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História

Entre o padre e o prefeito

História de: Ismar de Oliveira Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/01/2016

Sinopse

Nesta entrevista Ismar conta a história de sua família e o início de um sonho: ser importante como o padre ou o prefeito de Resende, cidade do estado do Rio de Janeiro, onde cresceu. Dessa ambição, entra no Seminário Salesiano em Lavrinhas aos onze anos. Tendo saído do Seminário com 26 anos, Ismar conta também sobre sua entrada no mundo da Comunicação através da Faculdade Cásper Líbero. Nesse meio, ele iria conhecer os movimentos sociais ligados à Igreja e a esquerda no período da Ditadura Militar. Ismar relata também sua entrada no meio acadêmico da Universidade de São Paulo, onde fez Mestrado e Doutorado. Além disso, Ismar nos conta um pouco sobre a Educomunicação e seus projetos.

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História completa

P/1 – Qual seu nome completo, data e local de nascimento?

 

R – Eu sou Ismar de Oliveira Soares. Nasci em Resende, no dia 20 de outubro de 1943.

 

P/1 – Resende?

 

R – Estado do Rio de Janeiro, na divisa entre Rio e São Paulo.

 

P/1 – A sua família é toda dessa região?

 

R – A minha família por parte de pai é da região de Resende e por parte da minha mãe é de Bom Jardim, Sul de Minas Gerais. A família dela veio como migrantes para o estado do Rio, devido a uma grande crise mundial que houve por volta de 1930. Eles trabalhavam com gado, tinham fazenda, e perderam tudo. Era um momento onde já se começava a pensar na construção de uma escola militar, que hoje é a Escola Militar das Agulhas Negras. Havia então a promessa de trabalho com a cana de açúcar, a laranja e a criação de gado. Ali meu pai e minha mãe se conheceram e acabei nascendo numa fazenda de tomates.

 

P/1 – Vamos saber um pouquinho dos seus avós? A família da tua mãe vem do Sul de Minas?

 

R – Sul de Minas. Minha mãe costurava para fora e graças a essa costura que conseguiram comprar um lote e construíram uma casinha num bairro chamado Liberdade, em Resende. Meu pai faleceu moço, com 51 anos, operário de uma fábrica que construía telhas, cerâmica; sua família veio de Portugal.

 

P/1 – A sua mãe aprendeu a costurar com os pais dela? Você sabe o nome dos teus avós maternos?

 

R – Urbana e Francisco eram os meus avós maternos, e os avós paternos eram o Antônio e nesse momento não estou me lembrando do nome da minha avó.

 

P/1 – A Dona Urbana trabalhava como costureira também? Você sabe um pouquinho a história dos teus avós maternos?

 

R – Eles trabalhavam na criação de gado, na roça. Naquela época as mulheres não estudavam, ficavam muito segregadas ao espaço da família. Um fato interessante é que o cartório na época tomava o sobrenome da mulher e colocava nas filhas, e o sobrenome do pai ia para os filhos. Meus avós maternos tinham o nome Neves de Oliveira, então os homens ficaram com “Neves” e as mulheres com o “Oliveira”. Meus tios chamam-se Neves: Francisco Neves, Sebastião Neves, Joaquim Neves e as minhas tias e minha mãe são todas Oliveira.

 

P/1 – Uma família grande então?

 

R – Eram oito de cada lado, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe.

 

P/1 – Você sabe como era a vida dessa família numerosa lá no Sul de Minas?

 

R – Sei muito pouco, realmente não havia uma grande preocupação de passar esse conhecimento, sabia-se que tinham terras, gado e com a crise tiveram que vender tudo. Como fizeram maus negócios nessas vendas, ficaram depauperados e foram para o Sul do Estado do Rio de Janeiro na busca de sobrevivência.

 

P/1 – A tua mãe chega a Resende ainda menina?

 

R – Ela chega a Resende menina, muito aguerrida e ainda que analfabeta, quando eu e minha irmã nascemos, a escola foi prioridade. Nós íamos para a escola do bairro, perto da paróquia que existia e tínhamos que caminhar uns três quilômetros para chegar. Íamos descalços inicialmente, depois com um chinelinho e a grande novidade da minha vida nesse momento foi ganhar um tênis para a primeira comunhão. O tênis era maior que o meu pé e por isso tive dificuldade de caminhar até a Igreja.

 

P/1 – Foi o primeiro sapato que você usou?

 

R – Que eu tenha lembrança sim, não me lembro de usar sapato antes, me lembro de chinelo, coisas do gênero, mas tênis foi o da primeira comunhão. Inclusive me recordo de outro fato, recomendaram que eu raspasse o cabelo, porque como meu pai era careca, eles tinham receio que eu também ficasse. A solução seria raspar a cabeça. Minha primeira comunhão foi com o cabelo raspado e um tênis enorme no pé. Nesse mesmo período tinha uma fotografia em que eu estava num cavalinho, registrada por um fotógrafo que buscaram em outra cidade. Nesse momento foi interessante que me apeguei muito aos estudos. Comecei a ler e minha mãe também começou a aprender a ler por conta própria, não teve professora. Ela começou a assinar o seu nome e a tomar iniciativas, trabalhando muito para manter a família e construir uma casa junto com meu pai. Da minha parte, comecei a tomar contato com pessoas da cidade, próximos a área da Igreja ou da escola e assim por diante. Foi quando decidi sair de casa, aos onze anos. Escrevi uma carta para um seminário que existia em Lavrinhas, que já era uma das primeiras cidades do lado de São Paulo e um dia chegou um padre em casa para me buscar.

 

P/2 – Como você teve essa ideia?

