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História

Elifas Andreato

Sinopse

O artista plástico Elifas Andreato conta um pouco como foi sua infância e a chegada em São Paulo, morando em cortiço e ajudando a mãe e o início da carreira de artista plástico na fabrica da FiatLux como torneiro mecânico.

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História completa

Nós morávamos num cortiço, isso já em São Paulo, por volta de 1960. Havia um senhor nesse cortiço, chamava-se Sabas, era mestre da Escola de Aprendizes de Mecânico da Fiat Lux. Ele me arrumou o primeiro emprego com carteira assinada, fui ser aprendiz de torneiro mecânico. O sonho da minha mãe era ter um filho operário. E comecei a ilustrar um jornalzinho da fábrica, feito em mimeógrafo. Fazia umas charges contra a fábrica, umas sacanagenzinhas. A fábrica inaugurou um refeitório novo, fábrica inglesa. E quiseram saber quem era o desenhista do jornal. ‘Pra quê?’ Era para decorar o salão de festas! E eu achando que queriam me mandar embora... Eu estava com 15 anos e não sabia ler – e eu tinha vergonha. Aí fui fazer um curso de alfabetização de adultos, e esse é o único diploma que tenho. O professor Osório me ensinou a ler. Como eu era adolescente e os demais alunos, adultos, ele resolveu me dar mais atenção. O meu aprendizado foi um pouco mais fácil. Ao mesmo tempo comecei, sem ter a menor noção de nada, a pintar painéis para decorar os bailes. A oficina preparava as estruturas de sarrafo, eu esticava papel craft com grampeador, fazia lá, inventava meus temas... fui pintando. Para aproveitar a estrutura, na segunda-feira jogava fora o que tinha pintado e punha outro papel para pintar novas coisas. Ao mesmo tempo pintava alguns quadrinhos, porque já tinha o status de artista, não era mais um operário, ficava por conta da decoração, pois tinha baile todo sábado. Depoimento ao Museu da Pessoa em 23/11/2009 Nasceu em 1946 - Em Rolândia, Paraná “Enquanto tivesse alguém pra me dar carona, ficava na redação malhando, estudando, vendo revista estrangeira, aprendendo.” Antes disso, aconteceu muita coisa. A começar pelo meu nome. Morava no mato e me chamava Elifas, já imaginou? Meu avô materno era espírita, e em um livro que ele tinha, de ocultistas, descobri que meu nome saiu de um ocultista francês do século XIX, chamado Elifas Levi. Questionei meu pai sobre o nome. Ele se chamava Zé Vicente. “Por que esse nome tão estranho?” Ele já estava embriagado – meu pai bebia muito – e me disse: “Porque você não vai ser um zé-ninguém como eu”. Passei a achar que essa frase talvez tenha sido a coisa mais importante da minha infância. Nós somos do Paraná. De Rolândia. E por lá não foi fácil. Eu tinha certa habilidade com as mãos, aprendi um pouco de marcenaria. E fiz todo tipo de trabalho que um moleque pobre pode fazer: carregar sacola em feira, limpar casa... Além de muito pesado para menino, trabalho de casa era vexatório porque, na cabeça de um moleque de 9 anos, encerar casa, lavar banheiro, eram coisas de mulher. Perto de Cruzeiro do Oeste meu avô e meu pai abriram um sítio para plantar café. Ainda menino a gente fazia o trabalho de limpar as covas de café. O café se planta dentro de uma cova, porque enquanto a mudinha está pequena é coberta com gravetos, uma espécie de estufazinha para o café se desenvolver. Mas meu avô Juca enlouqueceu porque a geada acabou com o cafezal, e ele perdeu as terras para o Banco do Brasil. Morreu louco. Não tivemos infância, roubaram o melhor tempo da vida do indivíduo, que é o tempo da infância, o tempo em que você constrói o caráter. Tivemos que ralar muito cedo. E meu pai não aguentou a história da família numerosa que ele, sem pensar direito, botou no mundo. Éramos seis irmãos. Mas meu pai pensou: “Vou cair fora, vou deixar de lado”. O recurso que ele passou a usar era o pior de tudo, o alcoolismo. Eu tinha a