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História

Dorama Salomão Teixeira

História de: Dorama Salomão Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Dona Dora - nascida Dorama Salomão - guarda lembranças felizes de uma infância por assim dizer, dourada. As brincadeiras, a escola e um ambiente de paz, amor, carinho, respeito, emoldurando uma educação centrada na religião, nos exemplos e nos ensinamentos das histórias bíblicas. Seus pais tinham procedência árabe. Assim, dentro de casa falavam árabe; na rua, o Português. O pai fazia calçados, arreios maravilhosos. De pelica. Os irmãos de dona Dora aprenderam com o pai, também faziam maravilhas. Ela e a irmã, as tarefas de casa, com a mãe. Casou-se, teve cinco filhos. Procurou repetir a criação que conheceu dentro da casa dos pais. Veio para São Paulo ajudar um filho. Chegou a cozinhar para cem pessoas num único dia. Hoje, sonha visitar o túmulo dos pais, o túmulo da família. E também - por que não? - que o marido e a filha voltem do sono eterno.

História completa

Dorama. O nome que meu pai escolheu para mim por ser, também, o da filha de um seu conterrâneo muito, muito amigo. No entanto, hoje, dona Dora. Nascida no interior de São Paulo, tive os pais de procedência árabe. Ele, vindo de Beiruth, aqui chegou com a intenção de “fazer a vida”, como se dizia antigamente. Ela, mandada para cá pela família: a guerra se aproximava e nos lugares onde ela ocorria as mulheres corriam o risco de serem abusadas.


Encontraram-se em Franca, ali decidiram constituir uma família. Ele, sapateiro e seleiro. Ela deu-lhe seis filhos, dos quais eu fui a caçula - nasci em Pedregulho. Minha mãe sempre foi muito religiosa, lembro dela, na minha infância, lendo os evangelhos de sua terra - ainda hoje temos, guardados, os evangelhos escritos em árabe. Tenho na memória uma cena que se repetia em minha casa e que bem simboliza o ambiente em que fomos criados - eu e meus irmãos: nós, os filhos, sentados em frente a nossos pais ouvindo - ora de um, ora de outro - as histórias da Bíblia.


 

Na minha casa nunca foi erguida a mão para bater num filho, era só com as histórias da Bíblia que éramos educados.

 

Tínhamos uma casa muito grande - dez cômodos ao todo -  o que nos permitia receber as visitas dos conterrâneos e convidados especiais, como, por exemplo, o padre da igreja ortodoxa, a que pertenciam meus pais. A religião sempre teve um peso considerável na minha família. Íamos regularmente à missa e nos preparávamos condignamente para o sagrado compromisso. Minha mãe era, simplesmente, apaixonada por Nossa Senhora Aparecida e meu pai era congregado do Sagrado Coração de Jesus. Tornei-me, também, bastante próxima da igreja, ajudando em todas as oportunidades e necessidades, a ponto de ter recebido, em meu casamento, aos vinte e cinco anos de idade, a gratidão de cinco padres de minha paróquia, que concelebraram o matrimônio.


Conservo, praticamente, todas as lembranças de uma vida feliz, uma infância muito boa com a família. Em casa, falávamos árabe; mas na sociedade nos comunicávamos, obviamente, em Português. Todas as noites, à luz de um poste em frente de casa, brincávamos de roda - todos de mãos dadas, cantando, recitando. As filhas mulheres - eu e minha irmã - aprendiam as tarefas domésticas, os pratos típicos, enquanto os meninos - eram quatro filhos homens - trabalhavam com o pai, fazendo calçados, arreios… Tudo que lhes era ensinado, o ofício perfeito do pai. E eu fazia as linhas para eles costurarem. Sapatos, chinelos muito bem feitos, tudo de pelica. Usávamos para ir à missa, casamentos… Mas a verdade é que só saíamos para esses lugares com os pais; só íamos se eles fossem. E, naquele tempo, criança, eu pensava em ser enfermeira quando crescesse.

 

Mas aí a gente tinha comércio, tinha que trabalhar. E aí acabaram-se os desejos (...)


 

Curiosamente, eu comecei a namorar muito cedo, nove anos. Porém, mais curioso ainda é que o namoro daquela época era o que chamávamos de flerte. Por exemplo, flertei com o filho do Oswaldo Aranha. Sequer era permitido ficar perto do moço. Não tinha beijo, não podia pegar na mão. O primeiro beijo ficou assim reservado para o marido. Em cinco meses namoramos, noivamos e casamos. Durou trinta anos, sem um arranhão. Sem qualquer desentendimento, qualquer discussão. Companheirismo e amizade até o último dia. Que foi em 1988, graças ao coração. Ou melhor, ao cigarro.


Casamos, vieram os filhos - cinco no total, sendo duas meninas. Em determinado momento, os maiores já crescidos, o caçula com nove anos, um deles veio para São Paulo em busca de oportunidades. Aconteceu de vir morar em uma pensão, ali perto da Nove de Julho, cuja proprietária vivia lhe pedindo dinheiro emprestado. E tanto pediu e tanto deveu que ele acabou ficando com parte da pensão, por conta da dívida. Decidiu, então, comprar dela o restante do negócio. E eu vim cozinhar para ele. Aliás, para os clientes dele. Tornei-me cozinheira da pensão, e acho que deu bastante certo: chegamos a ter, em um só dia, cem pessoas para almoçar. E de toda essa gente eu só tive atenção, carinho, educação. Nunca uma palavra menos cortês, sempre toda consideração. Para muitos eu tinha o significado de uma mãe e os tratava como filhos. Quando iam embora, “choravam eles, chorava eu”. No fundo, acho que sempre tive bem aguçado esse sentimento maternal. Talvez por isso tenha achado maravilhosa a experiência de ser mãe, “ter um filho, saber que é seu”. E meus filhos, a educação de todos eles foi na base da conversa, sem um grito, sem uma palavra ríspida. Por isso, foi extremamente difícil perder uma filha - ela morreu no meu colo, de câncer de pele.


Agora, na tranquilidade e no aconchego do avançar da idade, eu moro com dois filhos solteiros - um dos quais me deu um neto, hoje com vinte e dois anos. Tenho um sonho, nesse outono da minha existência: visitar o túmulo dos meus pais.


Meu sonho (...) é visitar o túmulo da família. Lá tem doze pessoas. Aqui eu tenho meu marido e minha filha. Era que eles voltassem (...)

 


 

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