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Entrevista na íntegra

História de: Candace Slater
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2010

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História completa



P - Bom, professora inicialmente eu gostaria de agradecer por você nos dar essa entrevista, essa palhinha da sua vida pra gente e por uma questão de identificação, por favor, diga seu nome completo, o local e a data de seu nascimento?

R - Meu nome é Candence Slater e eu nasci em Mineola de Nova York e foi em 1948, no dia 28 de agosto de 1948.

P - Conte pra gente assim qual o seu envolvimento aqui com o Programa Cultura Viva?

R - Foi realmente uma coisa que começou quase por acaso, porque o Célio e Gil estavam visitando a minha universidade, a Universidade Califórnia de Berkeley, temos uma cátedra do Ministério de Cultura e justamente naquela altura, eles estavam começando o Programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura. Eu nunca tinha ouvido falar, então eles falaram que iam para são Francisco, eles queria estabelecer um Ponto de Cultura lá em São Francisco e pediram para eu acompanhá-los. Quer dizer então foi realmente uma coisa quase no começo da casualidade, mas achei tão interessante que depois o Gil me convidou para visitar os Pontos de Cultura que também estava bem no começo, porque eles queriam uma vista de fora, uma ideia um pouco... Eles queriam que a universidade, a minha universidade de Berkeley acompanhasse o que seria um Ponto de Cultura lá em São Francisco. Então naquelas alturas eu visitei uns Pontos de Cultura lá no Ceará também em Pernambuco, no Rio, em São Paulo e em Brasília. Então que dizer, eu comecei... Achei fascinante e foi um pouco... Nós estávamos falando um pouco e eu sempre tinha... Faz muito tempo um trabalho com cultura popular, mas isso era uma coisa um pouco diferente porque era uma rede, não era simplesmente uns grupos assim de pessoas trabalhando com arte, era uma proposta para criar as coisas em rede. E também tinha lugares onde eu já tinha estado antes, mas eu sabia alguma coisa de favela porque quando eu fiz pesquisas sobre a literatura de Cordel principalmente no Rio e São Paulo, eu visitei uns poetas e os poetas realmente moravam em comunidades bem precárias. Mas uma visita sistemática as favelas eu não tinha feito. Então pra mim foi importantíssimo, porque era naquele momento eu estava fazendo uma pesquisa sobre Juazeiro do Norte e ver no Nordeste, não só no Nordeste, mas no Sul, quer dizer no Rio, São Paulo, Brasília e entender... Tentar fazer alguma ligação entre aquela cultura que as pessoas gostariam de falar como tradicional e a cultura que as pessoas estavam vivendo nas favelas, era para mim um desafio e uma coisa de suma importância e também gostei. Quer dizer eu acho que sempre que eu chegava as pessoas acharam que eu ia passar mais ou menos meia hora, uma hora, mas nunca, foi uma coisa assim ficávamos várias horas conversando a fio e as pessoas tinham às vezes um pouco o papo feito, mas depois de várias horas, você não tem mais papo feito. Então era legal ter feito, então era realmente uma aventura, um mergulho, um outro aspecto da vida brasileira que não era totalmente desconhecida para mim, mas era outro viés, outra entrada, outra perspectiva. Então eu levei isso muito entusiasmada para os alunos meus, na Universidade Califórnia. E eles se entusiasmaram e começaram... Bom, alguns realmente foram para os Pontos de Cultura, passaram assim um verão lá em vários Pontos, escreveram as coisas sobre os Pontos, mas iam lá realmente para fazer, para participar. Então eu acho que essa atuação da universidade não é atuação de sempre que as pessoas vão pesquisar... Às vezes vão nos Pontos, às vezes as pessoas que vão fazendo trabalho sobre os Pontos lêem alguma coisa ou fazem uma entrevista, mas muitas vezes fora do Ponto. Então o que eu queria era que os meus alunos ficassem, morassem lá participassem... Um aluno ensinou um curso assim de inglês, outra fez uma espécie de uma pequena apresentação de dança junto com o pessoal, tinha outro aluno que agora vai ser advogado que ele trabalhou com os meninos que estão fazendo história com a banda. Mas eu acho que para ele mudou por completo essa experiência mudou por completa a vida deles, porque eu acho que era aquela coisa de conviver... Eu acho que para o pessoal do Ponto era também uma coisa importante porque realmente não era só aquela coisa estereotipada que são os Estados Unidos, mas era realmente uma experiência bem vivida. Então eu fiquei bem contente com isso, mas para mim também essas conversas sobre o que é a arte, sobre o que é a tradição, sobre o que é a política porque é uma palavra muito ampla o que as pessoas querem dizer por política pode ser uma coisa muito estreita de partido X e pode também ser uma coisa muito mais ampla, muito mais misturada com outras coisas da vida. Tudo isso pra mim era uma espécie de aprendizado. Felizmente eu já tinha um pouco de pano de fundo por causa das pesquisas que eu tinha feita, outra maneira como eu te disse de entrar nisso, outra maneira e eu senti um compromisso muito forte. O Gil tinha pedido que a universidade acompanhasse o Ponto e eu levei muito a sério esse pedido, porque ele não pediu que eu estudasse os Pontos, não pediu que eu desse conselhos para os Pontos realmente queria que a universidade acompanhasse, eu acho que isso faz uns cinco anos e desde aquele momento eu realmente tentei cumprir... Eu ainda tento cumprir com isso, acompanhar o que estiver observando, participando, mas de um jeito bem... Quer dizer tentando aprender, mas viajar junto com isso.

