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História

Do luto à luta

História de: Francisca Azevedo de Almeida (Célia)
Autor:
Publicado em: 20/11/2014

Sinopse

Francisca Azevedo de Almeida, também chamada de Célia, nasceu em Manaus em 16/09/1963, mas morou até  a adolescencia no interior. Pensando no estudos dos filhos, o pai se transfere com toda a familia para a capital do Amazonas. Célia passa a trabalhar com o pai no comércio local da familia,  conhece o seu marido, casam-se, tem dois filhos. Quando tudo parecia prospero para a familia, os filhos crescidos, o marido eletricista, cada vez mais reconhecido no seu oficio, é atropelado e morre. A dona de casa passa a sustentar a familia com a renda das costuras feitas com o grupo de mulheres, a Associação de Costura Ponto de Ouro do Zumbi, com apoio da Igreja Catolica do bairro. Atualmente o grupo continua forte, reunindo talentosas mulheres aguerridas em cada corte e costura.  

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História completa

Me chamo Francisca Azevedo de Almeida, nasci em Manaus, na Balbina Mestrinho, em dezesseis de setembro de 1963. Mas morava no município do Careiro da Várzea. Meu pai é Luís Sousa de Almeida e minha mãe Marines Azevedo de Almeida. Eles trabalhavam na agricultura e também, meu pai tinha fazenda e a minha mãe tomava conta da casa e dos filhos. Ela teve 18 filhos, mas só tem cinco vivos.

Minha mãe ia colocar o meu nome de Celia e ela veio aqui pra Manaus, e quando foi na hora do parto, foi um dia de domingo que eu nasci. Minha mãe disse que a dor foi se alterando, de repente, ela se sentiu sozinha. Ai, ela fez uma promessa que se nada de mal acontecesse comigo ali, naquele momento, ela ia colocar meu nome de Francisca, que ela fez a promessa com São Francisco, foi por isso que eu tenho o nome de Francisca. Mas me chamam de Celia.

O meu pai era muito cuidadoso com os filhos. A minha mãe também. Eles faziam de tudo para que não faltasse nada pra gente. Naquele tempo, no interior, tinha muita fartura. Quando foi no ano de 1977, meu pai veio aqui pra Manaus, ele tinha fazenda, barcos. Ele veio fazer um frete aqui em Manaus, e quando ele veio pra cá, ele viu a oportunidade de vim do interior e trazer os filhos pra estudar, porque alguém fez uma proposta pra ele de trocar um barco que ele tinha novinho por um terreno já com a casa e um comércio aqui em Manaus. E quando ele voltou pra lá, ele já voltou decidido a vender.

Eu era feliz e não sabia (risos), porque eu queria vim pra Manaus, o sonho era Manaus, e lá [no interior], era muito bom, a gente brincava à noite aquela lua, o céu estrelado era lindo, maravilhoso, aqui em Manaus, o céu não é tão lindo… Tinha muito peixe, bastante peixe. Os vizinhos passavam quase a noite acordado, pegavam a tarrafa pra ir tarrafiar, era peixe, um monte de peixe que eles pegavam: pacu, curimatá, sardinha, vinha bastante peixe. Aquilo era uma festa, a gente amanhecia o dia, vinha todas as vizinhas pra gente tratar o peixe, ticava, lavava, salgava e colocava lá em cima pra secar no sol. Aguardava que era pra comer durante o mês. Eu sinto falta do sabor da carne do interior, não é o mesmo sabor dessa carne daqui.

No interior a gente estudava até a terceira. Mas naquele tempo, eu acho que as pessoas não aprendiam muito, porque tinha a palmatória, você tinha que estudar tabuada. Depois que a gente fez a terceira série e o meu pai trouxe a gente pra Manaus pra estudar. O meu pai colocou um comercio, quando ele trouxe nós, que ele vendeu o barco dele, a fazenda foi a ultima que ele vendeu. Ai, ele colocou um comércio, nós todas trabalhávamos lá, mas aquilo era muito cansativo, também. Continuei os estudos, me matriculei na quarta série e fui estudando, estudando. Mas ai, quando eu comecei a namorar (risos), larguei. Não vingou mais e lá, a gente namorou bastante, quatro anos. Fiquei muito tempo lá e ele muito tempo aqui. Ele veio primeiro do que eu e não vingou mais.

