘________, dá a chance’, aí na eliminatória eu toquei músicas minhas. Aí tal: “Um jovem garoto promissor, tocando músicas de sua autoria e cantando.” Com aquela vozinha meio esmerada, mas eu fui para a final. Quando eu cheguei na final, em vez de tocar músicas minhas, fui tocar as músicas do Jorge Ben, aí, sei lá, tirei terceiro lugar… Segundo ou terceiro, e me deram as bombas de flit, o de coisa lá, mas o prêmio mesmo, que era bom, nada. Mas assim, o Jorge Ben me influenciou muito pela coisa do negro, e eu tenho uma relação muito grande Que todo mundo fala assim: “O Toninho Horta é o rei da harmonia.” Mas agora, por exemplo, eu fiz um disco de forró, com Dominguinhos, Elba Ramalho e Fagner, com toda uma cozinha nordestina. Ou seja, botar bumba, zabumba e sanfona, com ritmo nordestino, mas com harmonias e melodias mineiras. Então, eu quero gravar um disco também meio pop rock, hip hop, sei lá o que, mostrando meu lado de groove, que eu tenho muito, que eu gosto. Que é o lado que eu te falei, que eu tenho o sangue de índio que eu tenho, do negro, do meu pai e essa influência do Jorge Ben e de várias pessoas que eu tive no princípio da carreira também. Mas são experiências que eu quero fazer pro meu futuro. Aí tem essa música que foi muito representativa, e tem o Manoel que é uma balada, que já vem mais naquela onda do Simon and Garfunkel, do James Taylor, que era muito comum nos anos 1970. Eu fiz várias músicas neste estilo, ‘Diana’, ‘Céu de Brasília’ (Som de batucada feito com a boca) sempre acentuando no segundo tempo, Bet beat que eles chamam. Então são músicas com influência totalmente pop, mas tem uma delicadeza de melodia que lembra um pouco aí o que a gente ouviu do barroco, essas influências todas que a gente tem aqui em Minas Gerais, que são influências meio espanholas, portuguesas do século retrasado que vieram de Portugal para Ouro Preto, tudo. Ficaram por aí esses bandolins, essas coisas maravilhosas, esses  3 X 4, no violão, 6 X 8. e Manoel tem um apesar de ser uma balada em 4 X 4, mas foi uma das coisas mais interessantes que eu fiz. Teve uma letra… É uma mágica a letra do Fernando, uma inspiração. E o Fernando, o trabalho dele é interessante, que para cada compositor que ele tem, ele enfoca determinado assunto, atmosfera, uma inspiração. No meu caso, ele sempre pela minha maneira de ser, mais simples, eu sempre falo as coisas que eu penso, e tal, aí ele sempre usou as coisas do cotidiano. Então, no caso, a Diana era uma cachorra às vezes eu estou fazendo um show e falo: “Olha gente, vou tocar uma música chamada Diana, que é minha e de Fernando Brant, se tiver alguma Diana na platéia, me desculpe, mas a música foi feita para uma cachorrinha (risos). Então ele fez Diana, ‘Céu de Brasília’ Eu falei: Olha, eu tenho uma música aqui que eu quero que chame ‘Céu de Brasília’, mas é ele falou: “Eu nunca fui a Brasília” “Ah, se vira, e tal”. Aí ele fez uma letra, parecia que ele vivia em Brasília, de tão maravilhosa que foi. E Manoel era o Jeep do Fernando. Então, se as letras todas que ele fez para mim ‘O Falso Inglês’ era uma maneira de tentar um inglês que a gente aprende no rádio. “Left to day on may que”, não quer dizer porra nenhuma, aí ele fez uma letra explicando e eu cantando a coisa errada e tal, coisa genial. Também como Márcio e Ronaldo que fizeram a marca do Clube da Esquina, a marca poética. Mas assim… Aí o Manoel então virou a história do Jeep – Land Rover, que ele subia as estradas. E um dia ele me contou uma história, em algum lugar, eu assimilei aquela história e todo o show que eu fazia eu comecei a contar aquela história. Aí um dia o Brant foi ver um show meu no Palácio das Artes, chegou lá no camarim e falou: “O show estava ótimo, mas aquela história que você contou, não