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História

"Eu não vi o século passar, não"

História de: Germano Araújo da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2005

Sinopse

Germano conta sobre o nascimento de sua mãe e de sua avó numa aldeia indígena, sobre o seu pai que nasceu numa colônia em Portugal e veio pro Brasil para ser vendido, mas acabou fugindo dos portugueses. Relembra sobre sua infância na roça, o momento em que a lei Áurea foi promulgada aos seus treze anos, o período em que morou com seu padrinho, suas traquinagens, seu trabalho com gado, a importância do padre e da igreja, sua fuga da roça para cidade, Pernambuco, seus casamentos, filhos, seu sonho de ter uma roça própria e a sua dificuldade em encontrar emprego em São Paulo após os noventa anos.

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História completa

P/1 – Seu Germano, queria começar a nossa entrevista pedindo pro senhor falar o seu nome completo.

 

R – Meu nome? Meu nome é Germano Araújo da Silva.

 

P/1 – E onde que o senhor nasceu e em que dia?

 

R – Eu nasci em Vitória da Conquista, Bahia, no dia 22 de agosto de 1875.

 

P/1 – Qual o nome dos pais do senhor?

 

R – Meu pai chamava Vitório Pinto da Silva.

 

P/1 – E a mãe do senhor?

 

R – Ana Ribeira de Araújo.

 

P/1 – Certo. E seu Germano, o senhor estava me contando como era o local que a mãe do senhor nasceu?

 

R – O nascimento da gente, da minha mãe e da minha avó, era aldeia de índio, então ali, naquela aldeia era só índio. Agora meu pai era de Portugal, meu pai era português, e minha mãe brasileira. Quando meu pai veio de Portugal, ele veio pequeno, novinho, mas como ele veio pra ser vendido no Brasil... Ele não sabia, veio aqui pra trabalho. Era novinho, então quando chegou no meio da estrada, todo mundo tava cansado, e os português foram descansar, dormir, meu pai era novo e ficou esperto. E o mais velho “garrou” no sono, “os menino sempre não cansa”, assim ele contava. Quando foi noite, os português tavam fazendo as contas quanto dava de dinheiro nos negro aqui no Brasil. Aí ele falou: “Poxa, a gente vai ser vendido”. Aí ele deixou todo mundo dormindo. Quando os portugueses foram dormir, ele pegou as trouxinha dele e “ssh”, “dendo” mato, [se] escondeu no mato. Quando foi de madrugada que eles “abalançou”, contou os negros pra viajar, faltou meu pai. Faltou um neguinho. E daí danou a procurar, procura aqui, procura acolá, procurou. Andou, andou, e antes do dia amanhecer, eles falaram: “num acho o  nego, acho que saiu por aí e a onça pegou”. Nesse tempo eles tavam... Num tinha medo de onça, onça tava _____. Mas era muita gente, então num ia ter medo de onça, saiu por aí pra fazer alguma coisa e a onça pegou. Mentira! Meu pai tava debaixo da moita, escondido na moitinha, rodearam, pisaram na moita, rodeou tudo e ele “catinguim”. Quando eles fizeram a viagem daqui acompanhou. Sabe a guarda dele que a onça não pegou, não veio atrás deles também não. Aí ele disse que chegou, bem adiante, viu um galo cantar, tinha um carreirinho, já era de manhã. Ele aqui pegou o carreirinho e saiu numa fazenda, e ficou por lá, trabalhou um bando de tempo. E daí ele veio andando a pé. Trabalha num canto, trabalha em outro, chegou dentro do Brasil mesmo. Chegou em Vitória da Conquista. Agora, como foi que ele chegou em Vitória da Conquista eu não sei, mas eu sei que ele veio a pé, andando, trabalhando num cantinho, trabalhando em outro. Para aqui um dia, um mês, dois, três, numa fazenda, aí quando o povo tava bem satisfeito com ele, e ele aqui puxava no canto e ia embora. “Ah, não, sinhozinho. Eu vou embora, vou embora andar mais, até”. Chegou em Vitória da Conquista, quando ele chegou em Vitória da Conquista, a primeira coisa que ele caiu foi na aldeia dos índios. Caiu nos Oliveira, ai ele ficou por ali e já existia cativeiro, mas ele tava sozinho, foi a aldeia que ele procurou, foi dos índios, que são os Oliveira”. E por ali ele casou com minha mãe, minha mãe já era índia, filha da minha avó, então ele ficou por ali. Casou com a minha mãe. Mas ele era africano.

P/1 – Ele era africano?

 

R – Era dos africanos de Portugal.

 

P/1 – Que pertencia a Portugal?

 

R – Era.

 

P/1 – E seu Germano, o que ele contava da tribo lá da África? Contava alguma coisa?

 

R – Não princesa, ele pra gente não contava muita coisa, porque aquele tempo que ele morreu também eu era pequeno, e meus irmãos também esparramaram, um pra um canto, outro pra outro, então não contava pra gente o significado, o que acontecia por lá. Ora, ele morreu com 130 anos. Eu era muito pequeno quando ele morreu, eu era pequeno, eu não existia pra mim, eu ainda, quase... Agora, meus irmãos mais velhos sabiam, mas não contavam pra gente, e esses mais novos também não sabem de nada, quase como eu, era mais novo então... Porque meu pai foi casado três vezes. Eu tenho irmãos que nem conheço, irmãos por parte de pai que eu nem conheço, tem muito irmão, ih, mas diz que meu pai, fora dos casamentos casou, teve três famílias, casamento de padre, mas o problema dele é que não era só isso. Fora esses casamentos que ele teve, ele era reprodutor. Eram muitos irmãos.

P/2 – Ele era reprodutor?

 

R – Era. Meu pai era reprodutor, fora do casamento teve dois filhos, casou, mulher morreu, a primeira. Depois, com muito tempo ele queria só ter a família, não queria viver só de ser reprodutor. Queria ter a família. A família dele, particular, a minha família. Então se for falar em “parenteza” de irmão, eu nem conto meus irmão por parte de pai, ave Maria, nem vai, não ta nem escrito. Sinhozinho, ih, esses casos meu são muito compridos, muito complicados. Ah, problema de família. Você me pergunta o que eu sei, que Deus não me alcance. Agora, minha avó eu conheci, ela contava, era riúna, era índia, ela pegava flecha mais minha mãe, ia pro mato, sozinha, velha “corajuda”. Chegava, enfrentava onça, enfrentava caça, chegava com viado, quando dava jeito ela achava uma onça que queria pegar ela, ela (intrexerava?), mandava flecha, matava a onça, e depois mandava ir buscar. Não tinha medo não, eles eram do mato mesmo. Não tinha medo de onça.

 

P/1 – Como que ela chamava?

 

R – Maria Ribeira de Araújo. Essa família dos Araújo é muito grande.

 

P/1 – Ela tinha um nome indígena?

 

R – Hum?

 

P/1 – Ela tinha um nome indígena?

 

R – De índio?

 

P/1 – É.

 

R – Tinha! __________ na língua deles, mas eu já num peguei essa língua, mas eu tenho muito faro. Eu sei o dia deu trabalhar no mato, eu sinto, se tiver uma cobra em tal lugar assim, eu estando trabalhando, eu falo: “ó, trabalha com cuidado que aqui tem uma cobra! Ta em tal lugar assim”. Vai até o joelho se for cobra perigosa, eu sei qual é, conheço pelo cheiro. Se for patrona eu falo, se for cascavel, falo, se for surucucu, é tal cheiro, de tal cobra assim assim. “Ela ta na frente, trabalha com cuidado, pode trabalhar com cuidado”. Se for surucucu, pode esperar que ele fica em pezinho, ta em pé, com as pancadas, mas se for cascavel, não, cascavel já vem logo a pancada “xaxaxaxaxa”. E patrona fica quieta, conheço pelo cheiro.

 

P/1 – E foi a avó do senhor que ensinou isso?

 

R – Não! É faro de índio, faro que tenho, é o cheiro, eu tenho faro, sente, tem um cheiro mesmo. Sente, pelo nariz.

 

P/1 – E ela passou alguns costumes indígenas pro senhor?

 

R – Ela, às vezes não passava, é sempre um costume que ela passava pra gente era só trabalhar, ir pra roça plantar feijão, milho, cana, agricultura, mas alguma cultura que ela tinha já não servia pra nós, porque era de cultura dela, a profissão dela. Ela também não parava em casa, ela dirigia [levava] a gente pra trabalhar. Ela só vivia de mão em mão dos brancos, ela era parteira, a profissão dela era ser parteira. Agora ela era parteira, analfabeta, mas ela sabia fazer o parto bem melhor, nenhum médico fazia o que ela fazia. Por raiz do mato ela explicava e sabia qual era o remédio, o que a mulher precisava, o que não precisava. Era parteira mesmo de muita categoria. Isso aí não dava pra gente, essa profissão dela era a profissão dela. Finíssima, finíssima! Morreu com 140 anos, minha avó. Minha mãe morreu com 120.

 

P/1 – E ela trabalhava pra quem?

 

R – A minha avó? Bom, ela trabalhava naquele tempo pros índios, depois que o senhor dela morreu, então eles ficaram trabalhando por suas liberdades, liberdade própria. Cada um tinha sua liberdade de trabalhar. Infelizmente minha avó tinha mais minha mãe, tinha até rendeiros, tinha criação, mas não chegou ponto pra nós. Porque quando minha mãe morreu, ficou minha avó tomando conta da gente. Minha avó morreu, ficou meu tio. Meu tio chegou, ficou sendo tutor, a gente era pequeno e ele rápido comeu tudo. Morreu na miséria. Morreu pior do que eu. Porque a gente que era herdeiro, ele comeu tudo o que era nosso e o que era dele. Acabou com tudo, com fazenda, com gado, com égua, área que tinha animais cavalar, acabou com tudo, deixou a gente e ele morreu na miséria. Hoje pelo menos, nós ainda estamos... Pelo menos os que não tem nada... Os meus filhos, que são netos da minha... Já bisneto, esses graças a Deus já tem alguma coisa feito por nós mesmos, que trabalhou, já deu, deixou pros filhos, e a gente que já trabalhou também pra deixar pros nossos filhos, mas por herança nossa que o meu pai e minha mãe deixou, minha avó, a gente não aproveitou nada.  É o que eu falo, meu sonho é ter meu terreno próprio, porque trabalho pros outros meu senhozinho, minha sinhazinha, não faz, ninguém faz nada.

 

P/1 – E seu Germano, me fala uma coisa: como era naquela época, no final do século XIX, o lugar que o senhor nasceu, Vitória da Conquista?

 

R – Ah! Vitória da Conquista, onde eu nasci, era um arraialzinho. Conheci lá com sete casinhas - casinha de enchimento, tapa, casa feita de adubão, adobe cru, era assim, agora com aquele adubão cru fazia até prédio. Numa batia laje, era tabuado por cima. Fazia da altura que queria, mas só de tábua, não botava laje pesada, não, era só madeira. Era um trabalho muito bem feito.

Eu conheci ali com uma série de casas, prédios, sobrados, e como tinha o sobrado da dona Ritinha, era falado: “sobrado de dona Ritinha”, no centro da cidade, na praça, de adubão. Agora diferenciou tudo. Em Conquista ainda existe uma casinha de tapa, que era de madeira, feita de enchimento, e existe casa de adobe ainda, adubão cru, terra crua.

