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História

Ele era um homem muito agressivo

História de: Maria da Paz Teófilo da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2014

Sinopse

Maria da Paz Teófilo da Silva nasceu em Fortaleza-CE, no dia 28 de junho de 1965. Casou-se pela primeira vez em 1980. Sua comunidade foi afetada pela construção de uma indústria siderúrgica e, por isso, em 2010, teve de se mudar para a comunidade Parada Nova Vida, nas imediações da região metropolitana de Fortaleza. Em seu depoimento, ela relembra das farinhadas, quando acompanhava sua mãe e um grupo de mulheres no fabrico da farinha, das dificuldades que passou pelo conturbado primeiro casamento. Porém, revela-se uma pessoa muito esperançosa com o futuro dos netos e feliz com o segundo matrimônio, contraído há quase 20 anos. Em suas palavras, “eu não tive tempo de conhecer uma pessoa que me desse valor e que eu gostasse também. Mas, graças a Deus, eu encontrei essa pessoa e estou com ele até hoje. Pretendo viver o resto da minha vida com ele”. Essa história fala da violência sofridas por Maria da Paz em sua casa, por parte do seu ex-marido, pai dos seus quatro filhos mais velhos.

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História completa

Eu nasci na Maternidade Escola, em Fortaleza-CE, no dia 28 de junho de 1965. Minha mãe teve 12 filhos mas só seis se criaram. Meus pais eram agricultores e plantavam mandioca, feijão, milho, entre outros. Morávamos com uma tia numa casinha de palha. Eu achava aquela casa a coisa mais linda do mundo. Brincávamos com sabugo de milho, que era a boneca. Tinha uns pepinos que a gente furava e fazia um cavalo ou a coisa que queríamos que fosse. Colocava uns pauzinhos no chão - essas eram as brincadeiras. Era muito bom, eu gostava. Dormíamos juntos nessa casa de palha. Nesse tempo não tinha cama. Era telha, parede e tudo de palha. 

Naquele tempo as coisas eram muito difíceis porque a pessoa trabalhava mas o dinheiro que ganhava não dava para comprar o necessário para se alimentar. Quando alguém ficava doente nós levávamos para o rezador. Antigamente tinha muito rezador bom. A pessoa chegava com o filho doente e ele dizia o que o filho tinha. Se fosse pra morrer ele dizia também. Só tomávamos remédio caseiro, como o chá. Não tinha injeção, não tinha comprimido. Hoje não existe mais isso. As pessoas já correm para o medico, que é quem decide qual a doença que aquele menino tem. Antigamente, só ia para o hospital quando era alguma coisa grave. Lembro-me que tinha a Dona Conceição, uma rezadeira muito boa. A maioria corria pra lá. Mas ela já morreu. Deus a levou. 

Quando criança eu ia rapar mandioca e comia o 'mexerico' - aquele pozinho que ficava crocante -, na casa de farinha. Quando tinha a farinhada, que geralmente durava um mês, colocávamos a mandioca num tanque, colocava água e espremia para tirar a goma. Depois, colocava para prensar e ficar seca para torrar a farinha e, assim, ela ficar pronta. Lá em Fortaleza tinha escola, mas era muito difícil porque o meu pai não tinha emprego fixo. Tinha um pessoal que ensinava, mas não era em colégio, era particular. Pagávamos cinco reais por semana. Quando tinha dinheiro para pagar, ficávamos, mas quando não, tinha que parar de ir ao colégio. Eu não aprendi muita coisa. Só aprendi a fazer o meu nome. Já as minhas outras irmãs nunca nem aprenderam a escrever o nome. Mas eu aprendi, graças a Deus. Eu não sei ler muito, não vou dizer que eu sei ler, mas pra onde me colocarem eu vou. Basta a pessoa me dizer aonde é que eu vou. Mas, aprender ler mesmo... Depois, fui ser dona de casa muito nova. A minha mãe trabalhava lavando roupa e eu cuidava dos irmãos mais novos até eles ficarem maiores. Eu fazia comida e mingau com leite para eles. A minha mãe saía e já deixava o tanto certo para fazer. "Fulano, você vai fazer isso. Cicrano, você vai fazer aquilo ali". Assim, cada qual tinha a sua tarefa a fazer. Minha infância não foi muito boa.

 Eu não tive aquele tempo de conhecer uma pessoa que eu gostasse, que eu simpatizasse, que me desse valor e que eu também gostasse da pessoa. Quando eu ainda ia fazer 12 anos eu conheci o pai dos meus filhos mais velhos. Eu não tive muita oportunidade de brincar, de ter aquela infância.  Não sei se era por causa que ele era uma pessoa que gostava de ameaçar. Quando somos menores, temos medo das coisas. Eu tinha medo. Acho que eu me ajuntei com ele por medo. Não foi por amor ou por gostar dele. Foram as ameaças. Ele me ameaçava. Dizia que se eu não o quisesse, ele me mataria, faria isso e aquilo. Eu tinha medo. Aí eu me ajuntei com ele. Passei 19 anos casada com ele, mas sofri muito. Passei muita coisa ruim. Eu tive oito filhos dele, mas criei quatro. Os outro morreram. Ele era uma pessoa muito agressiva. Quando ele estava bom, era uma boa pessoa; mas quando tocava numa bebida, a coisa já mudava. Ele era operador de máquina numa indústria, a EMPLAC. Além de me bater, ele arranjou outras mulheres. eu decidi que eu não queria mais viver com ele, que não aceitou, pois não queria que eu fosse embora de Fortaleza. Ele ficava sempre perturbando. 