é nada daquilo não, você estava mentindo”. aí eu falei: “Porra, então...”Aí eu fiquei discutindo com ele. “Brant, olha, então eu acho que você bebeu porque eu tenho certeza que você contou aquela história para mim. Sinceramente, eu tinha ouvido aquela história. É claro que a gente bota umas coisinhas aqui fala: “Ah, de manhã comi uns pães de queijo, umas broinhas de fubá tomava um banho. Aí o Jeep não tinha capota, ele pegava o volante do Jeep e botava debaixo do travesseiro dele para dormir com o volante, para ninguém roubar o Jeep dele. Quem ia roubar um Jeep sem volante, tal? Até um dia que ele chega na porta e o Jeep não estava lá, que alguém tentou roubar o Jeep, mesmo sem capota e sem volante. Aí o Jeep, não tinha como parar e desceu lá arrebentou numa árvore lá embaixo. Isso eu não contava essa história. Até no disco do… que eu fiz com Flávio Venturini, no ‘Circo Voador’ que é de 1988, lá no Rio de Janeiro, eu contei essa história, demorou, sinceramente, uns 10 minutos, só a história. Que eu contava pausadamente: “Era uma vez um Jeep Land Rover 51...tum, tum, tum do meu amigo Fernando Brant, tum, tum, tum O Brant dava uns rolês pelas montanhas de Belo Horizonte, tum, tum, tum ..” O Jeep se amarelava com aquela terra das montanhas da Serra do Curral… Então demorou uns 10 minutos, só que na edição final do disco, eles tiraram toda a minha história e deixavam o final, falavam assim, pegavam uma frase e falava assim: “Então sei lá… Então morreu um Jeep, mas nasceu uma canção, que se chama ‘Manuel, o Audaz’”, mas era o final do recado. Então assim, mas é uma música, cara, que sempre que eu toco em Minas, Rio, acho que no Brasil, pelo menos, virou assim uma marca minha muito forte. Isso é até uma ligação com Minas Gerais. Por exemplo, o Lô toca sempre em show. Até o Zé Renato, que é lá do Cachoeira de Itapemirim, que é do Espírito Santo, ele canta. Quer dizer, as pessoas ligadas ao Clube da Esquina, pessoal do ‘Boca livre’ antigo. Eu lembro do ‘Boca Livre’, Claudio Nucci toca demais essa música. O Paulinho Pedra Azul várias pessoas tocam. Acho que o Telo deve ter tocado pro aí também. O Telo gosta muito de tocar o Beijo Partido, por causa da harmonia e tal. E é legal demais ver essa coisa do Telo, que foi sempre um cara talentoso. Mas é muito difícil um cara talentoso se dar bem. Aconteceu o negócio do grêmio, que altamente merecido, é muito bom. Então foi bom, e é legal. Isso dá um gás para a pessoa, dá um upgrade, a pessoa fica mais animada e tudo. Hoje, por exemplo eu estava me sentindo um Star. Em Belo Horizonte, eu nunca me senti um Star, eu só me sinto um Star, assim quando eu pego um avião, vou sobrevoando o pacífico não chega a ser um Star, mas assim eu falo assim: “Acho que agora, pelo menos, assim...” Que lá fora as pessoas consideram e tudo. Aqui no Brasil não, aí em Belo Horizonte eu estou jogando bola, sinuca, bebo cervejinha e tal. Mas hoje assim estava tão legal, assim, que eu estava me sentindo no auge do Clube da Esquina, daquela energia, porque as pessoas passam para gente. O próprio Telo é um cara muito jovem. O Telo não é tão jovem assim, mas ele, é claro, é dos mais jovens. Assim como o Rodrigo, o Gabriel, então esse pessoal passa toda a energia para a gente. Então eu, Paulinho e o Mário, a gente estava igual menino lá. Quer dizer, a gente que já tinha gravado tudo, a maior parte da discografia, porque o Clube da Esquina, de repente, não é só o disco ‘Clube da Esquina Número 1’, né? Quer dizer, é esse disco como marco histórico, mas também todos os discos que vieram na leva. Aí são todos esses do Lô, do Beto, dos que a gente fez, todo mundo por aí. Tem muito mais coisa que a gente não dá para lembrar todos aqui agora. Do Nelsinho, aquelas coisas maravilhosas.    

