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História

Entre idas e vindas

História de: Ana Virginia de Moraes Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/12/2014

Sinopse

Ana Virgínia nasceu em Fortaleza no dia 24/04/1975. A família morou na capital cearense e na comunidade do Bolso, São Gonçalo do Amarante. Entre idas e vindas, ela chegou a estudar na comunidade do Gregório, mas terminou o ensino médio em Fortaleza, onde começou a trabalhar ainda criança como doméstica. Ainda na capital cearense conheceu seu atual marido e com ele teve filhos. Quase morreu após perder uma gestação de três meses, sobreviveu por um milagre. É evangélica e lembra de quando menina comentavam que a bisavó do pai era indígena, uma história que os familiares não gostam de falar.    

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História completa

Meu nome é Ana Virgínia de Moraes Lima, nasci em Fortaleza, em 24 de abril de 1975.

Meu pai era agricultor, Antônio Rodrigues de Moraes e minha mãe Maria Silva de Moraes, também.

Meu pai nasceu e se criou aqui. Só com 19 anos, 20 anos ele foi pra Fortaleza. Voltou de novo, ele ia pra lá e voltava, ficava, passava uns tempo aqui, voltava pra lá. Com o tempo ele, lá por uns 30 e poucos anos ele se casou com minha mãe. Aí veio morar uns tempos aqui, aí voltava.

Aqui na época era muito dificultoso. Porque era assim, ele tinha um terreno, mas não tinha como sobreviver, não tinha dinheiro pra comprar comida pra nós. Ele já veio pra cá, quando voltou, ele já era casado. Aí voltou já tinha quatro filhos, aí voltou de novo, passou um tempo, quando voltou já tinha cinco, voltou de novo já tinha seis (risos). Ele plantava feijão, plantava milho, macaxeira, mandioca.

Eu vim estudar aqui, mas só tinha duas classes na escola, isso era até a quarta série, eu já tinha ultrapassado a classe. Meus irmãos chegaram a estudar aqui. Meus irmãos ainda estudaram aqui, eu voltei pra Fortaleza, terminei o segundo grau lá. Quando terminei o segundo grau me casei, voltei pra cá de novo (risos).

Eu morava com a minha bisavó. A infância era bom demais. Quando a gente era pequeno aqui, a gente passava o dia todinho no roçado, passava o dia todinho apanhando milho, apanhando feijão. A gente ia de manhã bem cedo, daí ele levava tapioca (risos). O milho a gente pegava, assava, comia nove hora, comia como milho cozido. Na hora do almoço a gente comia o feijão maduro, cozinhava, comia. Quando era cinco hora a gente vinha pra casa, cada um com um saco, era eu, meu primo e os meus dois irmãos, que é a minha irmã e o meu irmão.

Quando eu voltei pra Fortaleza eu já tava com 18 anos. A minha adolescência foi assim, eu passava uns tempos na casa dos meus primos, a gente ia pra Igreja Evangélica, se reunia aquela turma todinha. O meu tio, primo do meu pai que era evangélico, eu chamava ele de tio. Porque o meu pai bebia muito, aí eu sempre gostava de procurar Deus. Ele trabalhava e bebia (risos), ainda bebe. A minha mãe era dona de casa. É viva. Ela trabalhava também na roça. Quando a gente era pequeno, que a gente morava aqui, a gente ia pra roça, a gente ia tudinho pra roça. Às vezes, tinha casa de farinha e a gente passava o dia todinho, de mês, em casa de farinha, raspando mandioca, fazendo farinhada nas casas de farinha. Onde a gente morava ali a água na época era bem farta. O que era bom ali era só a água. Quando a gente queria água era só fazer assim que a água jorrava, a gente pegava aqui, botava o copo e bebia. A água vinha natural! Só a única coisa que era meio difícil era trabalho, porque sempre a gente precisava dum dinheirinho pra comprar uma outra coisa. Era trabalho e transporte, que não tinha também, que era distante, e estudo. Estudo também, na época só tinha até a quarta série, hoje em dia já tem.

Eu quis sempre terminar o segundo grau pra eu ser uma coisa, enfermeira. Mas apesar das coisas, porque era dificultoso, eu tive que trabalhar pra ajudar meus pais, como eu era mais velha tive que trabalhar, aí aquilo dali já fui perdendo, fui perdendo, é, como é que se diz? O valor. Deixei os estudos pra lá e fui trabalhar como doméstica, pra poder ajudar os meus pais a cuidar dos meus irmãos. 