 Saí de Fortaleza e fui morar na Comunidade do Bolso, um lugar muito calmo, tranquilo. Não tinha tribulações, era uma coisa muito boa, mas não tinha trabalho para as pessoas. O trabalho que tinha era só na roça. Quando cheguei, comecei a trabalhar rapando mandioca e passava um dia na casa de uma pessoa fazendo faxina.

O meu pai também veio embora pra cá. Ele ficou morando conosco. Foi nesse tempo que eu conheci esse outro rapaz que eu vivo hoje, o Jucineudo. Foi a primeira vez que eu vi... Ele andava muito lá na casa da minha mãe, em Fortaleza. Quando cheguei aqui não deu outra: eu me ajuntei com ele. Já está com 20 anos. Conhecíamos-nos da cidade, mas não conversávamos. Nem passava pela minha cabeça porque ele é dez anos mais novo do que eu. Temos dois filhos - o mais novo tem 16 ano. Até hoje eu vivo com ele, graças a Deus. Pretendo viver o resto da minha vida junto a ele.

Em 2009 começou a desapropriação. Eu me mudei para a Parada em 2010, mas fazem dois anos que eu moro nessa casa. O meu marido veio aqui, olhou a casa, compramos uma ali embaixo. Essa aqui eu ganhei do Governo, uns 18 mil reais. Mas eu tenho outra casa lá embaixo. Com o dinheiro da desapropriação de lá eu comprei a outra e essa daqui é a da desapropriação. Eles falavam que não podia ficar a casa perto das indústrias. Eles iam nas casas perguntar quem queria, quem não queria. Eu fui uma que aceitou logo, porque lá de onde a gente morava era muito difícil pegar um carro e ir para São Gonçalo. Tínhamos que ir à pé. Como eu cuidava também do meu pai, eu tinha muita dificuldade para sair e levá-lo ao hospital. Quando veio a desapropriação eu achei bom porque surgiu muito emprego. Não é para todos, porque aqui não tem gente preparada para essas indústrias que chegaram. Mas tem muitos que trabalham, como servente, pedreiro e coisas assim. Surgiu muita coisa boa, como o emprego para os homens. Já para as mulheres mais velhas, não, mas para os novos tem muito emprego. Até hoje, eu acho bom, gosto daqui, mas sempre fica aquela coisa: não deram a casa de farinha para trabalharmos e não tem nada para se fazer aqui. À noite eu vou me deitar, assistir televisão.

Eu tive dez partos, todos de maneira normal. Cinco morreram. Quando eu via mesmo que eu ia ter eu chamava a minha sogra, mas já nasciam mortos os bichinhos. Teve um que ia fazer sete meses - ele ainda nasceu vivo. Mas os outros dois nasceram mortos mesmo.

Eu já conhecida a parteira de muitos anos. Ela já tinha pego os meus irmãos também, pois alguns nasceram em casa. Ela era muito boa, experiente. Mas, graças a Deus, eu tive os outros todos na maternidade e não foi preciso ter em casa. A parteira era muito paciente, atenciosa, ela vinha e examinava. “Tal hora você vai ter” e naquela hora marcada que ela dizia, tinha mesmo. Não precisava daquele alvoroço e de ficar correndo para lá e para cá. Eu achei bom. Preferi ter em casa, mesmo porque a outra era pequenininha e eu tinha pena de deixá-la em casa. Na hora do parto do meu menino que tem 36 anos e do meu mais novo eu tive eclampse. Quase morri.

Certa vez, ajudei a fazer um parto de uma vizinha. Eu perguntei pra uma senhora já mais velha, que era até rezadeira, minha madrinha. A madrinha minha, a Chicó. Aí, eu digo assim: “Madrinha, me diga uma coisa, como é que corta o imbigo?”. Ela disse assim: “Minha fia, ocê mede três dedo, três dedo assim do cordão umbilical e corta três dedo. E quando acabar, você amarre bem amarrado que é para não soltar. Assim eu fiz. Quando eu saí de lá, esse menino já estava com quase cinco anos. Ele me chamava de mãe. Ave Maria! Eu gostava tanto dele.

Uma filha minha ficou uma louca varrida. Eu era católica, não ia à igreja, não participavade missa porque a igreja é longe, mas eu já participava da igreja. Chamei uns crentes, uns irmãos para orar. Aí eu disse que ia aceitar. E aceitei. Tem culto toda semana, na segunda e na sexta. É melhor. É bom orar e agradecendo as coisa boas e ruins, porque temos que agradecer a Deus por tudo.

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