 

P/1 – Você quer uma água?

 

R/1 – Não, tudo bem, mas se vier uma água a gente toma. 

 

P/1 – Uma água...

 

Fim do CD 02.

 

R/1 – Eu queria falar de um disco que eu esqueci… É que faz parte do desses discos importantes da época do Clube, foi o primeiro registro meu fonográfico, antes do antes de fazer o...

 

P/1 – Só um segundo ele vai ligar...

 

R/1 – É, nessa saidinha ali pro banheiro, eu me lembrei de um de um LP que a gente está doido para sair em CD, parece que já saiu até pirata no Japão, sei lá. E já vi aqui uma edição pirata aqui no Brasil, mas a gente não consegue localizar isso. Mas é um disco que eu fiz com o Beto Guedes, Novelli e Toninho Horta. Até o Novelli chegou hoje atrasado pro evento lá, está na cidade também, que foi uma pessoa muito representativa nesse processo todo do Clube da Esquina, tudo. A gente tocou, fez show juntos, gravou comigo na ‘Terra dos pássaros’ também, enfim. Agora, esse disco é considerado um disco revolucionário, porque tinha aquela paia do rock do Beto Guedes, mas um rock de altamente bom gosto, o Beto sempre foi muito criativo, ele botando os baixos invertidos, coisas que já é uma influência do lance regional, que o pai fazia chorinho e tudo. Então tem aqueles acordes dos anos 1950 ali que tem a terça no baixo, quinta no baixo, e isso na praia do rock, naquelas melodias lindas do Beto, né? O Novelli veio do Pernambuco, com toda aquela aquela influência daqueles modos nordestinos, todos, mas com uma musicalidade incrível. Até a Flora gravou com Michael Tailen(?), música do Novele também, que é um grande baixista. Tem o Danilo Caymmi, que é era o filho mais novo dos Caymmi, que sempre foi um compositor talentoso e flautista. Então, eram pessoas que estavam ali na verdade, era para ser o seguinte: gravou o Clube da Esquina, o álbum duplo, Milton e Lô Borges, Milton Nascimento e Lô Borges, com todo mundo participando. E o Ronaldo Bass, o pessoal da produção sugeriu na época para EMI, de gravar um disco com Beto, o disco comigo, um disco com Novelli, e um disco com o Daniel, que eram os compositores na época que já estavam fazendo, já tinha uma produção interessante  para ser registrada. Mas eles já tinham feito um investimento grande no disco duplo no álbum duplo do Milton, o Clube da Esquina, aí eles falaram então que não dava para ser um disco para cada um, mas que poderia ser juntar os quatro para fazer um disco. Até a foto, e tal, retrata muito isso, como é que eles espremeram a gente num banheiro então a gente ficou em volta de uma latrina, assim e o Cafi(?) bateu a foto de cima assim, de um banheiro que era um cubículo lá na EMI, para mostrar o quanto que a EMI nos comprimiu, para fazer aquele disco. Mas o troco que a gente deu... (Risos) O troco que a gente deu é que a parte musical é belíssima, entendeu? Toda a música do… Tem o ‘Viva eu’, do Novelli, música cheia de harmonia, de modulações. Tinha participação do Tenório Júnior, que na época da ditadura ele sumiu lá no Sul, na Argentina, não sei. Mas enfim, era um cara altamente talentoso, um músico maravilhoso. O Nô era um batera baiano, que chegou lá na também quer dizer, a coisa de música é impressionante, que você vem um cara da Bahia, outro do Nordeste, outro de não sei aonde, e a gente se encontra e faz música. Então isso é maravilhoso, com a música o pessoal se entende de uma forma maravilhosa. E esse disco então, hoje é considerado, pelos músicos da nova geração, como um dos discos mais importantes. O lance do rock do Beto, a sofisticação do Novelli, aqueles ritmos também que vem do Nordeste. O Danilo Caymmi, aquela coisa do samba carioca, mas com o tempero baiano, aquela coisa meio sensual. “Tam, ram, ram, ram...”, aquela melodia mais descansada. E eu gravei pela primeira vez ‘Manuel, o Audaz’ desse disco. Gravei ‘O meu canário vizinho azul’, com a minha irmã flautista, Lena, cantando a mesma música. E fiz uma gravação do ‘Manuel’ tocando guitarra e duas ou quatro flautas, não me lembro. Uma versão mais assim otimista de ‘O Manuel’. Então assim, são trabalhos que que estão aí, quer dizer, novas gerações vão conhecer um dia, já que está fora de catálogo, infelizmente. Mas altamente importante.      

 

P/2 – E falando em novas gerações, eu queria que você falasse um pouquinho 2000, se eu não me engano, você voltou a participar do Festival com a sua filha, a Luíza.  

 

R/1 – Ah, Luiza, exato.

 

P/2 – Eu queria que você falasse um pouco desse desse momento. 

 

R/1 – Pois é, eu até já tinha passado da época dos festivais,  para mim festival foi no final dos anos 1960, né? E a gente sabe que o que está aí hoje no mercado, essa massificação da música de consumo, música de má qualidade musical. Porque hoje em dia existe muito mais produção, muito mais marketing e tudo do que música verdadeira. Existe, claro, música verdadeira, mas ela ocupa um espaço muito pequeno, quer dizer, em relação ao que ocupava naquela época. Antigamente fusa, eu ouvia quando tinha entre os 15, 20 anos de idade, eu ouvia a Rádio Mineira de Belo Horizonte, tocava músicas americanas, tocava samba canção, tocava rumba, tocava tocava umas coisas, boleros, que era muito bolero influenciou muito a coisa do samba canção nacional. Enfim, eu o que tinha de música boa naquela época, bossa nova, falsica nova(?), lá de São Paulo, que vinha com aqueles programas tocando aqueles trios todos da época dos anos 1960, era maravilhoso. E hoje não tem mais isso. Quer dizer, se a gente não for pras escolas e mostrar para os jovens a boa música, a boa arte, a poesia, se a gente não fizer essa cultura assim, não colocar, não começar a colocar na cabeça da juventude mesmo, enquanto eles ainda estão com uma possibilidade de aprender tudo. Porque o que vem hoje de informação, internet, televisão, é muito rápido e já não tem mais censura. A gente estava falando de censura, né? Quer dizer, as coisas ruins vem também. Então a pessoa pode estar aprendendo achando que estava aprendendo uma coisa legal e não está. Então era uma oportunidade de voltar a pensar nisso, na coisa de qualidade. Até participei do seminário agora cultural em Itabira, preparação pro fórum mundial de cultura, no meio do ano, e eu falei muito nessa questão da qualidade. Que hoje qualquer pessoa que tem um disquinho, grava um disco. Mas é uma faca de dois gumes, as vezes o cara não tem qualidade, não tem autocrítica nenhuma, entendeu? E o fato disso é muito perigoso. Então assim, vamos incentivar. Eu perdi um pouco o fio da meada, você estava falando do...?   