P - Você poderia descrever o primeiro Ponto de Cultura que você foi? Que você conheceu? Você lembra a expectativa que você estava? O que você estava sentindo? Como foi essa visita?

R - Sim, quer dizer realmente tem vários que eu lembro, o primeiro é o Ponto de Cultura meio modelo que é a Casa Grande lá em Olinda que é um Ponto famoso que realmente eles trabalham, quer dizer é uma cultura tradicional indígena e tem um museu... Eu fiquei impressionada porque realmente é uma coisa muito bem organizada que tem muito apoio das ONGs e para mim não é tanto... O Ponto é muito interessante, mas para mim o contraste entre este Ponto, quer dizer um Ponto novo muito fácil de gostar porque realmente tudo que a gente quer que o Nordeste seja junto com, por exemplo, um Ponto lá em Brasília, quer dizer a Invenção brasileira que é dos mamulengos do Chico Simões em Taguatinga. Então a diferença, quer dizer os mamulengos, os bonecos são também muito bonitos, são carismáticos, mas realmente o lugar Taguatinga não é como Nova Olinda, quer dizer não é o lugar que você vai porque realmente está querendo comungar com o nordeste tradicional, não é aquela coisa que tem uma paisagem linda, não é aquela coisa meio mística é uma coisa urbana, uma coisa em que você vê, quer dizer é como a vida da periferia de Brasília. Então, para mim a educação não era tanto os dois Pontos, eram excelentes são interessantíssimos, mas era o contraste que mais me fez pensar porque realmente Invenção Brasileira eram os nordestinos já radicados, filhos de nordestinos radicados numa cidade grande vivendo uma realidade que é uma realidade em parte nordestina, mas em parte quer dizer de cidade que não tem nada a ver com o Nordeste. Então me fez pensar no que fica e o que não fica o que tem que se transformar para ser fiel à raiz e era difícil, quer dizer os preconceitos quer dizer era difícil simplesmente pensar no que é Brasil no que é Nordeste porque não corresponde totalmente. Eu comecei a pensar no que as pessoas querem pensar, o Nordeste às vezes fica como quase como se fosse uma espécie de necessidade, ponto de contraste para as pessoas da cidade pensarem. Quer dizer o Nordeste é muito mais um estado de espírito, mas até certo ponto a favela é o nordeste. Então tudo isso fez com que eu pensasse de um jeito, eu acho que mais útil talvez de forma um pouco mais profunda sobre essas coisas: o que é o Brasil de hoje? E palavras que são fáceis à primeira vista como tradição, invenção e o que quer dizer isso? E quem tem direito a essas coisas. Então foi essa experiência.

P - Primeiro eu queria saber como foi a recepção pra você, né? Como estrangeira vindo como professora de fora, como foi essa recepção? Como foi a sua experiência de ir entrando no Programa?