 

P/1 – O adobe é terra crua?

 

R – É, amassa o barro, agora faz, tem aquela forma, como forma mesmo de bloco, grandona assim, agora levanta, seca bem sequinho e trabalha só com barro porque barro não aceita cimento. É calo e barro. Não aceita cimento. Não, barro aceita cimento, mas naquele tempo não havia cimento.

 

P/1 – E a taipa, é o que, seu Germano?

 

R – A taipa é ficar uma forquilha assim, um pau assim, outro de lá, outro no meio, no meio assim, correr a “cumieira” por cima, e a roda da casa, puxa com as linhas, como faz barraca, e aí vai encostando madeira assim, mais ou menos nessa distância, de uma madeira na outra, agora vem e finca tudo por aqui, e amarra, amarrava com cipó. Amarrava tudinho com cipó de um lado e de outro. Aí vinha com o barro, amassava o barro, batia de mão, tampava tudo. Ali rebocava, depois dava, pegava a areia, misturava no barro, jogava cocô de gado, molha e agora misturava tudo na terra, era o reboque que tinha. Era o mesmo, era igual ao cimento o cocô do gado fresco, pro reboque é pior, é igual cimento. A água não lava, fica duro ali, a chuva pode bater que ali não desmancha o barro.

 

P/1 – As casas eram pintadas?

 

R – Era pintada. Pintava. Uns pintavam, outros faziam só barro puro. Quando o barro era forte, _____ lascava tudo. Gozado, quando via que o pai da moça gostava daquele rapaz, por exemplo, meu filho, ele chegava e pedia, vinha me pedir uma filha minha pra casar com um filho dele, pedia minha filha, quem pedia pra casar eram os pais: “olha você me da fulano pra casar com minha filha?”. Aí eu fazia que sim. Não tinha negócio de namoro não. Eram os pais que pediam os casamentos dos filhos pras mães. O pai pedia pras filhas, e quando ele gostava da moça, a moça era trabalhadora, pedia, chegava pra ela e dizia: “ô fulano, eu quero sua filha pra casar com meu filho”. Quando o pai agradava, ia lá e pedia o pai, o filho daquele outro pra casar com a filha, era assim. Não tinha negócio de namoro não. Bastava olhar, ou então tratava aquele casamento, e a moça pra ver aquele rapaz espiava da rachadura da parede, o namoro era aquele da rachadura da parede. Vestidão dando aqui no pé. Era assim. Não era como eu vejo hoje. Essas moças de maiozinho, de coisa, de andar quase nu, que nada. Quem é que diz que mulher vestia calça como essa daí? Era vestidão, arrastava no chão, saiona, saia. Os panos eram de algodão, não tem esses panos fino de hoje, que a gente veste tergal, brim, tops, era pano de algodão, tingia. Agora, sabe como é que tingia? Tinha uma lona que ficava preta e de outra cor, tinha anilina, é uma rama que dava no mato. Com aquela anilina tingia roupa do jeito que queria. Botava de azul, botava não sei, com outras plantas lá, tingia de vermelho, tingia da cor que eles queriam, que eles conheciam no mato, tinha “flora” [flores] de tirar a tinta, eles já conhecia as “floras” que dava tinta da cor que eles queriam. E aquela tinta pegava mesmo que não soltava nunca. Podia lavar, fazer o que quisesse que nunca soltava.

 

P/1 – E seu Germano, quem morava em Vitória da Conquista nessa época, nessas sete casas?

 

R – Bom, aquilo ali eram aqueles antigo que hoje não existe mais. Naquele tempo era a Lívia Gusmão, Oliveira, Olívia Gusmão de Oliveira, a família dos Mendes, antigamente acabou os Mendes, os mais velhos, era a família Mendes, era a família Brito, era a família “tsc, tsc”, eram aquelas pessoas mais velhas que a gente não lembra. Família dos mais velho, dos Oliveira.

 

P/1 – Eram portugueses?

 

R – Nada! Eles eram índios. Agora apareceu uma família lá de Gusmão, e entrou esse Gusmão no meio e por ali casou nessa família e criou os Gusmão de Oliveira e foi rendendo, rendendo, mas só apareceu um Gusmão lá. Agora, da onde era esse Gusmão, é que ninguém sabe. Eu não sei, apareceu esse Gusmão, e esse Gusmão sozinho deixou a família toda grande e rendeu nome de “Fulano Gusmão de Oliveira”, Gusmão de Oliveira e foi criando.

 

P/2 – Seu Germano, o senhor passou a infância lá em Vitória, onde? Como era a infância do senhor?

 

R – Ah! A infância era trabalhar em cultura, “senhozinho”, era trabalhar com roça, era trabalhar com gado, era montar em burro, amansar a burrada brava, puxar gado pra fazendeiro, boiada pra levar pra feira, feira da Bahia mesmo. No Estado de Minas, os patrão compravam boiada, o Maneca Dodô ou então Nanda Gusmão, Zeca Gusmão, eu sempre era encarregado de puxar o gado pra Salvador, que é feira, é pertinho e levava pra matança. É onde eu digo pra vosmecês que eu nunca gostei de ser boi, sempre gostei de ser ferrão (risos). Então eu pegava o gado por empreita e carregava o gado, uns andavam a pé, tinha o Salta Moita que entrava nas moitas pra tanger o gado, e às vezes entrava um gado dentro do mato, precisava ter o a pé pra toca o gado, pra jogar pra fora, bom, então eu... Quem mandava sempre na minha criação... De meus patrões, eu sempre era o gerente, é como eu falei em toda minha vida, eu sempre gostei de ser ferrão, nunca gostei de ser boi. Eu mandava meus vaqueiros, pegava as boiada, levava lá pro pessoal, levava tudo por minha conta, era eu que escolhia, era eu quem apanhava, era eu que mandava, eu só era mandado do patrão. Eu mandava os camarada e a boiada que eu tocava. Pegava dois mil bois, mil bois, ai no Estado de Minas, eles compravam e eu ia apanhar, recebia. Só fazia pegar o gado. Apanhava na fazenda, levava, entregava no curral, lá no pátio da feira. Encurralava o gado, entregava pro patrão.

 

P/2 – Quanto tempo demorava isso?

 

R – Ah! Demorava meses, meu filho. A gente saia daqui de Minas, comprava o gado, por exemplo, em Pedra Azul, Monte Azul, ali em Itaberaba tinha as marchazinhas, contava as marchas, a gente ia por marcha. Às vezes viajava cinco léguas, chegava e já tinha os dormidores certos, porque sempre tinha morador, aqui e acolá, a gente tinha que pegar pouso. Quando tinha pousozinho mais longe era de oito léguas, tinha que aumentar a marcha mais um pouco. A gente sempre... As marchas eram cinco léguas que a gente viajava. Hoje fala quilômetro, mas falava légua. Um quilômetro são seis léguas. Sempre a gente viajava cinco léguas pra não maltratar o gado. Quando o gado afetava a gente passava às vezes até um mês, porque o gado tava afetado. Ficava ali de paia no acampamento, só tocando violão, sanfona, deitado na rede. O meu era esse. Só mandar, ficava ali na rede, só tocando violão mais a turma, tocando sanfona. Patrão também, às vezes chegava. Patrão era sanfoneiro. Eu gostava de um violão, ele na rede de lá e eu na rede de cá, ele tocando sanfona, e eu no violão. O cozinheiro era... Comida caseira mesmo. Fazia feijoada de toucinho, carne de boi, pegava aquelas cabeçonas de osso, jogava no feijão, ai vish, bate assim, com uma pedrinha no prato, aquilo enchia só de óleo, nego quando mexia no prato com farinha de mandioca ih, não dava outra, chegava, molha os bigodes. Era uma vida muito gostosa, era boa a vida, tudo a gente andava de todo jeito, pano, era pano de algodão, mas foi uma vida muito suave, uma vida boa. Agora o cara esforçava muito pra trabalhar, tomava chuva, tomava sol. Também se tivesse pra passar em um rio tinha que jogar um boi, pras piranhas envolver, pra jogar o animal dentro do rio. Vida perigosa, né, meu filho. Atravessar o gado no rio era muito perigoso. Rio grande, rio que passava cada peixe. Quando o rio tava cheio, aí ninguém jogava o gado dentro não. Ai o rio de conta era nossa travessa, tinha que deixar secar, esvaziar, pra jogar o gado. Ai quando tava cheio não podia jogar o gado porque ia embora tudo. E tinha muito rio pequeno, quando tava cheio era valente, forte, mas tinha que passar nadando. Rio que tinha até piranha, essas coisas, tinha que jogar um boi ali mais ruim, que não dava peso, mais barato, jogava ali pras piranhas envolverem, pra jogar o gado pra atravessar. Ai atravessava mil, dois mil bois. A gente sofria muito. Vaca dava cria no meio da estrada. E era obrigado a deixar os bezerro na manga, dava pra outros, a gente dava pra aqueles fazendeiros criar com o as outras vaca, era um sofrimento.

 

P/1 – Quando o senhor levava o gado, como era? Formava tropa?

 

R – Formava, tinha.

 

P/1 – Formava tropa?

 

R – Tinha tropa, tinha cozinheiro, ali tinha de tudo, tinha os barris de água, tinha que pôr água e as panela, ia tudo, ia carne, ia feijão, ia tudo, tudinho, ia tudo. Rede, coisa de dormir. Quando faltava um boi, às vezes tinha falha, aí a gente empatava ali, às vezes não podia ficar empatado, na hora que contava o gado, faltava um boi. Tinha que voltar um, um vaqueiro pra pegar o boi que faltava. Dois ou três bois. Às vezes passava três, quatro dias pra o vaqueiro pegar esse boi e leva pro acampamento. Teve um dia que eu mandei pegar, faltou quatro bois, vaqueiro vinha, bateu, bateu, “vá fulano, você”, um falhou, dois bateram, bateram, bateram nada. Eu falei: ”eu vou buscar o boi”. (risos), Maneca falou: “já mandou vaqueiro, você é gerente, porra, você manda, você num é vaqueiro de boi, de correr não”. “Eu vou buscar, ‘coroné’, né patrão? Eu vou buscar”. “Ah, leva fulano”. “Eu vou sozinho”. Eu tinha cachorro, tinha um cachorro bom, eu tinha meus animais, meu mesmo. Eu só viajava com a minha bagagem. Minha, era minha mesmo. Peguei meu cachorro, ia num burrão: “eu vou buscar o boi, com a fé em Deus”. Só andava com Deus. Peguei o ferrão, joguei na cabeça da sela, nos ombros, na mão os (alfejão?) de comida. Joguei na cabeça da sela, a cabaça d’água, toquei o pau. Cheguei assim, andei, andei, já vi onde é que os caras se batiam. Boi _____ pensei assim, se o boi sumiu, foi em tal lugar assim assim. Parece que é uma coisa que eu pensava. Então eu cheguei, soltei o cachorro onde eu pensei que foi que tinha entrado o gado. O Salta Moita deixou o boi ir embora. E eles não tinham ido lá, eu sei que não tinha ido. Quando ele saltou, soltei o cachorro, o cachorro pegou o rastro. Ah, eu sei que ele ta por aqui. Cachorro deitou em cima, e eu só to montado no cavalo. Olha que eu tinha lugar que eu era obrigado a puxar, a puxar o animal. Tinha que ir no rastro do cachorro. Quando cheguei assim, numa baixa, num centro, só tinha um baixão, só tinha onde é que se... Quando o boi me viu, o bicho “arribou” a cabeça, mas só andava junto. Não “aparta nem que dana”. Gado de boiada, só tem que correr, só anda junto, não esparrama. Aí eu cheguei, chamei o boi: “ô, ô, ô, ô, buuuu”, com o burrão. Chamei o bicho, no “buso”[berrante], o cachorro olhou assim, eu voltei a rês, e chamei ele no “buso”: “buuuuu, buuuu”, ai eu peguei o carreiro. Só ia “adentrando” e o gado acompanhou tudo. Ah, mas tem um remédio, não é minha filha, não é assim, não. Primeiro batia a vara do ferrão no chão três vezes, e peguei o ferrão e botei, amarrei aqui assim, com o ferrão pra cima, com prego, com prego de ferrão.  E chamei o gado. Na frente me acompanhou um por um, aí eu saí na estrada e fui embora e o boi vem atrás. Pó, pó, pó, na minha frente, atrás de mim. Eu só ia abrindo a cancela e deixando aberta como se fosse porteiro, o gado ia passando, e eu to na frente só com o boi. Passava um dia, se passava, falhava um dia, no outro dia eu chegava lá chegando com o gado. Dormia naquele pouso, encurralava o gado, no outro dia eu puxava o gado. Eles tavam lá no pouso me esperando. Chegava na frente: “cadê o gado, Germano?” “Vem aí atrás, me acompanhando”. Chegava um por um. Era assim que eu trabalhava.

