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História

Era um ditador, e nós tínhamos que andar conforme a música

História de: Luiza Brandão Flores
Autor: Luiza
Publicado em: 15/06/2016

Sinopse

Uma trajetória de vida perturbadora, um sistema ditador dentro de casa. Lizete Teresinha Alberto, uma mulher forte e resistente, se livrou de uma dor, mas adquiriu outras ao longo de sua vida. Sessenta e um anos de muito trabalho, angustia, sofrimento, luta mas também gratificações.

TENTANDO BUSCAR SEU PORTO SEGURO NO PAI QUE NÃO TEVE.

Por: Jenifer Furlan, Karine Pinheiro e Luiza Brandão Flores

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História completa

Lizete Teresinha Alberto, uma mulher hoje com 61 anos de idade, nascida em 02 de março de 1955, começou a sua história de vida na região central do estado do Rio Grande do Sul, uma cidadezinha onde nasceu e se criou, Dona Francisca. Eram quatro irmãos, três meninas e um rapaz. Lizete era a criança mais diferente dentre eles. Todos eram morenos e ela era a única loira e de olhos verdes. Por este motivo a jovem teve uma infância bastante perturbadora e tumultuada - “eu tive uma infância boa, a não ser com meu pai, com muita agressividade”- tinha muito medo do lado violento do pai.

 

Viveu a sua infância ressentida e com muita amargura. Sua mãe estava sempre por perto, mas era uma pessoa submissa e também com medo do marido, nada podia fazer por sua filha. Lizete não entendia, e até hoje com 61 anos ainda não entende o motivo daquela raiva e perseguição. “Meu pai sempre teve implicância total comigo“. A pequena criança aguentou essa vida por um tempo, até que sua mãe lhe pediu para que ela saísse de casa, tentando preservá-la, tirando-a da agressividade de seu pai. Cada um dos seus irmãos levou sua vida, os mais velhos saíram de casa para casar. Ela com apenas 16 anos saiu de casa para morar em Faxinal do Soturno, cidade vizinha de Dona Francisca, e lá terminou seu 2° grau. Quando seu irmão veio para Porto Alegre, ela o acompanhou na viagem para trabalhar na capital, onde conseguiu um emprego no banco Sul Brasileiro, hoje Santander. Da infância ela pulou direto para o mundo adulto, tendo que se virar sozinha, sem um ponto de referência nem um amparo, pois os pais haviam ficado no interior. Lizete, assim que chegou a Porto Alegre, foi morar em um pensionato, onde passou por muitas dificuldades, como fome e frio.

 

“VIVI E VIVO INTENSAMENTE ESSA VIDA”

Depois de dois anos morando na capital, casou-se. Ela via seu marido como um porto seguro, alguém que pudesse protegê-la, entrou nessa relação com a esperança de que ele cuidasse dela, fosse um pai, preencher de uma certa forma a falta de afeto paterno que ela sentia. Mas teve um casamento muito difícil, seu marido era alcoólatra e algumas vezes chegou a bater nela, foram muitos anos de complicação, como relata a mesma. Foram longos 12 anos de submissão, seu marido não queria que ela trabalhasse então Lizete largou o emprego no banco Sul Brasileiro. Eles tiveram dois filhos, Patrícia e Cristiano.

 

Quando seu filho tinha um ano de idade ela voltou a trabalhar, mesmo contra a vontade do marido. Foi trabalhar como digitadora, profissão que era nova na época, dois meses depois surgiu uma oferta em uma multinacional, onde trabalhou por mais de um ano. Seu marido morreu de enfarte em 1988, ela ficou viúva com dois filhos para criar, Cristiano com seis anos e Patrícia com nove anos. Dois meses antes de morrer, ele havido tentado matá-la.

 

Meses depois, neste mesmo ano, Lizete perdeu a sua mãe, “Ela era meu porto seguro”. Desde então criou os filhos sozinha e voltou a passar por muitas dificuldades. Depois de mais de três anos viúva conheceu Marcos Costa da Silva, segunda ela, uma pessoa maravilhosa, com a qual se casou e é seu marido atualmente. Com ele teve sua terceira filha, Mariana. Passados alguns anos seu filho mais velho, Cristiano, entrou na adolescência e com 14 anos virou depende de drogas, “A pior que aconteceu na minha vida foi ver meu filho se suicidando na minha frente e eu não poder fazer nada por ele. É a pior coisa que pode existir para uma mãe. ”. Ele utilizou entorpecentes dos 14 aos 30 anos de idade, hoje com 34 anos está limpo, mas com várias sequelas.

 

Ele teve diversas internações, sua primeira por conta da cocaína, incluindo muitos hospitais de Porto Alegre, sempre fugia e ela voltava a interna-lo. Além de ter sido preso três vezes. Sua primeira prisão foi por conta de um roubo de um aparelho celular no Planeta Atlântida, onde ficou desaparecido um mês, Lizete achava que ele estava morto. Procurou no IML, hospitais e só foi encontra-lo após um mês, pois estava preso e não tinha conseguido entrar em contato com ela. Foi na cadeia que ele aprendeu a usar o crack.

 

Em meio deste período Cristiano conseguiu terminar o ensino fundamental através de supletivo e o ensino médio através de EJA, passou no vestibular para enfermagem na Ulbra, cursou 2 semestres, mas não resistiu e voltou para as drogas. Hoje, Cristiano não trabalha e não estuda, com 34 anos e sem condições de se manter sozinho, ela o ajuda a se sustentar. “Depois de minha partida, não sei como vai ser”, declara Lizete. Em 2011, Lizete foi diagnosticada com câncer de mama, foi um período difícil, porém mesmo com as quimioterapias e reações terríveis ela não deixou de trabalhar. “Hoje estou bem, fazendo tratamento como prevenção”. Mesmo com uma vida sofrida, teve momentos de alegria. Lizete têm três netos: Lucas, Laura e Lorenzo. Sua filha mais velha, Patrícia, trabalha no Tribunal Federal do Trabalho e sua filha mais nova, Mariana, está se formando em enfermagem. “Os fracassos dos nossos filhos são nossos fracassos, as realizações de um filho é a realização de um pai”.

 

O SALTO QUE FALTAVA EM SUA VIDA

Lizete ingressou na Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul em 1985 por indicação de sua irmã, que já trabalhava no local, para uma vaga emergencial de três meses. Entrou no antigo Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social (INAMPS), atual INSS. O contrato emergencial que era de apenas três meses foi renovado para seis meses e consequentemente nove meses. Quando entrou o governo de Pedro Simon, Lizete foi convidada para trabalhar no gabinete do secretário e iniciou como recepcionista, o que durou apenas quatro meses, pois foi convidada pelo secretário Antenor Ferrari para trabalhar em sua assessoria. Nesse mesmo governou se tornou assessora direta do secretário, cargo que durou até março de 2016. Lizete trabalha há 31 anos na Secretaria da Saúde e este ano, em abril, teve todo o reconhecimento por anos se dedicando à esta instituição sendo nomeada Chefe de Gabinete.

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