penosa tarefa de tentar buscá-lo embriagado; às vezes ele caía na rua e eu não tinha força para levá-lo para casa, então eu dormia junto com ele na rua para as pessoas não roubarem as coisas dele. Foi um período muito ruim da minha infância. Depois moramos em Londrina por um período curto. Perto de casa tinha um puteiro. As prostitutas andavam de charrete, elegantes. Eu achava aquilo uma maravilha. A minha mãe, para termos algum recurso, fazia empadinhas e salgadinhos, e eu ia vender na zona, à noite. As prostitutas obrigavam os coronéis a comprar o tabuleiro todo para eu ir dormir cedo. Toda vez que vejo uma prostituta tenho um carinho especial, elas me protegiam. Eu estava com 10, 11 anos. Além dos salgadinhos, entregava leite de charrete, com dois japoneses, de madrugada. Acordava às quatro e meia da manhã... E à noite ia para a zona; quase não dormia. Tínhamos pouco tempo para brincar, pois muito cedinho todo mundo ia para a roça. Quando a gente voltava, escutava rádio. Era o jantar e depois todo mundo na sala ouvindo o rádio, as histórias do Jerônimo: o herói do sertão. A brincadeira mesmo era jogar futebol. E ficar caindo, de um cipó, dentro do rio. Pião a gente jogava muito. Os netos ficavam esperando o avô dar um guaraná Caçula. E depois invadíamos a despensa para tomar leite condensado, fazendo um furinho na tampa... São lembranças boas desse tempo tão ruim. A infância foi piorando à medida que a gente veio em busca de tratamento para o meu pai. Meus pais vieram com os quatro menores para São Paulo para se tratar. Eu e o Eurípedes ficamos com meus avós paternos trabalhando, lustrando móveis. Minha mãe sofreu muito, porque ficou sem os dois mais velhos. Ao mesmo tempo ficou sozinha aqui com um alcoólatra e doente. Ela fazia colar, fazia biscate, se virando como podia, morando num cortiço, uma coisa horrorosa em que moramos algum tempo aqui. Cheguei a São Paulo com 13 anos. A situação estava bem complicada. Ajudava minha mãe até altas horas da noite a fazer colar, as bijuterias vagabundas. Morávamos em um cortiço muito ruim, ali na Vila Anastácio, depois da Lapa. Em um quarto moravam praticamente oito pessoas. Eram uma cozinha comum e um banheiro comum. A única coisa boa era que tinha uma fábrica que jogava em um córrego aqueles blocos de gesso nos quais fundiam peças. Eu os pegava. Comecei a descobrir minha habilidade para fazer algumas esculturinhas, alguns santos. Ganhava algum dinheirinho. Até então não tinha estudado, não tinha como estudar. Em Rolândia não deu, em Londrina tinha que trabalhar. Eu não sabia ler nem escrever. Aí é que surge o Sabas, o professor Osório. A fábrica. Eu já cuidava da decoração do salão de bailes. Decorei de maneiras diversas: neve, um baile no Rio, depois cruzei todo o salão com varais e roupas penduradas. Fiz uma homenagem ao Ary Barroso logo depois que ele morreu. Até que um dia apareceu lá a Marli Medalha, irmã da Marília Medalha, a cantora. A Marli era crítica de cultura do Diário da Noite, jornal de grande circulação. Viu aquilo, viu os meus quadros, virei menino-prodígio da noite para o dia: 15 anos, o moleque pinta favela, miséria, pobreza – que eram os meus quadros. Não acreditava muito naquele sucesso, resolvi esperar. Fiquei na fábrica. A fábrica completou 50 anos no Brasil, os ingleses vieram. Preparei um grande cenário com caixas de fósforo gigantes. Resolveram me indenizar para eu estudar arte. Mas meu pai bebeu aquela indenização toda, e fiquei sem dinheiro e sem emprego. Tive que correr atrás, era o único da família com emprego. Penei muito. Fazia pequenos biscates, tinha dinheiro somente para uma condução. Pegava o Praça do Patriarca na Vila Anastácio, descia no Largo do Arouche. Fui trabalhar no estúdio do Pingo, fazia uns desenhos de nanquim sobre papel com gesso. O Zé Cantor, alfaiate da vila, me apresentou ao cantor e compositor Luiz Vieira, que