 

P/1 – Seu Germano, o que era o ferrão?

 

R – É esse de ferroar o boi. De bater em boi. Quando o boi vem em cima da senhora, a senhora baixou pra ele não bater na senhora, a senhora bate nele. Era uma vara. O ferrão é um espeto enfiado numa vara, encartuchado. Agora, ali é bem travado, de linha, feito parafuso. Aquilo entra naquele pau, aparafusado. Vai girando ele, até ele entrar desse tanto na madeira, agora com aquela ponta desse tamanho. Cato ele, cá em cima da senhora, e se baixou o ferro e pá! Pulou fora, ele torna vim, pá! Se puxar o ferro no touro, eu já cansei de quando eu queria matar o boi, tava com raiva, puxava. Fazia era isso aqui, ó, só dava duas pancadas. Nas terceira ele ia, arghmm, e no cabo de Lourenço chapava, o bicho “estribia”.”Ai patrão, matei tal boi”. Ele ia morrer, né? O boi ia me matar, o que vai fazer agora? Ah, manda tirar o couro, vamos comer carne. Fui vaqueiro de tal pasto. É por isso que toda vida fui ferrão, mas nunca gostei de ser boi. Eu era vaqueiro famoso.

 

P/2 – Seu Germano, como era? Além do ferrão, o que mais o vaqueiro usava pra trabalhar?

 

R – Ah, o que usava... Quem tinha que _____ que sabe trabalhar, tinha, expressa. Chamava o boi, o boi não feria a gente, nem a gente não feria o boi, era assim, por meio de prece. Eu tenho duas preces, mas não posso ensinar ninguém. É uma coisa que eu não ensino porque é uma coisa tão complicada que eu não posso ensinar. Só serve pra gente mesmo. Bom, isso ai quem me ensinou foi minha avó. Minha avó morreu com 140 anos. Então só servia mesmo pra mim, eu era treinado naquilo, aquilo é Deus quem dá aquela força pra... Todo mundo tem um tino. Por que o gado me acompanhava? Eu tinha aquele dom, saber trabalhar, aquelas palavras bonitas de Deus, chamava por satânicas, não. Bom, eu montava num burro, e já acabou. Eu pegava numa burrada, eu montava num burro, burro é passado. Tirava qualquer peão. Eu chegava e montava no burro em pêlo. Eu sozinho. Pegava ele passava no mourão, pegava uma cordinha, passava na tromba dele. Montava nele e trançava o pé no vazio. Ele dava dois pulinhos, prup, e nenhum vaqueiro aprumava. Outra hora que eu montava de sela, eu queria brincar com ele, não dava, não tinha negócio de oração não, montava porque eu gostava. Quando eu chegava como em Pedra Azul, que a gente ia montar em burro, tinha aquela no pátio, ali em Pedra Azul, é tudo é casa de farinha, tinha aqueles fazendeiro, os Almeida, é aqui perto, em Minas. A gente chegava, dia de domingo a gente ia montar em burro. Chegava tomando pinga por aí, pra fazer aquelas proseada, aquelas mineiras. Eu chegava, passava: “ô patroa”, fazendo farinha “o meu nego, você não mostra o coração do burro, não?” “Eu vou mostrar o coração do burro, patroa, se a senhora me der um beijo”. Agora a gente falava de “beiju”, eu era malandro, rapaz, eu já fui negro malandro. No meio de branco. Eu to dizendo, a vosmecês que não me “avexo” com nada. Já labutei muito com os Almeida. Já ouviu falar nos Almeida? Em Minas? Ouviu falar? Pois é. Eu labutei muito com Arminda Almeida, a dona Francesa de salto grande. Eu labutei com muita gente, sinhá e sinhozinho. Labutei com os brancos, perigoso. Bom, eu posso conversar mais, o que eu sei, sem “vosmecês” me perguntar?

 

P/1 – Pode.

 

R – Eu já fui convidado no Estado de Minas, mas como na Bahia mesmo, lá na minha terra, não estou lembrado assim, mas cada um tem [as] suas diferenças. Já fui convidado pra pegar minha espingarda pra tirar vida de um mano, mas eu falava: “não”. “Quem quer vai, quem quer vai, quem quer manda, e quem não quer, quem quer manda, vai, e quem não quer manda, vai você mesmo”. “Eu não sou pra isso. Eu não sou de ganhar dinheiro”. Pra ninguém, ninguém. Pra tirar a vida de um mano, não! Nunca aceitei. Esses homens na vida mesmo, gostava disso mesmo, de mandar. Esses Gusmão gostavam de mandar pra tirar a vida de um mano, falei: “não, eu não tiro a vida de ninguém. Nunca ganhei dinheiro pra fazer mandado de ninguém”.

 

P/1 – Isso era comum, seu Germano, naquela época?

 

R – Era comum. Antigamente, aqueles fazendeiros queriam tomar a terra dos outros, mandavam matar aquela pessoa. Entrava numa questão, ia indo, ia indo, mandava matar aquele. Os fazendeiros mandavam matar uns aos outros pra poder ficar com a terra. Era uma questão nojenta. Só por causa de terra. O que mais matava gente era só por questão de terra. Bom, eu nunca aceitei isso. Eles me pagavam bem pra aquele tempo. Confiavam em mim. Aí eu falava, eu nunca quis. Não, eu “não sou disso.

 

P/1 – Quanto que eles pagariam naquela época? O senhor tem idéia?

 

R – Não, eu não tenho idéia. Era mixaria, era mixaria, negócio de dois conto de réis. Naquele tempo o cara que tinha um conto de réis era milionário. Ele era dono de fazenda como daqui na Aparecida. Quando era milionário, quando tinha um conto de réis, quando tinha quinhentos mil réis, era quinhentos centavos hoje, era dono de terreno como daqui em Santo Amaro, que era pobre. É minha sinhá. Quando tinha no bolso naquele tempo de mil réis, tostão, vintém, quem tinha um conto de réis era milionário, quem tinha cinco, quinhentos mil réis, era aquele papelão desse tamanho de papel, e mil cruzeiros, um conto de réis, era desse tamanho. Falava: “um conto de réis”. Era um dinheirão. E de papel, tinha aquelas moedinhas vermelhas, como é que chama, de metal, e a gente perdeu muito dinheiro naquilo, naquelas moedinhas que você via de quinhentos réis, fininha. Aquilo tudo era ouro. Aquele mil conto de réis, aqueles mil “réizinhos” de moeda, hoje a gente perdeu. Quando chegaram os portugueses, japoneses, compravam, sabiam que era ouro, iam comprando. Ouro puro. E a gente pegava, pra não valia nada. Pegava aquilo, são quinhentos réis e um mil réis. A gente  jogava no mato aquelas amarelinhas.

 

P/1 – Seu Germano, eu queria que o senhor falasse uma coisinha que o senhor não falou lá fora com a gente. Da maneira que o senhor foi criado, o senhor chama a gente até hoje de sinhô e sinhá. Queria que o senhor falasse um pouquinho isso.

 

R – Bom, naquele tempo, que a gente pegou essa língua de chamar de sinhá, sinhozinho, é porque a gente, os negros, tinham que chamar os brancos de sinhazinha, sinhozinho. Bom, os brancos se compreendiam. Era rainha, princesa, é que os negros tratavam de sinhazinha, e nisso, a gente naquela criação, que era a língua dos negros. “A gente também chamava os nossos patrões de sinhá, sinhozinho. Bom, e ficou, e pegou essa língua. E a gente tratava de sinhá, sinhô, sinhozinho, princesinha, pois foi isso que a gente significou chamando. Aquele tempo, minha sinhá, era um tempo muito bom, era um tempo que havia respeito. Porque se uma moça daquelas de família, se perdesse, ali era morrer todos os dois. Matava o cara e matava a filha. O pai matava a filha e matava o cara. Bom, era uma lei “braba”. E se fugisse podia andar, podia falar assim, não tinha lugar que eles fossem, que botavam gente no pé pra catar, enquanto não arrancar essa língua tinha que matar e trazer a língua ou a orelha. Isso era a lei, a lei era seca. Não tinha pra onde “nego” fugir. Então, era tempo de respeito. O cara fazia um negócio de um mil réis. Tirava um fio de barba, era um documento, enrolava num papelzinho, “toma, fala com fulano que me empresta quinhentos mil réis”. Aquilo, o documento em vez de ser letra, era um fio de bigode, fio de barba. Tinha agora aquele fio de barba, enrolava num papel, e dava. Nesse tempo ninguém tinha negócio de, todo mundo era barbudo. E naquele tempo, se barba fosse vergonha, nem gato não tinha hoje. Naquele tempo, quem tinha barba tinha vergonha. É, quando visse um velho barbudo, esse velho é caprichoso. Mas sempre o povo fazia a barba, mas tinha aquele ______ que fazia a barba aqui, mas a barba aqui e o bigode, nunca tirava. Era onde o homem podia raspar a cara, assim, ó, tudo, aqui só, tudo aqui, mas o cavanhaque e o bigode tinha que ser honrado. Isso aqui e o bigode.

 

P/1 – O senhor sempre usou barba?