R - Eu acho que fui sempre muito bem recebida, eu acho que no começo as pessoas acharam que eu não ia falar português. Então houve sempre aquela surpresa e eu acho que no começo, quer dizer o fato de eu ser professora, mas logo depois, eu acho que não. Então como já tinha certa experiência em falar com o povo por causa das pesquisas anteriores, eu acho que sempre tem coisas que uma pessoa de fora não vai entender. E também eu acho que o fato... Tem coisas também pra inglês ver, né? Eu não quero mostrar e tal, mas eu acho que realmente... E também eu fazia questão de voltar a vários pontos. Então a segunda vez, a terceira vez é sempre diferente e você também percebe contradições e dá pra perguntar para as pessoas responderem, quer dizer eu achei que de novo você teria que perguntar para os próprios Pontos, mas eu acho que o fato da conversa ser de modo geral bem assim detalhada bem assim à vontade, eu acho que... E também eu tentei ajudar, porque naquele começo tinha... Hoje em dia tem a rede cada vez mais forte, não? Que vincula os Pontos, mas naquele começo não houve assim tanto costume de rede, tinha a rede digital, mas estava bem no começo. Então muitas vezes eu levava informações de um Ponto para outro “ah, eu estava lá e eles também estão fazendo não sei o que...” ou como eu já tinha visitado o Ponto de vários lugares diferentes eu dizia: “ah, lá no Ceará eles estão querendo fazer também.” Então um pouco essa experiência, eu acho que dá um pouco o que se chama hoje o programa Ponto a Ponto, a iniciativa Ponto a Ponto que eu sempre insistia que seria importante que faria muito sentido pessoas com interesses parecidos ou paralelos conversarem entre si. E agora vai ter a possibilidade de pessoas de um Ponto, representantes de um Ponto passar um tempo em outro Ponto, isso eu acho que é muito importante, era um pouco isso. E eu acho que ficava claro que eu queria ajudar que não era só que eu queria essa informação porque eu ia fazer sei lá uma reportagem, um livro, uma pesquisa, mas eu queria... De verdade eu gostava dos Pontos, eu queria no que fosse possível ajudar.

P - Bom, tudo isso, toda essa experiência refletiu nas suas pesquisas, né? Você poderia contar um pouco o que foram suas pesquisas, porque já está há anos no Brasil, pesquisando o Brasil. Você poderia contar um pouco os acompanhamentos que você fez para sua pesquisa?

R - Sim, as próprias pesquisas, quer dizer logo de começo as pesquisas tinham a ver com formas literárias populares, porque eu acho que comecei com... O primeiro livro que realmente li, por incrível que pareça, era “Grande Sertão Veredas” que eu li a tradução, quer dizer, aí eu achei tão fantástico que eu queria aprender português para poder ler o livro no original. É uma coisa meio doida, mas era assim. Então sempre tinha interesse pelo fundo popular e uma coisa puxou outra e eu comecei a ter amizade e eu fui viajando para as casas dos parentes, dos amigos e descobri a coisa do Cordel. E tinha interesse no começo, por exemplo, na literatura de Ariano Suassuna e ele me mandou para casa dele em Tapeorá e achei muito mais interessante, quer dizer o Ariano é fabuloso, mas eu achei que foi aquilo que realmente mais me impressionou. Então eu queria estudar Cordel, eu queria depois... Depois eu fui pra Juazeiro, eu queria estudar as histórias que as pessoas contam sobre Padre Cícero, depois fui pra Amazônia, escrevi um livro sobre histórias ligadas ao boto, não como folclore, mas como uma expressão da vida das pessoas, uma maneira delas falarem de uma realidade que é delas, não é tanto assim o texto folclórico. Então eu tinha toda essa vivência e tinha certa facilidade de falar mesmo com o povo, eu sabia mais ou menos como fazer isso, né? Então não era difícil fazer a ligação entre os Pontos de Cultura que era uma coisa diferente, mas parecida com as coisas que eu já tinha conhecido e enriqueceu demais as minhas próprias pesquisas, mas eu acho que o fato de ter feito as pesquisas faziam com ninguém tinha que me dizer que a arte do povo vale, eu já sabia isso fazia muito tempo.

P - E conta, você vendo os grupos, você viu o Programa alterar a dinâmica dos grupos? Qual a influência desse programa que você acompanhou? Que você viu?