 

P/2 – Festival, a participação do festival agora.  

 

R/1 – Ah, é, exatamente. Aí teve um negócio, o convite do festival, eu falei: “Ah, eu não vou entrar nessa, porque eu sei que essas coisas aí de hoje em dia é multinacional, é globalização. Então não vou entrar nesse esquema. Não vou perder tempo não. Já estou macaco velho nessa história. Eu prefiro continuar o eterno rebelde alternativo, mas pelo menos eu tenho o meu próprio selo e eu gravo o que eu quero.” Eu saí daquela coisa das imposições das gravadoras  para direcionar o seu trabalho, eu nunca quis isso na minha música, por isso que eu sempre tive o selo alternativo, se tem várias produções. Tenho uma produção gravada ao vivo na Rússia, outro ao vivo na Coréia, tem várias produções na Itália, no Japão, nos Estados Unidos, entendeu? E no Brasil também, mas então eu falei assim: “Então não vou participar de festival, já era, tal. Aí o pessoal: “Participa, participa, participa...” Aí eu fiz uma música tinha feito uma música  para minha filha, lá na Áustria, chamava ‘O amor é para se amar’. E a minha irmã escreveu para mim no festival da Globo sem eu saber. Aí, de repente, quando eu vi a música foi classificada. Aí ela falou: “Agora não tem jeito, você tem que ir lá.” Então aí eu falei assim, o pessoal da direção do festival me ligou, e falou assim: “Olha, vamos arranjar uma intérprete de um tom legal para sua música.” Eu falei: “Já que eu estou aqui...” Então falei assim: “Eu quero que a Sandy cante essa música  para mim.” E eu sou muito fã da Sandy e do Júnior, porque eu acho que tudo bem que eles tenham cantem músicas sertanejas, e tem uma limitação normal, natural, melódica, mas são coisas simples e tudo. Mas eu não gosto muito da coisa caipira industrializada, como é a coisa do sertanejo. Mas enfim, eu respeito, eu acho que eles tem um público nacional, e mais que isso, eu acho que o Sandy e Júnior, transmitem uma coisa de alegria, de afetividade, de alerta pros jovens de hoje em dia, acho muito bonito. E sempre fui muito fã deles, eles desde pequenos cantando assim eles são uma gracinha e tal. E eu falei assim: “Eu queria que a Sandy cantasse essa música para mim.” E aí a Globo ficou uma semana, duas semanas  para tentar me enrolarem, falando assim: “A Sandy não vai poder, não sei o que… Vamos então chamar cantora de peso para cantar sua música e tal...” Eu falei: “Cantora de peso? Está por fora.” Então eu falei assim eu falei: “O Luiza, você quer cantar a música que eu fiz para você?” Ela falou: “Pai, eu só canto no banheiro.” Aí ela falou: “Eu canto pai. Você quer mesmo?” Falei: “Claro, eu quero que você cante. Eu fiz a música para você, a música fala em duende, fala uma coisa tão pura. Eu vou colocar uma cantora com aquela voz: “Duende...”, com voz de vibrato e tudo? Não dá, tem que ser aquela vozinha flat, tipo _______ (Imitando instrumentos com a boca)” , sem vibrato. ______, Wanda Sá, Célia Vaz, entendeu? Lisa Ono no Japão, são cantoras que cantam daquela maneira belíssima antiga. E falei e minha filha cantava assim naturalmente, não precisa ser cantora. Aí ela foi, então para ela foi um baile de debutantes, botou aquele vestido de 300 mil reais, um sapato de 500 mil e me botaram uma roupa, sei lá, de 800 mil, eu todo embonecado lá. Para eu chegar lá no final da história e saber que o júri era composto de onze pessoas, onze babacas que porra, não tinha nenhum músico na história. Então, respeito DJs, quero gravar até um disco com DJ também, aproveitando a onda aí. O _______ me chamou outro dia, eu quero fazer um disco com coisa eletrônica. Mas tinham onze pessoas, eram DJs, gente da sociedade, isso e aquilo, produtor, mas não tinha um músico, um maestro, um compositor. Então é lógico que não podia dar Toninho Horta, nem na final. Aí eu passei longe. Aí, ganhou uma música também que dispensa comentários, tal. Até a banda Tianastácia defendeu. Até legal, que eles tem um pique legal, mas a música não tinha tinha nada a ver. Tanto que acabou o festival, não aconteceu mais nada. Mas a minha filha gostou,  para ela foi uma coisa assim de debutante. Nesses dias ela escreveu um bilhete para mim falando assim: “Pai, quero ser cantora um dia.” Mas depois nunca mais. Hoje faz circo e tal. Mas eu estou produzindo, aos pouquinhos, um disco para ela só de música pop, só de coisa legal, assim pop mais com orquestração, que um dia o público vai ver esse CD. 