 

R – Eu queria ser uma pessoa importante e na cidade havia duas pessoas importantes, o prefeito e o padre. Percebi que o prefeito mudava e o padre não, então queria ser o padre, porque tinha mais permanência. (risos)

 

P/1 – Você lembra o que escreveu nessa carta?

 

R – Não, eu dizia que tinha vocação, queria ser padre e eles chegaram lá em casa, disseram para o meu pai que tinham ido me buscar, e meus pais não sabiam de nada.

 

P/1 – Uma família católica?

 

R – Família católica. Pediram dois dias para arrumar as coisas, e ficaram desesperados, porque obedeceram ao padre que chegou e levou o filho, mas para onde? Eles não acompanharam o padre, até que um tio meu foi atrás. Quando chegou a Lavrinhas, disseram que tínhamos ido para Lorena. Ele foi para Lorena e lá disseram que fomos para Pindamonhangaba, o que o fez voltar para casa, porque não sabia aonde era. Durante alguns meses a família não sabia onde eu estava. Fomos para “Pinda” porque era onde existia um seminário menor. Engajei-me plenamente, comecei a gostar, decidi continuar e minha mãe foi para o hospital, por sofrer um baque emocional muito grande pela minha saída. E eu feliz da vida, cheio de planos para o futuro, acabei estudando com os Salesianos, fiz o ginásio, o colegial, fiz faculdade com eles em Lorena, uma longa trajetória e depois acabei saindo do Seminário. Desisti, não queria mais ser padre. Já estava com 26 anos e, durante esse período, houve retorno com a família.

 

P/1 – Você lembra o dia da saída de casa?

 

R – Não, me lembro do padre chegando em casa, conversando e depois a viagem que fiz com ele de trem. Depois, cheguei a Pindamonhangaba, os colegas eram da mesma idade, me enturmei e como já estava a fim de estudar, comecei a participar com tranquilidade. O estudo era o centro da nossa preocupação, eu estudava, jogava futebol, tive uma integração normal. Eram internatos muito rígidos, mas me adaptei bem àquela rigidez.

 

P/1 – Antes de falar da vida no internato, queria falar um pouquinho mais da vida na sua casa, você falou da sua mãe, que era costureira. E o seu pai?

 

R – O meu pai era tranquilão e a minha mãe muito rigorosa, eram dois polos opostos. Os dois marcaram a minha vida. Minha mãe marcou pela iniciativa, um lado de empreendedora, e meu pai na parte de conciliação, de negociação, de busca de trabalho mais paciente. As pessoas me dizem que somei essas duas habilidades: ter iniciativa e negociar. Meu pai queria que eu fosse alfaiate, então ele estava mais ou menos guiando, conversando com os alfaiates de um bairro chamado Manejo, em Resende. A intenção dele era me iniciar na alfaiataria, mas eu queria uma coisa um pouco mais importante que ser um alfaiate. (risos) Quando percebi que não ia ter essa possibilidade em Resende, decidi sair.

 

P/1 – Qual era a profissão do seu pai?

 

R – Ele era operário, trabalhava fabricando telhas.

 

P/1 – Que lembrança você tem do trabalho do seu pai?

 

R – Eu visitava muito a olaria porque minha mãe fazia bolos que eu levava de casa para meu pai vender para os seus colegas. Nos dias de pagamento, ainda que fosse salário mínimo, havia festa e eu estava por lá. Eu também tinha iniciativa, catava cascas de árvores e levava para casa, porque queimavam fácil e faziam o fogão ficar mais forte. Também comprei uma caixa de engraxate e saía pela cidade para arrumar freguesia, por exemplo, onde havia um grupo de homens que estavam asfaltando algumas ruas.

 

P/1 – Além de levar o bolo, engraxava sapato?

 

R – Levava bolo, engraxava sapato, coletava esterco de vaca para a horta que criei em casa. Tinha uma vida muito ativa, inclusive na escola. Fiz o primário numa escola chamada João Maia.

 

P/1 – Foi a sua primeira escola?

 

R – A primeira escola na verdade foi numa Igreja chamada Santa Cecília que era um grupinho primário. De lá fui para o João Maia, que ficava mais no centro da cidade. Uma vez nós estávamos jogando no pátio, alguém chutou a bola que atravessou a rua e foi quebrar o vidro da Escola de freiras Santa Ângela. Foi um fato marcante, porque colocaram a culpa em mim, e acabei recebendo uma suspensão por um dia.

 

P/1 – O seu colégio era só de meninos?

 

R – Não, era uma escolinha mista, mas do outro lado tinha uma escola só de meninas.

 

P/1 – E isso te abalou por quê? Porque você era o bom aluno?

 

R – Não, eu queria ser um bom aluno, mas nunca fui brilhante na escola. Era médio, mesmo no Seminário era geralmente o quinto. (risos) Havia colegas que eu não conseguia alcançar em notas, agora eu era muito agitado em termos de iniciativas, e a minha primeira iniciativa no campo da comunicação foi criar uma rádio em Lavrinhas, por volta de 1957, 1958.

 

P/1 – Com qual idade mais ou menos?

 

R – Acho que tinha uns catorze anos.

 

P/1 – Já na época do Seminário?

 

R – Sim. Criei com amigos uma rádio e um jornal para circular no meio dos colegas. Colocamos a rádio de surpresa na área do refeitório. O nome era Rádio Comunista. (risos)

 

P/1 – Como era essa rádio? Como era o equipamento?

 

R – Na época, me imaginava como o Blota Júnior, que era um apresentador de televisão, porque gostaria de ser alguém como ele. A gente escutava rádio, me lembro de jogos do Brasil na Copa, que havia um rádio em cima de uma janela alta e nós escutávamos os gols do Pelé, o jogo final, tudo por rádio. A nossa intenção, minha e do grupo que estava comigo, na verdade, era fazer algumas críticas à disciplina e ao modo como o colégio estava trabalhando e nós não tínhamos muita chance de fazê-lo. Então, fizemos um ato revolucionário, que era invadir o espaço do refeitório com a rádio, que funcionou só uma vez (risos), porque a proibiram de existir.