 

R – Toda a vida. Quando eu comecei me entender por gente, minha barba dava aqui. Agora depois de velho é que eu parei, vinha aqui, ó, a minha barba. Porque negro puro não cria barba. Índio puro não cria barba. Quando vê um negro barbudo, é misturado índio com negro. Ou então, tem um jeitinho de gente de cabelo liso no meio. Quando vê um negro barbudo. Porque negro sozinho, não cria barba, não tem. Índio puro também, índio só tem cabelo. E negro, nem cabelo e nem barba. Cabelo de negro é aquela embustinha de rolo enrolado. Quando vê um negro com cabelo, mas é ruim, é fechado como o meu, já vê que tem um sanguezinho de mais ou menos. De índio ou de outra cor, de outra raça qualquer. Pode dizer, filha.

 

P/1 – Seu Germano, naquela época era comum o casamento entre negros e índios?

 

R – Índio com negro era comum. Índio com negro e branco com negro também era comum. Casamento e pra apurar a raça, pra ter o sangue. Forte. Tinha branco negro, né não? Quando o negro era reprodutor... Negro pra ser reprodutor, não pra negra não. Era branco com negro. Pra sair bicho reforçado, cor de formiga, era assim. Porque tem muito sangue. Tinha que apurar o sangue, dava pra qualquer coisa. Pessoa que tinha o sangue forte, o sangue servia. A senhora devia saber que toda vida precisava de sangue de pessoas, pra isso tinha médico, muito, muito técnico, naquele tempo. Hoje ainda tem as fórmulas, a fórmula de muitas medicinas ainda tem aquelas formas velhas. Tem modelos novos, mas aquelas velhas, antigas ainda têm, né? Então precisava de sangue de reforçado. É por isso, que eles precisavam de ter gente de sangue reforçado. Sangue bom, sangue apurado, de preto, sangue de preto com branco. E hoje o Brasil ta tão misturado, misturou todo. Branco com preto, preto com branco, misturou tudo.

 

P/1 – E seu Germano, o senhor conheceu pessoas que foram escravas?

 

R – Ô, sinhá, hoje eu, acho que eu conheci naquele tempo. Naquele tempo eu conhecia. Hoje eu vejo muitas ai que diz que já serviu à escravidão, mas não sei se é verdade. Mas de meu conhecimento mesmo, agora pra dizer, eu não conheço. Porque no tempo da minha avó, eu nasci dentro do cativeiro, mas não fui cativo. Quando a Princesa Isabel deu liberdade aos negros, eu tinha treze anos. Nasci já na Lei do Ventre Livre. Já nasci dentro do cativeiro, mas na Lei do Ventre Livre. Se eu fosse cativo, e meus pais fossem cativos, eu já nascia... Eu já nasci na Lei do Ventre Livre, ta entendendo? Quer dizer que eu ali já não, já era independente, já não fazia nada. Bom, quando veio o cativeiro, veio a Lei Áurea, pra libertar os negro eu tinha treze anos de idade.

 

P/2 – E o senhor lembrava disso? O senhor lembra desse dia? Aconteceu alguma coisa, essa notícia da libertação?

 

R - Bom, eu... Agora vou contar o apurado. Eu, por exemplo, com treze anos, eu roubei muitos negros. Eu ia mais outro cara, moleque, meu colega, chegava, tava moleque amarrado lá no tronco, no mato. A gente chegava, cortava as cordas, pegava aquele arco de barril, vocês sabem, uns ferrinhos de arco de barril, que faz, bota no barril pra “acochar” o barril. Não sei se vocês já viram barril, você sabe o que é barril? A gente pegava aqueles “farrachinhos” de ferro, amolava bem amoladinho e ia pro mato com as flechas caçar, e lá a gente dava no túnel dos negros. Amarrado na cruz lá, a gente chegava de ponta de pé, a noite, o cara esta lá dormindo, tinham horas de matar os negros. A gente chegava, nego tava lá roncando, e o pobre coitado pendurado, a gente metia a corda no “farrachinho”, cortava as cordas, nego não via, a gente arrastava, e eu moleque, com treze anos. Eu e o outro, mais velho um pouquinho, com quatorze anos, e arrastava e levava pra aldeia. A gente fez, eu fazia muita traquinagem, livramos muitos negros, e quando jogava na aldeia, o patrão falava: “ó, meu menino, meus neguinhos foram lá, meus meninos”. Falava meus meninos. “Acho uns negro lá no túnel e trouxe pra cá”. ”Fala com Fulano que vem cá”. Aí, aquele que comprava os negros, porque não era só o rei não. O rei tinha os negros dele, mas tinha muitos fazendeiros que tinha negro. “Fala com ele que ta aqui”. Quando chegava: “é esse negro aí que você tava com ele amarrado, surrando, você ia matar ele?” “Não! Só tava dando um couro, só era um castigo”. Não eram todos que ia matar não. Quando era desse que queria matar, ele botava na forca logo. Bom, botava só de castigo. Batia, batia, amarrava, a gente ia, cortava a corda. “Você que é Fulano?” “Não quero ir não”.“Então fica aí”. Entra lá, vai pra aldeia. Nego voltava, ia pra aldeia. Eles voltavam calados, iam embora. Ia conversando, tinha mais de não sei quantos mil índios nas aldeias, eu não sei com quantas aldeias esse homem mexia. Quem é que mexia? Entra lá, vai buscar, só via índio chiando: “Chá, chá, chá, chá, chároghn, chá”, ninguém ia lá, minha filha, era respeitado. Outros fugiam por eles mesmos, saia, ia correndo, entrava na aldeia, não saia mesmo. Era assim.

 

P/1 – Eles passavam a viver na aldeia?

 

R – Quem?

 

P/1 – Os negros...

 

R – Os negro que corriam? Só ia se saísse fugido ou então o que a gente pudesse roubar pra levar. Pode conversar.

 

P/2 – Mas, ô seu Germano, essa aldeia ela tinha um fazendeiro que tomava conta?

 

R – Tinha.

 

P/2 – Era uma espécie de fazenda?

 

R – Era. Aldeia mesmo. Tinha o conquistador dos índios. Chamava Joã,. João Oliveira. Ele, não sei se ele assinava por Cabral, uma coisa assim. Ele era quase descendente de Pedro Álvares Cabral. Já tinha, acho que ele já tinha português no meio também. Eu acho que tinha. Eu creio. Agora, como era que saiu essa descendência eu não sei. Eu sei que ele era de muita força. _______ usava rei, rainha, princesa, que nada. Respeitavam ele. Ele era o manda-chuva. O mato era deles. Eles que mandavam. Era dono do mato, da mataria do mundo todo. O que era dos índios, eram deles. Só entrava quem eles queriam, dentro das matarias. No meio do mundo, do Brasil, eram deles. O mato era dos índios. Então, eles saiam conquistando índio. Porque ele era índio, saia amansando outro. Conquistando os outros, trazendo pra aldeia, sabia já como é que lutava, e ai minha avó, já era índia minha avó, minha mãe já era filha de índio, mas tudo da aldeia.

 

P/1 – As pessoas conquistadas? Assim eles falavam?

 

R – Já, aí já comia farinha, já botava, compreendia a língua, botava na língua deles. Botava, já lia, conhecia as 25 letras, havia 25 letras: A, B, C, D, A, Fe, Gue, H, A, Gi, K, A, Le, Me, P, Q, Re, Si, T, eram 25 letras. Essas 25 letras que puxaram todo estudo. Foi com 25 letras. Só quem sabia essas 25 letras que liderava, era o (sardo?), era o padre. Eram essas pessoas.

 

P/1 – O padre ensinava pros índios?

 

R – O padre? Não, o padre ensinava, claro que ele ensinava. O padre ensinava. Em toda vida existia padre. Não existiu crente. Existia só católico.

 

P/1 – O que o padre ensinava?

 

R – Bom, ele ensinava as letrinhas, as rezas. E faziam aqueles livros. Com 25 letras ele ia juntando, ia recolhendo algumas coisas, pegando algum assunto, e ia escrevendo. E nisso foi que conseguia. Ninguém sabia ler, eram poucas pessoas que tinha cabeça. Hoje não, todo mundo sabe ler, mas a leitura vem puxada de 25 letras.

 

P/1 – E seu germano, Vitória da Conquista tinha Igreja?

 

R – Tinha, e tem. Toda vida tinha igreja.

 

P/1 – Como que era a igreja? Descreve pra gente.

 

R – A igreja era uma igreja, o seguinte: fazia uma igreja grande, mas de madeira, de taipa, como eu já disse. De forquilha, fincava uma forquilha assim, no canto, outro no outro, no meio, outro num canto, outro no outro, e formava a igreja. Amarrava as travessas, assim, assim, todas atravessadas. Nas paredes botavam as travessas. Agora coloca os caibro, os enchimentos, botavam tudo, depois descia assim, faz um giro de, como é que chama, vosmecês não entende de roça. Aí agora, “envarava” toda, botava uma vara de um lado, outra de outro. Uma por dentro outra por fora. E ia amarrando cipó, amarrava no meio, nos cantos tudo. Quando tivesse tudo amarrado, amassava o barro de pé, ia pegando os bois debaixo de um, batendo tudo na palha. Pá, pá. Levantava parede de fora a fora. Ai secava. Água não derrubava.

 

P/1 – E tinha imagem?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Quais eram as imagens que tinha?

 

R – As imagens que tinha... Faziam aquelas imagens de papelão, era de papel, de barro, de madeira. Sempre tinha um ciente que sabia fazer aquelas imagens, comparava. Fazia umas imagens que nego olhava e dizia que era de Cristo. Sempre tinha, tinha inteligência. Sempre tinha um, no meio, tinha algum inteligente. Inteligência já vem de berço. E o povo adorava. Não havia crente naquele tempo, naquele tempo não havia crente. Os crentes eram católicos. Crente é de certo ano pra cá.

 

P/1 – E tinha missa naquela época, seu Germano?

 

R – Tinha. Missa, missa, de padre, juntava muita gente. Quando acabava a missa, a dança que tinha era bater tambor. Eram aqueles tamborzãoo: “Pá, pá, pá, pá”; samba, a dança era da umbigada. Vamo dar umbigada uns nos outros. Mulher dando umbigada nas outras, pulava, abraçava, batia barriga na dos outros. Era assim. A brincadeira era só tambor, viola, outros tinha _______, gaita de taquara. Faziam aquelas gaitas de taquara feito corneta, é igual. Agora furava toda, tinha aqueles furinhos, botava aquela gaita na boca pra tocar. Era, era o mesmo que tocar corneta. A gaita.

 

P/1 – E quem que ia na missa? Era o pessoal da aldeia?

 

R – Não, ia todo mundo. O povo que era da aldeia, ia todo mundo pra missa dos padres. Naquele tempo era tudo católico. Não era só da aldeia, ia todo mundo pra assistir a missa do padre.

 

P/1 – Quem que tocava os tambores?

 

R – Tinha os batedores de tambor, gaiteiros, violeiros, pandeiristas - batia pandeiro - outros batiam caixa, aqueles tamborzãos, aquilo era de couro de gado, couro de raposa, matavam as raposa pra fazer aqueles tamborzãos dessa altura de “tabinha”, tudo de “tabinha”. Arreava, era tudo bem arreadinho pra fazer o tambor. Naquele tempo eles faziam viola, era de facão, de todo jeito, a viola dava um tom, faziam aquele violão de todo jeito, mas dava um tom, meu filho. Era feita à facão, hoje são esses violãozinhos de hoje tudo bonito, não. Eram uma coisa grosseiras, feito à facão. Mas dava o tom igual a esses outros, a mesma coisa.



