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Em contato com a memória

História de: Ailton Alves Lacerda Krenak
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Ailton Alves Lacerda Krenak fala sobre sua dura infância, mas também das muitas brincadeiras que tinha com seus irmãos, primos e familiares. Conta sobre as condições difíceis de sua região até se exilar no Paraná e mudar  outras vezes. Aborda sobre a cultura, os ritos e a história de seu povo Krenak, além de outros povos irmãos com quem mantém contato. Disserta também sobre o contato perdido com a natureza e sua relação especial com o tempo. 

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História completa

 

O meu nome completo é Ailton Alves Lacerda Krenak, esse Krenak é o nome da minha família indígena, do povo Krenak, que vive numa região do Brasil, que é o Vale do Rio Doce, divisa de Espírito Santo com Minas Gerais.

E o meu meu pai e a minha mãe, desde pequeno, eu sempre achava que eles eram irmãos, porque o meu pai se chama Neném e a minha mãe Nesita. Eu ficava sacando eles, quando eu era pequeno, eu falava assim: “Pô, eles são os dois irmãos muito legais”. E a história deles dois é muito bacana mesmo, porque o meu vovô, pai da minha mãe, ele achou o meu pai numa num roteiro de viagem que ele estava fazendo, porque esse meu vovô Pedro, ele foi o guia da entrada dos colonos pra região de selva, onde a gente vivia pra derrubar a mata. E tinha uma família de alemães, que migraram pro Brasil. Eles eram mais habilidosos com essa coisa das tecnologias e eles introduziram as serrarias. Eles precisavam de um camarada que conhecesse aquelas montanhas e aqueles vales, que soubesse entrar onde tinha floresta pra dirigir eles. E o meu vovô Pedro pegou a mulher dele e as filhas, principalmente filhas, muitas filhas. Meu avô passou num vale, onde meu pai estava com alguns dos parentes dele ainda vivendo perto de um rio que se chama Pancas, é a região do Pancas, é uma região que é mais Espírito Santo do que Minas. Mas essa zona toda era um contestado, nem os mineiros, nem os capixabas governavam aquela área, não. Aquela área ali era uma área de conflito intertribal, de conflito entre a jurisdição de Minas e do Espírito Santo. Isso é uma coisa importante de entender, porque como era um lugar onde o estado não tinha presença, as pessoas tinham muito mais autonomia, eram muito mais inventivos, aprontavam pra caramba. Então, tinha os comandantes, tinha os guerreiros. Era um negócio meio Guimarães Rosa. Parecia aquele Sertão Veredas. Quem era mais criativo, quem era mais “brabo”, quem impressionava mais por alguma razão, tinha um governo. Porque ali tinha os índios, os Botocudos, que são meus antepassados. As aldeias deles foram dizimadas, quando eles ainda eram jovens e esses camaradas voltaram a se encontrar muito mais tarde, constituir família de novo. Entrar em todas as contendas da daquela região do contestado da disputa de terra, as guerras que foram feitas, aquelas pequenas guerras regionais por terras. Eles participaram de tudo isso acompanhando. Essa segunda descoberta do Brasil. O Brasil sempre está se descobrindo. Descobre, descobre, descobre, segunda, terceira, quinta. E o meu pai acompanhou o meu avô, ele largou o grupo dele lá no Pancas e acompanhou o meu avô, o pai da minha mãe. E, como ele acompanhou o vovô, ele ficou vendo a mãe e os dois já se entenderam, gostaram logo um do outro e virou casamento.

O meu pai aprendeu a ser ferreiro. Então, todo mundo que precisava, por exemplo, botar um aro de ferro numa roda de um carro de boi, era o meu pai que sabia botar o ferro lá no fogo, derreter ele assim, e fazer o aro da roda de carro de boi. Então, naquela região, naquele sertão, os cavalos que precisavam de ferradura, quem precisava consertar uma arma de fogo, fazer uma foice, fazer um facão, fazer um machado. Então, a minha infância foi ver o meu pai moldando coisas, fazendo ferramentas, fazendo ferros virarem faca, facão, machado.

Essa lembrança das matanças dos bois, eu tenho ela muito forte. Ela gravou muito forte na minha memória. É a coisa da matança dos bois. Porque não matava os bois em lugar separado, matavam eles no meio das pessoas. Chegava numa árvore, prendia o boi e matavam o boi na árvore, assim, com um monte menino passando (risos). Tudo quanto é tipo de crueldade. E na minha infância eu convivi muito com isso que hoje eu vejo banalizado. No cotidiano, na vida das pessoas, que é isso que ganhou o título de violência. O nome de violência. E, quando eu era criança, eu não via essas coisas como violência, eu via isso como o rio trazia as árvores, derrubava tudo, saía arrebentando os barrancos, podia derrubar casa, o boi também podia derrubar casa, os homens matavam o boi, os meninos comiam o boi. Então, era tudo uma dança só.

Ela começou a ser colonizada de uma maneira tão violenta, que as últimas matas, as últimas árvores, mesmo frondosas, que tinha na nossa região, elas foram arrancadas em carretas e eu me lembro que foi a primeira vez na minha vida que eu senti cheiro de diesel, cheiro de graxa e de diesel. Eu estranhava pra caramba, eu achava muito ruim o cheiro de graxa e do diesel, porque o diesel era o combustível que os caminhões grandões, que entravam pra tirar nossa mata, usavam e aquilo era assim, naquele calor, aquela poeira danada, aqueles caminhões passando levando a mata embora. E eu não tinha uma percepção dessa coisa de meio ambiente, dessas coisas mais complexas, mas eu sabia que aqueles caras estavam roubando alguma coisa impagável. Então com essa ocupação da nossa região por empreendedores. Madeireiras, serraria, colonos, criadores de gado, fazendas, nós saímos meio expulsos dessa região, foi quando a gente fez a nossa primeira migração e saímos. De Minas, fomos pro Paraná.

Então, eu tenho certeza que esses momentos que a gente pôde viver de verdadeira liberdade, onde a gente corria o risco, inclusive, de se matar. Porque eu falei com vocês que alguns dos meninos morreram. Mas o maravilhoso disso é que a gente estava tão pleno de vida, que tudo quanto injeção que a gente pegou da vida ali, potencializou a gente, pra gente viver em qualquer lugar do mundo. Eu já fui pro Japão, eu já fui pra Europa, eu já fui pros Estados Unidos, já andei pela América Latina, já andei, entrei em lugares que só doidão, só guerrilha mesmo é que anda, já andei também, já fui em reunião do Banco Mundial, no Congresso Americano, na ONU, na CIA, na KGB. Já andei nesses lugares todos e pra mim não tem importância nenhuma, porque o lugar mais bacana do mundo que eu já fui mesmo, foi dentro daqueles córregos, passar peneira, enfiar balaio, andar em balaio no lombo de burro. A terra dá um imenso um manual de vida pro menino e privar os meninos, ainda mais no comecinho da vida deles, desse choque com a terra, com a natureza é de alguma maneira antecipar esses adultos, esssas futuras gerações de adultos

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