 

P/2 – Qual foi a programação?

 

R – A programação foi um noticiário em que nós comentávamos os fatos do dia-a-dia e colocávamos alguns locutores fazendo considerações críticas aos procedimentos que estavam ocorrendo na escola.

 

P/2 – Era um sistema de alto falantes?

 

R – Não, nós pegamos um toca fitas, colocamos num lugar central bem alto e ligamos.

 

P/1 – Coisas que vocês tinham gravado em cassete?

 

R – Isso.

 

P/1 – Está certo. Essa foi a primeira experiência?

 

R – É, depois quando decidi sair do Seminário, já com 26 anos, optei por fazer uma Faculdade de Comunicação, a Cásper Líbero. Já havia feito Geografia, História e Filosofia em Lorena. Ousadamente, de dentro do Seminário em Lorena, ainda organizei o Encontro Estadual de Estudantes de Geografia, com participantes de todo o Estado.

 

P/1 – Ainda sobre o Seminário, como era sua vida, seu cotidiano, o estudo e as brincadeiras?

 

R – Olha, a rotina era muito bem programada. Levantava-se muito cedo, lá pelas seis horas, o café da manhã era feito em silêncio e em seguida cada um ia fazer uma tarefa, o pessoal era distribuído para lavar os banheiros, arrumar os quartos, os refeitórios, toda essa parte era feita por nós. No final do segundo grau eu já era chefe da equipe de limpeza. Duas a três horas de estudo e depois do almoço as aulas seguiam, assim como os esportes violentos, que eram o futebol e outros mais. E claro, as missas todos os dias.

 

P/2 – O almoço era bom?

 

R – Sim, a refeição era boa, substanciosa, porque a região era agrícola. Na quinta-feira não tinha aula, nós íamos passear em longas caminhadas pelas fazendas das redondezas.

 

P/1 – Como eram esses passeios?

 

R – Saíamos de manhã e voltávamos à tarde. Era em grupo, a meta era uma cidade que fica entre quinze a vinte quilômetros. Chegando lá, fazíamos o lanche, o bauru.

 

P/2 – Como era esse bauru?

 

R – Era pão, mortadela e queijo. Acendíamos o foguinho, esquentávamos e bebíamos algum refrigerante. A expectativa criada pelo colégio era dar muita atividade para que os seminaristas ficassem bem comportados. Quanto mais atividades, menos se ficava pensando em coisas que julgavam não deviam ser pensadas. Era uma vida agitadíssima e isso me movia, só que eu tinha sempre metas para o futuro. Não sonhava, em sendo padre, por exemplo, ficar preso a um colégio, a uma paróquia. Sempre imaginava uma coisa um pouco diferenciada e isso é que foi criando uma crise também, eu achava que ficaria preso se continuasse lá, que as minhas iniciativas seriam tolhidas. Quando decido sair, não é porque estava revoltado com a religião, tanto que continuo trabalhando com a Igreja Católica e com outras Igrejas também, que têm muito a oferecer, porém eu não queria ficar amarrado, tolhido nas iniciativas que quisesse vir a fazer.

 

P/1 – Qual era a sua maior diversão lá dentro?

 

R – O futebol era uma diversão, tínhamos o time da FIFA [Federação Internacional de Futebol Associação], dos melhores jogadores e da Fifinha (risos), onde eu estava como goleiro. Até quebrei um dedo pegando uma bola. Outra diversão era passear. Gostava muito de literatura, de escrever e de organizar eventos também.

 

P/1 – Você se lembra de algum em especial?

 

R – Bom, teve esse evento que foi o Encontro de Estudantes de Geografia, mas eu estava permanentemente organizando festas.

 

P/1 – Como eram as festas dentro do Seminário?

 

R – O teatro predominava, todos os meses tinha alguma peça, que era sempre com atores masculinos, porque o Seminário era de homens. Era uma forma de expressão muito forte, a maneira que se encontrava até de habilitar as pessoas para o púlpito, para falar em público.

 

P/1 – Você atuava?

 

R – Atuava, era um ator. Lembro uma vez que fizeram uma sacanagem comigo. Eu tinha que tomar um copo de água em alguma cena e colocaram sal nela. Quando tomei, tive uma reação que não era a que estava prevista, precisou haver uma mudança de cena naquele momento, porque comecei a xingar os que colocaram sal no meu copo; passaram-se alguns segundos até eu retomar o que estava fazendo e isso tudo com a plateia cheia.

 

P/1 – Nessa época, como ficou a relação com a família? Você ia passar as férias em casa?  

 

R – Passava uns dias e estava sempre próximo, estávamos todos no Vale do Paraíba.

 

P/1 – Você sai do Seminário com quantos anos?

 

R – Com 26.

 

P/1 – Já formado? Em que área?

 

R – Sim, estava formado em Filosofia, História e Geografia. Quando saí, estava fazendo Jornalismo. Entrei na Cásper Líbero quando ainda estava no finalzinho do meu período de seminarista, e comecei a fazer trabalhos nas áreas de comunicação e de educação. Decidi, mais tarde, pelo Magistério e em seguida vou dar aula na Medianeira dos Jesuítas [Colégio Nossa Senhora Medianeira], no Colégio São Luís e no Camargo Aranha, que era do Estado. Cheguei a dar aula em cinco lugares simultaneamente.

 

P/1 – Como foi essa decisão de dar aulas?

 

R – A minha vocação é de professor.