Vim com 16 anos e o meu pai não deixava a gente sair do lado de fora do balcão.

Ele comprou uma taberna que já tinha tudo. Vendia pirarucu, quando eu cheguei aqui que eu vi aquele povo comprar aquele pirarucu pra comer, aquele pirarucu seco, feio, eu digo: “Meu Deus, como a gente era tão feliz e não sabia, esse povo compra isso aqui pra comer desse jeito?”, eu achava aquilo um absurdo. Coca-Cola eu não suportava Coca-Cola, não gostava, mas depois acostumei a tomar Coca-Cola. Ninguém tomava refrigerante no interior. Comia tudo saudável lá.

Eu aprendi andar em Manaus sozinha, que eu ia lá no centro comprar uma roupa, comprar um sapato pra mim, a minha mãe me disse o caminho que era uma vez, dai eu já aprendi a ir, andei lá e voltava pra casa.

O meu esposo é cearense, a irmã dele tinha um bar e trouxe ele do Ceará pra tomar conta do bar dela, foi lá que eu conheci ele. Eu morava na taberna, tomava conta de lá e do outro lado da rua, ele veio morar. Não gostava dele, ele era antipático, o santo não bateu. Demorou muito pra gente começar a namorar. A minha irmã começou a namorar o primo dele, foi ai que a gente ficou mais próximo. Começamos a conversar, porque eu não conversava com ele, não puxava assunto. Porque o meu pai dizia assim: “A gente não conversa com quem a gente não conhece”, e a gente tinha vindo do interior, então, tinha tudo isso. Ai, eu não conhecia, também não conversava, depois que a minha irmã namorou o irmão dele, ai a gente foi conversando e foi ai que o namoro foi, e casou (risos).

Foi tudo muito rápido (risos). Mas também não engravidei rápido não. O meu primeiro filho, eu vim ter com seis anos depois que a gente já tava junto, passou mais três anos pra poder engravidar do segundo e já mandei fazer uma laqueadura. Na minha família, todo mundo só tem dois filhos.

Continuei morando no mesmo bairro, porque a casa da minha mãe tem dois pisos e no piso de baixo, não morava ninguém e o meu pai, por causa da taberna, meu pai me colocou pra morar lá. Continuei trabalhando lá, trabalhando, trabalhando. Dai, tive o meu primeiro filho, e depois, tive o segundo. Ter filho já atrapalha um pouco, parei de estudar. Eu só retomei o meu estudo quando os meus filhos já estavam maiores e eu deixava eles sozinhos e ia ao colégio. Eu vi a oportunidade do colégio ser próximo, ai eu fui lá e me matriculei pra terminar o ensino médio.

Eu comprei um terreno, porque lá, era do meu pai. Nós compramos um terreno e construímos nossa casa. Eu já vim morar no que era meu. Deixei de trabalhar com o papai, não fui mais. Foi o tempo que veio o supermercado, veio o cartão de credito, as pessoas já iam mais a taberna, já foi caindo mais um pouco o movimento. Só fechou depois que o meu pai faleceu.

Aqui não tinha o asfalto e nem água. Depois que eu vim pra cá, sete meses depois, colocaram água encanada. Começou a invasão no São José, pessoal invadiu e criou esse bairro lá, essa invasão foi muito grande. Depois o pessoal invadiram aqui no Zumbi.

Meus filhos estudaram no Zumbi, escola publica. Logo que eles eram menores, eu paguei escola particular pra eles estudarem, já tinha escolinha por aqui.

Meu marido era eletricista, ele foi trabalhar numa empresa como motorista de uma família que chegou de São Paulo, que era dono de um estaleiro. Quando os meninos [os filhos do padrão] cresceram, aprenderam a dirigir, o dono do estaleiro ensinou como trabalhar no estaleiro, na parte elétrica, a fazer quadro…”, ele disse: “Tu vai pra dentro do estaleiro e lá vai ter um rapaz que vai te ensinar”, e ensinou todo o trabalho pra ele e ele aprendeu rápido.

Quando ele faleceu, ele trabalhava na área, saiu do estaleiro e foi trabalhar por conta própria. Ele ainda não tinha aberto uma empresa, mas esse já era os planos, abrir uma própria empresa pra ele.