R - Não, quer dizer mudou demais porque no começo era um programa com relativamente poucos pontos, tinha menos de 300 e a maioria deles já tinha certa experiência, não eram Pontos totalmente novos e os problemas eram diferentes e a linguagem de falar dos problemas eram diferentes. Hoje em dia obviamente é uma coisa muito mais ampla, as pessoas têm outro vocabulário que nasce um pouco da experiência, quer dizer da rede, quer dizer de pensarem juntos os problemas. Então é muito diferente, quer dizer o que tinha de mágico eu acho que ainda tem, mas eu acho que hoje em dia o grande problema não é tanto o que vamos fazer depois, quer dizer uma coisa do dia-a-dia, mas mais a questão de como uma política pode ser poética ao mesmo tempo. Quer dizer como que a estrutura que é totalmente necessária para a sobrevivência dos pontos para que essa estrutura não esmague a imaginação, quer dizer isso já é uma coisa que as pessoas vão descobrindo sem dúvida, quer dizer que é uma coisa que os Pontos estão sabendo, estão... Mas eu acho que é tão diferente do começo em que realmente era mais como fazer uma rede digital, as coisas que hoje em dia parecem mais ou menos secundárias, naquele momento eram coisas realmente muito importantes, porque não tinha feito... Traçado aquele caminho que já traçaram e cinco anos é pouco e é muito, então...

P - Você até tocou numa próxima pergunta então, né? Você acabou falando dos desafios de manter essa... Digamos que não chega uma política, como manter a autenticidade, a tradição, né? Então o que você espera pro futuro desse Programa? Quais são os desenvolvimentos? Teve uma época que era essa cultura digital, né? E agora qual é o próximo passo que você vê, professora?

R - Eu acho que de novo mais ou menos houve o que estamos mudando para outra coisa como envolvimento dos governos estaduais e municipais. Então quer dizer eu acho que... Espero que os problemas vão ser menos da estrutura porque dava dor de cabeça e toda essa coisa da administração, os problemas financeiros porque tinha aquela Lei que era das empresas que não correspondia realmente a essa atuação mais cultural e tal. Hoje em dia, espero que esse tipo de problema prático seja talvez... Passe talvez para o segundo plano, mas os outros problemas serão justamente com o que o Estado vai garantir, quer dizer é uma espécie de neutralidade na seleção como que realmente os pontos vão se entender sendo muitos: 2000, 3000, 4000, 5000 e junto com isso como que a estrutura vai ficar aberta à invenção, quer dizer como que a sua estrutura, essa burocracia porque é essa, como que ela vai ficar... Como ela vai ficar viva, como que tudo que era mais mágico nos Pontos fique, quer dizer sendo possível dentro de uma estrutura que tem que ter, porque sem isso realmente um colapso total. E o futuro que ninguém conhece dizem que pertence a Deus, mas Deus não está dizendo coisíssima nenhuma pra gente no momento, a gente luta para o futuro, mas pode acontecer muita coisa. Então como que os Pontos quer dizer podem ficar sempre respondendo as necessidades e sempre fiéis àquela coisa viva, eu acho que é isso junto com mais outros desafios, mas eu acho que a gente confia, não a gente tem que achar que essa coisa... O povo que foi tão esmagado durante tanto tempo nunca morreu, então agora que está indo para frente como que não vai ainda mais para frente com o suporte que já inventou, quer dizer que construiu que participou... Eu acho que sem dúvida a experiência vai perdoar, mas a forma em que vai fazer isso, as possibilidades poéticas, eu não digo poéticas no sentido de ser o lirismo, palavra bonita, mas é uma maneira de pensar que vai além, que sempre vai além também da coisa prática, da coisa estrutural que em que ter, mas da qual nascem as coisas realmente vivas.

P - Professora, o seu trabalho hoje você está fazendo qual pesquisas? Você continua na literatura com Cordel?