 

P/1 – Quando é que você descobre essa vocação?

 

R – Desde a minha adolescência. Quer dizer, eu descobri e também me diziam que eu tinha capacidade de argumentação para dominar um grupo de alunos, de concatenar ideias, sistematizar informação. Percebi que era um pouco meu estilo. Havia opção de ir para uma redação, mas sempre vi muita instabilidade nas redações, os colegas que trabalhavam nessa área passavam muito pouco tempo, mudavam muito e eu preferi trabalhar no ensino e pesquisa da Comunicação.

 

P/1 – A escolha pela Comunicação veio junto com a escolha pela Educação?

 

R – Foi junto, porque a história do rádio era, na verdade, uma tendência a mexer com a comunicação, e acontece que durante esse período, logo posterior a minha saída, eu me envolvi muito com movimento popular e esse envolvimento me traz muito a literatura de Paulo Freire e a busca por algumas metodologias mais participativas de comunicação. Além disso, me aproximo da UCBC, que foi fundada por um grupo de pessoas entre as quais havia um Frade Dominicano chamado Frei Romeu Beire – que ainda existe, está com quase cem anos – e o professor Marcos de Melo. Acabei sendo convidado a participar da UCBC.

 

P/1 – UCBC?

 

R – A União Cristã Brasileira de Comunicação era uma entidade que nasceu num Congresso da PUC em 1969 para reunir e até buscar formas de proteção para jornalistas perseguidos pelo Regime Militar. Eu me engajei na UCBC, mas dentro dela vou cuidar do boletim da organização e desenvolvo um projeto que “linkava” Comunicação à Educação, chamado Leitura Crítica da Comunicação (LCC). O LCC viria ter uma importância muito grande, porque do final de 1968 até o começo dos anos 1990 houve uma grande difusão de escolas de leitura crítica junto aos movimentos populares. As Edições Paulinas começaram a publicar uns livrinhos, alguns escritos por mim: “Para uma Leitura Crítica no Jornal” e “Para uma Leitura Crítica na Publicidade”. Foi realizado ao redor de sessenta cursos por ano, cada curso com quarenta participantes no Brasil inteiro. Esse projeto criou ou ajudou a criar uma mentalidade de que era preciso estar atento à mensagem da televisão e dos meios de comunicação. O conceito de leitura crítica chegou até a LDB e, em 1988, quando se aprovou a Constituição e em seguida se partiu para construir a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), o projeto que surge na Câmara dos Deputados tinha um conceito de Leitura Crítica da Comunicação. O Darcy Ribeiro acaba atropelando o projeto da Câmara com um projeto no Senado em que o termo não aparece, mas o conceito continua. E os Parâmetros Curriculares de hoje falam da necessidade de relacionamento crítico em relação aos meios. Estou na história dos que estavam trabalhando ao redor da necessidade de se criar uma concepção crítica com relação aos meios de comunicação.

 

P/1 – Queria entender um pouco como foi a sua entrada nos movimentos sociais populares. Quais movimentos foram esses, onde aconteceram?

 

R – Na cidade de São Paulo. Desde o Seminário, na época em que fazia a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, sendo presidente do Centro de Estudos Geográficos Alberto de Agostini, eu tinha contato com a Literatura que vi na Antropologia Cultural, que vinha da Geografia, da História e da própria política. Existiam grupos na minha faculdade – incluindo o próprio Diretor Acadêmico – que discutiam muito as questões políticas; era um momento que o movimento estudantil era muito forte e ainda que nós estivéssemos preservados, porque atuávamos internamente, nós tínhamos contato com a sociedade externa, com alguns líderes. E essas lideranças muitas vezes passavam pela faculdade também.

 

P/1 – Que época é essa?

 

R – De 1960 a 1964.

 

P/1 – Tem algum episódio do movimento estudantil que você se lembre de forma especial?

 

R – Lembro de um episódio em 1968, o famoso encontro que houve em Ibiúna em que o Exército chegou e prendeu os estudantes Travassos, José Dirceu e assim por diante. Naquele mesmo dia eu – ainda seminarista – estava indo com um grupo de estudantes para Campos do Jordão, onde íamos desenvolver um trabalho chamado Encontro da Juventude, que estava numa linha muito conservadora. Ainda que assim fosse, era a maneira que eu tinha de ter contato com grupo de jovens. No caminho para Campos do Jordão, fomos interceptados por soldados do Exército que queriam saber para onde estávamos indo. Após uma grande investigação a respeito de todo mundo, descobriram que íamos para um retiro espiritual e nos liberaram. Nesse mesmo ano de 1968, em Campo Grande, também desenvolvendo um trabalho de encontro de jovens, um jipe do Exército foi me buscar para falar com o comandante, acontecendo, então, uma nova investigação a respeito disso. Mas não sofri nenhum tipo de perseguição a não ser quando escreveram para o jornal da Diocese “O São Paulo” – acho que em 1969 – por eu ter escrito uma reportagem sobre um padre guerrilheiro colombiano chamado Camilo Torres. Um jornalista do Jornal da Tarde, Lenir Barbosa Pessoa, fez alguns artigos contra o meu editorial. Em seguida, comecei a receber algumas ameaças telefônicas e depois fui informado para tomar cuidado porque meu nome estava com ficha amarela no DOPS [Departamento de Ordem Política e Social]. No fim, fui proibido de escrever por um tempo, porque me diziam que não éramos Dominicanos – que com Frei Betto estavam sendo perseguidos. Não queriam que a perseguição chegasse ao Liceu Coração de Jesus, onde estávamos.

 

P/1 – O Liceu era ligado a qual ordem?