 

P/2 – Legal, e quais são os outros projetos  para agora pro futuro? 

 

R/1 – Projetos né? Eu fiz um… Eu fiz um selo chamado Minas Records, que está em andamento. Está um pouco lento, já que eu sempre faço muita questão de escolher os projetos  para lançar, tem que ser sempre coisa de bom gosto e tudo. E como independente você sabe que a gente tem aquela dificuldade de distribuição e de bancar e tudo. Então estou esperando uma hora que tenha um apoio, um patrocínio ou algum padrinho, para juntos, a gente, uma parceria para que a coisa possa deslanchar. Hoje, por exemplo, o selo Sonhos e Sons, de um outro grande, de um outro músico muito importante de Minas Gerais, que é o Marquinhos Viana, que fez um trabalho assim em cima do rock progressivo. Mas é um cancioneiro, um violinista muito bom também aqui que foi da sinfônica e tem um trabalho próprio. Fez várias novelas e tal. Marquinhos tem um estúdio hoje que tem mais de cem discos, então ele já tem os clientes no Brasil inteiro que compram. Eu espero um dia, poder ter esse selo, representativo a nível nacional. Não só para colocar a minha discografia internacional no Brasil, mas também  para puxar os valores mineiros e tudo para acontecer no Brasil. Quer dizer, não para acontecer, mas assim, para ajudar a difundir o trabalho das pessoas aqui e também levar para fora, já que eu tenho vários contatos na Espanha, na Holanda, no Japão, na América, e distribuir esses discos lá fora, pela Minas Records. Até eu tenho uma reunião agora essa semana que vem, eu vou estar em Nova York, vou estar em Roma primeiro, depois eu vou para Nova York. Eu tenho uma reunião com um pessoal de um selo ____ Minas que eles querem representar o nosso selo aqui. Que eles tem um catálogo pequenininho, mas pelo menos vai ter uma coisa de qualidade. E além desse projeto, tem um outro que eu estou com ele há 16 anos. Em 1988 eu fiz o primeiro, eu iniciei um projeto chamado ‘Livrão da música brasileira’, que tem esse nome até hoje. Na verdade a idéia foi de 1985, aí em 1986 eu fiz realizei um seminário instrumental em Ouro Preto, que durou vinte dias. Até hoje esse acervo está inédito, quer dizer, esperando um padrinho aí também, já que foi um evento que foi considerado assim, pelas pessoas que participaram, como evento mais importante da música instrumental no Brasil.      

 

P/2 – E deu origem ao festival de inverno? 

 