P/2 – O senhor aprendeu a tocar…?

 

R – Aprendi a tocar naquele violão velho feito de pau e a facão. Hoje, coitado de mim, já perdi meus planos, tudo.

 

P/2 – O que o senhor gostava de tocar no violão?

 

R – Eu não lembro nada. Naquele tempo eram as coisas velhas tudo à toa, aquelas músicas velhas, pra tocar, pra fazer: [canta] “peru, peru, peru; peru é bom demais; eu já comi peru; agora não como mais”. Isso era de sanfona, a gente gostava, batia também de viola, de violão. Tinha essa outra: [canta] “Vocês viram por aí; a chica, chica, chica boa; é uma garota que fugiu lá do Camboa; Não vale a pena; viver à toa; volta pra casa; chica, chica, chica boa; Vocês viram por aí; o lírio intregalista; a minha vez que não habita na Conquista; a coisa preta, eu vou lhe avisar; e a policia ta danada pra brigar; mas vocês viram por ai...” São essas músicas, coisinha velha, a gente esquece de tudo.

 

P/2 – Mas ta lembrando bem.

 

R – Mas tinha muita coisa, muita cantiga velha antiga que a gente ia passando o tempo. Com essas cantigas novas perdeu a graça, a gente não lembra mais de nada. Tinha as outras, era tanta coisa! Como outra cantiga. Eu esqueci ela; esqueci até o tom dela: [canta] “Oh Hilda Margarida, quem é você? Eu sou uma soberana de ____; O Hilda Margarida, deixe isso pra depois, que mais tarde eu cantarei um pouquinho para nós dois. Depois de todo jardim, ela pediu uma canção, ô Margarida, ô Margarida; pararara pram pram”. Mas tem outras, é que eu esqueço, pra arrematar. É tudo coisa velha que a gente perde o gosto.

 

P/1 – Seu Germano, eu queria recomeçar a entrevista pedindo pro senhor falar um pouco das estrepolias, das traquinagens que o senhor fazia.

 

R – Eu vou recordar algumas coisas que sempre vem na minha recordação. Porque o que a gente faz, às vezes, algumas coisas a gente se lembra e outras não vai se lembrar, só vai se lembrar das estrepolias depois de doze anos. De dez anos pra doze já vai compreendendo alguma coisa. Bom, a primeira estrepolia que eu fazia era o seguinte: quem me criou... Eu fui criado por um padrinho. Então, quando ele me tomou eu era pequeno, eu tava com idade de uns oito anos mais ou menos. Eu acho que eu me lembro assim ainda, eu fui montado, ele me levou no cabeçote, me botou no cabeçote, da sela, na frente; e agora, tava chovendo – sabe o que é capa colonial, não sabe? – Capote, essas caponas. Ele me enrolou todinho com uma capa, me embrulhou na capa, abraçado assim. Eu era tão pequeno, foi assim. Quando eu cheguei lá ele me soltou, ele desabotoou a capa, eu só tava com o narizinho de fora, só com o botão da capa fazia eu tomar fôlego. Chega tava suando. Aí a minha madrinha chegou, me recebeu. Chamava Geralda a minha madrinha. E aí tava muito bom pra mim. Ah, mas eu fazia muita traquinagem. E depois de dez anos eu era muito traquina. Eu ia pra manga juntar as éguas – pegava água em um poço, né – e o poço criava muita tabúa. Tabúa, grosso, esse mato bravo que dá dentro d’água. E a represa era muito funda. Eu chegava, jogava os animal. O direito era só ali, só botar os animais pra beber ali naquele canto. Não podia jogar lá pra dentro, porque era muito fundo e tinha muita tabúa. Eu chegava perto, tavam as éguas; as éguas com o queixo gordinho, e fazia as éguas quebrarem aquelas cerquinhas, pra quebrar, pra eu ver nadar. O que eu fazia? Apertava essas éguas, pedra mais perto, pedra mais perto. E as éguas endoidavam, animal “brabo”, e “pocava” pau naquele tabúa e quebrava aquilo tudo. Morria potro afogado. Ó que traquinagem, né?  Eu com dez anos eu fazia essas traquinagens. Aí eu pensava que isso não era descoberto, mas as paredes tem ouvido. Aí, nego tava “assuntando”, meu padrinho tava na cidade, ai tiraram três éguas. Quando ele vinha pra casa já tava sabendo. Isso era de sábado pra domingo. Não, de sexta pra sábado que eu fazia as traquinagens, só quando ele não tava. Ele já vinha sabendo. Aí: “Germano, o que você fez?” Eu não gostava de mentir, nunca menti. “O que você fez?” Eu digo: “oh, eu fui puxar as éguas, juntei, botei lá no poço pra beber e eu queria ver elas nadarem, meti o cacete e fiz elas quebrarem a cerca, pra eu ver [elas] nadarem. E não sei se morreu algum potro, mas eu acho que morreu lá dentro”. Aí, me levava pro couro. Ah, mas eu tinha que contar, né sinhá? Tinha ou não tinha? Porque se eu fazia traquinagem. Isso era a pequena que eu fazia, essa era a pequena. Quando eu saia da taca – mas batia pra valer – mas porque eu era culpado. Era eu que era culpado? Eram eles que eram culpado ou era eu, que fazia eu apanhar? Quem era o condenado? Não era eu? Eu que era o réu, não é sinhozinho? Então eu tinha que apanhar. Era uma dúzia de bolo nessa mão, palmatória de brauna, e uma dúzia nessa mão, a mão chegava a inchar. Era quando tinha palmatória. Aí, quando me soltava dali eu saia mais agoniado. Eu fui fazer outra vingança. Ai na frente, na hora que saia da taca, passa uma galinha, qualquer bichinho, aqui eu pegava um pinto, rasgava e chegava pra lá. De raiva. Quando tinha algum que via, falava: “ô Germano matou um pinto”. Eu ia pra taca. “O que você fez, Germano?” “É me bateu, eu tava com raiva e matei um pinto”. E ia pra taca de novo. Eu fazia gatinho ___ de gato preto. Sabe o que é gato? Ladrão assim eu fazia. Só não roubava, mas fazia aquelas peças, de rato, como diz. Bom, resultado, aí eu fui apanhando aí eu consertei um pouquinho. Quando eu tava com doze anos aí meu ___ só veio pra roça. Quando eu era pequeno. Meu ___ veio pra roça. Eu gosto é de roça, eu não gosto de ficar assim, mexendo com gado, eu gosto de roça. Eu ia pra manga juntar vaca, com doze anos. Aí eu já tava com doze anos, heim? E era meu sonho, já veio aquele outro pensamento de roça. Pensando só em plantação. Quando eu chegava na roça deles, que eu via aqueles feijões maduros; ou então quando eu via a roça por aqui assim, feijão, por aqui, tudo verdinho; eu criava vontade de ter uma roça. Era de meu padrinho. A gente que plantava a roça pra ele. Eu falei: “ah, eu vou fazer uma roça pra mim”. Olha, não é um sonho que eu tinha pra roça? “Germano, vá juntar vaca”. Tinha um cavalo velho, os cavalos – aqui não tem esse nome de gente, não – botou o nome do cavalo de badu. O cavalo tinha a mão meio torta. Eu montava no badu velho, ia pra manga juntar vacas. Enchia os bolsos tudo de feijão, ia lá na despensa, roubava os feijões. Feijão cru. Enchia os bolsos, a algibeira, os bolsos da calça, montava no badu veio e saía, feito um louco, pocoóo pocotó. Ia juntar vacas com os bolsos cheios de feijão. Ah, que pensamento era esse meu? Aí eu já sabia, marcava, quando eu via aquelas roças, arrancador velho que plantava mandioca, arrancava mandioca, arrancador, via aquela terra bonita, toda limpinha, cheia de maniva, mas roça limpa, eu falei: “poxa, a terra tá molhada, eu vou plantar aquela roça”. Chegava lá, largava a vaca pra lá. Levava o cavalo dentro do mato pra eles não dar fé – podia vir alguém e ver o cavalo amarrado – eu examinava, escondia o cavalo dentro do mato, no capoeirão, entrava dentro da roça e ia semear feijão. Esquecia. Enquanto tinha feijão no bolso eu tava semeando. Cada lugarzinho eu ia jogando, como coisa que tava plantando. Sem cortar a terra, semeando, pa pa pa, fazia aquele mundo de roça. Aí plantava esses feijões todinhos. “É, quando chover vai ficar mais bonito que esse aí”. Só não semeava o milho porque o bicho comia, passarinho. Mas feijão eles não comiam. Ô, que idéia? Eu falava: “o milho tem que abrir a cova, senão passarinho come”.

 

P/1 – E o que aconteceu?

 