 

R – Aos Salesianos. Foi um episódio pequeno, mas a repercussão desse meu artigo com a crítica do Jornal da Tarde acabou fazendo com que as pessoas ficassem receosas e não quisessem complicações. Isso tudo para dizer que havia uma tendência esquerdista no meu modo de pensar. Quando saí, fui procurar alguns expoentes como o Betinho, o Herbert de Sousa, com quem convivi algumas vezes, indo à sua casa e o convidando para alguns congressos que organizava e que chegavam a ter um público de mil, duas mil pessoas. O que eu fazia na verdade era trazer essas pessoas para mobilizações sociais através de Congressos de Comunicação.

 

P/1 – Algum congresso que considera marcante desses encontros todos que promoveu?

 

R – Congresso marcante foi o que organizei na Metodista de São Bernardo, em 1980, trazendo o Paulo Freire, que estava chegando do exílio. Foi um Congresso sobre Comunicação Popular, onde o prêmio Casa das Américas foi lançado. Em seguida organizo um congresso muito forte e impactante na PUC [Pontifícia Universidade Católica] de São Paulo sobre Direitos Humanos, tendo palestrantes o Luís Carlos Prestes e representantes das Mães da Praça de Maio.

 

P/1 – Alguma cena em especial desses Congressos?

 

R – Lembro-me do Luís Carlos Prestes subindo as rampas da PUC, quando um gaiato gritou, perguntando: “Senador, o senhor ainda é ateu?”. E ele respondeu: “Sim, sou ateu, graças a Deus”.

 

P/1 – Algum episódio com Paulo Freire?

 

R – Com Paulo Freire não tive um contato pessoal mais íntimo. Propagava as suas ideias no mundo da comunicação mais por simpatia ideológica, mas nunca tive oportunidade de convivência com ele.

 

P/1 – Como você encontrou a Cásper Líbero? Ela foi importante nesse processo todo?

 

R – Naquele momento ou era a ECA [Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo] ou a Cásper Líbero, não havia outra opção. Quando fui procurar a ECA, algumas pessoas me disseram que era muito fraca e que a Cásper Líbero, era uma fundação dos anos 1940, tinha um conceito mais sólido. Esse motivo me convenceu. Mas eu estava vindo do Seminário onde tinha estudado Filosofia, Geografia e História em tempo integral, de modo que achei tudo muito fraco, não que a faculdade em si fosse fraca, mas achei o conteúdo todo muito solto, muitas poucas exigências em comparação ao ritmo de estudo que estava acostumado. A Cásper serviu para ter um contato com o mundo da Comunicação, com o conhecimento teórico e a partir dessa teoria desenvolver um trabalho.

 

P/1 – A vivência na capital paulista significou algo especial para você?

 

R – Vim para São Paulo em 1968 e a cidade, com toda essa agitação, se coadunava com meu ritmo de vida.

 

P/1 – Morando onde?

 

R – Sempre na Vila Mariana.

 

P/1 – Que lugar da Vila Mariana?

 

R – Na Joaquim Távora, perto da Domingos de Morais. Depois me casei e comprei um sobrado numa praça entre o Conjunto dos Bancários e a Chácara Klabin, uma região tranquila, intermédia, que ficava entre o Colégio São Luís, a Cásper Líbero e a Metodista de São Bernardo, onde estou até hoje.

 

P/1 – Como é esse sobrado que você comprou quando se casou?

 

R – São três pisos e três dormitórios e o que o caracteriza, na verdade, é estar diante de uma praça e o fato de ter ambientes isolados. São cinco na casa e cada pessoa pode fazer uma coisa sem perturbar a outra, quer dizer, há espaço para cada um ficar. Estamos bem alojados.

 

P/1 – Você vai para lá casado?

 

R – Sim, já estava casado há um ano.

 

P/1 – Como se chama sua esposa?

 

R – Maria Silvia.

 

P/1 – Como é que a Maria Silvia surge nessa história?

 

R – Eu a conheci em um dos Encontros de Jovens, movimento que ela também participava.

 

P/1 – Qual deles? Você se lembra desse dia que vocês se conheceram?

 

R – Não, foi uma vivência que foi acontecendo. Eu estava com 26, 27 anos e ela, que não me deu muita bola, não queria muito, tinha dezoito. Foi um namoro meio atropelado. Eu a conheci e só depois de cinco anos que ela me procurou, e que reatamos. Quando saí do Seminário me dei um tempo, quase dez anos, para não me envolver numa nova atividade, porque a vida no Seminário marca muito e você precisa entrar na sociedade aberta devagar, porque é muito forte o que você leva consigo para fora. Gastei muita energia na organização dos movimentos sociais, para depois pensar em constituir família. Quando casei tinha 36 anos.

 

P/1 – Era importante ter tanta gente ali na tua frente nos Congressos?

 

R – Sim, os Congressos eram uma espécie de grandes shows, em que as pessoas que lutavam por algo se reuniam. Na organização de um Congresso você convida as pessoas que estão ideologicamente mais ou menos de acordo com o seu pensamento, não meu pessoalmente, mas da organização que presidia, que era a UCBC. Nós queríamos influenciar nas políticas de comunicação das Igrejas cristãs. Achávamos que elas tinham muito a oferecer para a sociedade além de ficar pensando nelas mesmas. A comunicação das Igrejas evangélicas e católicas era muito voltada para dentro delas e nós vimos que as instituições precisavam abrir suas portas e sua mentalidade para a sociedade, numa perspectiva dialógica e não mais na perspectiva funcionalista de estar difundindo ideias ou fazendo pregações explícitas.

 

P/1 – Essa cena de milhares de pessoa na sua frente representava o quê?