R/1 – Não, não. O festival de inverno já existia. A gente fez praticamente na mesma época, sem conflitar um com o outro. Festival de inverno encampava várias artes da literatura, música contemporânea, circo, música, pintura, fotografia e tal artes plásticas. Mas assim, o seminário foi só de música, música instrumental. Então durante vinte dias a gente levou Rafael Rabello, Paulo Moura, Clara Sverner Clara Sverner, Zimbo Trio, Orquestra de Cordas e Dedilhados de Pernambuco, Uakti, Marcos Viana, Dori Caymmi, por aí vai, e vários várias pessoas Paulo César Santos muitas bandas do Brasil inteiro. Então assim é Sivuca, se eu for falar aqui, vou lembrar de muita gente. Então assim, foi um evento que aconteceu, tiveram 10 workshops, 23 conferências, 28 cursos de instrumentos. Ainda tinha assim o Roberto ______ com a ‘Análise transacional’, pras pessoas, para cuidar da cabeça dos outros. Então foi uma coisa bem completa. Foi um projeto megalomaníaco que eu criei, que foi encampado pelo governo federal, através da Funarte, na época, o grande Ziraldo me deu um super apoio nesse projeto e a Universidade Federal de Ouro Preto, a Fernando Campos lá me ajudou a realizar esse evento junto com a minha empresa Terra dos Pássaros. Então, acabou esse seminário a gente tem hoje um acervo que tem aí 44 horas de gravação de áudio e vinte e tantas horas de vídeo VHS registrado, de todos os shows, workshops, cursos que e a Emília Beta Carvalho, pessoas que iam  para lá, ________ teve lá os maiores craques. Até para falar sobre produção musical, direitos autorais _____ Pontes, enfim. Então e eu tinha tido a idéia do ‘Livrão’ naquela época, em 1985. Mas aí eu embarquei no seminário e o ‘Livrão’ ficou parado, já que só o ‘Livrão’, já era um projeto muito grande. Então hoje o ‘Livrão’ é o seguinte: É um livro, um compete com 700 partituras, que vem desde Carlos Gomes, o ‘Quem sabe?’, passando pelos primórdios Chiquinha Gonzaga, João Pernambuco, _______ da paixão cearense, passando todos pessoal da dos primórdios até o Donga, Telefone, Senhor, depois Luiz Americano, pessoal da época de ouro, Lamartine Barba(?), Ary Barroso, todos aqueles craques da época de ouro. Depois vem samba canção, Tropicália, Clube da Esquina e tal. Até os compositores contemporâneos instrumentistas dos anos 1880 para cá também. Então, assim, é um livro que está em andamento desde 1988, quando a secretaria do Estado da cultura encampou na gestão da Ângela Gutierrez. Depois, em 1999 eu voltei pro Brasil, depois de 10 anos em Nova York, retomei o projeto e com ajuda do ministério da cultura, _______. Aí eles resolveram ajudar a bancar que inicialmente eram 400 músicas, agora já estão em 700 e eu fechei em 700 porque vão ter vão ter verbetes para cada um dessas 700 músicas, além das partituras, como eu disse, vai ter outro livro com as letras de todas as músicas, as letras cifradas. E cada música, elas vão ter até cinco indicações de as melhores. Por exemplo, a gravação da música que a gente ouviu ‘Caminho’, a gente ouviu mais de 20 gravações, para escolher as cinco melhores, e eu com uma equipe de professores, de educadores. Rogério Leonel, Lígia Jaques(?), Luiz Henrique Faria(?), Elder Rocha e Maria Luz Florence(?). Então, essa é a minha equipe principal, e a gente está nesse trabalho há vários anos, com o apoio da Cesita(?) Cesita Energética Mineira e do _____ do ministério da cultura. E agora eu _____ lei federal, está aprovado, eu estou tentando ver se eu faço a captação. Já está 90% desse material as referências, que eu te falei, das gravações, até cinco gravações. Então tenho o intérprete, o ano da gravadora, o nome do disco, entendeu? E tudo e já na sequência das gravações mais importantes. Então, foi um trabalho muito apurado, muito moroso, também por causa da seriedade e tudo. Mas, agora é aquela visão: só estão as músicas que a gente considerou, porque são músicas feitas por compositores natos. Então tem muita gente que faz música difícil, mas não tem naturalidade nenhuma. São cópias ou trechos são colagens de outras músicas. Então é preferível você colocar ‘O lar do sertão’, uma melodia ou ‘Uma lua branca’ da Chiquinha Gonzaga e também, é claro, tem uma música super avançada do Hermeto Paschoal. Mas todas as músicas foram pesadas assim a nível melódico. Então, se ela foi aprovada melodicamente, então e como estética, como forma, aí sim. Se a letra fosse boa, aí melhor ainda. Então foi escolhido, quer dizer, um livro extremamente musical. Então vão sair quatro volumes de 450 a 500 páginas, são 2000 páginas de obra do ‘Livrão da música brasileira’. Agora esperando aí, alguém se sensibilizar,  para poder patrocinar e a gente realizar esse sonho. E eu tenho que agradecer as pessoas que me ajudaram ______ Barbel, do ministério da cultura, Ângela Gutierrez, o Otávio Elísio, que foi secretário da cultura em Minas, o ministério do patrimônio nacional e, assim principalmente os compositores que, sem eles não existiam nenhum de nós, para poder tocar essas músicas belíssimas. Acho que vai ser um projeto que eu espero em vida poder ver esse projeto realizado, porque acho que vale a pena, acho que pode ser assim a bíblia do músico do novo milênio, já que o material, a riqueza da música brasileira hoje, o pessoal tira o chapéu no mundo inteiro, é considerada a música popular mais importante, entendeu? Então, não só no Brasil, mas a nível de mundo. Quer dizer, já tem gente no mundo inteiro procurando sobre o ‘Livrão’: “Cadê o ‘Livrão’? Cadê o ‘Livrão’?” Falou assim: “Isso é coisa de mineiro, está esquentando, está no forno.” Está meio enrolada, mas uma hora sai.            

 

P/2 – Vai sair. (Risos)

 

P/1 – O Toninho, estamos aí infelizmente já terminando nosso primeiro tempo 

 

R/1 – Tranquilo, claro.

 

P/1 – Vamos ter em breve aí um segundo...

 

R/1 – Certo.

 

P/1 – Nós estamos fazendo pro site aí, eu não sei se você ficou sabendo...

 

R/1 – Não.

 

P/1 – O dicionário anárquico do Clube da Esquina...

 

R/1 – Que legal.

 

P/1 – Que a gente está pegando verbetes tirados da entrevista, já vi que tem aí vários verbetes aí já editando a sua entrevista. Mas eu queria que você desse aí uma definição aí de guitarra.

 

R/1 – Guitarra? Bom aí aí teria o que? Um verbete chamado guitarra e teria uma...

 

P/1 – Que a gente usa o verbete técnico, que você faz o dicionarizado, e depois você pega uma história, uma definição pessoal. 