R – Aí, minha sinhazinha, a chuva bateu e esses feijões nasceram todinho. “Mas como nasceu a roça de feijão?” Epa! Aí quando eu acabei de plantar o feijão todo que eu semeei. Enquanto tinha feijão eu tava semeando a roça. Semeando feijão na roça, enquanto tinha. Terminava, montava no cavalo e ia juntar vaca. Lembrava: “ixe, e as vacas?” Já tinha tirado leite. Agora aquelas vacas que falhavam eu dava uma ronda e quando é que eu achava as vacas, nas capoeiras, tocava pro curral. “Germano, aonde é que você tava?” “Juntando vaca, caçando gado. Essas vacas que tirou leite é que eu vinha tocando elas de lá, elas vinham e eu ia atrás das outras”. Mentira, eu tava na roça, plantando feijão. Mentira, as vacas que vinham por elas mesmas, saudades dos bezerros, né? E as vacas desamorosa, não ligava com os filhos, ficavam por lá, comendo ___, por aí. Quando eu vinha de lá, que eu dava um campo por lá, aí eu chegava e já tinha soltado aquela curralada de vaca, já tinham uns vinte e tantos bezerros presos no pasto. Eu vinha com umas dez, depois voltava, jogava lá e ia buscar as outras dez pra acabar de tirar o leite. E alegre com a minha roça que tava plantada. Aí, quando a água bateu, o feijão nasceu todo. Ô feijão que nasceu bonito! Quando eu cheguei lá tava aquela feijoada tudo já querendo – por aqui assim. Falei: “eta, minha roça tá bonita!”. Subia no cavalo velho, andei no roncador, tudo olhando. “Minha roça tá uma beleza! Minha roça, ó!” Aí voltava, olhava a roça – ninguém sabia, ninguém sabia que eu tava com essa roça. Ah, minha sinhá, quando foi um belo dia o filho mais velho dele falou: “eu vou lá no arrancador, tá assim assim, que eu vou ver. Se a cerca tiver boa eu vou fazer uma planta, se tiver ruim vou fazer o retoque da cerca pra fazer a plantação. Aí, quando chegou longe, num boqueirão, ele viu aquele verdão. “Ué, o que é aquilo?” Já com muito tempo, o feijão já tava amadurecendo. E eu todo dia ia lá, olhar a roça. O feijão estava, quando ele descobriu o feijão estava tudo maduro. Mas o feijão carregou numa medida, que eu vou dizer! Aí tava o cunhado do meu padrinho, tava irmã dele, que veio tudo da caatinga, eles eram catingueiros. E o velho morava cá, embaixo, em Conquista. Aí chegou esses cunhados dele, tudo rico lá da caatinga, da laje do gavião, que chama Bromário, que é perto da ____. Foi pra casa desse cunhado fazendeiro passear. Era um monte multidão de gente. Quando foi no domingo: “vamos andar por aí”. Foram pra roça chupar cana, chupar melancia. Isaias saiu sozinho. Montou no cavalo e saiu pro roncador. Ele queria fazer um roça, fazer uma plantação de milho. Aí quando Isaías chegou e viu aquela roça toda madura, voltou. Ficou pensando quem foi que plantou aquela roça lá. Todo mundo acabou de almoçar meio dia. Eu tô de lá na cozinha. Nem fui na cozinha. Tava cá fora com o prato. Tinha dois pés de ingá, assim, na frente da casa, tudo rodeado de banco, eu sentado lá. Todo mundo assim, acabou de almoçar sentou lá no banco. Umas vinte pessoas, entre filho, cunhado, cunhada. Tava uma multidão de gente. Aí Isaías chegou e falou: “o papai, o senhor não sabe, tá aparecendo um mistério”. “O quê é – ele falava assim – O quê é Isaias?” “Tá o roncador assim, assim, apareceu um lá que encheu de feijão. O feijão tá tudo maduro, mas tá que é uma maravilha. Só feijão. O feijão carregou numa medida que parece que é um mistério de Deus”. Ora, aí o cabelo que é ruim “rupiou” [arrepio]. “Eta que vou apanhar!” Aí eu fiquei logo assim atordoado, rupiei logo todo. Aí chamou-se o sobrinho, velho Braulino chamou o sobrinho dele. “O _____, você que plantou o feijão que tá no roncador?” “Não, tio. Eu nem [fui] nesse roncador, nunca fui”. “Foi você, Vitório?” “Não, tio Braulino”. “Foi você, Manuel?”. “Não”. “Foi você Germano?” Eu não podia mentir, é onde eu falo, mentira não presta. Eu falei: “oh, meu padrinho, fui eu. Eu saia montado, juntar vaca, roubei o feijão na dispensa e semeei. Fui eu”. Todo mundo foi ver essa roça. Foi todo mundo pra espiar essa roça. Cortou a mangona, chegou por lá, no boqueirão, tudo manga limpa, chegou lá no boqueirão, o feijão tá tudo maduro. Aí o velho: “quando chegar em casa você vai descontar novos e velhos”. Quando falava descontar novos e velhos era pra apanhar muito. Aí os cunhado deles falou: “não, dessa vez ele não apanha, dessa vez ele não apanha”. “Por que ele não apanha?” Sabe por quê? Porque se o nego tem vontade de trabalhar, é o sonho dele, é o destino dele trabalhar. Por que ele não apanha? Porque se o nego tem vontade de trabalhar. É o sonho dele, é o destino dele trabalhar. E você não castiga o nego por trabalhar. “O que é isso Braulino? É o destino dele. Como é que você vai bater e tirar o destino dele? Você não pode bater nele. Agora, se ele fizesse uma traquinagem à toa você podia bater. Se ele botasse fogo na roça, na cerca, queimasse por perversidade, merecia uma surra. Mas se ele plantou a roça, como é que vai bater nele? Você tá errado. Cadê sua consciência?” Aí ele pensou. “É, tá certo, tá certo”. Ele falava assim, ele era meio estourado. “Tá certo, tá certo. Ele merece ganhar um presente, na terra da bezerrada vou dar um bezerro pra ele”. Ei pai! Alegrei. Todo ano eu dou uma bezerra pra ele agora, todo ano. Mas aí quando o feijão acabou de secar eles puseram carne de boi, carne de boi. Onde puseram carne de boi foi carroça, arrancaram o feijão todo. Sabe quantos sacos feijão batido, colheram? Sabe quantos sacos? Colheram oito sacos de feijão na roça. São quantos – na língua de falar – alqueire. Saco de oitenta litro. Colheram oito sacos de feijão. Ali esperar o resto foi uma “alegriona”. Então na primeira ____ me deu uma bezerra. Mas eu fiz uma traquinagem tornei a apanhar. Aí eu falei: “poxa”. Aí eu já apanhei quase eu não fiz nada, foi uma besteira que eu nem sei, foi que a filha dele, inventaram lá. Eu acho que eu não tinha feito aquilo. Aí eu desgostei e disse: “eu não fiz isso, apanhei inocente”. Mas todo mundo me condenou, porque toda a traquinagem quem fazia era eu mesmo, quando apareceu o que o outro fez achou que foi eu. Eu falei: “não foi eu, gente. Quando foi eu eu falo que fiz. Eu não minto”. E minha madrinha já tinha morrido. Braulino já era casado de novo. Já não era minha madrinha legítima. Era madrinha porque é casada com o meu padrinho. “Não, ele não fez isso, porque quando ele faz ele não nega. Ele fala que ele fez e fez mesmo. E ele prova que ele fez, ele nunca mentiu”. Não, mas não tinha jeito. “Oh Braulino, não bate, não”. Mas, não, tinha que bater. Quando ele pegava o chicote tinha que cair mesmo. Eu falei: “vou apanhar injusto, né. Sabe uma coisa? Eu vou embora. Aí eu fugi. Foi de noite. Eu fugi de noite. Andei duas léguas, fui pra casa do meu tio. Bom, nesse tempo minha avó ainda era viva. Só tinha minha vó. Minha vó e minha tia. E tinha os filhos dele, a família dele. Aí eles me caçaram, caçaram. Montaram nos animais lá, os animais de noite, os animais no pátio. Foram atrás de mim. Quando eu via a carreira deles, “pararara, pst”, dentro do mato. Correndo tudo cheio de mato, nessa estradinha pequenininha de terra, toda cheia de mato, eu escondia. Eles procuraram, procuraram. Eu escondia, eles passava, eu ia rompendo atrás, correndo: pa pa, feito um cachorrinho. De noite. Eram duas léguas, eu viajei de noite. Quando eles voltaram de lá pra cá que não me achou, aí eu peguei a estrada direto, correndo. Cheguei em casa lavado de suor. Umas doze horas da noite! Tinha onça, tinha cobra, mas eu não tinha medo de nada, não. Nesse tempo cachorro andava endoidando à toa. Qualquer lugar endoida cachorro. Vixe, eu não tinha medo de nada. Também não vi nada. Cheguei em casa doze horas lavado de suor. “E o que é, moleque?”. “Nada, eu fugi porque meu padrinho ia me bater e eu não fiz nada”. Ele nem chegou a me bater. Quando ele me engatilhou pra bater eu escapuli, corri. Só tomei uma chicotada. E se eu espero ia apanhar muito. “Ah, minha senhora!”. Aí esse velho me rodou, rodou, rodou. Eu não queria ir. Minha vó falou: “É, ele vai, seu Braulino. Mas tem uma coisa, se você bater nele vai ter agora comigo. Meu tio falou a mesma coisa”.

 

P/1 – Era costume os meninos irem pra casa dos padrinhos?

 

R – Era costume.

 

P/1 – Por que eles iam?

 

R – Bom, era a ___ que tinha, né? De todo o ano, fosse na semana santa, ou que fosse no São João, tinha que ir dar a benção aos padrinhos. E chegava a dar benção de joelho. “Bendito seja meu senhor Jesus Cristo. Bença padrinho”. De joelho. Pegava na mão de joelho. Ainda beijava a mão.

 

P/1 – E o padrinho do senhor quem era? Era um parente do senhor?

 

R – Não, não era parente. Ele assinava por Braulino Oliveira. Já não era dos Oliveira da minha criação, é de outra família dos Oliveira. Bom, e se for de outra família dos Oliveira eu também não sei, talvez era, porque... Eu sei que era malvado. Ele era malvado. E ele não era só pra mim, pros filhos dele quando ele pegava ele batia mesmo, surrava. Tanto que eu nunca batizei filho de ninguém, porque eu lembro que eu fui muito judiado com padrinho. Mas eu também merecia.

 

P/1 – Seu Germano, a casa do Braulino tinha cozinha? Quer parar um pouquinho?

 

R – Não, é que eu tô vendo um cheirinho. Vai queimar alguma coisa. Acho que não.

 

P/1 – Então. A casa do Braulino tinha cozinha, tinha sala? Onde o pessoal começava a se reunir.

 

R – Ele tinha sala. A casa deles era grande. Era casa de seis cômodos. Tinha varanda, sala de visita e tinha sala do almoço grande, cozinha, despensa, quarto. Eram três quartos numa fila, assim ó, agora dividia, sala, varanda.

 

P/1 – E o senhor dormia onde?

 

R – Eu? No quarto.

 

P/1 – Sozinho?

 

R – Nada. Dormia com eles. Tudo junto. Num catrão de couro. Catre era de correinha. Tirava a correia do couro, assim, mais ou menos nessa largura assim. E agora botava a correia assim, no comprimento, quatro ou cinco correia no comprimento assim enfiada. Agora ia cortando, pegando aquelas mais curtas, pra ir fazendo assim. Tudo tecido, ó. Tecido assim, ó. De fora a fora. Agora fazia aquele catrão que dormia quatro pessoas numa cama só. Catrão ia como daqui lá e bem largão. Num quarto que encostava duas camas. Quarto grande. Duas camas largas, pra dormir filho, com moleque que ele criava, sobrinho. Ele criava tudo nesse catre! Tinha essas coisas que não tinha essas coisas. Agora, comida não, comida, a gente comia lá pra cozinha nossos pratos, porque a mesa lá era de visita. Bom, depois que a gente foi criando, e já tava mais ou menos com doze anos. Botava a mesona de pau, mesona grande. Botava lá na sazona grande. Botava lá o pratão, como é que chama? Um pratão de barro. Era de barro esse prato. Aquelas gamelinhas de prato, pra comer. Não havia prato de louça. Tinha prato de esmalte, mas era pra visita. Pra nós não, pra nós era prato de barro, aquela sopeirinha, botava panelona de feijoada lá pra gente, cada um fazia seu prato. Aquela bandejona de farinha lá e cada um fazia seus pratos. Tinha um garçom pra despachar os pratos pra gente. Agora, quando era menino comia lá de todo jeito, mas depois que a gente ia criando... Mas eu com idade de doze anos caí fora.

 

P/1 – Quando o afilhado ia pra casa do padrinho, na época da semana santa, quanto tempo ele ficava lá?

 

R – Na casa dos padrinhos? Bom, acontece que ia passear, voltava no mesmo dia. Ou tal dia, dormia por lá. Até oito dias, né? Eu, por exemplo, já não digo nada porque já morava com meu padrinho, ele me levou criancinha. Então eu fui criado com ele, não sei dos outros. Mas eu me lembro bem que meus irmãos iam pra casa dos padrinhos. Eu sei que iam. Os padrinhos não iam visitar os afilhados, não. Os afilhados é que iam visitar os padrinhos. E quando os padrinhos iam bater um papo com os compadres, aquilo tudo era considerado, mas com meu padrinho eu não tive muita consideração porque eu era muito traquina.

 

P/1 – Seu Germano, como era a convivência dos afilhados com os filhos do padrinho?