 

R – A oportunidade de ter um público para ouvir isso e não só ouvir a mim, mas ouvir as pessoas que eram minhas convidadas. Em cada congresso convidávamos umas duzentas pessoas para falar, e cada uma daquelas lideranças falando e tendo audiência, era como se a audiência fosse um pouco minha também.

 

P/1 – Era um sonho teu esse de...

 

R – Sonho de infância.

 

P/1 – De quê?

 

R – De ser uma pessoa influente, com a capacidade de mobilização. Aquela história do padre e do prefeito. Quer dizer, na verdade não era mais o padre, mas era uma pessoa em condições de articular ideias que tivessem importância para a sociedade e que pudessem contribuir para mudanças sociais numa linha determinada que aprendi que talvez  fosse a mais adequada. O fato de levar o Paulo Freire ou o Betinho, que dizia que a UCBC era um dos principais organismos no Brasil com capacidade de apelo, de chamar e reunir gente, porque na época a UNE [União Nacional dos Estudantes] estava ainda cerceada, os movimentos sociais estavam todos muito coibidos e nós, um pouco com respaldo da própria Igreja, tínhamos oportunidades de abrir. O Congresso de Recife, em plena era militar, foi uma crítica à doutrina da Segurança Nacional. Fizemos outro Congresso fortíssimo em Santa Catarina, com artistas famosos, o Juruna, a Ruth Escobar, e estranharam muito, porque fui levar o Gabeira para falar sobre política do corpo, algo que para a Igreja Católica era uma coisa muito complicada. O Dom Luciano, muito meigo, chamou minha atenção por colocar pessoas tão suspeitas nas suas teorias em um congresso católico. Especialmente porque, no painel do Gabeira, nós tínhamos mais ou menos umas duas mil pessoas reunidas, ele esvaziou os demais debates e grande parte do auditório do Gabeira era constituído por padres e freiras, causando mesmo um estranhamento. A mobilização da juventude era importantíssima nesses congressos. E uma das realizações que tenho hoje quando vou numa redação é encontrar alguém dizer: “Ah, conheço você dos Congressos”, porque eram realizados todos os anos e essa regularidade os marcava. Havia gente que seguia os congressos porque era um espaço de expressão, de abertura.

 

P/1 – Os Congressos reuniam estudantes de Comunicação?

 

R – Estudantes de Comunicação, movimentos populares, políticos, jornalistas que tinham alternativas, o Ricardo Cortes, por exemplo, foi muitas vezes conosco em Congressos.

 

P/1 – Congressos dedicados ao tema da Comunicação?

 

R – Comunicação e Juventude, Comunicação e Política, Comunicação e Educação, Comunicação e Segurança Nacional.

 

P/1 – Como estava a comunicação no país naquele momento?

 

R – A Comunicação era cerceada. Já existia o estigma da Rede Globo como grande manipuladora, e na época que passamos o processo das Diretas Já, a Folha de S.Paulo se caracteriza por ter uma bandeira em favor desse movimento. Porém, nós observamos que dentro da Folha havia uma ditadura fortíssima exercida pelos novos proprietários, os Frias Filho, chegando a demitir 600 jornalistas e contratar outros 600 em um período de dois anos, para mostrar aos jornalistas quem é que mandava no jornalismo. Nesses Congressos nós discutíamos essas coisas abertamente, porém a Comunicação era tida como manipulada e os cursos de leitura crítica denunciavam isso. Depois nós aprendemos, até com pessoas próximas ao Paulo Freire, que esse denuncismo já estava passando de moda, que precisava se fazer algo diferenciado, quando partimos para uma perspectiva mais construtivista de promover projetos em que as pessoas produzissem sua comunicação. Passamos da denúncia para um construtivismo comunicacional de onde surgiram muitos projetos. O próprio projeto Leitura Crítica daria uma guinada. E organizamos alguns encontros latino-americanos, participamos de outros em que os agentes sociais já estavam promovendo uma comunicação realizada pela população e nós começamos a transferir isso, esse conhecimento, esse know-how para o mundo educacional.

 

P/2 – Você lembra nessa perspectiva construtivista algum projeto que traduza bem isso?

 

R – O LCC continua sendo uma bandeira. Eu era conhecido como coordenador do LCC e, a partir disso, fui conhecer em Cuba um projeto do Pablo Ramos, participando como jurado no Festival de Havana em 1993. Lá fui conhecer um projeto em que um grupo de pedagogos e de comunicadores trabalhava com crianças do Ensino Fundamental fazendo televisão. Organizei um projeto de capacitação em Quito, em rádio e jornal popular. Quando era presidente da OCLA [Observatório Constitucional Latino-Americano] foi outra experiência importante porque a gente propiciava que comunicação popular que crescesse na América Latina. Daí surgiu o que chamamos de Proposta de Gestão de Processos Comunicacionais, após identificarmos que a Pós-Graduação em Comunicação estava ficando cada vez mais funcionalista, isto é, era voltada para o mercado para atender o que já estava aí. Nós percebemos que as ONGs [Organizações não Governamentais] tinham evoluído muito com uma gestão participativa, com uma comunicação muito rica e a nossa ideia era fazer Pós-Graduações unindo ONGs e Universidades. Nos anos 1990 estávamos crentes que as Universidades estavam estéreis e para se modernizar elas começavam a querer ir para o mercado e ao dobrarem-se ao mercado elas perdiam a perspectiva crítica. No entanto, nós tínhamos as ONGs que trabalhavam de forma construtiva e dialógica, então criamos um programa chamado Plano Resco, que era um Programa Latinoamericano de Formación Gestión y Planificación de Comunicación, um nome muito grande. E temos dois cursos ainda hoje dessa linha, um curso fica na Universidad Nacional de La Plata, na Argentina, e o outro curso está na ECA, que apostou nessa ideia do curso de Processos de Gestão Comunicacionais.