 

R/1 -  Legal. Guitarra é comigo mesmo...(Risos). Não, quem que eu vou falar guitarra? Guitarra é Chiquito Braga, Wes Montgomery, eu acho que acho que a vida inteira eu me espelhei nos guitarristas, naquele som das cordas. O futuro da minha expressão como pessoa. Porque acho que no fundo, é mais para a gente fazer o que gosta, o que sente e primordialmente, como um instrumento, uma coisa que Deus nos deu, é poder passar isso pras novas gerações. Quer dizer, a gente se alegrar com o que faz e poder passar isso de uma forma harmônica e tudo. Então inclusive a harmonia na guitarra é a coisa que eu mais prezo, porque como a minha influência é uma influência clássica, eu toco a guitarra de várias formas. Por exemplo, eu gosto de guitarra sólida, que tem aquele sustem, você dá um acorde, ela fica com um sustem parecendo um teclado, entendeu? E eu uso muito a corda solta e faço arpejo de baixo para cima, que é uma influência mais erudita. E tem hora que eu faço umas terças, que parecem duas flautas tocando. Ou então dou uns bloks (Imitando o instrumento com a boca) que são blocos de acordes, que parecem aquelas coisas de metais americanos (Imitando o instrumento com a boca), né? Então, quer dizer, a guitarra é um instrumento que eu acho que poderia quer dizer, não é como piano, que seria um instrumento mais completo, que você tem, como uma mesa _____, você tem ali desde a tuba até o flautim até a última nota lá do violino, a coisa mais aguda que é assim mas a guitarra, ela te dá essa condição de você passar por várias… Você pode tocar desde balada, desde clássico, até pop, rock. Quer dizer, é um instrumento, acho que foi o instrumento mais legal, é um dos mais legais do século, eu acho. Porque desde o rock até o George Van Eps, até o Pedro Mateus, que tocava aqui em Belo Horizonte Chiquito Braga, Luizinho, Carim e tal. É um instrumento assim que mais que a garotada gosta. Todo mundo está começando a aprender: “Não, quero tocar guitarra.” Então o pessoal quer, porque é o instrumento da liberdade, o pessoal quer botar aquele strap, aquela distorção quer dizer, é um instrumento mesmo da liberdade. Eu consegui a liberdade na guitarra através dos acordes, e como eu sempre gostei do piano, naquela coisa de orquestração, Ravel, aquelas coisas, Vagner. Então eu comecei a bolar, fazer uns acordes fechadinhos e falar assim: “Só quero essa nota aqui, a sétima bemol, lá em cima.” Aí eu mudava a posição. Até quando eu estava gravando uma vez com o Dominguinhos, o segundo disco dele no pela BMG, lá no Rio de Janeiro, o Jaques no pandeiro, que já tinha gravado o primeiro disco comigo junto com o Dominguinhos, falou: “Olha, _____ aquele cabra da ________.” Que é o Toninho Horta, né? “Chama aquele cabra da  _________. Ele tem a mão parecendo um pé de galinha.” Porque eu botava uns acordes assim tudo. Então naquela época, já estava surpreendendo. Com 18, 20 anos já estava surpreendendo com aquela coisa. Porque eu queria, eu não tinha um piano em casa, então eu queria que a guitarra ela tivesse uma dimensão mais próxima do piano possível. Então comecei a usar cordas soltas e acordes alongados, fazendo aeróbica com os dedos para poder. Poderia ficar falando aqui horas da guitarra. Mas assim, é um instrumento acho que da minha liberdade. Acho que através dela, acho que através do solo do ‘Trem azul’, e de vários acompanhamentos que eu fiz. O ‘Amor de índio’ do Beto e vários ‘Solidão’ do Flávio Venturini. Quer dizer, eu acho que eu deixei a minha marca aí com a Gal Costa, com a Elis Regina, com a Maria Bethânia, com Leny Andrade, com Flora Purim, com Nana Caymmi, mas principalmente com o Milton e o pessoal do Clube da Esquina. Acho que a marca da minha guitarra Snake, está registrada lá. Por isso que assim, eu estou dando vou dar lá só um presente pro Museu, mas assim eu acho que é muito significativo. Porque foi onde eu comecei a tocar e eu pude, através desse instrumento ganhar a minha vida, conseguir sobreviver e emocionar as pessoas. Não tem nada melhor do que falar assim: “Pô, eu gosto daquele acorde seu, como que é aquela coisa?” Então isso para mim é a riqueza maior é isso, as pessoas reconhecerem o que você faz. Então a gente é só apenas um instrumento, uma possibilidade, vamos dizer assim. A guitarra para mim é dez, o instrumento maior do mundo.  

 

P/1 – Legal.  

 

P/2 – Última pergunta.  

 

R/1 – Vamos.

 

P/2 – É, você é uma pessoa, personalidade pública que está acostumada a dar entrevista. Hoje foi uma entrevista um pouco diferente.  

 

R/1 – Hoje foi muito pesado.

 

P/2 – Você falou desde a sua infância, adolescência… O que você achou de ter feito essa volta pro passado e pro Museu Clube da Esquina? 