R - Continuo inclusive eu escrevi um livro no passado, eu escrevi um livro sobe a literatura de Cordel que chama Vida no Barbante, eu escrevi um livro sobre as histórias de Padre Cícero, eu escrevi outro livro que era realmente sobre a ideia da natureza encantada que não é uma ideia européia. Eu voltei para Juazeiro faz uns cinco anos justamente na época em que comecei a visitar os Pontos, eu tinha deixado... Eu tinha trabalhado no Nordeste e tinha deixado o Nordeste para a Amazônia e não tinha voltado durante muito tempo, aí recebi um convite para participar de um congresso sobre Padre Cícero em Juazeiro e era coisa de uma semana, eu falei: “puxa deve ser interessante voltar para o Nordeste tanto tempo que não estou lá que eu vou lá e vou passar mais uns dias.” Então eu voltei e achei tão interessante tudo que tinha realmente mudado e tudo que não tinha mudado que eu resolvi voltar para o Nordeste e durante os últimos cinco anos junto com a coisa dos Pontos tenho voltado sempre pra Juazeiro para ver essas três formas, quer dizer Cordel a história de Padre Cícero e também histórias sobre a natureza encantada. E essas histórias têm mudado muito, mas cada tipo de história tem mudado de um jeito diferente. Então teria sido bem mais fácil eu ter escrito livro sobre Cordel, outro livro sobre Padre Cícero, outro livro sobre as histórias da natureza, mas o livro que estou terminando agora é sobre as três formas e como as respostas que elas dão a esta pergunta o que muda, o que não muda são diferentes não é uma coisa só. E o livro você sem dúvida conhece aquele filme do passado que se chama “Bye Bye Brasil”, este livro se chama “Hello, Brazil”, porque realmente a ideia do livro é que as coisas não morram se transformem, quer dizer nunca são assim iguais, mas a ideia das coisas desaparecerem que é a ideia central do filme que não vai ter mais aquela cultura tradicional por causa da televisão, todo mundo vai a Brasília para tocar numa banda. E não é justamente isso, a realidade é muito mais complicada, muito mais complexa e muito mais desafiadora, né? Aquelas histórias que parecem ser sobre Padre Cícero são sobre as mudanças, são como o passado não pode ser como o presente, não pode ser... E a ideia de que Padre Cícero é simplesmente um santinho, essas histórias são sobre a família, são sobre a insegurança urbana, são sobre realmente a mudança no conceito do que é uma família, do que é a mulher hoje em dia, são coisas muito profundas. E através das histórias que as pessoas me contam com facilidade porque não parecem ser coisas tão íntimas, então não são retratos do mundo individual, não dos indivíduos, mas do mundo coletivo e é isso que eles compartilham. Quer dizer o Ponto de Cultura que é sempre uma coisa comunitária junto com as coisas que tem a ver com a minha vida, a sua vida e as mudanças, não as coisas que a gente pensa, quer dizer que a gente perdeu muitas vezes, não morre por completo, as coisas que a gente gostaria de perder que também muitas vezes foi dura. E a ideia da violência, o subtítulo do livro é “Violência, Maravilha e Mudança”, quer dizer nessas histórias, porque a violência vive junto se misturando a todo passo como uma coisa deslumbrante, não?

P - Professora tem alguma história, algum caso que a gente não tenha obviamente contemplado aqui que você queria compartilhar com a gente, contar um caso? Relacionado a você e aos Pontos de Cultura? Ao programa?

R - É que realmente eu não sei se é um caso, mas quer dizer eu não tinha conhecido Goiás, inclusive não tinha tido muito interesse para mim Goiás era um pouco poeira, um bocado de gado e Brasília, quer dizer não tinha... Mas surgiu a oportunidade de visitar os Pontos aqui esta vez e eu fui para a Chapada dos Veadeiros e lá eu conheci um grupo lá em São Jorge, um Ponto que estão trabalhando entre outras coisas com as coisas do cerrado, os meninos estão fazendo os animais em barro, tentando pensar no meio ambiente e eles tinham pintado... Uma das tarefas que tinha lá no Ponto, era pintar à noite, quer dizer à noite no cerrado. Então eles pintaram a lua, mas de formas totalmente diferentes, tinha luas beges, tinha luas roxas, tinham luas grandes e redondas e tinham outras pequeninas. Então quer dizer de modo geral quando eu vou aos Pontos, eu sou muito escrupulosa, eu não peço nada, mas dessa vez que queria tanto ficar com os retratos daquela lua e daquele céu. Então eu pedi, quer dizer tímida e no começo nem queriam dar, porque essa história de chegar lá principalmente na Chapada e muito turista achando bonitinho e levando coisas e mais nada. Mas por fim: “Pode escolher a lua”. Então que dizer a lua que eu escolhi quer dizer está... Tem um céu com umas luas e um passarinho que está meio assim perdido você tem que olhar com muito cuidado, mas sempre que eu vou trabalhando na mesa de escrever sempre que eu de repente estou cansada e não tenho as palavras, eu olho para a lua e o pássaro sempre diz “coragem, coragem” ele vai gorjeando assim. Então essa minha história, eu acho que realmente o que eu aprendi dos Pontos é isso, quer dizer a variedade das coisas, a imensidão do céu, a luz da lua e a voz do passarinho que vai dizendo: “coragem, coragem.”

P - Muito obrigado pela história.

R - O prazer é meu.
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