 

P/1 – Por que a sua entrada na ECA é um pouco anterior?

 

R – Entrei na ECA em 1988.

 

P/1 – Você se lembra do seu primeiro dia na ECA?

 

R – Fiz Mestrado na ECA, um Mestrado burocrático onde consegui o meu título examinando os boletins Diocesanos do Brasil. Depois fiz um Doutorado mais forte e a minha tese foi sobre Discurso e a Prática da Comunicação da Igreja chamando-se “Do Santo Ofício a Libertação”. Tornou-se um livro clássico nesse campo. Quando apareceu uma vaga no curso de Jornalismo eu me apresentei, mas senti que não tive uma acolhida, parecia haver algum tipo de jogo naquele concurso, porque a preferência era dada àquelas pessoas que já atuavam na área. Como conclusão dessa história, eu não passei no concurso para o departamento de Jornalismo. Em seguida me avisaram que haveria um concurso na área de Psicologia da Comunicação no Departamento de Comunicações e Artes. Preparei-me durante um ano – porque eu tinha estudado Psicologia dentro do curso de Filosofia, não tinha feito um curso específico de Psicologia. Decidi apostar todas as fichas naquilo e durante um ano li toda a bibliografia possível, especialmente no campo da Psicologia Social, dos autores especialmente da PUC de São Paulo, que trabalhavam mais com essa linha. Fui para o concurso e passei.

 

P/1 – Essa notícia de que passou você lembra como foi?

 

R – A notícia causou uma perturbação no departamento por ser alguém estranho ao meio. Uma parte do departamento vinha da Libelu [Liberdade e Luta], aquele grupo radical de esquerda dos anos 1970 da USP, e eu era um cara já conhecido por circular no mundo da Igreja, então havia uma suspeita sobre quem seria esse cidadão...

 

P/1 – E para você, como foi receber a notícia de que tinha passado?

 

R – Essa notícia para mim veio para me completar, a minha inspiração era chegar à ECA como professor e o importante é que esse meu concurso já veio me efetivando, porque os professores que entram na USP passam longos anos dando aulas para depois, um dia, prestarem um concurso. Eu não, já entrei efetivo e na primeira reunião que tive, havia uma discussão do departamento de quem dava aula desta ou daquela disciplina, e eu estava vindo do ensino particular onde ministrava dez disciplinas. Estavam se estranhando por causa daquela discussão até que eu disse: “Dou essas aulas”. Assumi uma série que os colegas não queriam, o que começou a arrefecer o estranhamento com relação a minha presença.

 

P/1 – Foi na ECA que surge esse projeto da Educomunicação?

 

R – A entrada na ECA propiciou a oportunidade de pesquisar, porque até então não tinha condições. Claro, fiz o Mestrado e Doutorado no campo que estava anteriormente, que era da Comunicação e Religião. Quando entro para o campo de Comunicação e Educação, crio o núcleo de pesquisa, junto com os alunos, meus mestrandos, doutorandos e outros colegas. Decidimos fazer uma pesquisa para saber como se pensava sobre Comunicação e Educação na América Latina. Fizemos a pesquisa em doze países da América Latina, mais Portugal e Espanha. No final dessa pesquisa que envolveu 170 pessoas, entre questionários e entrevistas de profundidade, chegamos a conclusão de que estávamos diante de um novo campo que não era nem Educação nem Comunicação, e o denominamos de Educomunicação, que tem alguns patronos, pessoas que já trabalharam nisso ou trabalham. O Paulo Freire e o Herbert de Sousa eram educomunicadores. Nise da Silveira, aquela psicanalista do Museu de Imagens do Inconsciente, era uma educomunicadora. Nós percebemos que existiam milhares de educomunicadores que não se chamavam assim porque nunca tiveram a oportunidade de pensar sobre isso. Por exemplo, na Bahia, entrevistamos os coordenadores daqueles grupos de Axé de Ilaiê e assim por diante. Começamos a conversar e eles se identificaram como educomunicadores. A partir da divulgação do resultado começamos a propor ações e a Prefeitura aceitou o desafio que era levar a Educomunicação para a rede pública do município. Estamos agora com o projeto Educomunicação pelas ondas do rádio, “educom.rádio”, em 455 escolas no município, um projeto de três anos e meio. Para nós é importantíssimo, porque tenho oportunidade de formar uma equipe, estou formando 150 educomunicadores que vão trabalhar com professores, crianças e membros da comunidade. Eles nos pagam para capacitar professores e nós pedimos que acrescentassem o mesmo número de alunos e alguns membros da comunidade. São 25 pessoas de cada escola que são capacitadas para trabalhar com gestão participativa da Comunicação, com planejamento comum e com o uso do rádio a partir da perspectiva também compartilhada. O que nós queremos na verdade não é falar do rádio, que é só um instrumento, queremos é falar do que chamamos de ecossistema comunicativo da escola e discutir como é que esse ecossistema se desenvolve. O último ato dessa cena aconteceu no dia 21 de agosto, quando recebemos um convite da Prefeita para visitar junto com outro especialista em Educação o CEU [Centro Educacional Unificado] Jambeiro, que foi inaugurado pelo Lula.

 

P/1 – O que é o CEU?