 

R/1 – Olha, achei muito especial. Porque, primeiro que porque assim, tem a coisa da seriedade também. Às vezes você faz entrevista, de repente, televisão está ali  para fazer um registro apenas, uma coisa a nível de uma reportagem rápida, tudo. Então não dá, às vezes não dá nem tempo. Eu sempre fiquei muito incomodado com o negócio de televisão, essas coisas assim, porque não dá tempo, daí você começa a falar, aí os caras já cortaram e tudo. Aí, o pessoal já vinha me fazendo a cabeça, o Marcinho, a Cláudia, pessoal do Museu já tinha me ligado, o Pablo e tudo. “Não, vai ser um negócio assim, vai ser demorado, você vai falar sobre tudo.” Então eu falei então já... Aí eu já vim me preparando de certa maneira, quer dizer, eu não vim bolando nada a nível do que eu ia falar, mas assim, eu pelo menos falei assim: “Eu vou sentar naquela cadeira lá e vou relaxar, porque se eu se eu começar a ficar incomodado com a hora eu vou viajar amanhã  para Europa e tudo vai pesar.” Mas assim, eu gostei exatamente de poder ter tido a oportunidade, assim inclusive que vocês me deram, pelo tempo e a visão e o carinho eu vejo pela expressão de vocês assim, que vocês me deram também uma condição super legal. Porque de repente, se vocês são chatos demais, aí ia ser muito ruim. (Risos) Ruim demais. Se vocês não entendessem nada de música ou não tivessem nenhuma sensibilidade, aí ia ficar muito ruim. Eu ia falar: “Pô, mas está duro de fazer.” Eu ia fazer 15 minutos e já ia embora. Mas aí pelo contrário, vocês me trataram super bem, me entendem e respeitam essa esse trabalho que está sendo feito a favor em prol do Museu, que é uma coisa que eu torço assim de fé mesmo, para acontecer mesmo. Queria agradecer à Claudinha e ao José.

 

P/1 – Zé Santos.

 

R/1 – Zé Santos, mineiraço também. Você é mineira ou não?

 

P/2 – Não. 

 

R/1 – Paulista. 

 

P/1 – Só neta. 

 

R/1 - Só neta, está em casa. Você é o...?

 

P/1 – Fernando.

 

R/1 – Fernando e o?

 

P/? – Sergio.

 

R/1 – Sérgio, está vendo? Super equipe aqui. Queria agradecer mesmo de coração assim, porque nem sempre a gente tem essa oportunidade. E graças a Deus que eu também dei sorte. Deus sempre ajuda a gente. A gente acha que as vezes nas horas mais preciosas, a gente consegue uma força maior. Então, assim, e eu ter dado essa entrevista no dia de hoje, depois de ter tido esse dia lá do colégio Estadual, com a orquestra de violões, com vários membros do Clube da Esquina, Marcinho, o Murilo e mais a presença do Nelsinho, agora chegou o Novelli e mais todo o pessoal da nova geração, o Gabriel, o Rodrigo o Rodrigo Borges, o Gabriel Guedes, e todos eles. Afonsinho, Chica Amaral(?) Então para mim foi maravilhoso. Eu acho que eu consegui juntar essa galera, porque não estava muito previsto, mas o Marcinho diretor me deu me deu autonomia, mas assim, eu acho que isso me ajudou a preparar o meu espírito  para chegar aqui com um super bom humor. Eu não sou uma pessoa mau humorada não, mas assim, às vezes preocupa, que a gente vai viajar, fica meio preocupado. Mas eu fiquei totalmente relaxado. E acho que parece que vocês comentaram que estava pelo menos saindo mais ou menos, estava bom, então...

 

P/1 – Não, legal demais...(Risos)

 

R/1 - ...(Risos) Então eu fico feliz de poder dar a minha contribuição, ter falado assim um pouco de cada coisa sobre cada assunto que a gente permeou assim. Mas é isso aí. Eu acho que eu sou apenas mais um do Clube, e é claro que também não pertenço só ao Clube, eu tenho toda a minha história, minha trajetória. Mas o importante é isso, é cada um na vida, em que em qualquer coisa que você fizer, só você acreditar e meter bronca. Porque tem muita gente que vai valorizar o que você faz. Então eu acho que o que a gente já fez no Clube da Esquina, já dava  para alimentar aí uns 400 anos do fantasma, da geração do fantasma da revistinha.   

 

P/1 - ...(Risos)...

 

R/1 – Então é isso aí, obrigado a todos vocês. 

 

P/2 – Obrigada. 

 

R/1 - Que o ‘Livrão’ saia, mas que principalmente o Museu atinja os seus objetivos. Valeu Marcio Borges, Bituca, meu querido Milton Nascimento, meu querido Bituca, Lô Borges, eu acho que vocês vocês três principalmente. Se falar quantos tem no Clube da Esquina, eu vou falar quer dizer, tem eu sou de falar milhões, mas  para falar o núcleo principal, está ali: é a família Borges, Bituca, o Lô e tudo. Nós somos apenas contribuintes. Eu pelo menos vejo assim. Mas como o contribuinte também é importante. Eu acho que se não tivesse o Toninho Horta nessa história, seria um pouco diferente. Então, graças a deus, que a minha guitarra estava lá nas gravações (Risos) Beijão  para vocês. 

 

P/1 – Maravilho, fechou com chave de ouro 

 

R/1 – Estamos aprendendo, né?

 

P/1 – Parabéns mesmo 

 

R/1 – O que é isso...

 

P/? – Vou tirar o seu microfone.

 

R/1 – Tira aí. Que bom, não sofri muito não.

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