era um astro. O Zé me levou ao Teatro Record, me apresentou a um cenógrafo. E eu sem dinheiro para comer. Um dia, depois de um tempo, a televisão não me pagou. Fui falar com o Luiz Vieira e ele me deu um conselho: “Olha, tem muito cenógrafo e pouca televisão. Você é jovem, procura outra coisa”. E me deu um dinheiro. Três meses com grana. A caderneta foi zerada na venda. E fui me virar, fui para as pequenas agências. Três anos de muito sacrifício, muito sacrifício mesmo. Não tinha lugar em casa, morava num quarto, não tinha o que fazer. Fui trabalhar numa pequena agência de propaganda. Criei um outdoor que chamou a atenção do Atílio Basquera, então diretor de arte da Editora Abril, a grande empresa de comunicação da época, em franco desenvolvimento. Era um outdoor colorido, quando se fazia tudo em preto e branco. Ele mandou procurar a pessoa que tinha feito o outdoor. Até que entrei como estagiário. Isso era 1967. E de cara fui trabalhar na Claudia. E aí eu tinha papel, revista, tinta, desenhava sem parar! Até assustava os diretores de arte. Desenhei para a Manequim, Quatro Rodas e Realidade, um timaço de jornalistas. E me dei conta de que o país estava sob censura e eu completamente alienado. Cuidava da minha vida, apenas. Mas fiz uma carreira rapidíssima na Abril, pois dormia mal em casa, dormia no chão, não tinha espaço para nada, não tinha papel, não tinha tinta, não tinha dinheiro. Na Abril, ficava até altas horas. Enquanto houvesse alguém para me dar uma carona, ficava na redação, malhando, estudando, vendo revista estrangeira, aprendendo. Foi minha grande escola... O tempo ia passando. Ao ver a ação do regime militar, comecei clandestinamente a fazer o Jornal Libertação, com Carlos Azevedo e Iolanda Huzak. Fazíamos no meu apartamento, eu era recém-casado. Casei-me com 23 anos, fui ter filhos bem mais tarde, com 33. Fazia o jornal e trabalhava na Abril. Isso já era 68. Minha carreira foi muito rápida na Abril: entrei em 67 como estagiário, em 69 era chefe de arte de fascículos femininos. Aí ganhava um salário bacana, comprei a casinha da minha mãe. Comprei uma casa para ela. Vendo as dificuldades que a minha mãe tinha, o cuidado que ela sempre teve com as latas que abria para fazer vasinhos de flores, era tudo sempre limpinho. Eu dizia: “Pô, se um dia essa mulher tiver uma casa, vai ser um brinco”. Passei a sonhar com a casa que ia dar para a minha mãe. Lá longe, molequinho, eu dizia assim: “Vou dar uma casa para a minha mãe”. Bom, consegui comprar a casa para a minha mãe, um modesto sobrado na Água Branca. É um brinco a casinha dela, toda enfeitadinha, uma coisa linda. Em 72 fui fazer o Jornal Opinião, contra o regime militar. Fundei o jornal com o Raimundo Pereira e o Fernando Gasparian. Eu era diretor de arte da Abril Cultural e ganhava o salário de um carro popular por mês. Mas saí, porque não sabia ser o capataz, eu não sabia mandar a pessoa embora. Mas antes de sair fiz a história da música popular brasileira, depois fiz capas, roteiros, direção de shows. E ilustrei livros. Minha vida é ligada ao trabalho, muito mesmo. Fiz jornal, capas e muitos cartazes de shows. Fiz coisas também para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na época das greves. E muitos anos depois criei o Almanaque Brasil, que tem mais de dez anos. Lá eu trabalho com meus filhos, o Bento e a Laura. Minhas alegrias, dois seres humanos incríveis, do bem. Tenho a imensa alegria de ter posto neste mundo maluco duas pessoas do bem, dignas. Ganhei duas netas gêmeas, Clara e Elis. E tenho um netinho postiço, o Pedrinho. O que se pode esperar mais da vida? Dinheiro? Claro que o dinheiro pode encher um pouco o saco se não tem, mas a gente se vira. Mas tenho muito orgulho de dizer que fiz tudo na vida, a carreira, tudo, sem sacanear ninguém. E isso é o que tenho a dizer.
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