 

R – O CEU é o Centro de Educação Unificado, que a Prefeitura está inaugurando esse ano [2003]. São 21 grandes centros de educação, cultura e lazer, que terão uma pedagogia própria, vai ter tudo o que tem um clube, uma escola e um centro cultural, com teatro, artes plásticas, artes cênicas, músicas. Nós propusemos para os CEUs um laboratório de multimídia igual ao do Museu da Pessoa. Com isso convidei a Prefeita para uma visita ao CEU e, depois da apresentação de tudo que se pretendia, um professor da PUC se levanta e diz: “Prefeita, está faltando comunicação, vocês falaram de tudo, mas precisa de uma rádio e uma TV [televisão] comunitária aqui”. A Prefeita disse: “Olha, naquela terceira fileira tem o coordenador da Educom, ele pode explicar isso”. Levanto da minha cadeira e começo a falar e realmente havia sentido falta da palavra comunicação em tudo que eles falaram sobre o CEU, que é um espaço de comunicação e, portanto, a Educomunicação estava ali presente, mas não reconhecida. Para nós foi um ponto alto, porque a Educomunicação ainda que os educadores tenham resistência ao termo argumentando que toda educação é comunicação, nós constatamos que não é assim, geralmente a educação é uma comunicação vertical, e a nossa proposta é que seja uma educação igualitária e democrática. Percebemos que o poder público já está sensível e está patrocinando. Junto com essa questão do reconhecimento da Prefeitura de São Paulo veio o reconhecimento de Brasília. O Ministério está pedindo o projeto para Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. A Educomunicação já existe, nós não a inventamos, só a sistematizamos. Ela está presente quando as pessoas descobrem que há referencial teórico, que há metodologia, que há experiências.

 

P/1 – Que sonho o senhor tem como educomunicador?

 

R – O sonho que resta ainda para mim não será realizado na USP. Acredito em criar um curso de graduação de Educomunicação, porque há uma multidão de vocacionados, de jovens que já estão mergulhados no mundo das tecnologias e que tem um ideal de construção de cidadania. Falava-se muito que os anos 1980 foram uma década perdida para o jovem, por sua alienação, mas da metade dos anos 1990 para cá estou sentindo uma reversão, os jovens estão querendo fazer algo, mas não encontram, as universidades estão estéreis nesse campo. Elas são muito burocratizadas e transmitem um saber muito antiquado, então as Faculdades de Comunicação hoje já envelheceram e os novos empresários não perceberam isto. Os cursos de Jornalismo, de Relações Públicas, de Publicidade estão jogando gente no mercado para um mercado que não existe. Há um grandíssimo mercado a ser explorado que é a Educomunicação, que é um mercado para as ONGs, para os Centros Culturais, para os meios de comunicação, para as escolas e para as empresas.

 

P/1 – Fora o sonho como educomunicador, tem algum outro sonho na vida?

 

R – É o de ter netos, porque como casei com 36 anos, agora chego aos sessenta e tenho filhos muito jovens.

 

P/1 – Quantos filhos são?

 

R – Tenho a Ana Paula com 24, já casada, que faz Psicologia na PUC; tenho a Ana Carolina com 21, que faz Ciências Sociais na PUC e tenho o Luis Henrique que faz Rádio e Televisão na Metodista, com dezenove anos.

 

P/1 – Está certo.

 

R – Além do sonho, tenho também um problema com a minha esposa, ela gostaria que eu tivesse mais tempo livre, mas os projetos me envolvem cada vez mais.

 

P/1 – Como é o dia-a-dia do educomunicador?

 

R – Acaba sendo completo, porque um projeto como esse da Prefeitura é um projeto de 24 horas. Tenho coordenadores que ocupam todo o espaço operacional do projeto, mas eu tenho que estar presente, porque em três anos e meio muitas pessoas passam – já passaram 500 pessoas pelo projeto – e é preciso manter a fidelidade, a orientação e assim por diante. Minha esposa reclama muito, ela gostaria que eu tivesse uma vida mais tranquila.

 

P/1 – Não sobra tempo para nada mais? O que você gosta de fazer?

 

R – Bem, sobrou tempo para construir um sítio em Nazaré Paulista, que é muito bonito. Só que o sonho dela seria que eu já estivesse aposentado, o que poderia ter feito em 1998, quer dizer, já estou dando ao Estado seis anos a mais, e não pretendo me aposentar tão cedo, porque acredito que a Universidade Pública tem um papel a cumprir. Sou devedor dela, fiz Mestrado e Doutorado lá e tudo o que é feito pela USP é mais facilmente aceito na sociedade. Se eu estivesse fazendo tudo isso em faculdades particulares, não teria a mesma repercussão. Existe também um pouco esse espírito missionário de entender a USP como um templo do saber.

 

P/1 – Então a esposa vai ter que esperar um pouquinho?

 

R – Não, a gente tem que dialogar para ver como encontramos os espaços de convivência, porque além de tudo, ainda estou girando na área internacional, sou presidente da Organização Internacional que tem sede em Genebra, estou organizando um Congresso para Bangkok em 2004, e essas coisas são simultâneas. Estou organizando para o dia 14 de novembro um debate sobre Educomunicação em Roma, para levar essas experiências para fora do país.

 

P/1 – Tem muita coisa pela frente ainda. Queria te perguntar para finalizar: o que significa ter contado a sua história?

 

R – Você sabe que tem gente na ECA ou na minha família que me pergunta: você não gostaria de organizar os seus arquivos? Porque eu não dou muita importância, na cabeça as coisas estão acontecendo, mas sou muito desleixado com a minha memória pessoal e as minhas coisas. Acredito que foi um momento interessante e a câmera me deu intimidade para falar coisas que talvez eu não escrevesse. Tenho consciência de que há pessoas no Brasil que reconhecem o trabalho que tenho feito; a repercussão que tem tido na sociedade mostra que tem algo importante nele. Isso não me traz vaidade, mas sim a realização dos sonhos da infância, e esse é um ponto de diálogo com a família, porque se eu não continuasse estaria rompendo com um sonho que faz parte da minha vida, eu poderia até estar me destruindo em termos de personalidade. Então, contar a minha história significa encontrar-me comigo mesmo.

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