Comecei a trabalhar com cinco anos. Foi assim, era uma vizinha que tinha lá perto lá de casa, aí disse assim: "Mulher, tu tem muito menino, me arranja pelo menos uma menina dessa, me arranja ao menos essa menina aí pra ficar aqui em casa, pra ajudar a ficar com o menino, que esse menino dá muito trabalho". Aí a mãe: "Vai Ana", aí eu fui. Só que era assim, eu ficava com o menino velho, o menino já era bem gordão, eu parecia um palito, aí ficava aqui com o menino, me dava soco, eu, puf, pra trás, com cadeira, com tudo. Ele tinha acho que era um ano, mas eram as bola, eu era um palito, (risos). Aí caía com esses meninos, aí quando terminava: "Não me leva a mal, não, lava só esses pratinho aí", quando olhava a pia, cheia! Quando eu terminava: "Ô mulher, não me leva a mal não, passa a vassourinha aqui". Quando terminava: "Agora tu passa o pano". Quando terminava: "Oh, filha, lava aquele banheiro que tá sujo". Aí, nessa arrumação terminava a casa todinha e elas iam era dormir. Eu ficava lá na pia. Como eu tinha pena, eu olhava pra trás e tinha que ajudar os meus irmãos, aí eu tinha que ir pra frente... Ela não pagava não. O pagamento que ela me pagava era assim tipo uma cesta básica pra mãe, que dava pro mês.

Não foi só eu não, foi eu, as minhas duas irmãs. A mãe botava cada uma em casa diferente.

Uma entrou com sete anos e uma entrou com nove. A que entrou com sete anos, a mulher lá tratou ela como uma filha mesmo. Nas casa que eu trabalhava numa eu passei um ano, outras eu passava três meses, eu ficava pulando.

Quando eu comecei a ganhar dinheiro eu já tinha uns 15 anos, comprava comida pra casa. Eu terminei os estudos com 24. Com 22, por aí, eu me casei, aí com 24 tive a minha menina, quanto ela tava com quatro anos eu vim embora pra cá.

Casei com meu professor de matemática, que dava aula particular. Vou fazer 17 anos de casada. Casemo no civil, aí com dois anos eu casei na Igreja Evangélica. Eu saí de casa aí e passei cinco anos morando com a minha sogra. Aí passei por umas dificuldades, foi na época que eu me operei, eu tive a minha menina, aí tive eclâmpsia, aí tive que ter ela cesária. Quando ela tava com três anos, eu engravidei de novo, aí tive a menina nas trompas, deu hemorragia interna e tava com mioma. Fui no médico, o médico me disse que eu não tava grávida. Só que eu tava grávida, com três meses eu fui pro hospital muito mal, cheguei lá e o médico disse. Aí fui passar por cirurgia, operei na quinta, quando foi no domingo tiveram que me abrir de novo que deu hemorragia interna. Aí eu vim pra casa. Com oito dias que eu tava em casa, na minha cama eu botava um cordãozinho pra estender a fralda da menina, aí o que que aconteceu? O sobrinho do meu marido passou, tinha um saco de bolacha, o sobrinho do meu marido passou, tacou a mão, o saco de bolacha caiu em cima da minha barriga. Tive que voltar pro hospital de novo, passei 15 dias internada, pra ver se desmanchava, porque ficou tipo um sangue pisado. Fiquei no hospital internada 15 dias, aí o médico não sabia o que fizesse: "Isso aqui não desmancha mais não, vamos abrir ela de novo". Aí abriram, cortaram aqui de novo. Eu tive infecção, me drenaram, eu tava toda drenada já, aí me levaram. Eu fiquei sem falar, sem me mexer e a febre lá em cima, aí eles me botaram na UTI. Passei dois dias na UTI. Fiquei um dia, quando foi no segundo dia, de tardezinha, já era quase cinco horas, chegaram vários médicos e disseram assim: "Olha, essa daqui não tem mais jeito não, vamos ligar pro marido dela amanhã, que amanhã ela tá morta". Ficaram nessa arrumação. Assim que eles saíram, um pedacinho, chegou a minha mãe. E eu pedindo a Deus que Deus me desses forças, que eu não ia conseguir falar não, que Deus me desse força pra eu falar. Aí quando a mãe vê, a mãe falando, aí quando ela foi se virando eu disse assim: "Mãe, mãe, pega minha foto e passa num manto sagrado que eu tenho fé em Deus que amanhã eu vou sair daqui com meus pés". A mãe não foi, a mãe chegou em casa, só que ela não fez isso. Como meu pai também tava passando por uma, tava doente, aí ela não foi, mandou a vizinha. Pegou a minha foto e deu pra vizinha. Aí a vizinha pegou, levou, aí chegou lá, passou no manto sagrado. Quando foi oito horas, oito horas da noite, eu senti aquele homem todo de branco, com as mãos assim, um mantozão brancozão. Ele chegou, pegou assim, botou as mãos nos meus pés, aí fez "sssshh", parecia um sonsiral nos meus pés, aí saiu passando no meu corpo todinho. A barriga, essas pernas, isso aqui, daqui pra cá ela grudou, ficou grudada. Quando ele veio, que ele começou a passar, foi "ssshh", aí quando chegou aqui, ele passou no meu corpo todinho, aí quando chegou aqui na minha cabeça aí fez assim: "ssshh". Aí pronto, aí eu fiquei assim: "Meu Deus, se for coisa do bem, eu aceito, agora, se for do mal retira do meu caminho". E eu orando, sei que quando foi, aí agarrei no sono, quando eu vim acordar era cinco horas da manhã, as enfermeiras: "Ó, vamos já pegar ela, vamos já". E eu tava entubada, cheia de aparelho. Com uma borracha véia na boca, mas assim mesmo eu consegui falar com a mãe. Quando foi no outro dia as enfermeiras: "Vamos já tira isso daí, essa menina já tá é morta, já". Quando elas chegaram perto de mim eu disse assim: "Tô morta não, pode tirar esses aparelhos já de perto de mim que eu tô boazinha, pode me botar na cadeira de rodas, eu quero já tomar banho, tirar essa catinga já de cima de mim". Aí elas pegaram, botaram na cadeira de roda: "Pode?" "Posso". Botaram na cadeira de rodas, eu tomei banho, aí levaram lá pra dentro, me botaram num negócio lá, fizeram todo tipo de exame, botaram eu de cabeça pra baixo, furaram meus pés, aí não tinha mais nada. Eu disse: "Porque o médico dos médicos me curou". Jesus (risos). Eu tive que usar a fé, porque se a gente não tem fé a gente não vai a lugar nenhum.