 

R – Pra mim, eu só dava bem com uma. Com as outras nenhuma me dava bem. Porque me batiam muito, e a gente brigava. As que não podiam me bater, vinha me “guelar”, eu agarrava no cabelo delas e aí unhava tudo de unha, os que eu podia lutar. E os que eu não podia, eram as moças mais de idade, elas aí me metiam o chinelo e eu apanhava mesmo. Batia o chinelo por a boca, por tudo jeito. Agora as que não aguentava comigo eu também surrava elas, ou eles. Mas sempre brigava. Agora tinha a mais velha que eu respeitava e ela me queria bem. Chamava Gerosina. Era respeitada, ela me zelava, tinha todo cuidado comigo. Era quem mais tirava eu do ataque dos outros. Era essa moça.

 

P/1 – Senhor Germano, o senhor aprendeu a dançar?

 

R – Ah, eu, depois de velho, a gente se criou. Eu não perdia um forró. A gente viajava cinco léguas pra ir numa festa, a gente andava de cinco em cinco. Quando não era de cinco em cinco eu tinha meu parceiro. Chama Dario, até hoje. A gente não perdia uma festa, andava pra tudo quanto era canto. Ele tinha o cavalo dele, eu o meu. No dia da gente ir até a festa, a gente não pegava cavalo do nosso criador, não. A gente tinha os nossos animais, andava bacana. A roupinha tudo pronta. Quando era na festa a gente trabalhava, quando era de noite ia pro rio, tomava banho. Eles tão sem saber de nada. A gente ia pro baile. Quando o dia amanhecia a gente tava na farra. Aí saltava a janela de noite (risos). Saltava a janela, tudo dormindo, pulava a janela, os cavalos tavam amarrados no mato, a gente montava nos cavalos e quando o dia amanhecia a gente tava bem trabalhando e os cavalos tavam na manga. Eles nunca pegaram a gente numa falta.

 

P/1 – E onde eram esses forrós?

 

R – Eram lá mesmo no interior. Não era dentro de Conquista. A gente morava no interior. Saia pra casa daqueles vizinhos, viajava por aquelas roças mesmo.

 

P/1 – Tinha alguma dança típica?

 

R – Não. A dança era forró, era xote, como é que fala? Toca uma porcaria, que é essa marcha. Dançar polca, dançar samba, dançar tango.

 

P/1 – Seu Germano, o senhor viu o cometa Halley?

 

R – Ah, o cometa, o sol para encontrar com a lua, escureceu e o galo cantou. O dia virou a noite. Foi uma base mais ou menos de duas horas pra três, que começou. E também demorou. Eu não tenho bem base, mas eu acho que demorou mais ou menos uns quinze à vinte minutos. Faltou nada pra o sol encontrar com a lua. Aí correu aquele cometa assim: pspspsps, largando aquele fogo. Com aquele risco no ar.

 

P/2 – O senhor tinha quantos anos na época. O senhor já era homem feito?

 

R – Já, que é isso. Sim senhor, já era feito. Quantos anos tem isso? Eu não me lembro quando foi isso. Eu não tô a par quando foi. A gente fala de novo que eu vou ver esse negócio.

 

P/2 – Seu Germano, e essas festas que o senhor foi, foi lá que o senhor conheceu sua primeira mulher?

 

R – Não, a primeira mulher eu conheci em Pernambuco. Eu casei com catorze anos, bem entendido. Com catorze anos eu fugi pra Pernambuco, meu filho. Com catorze anos eu fugi pra Pernambuco. E acabei de me criar em Pernambuco. Eu quase que não posso contar muita coisa dessas aldeias, desses índios, eram da aldeia de meus pais. Eu fugia, eu era ruim, eu era perigoso! Eu fugi que eles, não dei notícia. Bom, não sabia pra que rumo eu dava. Eles pensavam: “Porque o casal de Pernambuco, que morava na cidade…” Eu fugi com eles, fugi da roça pra cidade. Eu não sei como foi que tomei amizade com esses pernambucanos. Então eu sabia que eles ia pra Pernambuco e eu contratei com eles. Sabe como é que viajava? A pé. A pé. Mas eles, porque não ia viajar a pé, tinha as tropinhas. Eles tinham as tropas. Então a gente viajou a montado, de cavalo. A gente gastou quase dois meses pra chegar no Pernambuco, porque não podia puxar por animais. Então lá eu me criei, quem me criou, acabou de me criar, foi um Pernambucano, de Recife. Depois que eu completei idade, não sei se foi com 21 anos ou 22, casei com uma sobrinha do meu patrão, que acabou de me criar. Era uma barancona, loura, não sei como é que ela entusiasmou no nego. Até a filha do patrão queria casar comigo, ó! Mas eu gostei mais foi da sobrinha dele, a que me acarinhava mais. Então eles fizeram o casamento. Eu andava muito direito, eles viam que eu era um nego que procedia direitinho. Percebeu que eu sabia levar o causo e tudo. Ela quer, fazer o quê? Ela é branca e ele é negro, mas ela quer, deixa que vai. Foi assim que foi o casamento. Foi lá levou a mãe dela lá, apanhou em garanhões. Então não foi apanhar, a gente foi pra Pernambuco e lá foi que eles fizeram o casamento. Bom, a mãe da moça deu por bem feito. Nesse tempo eu já tava bem, tinha a minha roça, trabalhava por minha conta e ajudava o patrão. Tomava conta de tudo que era dele. Era eu que tomava conta de gado, roça, mandava tudo que era dele. Ele era rico, tá entendendo agora? Eu que tomava conta de tudo. Por isso que eu falo, eu criei, já criei sendo ferrão, não criei sendo boi. Bom.

 

P/2 – O senhor casou na igreja?

 

R – Na igreja, casei na igreja. Aquele tempo era padre. Bom, então a mãe deu consentimento, falou: “A gente é branco, mas ele é negro, ela quer, fazer o quê? É gente também. O prazer é deles dois. É ela quem quer, vou fazer o quê? Ela tá enxergando que ele é preto, mas era um preto lustroso, preto lindo. Não tinha chapa, era dente. Tinha uma dentadura que quando eu sorria aquilo parecia brilhava. E eu andava todo bacana, usava era roupa de linho. E tomava conta do que era do patrão direitinho. Só não sabia ler, e nem sei. Mas o que era de campo e de roça era eu que mandava tudo pra ele. Ele não mandava em nada. Eu sabia o dia de botar a roça. Quando ele nem pensava eu já tinha botado roça, já tinha queimado. Quando eu levava ele na roça tava a roça toda plantada, mandioca tava por aqui. Quando ele dava por férias só via o feijão maduro, paiol de tudo feito na roça, milho quebrado. Chegava, levava ele na roça, tudo, mostrava. Ele montava num cavalo, eu em outro, saia mostrando inteirinho. Tudo, mostrava o gado tudo. Foi isso que eles tomaram gosto comigo. Por isso que eu entrei na família, porque toda vida eu gostei de ser ferrão. Mas meu sonho toda vida era roça. O que eu ganhei? Infelizmente eu fiz, eu dei pra meus filhos. Hoje eu vivo pedindo um trocado, mas, justamente é pela idade, eu não gosto de ficar parado. Não porque tem tanta precisão com tantos filhos que eu tenho. É impossível que todos sejão miseráveis. É impossível que não tenha um bom. Mas eu não quero, não quero dar. Na minha família entra gente boa, entre gente de toda qualidade. As vezes quando uma nora me preza, a outra pode não me querer prezar, já misturou tudo, quer ser boa. Então eu não quero ocupar filho. Eu prefiro ocupar o senhor, a sinhazinha, mas não quero ocupar meus filhos, eu ainda tô achando que eu posso enfrentar o batalhão.

 

P/2 – O senhor tem quantos filhos?

 

R – No total são 68 filhos.

 

P/2 – E o senhor teve quantos casamentos?

 

R – Eu fui casado 12 vezes e com essa eu sou ajuntado, mas a gente é casado, tem trinta anos que moro com ela, trinta e tantos anos. É tanto que aquele moleque, o Dadau, já foi nascido aqui. Já é paulista. Agora os outros são baianos, já nasceu em Conquista. Só quem nasceu aqui foi o Dadau.

 

P/2 – Com a tua primeira mulher, o senhor casou e teve quantos filhos?

 

R – Ah, com a primeira foi cinco. E aí com outra são três, com outra quatro. E foi tocando. Com essa mesmo eu nem conto quantos são, se eu for contar da mais de 68. Sabe porque? Foram doze que essa teve, e só vingou quatro. Então esses oito.... Ela teve doze, tem quatro vivos, os outros quando tava começando a se arrastar muito, morria. Então eu só boto os que arrastou foi o… Que esses que tem. Os que nasciam morto... Deixa eu ver os que nasciam morto, mas nasceu. Três que nasceram morto. E os outros, quando tava engatinhando, morria. Então só vingou três, quatro com uma gordona, que o senhor viu lá, uma morenona, aquela não é propriamente minha filha, é filha dela com outro marido. Foi quando eu juntei com ela, ela já tinha uma filha, ela era viúva, novinha. A bichinha era redondinha, toda bonita. Agora, não, engordou, ficou aquele trem velho feio, sem assunto. E ela também é meio tonteada, ______, tem dó. Mas aquela nega quando era nova era bonita. Era bem feitinha de corpo. Hoje não, aquele corpão feio, engordou. Ela era magrinha, bem feita.

 

P/2 – Seu Germano, por que o senhor casou tantas vezes?

 

R – Ah, porque a mulher morria, né senhor? E o homem não podia ficar sem a família. Eu gostava de trabalhar e não podia ficar sem a família. E infelizmente que... Sim, teve uma que eu casei e não teve filho. Desses treze uma não teve filho. Nenhum. Quer dizer que só uma que não teve filho. Cada uma teve filho. Uma um tanto, outra outro tanto. Esse aí são umas coisas que eu não posso nem ditar. Os passados, né senhor. Tanta gente que passa. O gente, eu ainda lembro de alguma coisa porque eu tenho uma cabeça boa. Eu sei lá, não tô caducando ainda. Eu acho que eu tô. É capaz de estar falando alguma coisa errado, mas mentindo eu não tô. Aí eu faço como esse do programa, ele aumenta mas não inventa. “Eu aumento, mas não invento”. Não, ele inventa, mas não aumenta”.

 

P/2 – Seu Germano, por que o senhor veio pra São Paulo?

 

R – Ô senhor, eu vim pra São Paulo sabe por que? Eu vim pra São Paulo pra trabalhar, porque naqueles tempos falavam que São Paulo dava muito trabalho, era bom pra gente trabalhar e coisa. Ainda mais pra gente velho. Eu chegava aqui e arranjava um trabalho pra zelador, pra vigia, ou pra qualquer coisa. Então eu vim pra isso. Quando eu cheguei aqui, eu fui pedir trabalho, fui na firma, fui primeiro na prefeitura. Porque quando eu chego num lugar a primeira coisa que eu procuro é a fonte limpa. Fui na prefeitura, pra ser reconhecido. Bom, depois que eu fui na prefeitura pra pedir trabalho, o prefeito falou: “ó, você tá muito velho, ninguém vai lhe dar trabalho”. Aí eu falei: “é, tá certo”. Aí ele me ajudou, naquele tempo ele tirou dez mil réis e me deu. Dez mil réis, heim? Já dava pra alguma coisa.