Em 2007, foi trabalhar e quando ele voltava pra casa, aqui em Manaus tava tudo esburacado, a rua, ai ele foi desviar de uma caçamba, e ele caiu dentro de um buraco, caiu assim, o buraco furou os dois pneus do carro dele. Ai, ele tinha um, né que era o estepe, ai os funcionários dele que vinham com ele, foram lá, tiraram tudinho, certinho, ai ele ligou pro rapaz da lancha vim pra mandar consertar o pneu. Ai, o rapaz veio e chamou ele: “Vamos comigo lá?”, ele disse: “Não, eu não vou não”, porque a estrada do Tarumã era escura. Ai ele disse: “Eu vou ficar aqui com eles, tu vai lá, conserta o pneu e volta”, ai escoraram ele assim, atrás do carro, sinalizou tudo certinho, colocou lá, ai tinha uma lâmpada, ele colocou aqui, colocaram bem aqui, era escuro, colocou. Ai, ele disse… ele disse, não, porque ele faleceu e ele não me falou, já foi o rapaz… as pessoas que estavam com ele vieram me falar que quando eles saíram de lá, esse rapaz que bateu e atropelou ele tava bebendo. Ai, esse rapaz não gostava muito dele, o rapaz falou pra mim. Ele conhecia, mas eu nem sabia que ele conhecia esse homem, conhecia de vista do estacionamento, onde todo mundo deixava seus carros lá na marina. Ai, porque assim, o meu marido, ele ia lá, colocava o projeto dele, varias pessoas colocavam, ai ele ia numa lancha que ele já tinha trabalhado e mostrava o serviço que ele fazia. Ai, todo mundo fazia isso, pedia do dono da lancha, ai ele deixava lá pra ver o trabalho que ele fazia e ele tava sempre ganhando. Ele fazia o painel de uma lancha, divulgava, tirava foto, tinha um álbum. Mostrava pro dono da lancha como é que era feito. As pessoas gostavam, todos achavam que ele era engenheiro e não era, ele só tinha a quarta série. O rapaz disse que mudaram o pneu, ficaram esperando o outro e eles três se escoraram, o meu marido se escorou do lado do acostamento. E o cara veio de lá. E eu acho que pelo fato do meu marido tinha terminado de ganhar a proposta [de trabalho] ele não tava gostando disso. Ele pediu pro meu marido ensinar o trabalho que o meu marido fazia pra ele. Meu marido disse que não, que ele não ensinava, que ele tinha aprendido e não ensinava. Eu acho que ele foi ficando com raiva disso e por causa da indicação. Então, tinham indicado e o meu marido tinha ganhado pra fazer o trabalho de uma lancha e eu acho que ele ficou com raiva. Dai ele viu quem era, tanto é que desviou dos dois que tavam do lado e pegou o meu marido de cheio, ele botou o carro em cima, saiu arrastando bem longe.

Foi premeditado, diz que o pessoal ficava gritando, gritando pra ele parar e ele não parava. Ele não tinha carteira. Eu acho que ele comprou o delegado, não sei quanto ele deu, porque o delegado tava do lado dele e não do meu. Tá solto, nem foi preso. Com tudo aquilo que aconteceu, ele foi ouvido pela Juíza, ai ele disse que não, que ele prestou socorro. Ele não prestou socorro, ainda levou testemunhas lá. Eu só tenho uma testemunha, ele socorreu o meu marido, ele chamou o SAMU, ele levou pro hospital, não levou, fugiu, tava morto de bêbado. As pessoas que estavam ali, viram.

A gente perde o chão. Mas antes disso, eu já tinha feito os cursos oferecidos pelo Consulado. Esses cursos, eu já tinha feito, eu já tinha curso de costura, a gente já tinha um grupo formado. Esse grupo tinha sido formado pela irmã Leonilda, hoje ela já é até falecida.

Desde que quando eu vim morar no Zumbi em 96, 97, eu comecei a participar da igreja, lá eles davam o aviso: “Olha, vai acontecer isso na comunidade”, ai iam convidando quem quisesse pra vir. Os meus filhos eram pequenos, eu fui me aproximando da igreja, fui me aproximando, vinha às missas, depois, comecei a fazer os cursos. Eu não sabia nada, não sabia nem movimentar a máquina, nem colocar ela pra funcionar. Hoje eu sei que eu já avancei muito, avancei muito no ramo da costura, por quê? Porque eu não sabia nada, nem colocar a linha na máquina.