Fiquei boa. Aí o médico disse que eu nunca mais ia ter filho, porque eu tinha cortado uma trompa, porque tinha infeccionado. Eu disse: “Tudo bem”, em quatro anos eu tive meu filho. Moisés já tem sete anos.

Saí de Fortaleza porque lá as dificuldades tava maior do que a daqui. Porque lá emprego tinha, a questão era que eu não tinha moradia, eu morava dentro da casa da minha sogra. Todo mundo quer sua privacidade e eu não tinha. Era um banheiro pra um bocado de gente, aquela bagunça, um arrumava, outro desarrumava. Eu disse: “Não, cada um tem que ter casa”. E o meu pai tinha terreno aqui, aí eu vim morar aqui.

Meu marido chegou aqui e foi tentar terminar os estudos, mas aqui tava um pouco meio dificultoso, aí ele deixou pra lá. A gente começou a viver na agricultura, aí graças a Deus que agora ele tá trabalhando ali, limpando o óleo da Argetax.

Hoje em dia assim, o pai tem um hectare ali de terra. Essa terra que ele tem lá, como ele tem seis filhos, ele partiu já tudinho, deixou logo tudo partido, que ele disse que quando morrer pra não ter confusão. Eu já peguei o meu, já fiz a minha casa.

O meu sonho é só que Deus me dê minha saúde (risos) e eu consiga, se um dia sair daqui, comprar um canto bem tranquilo também. Meu sonho é sair daqui, comprar um terreno bem grande e plantar todo tipo de fruta.

Teve uma época que estavam pegando os índios pra fazer escravo. Pegaram um bocado, só que ela era pequenininha, ela tinha sete anos, ela com um cachorrinho, ela se mandou dentro dos matos, passou uns cinco dias dentro do mato escondida. Quando foi um dia passou um senhor, um cavaleiro, ele pegou ela, ela tava muito debilitada, por ser criança. Ele pegou, botou no cavalo, levou ela, aí criou ela como se ela fosse filha. Ela cresceu e como ele tinha muito terreno, como ele foi criando ela como filha, ele pegou e deu um terreno, um pedacinho de chão pra ela. Assim, ela pegou, passou pros filhos, que passou pros filhos. Eu só sei que o nome dela era Ana, o nome da minha bisavó, que era avó do meu pai, era Joana e o nome da mãe do meu pai é Ana.

Eu senti que, às vezes, a gente deve sempre contar o que se passa na vida, (risos) pra um dia alguém lá no futuro ver que existia alguém.

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