 

P/2 – Mas seu Germano, o senhor tinha quantos anos?

 

R – Eu acho que eu tava com 91 anos. Acho que tava mais ou menos com isso.

 

P/2 – E o senhor ainda queria trabalhar?

 

R – Queria trabalhar, o senhor tá vendo, meu sonho ainda é roça. Tô com uma carta pra botar na “porta de esperança” pra ver se eu compro um terreninho. Uma chácara na Bahia, mas eu só quero na Bahia. Porque lá o que a gente planta a gente aproveita. Aqui, não. O que tem que plantar tem que plantar no tempo certo e comer no tempo certo. Tem que comer verde. Porque se ficar a geada come. E lá não. A gente pode plantar bananeira, pode plantar cana, pode plantar mandioca, que dá pra durar de um ano no outro. Porque não tem geada. E aqui não, a geada come. Se plantar bananeira acaba. A geada quando vem acaba com tudo. Aqui a terra é muito boa, mas tem muita química, ___, sei lá.

 

P/2 – Senhor Germano, nós estamos indo pro fim da entrevista, a gente já conversou muito. Eu queria que o senhor contasse um pouquinho mais de depois que o senhor veio pra São Paulo.

 

R – Bom, como eu ia dizendo pro senhor. Quando eu cheguei aqui eu fui na prefeitura pedir trabalho. O prefeito disse pra mim: “oh, você tá pra morrer, o senhor cai no meio da rua e vai dar trabalho pra nós”. Eu falei: “o que eu vou fazer?”. “Não, mas você dá por aí, vai ver se arranja algum trabalho. Pode ser que você tenha sorte e entrar numa firma, pra juntar ferro”. Chegava numa firma ninguém me dava trabalho. Eu morava num barraquinho de tábua alugado. Dentro do esgoto, quando a água vinha carregava tudo o que a gente tinha. Era dentro de esgoto mesmo. Carregava tudo, a gente largava o barraco, o que tinha a água carregava, quebrava barraco, levava. Eu ficava meio ___. Aí então fui teimando, teimando, teimando. Um dia eu cheguei numa firma, pedi o trabalho. “Oh, oh, você sabe uma coisa. Você tem onde morar?”. “Eu não tenho, eu tô a toa. Oh, trabalho ninguém me dá, não. Você vai na prefeitura e pede um papel pra você pedir na rua. Eu vou lhe dar madeira procê fazer o barraco. Um barraco pra você. Você não tem onde morar”. Ele foi e me deu, madeira, telha, prego, tudo. Madeirite. Encheu um caminhão. Leva pro seu barraco. Foi assim que fez. Aí enchi um caminhão, eu já tinha arranjado um terrenozinho, mas o terreno que eu achei, eu peguei terra dos outros, mas era terra comprada. Eu cheguei, invadi a terra e fiz meu barraco dentro. E andando, passa tempo, passa tempo. O terreno era muito grande, encosta um, encosta outro. Virou uma favela. Bom, mas o primeiro que entrou fui eu. E por aí eu não achei mesmo, ninguém me deu trabalho, eu fui tomar conhecimento com a polícia. Ia numa delegacia, ia em outra, e comecei a andar. E tomando conhecimento com o delegado. Fui primeiro na 43, depois na 35. Andava sempre no meio do povo pra saber quem é que... Pra me dar meus conhecimentos. Quando eu fiquei bem conhecido eu falei, sabe, o que eu tinha que fazer, né, meu filho? Pra ir roubar eu nunca roubei. Eu via os ladrão falava: “vamos, velho, dar um giro ali?” “Aonde meu filho?” “Vamos roubar” “Roubar? Você tá é louco rapaz! Eu nunca roubei na minha vida. Eu prefiro morrer de fome!” Eu prefiro morrer de fome. Eu nunca roubei nem como nada roubado. Se eles me dão uma coisa roubada eu não quero. Não como nada roubado. E nem roubo de ninguém, tá louco! Aí eu comecei a falar, eu vou na feira. Então eu via aquelas pessoas pedindo: “eu vou pedir também”. Mas eu pedia tão sem graça, não tinha jeito de pedir. Chegava assim: “senhor, dá uma esmola pra mim?”. Não sabia pedir, agradecer. Não sabia pedir dinheiro, pedia na banca, na feira. Chegava pegava aquelas bananinhas. Bananinha, não, pegava era penca de banana. Não era bananinha, não. Pegava uma penca de banana e falava. “Toma, véio”. Pegava uma bacia de laranja, eu só to enchendo o saco. Quando eu enchia o saco de laranja, banana, aí eu corria pra de verdura. Arrumava verdura, tudo quanto era batatinha, era chuchu, era couve, era alface, era coentro verde. Fazia dois sacos de verdura. Quando eu chegava nas bancas de carne, frango, peixe. Ixê, pegava duas bacias de peixe jogava dentro do saco. Não era sacola, não, tava com saco, aquele saco de linhagem. Eu dobrava ele, eles iam enchendo e eu ia folgando. Eu enchia dois sacos só de legume. Enchia um saco só de frango, peixe, tudo misturado. Botava no carrinho de mão. Pagava uma pessoa pra trazer pra mim. Ganhava aqueles trocadinhos também, às vezes eu ganhava cinco mil réis, dava dois mil réis, um mil réis pro cara vim da feira trazer na minha casa. Carrinho de mão, sabe? Chegava dividia aquilo tudo com aqueles vizinhos, porque desperdiçava, né? Desperdiçava tudo, eu dava para os vizinhos. Minha família não era tão grande ainda. Bom, e levei nessa vida e fiquei nessa. Aí eu fiquei águia. Você sabe que eu fiquei águia? Fiquei sendo chefe dos esmolé. Bom, mas sempre eu sendo o chefe do esmolé, mas gostava de andar limpo. Eu não gostei, nunca gostava de ser aquele esmolé porco, gostava de andar limpinho, e nunca pegava nada do chão, só queria da banca. Se não me desse da banca, do chão também eu não pegava. E então, até nisso hoje eu tô conseguindo. Mas eu não nasci nisso. Pra mim até hoje mesmo, eu manquei de ir em feira, ganhar ___ bem. Aí então eu andava na feira, mas pouco. E essa sinhazinha, essa loura mesmo, me apanhou na feira. Quando ela foi atrás de mim ela me achou na feira.   

 

P/2 – Por que as pessoas dão para o senhor? O senhor tem uma maneira especial de pedir?

 

R – Ah, eu tenho, eu tenho. E mais disso, o meu conhecimento. Conhecimento é tão grande que eu chego nas bancas não precisa nem eu pedir. Chego na banca ele já vai pegando e botando no saco. Não peço mais, não falo nada. É só eu encostar na banca ______. É só ir encostando ele vai pegando e jogando. Bom, caso de conhecimento. Agora, quando eu saio pra Santo Amaro, na fila eu falo: “sinhozinho, sinhozinha, tem um trocadinho para o vovô? Cento e vinte anos, sinhozinho. Sinhô e sinhá, é 120 anos! Eu sou preto véio”. Aí nego vai jogando os trocadinhos na minha mão. Eu defendia bem. As vezes eu defendia meus setenta, oitenta, até cem reis por dia. Mas depois que passou a televisão, jornal, rádio, aí psisisis, me mixou. Foi, meu filho, me cortou muito. As vezes que eu vou pedir na rua, lá em Santo Amaro. “Ô, que é isso? Você tá pra dar esmolas, você ganha bem”. “Eu não ganho nada, meu senhor”. É por isso que eu falo com vocês, eu não quero isso mais. Então, eu quero cumprir com o meu sonho. Eu ainda sou forte, tô velho. O senhor vê lá, ainda tem neto dentro de casa. Eu quero criar meus netinhos na Bahia, acabar de criar eles. Acabar meu resto de vida lá sossegado, na minha roça, pra criar meus netinhos lá, plantar meu pezinho de feijão, meu milho, minhas batatinhas, minhas caninhas pra eu ter ali. Tirar minha garapa no engenhozinho, beber meu caldo de cana, criar minhas galinhas, meus porquinhos. É isso que eu quero. Quero morrer descansado, lá no meu cantinho na roça. É meu sonho da minha velhice. É o que eu peço a Deus, primeiramente Deus e todos vosmecês, cooperar comigo nessa parte. E vou botar a carta na porta da esperança, e eu vou ganhar! Com a fé em Deus, vou ganhar! Já achei até o terreno, já sei quanto custa. Me dá o terrenozinho pra eu fazer minha chácara, da por dez mil reais. É isso, realzinho. Ó, se tiver boa vontade com o povo, dez homens dá pra me dar esse terreno. Dá ou não dá? O que é mil cruzeiros? Dez mil, mil reais pra uma pessoa. Dez só dá pra me dar esse terreno. Dá ou não dá? Se tiver boa vontade… Porque eu vou por na porta da esperança, eu vou, e vou ganhar com fé em Deus. E se eu esperar Deus? Quero morrer sossegadinho, lá em minha rocinha, minha chácara. Quando eu tiver lá deitado na minha rede, eu vou falar: “isso é ajuda dos filhos de Deus em São Paulo, porque aqui tem muita gente boa. Como tem! Tanto tem de gente boa, como também tem de coração mau. É verdade ou não é? Tanto tem de gente boa. Porque isso aqui é um beco sem saída, é uma aldeia que chama todo mundo pra dentro. Vem bons e maus. Aqui tanto tem de bom, como de ruim. Aqui em São Paulo. É um beco sem saída. E a pessoa que chega em São Paulo que bebe a água daqui é difícil ele acostumar na terra dele. Se ele não tiver bom senso, o que ele ganhar aqui, chega lá, se não segurar mesmo, com a fé em Deus, ele volta pra aqui. Porque os que bebem água do rio Tietê ___. E quem toma, quem bebe água dessa represa, parece que fica mais viciado. Porque é água de esgoto. Tudo quanto é perfume de banho, tá tudo na água da represa. Esses aí tão amarrado, não sai mais, são os pobres. Porque os ricos só bebem água do Tietê, é da cidade. E nós desse boqueirão daqui, interior brabo, da rua que eu moro, só bebe água da represa. Essas águas que nós bebemos é da represa lá. Você não sabe, não? É da represa, como é que chama?

 

P/1 – Guarapiranga?

 

R – Guarapiranga. A água é de represa.

 

P/1 – Eu queria agradecer o senhor por ter estado aqui com a gente, contando da sua infância, do seu passado. Foi muito importante pra gente.  

 

R – Bom, mas se tiver mais alguma coisa pra querer. Bem, ainda tô pra responder alguma coisa e tem muito papo pra falar ainda. Mas deixa pra outro dia. E se eu não falei nada que prestasse também, vosmecês vão me desculpar, porque nós tamos proseando. Pra mim eu tô aqui batendo papo com vocês. To muito satisfeito, muito, eu agradeço de estar com vosmecês. Tão alegre, satisfeito, pra mim parece que eu tô aéreo. Pra mim é uma esperança. Uma alegria tão grande que parece que eu encontrei com Jesus, minha mãe, meu pai, minhas avós, que tão tudo no céu. E Deus que abençoe à todos.

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