Após 2007 eu peguei mesmo pra valer. Eu tenho que fazer alguma coisa pra gerar renda pra ajudar o meu filho mais velho, porque depois, terminou o contrato do meu filho mais novo no INPA. Ele já tava cursando a faculdade particular, aí eu: ‘agora, eu tenho que trabalhar mesmo pra gerar renda pra botar dinheiro dentro de casa pra pagar as contas’.

A vida maravilhosa que nós tinha lá em casa, lá em função do trabalho, porque eu não precisava nem trabalhar, que ele [o marido] ganhava muito bem, foi tudo embora, despencou tudo. Aquele que andava só de carro teve que aprender a andar de ônibus.

Vendi os dois carros, porque ninguém sabia dirigir. E a nossa casa tava em construção. Hoje, eu ainda não finalizei, mas vai chegar a hora que eu vou finalizar.

Já tinha um grupinho formado, porque a gente fazia calcinha, fazia vestido, a gente foi se profissionalizando cada vez mais. E ai, eu tinha mais força quando isso aconteceu, quando ele faleceu, mais força pra ter vontade de aprender mesmo e que desse certo pra gerar renda dali pra ajudar na família.

Eu sou a tesoureira, eu costuro, eu faço mais calcinha, mas quando a outra não vem, eu largo a minha máquina e vou lá, sei fazer o pijama também.

Nós somos quatro, a Nazaré e a dona Dalila ficam na produção de pijamas e eu paro as calcinha e vou lá produzir, vou lá, coloco elástico, a Elizangela fecha pra mim, ai eu vou e coloco os elásticos. Nós temos CNPJ. Essa formação, o Consulado ajudou a gente, mas é difícil, quando você vai formar o documento, porque tinha uma moça que fez pra gente, a gente lá levava, o cartório não aceitava, cheio de idas e vindas. Demora bastante.

Somos a Associação de Costura Ponto de Ouro do Zumbi, ainda tem esse “do Zumbi” (risos), foi feita uma escolha, naquele tempo tinha bem mais gente, umas 20, 25, que elas vêm em função dos cursos, da qualificação, sentaram, fizeram uma roda, ai uma falava uma coisa, outra falava outra e a irmã, na época, ia anotando, ai depois, foi decidido que ia ficar Associação de Costura Ponto de Ouro, porque acharam que era um nome forte, assim, que ia dar certo.

A gente vê sempre o que tá na moda, a roupa que tá na moda. A gente procura levar isso lá pro pijama, entendeu? Se for uma roupa, mas ai, tira da roupa que tá na moda e procura levar pro pijama. A gente vai nas lojas, a gente vai na Marisa, a gente vai na Riachuelo, a gente vai na C&A. A gente vai lá no shopping, na PUC, eu sempre tô dando uma passada, eu olho o que tem, eu vejo assim o que tem, quando a vendedora não tá olhando, bato uma foto (risos), ai fica olhando assim, pra ver se vem vendedor, olha se tem câmera, ai se não tiver… ai, se nada disso acontecer, a gente compra uma peça (risos). Tem pessoas que dá ideias, os cliente dão ideia e a gente pega a ideia deles, faz uma peça, aquela que ela encomendou e faz mais, se der certo, ai a gente vai colocando.

Agora, a gente tá fazendo… não, nós trabalha tudo no mesmo horário, porque quando eu não venho pela manhã, nós vem pela tarde,, terça e quinta que eu vou na UFAM, eu venho… a gente vem pela tarde. E segunda, quarta e sexta, nós vem… terça e quinta, nós vem de manhã, segunda, quarta e sexta, nós vêm a tarde, quatro horas, todo dia, porque a gente cuida das nossas casas também, tem que fazer comida, tem que lavar roupa, cuidamos da casa e da associação.

Sete anos, tô sozinha. Sabe que o pessoal fala assim: “Tu tem que arrumar um namorado, não aparece ninguém?”, digo: “Aparece, só que quando eu arrumar, eu tenho que arrumar um de qualidade”, ela diz: “Tu tá esperando o teu marido de novo” (risos) “Tá esperando o teu marido de novo”, digo: “Não tô não, sei que ele não volta, mas tô só”.

O meu sonho… eu pretendo terminar a construção da minha casa, finalizar e tal, tá faltando ainda algumas coisas. Finalizar, ver meus filhos todos formados e eu tá bem também comigo mesma e feliz (risos).

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